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Eu não fico à espera de conseguir financiamentos. Eu mesmo pago os meus filmes e pago as equipas que trabalham comigo. Então, ter-me tornado realizador é uma consequência direta das necessidades que eu senti e que o mercado, ou seja, o status quo da indústria cinematográfica em Portugal, não me permitia suplantar.
Welket Bungué é um ator, realizador, performer, argumentista e produtor, nascido na Guiné-Bissau, atualmente radicado em Berlim, com uma carreira amplamente distinguida em cinema, teatro, televisão e streaming. Em 22 anos, participou em mais de 40 filmes e séries. Um dos mais recentes foi "Crimes do Futuro", do David Cronenberg, onde contracenou com Viggo Mortensen e Kristen Stewart, que estreou no Festival de Cannes em 2022. É jurado em festivais internacionais de cinema e para o conhecer melhor, aproveitei a vinda dele ao Tribeca Film Festival Lisboa 2025, no final de outubro, onde veio apresentar o seu novo documentário, "Contemplação, impasse, tentativa", em competição este ano no Doc Lisboa. Vamos conhecer melhor este artista multifacetado, que acredita que as histórias surgem quando somos chamados por elas e que para ser melhor ator, tens de ser antes melhor pessoa. Olá, Welket Bungué, bem-hajas por ter aceitado este meu convite. Bem-vindo à Rádio Observador.
Muito obrigado, amigo. Estou muito feliz de estar aqui.
É um grande prazer. É um grande prazer estar aqui a falar contigo e tens um sorriso muito bonito, fica-te a saber.
Muito obrigado, meu querido.
É muito giro, porque tem de começar por isto. O teu nome é Welket N'Cabna Tambá Bungué.
Certíssimo.
E este nome tem um significado muito engraçado. Este Welket é do quê? O teu pai que te chamou assim por quê?
Sim, o meu pai chamou-me Welket, que significa reviravolta ou virar do avesso. E como é comum na minha cultura, que eu sou da etnia Balanta, os nomes quando são atribuídos carregam um significado ou um ditado, algum tipo de reflexão que ocorreu aos pais naquele momento.
No momento em que tu nasceste?
No momento em que nasci.
Portanto, podem ser questões ou afirmações. No teu caso, é uma afirmação.
Tal e qual.
É dar a volta à situação.
Sim.
Tu és o quinto filho, não é?
O quinto filho e fica aqui o segredo. Na época, não era para ter sido eu o quinto filho. Portanto, era para ter sido outro, porque ele estava num outro casamento. E quando eu surjo, ele se surpreende e diz que é surpreendido, e portanto, é uma reviravolta.
É uma reviravolta. É extraordinário!
Aquilo que ele tinha em mente.
E todos os teus irmãos também começam por W também, não é?
Certíssimo, exatamente. O mais velho é o Wakana, depois é o Winya, o Windjaba, depois é o Winlo, depois sou eu, o Welket, depois é o Wilsau e depois é o Wesna.
Que engraçado. E na escola, entretanto, quando depois vieste para cá, era o Wel e o Wil. Era o teu irmão que pedias o café.
Exatamente. E ele era o café com leite.
Eu acho extraordinário. É uma tradição muito bonita do povo Balanta. É muito giro. O teu pai, também lhe deves muito, tem uma história muito curiosa, porque ele é poeta, amante de poesia, engenheiro florestal, foi engenheiro florestal na Guiné-Bissau.
Certo.
E depois veio para cá para Portugal tirar o mestrado em Direito?
Ou seja, ele veio para cá, como não havia equivalência de curso.
Exatamente.
Contra a vontade dele, ainda teve que voltar à escola secundária. Estudou no Liceu Camões.
Onde eu tirei também. Onde eu também fiz.
E depois, acho que foi fazer o estágio para o Instituto de Ciências Tropicais, se não me engano, que fica em Oeiras.
Sim, já sei, ao pé de mim.
Pronto, estás a ver? Tem coisas em comum. E ele chama-se Paulo, o meu pai.
Boa, sim.
E portanto, a partir daí, confirmaram-se os estudos e a prática que ele já tinha da formação com a qual ele vinha, porque ele estudou na Rússia, estudou na Alemanha. Já esteve na Cuba.
Já era um homem do mundo, tal como tu és, que é engraçado. Mesmo a tua formação é de outros países onde tu passaste, e do Brasil, e do Cá, e na Nigéria, e em todo lado onde tu estudaste, na Alemanha. É engraçado, porque tu tens cidadania portuguesa?
Tenho.
Tu és luso-guineense, digamos assim.
Sim, guineense-português.
Mas tu dizes tudo. Sou Bissau-Guineense, Português, Alentejano, Brasileiro e que agora também te sentes alemão, porque estás radicado na Alemanha já há uns anos.
Sim.
É extraordinário. Nasceste em Chitole.
Chitole, sim.
Isso fica na Guiné?
Fica na Guiné, na região Sul.
Tu foste lá com três anos, ainda guardas alguma memória?
Pouca coisa, amigo. O que eu sentia mais era a memória olfativa.
Os cheiros. Que engraçado.
Que foi reativada quando voltei para lá, que assim é que é, porque tu tens as coisas, mas depois quando não voltas a ter contacto com isso, ficas mais com memória visual.
Sim.
Mas depois quando voltei para a Guiné, a partir de 2019, houve cheiros que eu percebi: "Epá, já estive aqui."
Tu voltaste para a Guiné? Foste com o pai em 1500 para a Guiné?
Não, antes. 2019 e antes.
Um ano antes.
E depois voltei em dezembro de 2020 para 21.
Ok.
E depois tenho ido todos os anos.
E tu tens família lá, continuas com família lá.
Tenho.
Muito bem. Da Guiné para Berlim, de fato, é extraordinário o teu percurso de vida. Vieste primeiro com três anos, vieram viver aqui no Campo dos Mártires da Pátria, por exemplo. Depois viveram na Ramada, em Odivelas. Brincavam muito na Serra da Amoreira.
Certo.
Já o teu irmão achava-te muito imaginativo, sempre tiveste muita imaginação.
Sim.
De fato, tu és muito multifacetado e até fazias o Kamehameha.
Estás a trazer grandes pérolas aqui para a conversa.
O Dragon Ball, tu jogavas os super-heróis, é tão giro isso.
Exatamente. Levava aquilo tão a sério, por isso é que o meu irmão também saiu com essa, de achar que eu era muito imaginativo. Ainda há dias, em conversa, já não me lembro onde é que foi, que me perguntavam, desde quando é que eu comecei a imaginar que poderia ser efetivamente um ator. Foi no Tribeca, em conversa, e eu disse: "É muito fruto de Dos desenhos animados que eu via e dos filmes de ação, que o meu primeiro repertório são os filmes do James Bond.
Schwarzenegger.
Arnold Schwarzenegger, Rambo.
Mas isto era onde tiveram internados em Beja, na Casa do Estudante, ou era o teu tio que alugava?
Não, enquanto eu estava aqui, em nossa casa, na Amada, justamente. O videoclube era o Vogue Boogie, que ficava em Orivelas, e ele levava todos os fins de semana os filmes.
O teu tio?
O meu tio.
Anos mágicos, como tu dizes.
Anos mágicos.
Fantástico!
É a partir daí que eu começo a considerar a possibilidade de ser ator. Embora aqui em Portugal não houvesse ainda referências claras de atores que se perfilassem igual a mim ou igual ao meu pai.
Teu pai também devia: "Filho, arranja lá uma coisa com mais garantias".
Tal qual.
Teu pai deve ter sido uma influência extraordinária, incrível.
Dizia o meu pai, disseram-me eles no internato também.
Sim, lá em Beja. Na Casa do Estudante, em Beja, onde estiveste oito anos.
Oito anos, davam a formação aos jovens estudantes e por uma questão tradicionalista, achavam que nós devíamos enveredar por cursos um pouco mais estruturados ou previsíveis do ponto de vista de construção de carreira.
Exato.
Mas é depois, quando tenho a possibilidade de fazer um workshop de iniciação ao teatro.
Isto no Alentejo, em Beja?
Tudo no Alentejo, em Beja. Estou em contato direto com um jovem ator e encenador, David Silva, que é o meu padrinho de teatro.
Teu primeiro grande mentor.
Exatamente. E ele tinha estado a fazer uma coisa simples, que foi os Morangos com Açúcar.
Exatamente.
Isso fez as coisas tornarem-se um pouco mais possíveis. Porque estavas ali ao pé de uma pessoa que inclusive também estava a vender o workshop com essa premissa.
Exatamente.
Com a ideia de vender a possibilidade aos outros de fazerem ficção nacional. E a partir daí as coisas vão se desenvolvendo. Até eu voltar pra casa, e quando volto pra casa, isto é, deixo o colégio, volto pra Lisboa, surge o casting pra Equador e a partir daí estou a fazer a estreia pra ficção nacional com os melhores do país.
Exatamente. Estava com o Nicolau Breyner, com o Antônio, dois dos melhores atores.
Alexandra Lencastre.
Logo vieste e entraste depois nos Morangos, na série sete.
Exatamente.
O sonho de ser ator, de fato, era uma fantasia que tu tinhas, mas também cozinheiro e também advogado. Advogado por causa do teu pai um pouquinho também, por causa do direito, por causa do filme do Advogado do Diabo, grande filme.
Exatamente, grande filme.
Al Pacino e o Keanu Reeves.
Al Pacino e o Keanu Reeves.
É tão bom!
Exatamente, muito bom.
Tu viste muitas vezes, não?
Eu vi algumas vezes e a eloquência deles, percebes?
Incrível!
Porque imagina, tu com aquela idade, ouves falar de advogados, mas não sabes o que é que o advogado faz. A não ser que tu vás pra um tribunal, que vejas algum tipo de assunto, como é que se diz, mais burocrático ser resolvido por um advogado. Mas ver aquela eloquência de um advogado.
Aquele diálogo.
Sendo interpretado por atores, tu dizes assim: "Fogo, olha esta profissão". Ser ator e ser advogado são ambos muito interessantes, porque têm essa eloquência e têm o poder da palavra.
Ficaste a sonhar com isso. Tu falas muito, estás muito animado, é muito giro. Mas também cozinheiro, por quê?
Não sei.
Porque gostas de comer?
Gosto de comer, bastante.
Sabes cozinhar?
Comida de fusão. Gosto mais de improvisar na cozinha.
E és bom nisso?
Mas há algumas coisas que eu sei fazer bem.
Quando convidas as amigas ou amigas, a tua companheira alemã, quando tu cozinhas pra ela.
Sim, cozinho pra ela. Uma coisa que eu sei fazer é ceviche.
Tão bom!
Isso eu sei fazer, ceviche, comidas tradicionais guineenses, tipo caldo de amendoim, óleo de palma, que é seco, como nós chamamos, ou caldo de dendê pros brasileiros, com frango, quiabo.
Quiabo, tão bom, como em Angola fazem o moamba, por exemplo, com quiabo.
Justamente. Essas coisas sei fazer e depois outras mais simples, porque vida de migração implica tu também saberes desenrascar-te.
Não pode estar todo dia comendo fora e em Berlin é um sítio caro também, a vida não é barata lá. Muito bem. Inclusive nesta Casa do Estudante, um dia recebeste a visita do Pedro Lima, que foi lá.
Exatamente.
E tu disseste: "Eu quero ser como você. Eu quero ser ator como tu".
Exatamente.
É giro ter esses ídolos e esses mentores e essas pessoas que a gente diz: "Olha que giro filme, que gira representação, que gira pessoa, eu gostava de fazer isto". São modelos pra nós.
E digo que foi muito importante. Foi o primeiro ator de televisão consagrado que me deu esse input.
E disse uma coisa muito boa: "Estuda, forma-te, vai aprender isso".
Tal e qual.
É muito bom isso. Não é só aquela coisa do meu sonho, minha fantasia.
Exatamente.
Vamos concretizar isso, agarrar numa coisa sólida, ter informação, depois vieste pro conservatório.
Claro.
Muito bom. Depois voltaste a Lisboa, fizeste o Teatro Académico, no Carrastilho.
Sim.
E essas tuas viagens todas, que tu fazes muitas, estou a pensar em Cabo Verde, na Irlanda, na Argentina, na Nigéria. Tudo isso te abriu muito horizontes e tu percebeste, por exemplo, na Nigéria, não fazia ideia que é um tão grande consumidor de audiovisual. É extraordinário, não fazia ideia.
É extraordinário. Eles têm esse mercado, que é chamado de Nollywood.
Não sabia.
Neste momento, Nollywood produz mais do que Bollywood.
Do que os indianos. Não sabia.
Em termos numéricos e de volume de produção, embora tens muita produção entendida como rudimentar. Eles estão mais preocupados em produzir, como é que eu vou dizer, obras de entretenimento audiovisual do que propriamente filmes acabados e que respondam aos preceitos industriais. Por isso é que tens muita produção anualmente, tens muito consumo, que é feito em vários tipos de plataformas, tanto no cinema, como no telemóvel, como na televisão ou como em mostras esporádicas.
Tu também como cineasta tens o filme móvel é feito de móveis.
Exatamente.
Tu também realizas, e produzes, e editas.
Exatamente.
Extraordinário.
Mas isso é muito inspirador. E claro, depois têm alguns streamers e produtoras grandes mundiais que também acabam por produzir lá com produtoras locais.
Ok.
Nós sabemos que agora, há dois anos, infelizmente, a Disney saiu de lá Mas ainda tem Netflix, está presente. E eu estive no Festival Nigeriano de Cinema, em dezembro de 2023, fui convidado para representar a Alemanha com o filme "Bernhard Alexander Platz".
Exatamente.
E aí eu fiquei um pouco mais por dentro do mercado deles. Portanto, tens outras plataformas de streaming potentes, que conseguem ter injeção do dinheiro do setor privado lá, e isso faz com que a produção audiovisual nacional possa competir com os grandes que vêm de fora. E isso tem sido muito empoderador lá.
Há uma grande presença então do cinema em África, de fato. Mas pra mim tu és muito a cara também daquele que diz: "Não, e também há falta de África no cinema do mundo." O cinema em geral precisa muito da presença do continente africano, que não está muito presente ainda. Ou então quando chamam é pro escravo. Agora estou me lembrando do "Hamilton", o musical da Broadway, que o George Washington é um ator preto. Extraordinário. Aqui outro dia, "O Nariz de Cleópatra", a peça onde o Ulisses é um ator negro também, português. Portanto, isso que faz cada vez mais falta, porque são atores extraordinários e tu lutas por isso, tens essa cruzada.
Exatamente.
Vamos contar outras histórias e de outra forma de contar, porque também temos algo a dizer ao cinema, não é ao cinema português, é ao cinema.
Exatamente. Ao cinema, justamente, não tenho nada a acrescentar quanto a isso. E a situação é que alguns textos que têm uma envergadura mais comercial e de massas, esses são os mais difíceis de serem atribuídos a atores não brancos. É mais isso. Porque depois temos indianos, orientais, outros que ainda não.
Fora do mainstream.
Fora do mainstream. Ou seja, que são não hegemônicos.
Sim, exatamente.
Portanto, a situação é perceber como é que o mercado, e quando dizemos o mercado, são as pessoas que têm o poder de decisão, conseguem ter uma visão um pouco mais interseccional, que é para abrir estas personagens. E eu quando falo nesse aspecto, o que eu quero dizer é que eu sou um talento português, caramba. Eu como há muitos. E eu estou a dar mais frutos, mais resultados fora. E o país, vendo de forma franca que precisa dessa representatividade, não o faz comigo, mas também não faz com outros.
Portugal não foi muito simpático contigo nesse campo, mas tu também nunca desististe e isso é bom. Continuas a afirmar, até que já com o Cronenberg foste protagonista de um filme tão importante. Mas de facto, esta tua formação entre África, Europa e Brasil transformou-te num artista muito completo. O que é muito importante. No Brasil, aprendeste também performance artística, tiraste no Rio, o que também te abriu mais outras fronteiras, outras visões do mundo. E principalmente o teu orgulho pela tua negritude. É tão engraçado isto, ganhaste no Brasil. Aqui não era tão bem visto, aqui era bastante mortificado, como tu dizes, não valorizam isso. E lá sentiste-te valorizado, no Brasil.
Sim, porque tens mais pares. Tens mais pares e tens mais pares empoderados também, que estão em lugares de decisão, que circulam. E tudo a seu tempo, porque quando a tua negritude, ou seja, aquilo que te faz ser diferente, é reduzido, é menosprezado, no sentido daquilo que é as políticas sociais ou naquilo que é a relação interhumana, isso tem a ver com um desconhecimento teu também e uma falta de bases empoderadoras e que te atribuem pertencimento àquele lugar. E portanto, quando se chega ao Brasil e há uma presença africana muito clara, que perpassa a cultura, a gastronomia, a música, isso está tudo muito presente. E temos que ver que alguém que vem da Europa, por uma questão de relacionamento histórico, acaba por direta ou indiretamente beneficiar de condições que permitem transitar pelo espaço. Eu tinha dinheiro e eu era bem recebido pelas pessoas, então humildemente eu me permiti aprender com as pessoas e entender como é que esses conhecimentos reverberavam em mim.
Exatamente.
E é nesse sentido que eu digo que despertei pra minha negritude, e isso também acontece porque o meu pai morreu quando eu era muito novo, e o meu pai era o grande intelectual da família. Portanto, essas conversas não pude ter com ele a partir dos 14 anos, que era quando eu já estava na pré-adolescência, se assim quisermos, que é quando qualquer indivíduo precisa ter contato com seus pais e com as referências vivas. E portanto, isso depois acontece a partir dos 24 anos. A partir de 2012, quando eu vou pro Brasil.
E aí suplantou essa falta que tinha feito antes.
Exatamente.
Diz-me.
Eu vim aqui ao Doc Lisboa apresentar o filme, Contemplação Empática, e fui ao Tribeca ter uma conversa com a Dee Rees.
Exatamente, tiveram essa conversa ali no final de outubro. É muito engraçado, porque estamos a falar da tua formação. Começaste no Brasil então a protagonizar, primeiro em curtas-metragens, depois em produções com os melhores realizadores. Já lá vamos, o Meirelles, por exemplo. Trabalhaste sempre muito, dizes: "Como filho de imigrante, fui cedo incutido a trabalhar a 100%. 100% não bastava, era preciso 200% se quisesses ter a oportunidade igual à que tinham os portugueses aqui." E começaste a realizar, diz tu uma frase que eu adoro: "Porque não protagonizava. Não dão filmes pra eu brilhar, então vou ter que fazer eu os meus filmes."
Exatamente.
Muito engraçado. Incluindo cinema de autorrepresentação, isso é o quê? É uma coisa que tu fazes muito e o teu livro, aliás, fala disso, "Cores Diferentes".
Cinema de autorrepresentação é basicamente uma metodologia que eu criei e que tem origem na minha forma de ver o mundo, ou seja, na minha mundividência, que é: basicamente, nós achamos que não se pode fazer omelete sem ovos, mas pra mim é possível. Ou seja, tu se tens que contar histórias, vês que tipo de recursos é que tu tens em termos de equipamento e recursos humanos, e tentas produzir a história com aquilo que tu tens à mão. Nomeadamente, se tiveres alguém que te possa ajudar a finalizar o som, convidas essa pessoa. Idealmente pagas essa pessoa. Se tu não tiveres atores, tens que te filmar a ti mesmo, e nesse caso eu sou um performer. Por isso é que muitas vezes eu acabo por fazer parte dos filmes, mas também porque sou sujeito e objeto dos tópicos que eu abordo. E, em última instância, não tens muita preocupação em encontrar uma distribuição
É verdade.
Da convencional dos filmes. Por quê? Porque tu tens que trazer esse produto, o resultado dessa empreitada para o espaço público, porque no limite, o grande objetivo não é apenas conceber cinema, mas é sim criar espaços de diálogo. E isso também acontece, porque a minha renda principal é como ator profissional. Então eu não fico à espera de conseguir financiamentos. Eu mesmo pago os meus filmes e pago as equipes que trabalham comigo. Então, ter me tornado realizador é uma consequência direta das necessidades que eu senti e que o mercado, ou seja, o status quo da indústria cinematográfica em Portugal, não me permitia suplantar. E nesse sentido, eu começo a escrever as histórias. No caso de Bastien, que é o meu primeiro filme como realizador, foi escrito para eu interpretar e ser realizado por uma outra pessoa. A uma semana das filmagens, a pessoa está indisponível, então eu assumo a realização e vou à procura de um ator. Não consigo encontrar esse ator, então eu digo: "Pronto, tenho que ser eu também o ator e tenho que realizar."
Incrível.
E a partir daí as coisas vão acontecendo. Sim, amigo. É assim.
Falando em primeiro. É importante. Portanto, o cinema português, tu dizes, ainda precisa de ser colorido.
Isso.
É engraçado. Eu gostei muito desta frase: "E começaste a olhar para o continente africano enquanto recurso e inspiração."
Sim.
É muito importante, os teus filmes falam muito isto. Há novas histórias, como tu dizes, e novas formas de contar. Isto é muito giro isso tudo. E o futuro do cinema passa, de fato, pelo continente africano. Uma das coisas que tu dizes é: todos nós somos potenciais atores ou atrizes, temos é de continuar a nutrir a nossa criança interior. Isso é tão bonito. Por quê? As pessoas à medida que vão crescendo, vão perdendo essa ingenuidade, essa sinceridade.
Exatamente, tal como tu dizes.
Sentes isso?
Sim, porque nós vamos sendo toldados para sermos adultos precoces. E abandonamos todo esse lado mais espiritual.
Por isso é que a tua imaginação.
Exatamente, mais espiritual e imaginativo. Porque a imaginação, ao contrário daquilo que nós achamos, ela não vem da mente, vem da intuição e da concepção do mundo que nós conseguimos imaginar. Portanto, enquanto criança, essa criança imaginativa de que falávamos, era uma criança que poderia ver tudo. Por isso é que essa criança, que me acompanhou muito ao longo da minha vida e salvou-me muitas vezes. Isso depois é uma outra conversa, salvou-me muitas vezes. Salvou-me porque não me deixou cair nesse limbo da obscuridade, em que tu abandonas os teus sonhos porque queres cumprir mais com aquilo que se espera de ti, sendo o homem que se perfila da maneira que é perfilado socialmente. Percebes? E com as responsabilidades que vão surgindo, conforme vais ficando mais maduro. Entendes?
Parece que te estás asfixiando. Exatamente.
É, meu querido. E essa criança interior, que é nada menos do que a luz que vem contigo quando tu nasces. Ela vai te sempre orientar para aquilo que te faz sentir bem e para aquilo em que tu, intervindo, consegues brilhar na tua plenitude. Entendes? E eu estou cada vez mais conectado com isso. É por isso que eu estou em paz com toda a minha trajetória. Eu honro bastante todo o percurso que eu fiz até aqui. Agradeço ao meu corpo, agradeço à minha mente, agradeço ao meu campo energético e agradeço às minhas emoções que me foram nutrindo até aqui. E também sinto-me cada vez mais responsabilizado por cumprir o meu papel na sua plenitude. E cumprir o meu papel significa que os lugares que eu tenho que ocupar não significa estar a te retirar o lugar de ninguém. Até porque há certas coisas que só o Welka até que pode fazer, assim como há certas coisas que só um outro indivíduo é que o pode fazer. E muitas vezes passa por nós abraçarmos aquilo que é a nossa função na sociedade. E a minha é esta: é contar histórias com o meu corpo, com a minha voz e, nos entretantos, quando eu não estiver a atuar, estiver em viagem, passar as palavras de alguém que tem consciência de tudo aquilo pelo que eu passei, que é para empoderar outros a que possam alcançar o seu potencial inalienável, que faz parte de cada um.
Há aqui várias coisas que tu dizes, tu és um mundo de ideias e de coisas boas, Welka, de fato. Agora estavas a pensar: eu consigo fazer omelete sem ovos, porque de fato temos que imaginar, isso é uma parte. E a outra parte, a criança em ti, a criança que está em nós, é muito isso. Eles pegam num caixote e dizem: "Isto é o meu carro de Fórmula 1 e pronto. Vou fazer corridas com este meu caixote que é de papelão."
Exatamente.
E pronto, e a criança tem o condão de fazer isso e acreditar que está a viver num circuito de Fórmula 1, numa estrada de terra. É verdade.
Exatamente.
Isso é muito giro. E também essa questão de empoderar outros. Eu sei que isso é um dos teus desejos para o futuro e no futuro da Guiné, concretamente, por exemplo, como tu dizes: "Para mim, o meu país onde eu nasci é um diamante em bruto que tem que ser lapidado, porque eles são mais sensíveis, mais honestos." E tu tens este projeto de fazer um centro de residências artísticas, era uma coisa que tu gostavas que acontecesse.
Sim. E acho mesmo necessário, porque em muitos momentos na minha vida fui o único indivíduo com as minhas características e o meu perfil na sala. Percebes? E acho que isso é fruto de muitas ocasionalidades e também do fato de ser aguerrido quanto a esta crença de que de fato estou destinado a ser um grande ator, a ser reconhecido pelo meu trabalho e consequentemente, usar os recursos que possam advir dessa minha intervenção e desse meu reconhecimento para canalizar para algo que possa ser um reduto de formação de talentos emergentes.
Exatamente, que possam descobrir.
E que também fomente o intercâmbio.
Tu tens que ser o Pedro Lima de futuros guineenses e futuros miúdos que vão contactar contigo, quando te veem, dizem: "Eu gostava de ser aquilo."
E tem acontecido já.
"Eu posso chegar ali."
Exatamente.
Isso é um exemplo, um testemunho.
Sim, só que há uma coisa que é: como é que se formaliza isto e como é que tu crias um projeto que ampare estas pessoas. Imagina, eu vim com os meus pais, nós tínhamos a nossa casa, na Ramada, fui para o internato e não foi por acaso, porque o meu pai sabia que eu tinha que ter uma educação mais condicente com A tradição e a mundividência portuguesa. Porque eu mesmo estudei também no internato e Amílcar Cabral também estudou no internato. Toda essa educação iria dar uma certa disciplina para que nós entendêssemos que a educação é a base do indivíduo.
Claro que sim.
O indivíduo no sentido de urbanidade.
Os valores.
Estamos a falar os valores, os princípios. E não é por acaso que eu olho pro país com amor, respeito, mas também com crítica.
Claro.
Porque eu sou daqui, fui educado por pessoas. Agora, quando se almeja um projeto como este, um centro de residências artísticas na Guiné, o aspecto de amparo para aqueles jovens é importante, porque tem que haver um teto. A única maneira de tu singrares e mergulhares verdadeiramente na tua formação, é tu não poder ter fome, tens que conseguir descansar bem.
Exatamente.
E tens que ocupar bem os teus tempos livres, fazendo esporte. Eu fiz futebol, basquete.
Ah, ok. Sim, tu és alto.
Isso é muito importante.
1,86 m, eras jogador de basquete, certeza.
Exatamente. E fui. Ou seja, os anos que eu vivi, por exemplo, no Brasil, longe de casa, e estes.
Mente sã em corpo são.
Exatamente. Depende de toda dessa formação basilar que eu tive. Então um centro de residências artísticas, embora seja vocacionado para as artes cênicas, tem que ter toda esta interdisciplinaridade.
Física.
Física, de esporte, meditação, uma série de coisas. E claro, o desenvolvimento linguístico, porque se eles não tiverem a capacidade de serem exportados depois para poderem trabalhar em outros mercados, eles não vão conseguir singrar em termas novas.
Tu tiveste que fazer isso, por exemplo, mesmo com o teu filme alemão, foi complicado aprender alemão pra o "Berlin Alexanderplatz".
É relativamente complicado.
Burhan Qurbani, este afegão. Alemão de origem afegã, é um filme extraordinário, mas tu tiveste que aprender alemão.
Tive que aprender alemão, sim, foram cinco meses. Estudei durante três meses aqui em Portugal ainda. Tinha a professora aqui em casa três vezes por semana e depois os últimos dois meses já em Berlim, em 2018. Como é que era? Os últimos dois meses eu ia acho que cinco dias por semana.
Por semana? Bolas.
Sim, arrisco-me a dizer cinco dias ou quatro dias, ter aulas de uma ou duas horas. Esse é o primeiro projeto em que quando eu começo, quando eu dou início às filmagens, sei as minhas falas todas do início ao fim. Algo que não é comum, se fores perguntar aos profissionais.
Projeto grande, oito milhões de euros.
Exatamente.
Muito grande, onde eras protagonista. Engraçado que fizeram um casting primeiro online e depois ao vivo.
Sim.
E aí ficaram impressionados contigo, obviamente, tinham que ficar. E depois quando o Burhan Qurbani soube que tu eras guineense, adaptou a personagem, acho que na origem era um nigeriano.
Nigeriano, exatamente. Passou a guineense.
A tua história é incrível. Tu fazes de um refugiado guineense, o Francis, que chegou à Europa a nado após naufragar na mesma travessia em que a namorada Ida morreu afogada. E quando chegas lá, só queres é sobreviver. És forte, és batalhador, és ingênuo ao mesmo tempo, queres ser bom e não consegues, és um mártir vivo. É um filme extraordinário. E como tu dizes, as histórias surgem quando somos chamados por elas. Foi o caso, completamente.
Foi o caso, completamente.
Prêmio com isto, foi nomeado pro Urso de Prata.
Exatamente. E estava preparadíssimo pra isso também, amigo, estás a ver?
Muito trabalho.
Muito trabalho e o personagem dependia de toda a bagagem emocional e de vida que eu trazia.
Isso é que é importante. Hoje em dia não. Acontece muito, Welke, até redes sociais, ter uma cara bonita, acabou. Ser ator pra um grande filme e é um miúdo com 20 anos. Mas falta essa maturidade, não é só uma cara bonita que interessa.
Não é, e por isso é que eu te explico uma coisa e volto a dizer aqui: o meu papel, esta é a minha função, que é ser ator. Mas do ponto de vista divino. O que me traz aqui é poder usar a minha experiência para alavancar o potencial inato das pessoas. E muitas vezes é como um político deveria estar nesse papel, por exemplo. Que é alguém que entende como é que a vida funciona, nas suas vicissitudes e tudo mais, e as suas palavras devem inspirar os outros a poderem refletir o que de melhor há nelas. Porque é assim que nós conseguimos ter uma sociedade que não se sente abandonada e que não é obrigada a ter que vibrar na escassez e na injustiça, porque quer suprir direitos básicos. Por isso é que quando surge um personagem desta dimensão, em que tu tens um ator que tem que falar de raiz o alemão, eu não tinha nenhum contato, porque eu e minha companheira falamos português.
E não é fácil. Ela também é portuguesa e fala português?
Ela é alemã, mas fala português, porque viveu aqui uns tempos. Depois foi pro Brasil.
Tá bem, ok. É fotógrafa, não é?
É fotógrafa. Este personagem teve que ser abraçado com bastante amor. Eu tenho que falar mesmo dessas coisas, por quê? Porque a realidade do Francis não é minha. Eu não fui refugiado.
Claro.
Eu fui muito bem recebido na Alemanha. Mesmo aqui em Portugal, eu não tive que andar na vida obscura. Chega lá nado, quase um sobrevivente, e tem que lidar com o mundo underground de Berlim.
Mas tu já há três anos tens o grande Cronenberg, "Crimes of the Future". Aqui co-estreaste com o Viggo Mortensen, com a Kristen Stewart, Léa Seydoux. Como é que eles te encontraram isto? Aliás, o Leon Doure, o Cronenberg já tinha sido, que faz de Cope.
Sim.
Como é que este primeiro encontro que tu tiveste com o Viggo Mortensen e com o Cronenberg numa ilha grega, foi na Grécia que vocês se encontraram?
Na Grécia, sim, em Atenas filmamos, mas o Cronenberg encontrou-me por causa do filme "Berlin Alexanderplatz".
Ok. Para puxar outro, claro.
Exatamente. Um distribuidor amigo dele em Paris mostrou-lhe o filme e disse: "Olha, sei que ainda estás à procura de um ator pra esse personagem, vê aqui este ator". E ele ficou convencido.
Chamou-te.
Contactaram o diretor de casting, o diretor de casting identificou a minha agência e ele telefonou-me.
Eu não tô a acreditar.
Olha lá quem é que tá aqui. É o Sr. Cronenberg.
E tu brincaste. Não acredito. Foi?
Sim, atendi.
Mas não acreditaste que era ele.
Não, acreditei sim.
Ah, ok.
É o caminho normal. Eu estou à espera do contacto do Denzel Washington.
Pois, tu dizes isso. Isso vai acontecer.
Espero que sim.
Mas alguém há apontes a ligar-vos um ao outro?
Isso é que é incrível, porque não. Eu inclusive já falei com amigos. É verdade, isto é uma loucura.
Mas Hollywood vai acontecer.
Sim, Hollywood vai acontecer, de certeza, é o caminho natural das coisas.
Muito bem.
Mas aí o Cronenberg liga, conversa um pouco, dá-me o texto, diz: "Lê isto, daqui a uma semana a gente volta a conversar". Eu li.
Gostaste?
Gostei, voltámos a conversar e disse: "Olhe, isto aqui está interessante, mas parece-me que acaba abruptamente". E ele: "Sim, é mesmo isso". Estamos a falar de uma longa-metragem, devia ter 40 e tal páginas, menos de 50. Mas tinhas diálogos de oito páginas, que eu nunca vi. Diálogos de oito páginas, estamos a falar de quase 10 minutos.
Isto é um filme da ficção científica, estamos a falar, eu estou a ver o Viggo Mortensen dentro daqueles sarcófagos com os tentáculos, aquelas coisas que operam por dentro.
Exatamente, é um filme impressionantíssimo.
É impressionante.
E quando ele diz assim: "Olha, e o que achaste do script?" "Gostei muito". E fala dessa coisa.
Do fim, exatamente, o final.
Ele diz: "Pronto, consegues imaginar fazer este filme?" E eu: "Claro, sim, senhor". E depois ele diz: "E este personagem aqui, consegues imaginar o Cope?" Eu de início pensei que era o Tenner, por acaso, mas o Tenner já era do Viggo. E o Cope consigo imaginar muito bem. E eu, como é muito comum, pergunto: "Mas diga-me, por que o senhor me procurou a mim? Por que não foi procurar outro?"
Como é que sou eu, amigo.
Eu pergunto sempre isso. Não, pergunto: "Por que a mim e não a um outro? O que é que você espera que eu traga para este personagem?" "Eu procurava um ator que pudesse confrontar o olhar do Viggo Mortensen e que não se sentisse intimidado".
És tu.
E foi isso que ele me disse. Exatamente.
É extraordinário.
Eu subi isto como um elogio. Nós conversamos em novembro, dezembro de 2021. E depois, quando é que filmamos? Não, conversamos antes e depois em junho, eu estava a filmar.
Porque o filme saiu em 22.
Isso, junho de 21, julho, e depois sai em maio de 22. E encontrar o Mortensen, já estávamos em Atenas.
É da competição festival do Cannes, em 2022.
Exatamente, já estávamos em Atenas.
Foi filmado lá?
Sim. Nuns cenários ali muito inusitados. Eles tiveram que pesquisar aquilo, porque inicialmente íamos filmar no Canadá.
Ok.
Depois, pela questão do Covid e custos de produção.
Depois foi nessa altura.
O produtor, como ele também é grego, organizaram as coisas mais seguido. E acho que fotograficamente também fica bem mais interessante. E o Viggo é só um dos atores que eu mais gosto e aprecio desde há muito tempo.
É o rei dos Senhor dos Anéis, pelo amor de Deus.
Amigo, isso foi uma saga que, tendo em conta o meu universo imaginativo do que falávamos, isto foi uma coisa que eu vi há muito tempo. Percebes? E depois contracenar com ele, foi fantástico.
Deve ser boa pessoa na vida real.
Boa pessoa, também muito viajado, multiculturalizado.
E é muito ativista ele também, não é?
Exatamente, ativista, companheira espanhola, portanto, ele estava muito bem em falar espanhol.
Tão bom.
Conversamos muito em espanhol.
Não sabia.
Conversamos muito em espanhol. E fazer as cenas com ele, com muita profundidade, muita paciência para tudo. E filmar com o Cronenberg é excepcional, porque é um diretor que te dá muito espaço para propor.
Ok.
Mas ele também é perfecionista. Depois de haver os primeiros ensaios e percebermos como é que vai ser a movimentação, ele então instala a câmera. E é uma luz cirúrgica, a iluminação dele.
Ao pormenor.
Ao pormenor, e portanto, depois é fazer as coisas com muita liberdade.
É muito importante a atmosfera nos filmes dele, a atmosfera e a luz é muito importante para isso.
Percebes.
Muito bem.
Foi uma experiência inesquecível.
E depois Netflix, claro, "A Psica", por exemplo, esta do Kiki e do Fernando Meirelles, que estreou em mais de 160 países no verão passado, este ano.
E que ainda está disponível na Netflix.
Sim, eles são os autores da Cidade de Deus, a gente sabe isso, nomeado para quatro Oscars. Este "Reencarne" também foi a primeira série de terror da Globoplay no Brasil, que também estreou este ano.
Sim.
Com a Taís Araújo, que faz de Bárbara Lopes, uma delegada que investiga uma série de assassinatos que são marcados por fenômenos misteriosos. Não sabemos tudo, ficamos à espera de ler o "Corpo Periférico", mas para já ficamos a saber bastante sobre ti. Quero agradecer muito a tua disponibilidade, a tua luta, que é muito importante ter isto. Os teus valores são muito importantes, Wal
É o Sr. Cronenberg.
E tu brincaste. Não acredito. Foi?
Sim, atendi.
Mas não acreditaste que era ele.
Não, acreditei sim.
Ah, ok.
É o caminho normal. Eu estou à espera do contacto do Denzel Washington.
Pois, tu dizes isso. Isso vai acontecer.
Espero que sim.
Mas alguém há apontes a ligar-vos um ao outro?
Isso é que é incrível, porque não. Eu inclusive já falei com amigos. É verdade, isto é uma loucura.
Mas Hollywood vai acontecer.
Sim, Hollywood vai acontecer, de certeza, é o caminho natural das coisas.
Muito bem.
Mas aí o Cronenberg liga, conversa um pouco, dá-me o texto, diz: "Lê isto, daqui a uma semana a gente volta a conversar". Eu li.
Gostaste?
Gostei, voltámos a conversar e disse: "Olhe, isto aqui está interessante, mas parece-me que acaba abruptamente". E ele: "Sim, é mesmo isso". Estamos a falar de uma longa-metragem, devia ter 40 e tal páginas, menos de 50. Mas tinhas diálogos de oito páginas, que eu nunca vi. Diálogos de oito páginas, estamos a falar de quase 10 minutos.
Isto é um filme da ficção científica, estamos a falar, eu estou a ver o Viggo Mortensen dentro daqueles sarcófagos com os tentáculos, aquelas coisas que operam por dentro.
Exatamente, é um filme impressionantíssimo.
É impressionante.
E quando ele diz assim: "Olha, e o que achaste do script?" "Gostei muito". E fala dessa coisa.
Do fim, exatamente, o final.
Ele diz: "Pronto, consegues imaginar fazer este filme?" E eu: "Claro, sim, senhor". E depois ele diz: "E este personagem aqui, consegues imaginar o Cope?" Eu de início pensei que era o Tenner, por acaso, mas o Tenner já era do Viggo. E o Cope consigo imaginar muito bem. E eu, como é muito comum, pergunto: "Mas diga-me, por que o senhor me procurou a mim? Por que não foi procurar outro?"
Como é que sou eu, amigo.
Eu pergunto sempre isso. Não, pergunto: "Por que a mim e não a um outro? O que você espera que eu traga para este personagem?" "Eu procurava um ator que pudesse confrontar o olhar do Viggo Mortensen e que não se sentisse intimidado".
És tu.
E foi isso que ele me disse. Exatamente.
É extraordinário.
Eu subi isto como um elogio.
E é.
Exatamente. Nós conversamos em novembro ou dezembro 2021. E depois, quando é que filmamos? Não, conversamos antes e depois em junho, eu estava a filmar.
Porque o filme saiu em 22.
Isso, junho de 21, julho, e depois sai em maio de 22.
Ok.
E encontrar o Mortensen, já estávamos em Atenas.
É da competição festival do Cannes, em 2022.
Exatamente, já estávamos em Atenas.
Foi filmado lá?
Sim. Nuns cenários ali muito inusitados. Eles tiveram que pesquisar aquilo, porque inicialmente íamos filmar no Canadá.
Ok.
Depois, pela questão do Covid e custos de produção.
Depois foi nessa altura.
O produtor, como ele também é grego, organizaram as coisas mais seguido. E acho que fotograficamente também fica bem mais interessante. E o Viggo é só um dos atores que eu mais gosto e aprecio desde há muito tempo.
É o rei dos Senhor dos Anéis, pelo amor de Deus.
Amigo, isso foi uma saga que, tendo em conta o meu universo imaginativo do que falávamos, isto foi uma coisa que eu vi há muito tempo. Percebes? E depois contracenar com ele, foi fantástico.
Deve ser boa pessoa na vida real.
Boa pessoa, também muito viajado, multiculturalizado.
E é muito ativista ele também, não é?
Exatamente, ativista, a companheira é espanhola, portanto ele estava muito bem em falar espanhol.
Tão bom.
Conversamos muito em espanhol.
Não sabia.
Conversamos muito em espanhol.
Sim.
E fazer as cenas com ele, com muita profundidade, muita paciência para tudo. E filmar com o Cronenberg é excepcional, porque é um diretor que te dá muito espaço para propor.
Ok.
Mas ele também é perfecionista. Depois de haver os primeiros ensaios e percebermos como é que vai ser a movimentação, ele então instala a câmera. E é uma luz cirúrgica, a iluminação dele.
Ao pormenor.
Ao pormenor, e portanto, depois é fazer as coisas com muita liberdade.
É muito importante a atmosfera nos filmes dele, a atmosfera e a luz é muito importante para isso.
Percebes.
Muito bem.
Foi uma experiência inesquecível.
E depois Netflix, claro, "A Psica", por exemplo, esta do