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E 24 horas depois da primeira votação, o sucessor de Francisco estava escolhido. Leão XIV, norte-americano e peruano, missionário e arcebispo no Peru, com forte espírito pastoral e comunitário, é o primeiro papa agostiniano em 600 anos, o primeiro nascido depois da Segunda Guerra Mundial e o primeiro norte-americano de sempre. Que legado nos deixou Francisco? O que se espera e quem é o novo chefe dos 1400 milhões de católicos no mundo inteiro? Como vai lidar com o equilíbrio dos progressistas versus conservadores, com as guerras a decorrer, com o mundo em convulsão, com o celibato dos padres, a ordenação das mulheres, a crise dos migrantes, o lugar dos homossexuais na Igreja? Para refletir conosco, convidei o padre José Manuel Pereira de Almeida. Ele é médico, vice-reitor da Universidade Católica, prior de Santa Isabel, em Lisboa, membro do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida. Olá, padre José Manuel, e bem-hajá por ter aceitado este meu convite. Bem-vindo à Rádio Salvador.
Muito obrigado.
Bem-vindo de volta, porque esteve cá há duas semanas, por altura das exéquias.
É verdade.
No sábado, vai fazer amanhã duas semanas. Estive a ver um bocadinho o seu percurso e tem muitas coincidências que eu lembro-me que cruzei-me com muitas pessoas que também hoje daram formação. Padre Mário Correia, por exemplo, que me batizou e que já promovia estes debates entre jovens, como falou. O saudoso padre Alberto Neto, da Catedral do Rato, com quem viveu, aliás, chegou a estar um tempo com ele.
Tal qual.
E com o dinamismo do padre Janela, que o trouxe um bocadinho para a pastoral juvenil.
Que ainda está por aí em grande.
Pois está. É extraordinário. Isto estamos a falar há 40 anos, há 50 anos, é extraordinário. Queria só lembrar aqui uma história, porque em 1974, tenho aqui uma história a ver consigo e com o gosto pelas artes, concretamente de uma ópera que foi "La Traviata", no Coliseu. Era estudante ainda na altura?
Era, estava no quarto ano de medicina.
Medicina. E foi a altura em que foi assaltado. Isto foi na altura do 25 de Abril, por aí?
Sim, mas não foi culpa do 25 de Abril.
Por a verdade.
Exatamente.
Mas de fato foi assaltado à vinda do Coliseu.
Exatamente. Ali no Parque do Ar Sétimo, que se calhar era mais perigoso do que é agora, não só de dia.
Exatamente. Como diz, foi assaltado para levar o meu cheque do apagamento e arrancaram-me um fio, mas ficou com essa cruz.
Exatamente.
Isto é saber ler os sinais.
Ora bem.
Muito bem, é médico, especialista em anatomia patológica. Trabalhou muito tempo no IPO, no laboratório de citologia, até se reformar. Era, no fundo, a sua especialidade a leitura do diagnóstico. Muitas vidas e muitas mortes passaram pela sua mão. Tinha boas notícias e más para dar, muitas vezes.
Sim. Diretamente não, porque como sabe, a nossa área de especialidade é de auxiliar.
Auxiliar de diagnóstico, no fundo.
De alguma maneira, estamos ao serviço dos clínicos, que esses sim, orquestram.
Portanto, analisam ao microscópio, digamos assim, os tecidos para saber se seria câncer ou não.
Isso. E, portanto, é um diagnóstico morfológico que depois contribui com todos os outros para o diagnóstico clínico, que esse sim, do médico assistente, que articula com o doente e acompanha, quando tudo corre bem, é claro.
Na altura, era preciso já umas altas médias para entrar em medicina ou não?
Não, na altura entrava-se para medicina com-
Devia ficar mais vagas e menos entraves.
Exatamente, senão eu não tinha entrado, acho.
Lembro-me do doutor Fernando Nobre dizer que tirou em Lovaina e dizia: "Era um sistema melhor que aqui. Aqui há pessoas que quase que se matam a estudar para entrar". E ele dizia: "Lá não, entrava-se com médias 14, 15, a média mais normal. E depois ao fim de um ano é que eles avaliavam, havia um júri que dizia se ele tinha vocação, porque a vocação é muito importante".
É evidente que sim.
Já tinha lidado com doentes, já tinha tudo isso, visto sangue, visto operações. Portanto, a pessoa aí ao fim do ano já consegue julgar melhor se é mesmo aquilo e se tem aquela vocação ou não. É difícil quando tem 16 anos.
Se tiver boas notas, bem que podia ir para outra área.
Hoje em dia seria aeroespacial ou qualquer coisa. Esta sua vocação tem algum clique? Já estava, se não me engano, na especialidade, quando um dia decidiu optar por esta nova carreira.
Não vai ter sido assim um dia.
Mas eu lembro que também contou-me uma vez que estava na tropa, acho que em Évora, e foi dar a notícia aos seus pais.
Sim.
O padre José Manuel é filho único, portanto é aquela coisa quando os pais confrontam com isso, a geração vai acabar ali.
É verdade.
E eles achavam que ia apresentar uma namorada para eles, não?
Tal qual. Era assim. Eu já não me lembrava bem, mas é assim, sei muito bem qual é o restaurante e tudo, ao pé do dito Parque Eduardo VII, do lado do Ritz, já não existe o restaurante, mas era assim uma coisa à fiambre.
Foi aí disse então que ia entrar no seminário.
É verdade.
E portanto acabou a especialidade e depois entrou ou acumulou?
Não, eu fiz o curso de teologia mais devagar, acabei a especialidade direitinho e continuei sempre, nunca interrompi. O cardeal Ribeiro tinha essa percepção.
António Ribeiro, o patriarca.
Tal qual. O cardeal Ribeiro.
Ah, ok.
E depois, quando me reformei antes da data necessária e nessa altura, quando houve uma boa oportunidade para a reforma, perguntei ao cardeal Policarpo.
José Policarpo, sim, à altura.
Era o patriarca, que tinha sido meu reitor e que eu acho que não tinha visto com excessivos bons olhos esta minha situação a cavalo.
Na medicina.
E, no entanto, nessa altura ele disse: "Deixa-me pensar, depois te digo". E teve uma semana antes de me dizer. Portanto, nessa altura, ele já valorizava de outra maneira, creio eu.
Como médico, teve reuniões com o cardeal D. António, Dom José Policarpo. Nunca lhe dizia para ele parar de fumar?
Os dois eram extratos. Pois é, é assim.
É muito curioso. E é engraçado esta sua ligação, vamos falar deste Papa, que é matemático. Como o Francisco era químico, por exemplo.
Exatamente.
É muito curioso, e o padre José Manuel é médico Este confronto entre a ciência e a fé, que como diz o padre Emanuel, é normal que haja tensões, mas é isso que faz haver música. Essa tensão é boa. Mas de facto, hoje em dia há muita gente que ainda se foge um bocadinho da religião por causa da ciência, por causa da razão.
Nós agora até temos várias contribuições de reflexão teológica acerca da ciência da fé. Temos um jovem recém-doutorado na Gregoriana e que é professor agora na Faculdade de Medicina da Universidade Católica Portuguesa. Ele que vem da teologia, portanto, é uma coisa boa, faz essa articulação.
Essa ponte também, que é importante fazer pontes, é o que se fala hoje.
Quadro Esteves, exatamente. É um belo nome para fixar.
Vai dar que falar.
Exatamente.
E eu sou do tempo do Padre Luís Archer, que é genético molecular, professor, primeiro presidente do Conselho Nacional para a Ética das Ciências da Vida.
É o primeiro presidente.
O próprio padre Rezina, João Rezina.
Exatamente.
Físico e que foi meu professor também no técnico.
É um grande conhecedor de epistemologia. Na altura ele fez com o Jean Ladrière, também em Lovaina. São personalidades que marcam, é verdade.
Para o ano, o padre Emanuel já faz 40 anos que foi ordenado, se não me engano, em 26. E está há 26 anos na paróquia de Santa Isabel, o que é extraordinário.
Extraordinário para eles, porque me aguentam.
É muito curioso, porque mesmo quando estava a doutorar-se em Teologia, aproveitava para acumular, nunca deixou de trabalhar no Hospital Gemelli, aliás, que acolheu agora o Papa.
Que é a Universidade Católica Sacro Cuore, é o hospital da Universidade Católica italiana.
Daí então essa tua ligação.
Sim, o professor Cappelli, nós conhecíamos das reuniões europeias e permitia-me, apesar de tudo, não perder a mão e não perder a vista. Porque senão, na minha área, em concreto, três meses alto-
Inativo.
Acabou-se a conversa.
Fica desatualizado.
Exatamente, é verdade.
Assim nunca perdia. E há também uma coisa curiosa, que antes de ir fazer esse doutoramento, o Papa Francisco falava muito das periferias, esteve um ano no Prior Velho.
É verdade.
Onde contactou com gente também muito pobre.
Sim, e eu por mim teria lá ficado, devo dizer.
Custou muito.
Gostei muito de me ir embora. Custou-me muito ir embora.
Custou muito ir embora, sim. E gostou de estar lá.
Gostei muitíssimo, ainda tenho amigos lá.
De facto, é uma realidade completamente diferente.
Claro que sim. Porque agora o Prior Velho já não é o Prior Velho que era. Felizmente.
Ali na altura e também por causa da ponte-
Tinha barro de bagagens, a ponte mudou a situação, depois as pessoas foram realojadas, mas ainda continuo com amigos dessa data.
Aqui na sua paróquia de Santa Isabel, ainda tem este projeto abrigo. Isto é uma coisa que tem a ver com-
É verdade, e mudou muito o perfil dos sem-abrigo lá à volta de nós. Agora temos preocupação especial com pessoas idosas e com senhoras, que é raro, mas existem. É raro nos números, mas existem.
Mas em situação de sem-abrigo?
Em situação de sem-abrigo. E a professora Teresa Amado, que é professora da Universidade de Évora, que vai a Évora, mas que está cá, é o pivô da comunidade a este propósito. E é uma senhora de grande categoria.
Muito bem. Então estamos em 21 de abril passado, morre Francisco, 88 anos, num dia, num timing extraordinário, o dia a seguir ao domingo de Páscoa. Parece que fez uma despedida.
E de se ter despedido na praça.
Mas com muito custo, então acho que ele estava já muito fraco.
Exatamente.
E de facto foi assim um timing-
Todos testemunhámos de alguma maneira.
Todos. Completamente.
Exatamente.
Sábado, dia 26, então foram as exéquias e o sepultamento dele na Basílica Santa Maria Maior. O primeiro Papa em 300 anos a pedir para ser sepultado fora do Vaticano. É curioso.
Sim, mas como diz, não é o primeiro.
Não.
E isso pode vir a acontecer com os próximos. Porque agora as referências podem ser mais vastas do que São Pedro propriamente.
Exatamente. Padre Emanuel, muito resumidamente, que igreja é esta que ele deixa? Dizem que ele foi o Papa que pôs a igreja a mexer, o Papa da jornada, o Papa do todos, que canonizou os pastorinhos cá e que dizia no fim: "Lembrem-se de mim com ternura". A igreja que ele deixa é um legado pesado?
Eu acho que é um legado feliz e que eu creio que este atual Papa também soube comunicar naquela comoção com que se apresentou-
É verdade, é muito curioso.
Na Praça de São Pedro.
Estava comovido a ver aqueles-
Há alguém que dizia que era um Papa, ele que falou da paz desarmada e desarmante, que era um Papa comovido e comovente.
Sim.
E de facto, eu creio que essa experiência do Evangelho, do Jesus que toca o coração das pessoas. Os últimos Papas, felizmente, cada um à sua maneira, têm sido, desde o Concílio Vaticano II, que é o que a gente conhece, apesar de tudo, já lá vão oito Papas. Para mim, o Pio XII lembro muito vagamente, mas o João XXIII lembro muitíssimo bem.
É curioso.
Estes Papas, cada um à sua maneira, têm sido tradutores dessa proximidade de Jesus, do Evangelho, e eu creio que esse continua a ser-
É o caminho.
Continua a ser.
Isso é que é o que se pretende, no fundo. E de facto, eu tenho sempre esta ideia, padre José Manuel, que quem acredita que o conclave tem a mão do Espírito Santo, acredita que este Papa é o Papa certo para o momento certo. E eu acho que isso tem acontecido sempre.
Exatamente.
E por mais diferentes que eles sejam, que são muito diferentes.
Às vezes a gente tem falta de fé e diz: "Epá, este então agora porque é louco e tal". Eu este não tenho-
Não tem opinião ainda.
Não tenho nenhuma, a não ser daquela primeira aparição e daquilo que a gente ouve Dos comentários. Ainda hoje o vosso colaborador que está em Roma e que tem acompanhado muitíssimo bem esta apresentação, o João Francisco Comos, com quem me cruzei, devo dizer, porque nós na paróquia de Santa Isabel fomos em peregrinação jubilar a Roma, exatamente em sede vacante. Era impensável. Fomos a seguir ao apagão, que é uma coisa que também para a península conta.
Exatamente.
E voltámos na véspera do início do conclave.
Então foi agora mesmo.
Foi agora mesmo e cruzei-me com ele ali. Chegou no avião em que eu me vim embora, em que nós nos viemos embora. Aliás, com outros jornalistas.
E iam para o conclave.
E o artigo que ele publica hoje acerca de se segue a linha de Francisco, como é que pensa o Papa Leão XIV. Eu ainda não li tudo, mas li em diagonal e pareceu-me muito interessante.
Pode-se dizer, de facto, que ele pôs a Igreja a mexer, o Papa Francisco, ainda.
Absolutamente.
Foi muito diferente com o seu carisma, com a sua maneira de ser.
É verdade. E sobretudo, o mexer daqui para fora, ou seja, a saída, aquela ideia missionária que é evidente que existe desde o início, mas como que tínhamos perdido aqui na Europa. É mais uma Igreja que administra o que tem e já lhe sobra pouco tempo.
Exatamente.
E já não é pouco, mas que tem que, sobretudo, sair, senão perdemos a relevância, o significado no mundo em que vivemos. E o Papa Francisco deixa esse legado.
Essa missão.
Exatamente.
E este também é missionário, portanto, este era uma boa pessoa para pegar nisso.
Absolutamente. Por exemplo, é a parte mais interessante para mim do que dizer que ele é lá do direito canônico. Isso a mim não me comove muito.
Sim, mas ele ter sido missionário.
Exatamente, toda a vida no cru.
Mais de 20 anos no cru. E até a condicionalidade peruana, que é extraordinária. Muito curioso ele apesar de ter nascido em Chicago, quando falou na varanda, teve a preocupação de falar italiano e em espanhol.
E em espanhol para a sua diocese.
Depois em latim, a benção "Urbi et Orbi", mas engraçado, não foi para o americano.
Recordar que os papas, desde Paulo VI, com as viagens, e depois João Paulo II, imbatível a esse propósito, os papas que são do mundo, de facto, são bispos de Roma. E é como bispo de Roma que ele, na caridade, está ao serviço da unidade da Igreja. E por isso também a referência especial à igreja de Roma, que é a sua diocese.
Exatamente, e ele disse que o Papa Francisco bem dizia ou bem disse.
Exatamente. É muito bonita a delicadeza com que foi uma referência. Porque não foi uma colagem, não foi "eu aqui utilizo a mesma linguagem". Não, foi a sua linguagem, não foi uma colagem ao Papa Francisco, mas foi delicadíssimo nas referências ao Papa Francisco que nos tocaram a todos.
E que apostou muito nele. Ele é que foi feito cardeal há dois anos e há muito pouco tempo.
E ele é que o foi buscar também ao fim do mundo.
Exatamente, como ele disse quando se apresentou da outra vez, no princípio, em 2013. E é muito curioso, porque, no fundo, é o segundo que vem do continente americano. Este Papa teve todos estes gestos e aquele discurso, que foi longo, tal como costuma ser aquela entrada, mas que aproveitou para rezar, rezou um Ave Maria, falou duas ou três vezes na paz.
É claro, logo no início. E não por acaso.
E não por acaso, exatamente. Num mundo que tanto precisa disso e que vive estes conflitos todos, vem de um país tão complicado. Os Estados Unidos, que sofrem um pouquinho desses setores mais conservadores, se calhar também é bom para eles ficarem todos entusiasmados. Pode ser um sinal.
Acho que li que ele, quando foi feito cardeal, declarou numa conversa, alguma coisa publicada, não sei fazer a referência, que estava convencido que podia ser uma ajuda para o Papa Francisco, porque conhecia de alguma maneira a igreja americana.
Sim.
E as suas tensões e os seus problemas e portanto, podia servir de ajuda a essa relação do Papa Francisco com a igreja americana.
Muito bem, neste momento, padre José Manuel Pereira de Almeida, temos que fazer aqui um brevíssimo intervalo e já voltamos à conversa. Até já.
Na Rádio Observador, pontuamos o desporto todos os dias.
Vou dar 20 ao nosso Gabriel Alves.
Vou dar um 20 ao João Almeida. Por ser este dia, hoje vou dar de nota 20 ao meu pai.
De segunda a domingo, o desporto com as suas cores.
Tu não estás a dançar, não estás a dar um pezinho de dança de tango?
Não.
Deixamos isso para os jogadores.
Com os pés só mesmo dar toques na bola.
Com as suas rivalidades.
João Pinto, queres responder?
Eu não, eu só não quero que me maltratem. Quando fico com esta turma do Inácio, do Pedro Henriques e do Gabriel Alves, eu sendo bullying.
Mas sempre, com muito fair play.
Além de torcermos por clubes diferentes, somos amigos.
E o campeão é: de segunda a sexta, 12h35. Sábados e domingos, às 11h35.
O que era futebol, o resto é conversa.
E sempre em podcast.
Este programa tem o apoio de: Betclic. Desafie as odds. Linha Troféu, para onde vai hoje o troféu de campeão?
Na tasca é sempre penal.
Olha, eu tenho babaca que remata de letra.
Para a igreja, mais relatos, menos homilias.
Venham às finanças, se não ficam sem sofrem aqui.
Ao nosso barbeiro, só faz corta, pé e juntos.
Vão a mandavirotroféu.pt, digam porque merecem, chorem se for preciso e o troféu Liga Portugal Betclic vai.
Amiga, faz parte
Mariana Ribeiro desconstrói rotinas, hábitos e medos de uma jovem adulta.
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Amiga, faz parte.
Novo episódio aos domingos, no site e nas habituais plataformas de podcast.
Podem ser grandes, barulhentas, confusas, mas as cidades também podem ser lugares de vida e tranquilidade. A 27 de maio, o Observador organiza a grande Cimeira das Cidades para refletir e debater desafios como habitação, mobilidade, ambiente ou tecnologia, com especialistas, investigadores, gestores públicos e privados que vão trazer o melhor conhecimento e partilhar experiências de sucesso. Dia 27 de maio, na Nova SBE, em Carcavelos, a entrada é livre. Garanta o seu lugar em observador.pt. Uma iniciativa do Observador com o apoio da Câmara Municipal de Cascais, Via Verde, Oeste Sim, Nova IMS e Sociedade Ponto Verde.
08h31, altura de fazer uma síntese da atualidade. Já aqui está a Laura Figueiredo. Laura, boa noite, vamos a isso.
Boa noite. A AD continua na frente e o PS regista uma subida ligeira, o que indica a mais recente sondagem da Universidade Católica para a RTP, Antena Um e Público. A coligação PSD-CDS mantém a estimativa de 32% dos votos. Já o PS surge com 28, mais dois pontos percentuais do que no estudo anterior. A possibilidade de um empate técnico mantém-se. A terceira força política continua a ser o Chega, que sobe de 19 para 20%. A Iniciativa Liberal surge em quarto lugar, mantendo os 6% do inquérito anterior. Seguem-se o Livre, com 4%, CDU com 3% e Bloco de Esquerda com 2% das intenções de voto. Já o PAN tem agora uma estimativa de 1,5%, regista uma subida de meio ponto percentual. Por fim, os Juntos pelo Povo também têm um lugar de destaque nesta sondagem, recolheu entre 0,5 e 1%, o que pode significar a eleição de um deputado. O número de indecisos mantém-se nos 15%, tal como na sondagem divulgada no fim de abril. E depois de ter desviado caminho para cumprimentar a mulher em Fátima, Luís Montenegro nega aproveitamento político da religião. Um dia depois das críticas de Pedro Nuno Santos sobre o aproveitamento político da AD à volta da eleição do Papa, o líder da coligação PSD-CDS foi a Fátima cumprimentar a mulher Carla, que está em peregrinação. Já esta tarde em Ovar, confrontado pelos jornalistas sobre se está a cavalgar a tendência católica dos eleitores do Chega, Luís Montenegro rejeita aproveitamentos. Já Paulo Raimundo diz que a CDU concorda com o presidente da República. No dia 18 de maio, o país deve eleger um governo que traga estabilidade à vida das pessoas. Em Évora, o secretário-geral do PCP foi questionado sobre as declarações do presidente da República, que quer nomear um governo com a certeza de que o respectivo programa será viabilizado no Parlamento. Paulo Raimundo insiste: a estabilidade depende de medidas concretas. Mariana Mortágua garante que se o Bloco conseguir eleger deputados, o PS não vai reunir com o PSD, mas sim com a esquerda. A partir de Guimarães, a coordenadora do Bloco de Esquerda reagiu às palavras de Marcelo Rebelo de Sousa, que disse que quer nomear um governo com estabilidade suficiente para aprovar o programa. Na atualidade internacional, a Polónia critica a presença de líderes mundiais no desfile do Dia da Vitória em Moscovo. O primeiro-ministro polaco considera que se trata de uma fonte de vergonha dada a atual agressão russa contra a Ucrânia. Durante uma conferência de imprensa com Emmanuel Macron, em França, Donald Tusk criticou quem aplaude Vladimir Putin. O primeiro-ministro polaco diz que é inaceitável a presença no desfile de um país que bombardeia cidades e que já terá causado mais de 1 milhão de vítimas.
Está feita a síntese das 20h30. A edição foi da jornalista Laura Figueiredo. Ela regressa às 21h para atualizar todas estas notícias. Viajar num circuito Abreu é descobrir várias cidades numa só viagem. Viva experiências inesquecíveis, sempre com um guia especialista. Escolha entre Itália, França, Islândia, Lapónia, Açores ou Madeira a preços irresistíveis até 19 de maio. Mais circuitos numa loja Abreu ou em abreu.pt. Agência Abreu, 185 anos a levar o mundo até si. Linha Troféu, para onde vai hoje o troféu de campeão?
Na taska sem penalt. Olha, eu tenho babaca que remata de letra.
Para a igreja, mais relatos, menos homilias.
Venham às finanças, cá ficam sofrem aqui.
Ou o nosso barbeiro, só faz corte a pé juntos. Vão a mandavirotroféu.pt, digam porque merecem, chorem se for preciso e o troféu Liga Portugal Betclic vai.
Vamos falar sobre economia circular? Às segundas-feiras, depois das 14h30, Nelson Ferreira recebe convidados muito especiais para falar sobre o tema. Não perca o podcast Bosses Circulares na Rádio Observador, com o apoio da Associação Smart Waste Portugal. O futuro está nas mãos de todos nós. Na primavera, os dias são maiores, sobe a temperatura e a vontade de sair aumenta.
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A sério? Quero saber mais.
Mudar é muito fácil. Liga 810 10 30 ou visita escolhendesa.pt. Estamos a conversar com o padre José Manuel Pereira de Almeida. Ele é médico, é vice-reitor da Universidade Católica Portuguesa e prior de Santa Isabel, em Lisboa. Ele ajuda-nos a refletir hoje aqui sobre o legado do Papa Francisco e sobre os desafios com que se depara o seu sucessor, Leão XIV, que ontem mesmo tomou posse. Então temos 8 de maio de 2025, foi ontem eleito o Papa, após um conclave breve, 24 horas depois da primeira eleição. É extraordinário, do 267º Papa, primeiro nascido nos Estados Unidos, o segundo do continente americano, o primeiro de um país inglesa, desde Adriano IV, no século XII. É incrível as contas que se fazem. E é o primeiro nascido após a Segunda Guerra, também é uma coisa muito curiosa.
É o primeiro papa mais novo que eu. Já agora.
É verdade.
Quer dizer, eu é que estou velho.
Que ideia. E é curioso, porque há muita gente que já aponta: "Isto pode ser que seja indício de um pontificado longo". É possível.
Se Deus quiser, se Deus fizer.
Exatamente. Muito reservado, menos ousado, não passou despercebido desta comoção, que já falámos, quando ouviu aquelas 175 mil pessoas, aqueles fiéis reunidos na Praça de São Pedro Este nome que ele escolheu, Leão XIV, vem homenagear Leão XIII, este primeiro papa moderno. Estamos a falar de um papa que morreu em 1903, há mais de 120 anos, e é o de Rerum novarum. Foi o papa mais idoso até São João Paulo II, reinou até os 93 anos, 25 anos de pontificado, muito tempo. Mas assistiu como a história mudou o fim dos Estados Pontifícios, estávamos ainda a vir da Revolução Industrial e toda essa ligação ao trabalho e aos sindicatos. Ele condenou tanto o socialismo radical como o liberalismo sem limites. No fundo, o início desta doutrina social da Igreja, pode ter sido ele.
Exatamente.
Por isso é tão importante.
Nem ele sabia, diria. Quando escreve a Rerum novarum.
Fez história.
Exatamente. É um texto fruto de reflexões de leigos do norte de Itália, da Suíça, dos países industrializados, da Bélgica, nessa altura. E o papa foi sensível a esses movimentos laicais de intelectuais e de operários que se preocupavam exatamente em demonstrar como era intolerável a situação de exploração.
Os direitos dos trabalhadores, tudo isso. Incrível, o mundo estava em mudança, completamente.
Tal qual. Parece-me que a referência é claramente essa de Leão XIII, podíamos também olhar Leão Magno.
Também foi importante?
Sim, é o primeiro papa que é Magno. Nem todos os papas são Magnos.
É um título.
É um título que a história deu. O grande, para dizer o grande. É aquele que na Ponte Milvio impede que a invasão dos bárbaros continue destruindo Roma.
Estão a falar do século IV, V, por aí?
Sim, exatamente. Mas é evidente que, em relação ao nome, ele depois explicará, como Francisco teve a ocasião de explicar.
Que era São Francisco de Assis.
Eu, cá para mim, quando vi um jesuíta chamar-se Francisco, para mim, na cabeça-
O Xavier.
Estava São Francisco Xavier.
Missionário.
Ele depois explicou que não era. E explicou muito bem.
Exatamente. Era Papa Francisco.
E ele vai ter muita ocasião de explicar a que Leão ele se refere, porque Leão é um nome que hoje a gente não escolhe facilmente.
Diogo Novele. Exatamente.
Leão é um nome pesado.
Faz lembrar os papas antigos: Gregório, Inocêncio.
São nomes estranhos à linguagem moderna. Ora, sendo ele um homem da contemporaneidade, ao escolher Leão, ele sabe porquê e vai-nos dizer. Quanto a mim, é exatamente essa-
A referência de Leão XIII
...a sublinhar que assim como Leão XIII teve uma mudança de época, da era industrial, ele também se encontra numa mudança de época, até com a inteligência artificial.
Exatamente. Aliás, ainda hoje o padre Emanoel veio de um encontro da Católica.
É verdade.
Em que se falou disso.
É verdade, todo dia. Uma belíssima série de mesas redondas de áreas muito diferentes, desde a saúde à educação, que nos foi muito proveitosa como interrogação. E saber colocar bem as perguntas é melhor do que dar respostas.
Exatamente. E é todo um mundo que se abre, o mundo de fato está a mudar e está a mudar muito com a inteligência artificial.
É verdade.
Como é que isso vai impactar? Que ideias ficou sobre, concretamente, o homem e a fé, a nossa fé?
Fiquei com a ideia, fundamentalmente, que não podemos desistir de um humanismo, que a gente agora chama de um novo humanismo. Aliás, a expressão não é tão nova assim. E a Itália, a Conferência Episcopal utilizou já há pelo menos uma década essa ideia de à procura do novo humanismo. E é a possibilidade de passarem as disciplinas do seu standard, de cada uma por si, para haver um diálogo transdisciplinar na procura desse novo humanismo que, cremos nós, vai ser ajudado pela máquina. Vai ser ajudado e não substituído, como muitas vezes aparece como medo.
E muitas vezes como médico também, já há estes estudos, já há esses robôs que operam e tudo, há grandes avanços da ciência.
Coisas fantásticas.
Mas de facto, tive outro dia um convidado aqui que também me falava disso. Nunca vai substituir aquele gut feeling, aquela coisa do diálogo paciente-médico.
Pelo menos é assim que a gente supõe neste momento.
Pois, exatamente. Com as ferramentas que temos à mão, mas é uma evolução exponencial.
Exatamente.
Mas pode ser sempre, e oxalá, uma ferramenta que nos ajuda e não que nos substitui.
Aí também a mensagem do papa com o "não tenham medo". É uma expressão de Jesus em tantos lados.
Dizem que é a que Jesus mais diz nos evangelhos.
É verdade.
A mais repetida por Jesus: "Não tenham medo".
E João Paulo II também.
Sim, pois é.
E é engraçado.
"Abri os vossos corações, não tenhais medo."
Exato, não tenham medo. Ele recolhe expressões dos anteriores, como que a sucessão é de São Pedro.
E não é abrupta.
Vem lá de trás.
Há uma herança que ele está a prolongar, um legado. Ainda bem, nas suas partes boas, só mesmo para continuar. O sinal de advertimento papal, muita gente dizia que se aparecesse todo branco... O Francisco é que acabou o protocolo nesse sentido.
É verdade.
Porque o normal é isto.
Exatamente.
Mas como diria um amigo meu, também padre: "Folclore, não é o mais importante, isto não é a mensagem que vai deixar".
Evidente. Só que são também linguagens. Vamos ver. Portanto, ele usou umas palavras semelhantes às de Francisco e apareceu semelhante a Bento XVI. Portanto, vamos ver.
Exato. Senão também era, se calhar, demasiado óbvia a cópia e isso também pode não cair bem.
De certeza.
Exatamente, tem sua personalidade.
Porque é com certeza muitíssimo inteligente, senão não havia esta unanimidade dos cardeais. É uma pessoa, com certeza, com muitíssimas qualidades que a gente não conhece, mas vai conhecer.
E ele estava neste dicastério onde ele estava agora e trabalhava.
Dos bispos.
Dos bispos. No fundo, é quem ajuda o papa a selecionar os futuros bispos e os futuros cardeais.
De alguma maneira, são eles que fazem esse trabalho.
Essa seleção.
O ajudar o papa é a maneira de a gente dizer, porque o papa não faz areia.
Exato. Então reúne estes dados. Até agora, acho que já no tempo do Papa Francisco, há três mulheres nesse comitê que entraram agora e que também ajudam a reunir os currículos para poder escolher.
Pode ser.
O que é um trabalho extraordinário. E dizem que entre os cardeais era dos poucos que lá estavam que conhecia todos.
Claro, ou pelo menos conhecia muitos. E muitos o conheciam a ele. Isso, de alguma maneira, também pode ter ajudado a ser tão rápida a escolha.
Exatamente. É muito curioso também o pormenor dos sapatos, muita gente repara e falava-se no Bento XVI.
Este ainda não vi.
Os sapatos são pretos.
Mas na varanda não se veem os sapatos.
Não, mas já se viu sapatos dele que ele usou, escolheu ser sepultado com eles, o Francisco, a gente lembra-se disso, os mesmos que tinha levado a Lampedusa, é muito curioso. São João Paulo II e Bento XVI usaram aqueles, sem serem os múlios normais, usavam os sapatos feitos em Roma, às portas do Vaticano, no mesmo sapateiro, que era um peruano, o Antônio Arellano, que faz calçado por medida. Provavelmente este usa lá.
Não fazia ideia.
Como é peruano.
Não fazia ideia.
Onde é que acha que ele vai viver? Ele vivia no Palácio do Santo Ofício, que aliás ontem visitou de surpresa.
Sim. No Palácio do Santo Ofício vive muita gente. É só uma série de apartamentos. Provavelmente, ele vai continuar a querer viver em Santa Marta, também é de uma congregação religiosa. Aliás, de hábitos mais cenobíticos do que os jesuítas, que eu acho que são mais francatiradores.
Pois, não têm mosteiros mesmo. Exatamente.
E apesar de tudo, o Papa Francisco quis essa referência comunitária.
Sim, ele dizia que é uma questão de saúde mental.
Exatamente. Que lhe fazia falta.
Infelizmente, luz sozinho, Deus me livre. E é engraçado que contaram isto, que ontem quando ele foi lá visitar o Palácio do Santo Ofício, ontem à noite, uma criança pediu-lhe para assinar a Bíblia e ele disse-lhe: "Vou experimentar fazer uma assinatura porque a minha antiga já não serve."
Pois é.
Começou-se todos a rir. E aqui depois viu a data: "Espera lá, isto foi escrito hoje, dia 8. Então olha, levas uma Bíblia assinada no dia da minha eleição." É extraordinário. É também um grande entusiasta do ténis, eu não sabia, joga muito ténis e está ansioso por poder voltar a jogar.
E lá existem campos.
Tem court de ténis dentro do Vaticano?
Fizeram por causa de João Paulo II.
Que era um grande desportista, ia a esqui. Engraçado.
Esqui, creio que dentro do Vaticano, não.
Não, isso não. Mas na Polônia fazia muito.
E depois para os Alpes, norte da Itália.
E é também um poliglota, fala inglês, espanhol, diz que fala português, italiano e francês. Ainda não o ouvi falar português, vamos lá ver. Tem esta grande conexão com o mundo hispânico, como já vimos também logo na sua primeira alocução. E orientações e prioridades dos pontificados, se calhar esta continuidade com o Francisco que falámos, os migrantes é muito importante. Aliás, ele já desmentiu até o vice-presidente americano quando disse: "Primeiro temos que amar a nossa família e depois então os que vêm de fora." Ele disse: "Não, isso é falso."
Não, é uma falsa interpretação bíblica. E essas coisas que agora se vão repescar, claro que joga para todos os lados. Quer dizer, ele vai ter que se haver com isso, porque as afirmações de um cardeal que depois é bispo, claro que não pode fazer ao contrário daquilo que disse, mas as coisas são como são.
Exatamente.
Por exemplo, há afirmações que são...
As coisas também evoluíram entretanto.
Certamente. Há umas coisas menos felizes, diríamos nós agora, que são de 2012. Ora, 2012 para hoje muda o mundo, mesmo na mentalidade comum e eclesial.
Exatamente. A paz, ele fez questão de mencionar duas ou três vezes no primeiro discurso, esta questão do desarmado e desarmante, humilde e perseverante, muito bonito, fazedor de pontes, não tenham medo, já falámos disso, a gratidão por este legado. Eles dizem, quem o conhece, que ele é um meio-termo entre progressistas e conservadores. Claro que há esta rivalidade.
Se houvesse, pois, está claro.
De que maneira é que acha que a Igreja pode equilibrar esta tradição e inovação para se manter relevante no nosso mundo contemporâneo, padre Emanuel?
Pois é. Em palavras pobres, eu diria que era não se subtrair ao diálogo e aos debates contemporâneos. Portanto, arriscar parecer menos fortaleza e mais as tais pontes que o Papa referiu. Ou seja, mostrar-se com uma pluralidade de posições. Ser católico não é ser monolítico, é viver a relação pessoal com o Senhor Jesus de uma forma como cada um de nós é capaz e sabe. E isso vivido em comunidade, ou seja, que os diferentes constroem comunidades mais belas por serem diferentes.
E mais variadas, mais ricas.
Exatamente.
E não tudo monolítico.
Eu espero que uma Igreja que continue a viver deste modo, seja uma Igreja que não se fecha com medo, pelo contrário, mas que procura na sua humildade ser um lugar de encontro E por isso lugar de esperança para a humanidade que hoje vive, crentes e não crentes.
E eu uma vez perguntar-lhe também numa entrevista: "A Igreja pretende ser poucos. Podem muitos sair, ficarem poucos, mas bons, é o ideal?". E ele: "Não. Podem ser poucos, mas honestos". É muito engraçado ele dizer isso, a questão de poucos, mas honestos.
E honestidade, no que diz respeito à reflexão da ética teológica, acaba por ser o modo de falar da bondade na correção. Portanto, bondade interior e correção no agir. Ser honesto, ser verdadeiro, ser conosco próprios e com os outros.
Então é um valor tão caído em desuso, padre Manuel, a bondade.
Não está de moda.
E reconhecer uma pessoa boa, com o coração grande. É tão bom!
Exatamente. É muito importante.
Hoje em dia são os influencers e as redes sociais, é o fútil e o superficial.
E o imediato.
O imediato, exatamente. É verdade isso. O caminho sinodal também é uma coisa que ele falou e que foi já lançado por Francisco e que ainda não acabou. Ele lançou em 2021. Portanto, a ideia é de fazer novas maneiras de fazer as coisas na Igreja, a questão de incluir mais leigos e religiosas nas consultas, com maior presença de mulheres no Dicastério para os Bispos, por exemplo, que foi o que ele também criou. Criar mais organismos de consulta nas dioceses, nas paróquias. A propósito das mulheres, ele já disse que coordenação de mulheres não, porque são palavras de Leão XIV, é algo que podia criar um problema em vez de o resolver. O papel dos leigos, especialmente as mulheres, no futuro da Igreja Católica, padre Manuel, vê que isso possa mudar muito ou deviam estar mais empenhados, cada vez mais, e haver mais lugares?
Falou do padre Mário Correia, certo? Em São Sebastião da Pedreira, eu apanhei em miúdo, nós, o padre Mário Correia como aquele que propunha as mudanças do Concílio Vaticano II e foi tão importante. Lembro-me de uma reunião em que eu era dos mais novos, em que ele falava da possibilidade de leigos passarem a fazer as leituras na missa. Grande espanto. E depois há um senhor que pergunta: "E será que as senhoras também podem fazer leituras?" E ele disse: "Vá lá de exageros".
Não testiquem.
Exatamente. Ora, foi um fósforo. Se hoje as senhoras não fizessem a leitura da missa, estávamos feitos ao bife.
Ou fosse o ministro da comunhão.
Exatamente. Isso ainda nem pensava.
Exatamente.
As coisas vão ser muito mais rápidas do que alguma vez a gente imagina hoje, o que eu imagino hoje. E portanto, mesmo aquilo que é afirmado como não discutível, como aconteceu no que diz respeito à ordenação das mulheres por João Paulo II, já há pelo menos um grupo de trabalho ou grupos de trabalho a esse propósito. Portanto, vamos ver. Ou seja, as transformações, e isso também é uma afirmação do atual papa, não sei em que circunstância. Suponho que quando participou no sínodo sobre sinodalidade. Ele foi porta-voz em Jesus das Olmas e numa circunstância disse que as grandes mudanças não são imediatas.
Não é que a porta esteja fechada, mas há uma coisa que tem que ser gradual.
Exatamente. Vamos ver.
Contra o aborto, contra a eutanásia, contra a pena de morte. Pronto, isso já se esperava, é normal. E, no entanto, afirmou, por exemplo, há uns anos que a promoção da ideologia de gênero é confusa, porque cria gêneros que não existem.
Pois, está claro.
E portanto, ele era contra a inclusão dos tais currículos de ensinamentos de gêneros nas escolas, por exemplo, no Peru. Já no Peru tinha esse trabalho.
Agora não podemos lutar contra o que se chama uma ideologia de gênero, não sei se é ideologia ou se não, com uma outra ideologia. Vale a pena lutar com a verdade das coisas como elas são. Ou seja, desarmar a luta ideológica.
Exatamente.
Procurar que as coisas sejam vividas com verdade, sem endoutrinar os miúdos.
Sem instalar ideologias políticas.
Exatamente, tal qual.
Esta questão dos divorciados.
Políticos no sentido.
Exatamente. Este dos divorciados e recasados e o acesso aos sacramento é uma coisa que também pensa que pode estar em discussão neste momento, ou não?
Está, certamente, e sobretudo a partir da Amoris laetitia. Quem deu o pontapé de saída da reflexão teológica, com liberdade, que era uma coisa que a gente não tinha muito, devo dizer.
Até há uns anos.
Exatamente. Eu sou de um tempo em que os teólogos tinham que pensar duas vezes antes de abrir a boca. Os mais relevantes. Porque havia polícias, havia denunciadores, o que é uma coisa estranha.
Quando se é sapido espiritual.
O que é uma coisa estranha. Portanto, havia grandes professores que pensavam o que é que tinham que dizer, o modo como diziam nas aulas, porque havia quem fosse dizer depois: "Informar-se". O Santo Ofício não vinha à fogueira, mas vinha o equivalente. Ora, isso mudou completamente, ainda com Bento XVI como papa. E num verão que ele passou férias no norte Itália, nos Alpes, teve uma conversa com padres à noite, num serão. E um dos padres perguntou-lhe: "Como é que a gente deve fazer?" E ele disse: "Pensem vocês. Temos que puxar pela cabeça. Os teólogos que investiguem." Porque ele vem de um país que é a Alemanha, em que se não houvesse os divorciados que voltaram a ter novas uniões, desaparecessem da igreja, a igreja teria muito menos pessoas do que agora.
Esvaziava-se muito.
Exatamente. É impensável. Nós queremos coisas quimicamente puras só na farmácia e mesmo assim não é seguro.
Exatamente. Estava agora a pensar também pelo fato de ele ser agostiniano, que é uma coisa curiosa. Ele vem desta tradição. Já havia antigamente os cônegos regrantes.
De Santo Agostinho.
De Santo Agostinho. Aliás, Santo António.
Santo António.
Que foi uma década.
Antes de ser António.
Antes de ser franciscano. Além do Lutero e do Mendel, por exemplo, este austríaco, o pai da genética moderna.
Isso mesmo.
Santo Agostinho de Hipona, portanto, tem este carisma, que são comunitários, vive muito em interioridade, serviço pastoral e educativo. A escuta do coração onde Deus habita era uma coisa muito típica de Santo Agostinho. Santo Agostinho dizia isso: "Não queiras sair de ti, volta para dentro, que no interior do homem habita a verdade". E é muito curioso como ele também parece um homem muito reservado, pensa muito as coisas antes de dizer e que medita muito. Tem a ver com este carisma dele.
Certamente.
Ele foi o prio geral dos agostinianos durante uma década.
Como geral, foi colega do nosso dom José Ornelas. Ele era geral dos dehonianos e pelo visto conheciam-se bastante bem, pelo que eu consegui perceber.
Esta como mensagem final, estava a pensar, padre José Manuel, nesta mensagem de esperança que ele disse na própria varanda: "O mal não prevalecerá". Isto dá-nos imenso alento e esperança.
Absolutamente. E é uma convicção profunda de nós, cristãos, de que de facto o mal está vencido. Agora é só uma questão de tempo e da gente se pôr do lado certo. Já agora, para contribuir com alguma coisa de bem no mundo em que vivemos.
Muito bem, padre José Manuel Pereira Almeida, queria lhe agradecer muito esta sua presença aqui na Rádio Observador. Ajudou-nos a pensar um bocadinho neste legado do Francisco e também nesta grande missão que tem agora Leão XIV em mãos, por uma igreja melhor e, portanto, por um mundo melhor, é o que todos lhe desejamos. Bem-haja por ter vindo.
Muito obrigado.