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E agora o Ideias Feitas. Ideias Feitas na Rádio Observador com o Alberto Gonçalves. Olá, Alberto, bem-vindo.

Olá, Ricardo, boa tarde.

E hoje tu estás a notar uma evolução na forma como os autarcas de Lisboa e Porto estão a lidar com os acampamentos, é isso?

É exatamente isso.

E é no bom sentido ou no mau sentido?

É mais uma involução, mas eu quis ser simpático na definição do tema do Ideias Feitas de hoje. Agora, se me permites, eu acho que me permites, com certeza, eu vou fazer aqui dois pequenos inventários, duas cronologias muito sucintas do comportamento dos senhores autarcas de Lisboa e do Porto, a propósito destas manifestações, desses acampamentos. No caso de Lisboa, o engenheiro Carlos Moedas, tudo começou a 17 de outubro, foi quando começou a acampada, como se diz no Rossio, com a montagem das tendas e os protestos pelo direito à habitação, também como eles dizem. E o engenheiro Moedas, na altura, reconheceu o direito a essa manifestação, admitiu as tais tendas, mas rejeitou ocupações permanentes do espaço público. A 20 de outubro, três dias depois, portanto, a polícia retirou umas 200 tendas e deteve 55 pessoas. O engenheiro Moedas, na altura, considerou a causa da habitação justa, mas condenou o vandalismo que aconteceu na estátua Dom Pedro IV e afirmou que a polícia atuou com correção e proporcionalidade. Depois, nos 10 dias finais de outubro, o engenheiro Moedas manteve a distinção entre o direito às pessoas se manifestarem e a ocupação permanente do espaço público. Entretanto, nesses dias, a acampada regressou ao Rossio. Já em novembro, portanto há poucos dias, no dia 2 de novembro, após aquela famosa decisão judicial favorável à senhora dona Renata Cambra, que autorizou a presença pelo menos da tenda dela, o resto é discutível. O engenheiro Moedas, perante isso, afirmou que as decisões dos tribunais são para cumprir e respeitar e, portanto, no dia 5 de novembro, ontem, o engenheiro Moedas propôs manter uma tenda no Rossio, isto é verdade, não é piada, transferindo o restante protesto para os restauradores, o Martim Moniz ou o Largo São Domingos, de modo a permitir no Rossio a realização do mercado Natal. Portanto, ficava só uma tenda e tudo isto mostra que a atuação do engenheiro Moedas não é exatamente uma atuação que denote uma força por aí além. Há aqui algo de débil e nesta parte em que ele sugere a manutenção de uma tenda única lá no meio do mercado Natal, a coisa é quase cômica, mas há pior. Há um comportamento pior do que o engenheiro Carlos Moedas e é o comportamento do autarca do Porto, do doutor Pedro Duarte, que é presidente da Câmara da segunda cidade do país e na segunda cidade do país a acampada começou no dia 10 de outubro, na Praça Dom João I, com umas poucas dezenas de pessoas. No dia 12 de outubro, a polícia retirou as primeiras tendas. No dia 14, o doutor Pedro Duarte jurou que seria absolutamente implacável com qualquer tentativa de colocação de tendas e que a praça não é um parque de campismo, coisas que parecem evidentes. No dia seguinte, houve uma intervenção policial com dezenas de feridos. O doutor Pedro Duarte defendeu a atuação da polícia. No dia 16, mais um dia corrido. Perante a contestação, o doutor Pedro Duarte começou a amaciar o discurso e manifestou disponibilidade para receber os manifestantes. Na sequência disto, naturalmente, as tendas regressaram à praça e no dia 20 de outubro os manifestantes, uns abandonaram o local, outros tentaram manter-se perante a ameaça de nova intervenção policial e o doutor Pedro Duarte declarou que a normalidade democrática tinha sido reposta, mas, em simultâneo, a Câmara aqui já pediu à Provedoria de Justiça uma avaliação da proporcionalidade da intervenção policial. E agora, no dia 1 de novembro, na sequência de nova operação policial, o doutor Pedro Duarte condenou essa atuação da polícia e considerou-a desproporcionada e injusta com a cidade. Nem foi só com os campistas, foi com a população, os portuenses em peso. No dia 2 e 3 de novembro, o doutor Pedro Duarte renovou o convite aos manifestantes para uma reunião na Câmara ou no Rivoli, propondo discutir a utilização do espaço público e a questão da habitação. Os manifestantes não aceitaram e é bem feita para o doutor Pedro Duarte. E tudo somado, as atuações destes dois autarcas, eu não faço ideia se a maioria dos portugueses está contra ou está a favor dos acampamentos ditos pela habitação e que, na verdade, são contra o sistema, o capitalismo, as alterações climáticas, Israel e o que calha. O que eu sei é que os senhores autarcas de Lisboa e do Porto andam nitidamente ao sabor do tom transmitido pelos telejornais, que todos os dias e praticamente todas as horas relatam os acontecimentos do Rossio e da Praça Dom João I como se fossem epopeias heróicas de resistência à tirania e, evidentemente, ou naturalmente, ao fascismo. Os senhores autarcas têm medo, sobretudo têm medo de ser considerados fascistas por gente que, se formos a ver, e não é preciso ver com muita atenção, gente que não tem legitimidade nenhuma para caluniar alguém, que não tem legitimidade nenhuma para ocupar e vandalizar e sujar os espaços públicos e que não tem legitimidade nenhuma para representar seja quem for, nem para se reunir com representantes realmente eleitos pelos cidadãos. Que eu saiba, além das praças que ocuparam, os campistas ainda não fizeram reféns para que tenha que haver negociações como naqueles filmes americanos. Os únicos reféns desta história são os políticos, os políticos que hesitam e alteram os discursos e a retórica de acordo não com os factos, mas de acordo com o que veem na televisão. Não são exatamente estes os políticos ou o tipo de políticos de que as cidades e o país precisam, porque ao oscilar entre um esboço tímido de força com exibições Óbvias e brutais de fraqueza são exatamente o tipo de políticos que convém aos campistas, que assim se sentem reforçados, impunes e habilitados a elevar estes protestos para terrenos mais consequentes e destrutivos. É preciso não esquecer, convém sempre não esquecer nesta história toda, que o que os campistas querem não é casas, eles querem destruir, eles não querem construir em situação nenhuma, incluindo casas. Eles próprios dizem que são contra a construção de novas casas, pelo menos se vier da parte da iniciativa privada. Aparentemente, os senhores autarcas esqueceram-se disto e, em simultâneo, esqueceram-se da responsabilidade dos seus cargos. E eu aproveito para, à parte disto tudo, te desejar bom fim de semana, Ricardo. Um grande abraço.

Um bom fim de semana, Alberto. Um abraço.

Um abraço, Ricardo.

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E agora o estado do tempo. Hoje pingou um pouco por todo o país. Pingou na casa da família Ribeiro e prevê-se que vá pingar com intensidade na despensa do Manel e da Rita. Já no carro da Luísa, há previsão de começar a pingar apenas durante o período da tarde, porque só agora ela se precipitou para o Milenium.

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