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Olá, bem-vindos ao "Curiosamente", podcast em que convidamos um notável a fazer perguntas a um cientista da Fundação Gulbenkian. Hoje com o foco no mais complexo e mais misterioso de todos os órgãos do corpo humano, o cérebro. No episódio desta semana contamos com a Catarina Ferreira Pinto, especialista em comunicação e estratégia na área da sustentabilidade. Olá, Catarina.

Olá, João.

Cheia de dúvidas?

Imensas. Estou ansiosa por fazê-las.

Vamos a isso. Catarina, como dizia, no episódio desta semana vamos falar do cérebro, mais concretamente do cancro no cérebro. A nossa convidada Cláudia Faria, neurocirurgiã e head do Brain Cancer Dynamics and Therapy Translational Laboratory da Fundação Gulbenkian. Bem-vinda. Gostava de fazer uma pergunta para início de conversa. Um dos temas que se tem dedicado é a disseminação das células cancerígenas no cérebro, as metástases. Por que a disseminação no cérebro não encontra paralelo noutros órgãos do corpo humano?

Em primeiro lugar, muito boa tarde. É um gosto estar aqui a partilhar convosco os mistérios do cérebro e do cancro do cérebro. De facto, o cérebro e o sistema nervoso estão isolados do resto do organismo por uma espécie de barreira, que se chama barreira hematoencefálica, e que faz com que o cérebro e a medula estejam numa espécie de santuário. O que tem muitas vantagens, porque nos protege de bactérias, tóxicos, mas dificulta, de alguma forma, que medicamentos que nós queremos que cheguem ao cérebro pra tratar as doenças do cérebro, tenham alguma dificuldade em lá chegar. E os tumores no cérebro têm esta particularidade. O que é notável ou até fascinante neste processo da metastização é que uma célula tumoral de um cancro num órgão, que pode ser o pulmão, a mama, o cólon, a determinada altura sai do seu órgão mãe, entra na corrente sanguínea e dirige-se ao cérebro. E depois de chegar, tem que atravessar essa barreira, quase que um muro, que é um conjunto de células muito apertadas. As células têm que atravessar essa barreira hematoencefálica, têm que se alojar no cérebro e depois têm que crescer nesse ambiente, sendo que o ambiente, o dito microambiente do cérebro, é muito diferente do órgão de onde veio. Isto requer primeiro um conjunto de passos e depois um conjunto de adaptações ao longo do processo que a célula tumoral tem para se alojar no cérebro. Depois, tem outra particularidade, e agora puxando um cadinho à minha área clínica como neurocirurgiã, é que quando nós temos um nódulo ou um tumor a crescer no cérebro, o crânio é uma caixa fechada, tudo que cresce lá provoca aumento da pressão e pode perturbar a função. Outra das particularidades dos tumores no cérebro é que podem, nos pacientes, dar alterações muito particulares, que às vezes até podem ser confundidas com AVC, alteração da fala, alteração do andar. Tem essas particularidades a disseminação para o cérebro, que é diferente de outros órgãos.

Nós, a ciência, nós humanidade, conhecemos já o processo todo. O que é que permanece ainda por conhecer?

Muita coisa. Nós sabemos que existem estes passos. O que não está totalmente esclarecido é o que é que desencadeia cada um deles. O que é que faz com que a célula saia do seu tumor original e entre na corrente sanguínea. Depois, quase como se tivesse um código postal, sabe que se vai alojar no cérebro, e é muito interessante que alguns tumores nós sabemos que vão preferencialmente pro cérebro, como o pulmão, o cancro da pele, o melanoma, o cancro da mama. Esses mecanismos moleculares são o foco do estudo do meu laboratório, porque se nós percebermos o que é que desencadeia o processo, podemos tentar bloqueá-lo e então evitar que esse processo se desenvolva.

Mas não é mais difícil, se há tanta essa barreira da entrada das metástases para o cérebro, não seria mais difícil para um cancro do pulmão ir fazer uma metástase num outro sítio qualquer?

Até seria mais fácil fazer noutro sítio. E podem fazer noutro sítio. As células de câncer, quando entram na corrente sanguínea, vão pela corrente e podem ficar no fígado, podem ficar no rim, podem ficar no osso. Mas estas, em particular, não vão só para o cérebro, mas muitas vezes vão preferencialmente para o cérebro. É esse mecanismo e esse mistério que já temos algumas pistas, há muitos cientistas no mundo que investigam isto e que já têm algumas pistas sobre o que é que acontece, mas o processo em si não está totalmente deslindado.

Ou seja, num futuro, a ciência pode criar uma barreira pra entrada de células no fluxo sanguíneo, no cérebro. Células cancerígenas, é isso?

Poderá passar por isso.

Preferencialmente, sim.

Ou então, nós temos um projeto muito interessante em curso em que As células quando passam no sangue podem deixar uma espécie de um sinal, uma pegada. Se nós conseguirmos identificar que elas lá estão, podemos através de fármacos, medicamentos ou de outros tratamentos, eliminá-las. E impedimos que a carta chegue ao seu destino.

Não é só uma porta fechada.

Exatamente.

Não passa sequer pelo percurso do cancro.

Exatamente. Eu diria que há vários métodos de tratar as células ou de as eliminar e pode ser ao longo do seu percurso.

Muito bem. A Catarina tem aqui uma grande dúvida.

Tenho uma dúvida existencial e ainda me assustei mais quando disse que podiam ser confundidos os sintomas com AVC. Como é que detetamos que existe um cancro no cérebro? Porque cada vez que eu tenho uma dor de cabeça, acho: "Pronto, é agora, é a minha vez."

Isso é uma pergunta bastante comum e, de facto, há algumas características muito diferentes. Eu diria que, e também para tranquilizar os nossos ouvintes, a dor de cabeça é um dos sintomas mais frequentes na população adulta e pediátrica, em crianças e em adultos. Seja sob a forma de enxaquecas ou outros fatores que desencadeiam as dores de cabeça, como noites mal dormidas, estresse e por aí fora. As dores de cabeça que devem suscitar preocupação têm características diferentes, são dores de cabeça que persistem, permanecem durante vários dias, que não passam com a medicação e que podem estar associados outros sintomas de alarme, como, por exemplo, as dores de cabeça de manhã ou que acordam a pessoa durante a noite são mais preocupantes. As que estão associadas a vômitos, alterações da fala, visão dupla, desequilíbrio. Se houver a dor de cabeça com outros sintomas que não são normais, então a pessoa deve procurar o médico. Não quer dizer que isso seja, isso é importante. Não quer dizer que isso seja, na verdade, um tumor no cérebro, mas quer dizer que a pessoa deve procurar o seu médico e fazer alguns exames para despistar esta ou outras situações.

Mais descansada.

Calma, Catarina. E obviamente, há o problema da persistência, não é?

Exatamente. São dores de cabeça que tendencialmente vêm a crescer em intensidade, a crescer em frequência, e com as tais características diferentes que é preferencialmente de manhã ou ao acordar, mas que se vão prolongando no tempo e que são muito diferentes da dor de cabeça habitual.

Há ou não cura para as metástases cerebrais?

Essa é uma pergunta difícil.

Sim.

Mas eu diria o seguinte: felizmente, com o avanço da medicina e da ciência, o cancro cada vez mais é uma doença crônica, felizmente para os nossos doentes. E nós, em vez de falarmos de cura das metástases cerebrais, falamos em controle da doença. E se há 10 ou 15 anos atrás, o diagnóstico de metástase no cérebro era um diagnóstico grave, de preocupação, não deixa de ser grave, continua a ser grave, mas a vida, nós dizemos a sobrevida, o tempo que o doente tinha para viver com as metástases era meses e poderia variar. Hoje em dia, felizmente, como eu disse, com o avanço da ciência e da medicina, nós temos muitos doentes que vivem muitos anos depois do diagnóstico das metástases cerebrais, porque hoje em dia há tratamentos mais dirigidos e mais eficazes. São eles, por exemplo, há 20 anos atrás, quando o doente tinha metástase no cérebro, fazia-se radiação a todo o crânio. Hoje em dia, preferencialmente, exceto em alguns casos, depois de fazer a cirurgia ao cérebro, se houver indicação para isso, o doente faz um tratamento de radioterapia focal, que se chama radiocirurgia. Não é uma cirurgia, mas é radioterapia só no sítio onde estava a metástase. E este tipo de tratamento, mais moderno, de radioterapia, juntamente com outros tratamentos que nós chamamos tratamentos dirigidos, isto é, são medicamentos que se dirigem a alterações genéticas no tumor, permitem aumentar a eficácia, assim como a imunoterapia. Felizmente, hoje em dia, os nossos oncologistas têm um conjunto de opções que permitem que estes nossos pacientes vivam mais tempo e com mais qualidade de vida. E às vezes até vemos as metástases cerebrais reduzirem muito com a medicação ou até desaparecerem. Falamos em controle da doença.

E com todas as capacidades cerebrais ou com impacto em algumas delas?

Isso vai depender um bocadinho da localização das metástases. Há metástases no cérebro, em zonas que nós chamamos que não são eloquentes, ou seja, são menos importantes, e que o doente tem uma função e faz a sua vida normal ou quase normal. Se a metástase estiver localizada, por exemplo, na área da fala ou na área de mexer a perna ou na área do equilíbrio, então o doente pode ter alguma repercussão nisso, mas pode ainda assim ter uma vida mais longa e com qualidade.

Portanto, não significa o fim da vida para um paciente com cancro.

Não, de todo.

Metástases no cérebro.

Eu disse há pouco, o diagnóstico das metástases cerebrais continua a ser um diagnóstico grave e significa que o cancro está numa fase avançada. E significa também que as células tumorais conseguiram atravessar aquela barreira e alojaram-se no cérebro. E essa barreira hematoencefálica dificulta, ainda assim, a chegada de fármacos ao cérebro. Mas temos bastantes opções que têm efeito, isto principalmente no cancro do pulmão, no melanoma e um bocadinho no cancro da mama. Mas é natural que com o avanço da medicina e da ciência, este tipo de tratamentos para as metástases cerebrais possa ser alargado a outro tipo de tumores.

Muito bem. A Cláudia Faria faz investigação no âmbito do cancro do cérebro, digamos assim. A Catarina Ferreira Pinto tem aqui uma dúvida profunda sobre a investigação médica.

A minha área é mais da responsabilidade social e ambiental. E já percebi, fico muito mais descansada, que haja efetivamente hoje em dia uma qualidade de vida superior quando se encontra metástase no cérebro. Minha questão é: este tipo de investigação, acredito que pra ser feita, precise de cérebros de pessoas vivas, eventualmente. Quais são os limites éticos que estão associados a esse tipo de investigação?

Não. E podemos descansar os nossos ouvintes, que nós não usamos os cérebros de pessoas para fazer investigação.

Ok.

Mas essa é uma pergunta que eu acho que é muito importante e a resposta é: Todo o processo clínico e toda a investigação tem que estar assente em profundas bases éticas. Tudo. E eu dou o exemplo da investigação que faço. Na nossa investigação usamos muitas amostras biológicas dos pacientes. Por quê? Para responder a perguntas clínicas. Por que é que este tumor não responde tão bem ao tratamento como outro que na aparência é igual? Por que é que este doente tem uma doença disseminada e o outro não tem?

Mas usam o quê? Pedacinhos de cérebro?

Não, não é do cérebro, é do tumor. Na cirurgia, nós removemos a massa tumoral. Isso tem vários objetivos. Um deles é aliviar a pressão dentro do cérebro e ajudar o doente a recuperar a sua função e a melhorar a sua vida. Mas também queremos para diagnóstico, ter a certeza do diagnóstico, que é de fato uma metástase, aquele tumor primário.

Uma espécie de biópsia.

Sim, a biópsia muitas vezes é tirar um bocadinho, mas podemos tirar uma parte ou tirá-lo todo. E portanto, esse material vai para anatomia patológica. O que nós fazemos no âmbito da investigação do GUIM é: nós temos um banco de tumores. O que isso significa? Nós temos um espaço no GUIM, que se chama um biobanco, onde nós guardamos material biológico, que é, por exemplo, nos tumores, estou a falar para os tumores, um bocadinho do tumor que nós operamos, que não faz falta para o diagnóstico, isso é muito importante, um bocadinho uma amostra de sangue, uma amostra de líquido cefalorraquidiano, que é o líquido que banha o cérebro e que está na cirurgia. E todo esse material biológico nos pode ajudar a encontrar respostas para as nossas perguntas que nós precisamos de responder para ajudar os doentes. Nós não tiramos cérebro normal, isso eticamente não se pode fazer. Mas há uma coisa muito interessante que é: para a cirurgia, temos que pedir o consentimento ao doente. Temos que explicar o que é que vai acontecer, quais são os riscos, quais são os benefícios, quanto tempo fica internado. E portanto, nesse processo em que nós explicamos a cirurgia ao doente, no serviço de neurocirurgia do Hospital Santa Maria, onde eu trabalho, quando o doente é admitido para fazer a cirurgia, nós perguntamos se o doente voluntariamente quer fazer essa doação de material biológico para a ciência.

E a maioria das pessoas responde como?

Todas. Todas dizem que sim.

Todas?

Todas dizem que sim.

Porque também querem ver a sua doença a melhorar e pessoas a não passar pelo mesmo.

Exatamente. O que eu costumo dizer, acho que há coisas importantes. Primeiro é a cirurgia, não vou tirar mais nem menos por causa de fazer a investigação, portanto é o material que seria removido no âmbito da cirurgia. É voluntário, e eu digo muitas vezes: os resultados da investigação neste seu bocadinho de tecido pode não ajudar a si especificamente, mas pode ajudar outras pessoas daqui a uns anos, cinco, 10 anos. E eu também faço cirurgias em crianças com tumores e quando pergunto aos pais das crianças e às crianças já mais crescidas, a partir dos 12, 13, 14 anos, nunca tive, em muitos anos, nós começamos este banco de tumores em 2012, nunca ninguém disse que não, porque as pessoas compreendem que mesmo não o ajudando a si naquele momento, pode ajudar outras pessoas no futuro. E portanto, é este altruísmo que eu acho que é de enaltecer, porque de facto foi isso que permitiu, ao longo destes anos, os avanços da medicina e da ciência. A ciência avança e descobre novos alvos terapêuticos e a medicina beneficia disso. Portanto, tem que ser uma ajudar a outra.

Qual é que é a grande dificuldade no desenvolvimento do seu trabalho enquanto investigadora?

Há alguns desafios. Um deles é a heterogeneidade dos tumores. E portanto, a ciência também já mostrou que quando nós analisamos o tumor principal, às vezes as metástases, de onde ele vem, são diferentes do inicial. E às vezes duas ou três metástases no cérebro podem ser diferentes entre elas, e portanto, os tratamentos para uns e para outros devem ser diferenciados. E daí a importância de nós fazermos estudos moleculares avançados, porque permite nos tratar de uma forma mais precisa e mais personalizada, se assim quisermos, cada tipo de tumor. Eu diria que esse é talvez um dos maiores desafios. O outro é, de facto, a barreira hematoencefálica e a dificuldade que às vezes temos de que os fármacos cheguem ao cérebro. Nesse sentido, aquele projeto que falei há pouco, o que nós queremos ver é se conseguimos encontrar um sinal no sangue, através do que se chamam agora biópsias líquidas, isto é, uma amostra de sangue, uma amostra de soro, um bocadinho de líquido cefalorraquidiano, que pode informar-nos de como é que a doença está a evoluir. E aí, talvez no futuro, não é já, mas no futuro, nós possamos, em vez de tratar a metástase no cérebro, onde ela já se formou, prevenir o seu desenvolvimento e o seu aparecimento.

Tirar uma espécie de uma medicina...

Preventiva.

Preventiva.

E nesse sentido, seria mais fácil de tratar, porque as células não atravessaram a barreira, não se esconderam dentro do cérebro e, portanto, são mais fáceis de tratar. Acho que a ciência e a medicina evoluirão nesse sentido e acho que hoje em dia, e o GUIM tem tido um papel muito importante nessa área, eu estou muito esperançada que possamos ter novas descobertas nos anos que vêm a seguir.

Oxalá.

Nunca esperei sair tão otimista de uma conversa sobre tumores no cérebro. Acho incrível.

Eu costumo dizer, eu sou um neurocirurgião muito otimista, porque se não fosse otimista, as pessoas não queriam ser operadas por mim. Tenho este otimismo natural.

E faz bem. Cláudia Faria, muito obrigado, foi um gosto. Muito obrigado.

Muito obrigada, foi um gosto também.

Obrigado também, Catarina Ferreira Pinto. Mais aliviada?

Muito mais, muito mais descansada, muito mais otimista. Obrigada, mesmo.

Foi mais um Curiosamente, podcast onde olhamos para o trabalho da Fundação GUIM, Instituto Gulbenkian de Medicina Molecular. Até à próxima.