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Esta quinta-feira estreia na oficina de teatro Escola de Mulheres, na Stefânia, em Lisboa, "Homem-agem". É a quinta produção da Companhia Obstiário, que ainda este mês celebra o seu terceiro aniversário de trabalho contínuo de propostas criativas e exigentes, incluindo para o público infantil. Vamos conversar com dois dos quatro fundadores da Companhia Obstiário, Teresa Vaz e Miguel Ponte. Bem-hajam por terem aceitado o nosso convite. Bem-vindos ao Observador. É um prazer estar aqui com vocês.

O prazer é nosso.

Muito bem. Muito bem ensaiados, muito bem treinados. Teresa, vou começar por ti. Eu podia dizer que tu és gestora e atriz, porque tu tens esta licenciatura em Comunicação Social e Cultural, que tu também tiraste. E depois foste mestrar para Valência.

Sim.

Em Espanha. Era importante, a escola lá era boa e valeu a pena esta gestão cultural que foste lá aprender?

É sim, eu acho que se voltasse atrás, voltava a tirar esta licenciatura. Agora, eu acho, a nível pessoal, que a partir do momento em que tens um Processo de Bolonha em cima, os mestrados a nível europeu já não têm o peso que tinham antes. Portanto, voltaria a fazê-lo, mas se me detivesse um bocadinho, acho que algumas coisas poderiam ter funcionado melhor.

Uma coisa que vocês ambos tiveram isso, é trabalhar os dois com o Teatro da Garagem, que é um teatro que eu gosto imenso, aquele teatro de Taborda. E fiquei tristíssimo quando houve aquelas obras na Costa do Castelo e a gente ficou quase impedidos de lá ir.

Muito difícil estacionar.

Pois, tem mais essa. Mas é um teatro que eu admiro imenso e gosto imenso, e acho que fazem um trabalho também insano. E os dois passaram por lá. Aliás, não sei se vocês quatro passaram por lá, os quatro fundadores, ou se colaboraram ou não com eles.

Os três. A Helena não chegou a procurar.

Vocês e o Afonso.

Sim.

Muito bem. O Miguel é completamente fora da caixa, porque vem das ciências farmacêuticas, o que também dá jeito numa altura destas, de ter alguém que tenha cabeça assente e sabe dizer: "Isto é perigoso, isto não é".

Sim, agora nesta altura é ótimo ter o sangue frio de ter esse conhecimento como respaldo e conseguir gerir melhor a situação toda e muitas das vezes até pôr água na fervura e explicar: "Ok, vamos perceber se alguém teve um contacto, se alguém quer tomar medidas em relação a qualquer coisa, qual é a forma mais prática de o fazermos, qual é a forma mais fria de não entrarmos em pânico sobre a impossibilidade de acontecer alguma coisa." Nisso, felizmente, tem me sido muito útil esse curso e também esse trabalho que eu continuo a exercer em part-time.

Claro. Em part-time continuas de vez em quando? Boa.

Sim.

Entretanto, tu estiveste em grupos universitários, foste, por exemplo, um dos fundadores do Tubo de Ensaios, que era o grupo de teatro da Faculdade de Farmácia. E depois tiraste o curso de teatro no ramo atores, obviamente. Passaste também, como já aqui falámos, pelo Teatro da Garagem e tiveste também várias experiências no cinema. Tu és então o tal fadista do filme do Soldado Milhões.

Sou ironicamente o que não canta, o fadista que não canta. Não, por acaso ficou gravado em alguns momentos, mas depois não apareceram em volume.

Na edição final.

Na edição final.

O filme do Gonçalo Dávila Teles e do Jorge Pais Silva Costa.

Mas foi uma aventura enorme e poder viver aquilo dentro das trincheiras e viver todo aquele ambiente. E fomos recruta a sério num dia. Fomos mesmo para Mafra passar um dia lá com os militares.

Da infantaria.

Sim, com os figurinos já do filme, já com armas falsas e mochilas pesadas e a mergulhar em tanques d'água. Foi uma experiência muito boa.

Feste o dia de recruta. Feste o tropa. Mas é uma experiência do cinema que também te gostas e se houver mais hipóteses, como houve o On Call ou Estávamos com História, são coisas que tu fazes como prazer.

Sim. É sempre uma questão de círculos. Nós estamos no teatro e às vezes conseguimos dar um pé num círculo que não é o nosso, neste caso no do cinema. Eu enquadro muito mais também neste círculo de teatro, mas pessoalmente estou sempre à procura também de poder experienciar essas outras vias da representação e da criação como sendo uma coisa talvez mais imediata, como é a televisão, uma coisa mais rápida, uma coisa mais ponderada, mas que exige outro tipo de trabalho enquanto ator, que é o cinema. Mas também a nível de teatro, experimentar a encenação, experimentar a interpretação em várias linguagens, em diferentes formas de o fazer, porque apesar de ter já alguma linguagem que eu considere minha, julgo que é com estes encontros que vamos melhorando e vamos colecionando isso num bolo e talvez quando eu tiver 40, 50, 60 anos.

Daqui a 30, 80.

Exato. Dar um nexo talvez na próxima pandemia, daqui a duas. Já consiga fazer aqui um caminho.

Na Covid-21, então vais.

Exato.

Teresa, também é engraçado porque tu estás a falar disso e realmente os inputs são variados e tu tens também essa versatilidade, eu admiro muito no vosso caso. E também é o teu, tu és diretora artística nesta quinta produção vossa, do Obstiário, és diretora artística, és dramaturga e também dás um toque na criação, no texto e na interpretação deste Homem-agem. E é bom tu tocares essas áreas todas. Vocês assim também podem variar e dar mais elasticidade à vossa cabeça. É verdade.

É sim, foi um desafio que me propôs, de fazer a parte da encenação, da dramaturgia e da interpretação. Este desafio foi bom, aprendi muito com ele, mas acho que numa próxima vez, se calhar vou retirar aqui algum destes papéis.

Distrai-te?

Não me distraiu. Sobretudo neste projeto, que é um projeto muito biográfico, muito de ir à nossa árvore genealógica.

Ao avô.

E também um processo muito solitário, que é um contrassenso pensando na criação teatral, mas na verdade foi um processo muito solitário, porque cada um de nós escolheu um solo e teve que aprofundar essa homenagem, esse solo. Portanto, existiram alturas em que estávamos a trabalhar ou só comigo ou mesmo individualmente. Acho que fez todo o sentido ser assim. Fez todo sentido eu entrar também, até porque esta ideia começou com o trabalho que eu tive que fazer pra Escola Superior de Teatro e Cinema. E nessa altura eu tinha acabado de perder o meu avô, e artisticamente comecei a pensar nesta questão da homenagem, que está sempre presente, desde os primórdios.

Desde as pinturas rupestres.

Exatamente.

Quem for ver, percebe.

Exatamente. É um spoiler.

Exato.

É um spoiler. Mas sim, é um ato que está sempre-

Mas é uma coisa que vem desde sempre.

Exatamente.

Mete tudo, mete pinturas, mete dança, mete expressão.

Sim, ritos fúnebres.

Exatamente.

E que nos acompanha até os dias de hoje. Nessa altura de luto, foi uma altura em que pensei realmente nesta questão da homenagem, como é que surge este impulso e que lugar é que tem este impulso. Que lugar é que teve nos nossos antepassados e que lugar é que ainda tem.

Exatamente.

De facto, isto surgiu de uma ideia minha, e essa ideia era uma ideia de entrar, e de entrar na prática. Depois convenci aqui-

O resto do vosso grupo

...o resto das bestas.

O resto das bestas, exatamente.

A entrarem. E fez todo o sentido eu não deixar de entrar, ou seja, continuar o processo enquanto intérprete.

Portanto, em palco vocês vão ser cinco?

Vamos ser cinco. Neste momento, estamos quatro.

Sim, mas cada um tem realmente um solo? Tem um momento em que-

Tem, tem um solo

...e foi dado livre-arbítrio, faz o que tu achas que é.

Não, existiram premissas, ou seja, não foi uma coisa de total liberdade.

Sim, está bem, solta. Tem que ter um tema.

Sim, houve uma investigação, que começou por ser teórica, depois passou pra prática. Teve muito a ver com a investigação que fizemos da nossa árvore genealógica.

Tem que pedir ajuda aos miúdos também pra fazer, que é engraçado.

Sim, pedimos.

Mais pequeninos, já vamos falar disso, do vosso trabalho infantil, que também é muito engraçado. Mas é engraçado porque estamos a falar agora em 2018, há dois anos, em que vocês com o Afonso Viriato e com a Helena Caldeira, e mais vocês dois, apareceu então este conjunto de vontades que se reuniu para fazer teatro, para dizer qualquer coisa ao resto das pessoas, ao público em geral. Mas é engraçado porque depois mete ciências, mete antropologia e mete filosofia, vocês têm peças que falam de física quântica e fala de coisas muito curiosas e muito diferentes. É engraçado porque vocês são de várias idades e de várias origens e vários estudos. E tudo isso está incorporado no vosso trabalho.

Sim, eu acho que faz um bocadinho parte da nossa metodologia de trabalho. Existe sempre uma parte extensa de referências teóricas e uma parte extensa também de trabalho prático. E na parte extensa de referências teóricas, faz parte, ou pelo menos tem nos acompanhado desde o primeiro processo artístico até ao "Homenagem", nós inspirarmo-nos e rodearmo-nos de áreas que não são as nossas, mas que são extremamente pertinentes para o tema que estamos a tratar. Desde o ato "Mávicto", a primeira produção. Aí, sim, entrou a física quântica. Na "Umbra" entrou uma parte muito mais filosófica e no "Homenagem" uma parte mais biológica e mais antropológica.

Muito bem, já vamos falar mais sobre isso. Mas antes temos que fazer um ligeiríssimo intervalo. Já voltamos à conversa. Teresa, Miguel, até já.

Até já.

Estamos a conversar com a Teresa Vaz e Miguel Ponte, dois dos fundadores do Bestiário, desta Bestiário que é uma companhia de teatro emergente, que esta semana leva a sua quinta produção, "Homenagem", à Escola de Mulheres, na Stefânia. Estamos a falar de uma companhia que apareceu em 2018, como já dissemos, com o Afonso Viriato, a Helena Caldeira e vocês dois, Miguel Ponte e Teresa Vaz. Três de vocês conheceram-se logo no primeiro ano do conservatório.

Na mesma turma, sim.

Na mesma turma. A Helena vinha da frente, mas depois apanhou-vos e depois esteve no Teatro Nacional a ensinar-lhes e depois voltou pra vocês.

Exatamente. A revelar os nossos segredos.

Exato. Vocês fizeram, por exemplo, e foi uma das primeiras coisas que fizeram, estas residências artísticas. Tiveram uma, por exemplo, no Teatro da Garagem, de um ano, que no fundo acabou por ser dois. Mas falem um bocadinho dessas residências artísticas. Vocês estão lá durante um ano, propõem-se fazer trabalhos e têm um espaço onde podem mostrar as vossas coisas e trabalhar. Qual é a função de uma residência artística?

Sim, uma residência artística pode se revestir de várias metodologias e pode vir em vários pontos de um processo artístico. Pode vir no início, no fim, pode vir mesmo antes da estreia. Nós, na nossa primeira produção, aliás, nós juntámo-nos logo na certeza de que hoje em dia já não existem grandes instituições teatrais que consigam acolher todos os atores que saem da Escola Superior de Teatro e Cinema e das restantes escolas do país. E desde muito cedo nós tivemos essa consciência, que não iria ser nem fácil, nem que seria imediato. Então decidimos nós, partindo desta necessidade, mas também de uma vontade de criar e de dizer alguma coisa, decidimos logo juntar-nos e começar a desenvolver esse trabalho. E neste caso, o Teatro da Garagem foi impecável conosco, porque o que fez foi dar-nos espaço de ensaios e um espaço para trabalhar durante um ano. E o que nós fizemos, na essência, foi termos um espaço que era nosso, seguro, com as mínimas condições técnicas, que é uma coisa que mesmo assim hoje em dia escasseia. E nós agora já temos alguns anitos, mas no início foi muito importante pra nós ter uma casa que nos acolhesse e que depois nos permitisse fazer o nosso primeiro espetáculo lá.

A residência artística é mesmo isso. Quer dizer, durante um ano faço uma coisa e ao fim desse ano, apresentam então o trabalho que construíram, que criaram.

Se pensarmos na própria palavra da residência, é quase como nos dessem uma casa pra podermos habitar. E neste caso, foi uma casa, um aluguer de médio, longo termo. No entanto, por exemplo, agora pra o Homenagem, fizemos uma residência artística em Elvas de uma semana, onde fizemos um ensaio aberto no Festival Assalto. Também tivemos uma residência artística em Montemor-o-Novo, no Espaço do Tempo, onde no culminar dessa residência artística fizemos a nossa estreia. Portanto, estas residências artísticas No sentido mais específico e mais conhecido da palavra, são momentos, normalmente uma semana, duas semanas, em que nós sentimos a necessidade de nos fechar num só sítio, longe do nosso cotidiano.

Da zona de conforto do dia a dia.

Exatamente, sem outras preocupações, onde podemos simplesmente conviver com aquele trabalho, deixá-lo da noite pro dia e pegá-lo no dia seguinte.

A marinar. Exatamente. Reserva.

Exatamente.

E criar.

É quase 24 horas a pensar e a falar sobre aquilo, a trabalhar o corpo, a trabalhar as referências, porque nesses processos nós sentimos que damos um salto quântico desde o momento em que entramos até o momento que saímos. Descobrimos imensas coisas, aprofundamos coisas que seriam impossível fazer em ensaios de duas a três horas durante a semana.

Estão completamente dedicados a isso e a criar e fora dos horários normais e da preocupação das contas e esse tipo de coisas, que é muito importante.

E só para completar aqui um bocadinho o que o Miguel disse, em relação à garagem. O diferente nesse processo, aquilo que não é usual, é darem-nos um ano de residência artística. Essa parte é que não é o normal. Sim, o normal é ser, como o Miguel referiu, uma semana até 15 dias. Neste caso, tivemos o privilégio de conseguir fazer uma criação e ir um bocadinho mais em profundidade e ter aquele tempo, que é um tempo que o contemporâneo não nos permite. É um tempo de desaceleração, é um tempo de ritual, é um tempo em que existe o vazio e que do vazio nos permite aprofundar e nos permite criar. E tivemos esse privilégio, não durante 10 dias, nem durante 15, mas durante um ano. Eu sei que foi um luxo, exatamente, um privilégio. Portanto, foi um bom pontapé de saída.

As vossas produções, a primeira produção esta, Atma Victor, estamos a falar em 2018, Sopo de Vida para duas pessoas inconformadas, com encenação tua, Teresa. Um texto que tu começaste a escrever em Valença, ainda estavas lá. Aí fala-se do amor, da revolução, do universo, o tal que fala da vida em Marte, por exemplo, e de antropologia e de filosofia. Vocês realmente são muito variados. De facto, tem um dispositivo cênico muito original, onde fizeram também, é um parêntesis curioso que eu quero tirar, porque nós iremos falar do Homem-Aragem, três ensaios abertos. É muito giro, porque vocês fazem os ensaios abertos e o público dá-vos feedback. Vocês também perguntam coisas ao público, o público pergunta coisas a vocês. Isso ajuda-vos muito a criar e a mudar o espetáculo e até a sua fase final. Mas será que há uma fase final num espetáculo desse? Com vocês nunca sei.

Eu acho que nunca há uma fase final. Eu acho que não há uma fase final com o Atma Victor. Não há uma fase final com a Umbra e também não há uma fase final com o Homem-Aragem, porque são objetos artísticos vivos. E são quase utopias. Utopias no sentido em que, dentro do contemporâneo, dentro das contingências do contemporâneo, são espetáculos que tentam rasgar a sua própria época, porque vivem de pessoas. Portanto, dependem exclusivamente de pessoas e da presença dessas pessoas e da entrega dessas pessoas. Portanto, tornam os espetáculos extremamente vivos, mas ao mesmo tempo muito frágeis.

Eles também evoluem.

Exatamente.

No ano seguinte, este Umbra, já com direção artística do Miguel Ponte, que recebeu um apoio da Fundação GDA, estreou em fevereiro do ano passado, há dois anos, já estamos em 2021, vou me esquecer durante um tempo. E este espetáculo um bocadinho diferente, que decorre no escuro. Aqui fala-se do silêncio, fala-se da lentidão. É um mergulho interior onde todas as pessoas são convidadas a entrar. Nasceu, aliás, de um convite da Gerador para fazer nas caves do meu antigo Liceu Camões, uma performance de meia hora e a partir daí nasceu este espetáculo, Umbra. É engraçado que há esta ponte agora para o vosso trabalho futuro, não estou a falar da mesma, mas estou a falar do Lúmina. E é o contrário, e já vai ser uma coisa frenética, as pessoas, a luz.

Vem. E vem nessa sequência do que a Teresa estava a dizer, de serem objetos vivos. E de serem objetos que dialogam constantemente com o contemporâneo e com o que nós estamos a passar. É uma tendência que nós temos, é pôr os nossos objetos artísticos a dialogar com o que se está a passar à nossa volta. Esta Umbra nasceu exatamente nesse contexto. Eu criei um pequeno conto de uma menina que recusava a sua sombra, até um certo ponto inverter e ser ela a sombra e a sombra passar a ser uma menina, uma espécie de Pinóquio com base na sombra. E desse objeto artístico nós começamos a falar, a desenvolver, a perceber que tínhamos mais referências para explorar e eu comecei a perceber que o diálogo ou o discurso daqueles espetáculos estava exatamente num contraponto ao ritmo que nós levávamos no cotidiano. Então, se o nosso ritmo normal é uma questão de luminosidade, ou seja, de termos luz 24 horas sobre 24 horas nas nossas cidades, na nossa casa, há sempre um interruptor ligado.

Os nossos ecrãs.

Exatamente. Se a nossa tendência é velocidade, é estarmos acelerados e termos o tempo sempre a correr, estarmos sempre a chegar em cima da hora. E se a nossa tendência também é o ruído, do nunca conseguirmos obter, senão numa caixa destas, que é uma rádio, um verdadeiro silêncio. Então vamos exatamente contrapor com isso tudo. Nós criamos um espetáculo que durante uma hora fazíamos uma espécie de viagem ou de mergulho, que partia desta contemporaneidade e deste ruído todo, e que íamos fundo para tentar, de uma forma poética e estética, apresentar uma solução do que é que poderia haver no fundo deste silêncio, desta imobilidade e desta escuridão. E então o espetáculo era esta viagem. E agora com a Lumina.

Que vai ser já este ano, em 2021?

Vai ser em 2022.

Ok, no ano seguinte.

Exatamente.

Depois de férias.

Exatamente. Neste segundo espetáculo, nós vamos responder à Umbra. E a nossa vontade é que criemos um espetáculo que seja dialogante e que eventualmente até dependa do visionamento da Umbra. Até já pensámos em programá-la em conjunto, pôr por exemplo primeiro a Umbra e depois a Lumina, ou o contrário, ser a Lumina e depois a Umbra, ou fazer os dois espetáculos ligados, sem paragem. E neste espetáculo da Lumina, nós descobrimos que a resposta mais simples estava à nossa frente. Se é um espetáculo sobre a luz e sobre o quotidiano, o ruído e a velocidade, então porque não dar a direção artística ao nosso desenhador de luz? Então o espetáculo também vai partir dessa premissa, que é o nosso desenhador de luz, o Manuel Abrantes, que trabalhou conosco na Umbra, irá propor, em primeiro lugar, todo o desenho de luz, irá fazer uma dramaturgia da luz e será ele a apresentar todas essas ferramentas.

Agora vai ter muito mais trabalho.

Exatamente.

No outro era tudo um bocado escuro. Agora aqui vai ter que dar que bata. Está a fazer volume no ordenado agora.

Exatamente. Agora ele tem de valer e já está a valer, porque já estamos a integrá-lo no processo mesmo a partir das candidaturas. Ele já esteve conosco nas candidaturas e mesmo nas entrevistas.

Vocês ganharam, entretanto, uma bolsa.

Ganhámos a bolsa do espaço de residência da Caixa.

Da Fundação da Caixa.

Exatamente.

Na categoria de pós-emergentes.

Exatamente. Já temos pó. Já somos emergentes com pó.

Exatamente. É engraçado e és tu que falas nisso, Miguel, a questão do automecenato, uma expressão muito engraçada, que é esta questão de as companhias estarem muito aflitas e agora na pandemia foi mais complicado, obviamente, para toda a gente. Mas esta coisa de estar um bocadinho dependente, esta coisa dos subsídios, esta coisa de haver esta residência, estas bolsas que vocês têm que candidatar, também mexe com vocês e obriga-vos a, como tu dizias, às vezes temos que inventar nós maneira de nos sustermos e de nos aguentarmos, porque não é fácil.

Sim, nenhuma pessoa neste coletivo está a trabalhar exclusivamente do Bestiário, longe disso.

Antes fosse.

Nós estamos constantemente com amor à causa.

É que é o teu part-time que estavas a falar.

Exatamente. Todos nós temos part-times ao lado, com os quais conseguimos encaixar com o nosso trabalho no Bestiário. Mas é sempre nesta perspectiva de um dia conseguirmos criar um sustento, uma plataforma, uma base, uma rede de contactos que nos permita eventualmente poder dar o salto e assegurarmos isto como tempo inteiro e como projeto de vida.

Vocês também vão ter aquela-

Mais está aquela procura de espaço que nos permita mergulhar a fundo só na nossa estrutura, que neste momento ainda não é possível.

Também vão ter uma parte de dança com a Teresa Manjua, certo?

Sim, é bailarina.

Juntou-se a vocês como bailarina.

Já agora aproveito para dizer que o Manuel Abrantes também está a fazer o desenho de luz do Homenagem, portanto é uma colaboração contínua.

Uma paixão.

Exatamente.

É muito engraçado, porque estamos agora a falar um bocadinho deste espetáculo, este Homenagem. O teu avô, Teresa, tinha morrido há pouco tempo e tu pensaste então que era engraçado fazer esta homenagem. Baseiam-se, por exemplo, desta questão destes dois, também tem esta colaboração destes dois projetos pedagógicos que vocês fazem trabalho com eles, os internatos, as criancinhas. As crianças do quê? É pré-escolar?

É pré-escolar.

São pequeninos, quatro, seis anos.

São dos três, quatro até aos seis.

Pronto, aqui dos Internato Santa Teresinha de Lisieux. E depois tem um grupo de adolescentes e pré-adolescentes da Matraca. Ambas em Lisboa. Esses aí já são mais velhos, 15, 16, imagino.

Começar nos 12, 13 até aos 16.

Pronto. E usam muito, colaboram com eles para fazer essa vossa pesquisa, porque isto teve uma pesquisa, obviamente, e portanto, quer esta, como tu gostas de dizer, esta investigação à macroescala, a história das homenagens, como é que elas apareceram, cá está, os homens pré-históricos, não vou fazer mais spoilers, mas vale a pena.

Vêm ver.

Exatamente, vão ver, de sete a 10, ali na Escola das Mulheres. Mas depois também esta microescala obrigou-vos a investigar as vossas famílias, descobriram que não sabiam muita coisa sobre elas. Descobriste tu, Teresa, por exemplo, que tinhas, houve até uns tabus, todas as famílias têm tabus, e descobriste os teus e não são fáceis de viver e de falar disso e de integrar isso, mas tu conseguiste fazer isso.

Nós acho que passámos todos por isso.

Sim.

E no início fomos um bocadinho ingénuos. Não sabíamos muito bem no que é que mar tenebroso nos estávamos a enfiar.

A mergulhar. Vocês gostam muito de mergulho, exatamente.

Nós gostamos muito.

Exatamente, já percebi.

Por isso é que andamos sempre ou nus ou com roupa quase de mergulho.

Da cor da pele, exatamente.

Desde o Atma Victor até agora.

Pois é, vocês são muito físicos, muito corpóreos nas vossas peças, é muito engraçado, é intenso à brava.

Mas sim.

Foste investigar.

Nós fomos investigar a nossa genealogia.

E também os miúdos, com quem vocês colaboram, pediram aos pais deles, os mais pequeninos, que os pais deles arranjassem a árvore genealógica.

Exatamente.

E os mais crescidos, os próprios investigaram.

Exato. O que foi um processo um bocadinho diferente. No caso dos jovens, eu senti que aquilo foi bastante político. Esse apoderamento de quem é que são os meus antepassados e de descortinar um bocadinho, através dos meus antepassados, quem sou eu e quem é a minha família.

É, e pediste-lhes histórias, quem são. E traga uma história de um vosso avô, de um bisavô, de uma bisavó.

Tentei sempre ir o mais longe possível. Tentei sempre ir ao trisavô.

Não toda a gente conseguiu.

Não, quase ninguém conseguiu. Começámos a perceber que conhecemos muito pouco dos nossos antepassados, das nossas raízes. E era um problema que nos tínhamos posto logo de início. Essa desconexão com a Terra e com as nossas raízes torna-se um problema, nem é presente, é futuro. E partimos um bocadinho dessa premissa. Agora, não sabíamos, a nível sensorial, a nível mais do que sensorial, psicológico, no que isso depois poderia provocar em nós. Não sabíamos as coisas que iríamos encontrar. E na verdade, todas as famílias têm os seus tabus e têm as suas partes mais invisíveis. E nós no espetáculo jogamos um bocadinho com isso, com aquilo que é visível, e no espetáculo parece que é tudo visível, porque nós não saímos de cena e fazemos tudo em cena, mas a verdade é que nas palavras e nos atos há muita coisa invisível.

E também relembram, por exemplo, fala-se também neste espetáculo, Homenagem, cá está, homenagem, portanto, a questão do esquecimento e do luto.

Sim.

Toda a gente já perdeu alguém que gostava e isso é importante porque passa também por esta vossa criação. Este tempo da pandemia, por exemplo, vocês que trabalham há três anos com crianças e têm esta vossa questão dos parlamentos Grimm e do parlamento Shakespeare. Vocês que fizeram sempre este trabalho com as crianças, que é muito interativo e jogam muito com elas e metem ecologia e metem muitas coisas para as crianças pensarem e vos ajudarem também, porque elas também vos ajudam e também aprendem com eles, com certeza.

Sim, aliás, de facto, há uma parte do espetáculo, uma pequena coreografia que nós temos no espetáculo, que surgiu destas sessões que fizemos com o Internato Santa Teresinha. De uma coisa tão simples como explicar através do corpo como é que é o processo de crescimento de uma planta. E para isso nós fizemos uma coreografia e a dada altura, porque estávamos a trabalhar em paralelo, estávamos a trabalhar no nosso espetáculo enquanto criadores no "Homenagem" e com Santa Teresinha, estávamos a trabalhar em paralelo, e a dada altura fez todo o sentido essa pequena e singela coreografia entrar no nosso espetáculo de adultos.

É muito giro, porque vocês têm essa preocupação também, o que é curioso em vocês, que é este trabalho com a comunidade. A vossa sede neste momento é onde? Estão a fazer o espetáculo ali na Escola de Mulheres, ao pé da Estefânia.

Sim.

Mas também estiveram, por exemplo, no Intendente.

Lar Residências.

Lar Residências.

Foi um grande parceiro.

E aí estavam, se não me engano, estas duas instituições eram por ali ou não? Por aquela zona.

Santa Teresinha?

Sim.

Não, Santa Teresinha é ao pé da Culturgest, ali no Campo Pequeno.

Mas já tiveram coisas.

E a Associação Matraca, em Caxias, já passa Lisboa.

De qualquer modo, têm essa preocupação de fazer coisas com a comunidade local e com envolver as pessoas e os pais dos miúdos. Isso é muito curioso.

E não só isto, não é uma coisa simplesmente altruísta, se me permitem.

Sim, claro.

A incorreção política, nós também fazemos isto para retirar alguma coisa para os nossos projetos.

Claro.

No sentido de que é uma troca, e nós não fazemos isto só porque queremos fazer um teatro de comunidade. Achamos efetivamente que é necessário que enquanto criadores, possamos ter uma antena também dentro do que é de facto o contemporâneo, o que é que é mais contemporâneo que as nossas crianças? Então se nós conseguirmos estar a trabalhar com eles, perceber também as dúvidas que eles têm, estas questões, que tipo de feedback é que temos quando lhes pedimos a eles para trazerem uma árvore genealógica, se todos conseguem, se nenhum consegue, que tipo de dúvidas é que eles nos põem, o que eles percebem do nosso discurso. Sempre que nós chegamos lá com ideias preconcebidas do nosso espetáculo e os confrontamos com elas, muitas das vezes aprendemos e conseguimos chegar a conclusões que nos dão chaves para a nossa própria criação dita profissional e adulta. E então uma coisa complementa-se muito à outra e é por isso também que nós chamamos normalmente estes projetos O Paralelo. Tivemos o Paralelo Homenagem o ano passado, antes tivemos o Paralelo Umbra, onde também trabalhamos a escuridão e a questão da calma.

Da sombra.

Da sombra, do que é a reflexão, a meditação, a interioridade.

Como é que o corpo reage a trabalhar no escuro?

Será que quando as coisas acontecem no escuro, acontecem mesmo? O que se ouve para lá do escuro?

E crianças com escuro, não é só aquela questão do medo do escuro. Elas de facto entenderem, de repente, aquilo como uma outra possibilidade de estarem de olhos fechados, que é uma coisa que eles se calhar não terão como instinto imediato. E então estamos sempre em diálogo com estas duas realidades.

Engraçado essa parte que estavas a falar do Paralelo, precisamente esse lado pedagógico do Bestiário, trabalhando com as crianças e as comunidades, normalmente durante o ano letivo.

Isso por um lado, porque depois a nível de espetáculos, nós fizemos os parlamentos, o Parlamento Shakespeare e Grimm, que já é outro tipo de trabalho. No Paralelo, é um trabalho local, é um trabalho de aproveitar os temas que estamos a trabalhar na nossa criação e expô-los, como já referiu o Miguel, a determinadas idades e ver o que acontece.

E é quase uma residência artística, em certa medida, que falávamos há pouco delas.

Sim.

E os parlamentos é outra coisa.

A Teresa olhou para o Miguel como quem diz: "A gente depois conversa."

Não. Eu olhei, eu fiz assim, acenei a dizer: "Sim, é verdade."

Ok.

Nunca tínhamos pensado nisto, neste sentido. Acho que a Teresa pensou.

Pois, foi isso. Não tinha pensado nesses termos.

Basta haver um observador, estas ideias acontecem.

É isso, temos que ficar mais vezes para brotar estas conexões.

Muito bem. Também sabem que vocês passam pelo cinema, pelo teatro e por tudo. E sabem também que na rádio o tempo voa, é mesmo assim. E nós infelizmente já não temos mais tempo, mas quero agradecer aos dois, Teresa Vaz e Miguel Ponte.

Obrigado.

Obrigada.

A vossa disponibilidade por estarem aqui no Observador. Fica aqui o convite, se tiver oportunidade para ir ver o espetáculo "Homenagem" pela Companhia Bestiário. Portanto, esta quinta, dia 7, até domingo, dia 10, na Oficina de Teatro Escola de Mulher, na Rua Alexandre Braga, 24 A, ali à Stefânia, em Lisboa. Vá ao teatro, é muito seguro e vale a pena apostar e ajudar a nossa cultura. Aos dois, bem hajam e muito obrigado. Até breve. "Break a leg", mas mantenham-se seguros, ok?

Sempre. Obrigada.

Muito obrigado.

Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto