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Sejam bem-vindos às "Conversas do Fim do Mundo". O viajante desta semana tinha 25 anos quando largou tudo para iniciar uma volta ao mundo. Foi há 12 anos. Curso de engenharia feito, namorada, mas havia qualquer coisa lá dentro que pulsava. Assim, numa manhã cinzenta de fevereiro, às 7h, com uma mochila de 25 quilos nas costas, bateu à porta de casa. Regressou 19 meses, 25 países e cinco continentes depois e um sem-fim de boleias e noites dormidas em sofás pelo caminho. Chama-se João Lopes Aguiar. Alô, João, Portugal chama. Consegues ouvir-nos?
Alô, Portugal.
Bem-vindo, João, às "Conversas do Fim do Mundo". Onde estás tu?
Agora estou num lugar aqui em Espanha, que fica na comunidade de Múrcia, que é o Mar Menor. E há aqui um pedaço de terra que se chama La Manga, que é exatamente um pedacinho de terra que fica entre o Mar Mediterrâneo e este outro mar, que é o Mar Menor.
Mas não estás em terra.
Neste precisamente, estou num barco. O barco chegou a porto há uma hora. Pode-se dizer que estou aqui meio que em terra, meio que no mar. Mas efetivamente, pelo menos o barco agora está parado, o que já não é nada mau.
É o teu barco, que tu compraste para iniciar uma viagem. Que viagem é essa?
Exatamente. Primeiro que tudo, eu vim comprar o barco. Fui até Barcelona, assim que a fronteira de resto abriu, no passado dia 1 de julho. Quando abriu a fronteira, vim numa caravana com as minhas coisas todas, basicamente, tudo que eu tinha, até aqui Barcelona para comprar este barco e para mudar para o barco. Basicamente, para ser agora uma casa. Agora a ideia é ir descendo um pouco pela costa, para ficar um cadinho mais de calor.
Pela costa europeia ou pela costa africana?
Olha, neste momento eu não consigo prever em absoluto, porque, por exemplo, Marrocos está completamente fechado, até para os marroquinos. Acho que só há poucos dias, ou se calhar há duas semanas, é que começaram a chegar até alguns marroquinos que estavam fora de Marrocos. Os primeiros voos comerciais começaram agora a chegar e tens que ficar num hotel oficial, quer dizer, nem pode ficar em Airbnbs. Por isso, é difícil prever. Claro que há essa vontade.
Mas qual é a tua ideia, João?
O grande propósito desta viagem de barco. Primeiro, eu vejo efetivamente um barco como uma casa. E estamos a falar de um barco simples, não estou a falar de barcos gigantes, super iates. É um barco de cerca de 12 metros, 40 pés. E hoje em dia um barco, se formos a fazer a matemática, esse é o ponto, fica tão ou mais barato do que uma casa, uma renda. Ao fim de algum tempo se amortiza. Isto é um primeiro fator e claro que num barco eu posso viajar e há um sentimento de liberdade adjacente gigante. É uma infinitude de possibilidades completamente, às vezes, eu diria impossibilitadas por outros tipos de transportes. Também há quem viva em caravanas, mas com um barco tu consegues cruzar mares, chegas a outros continentes.
E é isso que queres fazer com o teu-
Claro que existe esse ensejo último agora. Eu também não vim para aqui para isso. Acho que primeiro que tudo é um sítio onde eu quero estar agora, quero viajar assim. E também tenho aqui um propósito adjacente que eu faço questão de, não só para mim, mas para os outros também de passar. Passar a sensação de que efetivamente o veleiro é um meio de transporte super ecológico e é inacreditável, é incrível como é que ele nos pode levar a praticamente todo lado. Claro que temos que seguir os ventos, as correntes e tudo mais. Mas é tudo assim um admirável mundo novo da natureza. Em que a natureza te leva e tu vais como tu queres, ao teu ritmo. Ainda mais agora com as restrições da pandemia ainda vigentes.
Claro.
Fica tudo um bocado mais livre.
Mas tens um objetivo traçado para realizar, para concretizar com este barco?
Não tenho um objetivo fixo. E já agora repescando um bocado, introduzir esta viagem que eu fiz, a anterior, que eu depois descrevi no livro, os meus descobrimentos, "Volta ao Mundo em Couchsurfing", mas um bocado como nessa viagem, eu não levava objetivos assim muito fixos, porque acho que isso também pode ser a morte da viagem. Pelo menos é o meu estilo. Eu prefiro viajar assim. É sempre um bocado ad lib, venha mais ou menos o que vier. Neste caso, literalmente ao sabor do vento. Então existe o conceito do wanderlust, que é um bocado ir viajando assim. Este barco que eu comprei, pus o nome de Winderlust, que é um bocado isso. Ir com o vento sem objetivos fixos.
Muito bem. Vamos recuar a 2008. A vida corria-te aparentemente bem. O que é que havia dentro de ti que te fez sair naquela manhã de fevereiro rumo a uma viagem de 19 meses?
Foi, eu acho que acima de tudo, uma curiosidade por outras culturas, porque felizmente tive essa possibilidade. E depois também ter alguma família lá fora, alguns amigos. Hoje em dia também, acho que toda a gente tem. Temos todos amigos lá fora. Mas tudo isto despoletou uma curiosidade e depois também, obviamente, o facto de eu felizmente ter podido amealhar algum dinheiro enquanto trabalhava como engenheiro eletrotécnico. Estava numa empresa a desenhar microchips e fui podendo amealhar algum dinheiro. E isso permitiu, obviamente, a realização Da viagem. Mas também foi um bocado aperceber-me que não fiz um Erasmus, não fiz um interrail. Estou com 25 anos, ou vou fazer agora, ou posso não fazer mais tarde, porque a vida depois vai-te levando.
Claro.
Então foi também um bocado essa consciência: "Olha, vou agora aproveitar". Acabei por fazer um bocado aquele conceito que existe que é o gap year. Aproveitei um bocado e fiz essa-
Essa pausa
...leave, uma sabbatical leave, como se diz em inglês.
Essa pausa de 19 meses. Achei piada, porque no teu livro, que entretanto editaste, "Os meus Descobrimentos", começas por contar uma história, no momento em que tu contas ao teu chefe que te queres despedir e que queres ir dar uma volta ao mundo, o teu chefe incentiva-te, mas depois ele pede que tu lhe envies um postal de cada país por onde vais passar. Fizeste o que o teu chefe te pediu ou não?
Efetivamente enviei vários postais.
Mas não para o teu chefe.
Não, para o meu chefe.
Mas não para o teu chefe.
Não tinha a morada da casa dele. Então enviava para o escritório dele. Aquilo era um open space, mas aquilo ia-lhe parar lá à mesinha. E houve uma altura em que num dos postais eu disse: "Diz-me qualquer coisa se estás a receber os postais". E os gajos não me disseram nada. Então, não vou estar sempre a enviar postais e não tinha a certeza que aquilo estava a chegar. Então houve uma altura que enviei e-mails a dizer que estava bem e mantendo algum contacto, mas postais pelo menos enviei uns três ou quatro de várias latitudes.
Muito bem. Dezenove meses, um sem fim de países, sempre a dormir em regime couchsurfing. Agora com a distância de quem olha para trás, o que tu aprendeste sobre ti, sozinho pelo mundo?
Primeiro que tudo, acho que é um bocado chegar à conclusão que, se calhar, podia ter chegado antes esta conclusão, mas o meu background era um bocado de engenharia, então estava muito mais preso às, ainda que tivesse desenvolvido vários projetos na área da comunicação, que honestamente é algo que eu gosto muito, mas perceber a geografia, primeiro que tudo, uma pessoa obviamente aprende geografia, desenvolves as tuas línguas, as skills de línguas, vais desenvolver o inglês, como espanhol, francês, até línguas locais. Isso também num segundo plano. Obviamente, também te apercebes que aquilo que nós chegamos ou aquilo que chega até Portugal pela comunicação, hoje em dia pela internet também muito, se calhar na altura não tanto, mas hoje em dia muito. Ou seja, tudo tem um contexto e isso também eu aprendi, sem dúvida. E se calhar, na altura, se eu via uma notícia, por exemplo, da Indonésia ou do Japão, se calhar, na altura ia vê-la de uma forma e eu, se calhar, já consigo contextualizar de outra forma. Isso também noutro plano. E depois também, claro, inegavelmente, uma pessoa quando tem mais tempo para estar com ela, também se conhece melhor, tens mais tempo para refletir e isso sem dúvida que, eu não te posso falar se ia ser assim ou não.
Era por aí que eu queria ir.
Querias ir? Claro. Eu estava aqui a dar uma grande volta. Não, mas sem dúvida que hoje em dia, haver tempo para refletir, para pensar, sem haver aquela coisa de: "Amanhã vou ter que fazer alguma coisa, amanhã vou ter que levar os miúdos, amanhã vou ter que entregar o projeto, amanhã tenho que acabar de ler não sei o quê". Claro que quando a pessoa faz isto, era como se libertasse a tua memória, a tua cache toda, libertas tudo o que tens na cabeça e de repente ficas com mais tempo para pensar. O que tu fizeste até aqui, o que tu queres fazer depois daqui.
Então acabaste essa viagem de volta ao mundo com que certeza? Com a certeza de que ias ser viajante a vida toda ou nem por isso?
Não vejo isso, nada contra com quem quer viajar a vida toda e viaja a vida toda, mas para mim a viagem é um intervalo entre qualquer coisa que eu também não sei e também acho que não é importante que se saiba. Mas as certezas com que eu voltei, para mim, acho que foi principalmente uma noção diferente da raça humana. Eu nunca fui dado a preconceitos, mas acho que depois de uma viagem destas ainda menos. Exatamente porque tu aprendes a contextualizar e no final tu chegas à conclusão, quer dizer, ok, não há assim tantas diferenças na humanidade e isso num primeiro plano é uma certeza. Num outro plano, e se calhar falando quanto a mim, também acho que a certeza de que gosto de me relacionar com pessoas. Acho que isso também é importante, ainda mais pessoas que vêm de backgrounds mais analíticos, mais numéricos.
É engraçado, João, porque no livro "Os meus Descobrimentos", que tu escreveste, dedicas este livro às pessoas que conheceste em viagem. Qual foi a pessoa mais fascinante que conheceste na estrada, pelos 25 países por onde andaste?
Sim. Aquilo era cada viagem, cada pessoa, cada figura, no melhor sentido.
Sim, mas houve pessoas que te marcaram, ou não?
Sim, muitas. E vou te falar duas. Eu utilizava muito o sistema couchsurfing. Houve um alemão, um fulano que andava muito à boleia, que criou um site que é o Hospitality Club, e nesse site estava listada uma família em Marrocos Família Ziani. Estava um dos filhos, que era um dos filhos que estava lá listado, que é o Hassan. Eles receberam de uma forma incrível, João Miguel, eles prepararam tudo, era a comida. Obviamente, eu também cozinhei pra eles comida portuguesa, mas ofereceram-me a roupa marroquina, o djellaba de festa, de cerimônia. Pessoas incríveis. E depois dessa experiência deles, eu em vários lugares onde eu ia e fazia também couchsurfing ou Hostelclub, eu dizia: "Olha, conheci em Marrocos uma família que me recebeu de uma forma que eu nunca tinha visto antes". Eu pelo menos nunca tinha ido a Marrocos, mas se calhar, às vezes, há um bocado aquela ideia: Marrocos é perigoso, vem de lá droga, os árabes. Não sei, percebes? Pode haver um bocado essa ideia. Assim que tu entras lá, tu percebes que não é. Ou pelo menos eu percebi. Mas com esta família foi mesmo uma experiência completamente de hospitalidade, no seu estado mais puro. Por que marcou tanto depois de eu ter voltado a Portugal? Eu mantive o contato com eles e certo dia estava a falar com o irmão mais novo e ele contou-me que o Hassan, o irmão mais velho, que foi o principal anfitrião da casa pra mim, que tinha sido assassinado. Então eu: "Mas como é que isso aconteceu?" "Tu não imaginas, ele tinha o sonho de estudar para a Espanha. Ele queria estudar literatura. Aliás, ele escrevia poemas, adorava escrever, falava várias línguas". Um fulano incrível mesmo, espetacular. E acontece que como ele se relacionava com muitos estrangeiros, ele recebia muita malta do couchsurfing. E houve um radical islâmico que se apercebeu disso em Tânger, ainda por cima num dos miradouros com vista para o Estreito de Gibraltar. Num certo dia, ele estava lá com malta, estrangeiros. Inclusivamente, ele tinha uma namorada também espanhola, não sei se ela estaria com ele nessa altura, acho que sim. Então o fulano foi apunhalado por trás e esvaiu-se em sangue. Quando eu vi isto, fiquei mesmo: "Como é que é possível?" Isto foi notícia, não só em Marrocos, como também em Espanha. E marcou-me imenso, porque justamente aquela pessoa que a mim me marcou mais na sua hospitalidade. Claro que um radical é um radical. Ou seja, é 0,001% neste caso dos marroquinos. Mas não deixa de ser completamente injusto. Isso marcou-me, sem dúvida.
E a outra pessoa foi?
No Brasil, acho que em geral, o povo brasileiro. Não vou dizer uma pessoa ali. Foi em geral o povo brasileiro, achei que tem uma hospitalidade muito grande mesmo. Mas, sem dúvida, acho que há uma energia ali do pessoal e em geral na América Latina.
Esta viagem de volta ao mundo foi feita em regime de couchsurfing, ou seja, a dormir no sofá das pessoas. Como é que surgiu esta ideia? E já agora, sabes em quantos sofás tu dormiste?
Olha, eu costumo receber várias newsletters, ou pelo menos na altura recebia. E não sei se terá sido por aí. Por exemplo, eu lembro que recebi uma newsletter de freegans. Ou seja, é um movimento de basicamente pessoas que reaproveitam o que está no lixo. E eu acredito que foi por aí. Já não me lembro certo, mas eu tenho quase certeza que sim, que eu recebi ou vi relatos de pessoas: "Aqui uma rede, o pessoal recebe outras pessoas em casa". Já agora, da parte da minha família, sei que vários amigos dos meus pais ou um casal amigo, faziam a permuta de casas, ou seja, eles ficavam em casa de outras pessoas, outras pessoas ficavam em casa deles. Na altura existia só através de cartas e livros que tu compravas e vinha uma listagem, mas sem dúvida que eles também me inspiraram para isto. E depois também, obviamente, tu percebes que é gratuito e obviamente o objetivo não é ir lá aproveitar-se das pessoas, como é óbvio. O objetivo é tu fazeres um intercâmbio cultural genuíno. E isso também chegou a acontecer. Eu, antes de ir, cheguei a receber viajantes em casa, mas foi também aperceber-me que tu podes viajar e não tens que pagar o hostel, não tens que pagar o hotel ou o que seja. Portanto, isto possibilita muito mais as viagens, e pra muito mais gente, acredito, ou tenho a certeza. Eu apanhei um bocado a rede no começo. A rede apareceu, salvo erro, em 2004. Em 2007 foi quando eu comecei a utilizá-la.
Muito bem.
Depois mais pra 2012, se calhar, já estava mais massificada. 2011, 2010.
Muito bem. João, estamos quase a chegar ao fim da primeira parte. Vamos abrir o álbum de viagem. Olha, qual é aquele objeto que guardas das tuas viagens, o teu troféu do teu percurso de viajante?
Pra mim, é um objeto que eu me apercebi nessa primeira viagem, que ficou escrita no livro. Apercebi-me da sua importância, mas também agora, que é uma máquina fotográfica. Claro que hoje em dia os telemóveis já substituem, mas ainda assim não substituem por completo. Eu, na altura, nessa primeira viagem, fiz questão de comprar uma máquina com boas cores, comprei uma Canon, mas ao mesmo tempo também portátil, que eu pudesse levar facilmente, portanto, que coubesse no bolso e com bom ecrã. Na altura, o telemóvel não tinha o ecrã que agora tem, mas sem dúvida, essa máquina foi importantíssima nessa viagem. E agora, sempre que eu viajo também levo uma Canon também. Semiprofissional ou praticamente profissional com objetivo. Sem dúvida, eu acho que é muito importante pra mim. Acho que eterniza momentos, capta cores e acho que possibilita não só a própria viagem em si, como também a posterioridade da viagem. Tu podes depois, obviamente, mostrar tudo e contar as coisas de uma outra perspectiva. Por isso, pra mim, sem dúvida, é um grande acessório, é um grande objeto, um companheiro de viagem, a máquina.
Muito bem. Estamos na conversa com João Lopes Aguiar, viajante português que deu uma volta ao mundo à boleia, a dormir em sofás e que agora quer conquistar os mares com o veleiro Winderlust, onde, de resto, está a conceder esta entrevista. Regressamos já a seguir a uma curta pausa. Segunda parte das conversas do Fim do Mundo com João Lopes Aguiar, que aos 25 anos largou tudo e foi dar uma volta ao mundo de 19 meses. Hoje está mais tentado para fazer viagens no veleiro que acaba de comprar e onde está no sul de Espanha. João, quando te convidam pra jantares de amigos e já com a noite aquecida, qual é a história que tu mais contas? Aquele episódio inesquecível das tuas viagens.
Ok, uma história, queres assim um episódio mesmo.
Daqueles de toda mundo ficar colado ao chão.
Olha, por exemplo-
Terá sido o resgate de helicóptero?
Sim, olha, me faz lembrar dessa. Me estás a dar a pista. Sim, essa sem dúvida.
Não fui eu que fiz a tua viagem, foste tu que fizeste a tua viagem.
Exato. Olha, sem dúvida, porque foi na África do Sul, numa zona assim um pouquinho mais remota. Aliás, estrada não havia pra lá. É uma região que se chama Transkei ou Wild Coast, Costa Selvagem. E então foram me buscar na cidade mais próxima, que ainda estava pra aí uns 100 quilômetros, ou se calhar até mais, 150. Só sei que foi o dia inteiro, ainda por cima chovendo imenso, pra chegar até um lodge que eu descobri listado num sítio, a dizer que aquilo é espetacular. Então era basicamente um conjunto de cabaninhas, mesmo junto à praia, numa baía incrível. Aquilo era uma água clarinha, mas também com um rio, também tinha umas colinas verdes. Aquilo era uma mistura da África com Irlanda, não sei explicar, uma coisa bastante fora e que também desafiava aquela imagem que às vezes nós temos da África, que é tudo seco, tudo miserável. Não, havia ali bastante abundância da natureza, felizmente. E isso também, sem dúvida, foi algo que surpreendeu. Mas, efetivamente, quando eu cheguei lá, porque foi o dia inteiro, ainda por cima numa carrinha, numa picape, na parte de trás, que nem havia assentos, aquilo tudo às cambalhotas ali. Enfim, foi a chover imenso e não havia estrada, aquilo era mesmo montanha acima, montanha abaixo. Lá chegamos e depois numa de confraternizar com o pessoal, tomei uns copos. E o que aconteceu? Aconteceu uma situação em que eu depois fui explorar aquela região ali à volta e dei uma queda. Tive uma queda e parti a perna. E parti ela bem partida, foi não só o tornozelo, mas também a tíbia, aliás, o tornozelo e também o prono, assim é que é, portanto, os dois ossos da perna. E eu nem me apercebi na altura, só me apercebi, se calhar, porque estava um bocado ébrio, mas não me apercebi exatamente o que tinha acontecido. Ou melhor, não me apercebi que estava partida. Eu acho que achei que estava só uma rutura de ligamentos, mas não. No dia seguinte, aquilo completamente já roxo, a perna, no próprio dia, inchou imenso, ficou completamente inchada. Isto aconteceu numa segunda-feira à noite e, por sorte, na terça-feira eu percebi: "Isto há alguma coisa que não está bem, mas se calhar é só uma rutura, vamos esperar mais um dia". Quarta-feira chegou um médico alemão que estava a fazer voluntariado numa aldeia ali ao lado e que olhou pra aquilo e disse: "Isto é partido". Então consegui falar com o seguro, porque nessas cabanas, no fundo, funcionava um albergue. Eles, felizmente, tinham um telefone satélite, porque aquilo era bastante remoto, e lá consegui falar com o meu seguro. E o seguro, depois de insistir com eles, eles primeiro diziam que iam levar um avião, e eu comecei: "Mas como é que vão trazer um avião pra aqui? Mas pronto, olha, vocês é que sabem". Depois, no dia a seguir, já me diziam que era um helicóptero. Na sexta-feira, portanto, cinco dias depois, lá apareceu um helicóptero e aterrou mesmo na aldeia, toda gente da aldeia a ver, depois lá me resgataram. Sim, e fui levado até à cidade mais próxima, que ainda foi pelo menos uma horinha e meia de helicóptero. Depois fui operado. Fui operado e fiquei lá a fazer fisioterapia durante umas semanas.
Pelo que percebi, foi a primeira missão de salvamento daquela tripulação e daquele helicóptero.
Exatamente. Eles nunca tinham resgatado ninguém, portanto eles fizeram questão de fotografar, de documentar aquilo, pôr no site. Foi muito fixe. Foi muito engraçado. Eu mantive a boa disposição, ainda bem, porque tornou as coisas mais leves. Acho que também um bocado o local era tão incrível que eu, honestamente, não querendo parecer falso, porque o que eu vou dizer é mesmo verdade, apesar de ter uma perna partida, estava contente de estar ali. E se calhar cumpri-se um bocado aquela coisa britânica do break a leg. Eu acabei por partir mesmo E ao menos foi num sítio incrível. Felizmente, na África do Sul havia bons hospitais, ainda que no privado, mas eu tinha o seguro e valeu-me bastante ali, sem dúvida alguma.
João, temos que avançar aqui na nossa conversa. Dessa viagem de volta ao mundo que tu realizaste há uns anos e que seguramente te marcou e te vai marcar para o resto da vida, qual é o país que te impressionou mais?
O país que a mim mais me pareceu de outra galáxia, estratosférico, mas ao mesmo tempo completamente consciente que não, que estamos aqui, somos todos humanos e ainda bem, essa é a beleza, foi o Japão. O Japão é uma sociedade super rígida, as pessoas são super exigentes com elas mesmas e a sociedade exige-lhes também muito, mas admirou-me imenso e fiquei mesmo assim estarrecido com a arquitetura, organização social, a própria cidade de Tóquio. Como é que é possível teres uma megalópole daqueles, são salvo erro 10 milhões de pessoas. É imensa gente. O próprio país, que é um país com quatro, cinco vezes a área de Portugal, tem 120 milhões de pessoas, portanto quer dizer, uma densidade populacional altíssima. Como é que eles se organizam? Aquilo é tudo assim um admirável mundo novo para mim e se calhar também aqui porque venho do background da engenharia e isso também me admirou muito. Eles lidam com a tecnologia um bocadinho de uma forma diferente, se calhar mais natural, mas marcou-me imenso. A própria comida, como é óbvio. O Japão também é um país de contrastes. Tem, sem dúvida, aquelas urbes, mas tu andas se calhar 100 km e já estás numas coisas completamente inóspitas, na natureza. O Japão marcou-me mesmo muito, sem dúvida, mas posso dizer imensos outros países. Por exemplo, Marrocos, que eu acho que está tão próximo de Portugal e é tão diferente, é completamente incrível. Moçambique também, que acabei por estar lá bastante tempo, com praias paradisíacas que não devem nada a nenhumas outras praias do mundo inteiro. Por exemplo, o Arquipélago de Bazarutos, as Quirimbas. Tens lá coisas assim mesmo, o Oceano Índico lindo, incrível. O Brasil pela sua dimensão, o contacto é mais fácil, porque temos a mesma língua, a energia do povo. A América do Sul, em geral, porque é um continente tão diverso, não só a nível geográfico como humano, é um melting pot. Ou seja, aquilo é a fusão total. Aliás, há antropólogos que dizem que dentro de 50 anos a população mundial em geral vai ser como um sul-americano, um brasileiro, uma mistura de várias origens. E naquele continente tens tudo, tens todos os tipos de clima, basicamente, por isso acaba por ser mesmo muito interessante.
Olha, João, nessa viagem tu selecionaste os países antes de sair ou ias à bolina, como vais agora no teu veleiro?
Não levava planos fixos. Eu pessoalmente prefiro ir assim, porque tu assim consegues aproveitar mais. Por exemplo, há aqueles bilhetes de avião que tu marcas tudo e tens umas quantas regras que tens que cumprir, tipo um passe mundial. Podes fazer uma volta ao mundo assim, mas como não tens tanta flexibilidade, se calhar acabas por chegar a um destino, e afinal há um evento climático qualquer, um furacão. Quer dizer, pode acontecer coisas ou pode estar a acontecer qualquer coisa que não te vá fazer desfrutar tanto. Então eu acho que eu ia um bocado assim mesmo na intuição, mais da forma intuitiva. Eu acabei por desfrutar assim mais. Agora, quando eu saí também levava, claro, alguns destinos, uma certa wishlist, mas não era rígida. Ou seja, se não fosse alguns desses países ou regiões, não era grave. Havia uma adaptabilidade a que eu estava predisposto. Isso eu acho que para mim eu vejo como proveitoso.
Portanto, ias navegando à vista, não é?
Sim, navegando à vista. Bastante. Sim.
Que é o que estás a fazer agora no teu veleiro.
Sim, também. Eu prefiro assim. Então foi assim um bocado que eu ia viajando e que vou viajando também agora.
Tiveste algum momento de desilusão?
Também houve um momento de desilusão, sim, logo no começo. Fui à boleia. A viagem começou à boleia, numa estação de serviço da A2 Sul, em Foros de Amora, porque eu sabia que queria ir para África, então pronto, tem que ir para sul, vais para a A2 sul, se estás em Lisboa. E assim foi. Apanhei uma boleia que me deixou em Sevilha. E em Sevilha depois fui fazer um périplo, fui caminhar um bocadinho pelo centro e de repente, não sei se era porque eu estava com a mochila, também levava uma barba, enfim, não sei se na altura eles estavam um bocadinho mais preocupados também na sequência daquele atentado que houve em Atocha, em Madrid, não sei se por causa disso. Mas de repente apareceram dois polícias à paisana, agarraram-me, empurraram-me contra uma parede e agarraram mesmo, revistaram-me todo, só me gritavam: "Onde é que estão os papéis? Onde estão os papéis? Documento, de quem é que és tu?" Se calhar eles ficaram a achar que eu era um fulano que tinha acabado de chegar ali, vindo de África, não sei, numa pateira, num barco. É a única explicação. Isso desiludiu-me um bocado. Desiludiu e revoltou. E se calhar também porque, na verdade, me pus no papel de um imigrante ilegal, que está a ser violentamente revistado. Claro que as polícias têm que existir e têm que fazer o seu trabalho. Mas também acho que tem que haver algum protocolo. Eles podiam simplesmente dizer: "Olha, somos dois polícias à paisana". Isso desiludiu-me um bocado. Desiludiu-me um bocado e revoltou-me um bocado. Eu acho que tive mais surpresas positivas do que negativas, porque em geral a viagem foi tão Foi tão positiva e se calhar invertendo um bocado a pergunta, o que me iludiu? Por exemplo, África. Há um bocado aquela ideia que África é um fim do mundo, tudo perdido, ou pelo menos eu tinha essa ideia. Abriu-me um bocado os olhos.
Olha, João, tu sentiste medo em África? Eu pergunto isto porque o teu percurso até África leva-te até ao Senegal. Sempre à boleia e depois apanhas um avião para Moçambique ou para a África do Sul. Por que não decidiste fazer o resto da costa?
Qualquer dia, não é? Eu não queria fazer tudo. Acho que também não é aquela coisa de eu vou fazer tudo. Também achei que foi um bocado: "Já chega, já cheguei até aqui". Ainda penso em ir para o interior, para o Mali. Aliás, havia um comboio que saía do Senegal para o Mali adentro, mas na altura já estavam lá 45 graus. Também falei com alguns locais, eles diziam que aquilo não é assim tão seguro. Também sabia que não era, mas disseram que aquilo não é muito seguro, porque há imensos roubos. Não sei. Também foi um bocado ir pelo seguro. Mas na tua pergunta, sim, houve uma altura que eu senti medo, porque ia à boleia num camião e numa das cidades mais a sul, Agadir, eu apanhei então um camião e no começo tudo espetacular. Um camião só para mim, muito fixe, o condutor parece ser um gajo porreiro, vamos lá. Depois, mal saímos do mercado, tu vais mesmo ao mercado, e sai lá o camião. Depois começa a entrar mais um fulano, depois mais outro. Às tantas já íamos seis ou sete. Às tantas eu ia no lugar do passageiro à frente, depois já ia na cama de trás. Entretanto, já ia mais outro fulano também na cama. Nós estávamos assim deitados, eu com os pés voltados para a cara do fulano. Ou seja, começámos a ficar todos enlatados ali porque o condutor fazia algum dinheiro com aquilo. Tu pagavas. Aquilo não foi mesmo aquela boleia, mas foi com pessoal local. Eles viajam assim. E então houve uma altura que estávamos já mesmo em pleno deserto. Há uma estrada que cruza ali o deserto e os fulanos às tantas só falavam em árabe e só falavam: "Portugal, Portugália". E eu: "O que este gajo está aqui a falar de Portugal?" Eu a tentar meter conversa com eles, vamos falar em francês. Os gajos ainda estão revoltados com Portugal e não conta seguir qualquer coisa. Aí confesso que se calhar senti algum medo, sem dúvida. E também outra situação em que senti medo foi no Brasil. Só para dizer que depois correu tudo bem. Aliás, a primeira cidade onde chegamos, eu aí: "Pessoal, vou apanhar outra boleia." Mas esse trecho pelo menos correu bem e ainda deu para aguentar se calhar mais uns 200 km, que era até à cidade seguinte. Depois no Brasil também tive um acidente de carro que quase que morria. O condutor estava ébrio e há umas estradas, é na região mais urbana de São Paulo, há umas estradas na serra que são mesmo ondulantes. Aquilo vai mesmo ali no topo da serra e ainda por cima já era para as 04:00, o fulano às tantas adormeceu. E havia mesmo uma curva assim de 90 graus e curiosamente era a única curva que tinha aqueles guard rails. Aqueles metais que protegem, em caso de haver algum acidente. E eu vi que o gajo naquela curva, já estava completamente atento, estava a ver que o gajo já estava todo completamente acenado. Pessoal já tinha tudo bebido um copo ou outro. Ele se calhar até bebeu mais. E eu por acaso vi que o gajo estava já a fechar os olhos e acordei-o. Disse: "Acorda, acorda!" O gajo acordou e ainda conseguiu guinar o volante. Não obstante, o carro raspou-se todo nessa proteção, no guard rail. E se não fosse isso, o carro tinha dado uma queda pelo menos de 100 metros, ravina abaixo. Então pelo menos nesse momento, no mínimo, senti adrenalina e diria que também bastante medo. Mas reagi, acordei o tipo e ele ainda conseguiu virar o carro e felizmente estou aqui para contar.
São os riscos de viajar à boleia. João, estamos quase a chegar ao final do nosso programa. Vamos fazer check-out?
Check-out, vamos a isso.
Vamos embora. Vamos já perceber a tua excentricidade enquanto viajante. Tenho aqui várias frases para tu completares. João, pedia-te algum poder de síntese. Na minha mala vai sempre?
Boa onda.
Agora não é na mala, é no veleiro.
Boa onda.
Boa onda. O carimbo de passaporte mais difícil de obter até hoje foi?
Olha, por mais estranho que pareça, foi o moçambicano.
Então?
Tive que arranjar um visto, foi um visto, tive que estar à espera, cobraram imenso, quando na maioria dos países tu chegas e tens o carimbo, porque efetivamente o passaporte europeu e o passaporte da União Europeia e o português é bastante aceite. Ou muito aceite mesmo. Mas em Moçambique a mim surpreendeu-me que não, que teve que ser tudo ali tratado com insistência. Mas valeu a pena.
A viagem com mais peripécias que realizei até hoje?
Foi essa volta ao mundo que está no livro Os Meus Descobrimentos, sem dúvida.
E há assim algum momento particular que se possa contar em 30 segundos?
Houve uma altura, eu parti a perna, como tinha falado, e depois eu decidi: "Olha, vou seguir viagem". Então a primeira viagem ia para a América do Sul. A única viagem que eu arranjei, onde eu estava, foi para São Paulo. Em São Paulo decidi ficar algum tempo a trabalhar para recuperar mais a perna e também para conseguir amealhar mais dinheiro para seguir viagem. Então fui para um hostel. E fui ser entrevistado no hostel para poder ficar lá a trabalhar e viver, enfim, juntava ali um bocado o útil ao agradável. E então, assim que eu entrei no hostel para a entrevista, o porteiro disse: "Olha, tu já estás contratado." Eu: "Então, mas por quê? Tu és igual ao nosso chefe, és o sósia dele." Depois ele entrevistou-me e somos amigíssimos hoje. Somos mesmo amigos, ele é muito porreiro, mas muita gente nos confundia como sósias. Acho que fisicamente, mas também na maneira de ser.
A refeição mais estranha que comi foi?
É estranha, mas também foi completamente engraçada. Eu fiquei algum tempo num orfanato em Moçambique. E era um orfanato, tu estavas a alimentar crianças, mas eles não comiam proteína, então eu comia muito arroz com folha de mandioca, que é matapa, folha de mandioca prensada com um bocadinho de coco e amendoim. Não é estranho, porque eu gostava, mas o que aquilo significava era duro, que os miúdos só comiam proteína, que era frango, que ainda por cima é uma proteína mais barata, que nós sabemos. Ainda que ela é saudável, mas só comiam frango uma vez por semana. Foi estranho no sentido em que me fez pensar um bocado e dar outro valor às coisas.
A recordação de viagem mais cara?
Eu cheguei a comprar uma bicicleta em Barcelona e depois crusei a bicicleta para fazer a parte final da viagem. Vim para Lisboa de bicicleta a partir de Barcelona e acho que essa foi a mais cara.
E para fechar: gostava de viajar com?
Com toda a gente, honestamente. Gosto mesmo de conhecer pessoas diferentes e acho que em viagem as pessoas ficam todas mais à vontade, são mais genuínas. E eu acho que isso é um lado muito divertido da viagem. Há quem diga que quer ser diferente, eu acho que tu és tu mesmo.
Fica o desejo. Agora sim, João, está na altura de atracarmos. Está bem amarrado o teu veleiro aí em Espanha?
Está.
Que música trouxeste para fechar o programa?
Uma música que me marcou por vários motivos. Primeiro porque a escutei à boleia num carro em Cádiz e depois quando fui recebido na tal família marroquina, família Ziani, eles também me mostraram essa canção outra vez. E aí eu percebi que essa canção, de facto, tem algo aqui de especial mesmo. E depois pela sua letra. A canção chama-se "Papeles Mojados" e é uma fusão entre a música tradicional do sul de Espanha, o flamenco, com música eletrónica. E ela fala sobre imigrantes que cruzam ainda hoje em dia. Isto acontece muito em várias geografias, mas no caso mais próximo de Portugal acontece no Estreito de Gibraltar e agora também no Algarve, também já aconteceu algumas vezes. Chama-se "Papeles Mojados" por isso mesmo, que são os papéis, o passaporte. "Mojado" porque chegam à praia e toda essa história e todo esse episódio. E fala sobre isso, sobre como é que há pessoas que conseguem, outras que não, sonhos que ficam por cumprir. E eu acho isso muito interessante.
João, obrigado. Continuação de boa viagem e bons ventos.
Obrigado eu, João Miguel.
"Papeles Mojados" de Shambao, a fechar a conversa do "Fim do Mundo" desta semana com João Lopes Aguiar. Regressamos na próxima semana. Boas viagens. Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto.