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A gestão da floresta e da vegetação é uma tarefa essencial na prevenção dos fogos florestais. A E-Redes gere uma rede elétrica com 180 mil km de extensão e cerca de um terço, cerca de 60 mil km, são em terreno florestal e agrícola. Por isso, a empresa já deu início aos trabalhos de gestão da vegetação, determinantes para prevenir os incêndios rurais. E neste terceiro episódio do podcast "Conversas na Rede", vamos perceber melhor em que consiste este trabalho, que meios envolve e qual a importância na prevenção dos incêndios e também para a biodiversidade. Eu sou o Paulo Ferreira e estão comigo em estúdio o Ricardo Messias e a Inês Cândido Silva, ambos da E-Redes. Bom dia, obrigado a ambos por estarem neste podcast. Ricardo, vamos começar por si. Este ano arderam quase 20 mil hectares em espaços rurais e quase metade aconteceu nos primeiros dias de agosto. Até que medida é que os trabalhos de gestão da vegetação realizados pela E-Redes ajudaram a prevenir fogos florestais?

Bom dia, Paulo, e obrigado por nos receber em estúdio. Realmente, os números são impressionantes, mas infelizmente, apesar da E-Redes ser a entidade não pública que mais gestão na vegetação faz, este ano já vamos em 20 mil hectares, quase tanto como disse que arderam este ano. Apesar disso, tem pouco efeito na prevenção de incêndios florestais. Na verdade, o que nós fazemos tem mais a ver com a proteção da própria infraestrutura, o que é extremamente importante, porque é este trabalho que permite, perante calamidades, como a que tivemos na semana passada com as tempestades e no verão com os incêndios, que a infraestrutura elétrica continue a permitir uma excelente continuidade de serviço, que de algum modo garante a eletricidade para os hospitais, para a bombagem de água.

Quebras de fornecimento de eletricidade, no fundo.

Exatamente. E é isso que nos permite responder bem.

E já agora, Ricardo, nós conseguimos visualizar os cabos elétricos a passar por zonas florestais. No fundo, trata-se de prevenir que as árvores vão crescendo de alguma forma e vão tocando nos cabos, é isso, e nos postes?

Parte do trabalho, sim. Parte do trabalho tem a ver com essas proximidades e quando o proprietário não acautela ou a entidade que gere não acautela, temos de ser nós a substituirmos. Mas a gestão da vegetação pura, que costumamos falar, está no âmbito da defesa da floresta, e essa permitirá algum volume. E quando existe um incêndio, quando existe muito volume, chegamos a ter linhas derretidas devido a todo o volume de vegetação. É mais nesse âmbito e não tanto nas proximidades, que é um trabalho que sempre fizemos.

Sempre fizeram a esse nível. Ricardo, é verdade que a própria rede elétrica pode ser causadora de ignições, isto é, pode despoletar um incêndio?

Os números oficiais demonstram bem que as ignições provocadas pela rede elétrica não ultrapassam 1%. E neste pouco mais de 1% estão casos tão insólitos quanto um carro que bate no apoio e o apoio cai na vegetação próxima e há um incêndio, aves eletrocutadas que ao caírem no solo provocam uma ignição. Quando nós olhamos pra rede elétrica como causador, devíamos estar a olhar para as causas endógenas, e essas eu tenho bastante segurança que são muito raras, porque a E-Redes sempre pôs um grande foco, tanto em aspectos técnicos construtivos, como na manutenção, e usamos tecnologia de termografia para detetar preventivamente situações que poderiam degenerar em ignições, mas que preventivamente nós detetamos.

Que há ali uma fonte de calor. Inês Cândido Silva, como é que esta dimensão da intervenção, o Ricardo falou dos tais 20 mil hectares/ano, como é que isto é conciliável, de alguma forma está alinhado com a vossa estratégia de sustentabilidade?

Olá, Paulo, muito obrigada. Aqui na gestão do planeta temos uma panóplia obviamente bastante grande também de medidas, e que tem a ver com as questões de economia circular, como é que os nossos ativos também podem contribuir e termos maiores práticas também a nível de economia de circularidade, como também, por exemplo, o desenvolvimento da adaptação e resiliência da rede aos eventos climáticos que o Ricardo estava há pouco a falar.

Claro.

Dentro destas questões, obviamente, que aquilo que a legislação nos obriga a fazer a nível também das faixas, e portanto com uma intervenção bastante agressiva, leva-nos também a ter alguns impactos ambientais, como é questões da perda de biodiversidade. E é nesse aspecto que nós mais recentemente estamos a apostar, através de alguns estudos que foram feitos neste último ano, com a colaboração do laboratório colaborativo do ForestWise, e que identificamos as chamadas ocupações compatíveis, previstas atualmente na legislação e que vamos procurar ter, de facto, corredores mais ecológicos debaixo das nossas linhas.

Portanto, passar isso pra prática, de alguma maneira.

Exatamente.

E voltando aqui à operação, Ricardo Messias, os vossos trabalhos começam em outubro e depois prolongam-se até quando?

Nós começamos a antecipar esses trabalhos, logo que termina a época crítica do ano anterior, começamos logo a desenvolver trabalhos pro ano seguinte. Precisamente pela dimensão toda que existe. Portanto, mais uma vez, para quem nos ouve, separar aqui os dois trabalhos, que são um bocadinho feitos em paralelos. Uma questão são as proximidades, outra questão era esta intervenção que a Inês falava de gestão da vegetação, que nos são impostos pelo que está nos planos municipais, portanto, podem não ser em todas as linhas, é a rede que está identificada.

Pode mudar de município para município, em função das regras.

Sim, muda de município. Cada município tem identificadas as linhas onde devemos constituir esta gestão de combustível, que são desde espaçamento entre copas, no mínimo quatro metros. Se vimos uma árvore e vimos que ela tem que espaçada outra quatro metros, já vemos ali uma área bastante deserta, quando gostamos de ver uma floresta, e outros requisitos ainda mais impossíveis de alcançar, que é, por exemplo, os arbustos não terem mais de 50 centímetros de altura e a parte sub superfície, estamos a falar das ervas, a mais de 20 centímetros. Qualquer pessoa sabe que basta um bocadinho de sol, um bocadinho de chuva e um bocadinho de sol, e elas vão por aí fora. São estes requisitos que realmente nos são impostos e que de alguma maneira levam a hesitarmos, aquilo de chamarmos agressivo, porque tem aqui um impacto bastante grande na biodiversidade.

É isso, Inês. São estes requisitos, de facto, que têm esse grande impacto na biodiversidade.

É isso mesmo. Nós hoje falamos muito que estamos a viver, e no contexto atual do clima, temos uma crise climática, mas nós também temos uma crise a nível da perda de biodiversidade. E estes dois temas estão muito ligados. Aquilo que estivermos a contribuir em termos de clima, devemos estar a contribuir também a nível da redução da perda. Nesta questão de suporte que a biodiversidade nos dá, que é no fundo a segurança da nossa vida, como também a nível de outros serviços, a nível da regulação também do sol, do ar, e portanto todas estas componentes das quais depende a vida, é de facto muito relevante nós estarmos preocupados em não estar a reduzir estas funções que a biodiversidade nos dá. Por outro lado, tem também um papel muito importante em todos estes serviços de regulação, obviamente impactam aqui para que não exista, ou possam não existir, todos estes impactos a nível dos incêndios florestais, etc.

Claro. Isso também tem impacto nas alterações climáticas, ou pelo menos a tentativa de travá-las de alguma maneira. E a esse nível de alterações climáticas, o que é que a Redes está a fazer?

Nós temos tido um histórico de impacto a nível dos eventos para os quais temos dado uma resposta muito rápida em termos das questões de quebra de fornecimento aos clientes, portanto, temos sempre um plano de prevenção e resposta, mas neste momento estamos também a pensar, e é a tendência também a nível europeu, como é que nós podemos ter e construir melhor a nossa rede face a estes eventos. E neste aspecto, pensar mais na vertente do planeamento, como é que nós podemos incrementar. E aí é incrementar resiliência a nível da infraestrutura face a estes eventos extremos. Nós temos estado a fazer aqui um estudo com a academia, relativamente àquilo que é a aferição daquilo que é o risco atual a que já estamos expostos e o risco futuro. E, portanto, a ideia deste estudo é de facto termos este risco quantificado a nível do território, espacializado, para nós podermos intervir, priorizarmos estas intervenções, onde é que poderá ocorrer esta-

Uma forma planeada.

Exatamente.

Claro. Ricardo, e essa intervenção tem que ser de alguma forma forte. É uma rede muito extensa que vocês têm e como é que conseguem manter essa rede tão extensa, no fundo, resiliente a todos estes impactos que acabamos de falar?

Temos esta preocupação de alguma forma de ter uma rede muito resiliente. Não é de agora, é de há muitos anos, e portanto estes aspectos técnicos construtivos. E além disso, temos um grande foco na inspeção, porque a rede elétrica é algo que se constrói e depois fica lá 40 anos, 50 anos. E portanto, o foco também tem que estar na inspeção. E aí, mais uma vez, nós, como eu referi há bocado, desde os anos 90, começámos a voar, a fazer voos de helicóptero, com tecnologia que eu chamo não visível. Mas estes voos permitem utilizar tecnologia, nomeadamente termografia, ultravioletas.

Para detetar alguma falha.

Para detetar preventivamente. Ou seja, é algo que não está visível, mas que está lá. E portanto, pontos quentes são detetados e outras situações que ao olhar humano não se vê. E acrescentamos, entretanto, também a esses voos, nós vamos incrementando nesses voos, neste momento já são até por drone, outras tecnologias, a última das quais é a laser, que é a LiDAR, que nos tira uma fotografia tridimensional de todo o enquadramento da rede e que nos permite detetar obstáculos. E estes obstáculos são desde chaminés que alguém construiu inadvertidamente a uma distância não regulamentar, como a árvores que alguém não acautelou e no seu crescimento estão a chegar próximo à rede.

Mesmo com toda a inovação e tecnologia, que imagino que transforma muito este trabalho de inspeção, Inês, só a inspeção em si tem um impacto no ambiente?

Paulo, todas estas tecnologias que o Ricardo nos tem estado a falar ajudam imenso também a reduzir aquilo que era o meio tradicional de fazer estas inspeções.

Que era de carro, de jipe, qualquer coisa no terreno.

De helicóptero.

De helicópteros, claro.

A questão, por exemplo, dos drones, em que nós estamos a fazer inspeções e este ano esperamos alcançar os 10 mil quilómetros feitos por drone, é extremamente relevante para a tal descarbonização.

Ricardo, vocês atuam em locais que não são vossos, isto é, a propriedade da floresta é de quem a tem, de alguma maneira, pequenos ou grandes proprietários. E a pergunta é: até que ponto é conciliável a vossa atuação, neste tipo de intervenções, com aquilo que é o interesse dos proprietários, das várias entidades, e os vossos objetivos, quer da operação, quer da sustentabilidade, também estão alinhados com isto, sobretudo em situações de emergência ou de perigo, em que não há muitas vezes tempo de avisar o proprietário?

Sim, é verdade que nós temos a concessão da rede elétrica, mas a propriedade não deixa de ser de quem é o proprietário, de quem é a entidade gestora e, por vezes, a nossa intervenção não é tão conciliável com o que quem tem essa propriedade pretende. Mas o que eu gosto sempre de frizar é que, nomeadamente naquelas situações que referiu de emergência, nós fazemos uma intervenção no sentido de proteger o máximo possível o todo, obviamente com algum impacto no específico. O nosso único interesse em intervir é para proteger, de alguma maneira, e garantir a segurança de pessoas e bens. Nós temos aqui, na última década, já contando com 2023, nós alcançamos os 100 milhões de euros de investimento em gestão da vegetação. Com a alteração da legislação, e se mantiverem os requisitos atuais, este esforço duplicará. Ou seja, em vez de gastarmos 100 milhões de euros em 10 anos, vamos gastá-lo nos próximos cinco.

Aquilo que o Ricardo acaba de escrever, de alguma forma, a intervenção no terreno, Inês, isto implica também um envolvimento das populações locais, obviamente, que são proprietárias ou não da floresta, mas de alguma forma são impactadas também pela vossa ação. Isto é fácil, conseguir o envolvimento destas pessoas?

Nós há 20 anos que percebemos que poderia haver, de facto, impactos relevantes em espécies ameaçadas, por exemplo, a nível dos riscos de colisão e eletrocução das aves, que podem ter em determinados locais que já fazem parte das chamadas áreas classificadas. E temos um trabalho árduo com a SPEA, a Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves, com a Quercus, com a Liga para a Proteção da Natureza, e portanto, é um trabalho que tem sido desenvolvido. Quando nós queremos atuar a nível das faixas, mais a nível do solo, da superfície, face à gestão da vegetação que fazemos, temos estado a envolver também algumas associações locais. E tivemos aqui alguns projetos-piloto com a Associação Verde, que é uma associação para a conservação integrada da natureza, com a Montis. Portanto, são associações que funcionam, a Verde funciona em Lousada, a Montis tem terrenos a nível da Pampilhosa da Serra, por exemplo, ou também com outra associação que é a BioLiving, em que procuramos dar alguma utilização, por exemplo, à madeira morta, que retiramos das faixas para que possa haver depois uma outra utilização.

Outra utilização, claro.

E portanto, são projetos de referência que estamos a tentar potenciar nos locais onde exista maior riqueza, onde faça maior sentido também conciliarmos a presença da rede elétrica com a preservação da biodiversidade.

Claro, esse tal alinhamento de interesses. Para finalizar, e peço-vos que há alguma brevidade agora nesta resposta, a pergunta é: em que medida é que os cidadãos em geral podem contribuir para a prevenção, para o alerta em caso de risco, por exemplo? Isto é, podem ajudar-vos nessa vossa tarefa, Ricardo?

Sim, do ponto de vista da operação, como já referi, os proprietários e as entidades gestoras são essenciais, porque são os primeiros e os que estão no local a identificar situações que podem, de algum modo, colocar em risco a infraestrutura e a segurança de pessoas e bens. Mas qualquer cidadão, e nós desde 2018, que na nossa app temos uma área específica para reportar situações de proximidade da vegetação. É muito intuitivo, fica georreferenciado e logo que alguém submete uma situação, temos um despacho 24 horas a funcionar, onde é recebido esse alerta e é despachada uma equipa para ir ao local.

Não é um alerta, mas parece um piquete.

Exatamente. Portanto, qualquer pessoa pode ter aqui um papel essencial para essas situações.

Inês, para fechar.

Do ponto de vista da sustentabilidade, o que nós pretendemos é que haja, de facto, esta conciliação também da infraestrutura com a biodiversidade nos territórios, valorizando esses territórios.

Muito bem, estamos a chegar ao fim. Ricardo Messias e Inês Cândido Silva, obrigado a ambos pela presença neste podcast. Fecha aqui então o terceiro episódio de Conversas na Rede, que ficará disponível em podcast no site do Observador e também nas habituais plataformas de streaming. Voltaremos brevemente com mais um episódio e até lá, já sabe, fique com boa energia.

Obrigado.

Obrigada.