Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

A fasquia era elevada. André Ventura traçou como objetivo para estas eleições europeias tornar o Chega no partido mais votado, meta que ficou por concretizar e que acabou por se sobrepor ao fato do Chega ter conseguido, pela primeira vez, eleger deputados para o Parlamento Europeu. Foram dois: Tiago Moreira de Sá e o cabeça de lista, António Tanger Correia. Não conseguiu eleger mais e se tivesse conseguido eleger até ao quarto lugar, então Francisco Almeida Leite, que agora se junta a este direto ao assunto, estaria a esta hora, porventura, a viajar em direção a Estrasburgo ou Bruxelas. Bem-vindo, Francisco Almeida Leite, à antena do Observador.

Olá, boa tarde, muito obrigado.

André Ventura considerou o desfecho eleitoral uma derrota. O cabeça de lista António Tanger Correia fez a mesma avaliação. Foi António Tanger Correia o principal responsável por este resultado que ficou aquém daquelas que eram as expectativas do partido?

Não, o resultado é o que é e os responsáveis somos vários, desde o cabeça de lista ao próprio partido. Mas aquilo que é importante realçar nesta altura é que o Chega chega, de facto, ao Parlamento Europeu pela primeira vez. Da última vez, o Chega tinha candidatado a sua equipa ainda como Basta. Portanto, na altura ainda nem estava registado o nome Chega. E agora é esta força política que chega ao Parlamento Europeu e com dois eurodeputados. Isso é que é o que há a registar. E numa altura em que vários partidos da mesma família política europeia do Chega vão para o Parlamento Europeu com outra força, portanto, reforçados, quer os da ED, quer os do ECR. É uma onda europeia nova que vai ter uma força diferente no Parlamento Europeu. Isso é que é importante realçar. Há também a realçar que toda a esquerda tem uma derrota nestas eleições também. O Partido Socialista fica à frente, mas não aumenta em número de eurodeputados em relação às últimas eleições. O Bloco de Esquerda perde eleitos. O Partido Comunista continua em queda. E o Livre e o PAN não conseguem eleger eurodeputados. E o Partido Social-Democrata, no fundo, a AD, fica com os mesmos eleitos que tem. Apenas o Chega e a Iniciativa Liberal acabam por crescer nestas eleições. Isso, do meu ponto de vista, é o que há a registar, nada mais.

Mas centremo-nos só um pouquinho outra vez na parte nacional, porque a fasquia traçada para estas eleições foi demasiado elevada. Estavam, porventura, enlevados pela eleição de 50 deputados nas legislativas de março?

Todos os partidos principais. O dado principal das últimas eleições legislativas é que o sistema deixou de ser bipartidário, passou a estar quase dividido a três, porque ter 50 deputados em qualquer Parlamento Europeu, seja um sistema de uma câmara só, como é o nosso agora, seja nos sistemas em que tem duas câmaras, ter 50 deputados é ser um partido de poder. E o Chega tem que assumir-se como um partido de poder. E o que aconteceu aqui é que o Chega foi para estas eleições europeias motivado para conseguir um excelente resultado e conseguiu eleger dois eurodeputados. Entra no Parlamento Europeu. Isso é o que há a registar.

Mas com a Iniciativa Liberal a morder os calcanhares ao Chega, foi por pouco que não teve o mesmo número de votos.

Foi a mais de 30 mil votos. Eu acho que mais de 30 mil votos não é roer os calcanhares. Acho que a Iniciativa Liberal começou a noite eleitoral a cantar vitória com um terceiro lugar, que acabou por não se concretizar, e o Chega mantém o seu lugar, que é o atual lugar no sistema político português de terceiro partido, terceira força e esse dado é muito relevante, vai continuar. Evidente, não é aquilo que nós esperávamos. Isso é muito claro, isso foi assumido ontem, quer pelo presidente do partido, quer pelo cabeça de lista, mas é um caminho que só agora vai começar. O Chega agora vai para o Parlamento Europeu e vai lutar em Bruxelas e em Estrasburgo pelos interesses dos portugueses. Isso é que é claro.

O resultado vela que André Ventura vale mais do que o Chega? Vem dar razão a alguns comentadores e analistas que consideram o Chega um partido unipessoal.

André Ventura valerá sempre mais do que o Chega, porque o Chega foi uma criação de André Ventura e o André Ventura é o presidente do partido. Agora, que essas eleições eram também um desafio, porque era a primeira vez que o partido se apresentava a eleições sem o seu presidente e fundador, acaba por não correr mal, porque o embaixador António Tanger Correia fez uma campanha bastante esforçada. É um lutador por natureza, não só por todo o seu passado enquanto embaixador, mas também pelas suas características pessoais. Ao mesmo tempo foi, eu diria, um desafio para toda a gente, incluindo para nós que estávamos na lista, para vocês jornalistas, para os comentadores, porque o António Tanger Correia não é uma pessoa do sistema e não é um político profissional, é uma pessoa que teve uma carreira diplomática e isso também embaralhou muito tudo, as contas e embaralhou o que havia a dizer sobre a candidatura, a forma de ele se expressar. Isso ao mesmo tempo é uma novidade e vai começar, se calhar, a acontecer mais, porque a ideia é apresentar pessoas e candidatos que tenham discurso novo e isso aconteceu.

Tinha a expectativa de ser eleito, uma vez que durante a campanha André Ventura prometia um resultado superior e havia aqui um ânimo de campanha que refletia isso mesmo

E as sondagens diziam isso também, mas a pessoa quando se candidata tem que ter presente que pode ser eleita ou pode não ser eleita, é assim a democracia. E tive muito gosto em participar nessa campanha. Foi uma campanha, para além disso, bastante desafiadora, para não me estar a repetir, mas motivante, de norte a sul do país e ilhas. E foi entusiasmante.

Já agora, vai continuar ligado ao partido Chega?

Eu sou um independente.

Sim, por isso pergunto.

Os próximos dias e semanas o dirão. Mas tive muito gosto em participar, porque eu acho, para além disso, que há aqui uma equipa muito interessante, valorosa. Eu conheço bem os outros partidos, como sabe, estive na política algum tempo e fui sobretudo jornalista de política e editor muitos anos, quase 18 anos. E portanto, aquilo que eu vejo no partido não é nem melhor nem pior do que eu tinha visto. Há características muito interessantes. Nós fizemos de norte a sul vários colóquios, comícios também, jantares, e as pessoas são muito interessadas. A grande diferença, provavelmente para outros partidos, é que fazem perguntas bastante inteligentes, sabem de política, estão por dentro dos principais assuntos e, portanto, eu acho que é um partido interessante. É um partido muito popular, não no sentido populista, de gente do povo, gente real, que tem pequenos negócios, que vai progredindo na vida e, portanto, eu acho que isto tem futuro.

Mas não tem aí alguma hesitação na sua resposta? Precisa de refletir sobre essa ligação, se é para continuar ou não.

Não há reflexão a fazer. Como eu lhe disse, eu sou um independente e fui convidado para participar e participei. Agora irei refletir em relação ao meu futuro de ligação ao partido, só porque não me filiei no partido ainda. Não é uma questão nesse sentido. Tudo na vida precisa de reflexão.

E falando em futuro, este desfecho condiciona a atuação do Chega no futuro mais próximo?

Não condiciona. Eu acho que nestas alturas é preciso, de facto, fazer uma reflexão interna, que os órgãos do partido certamente farão, porque o resultado não é aquele que o partido estava à espera, mas mesmo assim é um resultado que permite um grande crescimento e permite a afirmação do partido na Europa. Portanto, isso é que é preciso refletir. O partido vai estar sentado à mesa com partidos que cresceram bastante e que têm um poder real e fático no Parlamento Europeu. São as famílias europeias que mais crescem e só esse dado é muito positivo. Portanto, o futuro é risonho.

Já agora sobre isso, deixe-me perguntar se o Chega vai continuar no ID.

Isso é uma matéria que só os responsáveis do partido é que devem responder. E acho que esse assunto já foi tão abordado durante a campanha eleitoral, que não serei eu a abrir aqui a cortina em relação a isso. O Chega pertence ao ID e vai continuar a pertencer a seguir. Foi isso que foi dito sempre.

A reta final da campanha, nomeadamente com o episódio que envolveu um imigrante, pode ter prejudicado o partido no ato eleitoral?

Eu estava lá e esses episódios são sempre caricatos. E claro que influenciam, podem influenciar para um lado ou para o outro. Aquilo que eu vi, e estava a chegar também à Póvoa de Varzim, foi de facto um senhor que queria tirar fotografias com o líder do partido e até com o candidato, e andava já ali. Eu por acaso tinha sido os primeiros a chegar. Ele também passou por mim e eu remeti para o assessor de imprensa do partido. Era uma pessoa que estava a favor do partido e não contra. E de repente, há várias versões. Portanto, eu não vou querer voltar a esse tema que já foi tão debatido e explorado a favor e contra, mas posso dizer que a história é no mínimo muito complicada, muito estranha, porque de repente o senhor era pescador, depois já andava na apanha da fruta. Primeiro era indonésio, depois era do Bangladesh. Depois vem a descobrir-se que afinal o senhor parece ter um negócio. Na entrevista que lhe fizeram, perante a maioria dos portugueses, tem excelentes condições de vida. Não era isso que ele dizia, que não tinha cá filho e que passava dificuldades. Ou seja, são episódios estranhos. Eu suspeito, de facto, que aquilo possa ter sido montado, não sei por quem, não quero lançar acusações. Não sei se foi à nossa extrema-esquerda, se foi só à nossa esquerda, mas de facto o episódio foi bastante desagradável, mas também não acho que possa ter sido isso a influenciar a campanha.

E é que o programa do humorista Ricardo Araújo Pereira, que teve como matéria-prima a entrevista que António Tanger Correia concedeu aqui ao Observador, pode de alguma forma ter contribuído para o desfecho eleitoral do Chega?

Acho que muita coisa contribuiu para o desfecho eleitoral, que recordo mais uma vez o que eu disse, não se pode ver o Chega como o grande derrotado destas eleições. Pelo contrário, o Chega é dos poucos que ganham, ganha dois eurodeputados, tal como a IL, e todos os outros ficam mais ou menos na mesma e a esquerda, e a extrema-esquerda em particular, é a grande derrotada destas eleições. Agora, o que eu continuo a achar muito estranho é que as autoridades e o regulador continuem a permitir um programa que não é nem informação nem entretenimento. Aquilo é o que hoje em dia, como vocês sabem, se chama de infotainment. E esta linha é muito ténue, porque ele entrevistou também toda a gente. E algumas das entrevistas são quase jornalísticas, não sendo Ricardo Araújo Pereira um jornalista, não tendo carteira profissional. Ele faz entrevistas políticas e não fez a um dos candidatos, que foi ao António Tanger Correia. Tentou ridicularizar uma entrevista, que já era de si uma entrevista conduzida de uma forma que eu também achei bastante peculiar, no mínimo, porque foi traslida uma parte do livro que o António publicou nos primeiros dias da campanha e, portanto, de facto aquilo não foi bom. Mas isso é assim, faz parte de uma campanha, mas depois também houve muitos momentos bons. E os momentos maus há que assumi-los.

E olhando aqui para um outro momento que pode estar prestes a acontecer, o Chega deveria pensar apoiar António Costa para a presidência do Conselho Europeu?

Acho que não. E acho que o presidente do partido deixou bem claro. Quem já prometeu apoiá-lo ontem foi o primeiro-ministro Luís Montenegro, e o André Ventura já disse claramente que não iria apoiar. A circunstância de ser português ou não ser, não são as características principais que nós devemos sublinhar, mas sim todo um percurso e toda uma carreira política que não foi benéfica para os nossos interesses enquanto portugueses e sobretudo uma linha política e ideológica que também é contrária àquilo que é o Chega.

Sendo que António Tajra Correia disse que António Costa não seria um mau candidato.

Não, mas isso foi uma posição bastante pessoal de ter, enquanto diplomata, ter se cruzado com António Costa no passado. Isso ficou também claro do próprio António Tajra Correia, que uma questão era a relação pessoal que tinha com ele e outra era a relação política que tinha enquanto primeiro vice-presidente do Chega e que apoiava aquilo que André Ventura já tinha dito.

Os eurodeputados eleitos pelo Chega podem admitir apoiar Ursula von der Leyen num novo mandato à frente da Comissão Europeia?

Não acredito, mas agora há que chegar a Bruxelas, há que reunir com a família política europeia. Já li algures que há uma reunião esta quarta-feira já da ID. Há que reunir com as outras famílias políticas mais próximas e ver que pontes é que são possíveis ser feitas. Mas o Chega tem sido bastante claro na crítica àquilo que foi o último mandato de Ursula von der Leyen e que não foi um mandato positivo, foi um mandato bastante negativo numa avaliação geral, quer em relação à resposta em relação à Ucrânia, quer a resposta em relação à pandemia, quer a própria atuação da Comissão em relação a problemas que afetaram a vida dos portugueses e dos europeus. Estou a citar, por exemplo, a questão das taxas de juro, a própria relação com o BCE e não só, e depois a própria Ursula von der Leyen enquanto política, enquanto pessoa, ter sido envolvida nos chamados escândalos das vacinas e que estão neste momento ainda a ser investigados e que poderão ser julgados ainda no Luxemburgo.

Muito rapidamente, estamos mesmo a terminar o nosso tempo. Já aqui fez referência ao crescimento dos partidos do mesmo quadrante ideológico do Chega. Em sua perspectiva, este crescimento vai traduzir-se de que forma na condução dos destinos da política europeia? Qual a capacidade de influência e em que matérias?

A capacidade de influência é total, porque a família política é do Chega, a ID, mas também o ECR ganham um poder muito maior do que aquele que tinham antes no Parlamento Europeu. Portanto, o equilíbrio de forças muda bastante. Como sabe, o centrão não funciona só em Portugal, o centrão tem funcionado muito e mal na União Europeia, designadamente no Parlamento Europeu, e todas estas matérias que nós discutimos durante a campanha eleitoral e que vocês ouviram certamente, bastante, ouviram falar, quer na questão do pacto das migrações, quer na questão do enquadramento da própria política orçamental na União Europeia, quer na redefinição dos poderes da União Europeia. E nós fomos muito claros, está no nosso programa eleitoral a questão dos países que têm que manter os países da coesão e temos que manter um comissário por país. Isso é muito importante, sobretudo quando se fala do alargamento a leste, mas o alargamento a países como a Ucrânia, nós somos favoráveis, mas somos favoráveis a um alargamento com critério, seguindo os chamados critérios de Copenhague e não só. Portanto, tendo muita atenção ao que está do outro lado, que são os países da coesão, como é que eles vão sofrer o impacto da entrada desses novos países. E, portanto, esse reagrupamento, essa nova linha com partidos mais à direita, chamada far right, que é uma direita, eu diria, mais ideológica, mais antifederalista, mais soberanista, queria dizer. E portanto, vão ter, de facto, uma voz e uma palavra a dizer no novo ordenamento do Parlamento Europeu. Isso é notório. Vamos ver em muitas outras questões e também vamos ver dentro dos próprios países, como aconteceu e viram ontem em França.

Em França, claro.

O presidente Macron dissolveu a Assembleia Nacional e portanto isso vai acontecer também um pouco por todo lado e vamos ver também a repercussão em Portugal disto mesmo.

E também veremos lá mais adiante qual a decisão de Francisco Almeida Leite e que ligação vai manter ou não ao partido Chega. Haveremos seguramente de falar sobre esse tema. Quero agradecer a sua presença neste "Direto ao Som" da Rádio Observador. Até breve.

Muito obrigado.