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Estão a chegar ao fim os dilemas de verão da Rádio Observador, mas é uma honra fazer este último dilema com o Pedro Henriques. Está aqui também a Filipa Duarte. Olá, Pedro, como é que estás?

Muito boa tarde, Filipa.

Pedro, boa tarde.

Muito boa tarde, Nelson, também. Estou bem, está tudo OK.

Como é que está a correr esse verão? E tinha já uma primeira questão: és mais de praia ou és mais de campo?

Eu vivo no campo, por isso acabo, em termos de férias, por ser mais de praia, embora viva no campo perto da praia. Mas a praia para mim é a minha praia.

É eleita.

Eu diria que a tua praia é o desporto. Ainda por cima tu andas bronzeado o ano inteiro. Parece que andas sempre cá fora.

Um bronze de meter inveja.

Sim.

É um bocadinho por aí. Aliás, as minhas férias partem exatamente por esse pressuposto.

Maravilha. Olha, tinha aqui alguns dilemas de verão da Rádio Observador que são mais ou menos incómodos. Vamos lá ver como é que tu te safas disto.

Nada temas, Pedro.

Nada temas, Pedro. Pedro, temos aqui duas hipóteses: podes ir com a tua companheira uma semana para um resort nas Maldivas. A condição é que vai a família toda dela atrás. Mas quando digo, é a família mesmo toda. Os primos, os sogros, os sobrinhos, vai tudo.

Uma excursão.

Uma excursão. A alternativa é uma semana numa pensão na Costa da Caparica, com ela também, mas sozinhos, sem a família dela. Qual é que tu escolhes?

Pensão na Costa da Caparica, claramente.

Não quer levar o outro lado.

Não sei se é preciso justificar ou não.

Força, já agora.

Não, pensão. Para já, não tenho companheira. Parto por aí. Sou um bocadinho um espírito livre, que depois do divórcio tornou-se difícil arranjar uma companheira na perspetiva do ser certo, daquela coisa da mão dada e do para sempre.

Quanto mais a família dela, imagina.

Exatamente. Não tenho nada contra as famílias, até porque são, digamos, elas muito importantes, mas tratando-se de férias e tratando-se do momento de estar sozinho, se calhar mais importante do que o local, embora o local também seja importante, é sobretudo a companhia e a privacidade que podes eventualmente usufruir dessa companhia. É por aí que eu iria pela pensão, até porque a Costa da Caparica está-se muito bem.

Então não, o Pedro é um amante da máxima do não interessa onde, interessa com quem.

É isso mesmo.

É mesmo isso. Para férias é mesmo.

Pedro, posso passar aqui ao próximo dilema. Aliás, a caminho das férias, está um homem à beira da estrada com o carro avariado a pedir boleia. Ele também vai para o Algarve, tal como tu. Dás boleia a este querido senhor que também está a ir para o Algarve? Vai ser um bom samaritano.

Quase de certeza que sim, partindo do princípio que eu sou um bocadinho sensitivo, embora também seja racional, partindo do princípio que não me sentiria, vamos dizer, ameaçado pelas forças da segurança. Portanto, sou muito solidário nestas questões de ajuda e partindo do princípio que alguém está a caminho do Algarve e que já começou mal as férias, daria com certeza uma ajuda ou nisso, ou então de arranjar um reboque ou polícia ou alguém que o pudesse socorrer na circunstância.

Muito bem.

Muito bem. Olha este dilema: tens uma semana de férias marcada com um amigo em Ibiza. À última da hora, o amigo diz-te que afinal vai ter de levar a namorada dele. O que é que tu fazes?

Bem, partindo do princípio que era possível, sob o ponto de vista da estadia, não me iria importar. Já estamos a falar de outra questão diferente, de dar o mocado, digamos, com a namorada ou companheira, o que quer que seja. Aqui trata-se de uma amizade, o que significa que podemos ter momentos de não estarmos sistematicamente tão próximos ou presentes nessas férias e por isso aí já não me importaria.

Boa. Parece-me que sim. Vamos a outra.

Muito bem, vamos aqui mais um. Pedro, encontras o teu chefe numa praia de nudistas. O que é que fazes? Vais cumprimentá-lo, finges que não o vês, desvias o olhar, chegas para tirar uma fotografia? Como é que se reages numa situação destas?

Olha, é assim, se pudesse evitar falar e estar com ele, evitaria. Aí não dá para mudar de passeio.

Pois, exatamente.

Mas iria, até porque deduzo que ele se estivesse numa praia de nudistas, gostaria de estar em alguma privacidade e também não iria querer me encontrar lá. Portanto, se pudesse evitar, evitaria. Se fosse algo impossível, tentaria agir com naturalidade no sentido de o cumprimentar e qualquer coisa comentar: "O que é que andas para aqui a fazer?"

Está tudo aqui para o mesmo, não é?

Exato, realmente.

Olha, vamos aqui manter-nos na praia com este dilema. Imagina que estás numa praia isolada também, claramente daquelas que as pessoas escolhem para procurar alguma privacidade, e encontras a esposa de um amigo teu no areal com outro homem. Não estão a fazer nada, estão a apanhar sol. Mas aquela é uma praia isolada.

Tranquila essa pergunta.

O que é que tu vais fazer? Vais falar com o teu amigo?

Não. Estás a dizer na questão de eu ir dizer ao meu amigo que encontrei a esposa dele no areal. Não o faria. Eu sou muito naquela frase que é: "Eu estou muito preocupado em limpar o meu quintal." Porque se eu limpar o meu quintal e a minha casa, e se todos fizerem isso, aí o mundo é muito melhor e fica muito mais limpo. A grande preocupação das pessoas hoje em dia é muitas vezes olharem para o quintal do vizinho e tentar limpar e dizer que o quintal do vizinho está sujo. Eu isso não faço. Portanto, faria exatamente uma situação normal. Se a visse, cumprimentava eventualmente.

Mas não partilhavas com-

Nunca partilharia com o meu amigo, até por saber que podia haver algo mais que poderia ser perigoso ali para a relação deles, ou não. Dir-me-ão: "Mas ele é teu amigo, vais esconder alguma coisa?" É um problema que ele tem que resolver e tenho a certeza, porque o carma nessas coisas não dá hipótese, que se houver alguma coisa de mal naquela relação, que eventualmente até conduziu a essa situação da mulher dele estar com outro, isso há de surgir na vida deles e há de ser resolvido, não através de mim, nunca o faria.

Muito bem. Gostei desta resposta, Pedro. Vamos à próxima.

Temos tempo para mais um dilema. Pedro, como estás de férias no estrangeiro, pedes a um amigo que te entregue o Euromilhões usando os números que tu usas sempre. Ganhas 1 milhão de euros, divides o prêmio com este querido amigo que pôs os números?

Exatamente. Resposta também simples. Já me aconteceu pedir à minha filha ou à minha mãe para me darem umas chaves, a pessoas que são próximas, por acaso com amigos não. E aquilo que eu digo sempre, que tem a ver com a minha maneira de estar organizado e de ser proativo, é dizer assim: "Olha, dá-me aí uma chave ou põe lá por mim. Se sair, dou-te metade, dou-te um quinto, dou-te 10%".

Fica logo acordado.

Exatamente, ficava logo acordado. Nunca iria dizer a ele, se fosse 1 milhão, que dava metade, porque acho que não era justo, mesmo sendo ele a colocar, mas qualquer coisa ali como 20%.

Tinha direito a qualquer coisa.

E ele iria saber e já estaria acordado, de certeza, porque eu faço muitas vezes isso, meio a brincar, porque a gente tem sempre a perspectiva que nunca vai sair, mas meio a brincar com as pessoas: "Olha, se sair, dou-te X". Ele próprio já saberia, que era para depois não ter uma problemática de amizades.

E tribunais.

Exato. Era uma chatice.

Infelizmente, também há.

Havia os namorados do Euromilhões.

Exatamente, essa história é incrível.

Vamos aqui a uma outra. Tu falaste na tua filha, que idade é que tem a tua filha, Pedro?

Fez agora 18 anos.

Dezoito anos. Vamos imaginar que a tua filha tinha 15 anos. Vais de férias com ela, estás de férias com a tua filha, ela já tem um namoradinho, ele vem passar o dia na praia com vocês, todos divertidos, até janta lá em casa, mas no fim de jantar, a tua filha pergunta se ele pode dormir lá em casa. O que é que tu vais fazer?

Aceitaria, porque eu vivo sozinho com a minha filha desde que ela tem seis anos, neste caso há 12, mas vamos imaginar que estaríamos numa idade mais precoce. Eu confio muito na minha Andreia e tenho uma norma que é máxima liberdade, máxima responsabilidade. Ela é uma miúda muito certinha de cabeça em todos os aspetos. Eu saberia que duas coisas: primeiro, que ela iria fazer as coisas certas ou não iria fazer as coisas erradas, ponto número um. E ponto número dois, ela se me estava a pedir isso, é porque tinha consciência daquilo que eu queria ou que não queria que ela fizesse, e eu tinha certeza, podia estar de costas viradas, que ela iria cumprir. Eu tenho esta relação com a minha filha, que é mesmo real e verdadeira, não é só aqui para a entrevista. E por isso eu tenho muita confiança na minha Andreia e nos caminhos e nas opções que ela toma e faz. E se alguma vez tomar alguma opção menos correta, estarei cá para ajudá-la e para tentar, acima de tudo, ajudá-la e não tanto para a punir ou criticar, embora às vezes um não, uma punição, uma crítica, às vezes fazem todo sentido e têm muito amor. Às vezes um não tem muito amor.

Maravilha, uma amizade também de confiança.

Exatamente.

Isso é que é bom.

Bom, eu penso que ainda temos tempo para mais um dilema, mas estou aqui à procura de uns.

Deixa-me ver. Há um do peixinho que é bom. Deixa-me ver qual é que vamos usar.

Nelson, acho que já tenho aqui um. Pode ser?

Força.

Então vá, Pedro, às 2h, depois de um jantar animado, pegas no telefone para ligar a um amigo, mas enganas-te e ligas ao teu patrão, que está a trabalhar. Ele não tem o teu número gravado. O que é que fazes? Admites que és tu ou desligas o telefone? Atenção, isto depois de um jantar animado.

Eu admito, porque eu sou muito a favor das questões que eu chamo de honestidade intelectual. Não quer dizer que às vezes uma mentirinha piedosa não sirva melhor-

Uma "white lie".

A solução. Exatamente, mas eu sou muito a favor. E se me enganasse e percebesse isso, teria que dizer ao patrão: "Desculpa lá, isto hoje aqui não correu bem, enganei-me no número". E portanto, iria admitir.

Quem nunca?

Acontece a todos, iria admitir.

Um livro aberto. Vamos aqui a uma última pergunta. Imagina que não tinhas tido a carreira que tiveste, Pedro, e afinal eras um agente de viagens. Calhou assim. E tinhas aqui a possibilidade de fazer um pacote de viagem para três pessoas. Para onde mandavas de férias, juntos, Rui Costa, Pinto da Costa e Frederico Varandas?

Os três presidentes juntos de férias?

Os três presidentes juntos de férias. Para onde mandavas esta maralha?

Tinha tudo para dar certo.

Tudo para dar certo. Mandava-os todos para o Bangladesh para perceberem uma coisa muito importante: ali é que há dilemas, ali é que há problemas, ali é que há a vida real. O futebol é muito importante, mas é a coisa mais importante das coisas menos importantes que existem. Ou seja, resumindo e concluindo, talvez eles ganhassem alguma humanidade no sentido de esgrimirem os argumentos desportivos, e não só, de outra maneira. E por isso, ia ser um pouquinho tramado, mas mandava para um sítio onde eles não se iriam divertir e iriam deparar-se com uma realidade. A realidade que essa sim, vale a pena a gente se calhar chorar, gritar, sofrer, que são as fomes, as misérias, as tristezas, etc. Portanto, iam todos para o Bangladesh para ver se abriam uma pestana.

Muito bem, parece-me um ótimo destino e uma ótima proposta para estes três. Pedro Henriques, ex-árbitro internacional, é também comentador de desporto na Rádio Observador. Continuamos a contar contigo e é um prazer fazê-lo. E foi também um prazer fazer este dilema, que fecha os dilemas de verão. És a personalidade que termina aqui o nosso verão na Rádio Observador.

Sempre são.

É uma honra para mim e é um prazer, sobretudo, trabalhar na Rádio Observador, acreditem.

E é um prazer ter-te-

Muito obrigado por este momento

... ter-te conosco, ainda mais alguns dias de verão, por isso aproveita da melhor forma, Pedro. Um abraço.

Para bronzear mais um bocadinho. Obrigada, Pedro.

Mais um bocadinho ainda. Um abraço, Pedro.