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Olá, seja bem-vindo ao "Conversas no Tee", o podcast onde cruzamos a paixão pelo golfe com as histórias de quem o joga, seja por lazer ou ao mais alto nível. Um projeto em parceria com a Federação Portuguesa de Golfe e com a DS Automóbil, a acompanhar esta viagem pelo universo deste desporto, onde cada detalhe conta. Eu sou a Maria João Simões e nesta estreia vamos falar de performance, exigência mental e da emoção de representar um país no maior palco do desporto mundial, os Jogos Olímpicos. E para isso tenho comigo dois nomes bem conhecidos: o surfista profissional Frederico Morais, que todos conhecem como Kikas, e o golfista profissional, o Tomás Bessa. Olá, bem-vindos aos dois. Muito obrigada por se juntarem a mim.

Obrigado, Maria João.

Muito obrigado pelo convite.

Kikas, toda a gente te conhece do mar e das ondas, mas sabemos que também gostas de assentar os pés de vez em quando num green.

Exato.

Como é que o golfe entrou na tua vida? Qual é a tua primeira memória num campo?

A minha primeira memória. O golfe entra por quê? Por alguma razão, há vários surfistas que jogam golfe. Nunca foi o meu caso, mas durante os anos que eu estive no tour e que viajava bastante, muitos deles jogavam golfe e eu vou ser honesto, não era um desporto que me enchia o olho, inicialmente. E de repente, o António Félix da Costa, que também é outro atleta, desafiou-me: "Não, bora ter umas aulas de golfe, bora experimentar, não sei quê, vamos ali à Quinta da Marinha e tal, não sei quê, experimentar, tenho lá um gajo porreiro, o Gladston". "Ok, vamos." Começámos a bater umas bolas, driving range, e a partir daí fiquei completamente-

A sério? Logo a partir daí?

Fiquei viciado. Não sei o que é que foi, mas houve ali um bichinho. Para começar, é um desporto onde a probabilidade de eu me lesionar é muito menor do que eu tentar ir jogar à bola e tropeçar sozinho ou uma coisa do género. E depois, o que me fascinou muito foi aquelas horas que uma pessoa está ali, neste caso, no campo, a jogar, ou uma pessoa desliga completamente do que está a fazer e do mundo, e se concentra realmente no jogo, ou então aquilo vai para água abaixo.

Esquece, deixa de funcionar.

Ou seja, é um bom momento que nós temos, que é só nosso, ou pelo menos com quem estamos a jogar. E isso deixou-me uma paixão.

Então e qual é a tua primeira memória em um campo?

A minha primeira memória-

Foi essa em que foste com o António Félix da Costa?

Não, diria a minha primeira memória é bater na bola, a bola ir toda torta, de eu ouvir uma telha a partir. Acho que é mais essa a memória. Mas faz parte.

A próxima pergunta era precisamente essa, se havia alguma história caricata ou uma tacada que não ia esquecer. Portanto, foi essa.

Exatamente. Já houve umas assim.

Foram várias, não foi só uma.

Eu tenho que continuar. Esse é o problema do golfe. Por isso é que eu acho que é viciante. Uma pessoa dá aquela tacada inacreditável, em que uma pessoa-

E tu pensas: "Já diminuí muito"

...de repente sente-se o Tomás, e de repente, a seguir, vai tentar fazer a mesma coisa e sai completamente o oposto. "Eu não percebo o que é que eu estou a fazer. Eu fiz tudo igual, não entendo."

Ou seja, também vai exigindo mais de ti, não é?

Exatamente, eu acho que essa é a beleza do golfe.

Tu fizeste história ao garantir a primeira qualificação nacional para a estreia do surfe nos Jogos Olímpicos de Tóquio em 2021, mas depois acabaste por não ir por causa da Covid-19.

Exatamente.

Como surfista de elite, o que representa essa vertente olímpica e a preparação para uma performance exemplar com toda essa pressão?

Eu acho que há muito querer. Depois acho que é preciso uma equipa à nossa volta que nos ajude a estar no nosso melhor e que nos liberte a cabeça para nós estarmos só e simplesmente focados naquilo que é o nosso trabalho, neste caso, que é estar dentro d'água, surfar, tomar as melhores decisões, facilitar a nossa vida. E depois acho que há muito trabalho por trás dos resultados, dos bons e maus resultados.

Sim, porque há que saber gerir, não é?

Exatamente. Foi 2020. Eram os jogos, 2021, depois foi quando aconteceu. Foi o primeiro ano que o surfe integrou os Jogos Olímpicos, ou seja, antes disso, pra mim, nunca tinha sido uma realidade fazer parte dos jogos. Claro que adorava ver, mas como atleta não era.

Mas assusta imaginar o surfe nos Jogos Olímpicos?

Não, eu acho que é bom.

Ou o desafio é ótimo?

Não, é ótimo. Eu acho que é uma plataforma enorme para o desporto crescer e para nós próprios vingarmos. Era um grande objetivo meu, uma vez que se soube que o surfe ia fazer parte dos Jogos Olímpicos, ia ser um desporto olímpico, passou a ser um grande objetivo meu e não vou esconder, fiquei superfeliz, superorgulhoso de conseguir a minha vaga. Mas depois, lá está.

E depois tiveste que saber lidar com a frustração de não ir.

Mas faz parte, é o que é. Foi uma altura em que ninguém sabia muito bem o que estava a acontecer. Tenho a certeza que houve pessoas que passaram muito pior do que eu passei por não ter ido aos jogos, como é óbvio. E uma pessoa ultrapassa. Eu gostava de ter ido a Paris, ou a Taiti, neste caso, para o surfe, não consegui. Temos agora LA, ou seja, passa a ser o próximo objetivo.

Tomás Bessa, no caso teu, o habitat natural, o golfe, regressou aos Jogos Olímpicos em 2016, depois de mais de um século fora. Para um golfista profissional como tu, como é que esse estatuto de desporto olímpico muda a perceção da modalidade e a preparação de atletas?

Eu acho que muda de uma maneira muito positiva, porque o golfe sempre teve um pouco o estigma de ser um desporto aborrecido, para pessoas mais velhas, de elites, muito caro. E eu acho que o facto do golfe ter sido desporto olímpico desmistifica um bocadinho essa ideia, mesmo dentro da comunidade desportiva. E isso é muito positivo, ou seja, há muito aquela ideia de que não é preciso grande capacidade física ou grande treino para se jogar bem o golfe, mas obviamente as pessoas que experimentam, o Kikas ainda agora deu esse exemplo, de que é muito difícil ser consistente e jogar ao mais alto nível Portanto, eu acho que a entrada do golfe nos Jogos foi mesmo muito positiva. E para atletas como eu, obviamente ao verem o Ricardo Melo Gouveia, foi o primeiro atleta português a conseguir ir aos Jogos logo no Rio em 2016, dá-nos uma ilusão positiva de que: "Ok, este ano foi ele, daqui a quatro anos poderei ser eu". Eu cresci ao ver o golfe, nada relacionado com os Jogos Olímpicos, e para mim nunca foi um objetivo, porque realmente nunca achei que pudesse ser um desporto olímpico. Não porque não acho que tenha qualidade para o ser, mas porque eu comecei a jogar golfe em 2000 e apenas foi em 2016, e eu olhava para os Grand Slams e para esses torneios mais importantes, e os Jogos Olímpicos estavam num quadro um bocadinho à parte. Portanto, a partir desse momento ficou: "Eu posso ser um atleta olímpico".

Porque é difícil manter a coerência, a consistência?

O golfe é um desporto bastante técnico, em que a própria técnica do swing não é uma técnica muito natural e envolve vários movimentos complexos.

Eu nem as mãozinhas consigo pôr como deve ser, tenho que pensar como é que .

Uma pequena oscilação técnica faz com que, como o Quicas disse, a bola pode ir para um pontilhado de uma casa ou exatamente para onde nós queremos que ela vá. E eu acho que no início, até se ganhar alguma consistência, requer bastante treino e algumas aulas. Portanto, é um desporto que requer alguma persistência no início para se desfrutar do desporto. E é um desporto que se caracteriza exatamente pela sua inconsistência.

Exatamente. No golfe há uma procura constante pelo equilíbrio entre performance, precisão e elegância. Na vossa experiência, até que ponto os detalhes podem fazer a diferença entre uma boa prestação e uma prestação memorável? Quicas.

No golfe? Acho que o golfe e o surf têm algumas coisas em comum, mas depois há outra coisa que eu acho que o golfe é muito distinta dos outros desportos, pelo menos os que uma pessoa pratica normalmente. No surf, nós reagimos à onda, é uma coisa momentânea, a onda vem, nós reagimos.

Pensamento rápido, poder de decisão.

Exatamente. Como no futebol, nós vamos a correr, a ajustar. Uma pessoa reage àquilo que está a acontecer. Enquanto no golfe nós estamos parados a olhar para a bola e temos tempo para pensar, não é quase em tudo o que nós estamos a fazer, mas eu estou a pensar: "E o braço aqui, ok, para dentro, e a mão aqui, a perna e não sei o quê". E às tantas, uma pessoa bate na bola a achar que está a fazer tudo certo, aquilo sai tudo um chanfro horrível para o lado. É complicado, porque aquilo dá-nos tempo para pensar em N coisas.

Por isso é que depois quando falha é tão frustrante.

Esse tempo pode ser usado contra nós, muitas vezes.

É o tempo.

Sim, como na maioria dos esportes, no surf é muito reativo, ou no tênis, em que a bola vem muito rápida. No golfe, nós damos a primeira tacada e só passado cinco minutos estamos a bater a segunda. E nesse tempo, e mesmo quando estamos à bola, temos tempo para pensar em 1001 coisas técnicas ou nos fatores ambientais, ou no vento, ou seja no que for, e se não tivermos realmente as coisas bem definidas na nossa cabeça do que queremos fazer, há muitas dúvidas que podem ali entrar, tipo last minute, e que fazem com que a técnica não saia tão bem.

Portanto, depois quando não sai bem, é fácil perceber o que é que correu mal ou nem sempre se consegue chegar a isso?

Nem sempre é fácil. Obviamente, a bola não mente, é o que nós costumamos dizer. Mas nem sempre é fácil, depois, num momento de pressão ou a meio de uma competição, percebermos o que fizemos mal, porque podem ser várias coisas. Mas é muito engraçado nesse aspecto e nessa gestão emocional versus outros desportos, em que acaba por ser tudo muito mais reacional e adaptativo no momento.

Se calhar também por isso, Quicas, é que gostas tanto da diferença entre os dois mundos.

Exato. Eu acho que ali dá-nos tempo para pensar, que às vezes pode ser o nosso maior amigo ou o nosso maior inimigo. E às vezes quase que é mais fácil: "Eu vou só tentar bater na bola, nem vou pensar, vou tentar tirar esta pressão de cima de mim". Atenção, eu estou a falar no meu caso, que eu vou ali bater umas bolas. Não é num torneio, com certeza.

Eu posso te garantir que quanto menos checklist tiveres na tua cabeça antes de bater na bola, melhor e mais fluido vai sair o swing.

Tomás, e o que é que falta para vermos o golfe português a afirmar-se de forma ainda mais consistente no panorama olímpico internacional? O nosso golfe.

Certo. Na minha opinião, prende-se por uma razão muito simples, que é a quantidade de golfistas que nós temos em Portugal, que é bastante pouca. Nós, embora sejamos um país com condições excelentes para a prática do golfe, temos apenas 18 mil associados. Isto comparado, por exemplo, com Espanha, o nosso vizinho, que tem 300 mil associados.

Sim, uma diferença.

Se formos a um exemplo ainda mais extremo, a Inglaterra tem quase 1 milhão de associados. É óbvio, com estes números, e o golfe não sendo um desporto culturalmente tido em Portugal há várias gerações, tudo isto faz com que tenhamos menos amostra, menos atletas a chegar ao alto rendimento e a querer fazer a passagem profissional. Portanto, esta pra mim é a maior razão.

É um desporto caro?

É um desporto que a nível júnior acaba por ser bastante acessível, mas eu acho que como qualquer desporto individual, a partir do momento em que o atleta decide jogar os campeonatos nacionais, fazer provas internacionais, as despesas de deslocação são bastante caras, como em todos os desportos individuais. O caso do material também acaba por ser, o material de elite, algo caro também. Mas para mim, a principal razão de ainda não termos tido mais afirmação no panorama.

Desculpa, interrompi-te. Disseste uma primeira e ias uma segunda explicação.

Sim, a segunda, eu acho que falta algum apoio, mas que tem a ver com esta questão de não haver muitas pessoas a jogar, não trazer muitos apoios ao golfe, da passagem dos amadores de alta competição, que representam a seleção, para o profissionalismo. Ou seja, essa ponte tem que ser muitas vezes feita "one man army", como costumamos dizer, pelo atleta, e ir à procura de patrocínios, ir à procura de acordos com os campos para poder treinar. E eu acho que como culturalmente ainda não existe muito essa questão, acaba por ficar um bocadinho difícil.

Portanto, ainda há muito que pode ser feito.

Há muito que esteja a ser feito e eu acho que a Federação tem feito um excelente trabalho para divulgar o golfe e para tirar esta ideia.

Esta iniciativa é mais uma, este podcast.

Exatamente. Tirar esta ideia de que o golfe é aborrecido e apenas para reformados e para pessoas super-ricas.

Nada de reformados aqui.

Exato.

Vocês dois são exemplo disso.

Eu acho, e daquilo que eu vejo, eu sinto que o golfe está na moda. Eu vejo cada vez mais influencers, atores e desportistas de alto nível de outros desportos, o caso do LeBron James, do Steph Curry, de atores, o Mark Wahlberg, e mesmo do Kikias no seu desporto. Ou seja, vejo muitas pessoas de outros desportos que se destacam a virem jogar golfe nos seus tempos livres e a postarem isso e a discutirem o quanto desfrutam realmente dessa sensação de calma, da sensação da competição interna. Ou seja, o golfe sou eu contra mim e vou tentar sacar o melhor de mim neste shot.

E ter algum controle sobre aquilo que faço.

E ter algum controle, exato. Portanto, eu acho que está na moda e que eu acho que vai crescer nos próximos anos, vai crescer bastante.

Para fecharmos a nossa conversa, uma pergunta de resposta rápida para os dois: se pudessem jogar uma volta de 18 buracos com qualquer atleta olímpico da história, de qualquer modalidade, quem escolhiam levar no vosso buggy? Kikas.

Ui, isso é uma pergunta complicada. Há tanta gente.

Não precisa de ser do surf nem do golfe.

Um atleta olímpico?

Sim.

Acho que o Steph Curry era uma pessoa interessante. Não sou um adepto gigante de basquete. Adoro basquete, mas não sigo fervorosamente. Mas acho que é um atleta interessante, é uma pessoa que eu acho que teria bons inputs para partilhar. E além disso, joga muito, pelo que uma pessoa vê online. Joga muito.

No teu caso, Tomás.

No meu caso, eu acho que iria mais para o Nelson Évora, por ter sido o primeiro português a quem eu assisti a ganhar uma medalha de ouro nos Jogos de Pequim.

Uma referência.

É uma referência. Eu sempre vi os Jogos Olímpicos e sempre me interessei muito pelo atletismo e pelos saltos, e o Nelson ao ganhar o ouro em 2008, eu fiquei com ele como uma referência e depois ia pra praia ver se conseguia também fazer os mesmos saltos.

Era uma boa dupla para termos aqui. O Steph Curry e o Nelson Évora neste podcast. Frederico Morais, Tomás Bessa, muito obrigada pela vossa presença e por esta primeira tacada de saída deste nosso podcast. Foi um gosto conversar com vocês. Obrigada. Foi o primeiro episódio de "Conversas no Tee", uma parceria com a Federação Portuguesa de Golfe e o apoio da DS Automóbil, onde a elegância, a precisão e a paixão pelo detalhe nos conduzem a novas conversas. Eu sou a Maria João Simões e regresso na próxima semana com um novo episódio. Até lá, bons swings.