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Primeiro dia num set do Pedro Almodóvar. Foste muito confiante ou foste em modo: "Não posso estragar isto?".
Fui modo fã, basicamente, por dentro estava tipo: "Oh my God, meu Deus!". Claro, superprofissional e superresponsável, mas lembro-me quando ele saiu do carro e estava a entrar no set, eu estava sentado a olhar pra ele e estava tipo: "Oh, meu Deus, ele está aqui".
Hoje acolho um ator que vive literalmente entre dois mundos. E não, não é uma personagem de ficção científica, nem foi passageiro da Artemis. Diogo Belizário vive entre Lisboa e Madrid, entre o teatro e o audiovisual, entre o cinema de autor e as grandes plataformas. Basicamente, um homem que não gosta de estar quieto. Começou cedo a cruzar fronteiras, primeiro em férias, depois na vida, e acabou por construir uma carreira que passa por séries, novelas e cinema. Ainda recentemente, ví-lo na série "Marbella", da Movistar+, ou no último filme de um certo realizador chamado Pedro Almodóvar, coisa pouca, que estreou há um mês em Espanha. Começou no teatro e fez cinema, televisão, dobragens, locuções, até para o governo de Espanha, e performances que apresenta em cidades como Berlim, Madrid, Barcelona e Lisboa. Entre a disciplina e o improviso, entre o lançar-se à piscina e a construção minuciosa de personagens, o Diogo Belizário tem vindo a afirmar-se como um dos atores portugueses com percurso mais internacional, mas sem nunca largar o português nem o sotaque, espero. Olá, Diogo, e bem-hajas por teres aceitado este meu convite. Bem-vindo ao "Olá, Bom Dia, Muito Bem".
Olá, muito obrigado pelo convite.
É um grande prazer estar aqui a falar contigo, porque és torriano, eu não sabia. És torriense.
Torriense. Nasci em Torres, mas cresci sempre no Bombarral, que está lá ao lado, na zona oeste.
Que é uma região meio muito rural. O que ficou destas raízes, de ter crescido e das escolas?
Acho que agora é uma coisa que estou a valorizar bastante, já que vivo em cidades grandes e nunca gostei de viver em sítios pequenos como o Bombarral, mas agora é uma coisa que valorizo bastante é a tranquilidade. Tranquilidade e o fato de poder ter nascido com a natureza e perto do mar, que agora em Madrid não temos mar, portanto, é uma coisa que valorizo.
É muito continental, o clima e tudo.
Superseco.
Mas tem uma coisa que eu gosto: as fontes de Madrid, todas, desde a de Cibeles e por aí fora, todas funcionam.
Todas.
Com imensa água. E nós trazemos pouco lá da água e temos fontes secas por toda a cidade. Faz uma imensa impressão isso. Eles lá fazem questão.
Sim. E com luzes também, que dependendo do momento, se Madrid ganha um jogo, põe as cores de Madrid, se for o orgulho gay, põe as cores gay, se for a festa de Madrid, põe da bandeira de Madrid.
Incrível. Ligam muito isso à água e às luzes, esse ambiente urbano. Eu gosto muito disso. Sabes do teu nome, sabias do teu nome? Sabes a história? Sabes que Belizário vem do latim e do grego e quer dizer guerreiro?
Não sabia. Por acaso não sabia. Sabia que vem do italiano, do latim.
Sim, Belizário, há 1500 anos, era um famoso general do Império Bizantino, conhecido como o último dos romanos, e que significa um bocadinho o que arremessa os dardos. É giro.
Sim.
Tens jeito para jogar dardos nos cafés?
Por acaso não costumo fazer muito isso. Não costumo jogar muito dardos, mas gosto da ideia do guerreiro.
Ok. E também guerreiro, sim, vem quer de Belo, quer de belicismo, tem a ver com guerra, portanto tem a ver com guerreiro. Engraçado. E também tem um significado simbólico associado, quer dizer, uma personalidade discreta e observadora. Será que és?
Sou bastante.
E depois tímido?
Discreto não sei, mas observador, sim. Tímido, depende do contexto. Se me puseres em cima de um palco, não sou tímido, mas talvez numa situação social possa ser tímido, depende um bocado da situação.
Ok.
Mas é um bocado engraçada esta questão dos atores, que às vezes não somos tímidos em palco, mas somos tímidos em vida real.
É isso. É porque ser ator é uma grande exposição, dá uma grande exposição, mas eu tenho tido colegas teus, homens e mulheres sentados aí onde estás, que dizem muito: "Eu sou uma pessoa supertímida, mas quando entro no palco, eu assumo outra personalidade".
Esquece.
E de facto não me faz impressão estar a falar pra mil pessoas.
Sim.
É muito curioso.
Mas ao fim e ao cabo não é real.
Pois, exato. Encarnas outra.
Exatamente.
Estás defendido, digamos assim.
Exatamente, é mesmo isso. Tens essa defesa do personagem que não estás ali. És tu, mas não és tu. Basicamente, estás a dar corpo a outra coisa.
Exatamente. Dar corpo, e tu que dás muito corpo, porque és 1,86 m, és muito alto. A maior parte das férias tu passavas com os teus avós, no Algarve, no Minho, mas também viajavam pela Europa.
Uhum.
Por quê? Iam passear em turismo?
Sim, os meus avós-
Espanha, Inglaterra, França
...adoravam viajar.
Isso é tão bom.
Isso é muito bom.
Ver horizontes.
Sim, isso era uma coisa que sempre me fascinou nos meus avós, que eles iam viajar, e nos meus pais também, mas quando eu crescia com os meus avós, que iam para os Estados Unidos, iam pra vários sítios e depois voltavam, traziam presentes, contavam histórias. Isso foi uma coisa que me fascinou sempre.
E contigo, quando é que te levavam já mais crescidinho, se calhar levaram-te pela Europa afora, de carro, ou como é que era?
Pela Europa, começamos a ir quando eu tinha 12 anos, 13, íamos de caravana.
Ah, que giro.
Muitas vezes. Fazíamos todo o sul de Espanha, sul de França, um bocadinho de Itália, íamos à Disneyland, ficávamos dois dias lá e depois voltávamos. Fizemos isso duas vezes, a viagem à Disney, por exemplo, e isso pra mim foi inesquecível.
É extraordinário, e é tão bom. Avós que levavam a viajar é das coisas mais bonitas e mais importantes que se pode ter na vida e que te faz crescer. E que, de facto, abriu-te muito os horizontes e deu-te esta vontade de: "Eu tenho que morar lá fora e lá fora há muitas oportunidades".
Sim, eu acho que isso também já vem um pouco do Bombarral. Sabes como o Bombarral é um sítio assim mais pequenino. Eu já tinha esta coisa-
Mais pequeno
...de sonhar, de ir lá pra fora e tudo isto. E também por nós que estamos aqui no cantinho da Europa, eu sempre também senti que tinha que explorar um bocado, pelo menos.
Exatamente. Tão bom.
E o fato de ter esta oportunidade de viajar com os meus avós permitiu-me isso. Permitiu praticar línguas, conhecer já alguns sítios pra eu pensar: "Se calhar eu aqui-
Podia ser feliz
...podia ser feliz nesta terra", por exemplo, com Espanha. Então, desde pequeno, tive este contato com Espanha e foi isso, acho, que me ajudou bastante a dar essa porta.
E também vias a televisão e vias os filmes e gostavas de música, tudo, não é?
Sim. Almodóvar também é uma grande influência.
Muitas referências. Sim, já lá vamos. Tu tiveste uma infância meio problemática. Tu fugiste uma vez de casa, ias morrendo afogado duas vezes, é verdade? Mas que idade tinhas?
Isso foi até eu ter seis a sete anos. Até eu ter seis ou sete, ou seja, com três, quatro, cinco, era uma criança bastante problemática.
Tanto que a tua mãe tinha que recusar muitos convites pra poder tomar conta de ti.
Exatamente.
Mas tu tens mais irmãos?
Tenho uma irmã mais velha, super bem comportada, não tinha nada a ver comigo. A minha mãe deixou de ir a casamentos, deixou de ir a eventos sociais, porque eu era um-
Pra ficar com você. É sério?
Porque eu não me sabia comportar, basicamente.
Mas aos seis, sete anos, mas o que aconteceu? Viste Jesus?
Eu acho que se calhar isso-
Tiveste uma epifania qualquer?
Eu acho que sim. Não sei, alguma coisa-
Aprendeste a ler, sei lá.
Alguma coisa fez um clique.
Passaste a ser ótimo aluno, passaste a ser muito bem comportado.
Sim. A minha mãe até diz que se eu tivesse sido o primeiro, ela nunca tinha tido mais nenhum filho.
Encheste as medidas da maternidade.
Sim.
Tu depois chegavas a ganhar diploma do melhor aluno da escola.
Sim. É extraordinário. Quase todos os anos ganhava esse diploma. Era um aluno aplicado, gostava de aprender, era interessado também.
Aos 10 anos, foi a catequese te dar um pontapé no rabo porque tu dizias, com 10 anos, que não acreditava em Deus. Por que te expulsaram? Senão, mais uma razão pra estar na catequese, pra aprender.
Exatamente.
Mas portavas-te mal nas aulas de catequese?
Não me portava.
Não te dizia nada aquilo.
Não me dizia muito, eu estava um bocado obrigado por causa dos meus pais. Mas eu acho que o facto de me terem expulsado da catequese por ter dito isso, pra mim já foi: "Ah, é? Ok, então pronto. Na realidade, se vocês me estão a expulsar é porque eu não pertenço aqui, então não faz sentido". Mas eu concordo contigo, acho que eles deviam ter agarrado nessa oportunidade.
Há outra maneira de explicar, de tratar. Pelo menos a convivência é importante pro testemunho, não é necessariamente aprendam estes dogmas, não é por aí.
Sim.
Hoje em dia não tens relação nenhuma com o transcendente, com Deus, com o espiritual, com alguma oração? Zero?
Eu ainda não sei responder a isso. Eu acredito em qualquer coisa, não sei o quê. Acho que no meu entendimento diria que é o destino, talvez uma coisa assim. Mas eu acredito. Não sei em quê, mas acredito em qualquer coisa. Eu ainda estou a tentar descobrir isso.
Boa. Tu começaste ator, sempre soubeste que querias ser ator. Com oito aninhos já entravas numa peça, que é da escola, imagino?
Da escola, da catequese, na altura.
Também fiz de Deus.
Fiz de Rei mago, por exemplo.
Não fazias de Adão e Eva a ser expulso para aí?
Não tive a oportunidade de fazer esse.
O Rei mago.
Mas fiz. Acho que a minha primeira peça foi mesmo com seis, a fazer de Rei mago na catequese.
Origens no teatro, é ótimo que lembraste disso.
Sim.
Muito bem, mas ator era o que tu sabias que querias. De onde é que vem este fascínio do "eu quero ser ator"? Peças tu viste, vias da televisão, vias o quê? Alguma coisa que tu-
Sim, eu acho que foi sempre o fascínio pelas artes, em primeiro lugar, e depois pelo mundo do espetáculo também. Eu na altura pensava se queria ser ator ou cantor, mas depois decidi: "Ok, não sei se a voz é muito o meu talento, portanto, acho que vou mais pra interpretação, que eu sei que é uma coisa que tenho mais jeito pra isto". E a partir desse momento era uma coisa super clara na minha vida e foi sempre uma coisa que eu tinha muito claro e que sempre lutei com esse objetivo, basicamente.
A posse de ser cantor, tu na família também. Tu és Barreiros, de apelido também.
Exato.
E portanto, tens alguém, um Barreiros muito famoso na família.
Tenho, sim senhor.
Que é padrinho de casamento dos teus pais.
Padrinho de casamento dos meus pais, sim, e da família também.
Alguém que é primo vosso ou tio?
O pai é meu primo. A nível genealógico, é meu primo.
Quim Barreiros é um homem extraordinário. Eu tive a sorte de jantar com ele há uns meses e fiquei ao lado dele, à conversa com ele. Ele muito interessado em tudo que eu fazia, como é que eu fazia. Uma pessoa fascinante, que nesse momento explicou-me ele, toma conta da agenda dele, ajuda as pessoas todas que pode. Coisas de irmãs, não sei o quê. É sempre cuidadoso com as pessoas.
Super familiar.
E depois não para. Eu acho que ele tem duplos, vários, a atuar com a cara dele. É extraordinário, é muito ativo. Ele já não é cinquentão, já tem mais uns anos.
Não.
Muito ativo, muito interessado nas pessoas e muito talentoso. Ele é muito engraçado.
Sim. Eu acho que é uma pessoa fascinante, super engraçada, muito talentoso, muito familiar. E é verdade que é muito trabalhador. Com a idade e com a carreira que ele tem, às vezes termina espetáculos super tarde e vai de carro pra outro sítio à tarde, à noite.
Exatamente. Tem um gig amanhã.
Exatamente.
É extraordinário.
Muito trabalhador.
Aos 18 anos vieste então para Lisboa e começaste a estudar Relações Públicas e Comunicação, aqui na Escola Superior de Comunicação Social. Tu sempre tiveste um estilo fora do normal, fora da caixa. E por isso tiveste algum bullying também por parte de colegas teus. Isto ainda mais novinho ou já mais na faculdade?
Não, mais novinho, mais na escola. Foi um bullying soft, poderia dizer eu, porque tinha uma irmã mais velha na escola que sempre me protegia um pouco.
E tu também eras alto.
Eu também era alto, mas na escola não contava muito, acho eu. Mas sim, por causa do meu estilo, sofri um cadinho de bullying na escola.
A questão de seres ativista queer tem muita a ver com esse tempo também? Como eles te identificavam e chamavam e gozavam.
Sem dúvida. Eu acho que foi sempre uma coisa, porque eu depois também transformei isso, depois já quando era adolescente, transformei numa coisa reivindicativa, ou seja, eu ia pra escola mesmo com roupa pra afirmar e pra chocar e tudo isso. Isto na altura, quando eu tinha 15 anos, claro. Eu acho que necessitava um pouco de chocar as pessoas e eu pensava: "Ok, as pessoas de Bombarral e Torres Vedras e tudo isto vão abrir a cabeça".
Uma época que era mais complicado.
Exato. E eu queria fazer um pouco como esse vessel de abrir a cabeça a toda a gente. E então assumi um pouco essa responsabilidade, que não é uma responsabilidade, mas sim assumi, e que ficou um pouco. Agora já não tenho esta coisa de provocar, nada disso, já não sou essa pessoa, já não sou adolescente, mas tenho essa missão dentro de mim, acho eu, ainda hoje.
Aos 19 anos então começaste a trabalhar e estudar, digamos, mais seriamente com o John Romão, também já passou por aqui. Foi uma grande influência, é um grande amigo seu, ele.
Não sei se seria um grande amigo meu, mas é uma grande influência minha e foi uma porta que se abriu ali naquele momento também quando eu tinha 19 anos para o mundo teatral mais contemporâneo, mais físico, mais apocalíptico, talvez naquela altura, assim mais dark, que foi uma paixão também, sem dúvida.
Muito bem. Aos 20 anos fizeste um Erasmus em Madrid, que já estavas em Madrid, na Complutense. Terminaste o curso de Comunicação. O espanhol pra ti, tiveste aulas de espanhol e tinhas muito contato com a cultura espanhola, moldou, e são palavras tuas, moldou, influenciou muito a minha identidade, dando-te esta abertura de horizontes, de facto. Por que em que momento é que ir pra Espanha deixou de ser turismo e passou a ser uma segunda casa?
Eu fui fazer Erasmus pra Espanha, pra Madrid, então esse ano, e depois fui pra Londres e queria ir viver pra Londres e queria ficar em Londres e tudo isso.
Já tinhas 21 anos nessa altura.
Já tinha 21 e queria estudar teatro em Londres, mas depois de estar lá um ano em Londres, senti que não era pra mim. Londres não era uma cidade pra mim.
"Vou pra Madrid".
"Vou pra Madrid". E voltei pra Madrid.
E de facto foste.
E fui. Eu estava a fazer as provas em Londres pra entrar e automaticamente enviei os documentos pra fazer as provas cá em Espanha e saí de Londres em maio e fiz as provas em maio.
Fizeste Arte Dramática e Interpretação no Estudio Corazza, um curso de quatro anos. Aqui é que foste colega do Rodrigo Santoro?
Fui colega do Rodrigo Santoro nessa escola durante um mês. Ele estava lá a preparar uma personagem com o diretor da escola, que é o Juan Carlos Corazza, e ele nunca tinha estudado Shakespeare e nós estávamos a estudar Shakespeare nessa altura, então ele foi pra nossa turma e esteve lá comigo um mês.
Simpático no dia a dia?
Super simpático.
Sorte a dele.
Gostei muito dele.
Deve ser uma pessoa icônica também, extraordinária.
Sim. Em Espanha ninguém o conhecia. Eu, português, conheciam, então eu era o que estava assim mais em esta, se comparecesse com ele.
Em coliguidade com ele, exato.
Exato.
Madrid escolheu-te ou foste tu que escolheste Madrid?
Eu acho que escolhemo-nos um ao outro. Eu acho que Madrid, eu desde pequeno tenho este fascínio um pouco por Madrid, e acho que Madrid, quando eu cheguei, senti-me logo em casa, automaticamente.
O que te apaixona? La Movida, as pessoas.
La Movida, as pessoas, o estilo de vida, o clima, a comida.
O clima, mas tu não achas muito, cá está, não tem mar e faz-te tanta falta.
Em Madrid. Mas tu vais a Valência, vais a outros sítios e já tens mar e já tens esta cultura mais praia.
Cortas o sol, cortas tudo.
Mas em Madrid sinto muita falta do mar, sem dúvida.
Ao fim de 12 anos, o que é que Espanha te deu que Portugal não te tenha dado, e o contrário? Por que lá é-
Eu acho que lá há mais oportunidades.
É um meio muito maior, de facto.
É muito maior e há mais oportunidades. Eu acho que é bom teres as duas coisas ao mesmo tempo. Eu em nenhum momento pensei: "Vou pra Espanha, vou ficar em Espanha" ou "estou em Portugal, vou ficar em Portugal". Eu acho que eu sempre tive a cabeça ou a mentalidade de-
Cá está, em dois mundos, nos dois
Dois mundos totalmente diferentes. Também a porta de Inglaterra nunca se fechou e tenho essa porta também aberta.
Que bom.
Eu gosto de estar uns meses aqui, estar outros meses ali, dependendo do projeto, dependendo daquilo que eu tiver pra fazer.
Há sempre coisas a acontecer. É um mundo onde há muitas produtoras e plataformas.
Sim.
E, por outro lado, tu também dizes que o trabalho do ator está mais regulamentado e protegido legalmente. Existem organizações que ajudam os atores nesse sentido.
Exato.
E lá nota-se mais isso.
Lá nota-se muito isso.
E outra coisa que tu também dizes que se nota, que é: o trabalho do ator é muito valorizado lá. As pessoas consomem muitos filmes espanhóis e teatros espanhóis. Eu vi isso.
Sim, eu acho que isso é uma grande diferença que nós temos cá em Portugal.
E nós não muito.
Do consumo do produto nacional. Lá em Espanha há um orgulho muito grande do cinema nacional. As pessoas vão ao cinema ver filmes espanhóis e muitas pessoas até preferem o cinema espanhol ao cinema americano ou cinema europeu. São muito fãs.
Nós, pelo contrário, achamos que alguma coisa do cinema português. Acho que essas coisas, pra mim, estão a mudar um bocadinho. Ontem a minha convidada foi uma cineasta portuguesa. Estão a mudar um bocadinho, mas ainda há muito aquela coisa assim: o cinema português é chato, é mole.
Sim, é lento, é o que se diz.
"Tem os bons atores, depois as pessoas gostam de os ver nas novelas". Tu na Promessa. Pronto. As pessoas depois gostam de os ver, mas vão ao cinema e torcem muito o nariz, preferem uma americanada.
E também temos bons realizadores. Eu acho que, sim, em Portugal também temos. Mas não é esta coisa de valorizar o nosso produto nacional.
Também, se calhar, o ICA não tem muitos meios pra correr. Isso ajuda. A minha convidada de ontem dizia isso, que foi o primeiro filme que eu fiz, este Damas, que está agora aí, com apoio do ICA. Então não calculo o que eu consigo pesquisar porque tenho aquele dinheiro a mais pra aquilo, e os atores que eu posso convidar e os sets que eu posso criar. E com as limitações que a gente tem. Normalmente, no cinema, cá em Portugal é muito pouca a dotação pra cada um.
Sim.
E, portanto, acaba por ser mais difícil. Ela diz que com um bocadinho mais de meios a gente conseguia fazer muito mais, porque o talento está lá.
Sim, sem dúvida. Mas eu acho que Espanha apoia mais o cinema. O Estado apoia mais, há mais dinheiro, há mais projetos. Há muitas sedes também de plataformas que têm sede em Madrid, estão em Espanha e estão sempre a produzir coisas. Há sempre alguma coisa a acontecer.
Sempre a trabalhar. É espantoso isto.
Sim.
Também há uma arte, e tu dizes, tem a mesma origem, muitas vezes até os mesmos temas, mas as energias, os estilos, os ritmos totalmente distintos entre as artes portuguesas e espanholas. Diferenças que também são visíveis no cinema. Tu notas isso. A nível de performances e artes performativas, tu também és criador, já apresentaste performances em Berlim, Barcelona, Madrid. Como é que isto começou e do que é que constam as tuas performances em geral?
As minhas performances geralmente são temas pessoais. São fases da vida que acabaram e que eu preciso de expor isso a nível artístico.
Uma autoautobiografia nas artes.
Um pouco no palco, na rua. Costumam ser sempre em galerias de arte ou em teatros, ou coisas assim, mas sempre com uma vertente muito visual. Ou seja, mesmo performance, às vezes com texto, às vezes sem texto, mas com uma vertente muito mais visual e geralmente com experiências minhas de vida.
És tu sempre, mudam sempre as coisas ou com outras pessoas e com outros efeitos?
Geralmente sou sempre eu. Já fiz com outras pessoas também, eu e outra pessoa, mas geralmente sou sempre eu.
Ok, fiquei curioso. Hoje, Madrid, já lá estás há 12 anos, entre países e vários idiomas. Para mim, representas uma geração de intérpretes europeus pra quem esta deslocação é uma exceção, mas é uma condição natural. Tu andas muito naturalmente entre um lado e outro. Hoje em dia até estás mais em Portugal do que em Espanha.
Em 2026 comecei a vir mais para Portugal.
Porque queres fazer cá e queres trabalhar mais cá.
Quero trabalhar em português. Tenho muitas saudades de trabalhar em português. Eu acho que não há nada como trabalhar na tua língua e sinto muito esta saudade de trabalhar em português. Geralmente agora tenho tido muitos mais projetos em espanhol ou em inglês e tenho esta saudade e tenho esta necessidade mesmo de vir pra cá. E estão a surgir agora projetos mais cá e mais oportunidades.
E, portanto, pra isso um ator tem que estar sempre à luta, e estão sempre à luta pra arranjar coisas. És agenciado e tens alguém que te arranja projetos e que te manda teu currículo.
Sim.
Quer como modelo, quer como ator também.
Sim, eu sou mais de atores. O modelo já deixei um bocadinho, agora estou mais focado sempre como ator. Tenho um agente aqui, em Espanha e em Inglaterra também, tenho três, um em cada país.
Estão sempre a procurar trabalhos pra ti.
Sim.
Ok, e foi assim que conseguiste os all moveovers e os Movistar.
Exatamente.
Muito bem. E equitação também é uma coisa que tu fazes. Eu vi depois uns vídeos no teu Instagram a andar a cavalo. Sempre fizeste desde miúdo?
Comecei a fazer desde os seis.
Ah, ok.
E também foi uma grande paixão.
E também é desporto, não é? Quem pode, é extraordinário.
Eu acho que sim.
A nível de postura, a nível de físico e tudo.
Sem dúvida. Hoje monto cada vez menos, porque sou cada vez mais consciente dos perigos.
O quê? Coluna e não sei o quê?
E cair e poder partir a cabeça.
No meio de uma filmagem, meu Deus.
Sim, ou mesmo, às vezes, por exemplo, pra minha terapia cá em Portugal, muitas vezes é agarrar num cavalo e ir pro meio da floresta, ao eucalipto.
Fazes?
Sim. E estar lá tipo uma hora sozinho.
Na tua zona, Bombarral.
No Bombarral, exatamente. Então pra mim isso é terapia.
Tão bom!
É muito bom.
Hipoterapia.
Sim, mas pode acontecer qualquer coisa. Eu posso cair no meio do mato e ninguém me encontra.
Poder ser apanhado por um galho.
Exatamente.
A Branca de Neve.
Exatamente.
Natação, futebol, ginástica acrobática fizeste?
Fiz quando era muito pequenino.
Era mini trampes, aquele genre de coisas, ou não?
Sim, a minha irmã estava na ginástica acrobática, eu fui com ela, mas tive só três ou quatro anos na ginástica acrobática.
E boxe?
E boxe também agora em Madrid. Tive três anos no boxe.
Três anos, és quase federado, então. Entravas em campeonatos? Não, era só pra desporto.
Era só pra desporto, sim, só pra praticar.
Olha, collage é uma coisa que tu fazes. Isto é o quê? É com fotografias, pinturas, materiais, sementes, folhas.
Com tudo.
É trabalhos plásticos, artes plásticas, que é colagem de coisas, não é?
Colagem, sim. Agarro em tudo aquilo que eu me inspirar, basicamente. Fotos, revistas, tudo.
Recortas e colas.
Sim.
Já fizeste alguma exposição, alguma coisa, ou é só por consumo próprio?
É consumo próprio, gosto mais assim.
E portanto, tens trabalhos em casa pra um dia se quiseres fazer uma exposição, teres?
Tenho, sim senhor.
Está ficar aqui esta dica pras galerias te convidarem a fazer. Muito bem, Diogo Belazário. Temos que fazer aqui um brevíssimo intervalo e já voltamos à conversa. Até já.
Até já.
Estamos a conversar com Diogo Belizário. Ele é um ator que começou no teatro e fez cinema, televisão, dobragens, locuções e performances. E entra no mais recente filme de Pedro Almodóvar, "Amarga Navidad", que estreia a 17 de setembro aqui em Portugal. Estreou há um mês em Espanha, em 22 de março. Muito bem, esta colagem achei curioso e que de fato queria ouvir as experiências tuas. No teatro, tens aqui, por exemplo, "La raíz del grito".
"La raíz del grito".
Que foi há quanto tempo esta peça?
Essa peça foi em 2019.
Foi antes da pandemia?
Já foi mesmo antes da pandemia.
Isto é em Madrid?
Em Madrid, sim.
E este "Morro como um país", do João Romão.
Do João, sim.
E este "Gingko" tem a ver com as estações, é a mesma coisa?
Sim.
Isto é uma peça em quatro atos, que no fundo fala como afeta o passo do tempo nas relações pessoais. A linguagem que combina dança, movimento, música, isto é a tua cara. Dança, movimento, música, imagens e texto. Cada ato tem uma estação do ano. Isto tem a ver também com o cinema que tu fizeste chamado "Estações", não é? Uma curta de Virgínia Dara Cruz.
Exatamente, são o mesmo projeto. Nós fizemos a curta e depois passamos para o teatro. Fizemos uma adaptação.
Primeiro foi a curta.
Primeiro fizemos a curta e depois fizemos a adaptação para o teatro.
Na Filmin, nesta plataforma.
Exatamente. E tem a ver exatamente com isto, como é que as estações do ano e o passo do tempo afeta as relações entre duas pessoas ou mesmo a relação contigo mesmo. E é bastante interessante, eu nunca tinha pensado sobre isso. E com essa investigação descobri coisas muito interessantes.
É curioso. E nunca veio a Portugal?
Nunca veio a Portugal.
A peça em si.
A peça nunca. Nós fizemos lá. E eu falava em português na peça, na realidade.
Era?
Sim, nós falávamos em diferentes línguas e eu falava em português, mas fizemos lá sempre em Espanha. Fizemos em Madrid, em dois teatros diferentes, e nunca saiu de Madrid.
Muito bem. Ultimamente tens trabalhado mais no audiovisual e isso te deixa muito feliz. Entre exatamente teatro e audiovisual, quando eu digo audiovisual, digo cinema, plataformas, as séries, qual é que te assusta mais e qual é que te dá mais gozo?
Eu acho que gozo dão as duas.
Ok.
Assustar mais, não sei se me assusta, mas eu acho que a palavra não seria assustar. Eu acho que eu sempre fiz muito teatro. Então, neste momento, estou mais focado no audiovisual, porque é uma porta que estou a cada vez a abrir mais e estou cada vez a habitar mais essa porta.
Esta porta é mais vantajosa, portanto é para também dominares este meio.
Exatamente. Mas eu acho que a diferença é a dificuldade que também há hoje em dia fazer teatro, em criares um projeto teatral, em teres apoios, em tudo isto, é muito complicado. Portanto, eu adoro teatro e quero continuar a fazer teatro, mas neste momento o foco está mais no audiovisual.
Também este cinema aqui, "O que nunca te disse, mas devia ter-te dito". Isto é tudo em espanhol?
É tudo em espanhol, sim.
"Lo que nunca te dije, pero debería haberte dicho".
Sim.
Estamos em 2026, "Amarga Navidad" é o novo filme do Pedro Almodóvar, estreou 20 de março em Espanha. Vem só em setembro cá para Portugal. Isto é um melodrama, um bocadinho sobre o luto e a criação artística. Autoficção também, é muito à Pedro Almodóvar. Volta àqueles temas clássicos de relações familiares complexas, a obsessão do cinema como forma de sobrevivência. Isto é um melodrama, mais um do Almodóvar, com quem tu trabalhaste. O que é trabalhar com este monstro da sétima arte que é o Almodóvar? Como surgiu esta oportunidade? Já conhecias os filmes? Gostavas de certeza do seu género. Ele é extraordinário.
É extraordinário. Para mim foi um sonho tornado realidade.
Completamente.
Sim, ou seja, estar em Espanha também foi uma grande influência do Almodóvar. Desde os 14 anos comecei a ver os filmes dele e fiquei logo apaixonado. Então é um sonho meu e de todos os espanhóis, ou seja, todos os meus colegas atores espanhóis querem trabalhar com ele.
Com este universo concreto, com esta linguagem dele, as cores.
As cores, os temas.
Poder participar disto.
Sim. Participar também foi super-rápido, eles já tinham começado as gravações e de repente ele lembrou-se que queria uma personagem nova. Eu recebi a chamada na quinta, fiz o casting na sexta e segunda já estava a trabalhar.
Bolas.
Ou seja, foi tudo assim de repente.
Primeiro dia no set do Pedro Almodóvar. Foste muito confiante ou foste em modo: "Não posso estragar isto".
Fui em modo fã, basicamente, porque dentro estava tipo: "Oh, my God, meu Deus!" Mas super profissional e superresponsável. Mas lembro-me quando ele saiu do carro e estava a entrar no set, eu estava sentado a olhar para ele e estava tipo: "Oh, meu Deus, ele está aqui".
O modus operandi dele, ele é tão minucioso mesmo, tão minucioso como dizem, ou é uma lenda urbana do cinema?
É. Se tu não fizeres aquilo que ele quer, ele entra e diz como é que ele quer e tudo isto. Está tudo programado ao detalhe.
O copo a esta altura.
Exatamente. E que depois olhes para a esquerda e que faças isto e que faças aquilo.
É como se tu dissesses: "E chora do olho direito".
Há essa fama em Espanha, toda a gente diz que ele numas gravações pediu mesmo a uma atriz para chorar pelo olho direito e tinha que sair dali. Ou seja, é superminucioso. Está tudo programado ao milímetro.
Isto agora são palavras tuas: vê-lo trabalhar tornava-se hipnótico e ao mesmo tempo estimulante, fazendo com que nós, atores, estivéssemos preparados para sair da nossa zona de conforto ou, como se diz em Espanha, nos lançarmos à la piscina.
Sim, lançarmos à la piscina. Sim, é lançar-te sem medo, sem nenhum medo de fazer. Sem medo de lançar-te à piscina, literalmente, e estás lá, estás a trabalhar com ele. Não sei, é fascinante.
Total bliss.
Exatamente.
Estudaste interpretação no estrangeiro também para poder experimentar trabalhar em espanhol e outras linguagens, quem sabe em inglês ou em francês também. Era um bocado com esse sentido, e não só português, para ficares só cá.
Sim, eu sabia que tinha sempre a oportunidade de vir para cá. Agora ou daqui a 10 anos ou quando eu quisesse, é a minha casa, é o meu país, portanto, isto está safe. Por isso queria experimentar outras coisas lá fora.
Gostas de sair da tua zona de conforto e gostas de experimentar. Experimentação, não é? É muito importante pra ti isso, nota-se.
Sim.
Pelos teus trabalhos.
E acho que para um ator também é bom passar às vezes por estas fases de sair da tua zona de conforto, porque aí é quando consegues evoluir mesmo e passar a outro nível. E acho que isso para mim foi importante e acho que para os atores às vezes também é importante teres que sair da tua zona de conforto.
E vivemos num mundo completamente globalizado, portanto a tua carreira também queres que seja assim, obviamente.
Exatamente.
Este contacto com o cinema mais autoral, neste caso com o Almodóvar, mudou a forma como escolhes os projetos ou ainda vais muito pelo teu instinto, Diogo?
Vou muito pelo meu instinto, acho eu Vou muito pelo meu instinto e por esta coisa que tu disse do destino. Eu também acredito nisto, o que tem que ser, tem que ser.
Há qualquer coisa que te orienta.
E o que não tem que ser, é porque não é pra mim e acredito muito nisto. Sou muito desenhador também, e acho que isso me transmite uma tranquilidade, basicamente, e uma segurança, porque sei que passo a passo vou chegar lá.
Em 2024 entraste na segunda temporada da Mar Velha, esta série de suspense centrada no submundo do crime, na Costa do Sol, da Movistar+. Já querias trabalhar com eles há algum tempo. Tu tinhas visto a primeira série e tinhas gostado. E eles apostam em produções nacionais de grande escala, de modo geral, de grande qualidade. É, de facto, trabalhar numa plataforma destas, uma escala muito maior. Isto pode ser bom ou é caótico?
Está tudo super organizado. Mas às vezes pode ser um pouco caótico. Às vezes houve situações um bocadinho caóticas de alterar as coisas à última hora e que gravas hoje, afinal, já não gravas hoje, gravas outro dia. Coisas assim, porque é muita gente.
É toda uma logística muito diferente do que aqueles trabalhos autorais e aquelas curtas e coisas que tu fazias e peças, que é tudo mais íntimo e mais. Aqui é uma escala, de facto.
Uma escala gigante, muitas pessoas, a produção é gigante, muitos atores, sei lá, éramos para aí 200 atores, havia muitas personagens. Às vezes um bocadinho caótico, mas um caos muito organizado. Podíamos dizer.
Com o Dani de la Torre e o Óscar Santos. E tu também gostavas disso, porque tu acompanhavas as coisas deles. Eles têm, por exemplo, esta "La Unidad", esta série de suspense sobre uma unidade antiterrorista da polícia espanhola, extraordinária, que é deles também. E esta dupla que faz estas séries intensas, porque são intensas, que também te deu uma grande escola. Isto é uma escola pra ti também.
Sem dúvida.
E depois ficam lá com o teu nome pra te convidarem pra outras coisas.
Eu espero que sim. Isso nunca sabemos.
Feste bons amigos na Movistar+.
Eu sim, e o Dani de la Torre já tem a fama de ser supersimpático. Eu quando o conheci também, a verdade, é um amor de pessoa e acho que houve ali uma conexão. Agora vamos lá ver, nunca sabemos isso, mas espero que sim.
"A Promessa", entraste aqui nos episódios do ano passado. Ano passado, já, sim, "A Promessa". A vida pra ti é um bocadinho um palco ou não, Diogo? Estamos mais ou menos sempre a representar ou consegues abstrair-te, tirando a cena do cavalo na floresta?
Eu acho que me consigo abstrair às vezes, sim. Eu, para além disso, prefiro dividir. Como a nossa profissão é tudo mentira, eu quero que a minha vida seja totalmente real e às vezes tento separar um pouco as coisas. Aliás, muitas vezes temos aquela fama de conheces alguém e diz: "Estás a representar, és ator, está tudo fake". E eu quero separar isso bem da minha vida. Eu quero que a minha vida seja real, as minhas emoções sejam reais, as minhas relações, seja tudo real, porque como é tudo mentira, no meu trabalho, e eu adoro isso. Mentira, digo que é uma brincadeira. Eu quero que a minha vida não seja um palco e seja mesmo a minha vida.
Tu és uma pessoa apaixonada?
Eu acho que sim.
E apaixonas por pessoas, e apaixonas por causas. Por causas eu já vi que sim.
Por causas, sim. Por pessoas, por amigos, sim.
Não tens grandes relações de long term relationships.
Tenho. Já tive duas relações, uma delas de seis anos, mas acho que sou muito exigente pra isso.
Está bem. Então é difícil arranjar. Que tenha os teus standards. Redes sociais, lidas bem com as redes sociais?
Lido, mas não tenho assim muita paciência, pra ser sincero. Mas lido.
Tem coisas boas e tem coisas péssimas, não é?
Exato. Eu às vezes vejo amigos meus que são mesmo dependentes disso e governa a tua vida e eu não quero que isso aconteça na minha vida. Acho que também tento separar um pouco, porque às vezes também temos esta ideia que os atores têm que ter muitos seguidores pra terem trabalho e não sei o quê. Eu não acredito muito nisso. Eu também acho que se és bom ator, és bom ator e vão te escolher por isso. Dependendo do projeto, claro. Tens projetos comerciais que é muito importante o número de seguidores que tens. Mas eu acho que uma coisa não tem nada a ver com a outra.
Não estão ligados necessariamente.
Não estão ligados. Ou seja, hoje em dia sim, mas a nível da essência, eu acho que a interpretação não tem muito a ver com Instagram ou com Facebook ou com essas coisas.
Tu também fazes muitos trabalhos como locutor e em dobragens, imensas marcas importantíssimas, mas também alguns trabalhos pro governo de Espanha e pro governo de Andorra, por exemplo. Locuções, mas em espanhol?
Não, eu, por exemplo, faço tudo em português.
Querem uma voz portuguesa pra também atingir os portugueses que moram nas suas comunidades.
Exatamente. Por exemplo, Andorra, fiz muitas vezes o turismo de Andorra em português, fazer todo o anúncio do turismo deles e blá-blá-blá e colocar voz a isto. E pra Madrid às vezes faço questões, por exemplo, políticas. A última que fiz foi, por exemplo, pro Orgulho, que é uma festa muito importante lá em Madrid, o Orgulho Gay, e que escolhem um ator de cada voz pra dizer umas frases, de cada língua. Então eu era o português. Vou eu, depois vem o francês, faz ele, vem o alemão, faz ele.
Pra convocar toda a gente. Tu tens um novo projeto de audiovisual autobiográfico. Isto é um projeto de autor que estás a desenvolver com uma realizadora, uma produtora espanhola. Do que isto vai constar?
Isto vai falar um pouco também, não posso contar muito ainda, mas vai falar um pouco também deste tema das relações tóxicas.
Ok, muito importante.
Muito importante. Posso dizer que é basicamente sobre quando a tua cara-metade é a tua maior competição.
Ok. E vai ser o quê? Uma curta?
Vai ser uma curta. Eu estou a desenvolver o projeto com uma produtora espanhola e já temos a realizadora, já temos o guião feito. Eu estou dentro do projeto, também dentro da criação, e vamos começar agora com o processo de casting para encontrar o outro protagonista, porque sou eu e outra pessoa. Então, à procura da outra pessoa, quando voltar agora pra Madrid, vamos começar com esse processo.
Isso é tão importante, Diogo. Fizeste alguma vez terapia na tua vida?
Já. Já fiz três anos de terapia.
Ok. E foi importante, não foi?
Foi muito importante e aprendi bastante. Eu acho que é muito importante. Terapia não é uma coisa Porque estás maluco da cabeça.
Exatamente.
Porque não tem nada a ver com isso.
Isso é um estigma. Não é nada hoje em dia. Eu acho que toda a gente devia passar por um psicólogo, por um psiquiatra de vez em quando. Eu acho que sim.
Sim, eu fiz terapia.
São ferramentas que nos ajudam.
Sim, e fiz terapia de casal também.
Ah, foi?
Com apenas 25 anos, esta relação que tive de seis anos, que te contei antes, fizemos terapia de casal, que era uma coisa que eu pensava: "Tenho 25 anos e estou a fazer terapia de casal. Aqui alguma coisa não bate certo". Mas aprendes imenso. Eu hoje em dia acho que tenho outro entendimento com as relações por causa disto, porque fiz terapia de casal, fiz terapia com outra terapeuta, só eu individualmente, e acho que isto me ajudou bastante no entendimento de certas coisas.
Porque de facto estes profissionais de saúde e saúde mental, concretamente, eu tenho um filho que é psicólogo, têm ferramentas que de facto conseguem diagnosticar as coisas e perceber, olhar truques para fazer isto melhor, para isto não acontecer tanto ou para não te sentires tanto assim. E é muito importante. As pessoas às vezes não sabem isso. Eu acho que está a mudar isso. Hoje em dia está a ajudar muito, já temos muitos psicólogos a falar e com podcasts e tudo importantes, e há livros a toda a hora. Está a mudar, mas ainda acho que temos que fazer um esforço para divulgar mais isso, democratizar isso, que é importante para toda a gente.
E tirar esta ideia de que é só para pessoas que estão mal.
Isso é tão importante. Muito bem, a experimentação é uma coisa importante que tu gostas de fazer também, é uma das coisas mais interessantes da tua profissão, não estar sempre a fazer o mesmo e não saber com que tipo de personagens me vou deparar. E são palavras tuas. Projetos que te tiram da zona de conforto. E falas muito deste território de experimentação. Qual foi o papel que te tirou mais da zona de conforto, da tua, até hoje? Tens alguma ideia de um papel que custou horrores, mas correu bem e depois valeu a pena.
Deixa-me pensar. Eu acho que talvez uma peça de teatro, esta que falaste antes de "La raíz del grito", que trabalhávamos textos de Gabriel García Lorca, que é um dramaturgo espanhol.
Claro, tão famoso.
E fiz um personagem que vendia facas e era um bocado um assassino, de um conto do Lorca. E essa personagem mexeu um bocado comigo, ao nível de ter sonhos e pesadelos, que estava a matar pessoas com facas e com tudo isto, porque já estava tão dentro.
Mas depois acabou a apresentação e continuaste recorrentemente com esses.
Sim.
Encarnaste o personagem à séria.
Exato.
Meu Deus, tiveste uns pesadelinhos.
Sim, tive alguns.
Meu Deus.
Faz parte do trabalho, mas eu acho que foi desafiante, mas muito interessante também. Eu acho que depois, ao fim ao cabo, é sempre um aprendo, um presente, estes personagens que são tão complicados de fazer, quando tu consegues, sais de lá com uma vitória e aprendeste tantas coisas que depois podes usar também como ferramentas como ator.
Exatamente. Muito importante. Entre cinema, teatro, televisão, dobragens, locuções, performances, escolhes muito também por encomendas ou há alguma que tu digas: "Quando eu tenho um projeto importante nesta área, prefiro esta".
Audiovisual.
É? Pode ser mesmo.
Eu acho que sim.
Nas tuas viagens também falas deste Berlim, Madrid, Barcelona, onde tu estiveste. E em Nova Iorque, foi quando estavas em Nova Iorque que ias matando o Adrien Brody.
Foi.
Tu cruzaste com o Adrien Brody, tratando de falar tanto só e mais nada do Oscar, melhor ator em 2003 com "O Pianista". Aliás, tinha 29 anos, nessa altura foi o mais novo ator a receber esse Oscar. E há muito pouco tempo, um filme que eu amei, "O Brutalista", eu gosto muito do Joaquin Phoenix. Incrível. E tu fazes também um papelão extraordinário.
Sim.
E cruzaste aqui na rua, em Nova Iorque?
Na rua, em Nova Iorque, ele estava lá a andar, eu de repente vi-o. Até nem o vi, foi a minha amiga que o viu e gritou: "Diogo, está ali". Porque é o meu ator favorito, um dos meus atores favoritos.
Ah, não sabias? Sim, mas compreendo.
Fui logo a correr atrás dele e cheguei ao pé dele, ele ficou assim a olhar para mim todo assustado.
Assustou-se.
Assustou-se, porque eu cheguei a respirar super. Então ele assustou-se bastante e eu nem sequer tive coragem de lhe dizer nada. Ele ficou assim a olhar para mim. Eu bloqueei totalmente. Porque também vi a reação dele, ele ficou tão assustado, que eu também fiquei um bocado-
Ele deve lidar com isso todos os dias.
Claro. Mas eu também não queria abusar.
Ia sozinho na rua.
Ia sozinho na rua, tranquilo, até eu chegar. Depois deixou de ficar tranquilo. Assustou-se um bocado.
Olha, extraordinário este encontro em plena rua em Nova Iorque. Incrível. Há outros países que tu falas aqui também. Foste à Cidade do México, que não foi há muito tempo.
Foi o ano passado.
Gostaste imenso?
Gostei imenso, gostei muito da Cidade do México. Não sei se era um sítio onde voltaria. Se calhar sim, ao México sem dúvida, à Cidade do México não sei.
Vi fotografias tuas junto à Pirâmide da Lua, Pirâmide do Sol.
Exatamente. Sim.
Mas não é super poluído e super perigoso?
Eu não achei perigoso, apesar de haver esta ideia, eu não achei, mas achei que é muito caótico, muita gente. Distâncias de carro que são 15 km, mas demoras uma hora, uma hora e meia de carro.
Por causa do trânsito.
O trânsito horrível. Acho que mais por aí.
A América do Sul é toda assim. E aqui é América do Centro, mas falta a América Central.
E muitos amigos meus espanhóis vão para lá trabalhar, porque há muito esta coisa da relação Portugal-Brasil como Espanha-México, também há muito esta relação. E muitos espanhóis vão para lá trabalhar e todos querem ir para lá. E para mim é uma coisa que não sei se me imagino lá viver.
Foste por turismo?
Fui turismo, 100%.
Projeto nenhum lá, nada.
Não. Fui com amigos em turismo.
Ok, muito bem. Olhando para o futuro, Diogo, ainda te vamos ver mais vezes em português, em espanhol, ou prepara-se aqui um ataque a Hollywood?
Eu espero que em tudo.
Tu gostavas, não gostavas?
Eu gostava. Não é uma prioridade, mas gostava. Ou seja, neste momento não estou a pensar sobre isso. Neste momento estou aqui muito bem na Europa, mas sem dúvida que essa porta está aberta.
No Reino Unido também, tens lá um agente e poderias arranjar projetos giros. Também tem bom cinema, muito bom.
Muito bom.
O que é extraordinário. Se lá conseguires é muito importante. Mas estás sempre aberto, portanto, a essas hipóteses e oportunidades. Agentes do Diogo, trabalhem, se faz favor, para ele não fazer mais coisas, que a gente quer vê-lo mais vezes em mais projetos. Muito bem, então, de facto, é uma vida extraordinária esta como ator. Tu és muito cuidadoso a preparar as tuas personagens, Diogo?
Sim, acho que sim. Gosto de dedicar tempo, dá-me prazer, basicamente. Aprender textos, tenho muitos colegas que é uma seca, não gostam nada de aprender texto. Eu gosto de aprender texto. Gosto deste momento de estar em casa a preparar, a imaginar.
A decorar coisas.
A experimentar, dizer assim, dizer assado. Adoro.
Tens amigos ou amigas que cruzam texto contigo para bater as personagens.
Sim.
É importante, não é?
É super importante. Eu acho que teres este núcleo, e não só também para te ajudarem, mas como apoio, teres um núcleo de amigos da área, eu acho que é muito importante. Porque isto não é um sprint, é uma corrida.
É uma maratona.
É uma maratona, exatamente. Então, para esta maratona é importante teres esse apoio por trás, sem dúvida.
Muito bem, ficamos então à espera de ver mais projetos teus. Para já, em setembro, temos este "Amarga Navidad". Em português não sei como é que vai se chamar, o Natal Amargo.
Talvez.
Se for assim à letra. Vamos lá ver, para te ver. 17 de setembro estará cá em Lisboa, está previsto, este novo filme do Almodóvar, onde tu entras. E depois, mais novelas, venham mais teatros também. Queremos te ver também em palco, que eu sei que é uma área que tu gostas muito e um meio que tu gostas muito. Diogo Amaral Zario, tudo de bom. Break a leg, mas tudo de bom para ti. É só o que a gente deseja. Muito obrigado por teres passado por cá.
Muito obrigado pela oportunidade.
Bem-hajas.