Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Foi a primeira vitória de Pedro Nuno Santos, que no discurso de ontem à noite nacionalizou os resultados, mas diz que está sem pressa para voltar a disputar eleições legislativas. 32,1% , mais votos do que a AD e oito mandatos foram os números que ontem deixaram as hostes socialistas a celebrar. Para falarmos da noite de ontem, das consequências que daí decorrem, convidamos Francisco Assis. Era número dois da lista do PS ao Parlamento Europeu. Foi eleito eurodeputado, regressando a Bruxelas, cidade que conhece bem. Bem-vindo, obrigado por ter aceitado o nosso convite.

Muito obrigado eu pelo convite, Cristiano.

A vitória do PS por um ponto percentual é poucochinho, como disse Sebastião Bugalho, ou suficiente para celebrar, como se fosse uma espécie de segunda volta das legislativas?

Não é uma segunda volta das legislativas, é uma vitória indiscutível, por uma diferença de cerca de um ponto percentual. Não há vitórias poucochinhas, é uma vitória. Esse termo ficou célebre aqui há uns anos, numas eleições em que eu próprio participei como cabeça de lista e, na altura, até vencemos com uma diferença em relação à Aliança Democrática de praticamente quatro pontos percentuais. Contudo, o contexto político interno do Partido Socialista era completamente diferente e aqueles que se opunham à liderança do doutor António Seguro e que criam uma alternativa, aproveitaram o resultado e transformaram, as coisas também são sempre as interpretações que se fazem dos mesmos, transformaram uma vitória quase numa derrota. E a verdade é que tomaram conta do partido, na sequência, depois de um processo de decisão democrática interna. Já lá vai, já foi há 10 anos, não vale a pena insistir muito. É uma vitória do Partido Socialista.

Ao encontro das suas expectativas?

Sim, confesso que a minha expectativa era mais ou menos esta, era que o PS e a Aliança Democrática estivessem bastante próximos. Portanto, poderia ganhar um como poderia ganhar o outro, mas nos últimos dias ia tendo a noção de que a probabilidade de vitória do PS era bastante grande, porque sentia que havia uma progressiva aproximação das pessoas às nossas propostas, às nossas ideias. Ainda que numas eleições europeias seja muito mais difícil do que noutro tipo de eleições fazer esse tipo de apreciação, porquanto não suscita o mesmo grau de participação e de entusiasmo. E, por outro lado, porque também não suscita o mesmo grau de participação no próprio processo eleitoral, no próprio dia da votação.

E sente que contribuiu de igual forma com os outros candidatos para esta vitória, Francisco Assis? Pergunto-lhe isto porque esteve bastante recatado, embora presente na campanha, porque marcou presença.

Não estive recatado.

Não?

Isso é outra questão que é preciso esclarecer. Nós decidimos fazer uma campanha um pouco diferente do habitual. Tivemos a caravana nacional com a cabeça de lista do partido, como sempre fazemos com as cabeças de lista, que percorreu o país todo e que naturalmente atraiu as atenções da comunicação social. E tivemos várias campanhas, em particular duas, uma levada a cabo pela Ana Catarina Mendes e outra levada a cabo por mim, mais centrada, no caso dela, na zona centro-sul e sul do país, e no meu caso, na zona norte e norte-centro do país. Eu calcorreei todo o norte e centro de Portugal. Não estive parado um único dia. Pelo contrário, foi até das campanhas mais exigentes que fiz até hoje. Simplesmente foi uma campanha sem presença mediática, porque os órgãos de comunicação social estavam a acompanhar a cabeça de lista do partido. Portanto, este modelo de campanha que fizemos permitiu-nos aumentar muito a superfície de contacto com a população, com os autarcas, com os próprios militantes do Partido Socialista. E julgo francamente que também contribuiu, e não fui só eu e a Ana Catarina, foram também outros candidatos noutras zonas do país, a Carla Tavares, a Isilda Gomes, os nossos candidatos dos Açores e da Madeira, o nosso candidato da Juventude Socialista, o Bruno Gonçalves, e outros candidatos que não foram eleitos aqui no Porto, por exemplo, o candidato indicado pela distrital do Porto, o Gomes, que participou muito ativamente nesta campanha. E candidatos até que não iam em lugares elegíveis, iam a partir do décimo, 11º. Candidatos jovens, diga-se de passagem, uma forte presença jovem, uma forte presença feminina e que calcorrearam o país e que deram todos um contributo importante para o resultado que nós obtivemos ontem.

Considera, como disse Pedro Nuno Santos, que o Governo fez campanha durante estas eleições ao anunciar diversas medidas, decisões, planos de emergência e que isso ajudou a candidatura de Sebastião Bugalho e da restante lista?

Se ajudou ou não, isso não sei. Não terá ajudado tanto quanto isso, porque a verdade é que a Aliança Democrática não ganhou as eleições. O Governo empenhou-se particularmente nestas últimas duas, três semanas em lançar iniciativas, anunciar medidas. Digamos que isso também é o normal que os governos fazem. Não me parece que seja algo absolutamente anormal. Outros governos de outros partidos, nomeadamente o Partido Socialista, no passado também fizeram mais ou menos a mesma coisa. Desse aspecto, não parece que as coisas tenham sido substancialmente diferentes e, na verdade, o efeito produzido, ao que parece, foi nulo porquanto a Aliança Democrática não ganhou estas eleições.

O Partido Socialista conseguiu arrecadar os votos mais à esquerda, tendo em conta a distribuição de votos. É essa a sua perspectiva? Foi aí que o PS foi buscar mais votos, também como termo de comparação com as reticências, obviamente, porque são eleições com natureza diferente, face àquilo que aconteceu nas legislativas?

É preciso dizer uma coisa, penso que se está a instalar uma certa confusão em Portugal sobre o desaparecimento da esquerda à esquerda do PS. Isso não é verdade, porque se nós virmos bem esses partidos, se somarmos os votos do Bloco de Esquerda, do Livre, da CDU, e admitindo também que o PAN é, no essencial, um partido que se coloca à esquerda, nós verificaremos que eles atingem cerca de 12%, 13%. Ora, 12%, 13% é aquilo que os partidos à nossa esquerda habitualmente têm já há muitos anos. Não há um desaparecimento da esquerda à esquerda do Partido Socialista.

Essa expressão é minha, Francisco Assis. O desaparecimento não, mas é um facto que o Bloco de Esquerda perdeu um eurodeputado, a CDU perdeu um eurodeputado, o Livre não conseguiu nenhum deputado.

Eu estou de acordo consigo nesse aspecto. Isso é verdade, que em relação às eleições anteriores houve uma descida. Eu não estava a conflituar com a sua interpretação, estou a conflituar com uma ideia que se está a instalar na sociedade portuguesa, que é a ideia de que a esquerda à esquerda do PS, a extrema-esquerda, eles também são diferentes uns dos outros, desapareceu. Não desapareceu, existe, tem uma expressão eleitoral bastante significativa ainda, anda entre os 12%, 13%, 14%. O que me leva a concluir que o Partido Socialista se mantém um partido que representa a esquerda, mas também representa o centro-esquerda, sectores que estão mais ligados ao centro na vida política nacional. Portanto, a capacidade de resistência, de afirmação e até de crescimento do ponto de vista percentual do Partido Socialista em relação às eleições anteriores, ainda que com uma margem de participação muito mais baixa, não é o resultado de um enfraquecimento absoluto dos partidos situados à nossa esquerda. Significa que o PS, de facto, consegue fidelizar uma grande parte de um eleitorado de centro-esquerda que tem tradicionalmente votado no PS e que agora deu um sinal claro de que continua a votar e a confiar no Partido Socialista, o que é essencial para que o Partido Socialista, de facto, se possa progressivamente afirmar como uma alternativa credível de governo em Portugal, como tem que ser o seu objectivo nesta fase histórica que estamos a atravessar.

Ontem o primeiro-ministro anunciou o apoio formal a António Costa para o Conselho Europeu. Pergunto-lhe se foi uma boa altura para o fazer, quando soube o resultado do PPE e dos socialistas no Parlamento. Foi uma decisão acertada colocar de forma mais aberta António Costa na corrida?

Sim, julgo que foi uma boa decisão, foi uma declaração feliz da parte do primeiro-ministro, que eu aliás quero, enquanto militante e dirigente do Partido Socialista, saudar, porque há momentos em que nós temos que saber pôr de lado aquilo que são as nossas naturais e necessárias divergências políticas. E não é só pelo facto de o doutor António Costa ser um português. O doutor António Costa é, e eu próprio tive com ele, como sabem, grandes divergências, uma pessoa que, a meu ver, tem condições excepcionais para dirigir adequadamente o Conselho Europeu. Ele é um homem prestigiado, não apenas junto de socialistas, mas também junto de primeiros-ministros conservadores. Tem uma boa relação com vários líderes de governo ligados ao PPE. É um homem que conhece bem as questões europeias, tem uma grande experiência europeia, tem uma grande experiência como primeiro-ministro nestes oito anos. Sempre valorizou muito a dimensão europeia e, portanto, é um nome que reúne todas as condições para desempenhar cabalmente as funções de presidente do Conselho Europeu. Acrescentando a isto, naturalmente, essa dimensão nacional, que num quadro europeu, não sendo a questão fundamental, não deixa de ser uma questão que deve ser devidamente avaliada da nossa parte.

Trinta segundos, Francisco Assis, peço-lhe brevidade. Ainda recentemente estava-lhe reservada a segunda metade do mandato de presidente da Assembleia da República. Daqui a dois anos era suposto substituir José Pedro Aguiar Branco. Agora esse acordo está completamente fora de hipótese.

Não, o acordo não era em relação à minha pessoa, o acordo era em relação entre o PSD e o PS. Portanto, se a legislatura permanecer, nós teremos daqui a dois anos, esse acordo será cumprido e um deputado ou uma deputada do PS será eleito na sequência desse acordo.

Mas estará disponível para isso?

Eu não, eu não estou disponível.

Não está porque está no Parlamento Europeu, claro que sim.

Eu saio, eu estou de fora. Naturalmente, se calhar tivesse, muito provavelmente estaria.

Aí estaria, exatamente.

Mas não estando, vai bazar o PS, felizmente, muitas figuras no grupo parlamentar em condições de desempenhar muito bem a função de presidente da Assembleia da República.

Agora tem outros voos. Francisco Assis, eurodeputado eleito nestas eleições. Muito obrigada por esta entrevista.

Muito obrigado. De nada.