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Se quiser ouvir todos os episódios de seguida, basta ser assinante Standard ou Premium do Observador. Para assinar, vá a observador.pt/assinar. No dia em que desapareceu e deixou o marido na pista do aeroporto de Havana, Ani estava mesmo no interior do avião acabado de chegar da Cidade do México. Simplesmente não saiu para se encontrar com Raymond. Numa operação de dissimulação, foi levada de maca pelos cubanos para o interior da ambulância, que parou num local mais afastado da pista. No telegrama que o encarregado de negócios português, Gonzaga Ferreira, enviou ao ministro dos Negócios Estrangeiros a dar conta do caso, até há uma testemunha: o encarregado de negócios de Espanha, que também embarcou nesse voo entre a Cidade do México e Havana. O espanhol viu a Ani. Já se tinham cruzado antes em eventos diplomáticos, por isso tentou falar-lhe, mas sem sucesso. A filha de Silva Pais não abriu a boca para lhe dirigir uma única palavra. Notou-a tão estranha que, em conversa com o embaixador da Suíça, ainda antes sequer de saber que ela tinha desaparecido, chegou a dar um conselho: a mulher de Raymond Candau devia ser internada, pois eram bem claros os sintomas de profunda perturbação nervosa. Agora sabe-se que o estado de nervos de Ani tinha uma razão de ser. Estava prestes a tomar a decisão mais difícil e arriscada da vida dela. Rui Ferreira, que viveu em Cuba muitos anos e trabalhou como jornalista, conhece bem o regime e está convicto de que a fuga de Ani nunca poderia ter acontecido sem o mais alto envolvimento do próprio Fidel Castro.

Sucede-se porque, obviamente, há senhor que se chama Fidel Castro que dá autorização para isso.

Mais, o português garante que a operação só foi em frente porque os cubanos não tinham a menor dúvida de que as intenções de Ani, filha do diretor da Polícia Política de Salazar, eram verdadeiras.

A coisa não ia por menos. Ainda mais sendo ela filha de quem era. Ela deve ter feito os seus esforços e deve ter demorado o seu tempo para convencer os cubanos de que era uma pessoa não miúda bem comportada. Devem ter passado revista à vida dela toda e não descobriram nada.

O antes, o durante e o depois da fuga de Ani nunca teriam sido possíveis sem a ajuda e o encobrimento do regime cubano e sem a ação de um homem em particular, René Vallejo. Foi o médico de Fidel Castro quem foi buscar a Ani ao aeroporto naquele dia. E isso não aconteceu por acaso. Mesmo antes da fuga, Ani e René já eram muito próximos.

Teve uma relação com o médico do Fidel, sim, mas aí a diferença de idades era muito grande. O outro era muito mais velho que ela.

René Vallejo tem mais 15 anos do que Ani. É casado com uma mulher de origem polaca, que conheceu quando esteve a trabalhar na Europa com vítimas da Segunda Guerra Mundial. Juntos, René e Maria Natália Witowska têm dois filhos adolescentes, René Vladimir e Carmen Alexandra. Mas o confidente de Fidel também mantém uma relação com a portuguesa.

Ela teve uma relação extraconjugal com o médico do Fidel, isso toda a gente falava, que se chamava René Vallejo. Portanto, eles tiveram uma relação ainda estando ela casada com o diplomata suíço, com o Raymond.

O caso de Ani com o médico de Fidel prolonga-se durante vários anos e não é propriamente mantido em segredo, diz o diplomata português Alfredo Duarte Costa. Anos mais tarde, Raymond Candau irá mesmo confessar que suspeitou que a mulher e Vallejo tinham passado vários dias juntos no hotel Havana Riviera depois do desaparecimento dela. Em entrevista aos autores do livro "A Filha Rebelde", Roberto Meléndez, muito próximo do médico de Fidel Castro e da portuguesa, confirmará: Ani foi namorada de Vallejo. Apesar das relações privilegiadas com altas figuras do regime, que vai manter ao longo dos próximos anos, Ani quer viver como os cubanos, ser como os cubanos, divertir-se como os cubanos e sofrer como os cubanos. Não quer ter nem mais nem menos do que qualquer outra pessoa a viver no país, mas continua a ser filha do diretor da PIDE. E Fernando Silva Pais e Armando Palhota não estão dispostos a deixá-la passar tão facilmente para o lado do inimigo. Combinam que a mãe vai viajar para Cuba com o objetivo de convencer Ani a voltar para casa com ela. Mas aqueles dias em Havana vão correr terrivelmente mal. "Os Escândalos de uma Revolucionária" é uma série para ouvir em seis episódios, que faz parte dos podcast plus do Observador. É narrada por mim, Bárbara Branco, com banda sonora original de Franky Chavez. Episódio três: Aqui o Papá não Manda Nada.

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Kia. Movement that inspires. Verão de 1958, fim de agosto. A Figueira da Foz está na moda, tem o areal grande, é cosmopolita e elegante. Atrai parte da elite portuguesa que procura praia, glamour, casino e vida social. Ani tem 22 anos e quer emancipar-se. Já trabalha numa livraria em Lisboa e dá aulas de línguas para não viver totalmente à custa dos pais. Mas a mãe ainda faz questão de ter influência na vida da filha e empurra-a para participar num concurso de beleza. Está muita gente a assistir ao Miss Piscina Praia 1958, que vai escolher a participante mais bonita. Ani é uma delas. Está de calções curtos, de cintura subida e um fato de banho cai-cai. A assistência manifesta-se entusiasticamente, conta o Diário de Lisboa no dia seguinte. Ani é a vencedora. Ganha uma taça, um ramo de cravos e uma caixa de bombons. É fotografada com tudo isto na mão, sem um grande sorriso na cara. Madalena Nita Palhota não tem dúvidas de que a prima só participou por insistência da mãe, que sempre deu muita importância ao aspecto físico.

Eu acho que sim, porque a minha tia fazia muito aquela coisa da beleza. A tal coisa de ter que andar sempre pintada, toda aperaltada.

Armanda Palhota sempre quis controlar a vida da filha, dos namoros, à forma de vestir.

A minha tia achava que podia decidir de quem é que a gente gosta ou o que é que a gente fazia. Na altura era assim. E a minha tia era um bocadinho demais, porque se ela saísse à noite era porque ficava mal para o papai, se vestisse um vestido mais curto, era porque iam falar e por causa do pai, era sempre em função do pai, o que isso poderia, de alguma maneira, implicar na visão que as pessoas tinham de minha tia.

Para condicionar a filha e levá-la a fazer o que ela quer, Armanda Palhota usa a figura do marido como desculpa. E quando essa estratégia não resulta, trata de agir. Foi o que aconteceu no verão de 1954. Ani tem 18 anos e está completamente apaixonada por Stic, um rapaz suíço que está a trabalhar em Portugal numa empresa de eletrodomésticos. Ani acabou de concluir o ensino secundário no Colégio do Sagrado Coração de Maria e não vai para a universidade. Tem o verão inteiro pela frente e tenciona passá-lo com o namorado. Mas Armanda tem outros planos. Aquele não é o tipo de homem que quer para a filha. Está fora de questão que Ani e Stic possam viver mais do que uma paixoneta passageira. Por isso, decide mandá-la de férias para o mais longe possível. Neste caso, para Molelos, onde a família aluga uma casa durante o verão. A prima, Madalena Nita Palhota, está de férias com os pais nessa casa. Recorda que, apesar da distância, Ani e o namorado ainda arranjam formas de trocar cartas e até de se ver.

Mas ele foi atrás dela durante todos os tempos. Ela gostava de conviver, era namoradeira? Era. E, portanto, os rapazes gostavam todos dela. Pois era bonita, tinha aquele ar de liberdade. Não é libertinagem, não vamos confundir as coisas. Era mesmo uma pessoa livre. Ela gostava de conviver com as pessoas e como convivia com muitos estrangeiros, porque ela dava aulas de francês e de português a estrangeiros, as mentalidades eram diferentes.

A forma como Armanda sempre se intrometeu na vida de Ani não facilitou a relação entre mãe e filha. Sobretudo porque Ani fez questão, desde muito cedo, de desafiar as regras que ela lhe impunha, o que levava a discussões frequentes. Já a convivência com o pai sempre foi bem mais fácil.

Não tenho dúvidas que ela gostava dos dois. Achava que minha tia era mais

Gostava, mas: "Não me chateies muito, não te metas muito na minha vida, que estás sempre a querer mandar na minha vida". O pai não, o pai para mim era um

Só quando a Ani reaparece em Havana, em janeiro de 1966, já está a tricontinental a decorrer, é que volta a ter liberdade total. Durante mais de dois meses, esteve fechada numa casa que o regime cubano lhe arranjou. Isto depois de uma curta estadia no Hotel Havana Riviera, onde passou completamente despercebida, porque estava acompanhada por alguém do regime. Apesar desta relação com o René Vallejo, não vai viver com ele quando se muda para um apartamento que lhe é atribuído pelo Estado cubano. Instala-se sozinha no número 1456 da Calle 33, no bairro do Nuevo Vedado. É uma zona boa de Havana, diz Alfredo Duarte Costa, que foi embaixador português em Cuba entre 1999 e 2004.

A arquitetura, o estilo é tão fora do normal, que eu lembro-me de ter visto aquela casa no Novo Vedado, que é um bairro, tem o centro da Havana, a Havana Vieja, colonial, etc. Depois há um rio, atravessa-se o rio e entra-se na zona mais chique. Aliás, as pessoas de cor, no tempo da ditadura, não podiam passar aquela ponte sobre o rio. Só brancos é que podiam passar. E depois há uns bairros melhores, que é o Vedado, a seguir o Novo Vedado, e depois a zona das embaixadas, onde está a residência de Portugal, que é o designado pelo cão tricolor.

Rui Ferreira há de tornar-se visita habitual de Ani. Explica que apesar de estar naquele bairro, o apartamento da amiga era pequeno e sem luxos.

A casa era humilde. Aqui tinhas a varanda, depois a sala de jantar e o salão era o mesmo. Depois tens o quarto, a casa de banho e a cozinha do lado de cá.

O empresário José Paulo Fafe, que a vai conhecer numa fase mais avançada da vida, recorda que à entrada do apartamento, que fica num prédio baixo de três ou quatro andares, havia um aparador com recordações.

Tinha uma fotografia do pai, eu lembro-me perfeitamente, numa espécie de um aparadorzinho à entrada.

Há outras fotografias no apartamento. Algumas são dos pais e numa das paredes da sala está uma grande moldura onde se vê Che Guevara e Fidel Castro a andarem por um corredor. Pela casa, Ani tem ainda uma foto da Virgem de Fátima, um galo de Barcelos e uma matriosca russa. Mora ali, na companhia de dois cães, e leva uma vida simples. Começa logo a trabalhar. Primeiro na Organização de Solidariedade com os Povos de África, Ásia e América Latina, um organismo que serviu para apoiar a tricontinental. Depois, no departamento de guias e congressos do Instituto Cubano de Amizade com os Povos, onde só trabalham pessoas de confiança do regime cubano. Vai às compras e, ao contrário do que fazia nos tempos de casada, cozinha para ela e para os amigos.

Ela sempre cozinhou para mim. E de facto, ela cozinhava bem. Agora, não fazia nada de postigos. Era comida cubana, arroz com feijão, frango.

A vontade de se integrar é total, não apenas na comida, mas também no que escolhe para vestir. De vez em quando usa o uniforme dos membros das milícias nacionais revolucionárias, criadas para defender o novo regime, mas também para mobilizar civis.

Pensou que para integrar-se no sistema, ela tinha que ser miliciana. Andava fardada, mas não era fardada todos os dias. Era nos dias de festa, ou nos feriados, ou quando tinham exercícios no local de trabalho.

José Paulo Fafe recorda-se do orgulho que a portuguesa tinha de se vestir como revolucionária.

Eu lembro de a ver passar às vezes fardada, com o uniforme de miliciana, que eram umas calças cinzentas, cinzentas não, beges, com uma camisa estilo ganga e boina. Lembro-me perfeitamente de ela aparecer toda orgulhosa com o seu uniforme, porque estava de serviço nesse fim de semana.

À medida que as semanas e os meses vão passando, fica cada vez mais claro que a adesão à revolução não foi um capricho. "Ani vive a nova vida em Cuba com convicção", diz José Covas, também empresário e amigo comunista da portuguesa.

Recordo como uma pessoa empolgada no projeto em que se envolveu, como uma pessoa que aderiu ao projeto e nunca se arrependeu do que fez.

Para os pais de Ani, tudo isto é impensável. Não podem aceitar ter uma filha comunista. Estão dispostos a fazer tudo para a tentarem trazer de volta a Portugal Por isso, às 20h de 25 de novembro de 1966, Armanda Palhota senta-se no Lusitânia Expresso, o comboio que a vai levar de Lisboa até Madrid, para depois seguir de avião pra Havana. A mulher do diretor da PIDE vai deixar uma vida protegida em Lisboa pra ir totalmente sozinha pra um país em plena revolução comunista. Por causa da posição do marido no regime de Salazar, é a única pessoa que pode fazer esta viagem, mas também é a pior. Ela e Ani vão chocar imediatamente uma com a outra. Armanda Palhota chega à estação de Atocha, em Madrid, na manhã de 26 de novembro. O marido está à espera dela. Não foram juntos, mas o diretor da PIDE quer despedir-se da mulher antes da difícil missão que lhe colocou nas mãos. Se não fosse o cargo que ocupa e a proximidade que tem a Salazar, nunca a deixaria sozinha naquela situação. Passam o dia na capital espanhola a passear e a fazer compras. Armanda não resiste aos armazéns do El Corte Inglés. Deitam-se cedo e levantam-se de madrugada. Às 5h30 de domingo, já estão a pé. Querem chegar ao aeroporto com tempo. O voo da Ibéria é longo. Aterra em Havana pouco depois das 20h, já passada a 1h da manhã em Lisboa. Armanda e Ani não se veem desde que a filha deixou Portugal pra rumar a Cuba com Raymond. Estão cheias de saudades. Trocam abraços e sorrisos e choram agarradas uma à outra. Depois destes minutos iniciais, a convivência entre as duas só vai piorar. Ani chega ao aeroporto com Milo Gonzaga, a embaixatriz portuguesa em Havana. A mãe vai ficar instalada na residência dos embaixadores e não em casa da filha. O apartamento é pequeno e a relação entre ambas nunca foi perfeita. E, além disso, está decidido a nível superior. A vinda da mulher do diretor da PIDE à Havana não passou pelas mãos do encarregado de negócios, Gonzaga Ferreira. Foi tudo combinado entre o governo português e a embaixada de Cuba em Lisboa. Gonzaga Ferreira só recebeu uma mensagem: convém que Armanda Palhota fique na embaixada. Saem do aeroporto pro centro de Havana e pelo caminho passam pela casa de Ani. Mas Armanda não quer entrar. Está cansada e precisa descansar. Além disso, está muito calor. Têm 15 dias inteiros pra estarem juntas. Nos diários que vai mantendo ao longo da vida, Armanda Palhota anota todos estes passos, episódios, sensações e pensamentos. A sobrinha Madalena Nita Palhota é herdeira desses cadernos.

Basicamente, eram mesmo diários. Quer dizer, ela relatava tudo o que se passava. O que tinha comprado, o que não tinha comprado, como é que o seu marido estava bem-disposto, se estava mal-disposto.

Durante a viagem à Havana, Armanda nunca deixa de escrever. Desabafa sem filtro. Vê e ouve muitas coisas que a desagradam ao longo destes dias, como quando a filha lhe diz que simpatiza e trabalha pra revolução cubana. Ani não lhe esconde nada. Aliás, quer que a mãe tenha noção de tudo. Logo no primeiro dia, Armanda percebe que a filha usa a farda miliciana. Luís Gonzaga Ferreira conta no livro "A Filha Rebelde", que houve discussões muito acesas na embaixada, onde Armanda Palhota esteve alojada durante 15 dias. Descreve a mãe de Ani como alguém insuportável, horrorosa, fútil. A relação entre as duas é tão complicada que há quem aponte um problema de origem: ciúmes. O encarregado de negócios acha que Armanda tem ciúmes da beleza da filha, que era sem dúvida uma das mais belas mulheres de Havana, que deslumbrava meio mundo. Este sentimento de Armanda relativamente à filha é motivo de conversa até entre os mais próximos.

Havia ali uma ciumite. As duas eram muito bonitas, eram diferentes, mas eram as duas muito bonitas. A minha tia era um bocado egocêntrica. E, portanto, quando alguém elogiava outra pessoa que não fosse ela primeiro, a coisa corria um bocado mal.

À medida que os dias passam em Havana, com Armanda e Ani longe de se entenderem, é cada vez mais improvável que o objetivo da viagem seja cumprido. Aliás, se há coisa para que as duas semanas da mãe em Havana contribuíram, é para recordar à Annie das razões porque quis sair de Portugal assim que teve a oportunidade. Armanda Palhota começa a perceber muito cedo que vai ser praticamente impossível convencer a filha a entrar num avião com destino a Lisboa.

Havia essa esperança de a fazer descer à terra, mas ela não estava para a envirada. A sensação que eu tive foi que ela foi muito bem trabalhada por trás, por pessoas que a incentivaram, não sei se por bem, se já com segundas intenções, a tomar aquela atitude.

É 1 de dezembro de 1966. Annie faz 31 anos quando a mãe está em Havana. Passam o dia juntas. Armanda já não está presente no aniversário da filha há cinco anos. Almoçam, jantam e a filha leva a mãe a um dos locais mais icônicos da ilha. O Tropicana. Conhecido como o paraíso sob as estrelas, o cabaré inaugurado em 1939, no Jardim Tropical de Havana, é o maior símbolo da noite de Cuba e da região. Nos anos 40 e 50, tornou-se o ícone do luxo e do glamour e de uma Havana internacional. Antes da revolução, era uma paragem obrigatória para os turistas, muitos deles norte-americanos, que visitavam os Caribenhos. No Tropicana era possível ouvir música, dançar salsa, rumba ou cha-cha-cha, ver as famosas coristas, jantar e até jogar no cassino. E dependendo das noites, avistar clientes famosos, estrelas de Hollywood, da música e políticos. A dada altura, todos acabam por passar no cabaré controlado pela máfia. Frank Sinatra, Nat King Cole, Josephine Baker, Carmen Miranda, Liberace, Marlon Brando, Rita Hayworth, Édith Piaf e JFK. Todos eles estiveram lá. No diário, Armanda não regista quaisquer comentários sobre o clube, mas anota uma frase que a Annie lhe diz: "Aqui, o papá não manda nada." Armanda não se sente bem, não se adapta ao clima, nem ao fuso horário, toma comprimidos para dormir e sente saudades de casa e do marido. Fernando Silva Pais envia-lhe uma carta para Havana. "Nunca me custou tanto estar longe de ti", escreve. Está ansioso para que a mulher lhe conte como estão a ser os dias com a filha. E cheio de esperanças. Será que Armanda vai mesmo conseguir trazer a Annie de volta? Não vai. "Esta era uma missão falhada à partida", diz-me a Madalena Anita Palhota. A prima acredita que a Annie casou com Raymond para fugir de casa dos pais e que a Revolução Cubana foi o pretexto que lhe faltava para romper de vez com o passado. Não era expectável que agora a Annie largasse tudo para voltar com a mãe para Portugal.

A sensação que eu tive quando ela ficou em Cuba foi: finalmente arranjei maneira de fugir de duas situações, que as duas eram más para ela. Uma delas, a parte política, porque o pai estava inserido num regime que se calhar ela não concordava assim tanto. Mas eu nunca achei que ela fosse aquela coisa de esquerda, como também tentaram pintar. E a outra questão, de conseguir fugir um bocado ao controle da mãe e poder fazer a própria vida dela, como ela achava que devia fazer.

Nesta altura, Armanda já percebeu que a filha não vai a lado nenhum com ela e já só quer voltar a casa. Escreve no diário que mais valia ter ficado só oito dias, 15 estão a ser demasiados. Passa pouco tempo com a Annie e quando estão juntas, ela mostra-lhe má cara e faz sinais nas costas da mãe. Além disso, percebe que ali em Havana já todos sabem que a filha é comunista. Faz-lhe um último pedido. Implora-lhe que não se meta em política. Diz-lhe que o pai nunca lhe perdoaria, mas também já é tarde demais para isso. Onze dias depois do aniversário de Annie, chega finalmente a data por que Armanda tanto ansiou: o dia do regresso a Portugal, 12 de dezembro de 1966. A estadia em Cuba chegou ao fim. Annie não só não regressa a casa, como nem sequer acompanha a mãe ao aeroporto. A única coisa que Armanda Palhota traz de Cuba são tecidos. Através da filha, conheceu Meli López, a antiga modista da mulher do ditador Fulgencio Batista. Depois da revolução e com a saída dos americanos da ilha, a costureira perdeu muitas clientes e ficou com uma série de rolos de pano que precisou de começar a revender.

Ani tinha lá uma modista que era muito conhecida, que ainda fez lá umas coisas para a minha tia. Mas eu lembro que a minha tia trouxe tecidos lindíssimos, que comprou por tuta e meia, que tinham ficado quando os americanos abandonaram aquilo.

De resto, Armanda regressa a Lisboa sem esperança. Mesmo depois da desilusão com a fuga e com o divórcio de Raymond, estava disposta a receber a filha de volta, mas agora tem a certeza: Ani não vai mudar de ideias. Armanda e Fernando Silva Pais só têm duas alternativas. Ou aceitam a decisão de Ani ou cortam relações com ela. Optam pela primeira. Como sabem que a Ani está sempre em contacto com o embaixador português em Havana, e o cargo de Silva Pais lhes permite o privilégio, começam a usar a mala diplomática para se corresponderem com a filha e para lhe fazerem chegar medicamentos, perfumes e até peças de roupa. Madalena Nita Palhota diz que a prima até pode ter decidido viver como cubana, mas assinala: Ani nunca deixou de ter acesso a regalias.

Ela também sempre teve um tratamento um bocadinho acima do cidadão cubano. Na realidade, ela inclusive conseguiu ter o seu próprio apartamento. Continuava a ter algumas amizades dentro das embaixadas, portanto, continuava a ter um nível de vida ligeiramente superior aos outros. A minha tia ia-lhe também mandando algumas coisas, mandava-lhe os medicamentos daqui, mandava as roupas. Ela fazia questão, mas tinha algumas benesses.

Ao longo dos oito anos seguintes, Ani não vai voltar a ver a família. A mãe não vai visitá-la novamente em Havana e o pai também não. Vai viajar muito em trabalho, mas nunca para Portugal. Fez amigos e vida do outro lado do oceano. Não tem nenhum motivo para regressar a Lisboa, nem de férias. Mas, de um dia para o outro, isso vai mudar. Pela primeira vez, Fernando Silva Pais vai ver-se sozinho e numa posição vulnerável. E Ani, que quase acabou com a carreira do pai como diretor da PIDE, vai ser a única pessoa a interceder por ele. Para tentar ajudá-lo, volta finalmente a Portugal. Vai fazer de tudo para tentar salvar o pai. Mas essa é uma história para o próximo episódio. No entanto, se for assinante standard ou premium do Observador, pode ouvir já todos os seis episódios. Se ainda não for, basta assinar em observador.pt/assinar. No próximo episódio.

O Major Silva Pais dirigiu-se logo para mim: "A Direção-Geral de Segurança está ao lado das Forças Armadas."

Sim, ela destruiu tudo que era antes do 25 de abril. Ela meteu tudo na banheira e fez daquilo uma sopa de papel. Destruiu tudo.

O Coronel Varela Gomes e o Ramiro Correia trazem a Ani para Portugal. Aliás, é ela que quer vir e é o Fidel que a convida a vir tomar conta dos pais. A Ani era uma deusa. Quando aparecia, toda a gente parava.

"Os Escândalos de uma Revolucionária" é uma série para ouvir em seis episódios, que faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Bárbara Branco, com banda sonora original de Frank e Chaves. O guião e as entrevistas são de Inês André Figueiredo. A sonoplastia e o desenho de som são de Pedro Oliveira. O design gráfico é de Miguel Fraso Cabral. A edição é de João Santos Duarte e Tânia Prairina. A coordenação é de Miguel Pinheiro e Sara Antunes de Oliveira. Neste episódio, ouvimos sons retirados do YouTube. Se tem alguma informação para partilhar sobre este podcast, ou se conhece alguma história que acha que deve ser investigada, pode escrever-nos para podcastplus@observador.pt.