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Tiago Dores está connosco no Dilemas de Verão da Rádio Observador. Tiago, como é que estás? Bem disposto?
Muito bem, Nelson, muito obrigado.
Já foste de férias ou ainda vais?
Fui escassos dias e já voltei.
São sempre escassos os dias de férias, não é, Tiago?
São sempre escassos, isso é verdade. E quando são três ou quatro, são mesmo escassos no sentido literal e não apenas metafórico, em que normalmente os dias de férias são escassos.
O Tiago Dores costuma fazer-nos companhia durante as tardes da Rádio Observador e já tínhamos saudades dele, por isso é que também o ligamos para fazer este dilema de verão.
Na verdade, já tivemos aqui uma conversa de bastidores onde houve muito carinho. Podemos avançar que houve muito carinho e há também a promessa de que vais ser inquirido pelo inquisidor-mor, Nelson Freitas. E eu vou estar aqui à medida para te castigar com a parvoíce.
Vamos a isto. Quando quiseres.
Olha, Tiago, tinha aqui uma primeira pergunta para ti, que é: imagina que vais de férias e esqueceste-te de levar o peixinho do teu filho. É inevitável que o peixinho vá morrer durante as férias. Quando regressares, tu contas tudo ao teu filho ou vais simplesmente substituir o peixe por outro sem ele dar por nada?
Em princípio, vou escalar o peixinho, que é como eu gosto mais e não se desperdiça. E de barriga cheia, eu acho que o puto nem se lembra do peixe.
Mas há aqui a questão de podes encriptar o peixinho, fazendo douradinhos, qualquer coisa assim. Tens culinária para isso?
Não, de todo. E o douradinho tem aquela capa exterior que acaba por ser empanado, que eu dispenso em prol do peixinho só a pá, limpo, só a própria xixa do peixinho.
A xixa do peixinho. É a primeira vez que ouço xixa associada a peixe. Normalmente, são antagónicos.
Mas aplica-se, não é?
Eu acho que sim.
Para mim é um filete, mas pronto, tu é que sabes.
O peixe tem só filete? O filete é uma forma de arranjar o peixe. Acredito que seja.
Tiago, mais um imbróglio a envolver aqui o teu filho. Estás na piscina de uns amigos e o teu filho mais novo diz-te em segredo que fez xixi na água. Dizes alguma coisa? Vais contar aos donos da piscina? Deixas tudo passar em claro?
Em princípio, digo: "É pá, não te preocupes que eu também já fiz, não há problema." E esta malta é amiga. Malta que é amiga recebe as pessoas em casa e recebe também o xixi das pessoas em casa.
Claro, porque as pessoas têm xixi e devem ser recebidas como são.
As pessoas têm xixi, são convidadas para casa de outras pessoas, portanto, é natural que acabe por haver xixi.
Muito bem.
Portanto, creio que não seria um problema. Estes desinfetantes dão conta disso tudo, acho eu.
É verdade.
E o cloro e tal.
Atenção à respiração em cada braçada, ter um pouquinho mais de atenção à respiração, expirar mesmo só.
Tentar não engolir perolitos, não é?
Sim, usar óculos.
Olha, não sei se já passaste por esta situação, mas imagina que divides casa de férias com um casal amigo e o outro teu amigo tem um grave problema de higiene pessoal. Vais dizer-lhe alguma coisa?
Eu acho que isso seria mais um casal inimigo. Um casal em que um dos elementos tem graves problemas de higiene. Boa parte da minha seleção de amigos, e que redunda num grupo muito reduzido, prende-se com questões de higiene, é logo um dos primeiros critérios. Portanto, a partir daí isso não sucederia, porque a triagem já estava feita a montante. Estás a perceber? A montante da jabardeira, há a triagem.
Há a seleção.
E a jabardeira fica, exatamente.
E nunca te falhou o teu olfato? Nunca ficaste com uma pessoa que vieste depois a descobrir que tinha graves problemas de higiene pessoal?
Eu tenho o olfato bastante apurado, talvez o meu sentido mais apurado.
Um narizinho de verniz, o nosso Tiago Dores.
Muito apurado. E claro que toda a gente tem, muito pontualmente, problemas odoríficos, no sentido da produção de odores.
Cabe-nos a nós eliminá-los.
Pois, e não daqueles problemas sistêmicos, digamos assim, só pontuais, esses são toleráveis.
Ok. Vamos a outra.
A caminho das férias.
Como é que é? Para já, estou certo.
Para já, estás a safar-te à grande.
Ainda não houve nenhuma parvoíce a castigar, mas a esperança é a última a morrer. E pode ser que morras tu também neste caminho.
Não estava à espera. Vamos a isto.
A caminho das férias, está um homem à beira da estrada com o carro avariado. Estão de Crocs, este senhor. E a pedir boleia. Ele também vai para o Algarve, que é para onde te deslocas. Dás-lhe boleia?
Não, porque estar de Crocs é daqueles truques em que está alguém todo sensualão a tentar atrair outros condutores para pararem e depois vem a esposa com uma marreta e não sei o que acontece normalmente nestes casos.
A Netflix anda a fazer mal aos nossos convidados e os convidados todos têm medo de um crime que esta noite é improvável.
Muito criminoso.
Sim, por causa daquelas séries de crimes reais. Nós falámos disso.
True Crime é que está a povoar o nosso imaginário.
É capaz de ser isso. Mas eu tenho receio porque a Crocs denuncia, porque é realmente um tipo de calçado muito sensual e que eu acho que é isco.
Ninguém usa aquilo sem ter segundas intenções.
Exatamente, ora aí está. Ou a intenção é operar o cérebro de um paciente e está numa sala de cirurgia e por isso é que usa aqueles sapatos, que é a única desculpa.
Mas esses Crocs não têm buraquinho, não sei se podem considerar Crocs, depois não se podem adicionar aqueles pins. Não, não tem buraquinho.
Mas tem buraquinhos.
Tem buraquinhos? Não sei, já não sou opera há muito tempo, graças a Deus, Tiago.
Eu só conheço das crianças que têm buraquinhos, que depois pões os pins. É outra ocasião em que é desculpável usar Crocs, é quando se trata de uma criança de até sete, oito anos.
Um médico-cirurgião ou uma criança são as únicas utilizações aceitáveis para Crocs.
Confirmo.
Vamos introduzir aqui mais um dilema sobre carros. Vais a caminho da praia, aqueles estacionamentos sempre superpovoados, e está à tua frente uma velhinha muito maçarica, que está a tentar estacionar junto à praia, como tu. Ela vai à tua frente, ali a certa hora, e claramente ficou um lugar vago. Só que ela passou e não conseguiu ver o lugar.
Claro.
Tu logo a seguir aproveitas o lugar ou avisas a velhinha?
Eu gostava de aproveitar, mas julgando pelas críticas da minha esposa, eu conduzo mais devagar do que uma velhinha. Portanto, o mais provável era: eu topo o lugar, a velhinha já passou, topa também o lugar, mas saca um peão e ainda antes de eu conseguir estacionar, ela provavelmente passa-me à frente e estaciona. Roubando-me o lugar, que por direito já não era dela. Por direito já era meu.
E eu já estou a imaginar o resto deste filme. Tu a tentar intervir perante a senhora velhinha que te brinda com um rotativo na cabeça, Tiago Dores.
É possível que sim, antes que eu consiga reagir, é o mais provável que aconteça. Eu ando a dormir pouco. Também não ajuda aos reflexos, à rapidez dos reflexos. E já não estou a fazer as manhãs agora convosco, se tivesse a fazer as manhãs.
Era tudo mais complicado. No grupo de trabalho do WhatsApp, como tivemos vários já, recebes uma fotografia que foi enviada por engano. É uma imagem constrangedora de um colega teu em calções de banho ou biquíni, ridículo. A imagem é apagada de imediato. Finges que não viste ou comentas alguma coisa no grupo, sendo logo aquele amigo chato que não deixa passar nada em claro?
Eu, por acaso, agora que falas nisso, é uma boa razão para ter activada aquela opção de guardar logo as fotos. Assim que aparecem no WhatsApp, guardar logo em fotos.
Sim, um print logo. Pumba!
Sim, e mandar logo para a impressora. Por acaso não tenho essa opção activada, mas vou activar só por causa desse cenário.
Ok. E o que é que fazes com a fotografia impressa? Fazes figurar em algum cartaz de rua, coisa assim? És capaz de ires assim longe?
Sim, tinha finalmente um incentivo para tentar pôr as minhas redes sociais a bombar.
Ok.
Tinha finalmente um bom pretexto.
Ou senão guardas bem guardadinha essa foto e um dia usas em teu benefício.
Bem visto, para mais tarde chantagear.
Exatamente.
Aquele anúncio antigo, para mais tarde chantagear. Boa.
E se passamos aqui a um último dilema de verão com o Tiago Dores. Esta pode ser mais complicada. Segura-te bem. Imagina que a namorada do teu filho de 15 anos vai passar o dia convosco na praia. Ela devia regressar a casa depois de jantar, mas o teu filho intercede um pouco por ela e pede para ver se ela não pode dormir lá em casa. Vais deixar?
Se tiver uma cama disponível noutra divisão, quartos separados com portas passíveis de serem trancadas, sim. Sou um pai moderno, era o que faltava agora não deixar os putos desfrutarem. Claro que sim.
Claro que sim, desde que ela esteja numa qualquer masmorra lá em casa, não acessível durante a noite.
Ou ela ou ele, se calhar ele até é mais importante que fosse ele.
E alguns armários com bom pé direito também.
Sim, exato. E uma cadeira à filme inclinada a trancar a porta.
Uma maceneta.
Uma maceneta, sim, exatamente. Portanto, tudo bem, descontração, claro que sim.
Pai moderno. E é na cena da modernidade que terminamos. Eu acho que o Tiago Dores safou-se muito bem no nosso dilema de verão.
Eu estava aqui para ser o castigador da parvoíce, mas não houve parvoíce nenhuma.
Não teve muito.
Mas eu fico um bocado magoado com isso, porque eu estava à espera de vos dar bons pretextos para castigo.
Mas Tiago Dores está um homem feito. Está maduro e tudo. Olha que belas respostas que ele nos deu. Muito bem. Obras e notas.
Vou aceitar isso como um elogio, pessoal. Muito obrigado.
Tiago Dores, mais um convidado do dilema de verão da Rádio Observador. Bom verão, ainda enquanto dura. E boas férias se tiveres. Mais dias que não sejam escassos.
Meus queridos amigos, muito obrigado.
Grande abraço.
Grande abraço a todos. Obrigado. Tchau.