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Sejam bem-vindos. Esta semana recebemos um viajante que está quase a atingir a bonita marca dos 100 países visitados. Faltam-lhe três e não lhe têm faltado pernas para viajar. Para além das viagens mais convencionais, o nosso viajante gosta de dar ao pedal Caminhos de Santiago, as margens do Danúbio, os países bálticos, o Vietname, a Coreia do Sul e tantas outras viagens. Rui Piçarra, bem-vindo às "Conversas do Fim do Mundo".

Obrigado, João. É uma gosto estar aqui nesta cadeira onde já passaram tantos viajantes.

É verdade, já passaram aqui algumas centenas. É incrível. Viajar faz parte do código genético dos portugueses, não faz?

É, pelo menos há mais de 500 anos que andamos nos mares a descobrir novas terras e por terra também. Portanto, de alguma forma, isso deve estar aqui no nosso código genético.

É verdade, muito bem. Tu há três anos, o que eu acho fantástico, só tinhas visitado 50 países. Já vais nos 97. O que é que aconteceu, homem? A pandemia bateu-te forte e pensaste: "Tenho que ir descobrir o mundo". Foi mais ou menos?

Foi mais ou menos por aí, mais ou menos no Covid. De facto, eu nem sequer contava países, não era assim uma coisa tão focada. E durante a pandemia aconteceu também outro acontecimento que foram os podcasts. Descobri o que é que são podcasts e comecei a ouvir podcasts. Descobri que havia um podcast de viagens. Ouvi, entre outros, este também, e comecei a ouvir histórias de viajantes portugueses que falavam de um grupo que existiam e de grupos de viajantes que faziam estas viagens sistemáticas e contavam países. Um deles o MTP, Most Travel People. Portanto, foste empurrado para viajar com mais intensidade pela partilha que os viajantes portugueses iam fazendo em grupos, WhatsApp, em podcast, etc.

Sim, e perceber que eu não tinha a ideia de ir a todos os países, mas de repente descobri um livro da Lonely Planet, que é o "The World", que tem os highlights, as melhores coisas de cada país. De repente descobri que países como o Afeganistão, o Iraque, a Burkina Faso, cada um deles tem uma coisa única e espetacular. Se calhar é capaz de ser giro tentar ir aos países todos do mundo. Muito bem, então vamos falar já desses três que mencionaste. Coisas únicas que tenhas visto no Afeganistão. Eu pessoalmente tenho uma grande curiosidade com este país, não por nenhum motivo particular, é apenas e só porque é um país quase sombra no nosso mundo, sobre o qual se sabe muito pouco, mas sobre o qual também se constroem muitos estereótipos. Eu já ouvi o pior e o melhor do Afeganistão, uma coisa e o seu contrário. Explica-me lá tu, Rui, que já lá foste. Quando é que lá foste?

Fui há dois anos. Estive lá com o Custódio Isso, outro grande viajante.

Já passou por aqui.

Já passou por aqui. E o Afeganistão, de facto, pode ter as duas coisas. Eu saí de lá e provavelmente, não de certeza, não fiquei a conhecer o Afeganistão.

Isso é uma empreitada para muitos anos, porque aquilo é um país, para já geograficamente é difícil, não é? Tem muitos vales profundos.

A geografia foi uma das coisas que me ficou do Afeganistão. É brutal. Para quem gosta de montanhas, de paisagens, que é o meu caso, é fabuloso. No fundo, aquilo é o início dos Himalaias. Aquilo é fabuloso. Aquelas montanhas são lindíssimas.

É aquela fase de transição entre o deserto do Medio Oriente e os Himalaias gelados.

Gelados, estar numa planície e ver picos gelados. Para quem gosta de viajar de bicicleta, é um paraíso. Aquilo é de facto maravilhoso. Depois tem as pessoas, que como há muito poucos turistas, a reação das pessoas é fabulosa, são super curiosas, super recepcionistas. É muito fácil fazer fotografias. As pessoas são muito bonitas, ao contrário do estereótipo que existe, elas têm olhos verdes, olhos azuis, loiros. Aquilo é uma mistura linda de pessoas.

Eles foram contaminados, entre aspas, por genes de impérios que passaram por ali durante séculos.

E por essa característica das montanhas dá para perceber porque é que tantas potências mundiais tiveram dificuldades em combater, porque de facto são desfiladeiros para conseguir chegar a Cabul, são desfiladeiros terríveis.

Aquilo é um cemitério de impérios, não é?

É. Uma história que aconteceu lá foi: apanhei um pequeno susto, estavam uns dias maravilhosos, foi no final da primavera, estavam dias de sol maravilhosos e de repente, num desses desfiladeiros à saída de Cabul, começa a chover, de repente os vales ficam inundados e vales são mesmo vales com escarpas de quase 1000 metros de altura. Aquilo é mesmo assustador. E de repente fica tudo inundado com muita água, os carros à boa maneira do Medio Oriente, que dão caos à condução, fica tudo entupido. Eu: "Ai, queres dizer que eu vou aparecer amanhã no 'Telejornal'." Mas no meio daquele caos todo, eles lá se conseguem organizar e tudo flui. Que é basicamente isso, que é sempre os estereótipos que existem e que vemos televisão e recordo sempre uma imagem em Marraquexe, quando foi recentemente o tremor de terra. De repente, há a praça de Jemaa el-Fna, que é uma praça gigante, com o dobro ou o triplo do tamanho do nosso Terreiro do Paço, para ter um ponto de comparação. Há uma casa naquele largo todo que tem uma racha do tremor de terra e há uma fotografia que é todos os mídia estão apontados para aquela rachinha e ninguém está a ver a praça.

Estão a olhar para a árvore e não estão a ver a floresta.

Estes países também entendem isso, sofrem desta má informação. Obviamente que temos problemas, tem problemas, é difícil.

Tu estiveste lá na era já pós saída dos Estados Unidos.

Sim.

Ou seja, na segunda vida do Talibã.

Segunda vida do Talibã. E falei, foi interessante.

Foi perigoso? Sentiste perigo?

Não senti perigo.

Saber que te cruzas na rua com fanáticos armadosQue é no fundo o que eles são, vamos ser honestos.

Sim, mas é interessante perceber, que é uma coisa que eu tento também colocar-me nos sapatos dos outros, tentar perceber a perspectiva deles. E conhecemos lá no meio do campo um talibã com ar pensativo. Começámos a interagir, nós estávamos com um guia que nos traduzia, que facilitava a comunicação. E de repente ele pergunta-nos, do nada: "Qual é que é a tua melhor imagem que tu tens da infância?" Para mim, a diretamente.

Ele para ti.

Ele para mim, sim, a perguntar. E eu: "Epá, sei lá, não me lembro de nada assim de extraordinário".

Sim, mas pensavas em coisas positivas, não é?

Sim, coisas positivas.

Meses lados numa gelataria, coisas desse gênero.

Sim.

Ok. E ele?

E a resposta dele foi: "Não, para mim foi aos cinco anos, eu fui oferecer pão aos talibãs que estavam a proteger a minha aldeia".

Eí, caramba!

O talibã para ele é quem lhe salvou, ou seja, impedimento todas as questões políticas que existem. Na perspectiva dele, ele tem outra visão, ele tem outra camada e não conhece, não tem acesso ao resto da informação.

São níveis de violência que nós não estamos habituados. E que moldam os adultos de hoje.

E que faz-nos pensar e relativizar. Nós estamos muito habituados a ver o mundo com as nossas lentes e é muito bom ver o mundo com as lentes das outras pessoas e tentar perceber.

Muito bem. Quanto tempo estiveste no Afeganistão?

Foi uma semana e qualquer coisa. Foi uma curtinha.

Cabul, foste a Kandahar, não?

Cabul, Kandahar, não. Kandahar, não.

É no sul.

É no sul, sim. Mas demos uma volta que é fabuloso.

Que é fabuloso. É um país geograficamente abençoado, não é?

Sim.

Depois todo o resto, olha.

Está em construção.

É isso, há que manter a esperança. Também estiveste no Iraque, não é? Dizias há pouco.

O Iraque também está em construção, também é um país que tem a-

Tem mais passado do que futuro. Infelizmente. Tem futuro?

Tem futuro. Acho que tem, eu sou positivo, portanto acredito que há sempre. E os ditadores, as ditaduras vão passar, o país é maior do que isso.

Do que as circunstâncias do dia.

Pode demorar 20, 30, 40 ou 50 anos, mas as coisas vão mudar. Os homens vão ser, portanto, há sempre esperança. No Iraque, o mais perigoso, se calhar, novamente, é o trânsito. É normalíssimo andar na autoestrada, ninguém liga.

Eu não diria isso.

O que eu senti mais perigo foi, é normalíssimo carros na autoestrada em sentido contrário.

Uís!

E tudo tranquilo. Portanto, em Mossul, aquela cidade que foi dizimada pelo ISIS, os edifícios estão baleados, tudo destruído. Novamente, é pesado, é tenso, mas está em reconstrução, em total reconstrução. Mas a recordação que eu me lembro é ir na estrada e os carros a virem em contramão, é muito mais perigoso do que as bombas. Agora, as pessoas lá, recordo-me de falar com alguns miúdos que viveram a infância toda com os ataques e com as bombas, eu perguntava: "Como é que tu consegues sobreviver a uma coisa dessas?" E contava-me lá um exemplo, que estava em casa, estava do lado da sala de jantar, de repente vem um ataque, uma bomba e destrói-lhe a cozinha, fica com meia casa em safos e ficou do lado certo da casa. E eu: "Como é que se consegue sobreviver a isso?" E ele: "Sobrevive-se. Estou mal, tive um psicólogo, mas a vida não para, a vida continua. Agora tenho um negócio daquelas casas de jogos online, de máquinas de jogar".

Um salão de jogos.

Um salão de jogos. "Agora vou ser o maior salão de jogos". Mas é esta reconstrução permanente e a resiliência que faz parte da sociedade e do mundo.

Da sociedade e do mundo, exatamente. Aliás, até porque o mundo, e eu estou quase sempre a dizer isso aqui, não é aquilo que nós vivemos aqui na Europa.

Não.

Antes pelo contrário, nós vivemos na melhor parte.

Nós somos uma exceçãozinha. Nós somos a exceção.

Exatamente, nós é que somos a exceção. Olha, e já que falaste do Burkina Faso, o que é que há para ver no Burkina?

Não, Burkina Faso, dava de exemplo só para isso. Ainda não fui ao Burkina Faso.

Ah, ainda não foste?

Não.

Está nos planos?

Está nos planos, tenho mais 90 e tal para ir.

É verdade. Estás a meio, mas estás bem lançado.

Exato, estou a meio caminho.

Aos 50, já ter 97. Ai, desculpa, confessei a tua idade.

A minha idade, praticamente. Meio século.

És um novo, és um jovem.

Um novo jovem.

Muito bem, Rui. Por que viajar?

Porque para já é muito divertido. Todo o processo de pensar, de andar, para quem gosta destas, planear.

O que te fascina mais? É o pensar na viagem, é o ato de viajar, o processo? O que é que gostas mais?

Gosto de todas as fases da viagem. O processo é giro, de procurar, de investigar, embora eu tento cada vez menos tentar saber o mínimo possível, porque hoje é tão fácil de repente já saber tudo e já ir com preconceitos. Tento saber o mínimo possível.

Por quê? Porque não queres perder aquela sensação de descoberta quando chegas aos locais. Hoje em dia perdeu-se isso muito. Uma pessoa procura um sítio. É isso.

O Instagram estragou um bocadinho, sim.

O Instagram, o Google Maps, o Street View. Tira-nos o impacto de ver a coisa pela primeira vez.

Eu às vezes já fui a sítios, não fui aos highlights, não fui ver alguns UNESCO, alguns monumentos, alguns lugares, porque eu gosto muito do conceito do vagabundear. O meu modelo perfeito de viagem seria ir com tempo para vagabundear, para tentar fazer como nalgumas viagens que eu comecei há 30 anos, onde ainda não havia esse grau de informação e onde se perguntava à pessoa do lado onde é que devo ir. Porque hoje em dia até uma dica do restaurante, pode dizer que é o restaurante do senhor não sei quê, Mohamed, que fica ali no canto. Hoje em dia tem isso, vais ao TripAdvisor e está lá tudo. É muito difícil descobrir.

Desculpa ter interrompido. Viajar tornou-se uma coisa quase impessoal.Antigamente, parece um velho a falar. Antigamente.

Ninguém diz hoje.

Não, mas na era pré-internet, havia aquele velho ditado: "Quem tem boca vai a Roma". Perguntava-se às pessoas, gastava-se tempo a dedicar ao outro. "Olhe, onde é que eu posso comer? O que é que há para ver?" Ou "por que isto acontece desta maneira?" Hoje em dia, o reflexo básico é ir ao bolso das calças, tirar o telemóvel e procurar um sítio para almoçar, para dormir, para ver. E se aquilo estruturar tudo bem estruturadinho, nós agradecemos e cumprimos as ordens do telemóvel, que é uma coisa estranhíssima. Quer dizer, não é estranho, é o quê? Mas é impessoal.

Eu estive agora no Vietname, fiz uma pequena viagem de bicicleta.

Quão pequena?

Foi uns 400 quilómetros, uma semaninha. Quando eu me comparo com outros grandes viajantes.

Para o Lance Armstrong isso é um pequeno almoço.

Isso é um pequeno-almoço.

Agora já não, aquilo já lá vai tempo.

Não, isso deu para uma semana. E tentei forçosamente nem usar o telemóvel com o Google Translate para tentar gestos. E há coisas giríssimas, que nos primeiros dias era difícil perceber. No interior, isso foi no delta do Mekong, que é o sul do Vietname, eles não falam inglês quando se vai para as aldeias mais pequenas. Então para comer tinha que ser à maneira antiga, entre aspas, que era por gestos. E o gesto de comer, e agora como estamos na rádio, não dá para ver.

Como é que tu fizeste?

Ou seja, eu fazia à portuguesa.

Como se estivesse a segurar um garfo na boca.

O garfo na boca e faço os gestos. E a senhora olhava para mim várias vezes, não percebia. E eu não percebia por que ela não percebia. Até que ao fim de um tempo, ela faz um gesto, nem é pauzinhos, é quase a comer com uma mão, uma forma muito primitiva, entre aspas, de comer.

Como se estivesse a fazer uma colher com a mão.

Uma colher com a mão.

Pois, na Ásia não há garfo. Quer dizer, há garfos, mas não faz parte do código gestual deles.

Sim, é esse tipo de nuancezinhas que adoro e que estou à procura. E se eu não me expor e tentar largar o telemóvel e tentar ser o mais analógico possível, não vou descobrir e vai ser uma viagem quase como estar a ver um filme no YouTube.

E muitas vezes é dessa incomunicabilidade que nascem coisas divertidas e encontros.

Histórias para contar.

Não é?

Sim. E sobretudo os países. Eu gosto de viajar para sul, eu prefiro sempre muito mais o sul. Ou seja, vou sempre à procura dos países mais quentes e também mais exóticos, entre aspas, porque acho que sempre isto daqui para norte é muito parecido, a Europa toda. A cultura é a mesma matriz. Embora eu goste muito, eu viajo e cada vez gosto mais de Portugal, gosto muito de Portugal mesmo, e viajo muito por Portugal.

Mas a Europa também consegue ser diversa. Nós é que já não temos muita paciência.

Talvez.

Não sei, vou dizer um grande disparate, espero que os ouvintes não me levem a mal, mas acho que vais perceber o que eu vou dizer e os ouvintes também. O Império Bizantino ou o Império Austro-Húngaro não tem nada a ver com o Império Romano. Nós é que se calhar já não temos paciência para encontrar as diferenças uns e de outros.

Estarem em África é muito mais forte do que-

O contraste.

O contraste.

Sim.

E mesmo culturalmente, estas diferenças culturais é muito mais forte em África ou na Ásia do que na Europa.

Muito bem. Rui, estamos a chegar ao final da primeira parte. Vamos abrir o álbum de viagem. Então, guardas contigo algum objeto que tenhas trazido das tuas viagens, Rui Pessanha?

Eu sou um minimalista, como muitos viajantes. Viajo com muito pouca coisa, mas há uma coleção que eu faço, que comecei a fazer em São Tomé, que são cocos.

Cocos? Não é para fazer como aquele cavaleiro dos Monty Python. Eu não me lembro do nome do filme, mas ele fazia o galpar dos cavalos com cocos.

São cocos reais que eu apanho sempre que vou para lá.

Por que cocos?

Porque não?

Ok.

Pronto.

Junto pedras ou fresquinhos de areia.

Eu escolhi cocos, porque cocos, novamente, porque é mais exótico. É mais difícil de arranjar cocos aqui. Eu trago cocos, já semi, já tenho vindo a afinar a qualidade dos cocos, tenho vindo com umas certas características. Eu faço viagens, faço vários países, estou limitado à quantidade, mas vou trazendo e depois o meu pai tem ali o cuidado, prepara os cocos para aguentar o nosso clima, com uns tratamentos, depois tem lá o nome. Tenho uma coleção.

De quantos cocos?

20 e tal cocos. Não trago cocos de todo lado pela limitação de espaço, não consigo trazer.

E também não há cocos em todo lado. Quando houver coco, trazes um coco.

Sempre que eu consigo arranjar, trago um cocozinho.

Na bagagem.

Eu trago sempre bagagem de mão. Já tive que despachar por causa de um coco, de vez em quando há uma copinha que não deixa passar aquilo, pensa que é uma arma de arremesso. Já tive que despachar uma mala por causa do coco.

Por causa de um coco?

Por causa de um coco. "Não, não, então não quer? Ok, mete lá na-- eu pago para levar o coco."

Muito bem. Vou fazer uma piada, eles já vêm pensar: "Este tipo não bate bem do coco". Desculpa a alvença. Vamos fazer aqui uma curta pausa no episódio desta semana das Conversas do Fim do Mundo. Regressamos já a seguir. Até já. Estamos de regresso para a conversa com o viajante Rui Piçarra, que nos últimos anos se fartou de dar ao pé e fez 47 países. Rui, já foste a 97 países. Falaste-nos um bocadinho das razões que te levaram a acelerar no mundo das viagens nos últimos três anos. Muitas dessas viagens também foram feitas de bicicleta. Tu também gostas de pedalar, certo?

É verdade.

É a paixão pela bicicleta, pela viagem de bicicleta? O que te atrai neste registo de viagem que já te levou a fazer os caminhos de Santiago, as margens do Danúbio, os Bálticos, o Vietname, a Coreia do Sul. O Vietname, que falaste na primeira parte, e também África. É o quê?

Acho que andar de bicicleta faz-nos sentir voltar a ser crianças. Eu sinto que assim que começo a pedalar, o vento no cabelo faz-nos regressar à infância. Tal como viajar, uma coisa que há pouco dizia, viajar também tem esse gozo que é meter um adulto de 50 anos, parece uma criança com a quantidade de espanto e de estímulos novos que não existem normalmente no dia normal de uma pessoa. E viajar é isso, e a bicicleta alia essas duas coisas num ambiente diferente, mais ou menos inóspito, de repente todos os sentidos estão. E isso acontece na viagem de bicicleta.

Tudo é novo.

Os nossos sentidos estão muito mais abertos de bicicleta, estamos sempre com o radar ligado. E depois, viajar de bicicleta humaniza-nos.

Como assim?

Porque nos torna mais palpáveis aos outros. Não somos nós que passamos pelos outros, são os outros que vêm ter até nós. O ritmo é tão baixo que as pessoas naturalmente vêm ter contigo. Tu não tens que fazer o esforço, não estás também protegido pela proteção do carro, nem uma mota, e não há em toda a literatura, em toda a cinematografia, nem na literatura, nenhum bandido que seja ciclista.

Pois é.

O tipo da bicicleta é sempre um bom tipo. Enquanto a pessoa a pé, pode haver ali um mendigo, haver ali um pedinte, o ciclista é sempre-- e tenho "n" experiências. Falámos há pouco de África. Eu fui de Dakar até Bissau com um amigo.

E são quantos quilómetros?

600, 700. Coisinha carina.

Carina, mas que em África se torna grande.

Sim, o calor, isso tudo.

Tudo é grande lá.

Tudo é grande. Mas é fabuloso ver, e aconteceram episódios de chegarmos a sítios, em aldeias muito pequenas, no Senegal, não há hotéis, não há nada. Aí sabíamos, porque alguns viajantes tinham passado por aqui, que é possível. No fundo, íamos falar com o chefe da aldeia, e as pessoas davam-nos estadia. Imagina eu, que a minha casa aparecem dois tipos completamente suados e sujos. "Dás-me lugar?" E as pessoas, casas super humildes, que nos abrem as portas e dão o seu próprio quarto. A filha vai limpar o chão para nós nos deitarmos lá na cama deles. Dão-nos cabra para comer um estufado de cabra e eles a comerem vegetais. É uma generosidade enorme.

É uma honra para eles receber.

É uma honra para eles receber as pessoas. E é uma experiência única. Eu lembro-me que num sítio caiu-me um pão dos alforjes, aquelas malinhas que levo atrás da bicicleta, e sem me apercebi. De repente há um rapaz que vinha de mota, vê aquele pão e faz o percurso para trás para nos trazer o pão na mão, para nos dar o pão.

Para devolver.

Para devolver, que caiu e veio aqui dar. Ele que era professor, que não recebia há dois anos. Os professores não recebem, aparentemente, isto já era em Bissau. E foi nos dar o pão que tinha caído. Eu que estava com fome, fazia-me mais falta do que a gente lhe deu. Essas lições de humildade faz-nos pensar.

Faz-nos pensar. Já estiveste em tantos sítios de bicicleta, qual foi a viagem que podes considerar a mais memorável de bicicleta ou sem ser de bicicleta, Rui?

É sempre difícil abrir os rankings e qual é que foi a mais espetacular. Para mim é sempre a próxima, se calhar porque está mais quente. Esta do Vietname gostei muito, mas África foi sem dúvida muito forte. Gostei muito mesmo da experiência de ir de Dakar até Bissau, pelas pessoas, pela viagem, foi fortíssimo. O Vietname foi giro. Enquanto em África, eu gosto muito de África e se calhar se tivesse que dizer um continente, continuo consigo dizer, é o mais desafiante viajar é em África, quer seja de bicicleta, quer seja de carro. Fizemos agora recentemente um rally desde Lisboa até à Serra Leoa. Que fomos com uma carrinha, por isso é um rally, é o Budapeste-Bamako. O objetivo era levar um carro velho. Levamos uma carrinha com 20 e tal anos, com meio milhão de quilómetros.

Ui!

E chegou inteirinha.

Foi?

A única coisa que-

Conserve esse veículo.

Nós já o vendemos lá.

A vender?

Quando chegamos ao destino, vendemos. Mas África é o continente aventura e tem a vantagem da língua, ou seja, entre o inglês e o francêsE o português. Consegue-se falar e isso permite chegar a pessoas que não consegues. Na Ásia, há essa dificuldade de não conseguir falar. O Vietname foi muito bonito também, muito intenso. Consegues sentir tudo o que está a acontecer, mas a dificuldade da comunicação, os gestos facilitam para comer, mas não dá para grandes-

Há ali uma barreira.

Há uma barreira que é difícil de passar e em parte de África consegue-se essa vantagem.

Apesar de todas as dificuldades que são inerentes ao continente africano.

Quando estás lá, vês na Etiópia as mulheres que passam horas e horas, que são milhares de mulheres, ou milhões de mulheres, que o dia delas é fazer quilómetros com um jerrican de 20 litros de água às costas e é o dia a dia daquelas pessoas espalhado pelo continente todo.

É incrível. Uma coisa tão básica.

Quando tu chegas e vês isso, são imagens fortes.

Nunca tiveste sentimento de culpa?

Tenho, quando chego a casa.

Caramba, eu estou aqui, sou um privilegiado, e estas pessoas aqui ao meu lado. Eu a suar e esta pessoa-

Eu a brincar. Eu estou só para brincar

...a fazer quilómetros para ir buscar água.

Quando chego a casa, abro a torneira do duche e penso: "Uau, lá isto não existe". Nas primeiras dias dás valor, mas de repente, ao quarto, ao quinto dia, eu estou a olhar para a torneira do duche e a pensar: "Isto está cheio de calcário". Nós somos um animal de hábitos.

E com uma grande tendência para esquecer tudo.

Sim. No fundo, o homem é as suas circunstâncias, portanto, estes são os nossos dramas do quotidiano.

Por falar em esquecimento, qual é o lugar, dos países todos onde já estiveste, dos 97, que nunca esquecerás na tua vida, Rui?

Eu digo sempre Machu Picchu.

É?

Machu Picchu foi dos sítios mais míticos, pode ser um sítio mais mítico que eu tive. Foi depois daquela caminhada inca, durante três ou quatro dias a caminhar.

Inca Trail.

Inca Trail. Quando se chega e vê-se aquela paisagem, as montanhas, mais a estrutura, é um "uau"!

É espetacular. Só de imaginar que houve ali uma cidade a funcionar. Aquilo, agora não sei de cor, mas está a uma grande altitude.

Sim, é alto. As montanhas à volta são muito altas, tu vês montes de 4000, 5000 e por trás, contrafortes mais altos. O entorno é brutal.

É brutal. Não sei se te acontece isso, mas olhas para os sítios e começas a imaginar quantas pessoas, quantos animais, porque não havia máquinas, esta gente empregou para fazer isto.

Sim.

E nós muitas vezes andamos aqui a queixar-nos das coisas nossas.

"Um buraco no meu jardim". Quem tem jardim, quem não tem jardim. Daí eu relativizar que é esta tolerância, que é a palavra também da viagem. A tolerância é importante.

Muito bem. As viagens eram uma coisa que te inspirava já desde muito novo, ou não, Rui?

Sim, não venho de família, mas fazíamos as viagens, recordo-me de ir com os meus pais, de Cascais até Lamega, até lá uma terriola que a senhora daí ia, que as viagens que atualmente são menos de 400 km, eram viagens que demoravam 10 horas, 12 horas, com avarias de carros, com mortes. Aquilo era uma tragédia, acidentes. Era o Portugal dos anos 80. Aquilo era uma aventura, sair, atravessar o país.

Chegar vivo.

Chegar vivo. Havia acidentes, mortes, quantidade de tragédias. Para o Algarve, até Aljezur, que eu ia, era uma aventura. E depois mais tarde, havia uma instituição que era os Circuleitores, que era um senhor que ia à casa, basicamente era um vendedor, que ia uma vez por mês com uma listagem, escolhia-se um livro, que chegava no próximo mês. E houve um livro que os meus pais compraram, que era a Enciclopédia Geográfica, que tinha uma quantidade de entradas. Então como eu lia, adorava aquilo, via os mapas, inspirava-me a ver. Mais tarde é a literatura, é o Chatwin, é o Terror. Depois os portugueses, mais tarde, o Cadilhe, o Felipe Murat Gomes, e mais uma quantidade de viajantes que fui vendo e depois fui conhecendo, tal como nas viagens de bicicleta também, fui conhecendo uma série de viajantes.

Foram-se te inspirando.

Que nos inspiram, porque nós andamos sempre em cima dos ombros dos gigantes que nos antecederam. E partilho e confirmo perfeitamente isso, que é verdade.

Que é verdade. Muito bem. Já tens uma viagem planeada? Quando é que é?

Quando sou desta doença, tenho que ter sempre várias.

Várias? Caramba.

Estou sempre à frente.

Para ti é mesmo já assumido que é uma doença.

É uma doença. Acho que agora posso dizer tudo. Esta vamos até à Toscânia, que é um encontro de viajantes para fazer uma viagem, que é o Tuscany Trail, que é uma volta. Eu geralmente não faço viagens organizadas, mas este é o maior evento de bike packing, que é uma viagem de bicicleta em autonomia. São 6000 participantes que vão fazer um percurso de 500 km, cada qual ao seu ritmo. E estou curioso para ver como é que 6000 pessoas em autonomia é possível organizar uma coisa dessas e como é a dinâmica.

Pois, vais apanhar aqueles maluquinhos que vão querer fazer tudo num dia.

Eles vão demorar uma semana a fazer, eu acho que eles fazem em dois dias, provavelmente. São 500? Sim, um dia e meio.

Tuscany Trail, muito bem. Vais fazer em que altura do ano?

É agora daqui a uma semana.

Ok, boa. Vais apanhar os campos da Toscana verdejantes, com as vinhas todas ali.

Deve ser, sim.

Luxuriante, espetacular. Rui, haveria muito mais para falar sobre as tuas muitas viagens e muitas histórias, mas ficou aqui uma ideia do que têm sido os teus últimos 50 anos, sobretudo os últimos três, a dar forte nas viagens. Vamos fazer check-out?

Ok.

Vamos embora. Vou pedir-te para completares as habituais frases: na minha mala vai sempre...? O que não falha, Rui?

Vai sempre um fato de banho e uma touca.

E uma touca?

E uma touca.

Por que uma touca? Para não estragar os teus caracóis, tua permanente? Estou brincando.

Porque muitas vezes, mais na Europa, é preciso touca para ir às piscinas.

Às piscinas. Pois.

Na prática, eu estou sempre a comprar toucas, depois quando eu não levo touca, é preciso comprar.

Ok.

Então levo sempre que meto no meu kit e adoro mergulhar. Em todas as viagens que faço, sempre que vejo um local para tomar banho, onde quer que seja, no Danúbio, no Mekong, é um orgulho para eu dizer: "Estão lá é porque é possível". E adoro mergulhos, portanto o fato de banho vai sempre.

Muito bem. A viagem com mais peripécias que realizei até hoje?

Se calhar foi a primeira viagem que me abriu os horizontes fora da Europa, que foi Marrocos, em 2000. Foi uma viagem organizada com a associação Rotas Jovem, associação juvenil, que promovia estas iniciativas. Isto é ano 2000, internet era muito pouco. Era um grupo, nunca tínhamos ido a Marrocos, era um grupo de 20 jovens. Foram marcações feitas por fax.

Ih, caramba!

Havia um turismo de Marrocos aqui em Lisboa. Fui buscar um mapa e nós fomos de autocarro. À saída de Tânger, tínhamos o mapa. Assim que chegamos cá fora, percebo que as ruas estão escritas em árabe. Portanto, o mapa não me servia para nada, porque eu não sabia qual era o nome das ruas. Aquilo era irmos ficando em pousadas da juventude. À primeira pousada da juventude que chegamos, chegamos de noite, tarde. Tânger é uma cidade muito escura. O recepcionista não sabia de nada. "Temos aqui o fax, onde é que vocês estão?" Eu: "Ah, pas de problème". Foi aí que eu aprendi este conceito, o pas de problème. Na recepção, depois os olhos começaram a se habituar à escuridão, estavam uma espécie de lugares sentados/camas, uma quantidade de marroquinos. Ele mandou levantar todos. As pessoas estavam deitadas a dormir na recepção. Tiraram todos lá e nós deitámos em cima das camas dele. Uns lençóis, uma coisa imunda.

Estilentes.

Merda. E toda a gente da viagem começou assim e foi o resto da viagem toda em peripécias atrás de peripécias.

Muito bem. Quantos dias durou essa viagem?

Foi também uma semana e pouco.

Marrocos no tempo do fax.

No tempo do fax.

Incrível. No tempo do fax é uma coisa assim-

Parece antiquíssimo

E era a preto e branco, os fax eram a preto e branco.

De papel.

Pensar nessa máquina transporta-nos para um mundo que já não existe. O crime do passaporte ou o visto mais difícil de obter, Rui, qual foi?

Talvez o do Afeganistão, que para ter o visto, fui a Madri, à única embaixada que existia na altura do Afeganistão. Sumi, clandestino numa casa no meio de um bairro. Fui lá direto de manhã.

Porque o país não é reconhecido.

Não é reconhecido em lado nenhum, na União Europeia também ninguém reconhece. Portanto, o único sítio que havia na Europa mais perto de Lisboa, fui até lá e depois foi um amigo nosso, espanhol, que trouxe os passaportes de volta, mas foi talvez assim o mais difícil.

De resto, tem sido fácil. A recordação de viagem mais cara?

Costumo dizer, as minhas viagens de recordações mais caras são os tourist traps. São as armadilhas para turistas, que vêm descritas no Lonely Planet, em todos os livros de turistas. E eu, por mais que viaje, de vez em quando aparece uma nova, de vez em quando caio numa dela. Também aprendo. Claro, aprendo, não volto a cair naquela. Mas aparece sempre uma. Lembro-me na República Dominicana, em Boca Chica, lá uma praia, tem uns restaurantes, aqueles restaurantes locais, espetacular, estava com a família. Frango, 3 €. Depois estamos lá, sentamos e então vem lá o frango. "Temos aqui um peixinho acabado de sair, de pescar, maravilhoso". "Ok, então venha lá o peixe". Comemos o peixe acabado de pescar. De repente, a conta em vez de 3 € é 100 € o peixe. "Onde é que isso está escrito?" Ele vai buscar um menu, vira o menu ao contrário. Peixe local que seria, peixe 100 €. Depois seguimos lá, uma discussão enorme. Quando saio, vou olhar para o guia da Lonely Planet, tourist trap typical na praia da Boca Chica. É normal nos restaurantes que viram. Exatamente. Depois dessa aprendi, digo que essas são sempre as mais caras, que é aquelas armadilhas de turistas.

A refeição mais estranha, qual foi, Rui?

Terá sido na Namíbia, há 20 e tal anos, que não sei ainda o que é que foi. Já lá voltei e ninguém consegue descrever, mas aquilo era um caldo, uma sopa com sabor quase a terra. Aquilo era uma coisa muito crua. Muito cru, é provavelmente a melhor definição de dizer. Aquilo era horrível. Era um encontro também entre jovens e os namibianos muito orgulhosos de nos dar e a provar o prato deles, que era uma coisa perfeitamente horrível. Os escaravelhos, essas coisinhas, isso como tudo, é bom, é crocante. Coisas.

Gostava de viajar com?

Tenho, felizmente, o privilégio de poder viajar com muitos e grandes viajantes, e com a minha família também gosto muito de viajar, fica sempre bem. Com quem eu gostaria mais de viajar até é com tempoQue é conseguir viajar mais calmo, com quem quer que seja, mas com mais tempo para ir desfrutando as coisas mais devagar.

Tens sempre o regresso marcado.

Ando sempre acelerado e quero fazer muita coisa, mas tempo é importante.

E se tivesses tempo, Rui, que viagem farias? Imagina que a vida te dá a possibilidade de fazer uma viagem de três meses.

Sempre penso em travessias. Vou sempre pensar numa travessia de um continente, norte a sul, este a oeste, será sempre uma coisa por aí.

De bicicleta, a pé, carro, boleia?

De carro, de barco, travessia. Uma quantidade de ideias de viagens em pipeline.

Muito bem. Então boa sorte e bons planos.

Obrigado.

Rui, chegamos ao fim. Música?

Música. É o "Go Solo", Tom Rosenthal. Esta foi a música que eu conheci através de um viajante, o Ben Page, que fez uma viagem de bicicleta à volta do mundo, que culminou num filme, que é o "Frozen Road", onde ele chegou ao Ártico canadiano, onde ele acaba, depois de uma viagem descomunal, numa casa de banho para se aquecer e onde ele chega à conclusão que as metas sabem muito melhor quando são partilhadas do que quando são feitas a solo. E esta música é sobre isso.

Muito bem, é sobre a tristeza de chegar sozinho.

A tristeza de chegar num sítio e não partilhar. A necessidade que nós temos enquanto humanos de partilhar.

Mais nada, levantar os braços e poder abraçar alguém, não é?

Sim.

É isso. Muito bem. Rui, foi um gosto. Muito obrigado por teres vindo às "Conversas do Fim do Mundo". Tu também tens um podcast, há que dizê-lo.

É verdade. É o "Viagens a Pedal".

"Viagens a Pedal", onde entrevistas também pessoas que viajam de bicicleta. Vão ouvir. Todas as razões são boas para nos inspirarmos e para procurar boas ideias para ir por aí pelo mundo, a receber alegrias e a espalhar também sorrisos, não é?

Sim.

É isso. Tom Rosenthal a fechar a "Conversa do Fim do Mundo" desta semana. Estamos de regresso dentro de oito dias. Já sabem, sejam bons e boas viagens.