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Pelas tuas mãos já passaram muitas vidas e também quando estiveste em Leçhe, muitas vidas destruídas e das pessoas que fogem dos seus países.
Sim, mas também com mensagens de esperança, cheias de histórias também. Não são negativas, mas que podem aportar tanto. Pessoas com muita formação. Eu cheguei a ter pessoas, médicos, enfermeiros.
Fugidos das suas terras.
Exatamente. Portanto, há um potencial que não se pode desperdiçar.
Exatamente, desperdiçar.
Na minha opinião, quando se acolhe, há um potencial humano formado, porque a imigração que chega à Europa não é uma imigração que não sabe nada.
Há um festival de cinema anual que se passa na raia entre Portugal e Espanha e que se preocupa com a descentralização cultural, levar cinema ao ar livre, a aldeias e a locais onde o cinema nunca vai, conta com a participação cidadã, aproxima comunidades de países diferentes através da cultura e convida, sobretudo, à reflexão, ao pensamento e ao conhecimento. Estou a falar do Periferias, Festival Internacional de Cinema de Marvão e Valência de Alcântara, cuja 14ª edição decorre já na segunda semana de agosto, com atividades prévias já a decorrer neste mês de julho, apresentando mais de 30 longas-metragens, documentários e obras de animação provenientes de diversos países, bem como exposições, concertos, passeios noturnos, visitas guiadas e outras atividades culturais em municípios rurais da raia de Espanha e Portugal. Para saber tudo, converso com a sua diretora, Paula Duque, a hispano-colombiana que se apaixonou pela nossa fronteira e pela ideia de cultura para todos. Olá, Paula, e bem-hajas pela tua participação. Obrigado por ter aceitado o nosso convite.
Muito obrigada. É um honor.
É um grande prazer estar a falar contigo. Eu disse que tu eras colombiana e espanhola, porque tens um pai que é da Colômbia ou mãe?
Sim, nasci em-
Ah, nasceste lá?
Sim, em Bogotá.
Em Bogotá.
Mas cresci em Itália.
Ah, Itália. Por isso é que falas também italiano.
Mas por parte do meu pai são espanhóis.
Espanhóis.
Também sou espanhola.
E são aqui de Extremadura?
Não. Castilha-La Mancha.
Ah, Castilha. Ok. Castilha-La Mancha, muito bem.
E agora me considero uma raiana.
És uma raiana.
De coração. Se estou em Portugal, sou alentejana.
Alentejana.
Se estou em Extremadura, extremenha.
Sim, exato. Que engraçado. Tu tens uma casa em Valência de Alcântara, que é ali ao pé de Cáceres. Pertence à província de Cáceres.
Sim.
É muito perto desta ponte de Trajano. Eu adorava conhecer esta ponte de Alcântara, do ano 106, que é a 15 km da fronteira. Eu acho que Valência ainda é mais perto da fronteira, não é?
É mais perto da fronteira. São seis, sete quilômetros.
É muito pertinho.
É muito pertinho.
Por isso rapidamente estás em Marvão.
Sim. Eu acordo todos os dias, muitas vezes em Portugal, logo levo os meus filhos à escola, em Portalegre.
Tu tens dois filhos que estão em Portalegre.
Tenho dois filhos.
E o teu companheiro é português.
Português. E depois vou trabalhar, vou para Cáceres.
Incrível. Todos os dias?
Não, não todos os dias, mas sou uma raiana de coração. Trabalho, vivo e, sobretudo, desfruto desta cultura tão rica entre o Alentejo e a Extremadura.
E a Extremadura espanhola.
De fato, penso, se tivesse que escolher um lugar para viver novamente, eu escolheria uma fronteira.
Uma fronteira. Porque gostas ou não gostas?
Gosto.
Mas a fronteira é uma coisa muito física também, não é? Porque a mentalidade é mais ou menos a mesma.
Sim, é um território.
Sim, é uma linha geográfica, é virtual.
É virtual.
Porque as pessoas falam um bocadinho diferente, mas até a fala é muito parecida.
Sim, é uma fala raiana, de fato há várias línguas que se fala na raia, mas é uma identidade, é muito interessante, muito rica. Depois são populações rurais, muito tolerantes, abertas à diversidade.
Tão bom, tão importante isso.
Comecei muito bem, desfrutamos do parque da serra de São Mamede.
São tão bonitos, está Marvão.
Está Marvão e também a Reserva del Tajo, Tejo Internacional.
A Reserva do Tejo Internacional, pois é, passa ali. Claro.
Exatamente. Portanto, é um privilégio.
Ah, e a Reserva da Biosfera, então, pronto. Está classificado e protegido. Os teus filhos estão aqui a estudar em Portalegre, de 15 anos e 11 anos, às vezes corrigem o teu português.
Bastante, sim.
Muitas vezes?
Sim, muitas vezes, todos os dias.
É assim que se diz.
Tenho a aula permanente em casa.
Com o marido. Muito bem. A tua formação é muito curiosa, formação acadêmica especializada, tu licenciaste em Serviço Social. Tu especializaste em Bem-Estar Social, Infância e Juventude, isto em Sevilha. E depois és técnica de inserção sociolaboral para coletivos em risco de exclusão social. Estudaste depois Sociologia e estudaste Gestão Cultural Tornaste especialista em análise de conflitos internacionais. Isso é tão bonito, mas trabalhas e vives na raia, portanto, há ali conflitos que às vezes tens de resolver.
Conflitos internacionais.
Exato.
Afortunadamente, não. Que é uma das coisas que penso que temos que conservar, porque as fronteiras são muito importantes. Tem que haver outro olhar para as fronteiras, tem que haver outro cuidado, porque são as pessoas mais resilientes, que nos protegem, que nos ensinam.
Temos muito a aprender uns com os outros.
Muito.
Ao mesmo tempo, as pessoas não brincam contigo porque dizem: "De Espanha, nem bom vento, nem bom casamento". Há esta coisa que já tivemos batalhas com os espanhóis e eles conosco. Às vezes olhavam-nos mal e nós olhavamos eles mal e corremos com o Rei Filipe, etc. As pessoas não dizem muito. Ali são bons vizinhos uns dos outros?
São bons vizinhos.
Estas partes históricas já passaram e hoje são amigos.
Sim, já passaram. Se respira um clima, como eu disse antes, de tolerância, mas há uma identidade muito forte de proximidade e de respeito.
Isso é muito importante.
É muito importante nos tempos que correm hoje.
Sim, claro. Que há cada vez mais divisões, mais lutas e mais guerras aqui ao pé. Tu também foste técnica assessora neste Conselho Italiano para os refugiados em Itália.
Em Itália.
Aí trabalhaste com campos de refugiados, foi?
Sim, sobretudo trabalhei em Lecce, Apulia.
Lecce, sim. No sul de Itália.
Sul de Itália. Foi muito interessante, porque sobretudo países de leste que entravam em Itália.
Para entrar no Espaço Schengen e ficar por cá. E aí davas apoio aos que pediam asilo e proteção humanitária.
Exatamente, sim. Foi um trabalho muito interessante, porque também como imigrante que sou, sentia essa necessidade de devolver aquilo que eu recebi.
Devolver um bocadinho. Exatamente.
Sim, na verdade, de uma parte altruísta, mas eu tenho a sorte de ter nacionalidade espanhola e italiana.
A tua nacionalidade é só espanhola ou tens também italiana, colombiana?
Espanhola e colombiana.
Espanhola e colombiana.
Sim.
Ok.
Mas se eu abro o meu portfólio, eu tenho Itália, Portugal, Colômbia, Espanha.
Sim, e falas isso tudo, e francês, e inglês. É extraordinário. Eu adoro o teu currículo, porque ali há um período entre 2010 e 2014, função: maternidade.
Exatamente.
Esses quatro anos estiveste só dedicada a nascer os teus filhos.
Maternidade.
E aos primeiros anos deles.
Sim. Achei muito importante, depois da minha maternidade, eu voltar a fazer um currículo quando estive muito tempo dedicada ao meu primeiro filho. E pensei: é importante ressaltar esse tema da maternidade.
E puseste no currículo. É aquele período que é maternidade. Aí estiveste concentrada e focada em passar um outro testemunho.
Estou a cuidar um futuro.
É tão importante. E a continuação.
Sim.
Os teus filhos, já com 11 anos e 15 anos, já se percebem de tudo. Gostam desta tua atividade, por exemplo, do Periferias? Eles vão a estas sessões ou ligam alguma coisa ou não?
Sim, eles gostam, porque também têm crescido.
Sim. Este ano é a 14ª edição. Exato.
14ª edição.
Vêem a mãe ocupada com isso, a planear e a contactar.
Exatamente. Faço porque, sobretudo o meu filho mais velho.
Mais velho, tem 15 anos?
Que tem 15, me acompanha a outros festivais, eventos.
Tu vais muito ver outros e assim, o que acontece?
Sim, entre Espanha e Portugal. E é já conhecido, eu penso, então já estou a formar.
Qualquer dia ajuda-te a programar.
De fato, já está a ser júri de algum festival de crianças.
É isso que eu ia dizer, até porque Periferias também tem esta dimensão e programação infantil, não tem?
Sim, também.
Também tem filmes de animação, mas animação não quer dizer só para crianças, não é?
Não, não só para crianças.
Não é só, mas também tem uma programação pensada para naquela semana.
Sim. A verdade é que temos um projeto, o Cinema Somos Nós.
O Cinema Somos Nós.
É o projeto educativo do Periferias, que foi inicialmente apoiado pelo ICA.
Esse é o do Sérgio Marques, é o do cinema insuflável?
Não. É o Cinema Somos Nós. É outro.
Outro. Está bem. Porque eu sei que o Sérgio Marques e também tem umas extensões.
Sim, também nos acompanhou.
Ele tem uma entrevista conosco agora para a semana, ele vem cá.
Sim, também nos acompanhou há pouco tempo, mas sentimos essa necessidade de estar permanentemente em contato com as escolas. Estamos na escola de Marvão, Arronches, já fizemos atividades em Castelo de Vide, em Porto Alegre.
Alter do Chão. Eu vi uma série de terras, até de outros anos, que os agrupamentos juntaram-se e fizeram filmes Para vos enviar?
Sim, algum, mas há diversos projetos também na região. Mas é importante criar esse público, cuidá-lo, que se aproximem de uma forma diferente, que tenha outro olhar sobre o cinema, que não é só para alguns.
Exatamente.
Isso é o mais importante para nós.
Há uma década, mais ou menos, 2014, 2015, tu coordenaste um projeto que era a mediação cultural para a infância através do cinema. Foi este Festival Cinema Africano de Tarifa. Tarifa-Tânger, não é?
Sim, Tarifa-Tânger.
Entre Espanha e Marrocos, neste caso. É outra fronteira.
Quando estive em Tarifa, que foi quando eu iniciei toda essa aventura há 20 e tal anos, de quando me aproximei do cinema, trabalhamos com este projeto, mas passado uns anos, e depois de já criar Periferias, Espanha-Portugal, o Festival de Tarifa olha para Marrocos e também se abre.
Aqui explicando aos nossos ouvintes, Tarifa eu já lá estive, é a pontinha da terra cá embaixo.
Mais próxima de África.
Perto de Gibraltar, é mais perto de África. É de onde se vê África, o Atlântico a 50 km, do outro lado do mar estás a ver África.
Sim, estás em Tânger.
Muito ventosa, muito bonita. Está lá muitos campeões do mundo de surf a fazer surf. É uma zona fantástica, umas praias.
De fato, foi o lugar onde me conheci com o meu companheiro.
Com o teu companheiro? Não sabia.
No Festival de Cinema. Este Festival de Cinema, Tarifa.
Este FCAT, Cinema Africano de Tarifa-Tânger.
Incrível, o festival, maravilhoso.
Muito bem. E depois, em 2021, já mais recentemente, já depois da pandemia, foste diretora deste projeto do gabinete de inclusão social em saúde mental. Também outro tema muito importante.
É muito importante.
Tu trabalhaste este Serviço Nacional de Saúde Mental de Portugal.
Sim, fui convidada por uma instituição para coordenar comunicação e também para ser essa ponte com a Espanha, também para falar de saúde mental. Portanto, eu estou sempre entre o social e a cultura, mas como a minha formação é ligada sempre às humanidades, sempre estamos a ver as necessidades.
E à sociologia e à assistência social.
Portanto, no caso concreto, Periferias, estive a ver as necessidades a nível cultural.
Exatamente. Tão importante.
E, portanto, daqui vem.
E também foste presidente da FeCineX.
Sou.
E foste coordenadora, ex-presidente, sim, até agora, da Festivais de Cinema da Estremadura e que te tornaste, entretanto, gestora cultural independente, uma espécie de freelancer que corre estes festivais, organiza estes festivais, mas sobretudo os projetos culturais pagos pelos municípios e Ministério da Cultura de Espanha, mas focados em tudo que tu gostas, que é o território, participação cidadã e cooperação transfronteiriça, portanto, entre os países, que é o que tu mais gostas.
Sim.
Desde 2013, então, esta é a 14ª edição este ano, que és diretora artística, executiva e programadora do Periferias. Tens também este trabalho muito bonito, mas tu és uma pessoa ótima, de voluntariado, mediadora e intérprete de espanhol quando estiveste aqui a apoiar pessoas migrantes, aqui em Verona, na Fundação Intercultural Sevilha Acoge, em Sevilha. Orientação, gestão de casos, mediação intercultural. Estiveste também na Índia a acompanhar projetos sociais comunitários, a ver com o Tibete, com Mumbai.
Sim, também.
Foi uma experiência muito boa. Isto já faz 20 anos.
Já foi há 20 anos, mas estive com o governo tibetano, com o Dalai Lama, a trabalhar com um projeto de refugiados do Tibete.
Refugiados políticos.
Sobretudo crianças. E, portanto, sim, foi uma experiência para a vida, muito positiva e dura também.
Claro, deve ser difícil. Já passaram pelas tuas mãos muitas vidas e também quando estiveste em Lecce, muitas vidas destruídas e as pessoas que fogem dos seus países.
Sim, mas também com mensagens de esperança.
Ok, isso é importante.
É importante, sobretudo porque são pessoas cheias de histórias também, não só negativas, mas que podem aportar tanto. Pessoas com muita formação. Eu cheguei a ter pessoas, médicos, enfermeiros.
Fugidos das suas terras.
Exatamente. Portanto, há um potencial que não se pode desperdiçar.
Exatamente, desperdiçar.
Na minha opinião, quando se acolhe, há um potencial humano formado, porque a imigração que chega à Europa não é uma imigração que não sabe nada.
Sim, não é um miserável. Exato.
Como mínimo, tem uma escolaridade, uma universidade, masters
Mestrados, às vezes.
Exatamente. Portanto, é um potencial que não se pode desperdiçar.
Incrível quando a pessoa tem que largar tudo, família, o hospital onde trabalha ou escola onde trabalha, e largar tudo pra ter que fugir, largar tudo para trás, amigos.
Mas também é uma lição de valentia.
Uma lição de valentia.
Quando uma pessoa faz um ato destes e sabe transformar, penso que para bem. Eu sou bastante positiva.
És otimista nisso, não é?
Eu sou muito otimista, sim.
E quando acontecem estas coisas na Europa, tu que já passaste por refugiados em Itália e Espanha também, em muitos sítios, este curso Sevilha Acolhe, por exemplo. Apesar destas guerras que estão a começar e estes presidentes estrangeiros malucos que querem fazer guerra, continuas com esperança? O que te dá esperança? O que te agarras para acreditar que o mundo vai ficar melhor, tem que ficar melhor?
Eu penso que realmente 80% dos conflitos se resolvem cotidianamente. Há um 20% que é mais mediático e o que não se resolve tão facilmente. Mas eu tenho esperança. Para mim, sabes, é muito importante ser boa pessoa.
Sim, é o mais importante.
É o mais importante.
Ter um coração grande, ser bondade.
E desfrutar da vida, a bondade. São coisas que se estão a perder. Eu vejo as pessoas muito estressadas.
Estava a pensar nisso. Não está na moda, Paula, a bondade ou ser generoso.
Exatamente.
Começar bons exemplos.
Com a minha equipa, são 15 anos que estamos juntos, entre espanhóis e portugueses. Alguma pessoa que entra, sai da equipa do Periferias, mas o que mais nos gosta é encontrarmos. De fato, acho que é um milagre já chegar a 14 anos, mas quando eu recebo currículos, só quero que seja uma pessoa gentil, que saiba ser resolutiva, que não se afogue num copo de água.
Que não faça uma tempestade num copo d'água. É verdade.
Exato.
Tu procuras isso nos currículos. Por acaso, hoje em dia, Paula, as empresas que contratam, miúdos, muitas vezes não vão tanto ver as notas muito altas da faculdade, mas, por exemplo, vão ver, já me disseram, eu tive experiência com filhos meus, se foste voluntária, se tiveste ação social. As pessoas ligam muito a isso, hoje em dia, ainda bem.
Hoje, de fato, vi uma notícia falando da seleção da Espanha, que estamos muito contentes.
É verdade, claro, parabéns.
Do chefe, diretor da equipa.
Do treinador.
Do treinador, exatamente. A dizer uma coisa. Sim, adorei, porque dizia: "Eu só procuro persona buena gente".
Sim.
Eu pensei: "É isso". E foi o que vi no jogo.
E mesmo o Torres, que ficou agora muito famoso, por causa daquele gol e não sei o quê da vitória, que também diz: "Como católico, acho que temos que oferecer estas vitórias e temos que esforçar para ser melhores pessoas". E foi muito engraçado ele assumidamente dizer os valores que tem e que são importantes.
Sim, mas parece que já aquilo não está na moda, como tu dizes.
Exato, pois é. Muito bem, Paula Duque, temos que fazer aqui um pequenino intervalo e já voltamos à conversa. Até já. Estamos a conversar com Paula Duque, ela é a diretora artística do Periferias, Festival Internacional de Cinema de Marvão e Valência de Alcântara, cuja 14ª edição apresenta mais de 30 longas-metragens e documentários, bem como exposições, concertos e atividades culturais em municípios rurais da raia entre Espanha e Portugal. Estamos a falar deste festival muito curioso. Tu também estavas a falar que estiveste na Índia a fazer trabalho social e também que tiveste voluntariado em Marrocos, por exemplo, com a Fundação para Cooperação e Solidariedade em ação. Este Periferias, Festival Internacional do Cinema, foi criado em 2013, portanto, é a 14ª edição este ano, pela Associação Cultural Periferias, aqui em Portugal, e o Gatopardo, em Espanha. E nasceu desta necessidade de haver estruturas culturais no meio rural, desses territórios com baixa densidade. Quais são os dois ou três objetivos que tu achas mais importantes que tem o Periferias? Nasce para quê? O que é importante pra ti?
Na realidade, o festival nasce sem objetivos, porque foi uma mudança de Sevilha a Marvão, a uma quinta portuguesa, e foi uma mudança bastante radical. Nunca pensei morar no campo, tampouco em ter uma horta.
Tu moravas em Sevilha?
Morava em Sevilha.
"Ai, ter uma horta". Cultivas a tua horta? Tens mesmo horta em casa, ou não?
Sim, eu tenho muitas coisas na minha quinta, muitas árvores castanho.
Castanheiras.
Castanheiras, amendoeiras, cerejeira, limoeiras.
É um pomar?
Um pomar. Tenho uma quinta portuguesa muito bonita. E o campo me tem ensinado muito. Sinto-me muito grata. Também sei fazer queijo de cabra natural.
Ok, boa.
Mas pronto, o festival surge por essa necessidade de falta de estruturas. Agora Marvão tem uma dinâmica, graças à cultura, muito forte na região.
Ainda bem.
Mas sim, nasce, sobretudo, por essa necessidade de falta de estruturas, porque nós, na realidade, somos um festival de cinema ao ar livre, onde não há salas de cinema.
Em terras, e depois vão pra aldeias, Marvão, Beirã.
Exatamente, vamos todas as noites, é uma produção bastante exigente.
Há muita gente ali que vai ao cinema que nunca antes tinha ido, se calhar, não conhecem.
Não conhecia.
As grandes produtoras não vão lá. E vocês têm um cuidado muito bonito que é: vamos levar obras boas e obras premiadas nos festivais.
Premiadas, é importante. Eu cheguei à conclusão que no mundo rural, o cinema, às vezes Muitas vezes, vê-se só no telejornal.
Só o telejornal.
"Ganhou tal prêmio".
Só vão sabendo pelas notícias.
Exato. Mas ver uma obra premiada, dificilmente. É raro. Só falar em comunidades rurais onde não há salas de cinema.
Exatamente. Há imensas aldeias onde vocês vão em que não há mesmo salas, têm que projetar nas igrejas ou escondido nas muralhas de Marvão ou nas estações desativadas de comboio. É tão bonito.
E, portanto, o fato também de não haver estruturas permitiu criar este festival lindo, necessário. Mas quando eu falava de objetivos, eu penso que nós alcançamos um muito importante, que foi dois: a descentralização cultural e sobretudo a democratização dos direitos culturais das comunidades rurais.
Porque as pessoas não tinham direito, não tinham acesso. No interior há pouca oferta.
Não há cultura. Agora é diferente. Nós estamos isolados das cidades. Em Portalegre, o centro de artes tem uma programação magnífica, Estação de Teatro, Castelo de Vide, em Cáceres. Mas nós vamos onde não há sala de cinema e há 50 pessoas, que se transformam em 700 pessoas à noite, como aconteceu o ano passado.
Impressionante.
Placas com 700 pessoas a ver um filme, foi todo um triunfo.
Ficas toda comovida.
Comovida.
Tocada.
E também com uma responsabilidade muito grande.
E por que cinema, Paula, e não, por exemplo, música ou artes performativas? Já há um festival, eu sei que há um festival, por exemplo, de concertos de música, há o FIM, Festival Internacional de Música de Marvão e de Valência de Alcântara. Mas por que cinema, em particular? Gostas muito?
Cinema, porque estava ligada ao Festival de Cinema Africano em Tarifa.
Ah, é verdade, vinha daí.
Portanto, eu faço o primeiro ano, uma aposta muito arriscada. O Festival de Cinema Africano no Alentejo. No fim do mundo. Ou no início, agora para mim é o início do mundo, Marvão. Mas chego com uma programação incrível de cinema africano ao ar livre.
Incrível. O cinema é uma ferramenta importante e eficaz para as pessoas pensarem, para mudar as vidas?
Totalmente. O cinema tem mudado a minha vida, sem dúvida.
E das comunidades, também?
Também.
Sentes esse feedback?
Sim, porque há muitas pessoas que sempre: "Para quando? Qual é a programação deste ano?"
Que perguntam-te: "Quando é que é? Por que não vais à minha aldeia?"
Exato. Tive uma história muito bonita de um senhor já com uma idade.
Idoso?
Idoso, mas muito em forma. Ele disse: "Quando eu me reformar, vou fazer um documentário sobre a minha vida".
Ok.
Eu fiquei impressionada, digo: "Que interessante, então quando é que o senhor se reforma?" Ele responde. Mas há esse diálogo constante. Han apropriado o Periferias à comunidade. Também uma programação com uma linha curatorial cuidada, mas também muito participativa.
Continua a ser o curador, o Zé Pedro Tendinha?
Sim, também com os amigos.
Às vezes apresenta alguns filmes que ele apresenta.
Sim, é um bom amigo e também trabalhamos juntos há uns sete anos. Ele chegou ao Periferias para conhecer e nunca mais.
É, ele gosta. Ele dia 1 de julho estava na apresentação na Casa do Comum, vocês apresentaram as extensões, o programa de extensões, ele estava lá. Foi vocês que apresentaram. E como é que, Paula, isto vai parar a Marvão e a Valência de Alcântara? É assim desde a primeira edição, que é nessas duas?
Não. O primeiro ano foi só Marvão.
Ok, Marvão só.
Mas desde a minha casa vê-se Valência de Alcântara. Estando em Marvão, desde a minha quinta portuguesa, eu vejo Espanha. E eu sentia a necessidade também de estar mais perto da minha cultura e via um potencial muito rico, também a necessidade de procurar financiamento, sentia-me mais à vontade.
Na tua terra, na tua língua, claro.
Na minha língua.
Claro.
E pronto.
Tiveste a ideia de juntar, foste falar com as autoridades lá?
Sim, eu fui falar, reunir e pouco a pouco fomos construindo. Já são 33 aldeias.
É incrível.
Que se somam ao Periferias.
Que já se envolveram nesta.
Exatamente.
É incrível.
Agora vamos também a duas cidades, que é Portalegre, Cáceres.
Meu Deus, estou agora a ver o mapa. Nunca mais acaba, as aldeias todas envolvidas. Portanto, está aqui Portalegre.
Isso ao longo dos 14 anos.
São Vicente Alcântara, Salourino, Mérida, Cáceres, claro, Sevilo, mas depois também Galegos, Escusa, Castelo de Vide, Porto de Espada, São Mamede de Aramenha, Beirã, Marvão. É impressionante. Há muita coisa aqui envolvida, muitas terras, o que é muito curioso, mas é muito giro, porque vocês fazem cinema ao ar livre em cenários mais inusitados, porque isto é um festival de cinema ao ar livre, portanto, é o formato itinerante e vão de um lado para o outro. Já deram cenários improváveis, cheios de história. Uma antiga estação de comboios desativada. Aqui foi em Beirã, Marvão-Beirã. Uma velha alfândega, como foi nos Galegos. Um ecrã escondido nas muralhas do Castelo de Marvão. Já tiveram num lagar de azeite também.
Também é lindo.
Nas ruínas da Ammaia, que é uma cidade romana. Também já projetaram lá filmes. Numa ponte medieval, no Museu Hostal de uma partida de Cáceres Ou então em fronteiras físicas desativadas, que é muito típico. Uma altura em que o ecrã estava em Espanha e as cadeiras todas em Portugal.
Sim, o nosso palco. É incrível, porque é a criatividade. Quando também não tens uma financiação bastante contida, tens que desenvolver a criatividade.
Se não há um financiamento enorme, tem que inventar soluções.
E lembra-me o meu companheiro: "Então por que não fazemos aqui tela em Espanha, cadeiras em Portugal?"
É uma ideia ótima.
E é um antigo caminho de contrabandistas. É lindo. E depois é muito interessante o que acontece, porque dependendo das distribuidoras, então está o ecrã em Portugal, as cadeiras em Espanha. Se calhar há filmes que não estão em um lado, estão no outro, mas sempre respeitando essas exigências.
Aproveitam também para dar a conhecer este valioso património histórico ou cultural das aldeias e dos locais mais emblemáticos da fronteira. Levam portanto essas produções premiadas. Como é que tu farias, em poucas palavras, um balanço destas 13 edições? Já impactaram mais de 45 mil pessoas, 30 aldeias já envolvidas. Ficas contente com todo este balanço?
Sim.
Valeu muito a pena?
Sim, valeu muito a pena. Embora às vezes algumas lágrimas correm.
Por quê?
Porque é muito exigente, é uma produção muito exigente. Uma parte importantíssima é a mediação cultural que faço. É muito importante ouvir as vizinhas, os vizinhos.
Com as comunidades locais.
As comunidades.
Quer em Espanha, quer cá.
Exato. Queres este filme? Achas que faz sentido? O que gostarias?
Perguntam-lhes, pedem-lhes sustões. Ou eles também às vezes ao contrário, perguntam: "Ah, por que não?"
Sim, tenho vizinhos: "Paula, tenho um sobrinho que fez uma curta-metragem". "Então olha, mande a curta-metragem". Mas, por uma parte, essa linha curatorial, que cuidamos muito com obras premiadas que queremos trazer ao festival, mas por outro lado, também está essa linha mais de documentário, etnográfico, também para que as pessoas que habitam o território possam também sentir o festival e fazer parte.
No fundo, é para eles que é feito.
Exato. Mas cumprimos nesses 14 anos e sentimos toda a equipa uma grande felicidade de chegar com este mérito, esta mediação cultural tão forte, este trabalho entre administrações também, de Espanha, que financiam em Espanha, os que financiam em Portugal.
Depois as câmaras e as Juntas de Freguesias são vossas amigas, funcionam bem com vocês, com a organização.
Funcionamos muito bem, mas claro, tenho 15 presidentes da Câmara para falar, 15 eletricistas.
Sim, claro.
Mas é muito especial.
Os marceneiros, os carpinteiros, as caveiras, os palcos, os estrados e os palcos e tudo. Há algum tema para este ano? Eu sei que vocês ao longo dos anos têm sempre temas conforme o que está a viver, como foi há uns anos, era a guerra na Ucrânia, depois a questão da Palestina e de Israel também já foi tema, as alterações climáticas. Este ano tem algum tema assim mais forte ou é várias coisas?
Este ano, nós nos centramos sempre nos direitos humanos, meio ambiente e arte.
São essas três áreas que focam sempre.
São essas três áreas e permite fazer uma programação mais diversa, mais rica, mas é verdade que o que está a acontecer agora também no Irão, na Palestina.
Continua.
Continua. E não só, também na América Latina, também é um foco muito importante.
Procuram também ser um evento sustentável, que é muito importante isso. Além da dimensão cultural. Para programar, têm sempre esta reflexão que convida, não é só entretenimento, são coisas que convidem à reflexão crítica, política.
Sim, absolutamente. Há uma regra violência no programa, mas há formas de contar as realidades e de chegar ao público para ter uma reflexão também sobre em que ponto da vida se está, onde que estamos.
Há transfers entre Marvão e Valência, conseguem fazer isso?
Sim, a Câmara Municipal colocou um transfer para ir à raia, à fontanheira. Ir e vir. Há transfers.
Muitas vezes há coisas que são feitas lá e as pessoas querem ir, e portanto assim podem apanhar esse transporte.
Exatamente.
Pensei que tivessem um sistema combinado.
Mas não temos transportes públicos a funcionar como uma cidade. Mas sim, tentamos.
Muito bem. Há este também fórum expandido, este Cultura e Cidadania. Aliás, o Ministério da Cultura de Espanha selecionou o Periferias para desenvolver esta iniciativa. O Fórum Expandido, que é ligado ao Fórum Cultura e Ruralidades. Isto é encontros de pessoas para debater assuntos?
Sim, há um projeto da Direção Geral de Comunidades Autónomas de Espanha, Cultura e Cidadania e Cultura e Ruralidades, que este ano colocou o foco no Periferias, pelo nosso trabalho transfronteiriço. E antes de celebrar esse nono fórum, que será em Safra, Badajoz, estará em Marvão, Portugal. Portanto, é um privilégio que o Ministério da Cultura Tenha olhado para nós. Também é um reconhecimento ao nosso trabalho. E falaremos sobretudo de projetos culturais rurais, vem projetos de Catalunha, País Vasco, do Porto. Portanto, está toda a informação na nossa página.
Há uma coisa que é as extensões, mas as extensões aqui são antes e não são depois. Costuma ser depois, mas vocês não.
Não, antes.
Já estão a decorrer, desde o dia 3.
Exato.
Desde o dia 3 já estão a ocorrer umas extensões que começaram em Arronches, foi a primeira extensão. O Cinema Somos Nós, cá está.
Porto Alegre.
Porto Alegre, na Aldeia do Marco, também houve esta projeção de uma quinta portuguesa. Aqui é que entrou também o cinema no Jardim do Fosso, o Cinema Insuflável, do Sérgio Marques.
Também estive presente.
Sim, depois 4 de julho, houve o Cinema Somos Nós. Houve uma exposição de arte contemporânea, também no Convento de Nossa Senhora da Luz. E depois houve, sexta-feira passada, dia 17, aqui no CAEP, em Porto Alegre, projetou-se este "Romería", esse filme de Carla Simón. E houve um concerto, "La mujer pájaro", não foi?
"La mujer pájaro", no pátio da casa. Um lugar emblemático também de Porto Alegre.
"Las Estaciones", da Maureen Fazendeiro, também é um filme que vai passar lá. Este sábado, dia 25, vai ser em Alconchel, no Parque Natural do Alqueva, a projeção ao ar livre de um filme de animação, "Arco", do realizador Hugo Bienvenu, francês. À noite, dia sábado, 25, vai haver o primeiro percurso noturno de observação astronômica. Boas Noites Miraflores, muito bonito. E depois ainda há uma outra extensão dia quinta-feira, 30 de julho, na Filmoteca da Extremadura, em Cáceres, com esta projeção deste filme, "Iván e Yadún", do Ian de la Rosa, que pertence aqui ao Periferias. A programação de 7 a 15 de agosto, é o Periferias propriamente dito. Algum destaque que já nos possas dar?
Sim.
Isto arranca onde? No Castelo Marvão e depois deve fechar, imagino, em Valência.
Em Salorino. Sim, já há um avanço. A abertura está dia 7, no Castelo de Marvão, com "18 Buracos no Paraíso", do João Lone Pinto. Que também nos acompanhará, estará presente no festival. Logo, no dia oito, estaremos com "O Poeta", de Simón Mesasoto, ganhou o prêmio do júri em Cannes 2025. Também passará António Ferreira com a "Memória do Cheiro das Coisas". Voltará também "As Estações" de Maureen. E na parte de Espanha. Sim, um filme incrível sobre o Alentejo. Na parte espanhola, estaremos com "Calle Málaga", na fronteira, de Miriám Touzani, que é uma realizadora marroquina. Que foi o filme que vai representar os Oscar.
De Marrocos.
De Marrocos. Estreia também em breve em Portugal. E temos aqui "La Hija del Cóndor", de Álvaro Montorrijos, ganhador em Málaga. É uma programação ibérica, ibero-americana, neste caso.
Ainda há algumas surpresas que a seu tempo saberão.
E há surpresas para o fecho, também, que será em Salorino.
"As Estações" é um filme da realizadora Maureen Fazendeiro. De facto, é uma coisa que combina depoimentos de trabalhadores rurais e notas de campo de um casal de arqueólogos, com imagens de arquivo amador e designs científicos. Tem lendas, tem poemas, tem canções. Uma viagem pela história real e inventada de uma região portuguesa, que é o Alentejo, e dos povos que ali viveram. Deve ser uma coisa também curiosa, este "As Estações". Quem quiser saber mais, Paula, é ir ao vosso site, que é www.periferiasfestival.com. Lá está tudo, não é? E pode se inscrever.
Sim, estará em breve toda a programação.
Muito bem, Paula Duque, espero que tudo corra bem este ano com a programação. Já está a correr, as extensões já estão a ocorrer. E depois entre 7 e 15 de agosto, já sabe, entre Marvão e Valência de Alcântara e outras aldeias pelo meio. Esperamos que haja mais programação e tudo de bom para este festival. Muito obrigado por teres vindo.
Muito obrigada.
Obrigado a vocês.
Obrigada.