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Estamos hoje no Dilemas de Verão da Rádio Observador com o Fernando Alvim, apresentador de rádio, de televisão. Ele é tudo e mais alguma coisa e é um dos mais bem-dispostos deste Portugal à beira-mar plantado. Fernando Alvim, como estás?
E está plantado à beira-mar, não é verdade, Alvim?
Estou mesmo.
Prestes a comer um salmão, não é verdade?
Estou mesmo plantado à beira-mar.
Onde é que estás?
Estou na Cabana do Pescador.
E escolheste salmão?
Pedi peixe-espada, mas não havia, foi salmão.
Na verdade, quando uma pessoa tem que escolher peixe ao pé do mar em Portugal, tudo o que sejam dilemas posteriores acabam por ser um pouquinho ineficazes. Mais uma vez, desarmados.
Salmão é um peixe bem português, não é?
Sim, sim, isso ou não. Que o digam os ursos que cá habitam. Olha, ainda estás de férias, ainda vais continuar. Por onde é que tens andado nas tuas férias?
Estive no Algarve. Onde é que eu passei mais? Estive na Armaleja. É verdade, estive na Armaleja.
O sítio mais quente, o pior sítio para estar em agosto, talvez.
É verdade. Estive aí e também estive na Figueira da Foz, onde contribui sempre.
É verdade.
E ainda no Douro, que irei regressar.
Tudo Portugal.
Fora cá dentro. Assim é que é, Alvim. Muito bem. Olha, Alvim, temos aqui alguns dilemas de verão. Vê lá se nos acompanhas nestas respostas. Vais dividir casa de férias com um grupo de amigos, mas há um deles que tem um grave problema de higiene pessoal. Tu vais dizer alguma coisa?
Não. Espera aí, é de amigos? Digo. Se é de amigos, digo.
Até com algum gozo.
Sim. Eu lembro-me que há muitos anos, quando eu tinha 17, dividia casa ali no Cais do Sodré com mais três amigos e um deles tinha esse problema e eu disse-lhe.
Mas nada mudou.
Resultou?
Mal. Mas eu disse-lhe, era meu amigo.
Consequência, já não vive no Cais do Sodré.
Nem com esse amigo.
Na altura, eu era bastante inocente. Um dia que eu saí lá no Cais do Sodré e uma senhora sentou-se assim ao balcão. Eu não estava a perceber a atividade que ela tinha. Eu tinha 17 anos. E ela sentou-se ao meu lado e disse: "Paga-me uma bebida." E eu disse: "Paga-me tu uma a mim, eu não te peço."
Muito bom.
Eu tinha 17 anos.
Vamos a outro.
Imagina que vais para Ibiza. Lançamos-te com o maior fulgor para este pedacinho de espaço com uma amiga, e à última hora ela avisa-te que vai levar o namorado de quem tu não gostas nada, uma presença que te arrepia quase, Fernando.
Sim.
Vais, ficas?
Não, não vou. Se o namorado é uma presença que me arrepia, o que é que eu vou lá fazer?
Mas a amiga, por um lado, é outra pessoa de quem tu gostas muito e uma semana em Ibiza com ela, para ti, é maravilhoso.
Não, vai entinar o meu ambiente. Não quero isso. O namorado é uma besta. Não vou.
Está bem.
Mas paga ele, em compensação.
Espera, como é que é? Desculpa.
Ele paga tudo. Tudo incluído e é ele quem paga.
Então, mas vocês agora estão a dizer essa parte. Mas ele paga tudo?
Tudo.
Posso tirar aquelas secas de Ibiza.
Sim.
À carta de álcool?
Não, é à carta branca.
Espera, quero lá saber.
És um vendido, Alvim.
Desculpe, mudei as respostas. Afinal, já volto.
Muito bem. Olha também esta situação: imagina que combinas uma semana de férias com uma namorada, mas ela quer levar a família toda. Vocês vão para as Maldivas, para um daqueles resorts espetaculares, mas vão primos, vão sogros, vão tios, vão os avós, vai tudo. E a alternativa é ires sozinho com a tua namorada para uma pensão na praia de Pedrógão. Qual é que tu preferes?
Vou para as Maldivas com a família toda. Sou muito ligado à família. E também quero ter o meu clã, o clã Alvim, até porque, reparem, a sociedade portuguesa tem sido dominada apenas por dois clãs: o clã Ronaldo e o clã Carreira. Portanto, eu acho que tem que aparecer o clã Alvim, uma família numerosa.
E o objetivo é ocupar todas as ilhas das Maldivas com esse clã?
Eu acredito que sim, acho que tenho fertilidade para isso.
Sonho vital. Atenção.
"Eu acredito que tenho fertilidade para isso", diz Fernando Alvim.
Sim. Portanto, esse é o meu objetivo de vida. Não, o meu objetivo de vida não é ir para as Maldivas, mas contribuir de algum modo para existir um novo clã em Portugal. Há que dizer que as Maldivas acabam por ser um aborrecimento, não é só lua de mel. As pessoas o que é que fazem nas Maldivas?
Passado algum tempo, pouco.
Dicário, promessas de amor. Toda a gente que está nas Maldivas, à partida, está em lua de mel.
A ocasião ideal para fazer membros de um clã também, normalmente.
Sim, aquilo é aborrecimento. Suspeito que Maldivas é aborrecimento.
Imaginando já no futuro, Alvim, com um dos membros do clã Alvim de que aqui falamos, a estar contigo na casa de uns amigos, numa piscina, e depois vai esse teu filho mais novo e diz-te assim em segredo: "Ó pai, fiz xixi na água." Contas aos teus amigos, repreendes o teu filho? Qual é a atuação do pai do clã?
O que eu digo ao meu filho depois de ele ter dito isso?
Sim, se contas a alguém, contas aos teus amigos?
Não, ele fez xixi na água na piscina dos teus amigos.
Na piscina. Eu esqueci-me de mencionar a parte mais importante, que é, de facto, a piscina.
Digo aquele mito que a piscina vai ficar fluorescente à partida. Em breve, toda a piscina vai ficar fluorescente por tua culpa. E depois acho que não informo os meus amigos, porque eles vão ficar obrigados.
Então, por um lado, não contas aos teus amigos, não prevines o teu amigo e ainda lanças o terror sobre o teu filho.
Sim.
É esta a opção.
Faço essa advertência. Dizer que vai ficar tudo fluorescente. Mas o puto acaba por não ver aquele tudo fluorescente.
É verdade, então fica para sempre na dúvida: será que o meu pai me disse a verdade?
Sim, mas essas dúvidas são boas para os mitos.
Para eles crescerem.
Não darem as coisas como garantidas.
É verdade. Olha este desafio: imagina que estás numa praia de nudistas e dás de caras com o teu chefe. Imagina, tens um patrão ou o chefe lá do sítio onde tu trabalhas e apanhas-lo nu numa praia de nudistas. Vais fingir que não o vês ou vais lá cumprimentá-lo efusivamente?
Ou então podemos jogar àquele jogo das espadas. Para começar, a ideia de fazer nudismo é, para mim, arriscada, que eu posso sempre vazar a vistala. Tenho muito medo disso. Não, eu acho que se ele estava ali, cumprimentava-o. Cumprimentava-o com respeito e consideração, como um dos meus. É como encontrares alguém num clube de swing. Por que ter vergonha?
Está tudo ali para o mesmo.
Está ali tudo para o mesmo. Então, o que estás aqui a fazer? Estás à espera de outra coisa?
A partir do momento em que se encontram duas pessoas lá, passa a ser um segredo delas. Passa a ser um segredo conjunto. E bem. E viva aos segredos. E aqui, tentando desconversar contigo mais um segredo para ver se ages moralmente irrepreensível, Alvin. Vais de férias para o estrangeiro, mas pedes a um amigo teu que entregue o Euromilhões por ti, usando os teus números, aqueles teus números da sorte, os teus números de sempre, aqueles que sonhas um dia fazer deles a chave da resolução de todos os teus problemas, e ganhas € 1 milhão. Foi o teu amigo que foi pôr a chave. Divides o prémio com ele? Dás-lhe alguma coisa? Como é que ages, Alvin?
Eu acho que divido.
Tudo? 50/50?
Não. Eu dou-lhe a chave para ele-
Para ele ir pôr o jogo. A chave é tua.
Mas quem é que pagou o jogo? Foi ele, não?
Foi ele que tu estás no estrangeiro. Podes-lhe mandar por MB Way. Hoje em dia, se funciona, não sei. A questão aqui é: ele vai ter a chave. Tu ganhaste 1 milhão. Ele participou nisto. É brindado com alguma coisa?
Não, já não. Não, a chave é minha. Para que eu vou dividir? Eu estou a ser um pé de urso. Ele foi apenas fazer o registo. Eu sei que agora ficava bem eu dizer que dividiria, mas não. A chave é minha.
Essa é toda a verdade.
Justa a cena.
É verdade.
Faço a transferência por MB Way. Está registado. Obrigado.
Toma lá mais € 10 para ires tomar um café. Beijinho e um abraço.
Depois vamos jantar e eu pago a jantar.
Pactas entradas, só.
Não, pago o jantar ali no Ramiro.
E mãos largas, Alvin.
Vá, vai lá.
No Ramiro. Isso não é mãos largas?
Nada mal.
Não vou ao McDonald's de Barreiro, vou ao Ramiro. Vou ao Belcanto.
Muito bem. Alvin, vamos aqui à última. Imagina que estás numa praia bastante isolada e encontras uma amiga tua. Imagina esta situação: encontras uma amiga tua. Essa amiga é namorada de um amigo teu, mas ela está com outro homem na praia, no areal, estão a apanhar sol. Vais dizer ao teu amigo que viste a namorada dele na praia com outro?
Acho que não. Se não estiver a fazer nada, se ela só está a falar com ele, não está aos beijos.
Ainda.
Ainda, sabem lá vocês. Não vou dizer ao meu amigo. Não lhe vai acrescentar qualquer tipo de felicidade.
Mas repara agora, houve um sorriso e um toquezinho assim, daqueles quem quer quer a coisa.
Estão a sacudir areia um ao outro.
Ai, ai, ai. Creme nas costas, Alvin. Está por creme nas costas.
Não, acho que é possível duas pessoas serem amigas e estarem a colocar creme nas costas. Não tenho essa mente perversa que vocês têm. Vocês são pervertidos, e eu não. Eu não digo ao meu amigo. Vou contar esta história. Um amigo meu tinha tido uma noite de copos e envolveu-se com uma pessoa. Só que ele namorava. E ele: "Agora tenho que dizer à minha namorada isto e aquilo. Aquilo significou alguma coisa para ti?" E ele: "Não." "Vais repetir?" Ele: "Não." "Então para que lhe vais contar? Não vais contar, porque não vai acrescentar nada à felicidade dela, pelo contrário."
A mentira protetora, neste caso.
Uma mentira protetora. E ele não conseguiu, disse, acabou o relacionamento. Pronto.
Olha.
Olha, mas prevaleceu a sinceridade dele. Um grande abraço para ele. Esse sim, é um dilema da vida real, Alvin.
Um grande abraço para o Carlos Silva, se me estiver a ouvir.
Alvin, foi um prazer fazer contigo estes dilemas de verão da Rádio Observador. Desejo-te um resto de boas férias e um bom verão. Um abraço e até breve.
Um abraço, Alvin.
Até aos próximos dilemas.
Eu também. Um abraço, Alvin.
Um abraço.