Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

É um dos partidos apontados como derrotados da noite eleitoral. O PAN não conseguiu eleger deputados para o Parlamento Europeu, alcançou um terço dos votos que tinha conseguido em 2019, ficou atrás até do ADN nestas eleições. Pedro Fidalgo Marques foi o cabeça de lista do Partido Pessoas Animais Natureza, é o próximo entrevistado da tarde política.

Bem-vindo à antena do Observador. Imagino que não esteja a ser fácil digerir estes resultados. Foi um balde de água fria, mais fria que a água do Tejo em que mergulhou no último dia de campanha?

Muito boa tarde a todas e a todos que nos estão a escutar e a vocês aí em estúdio. Desde já quero agradecer o convite de poder estar aqui também a analisar os resultados. Realmente a água do Tejo estava fria na sexta-feira, mas serviu também para alertar pra algumas nossas problemáticas do PAN em termos da proteção dos rios. Ontem o que se passou foi realmente, nós tivemos uma noite eleitoral em que não obtivemos o resultado que gostaríamos. O mandato do PAN foi já perdido em 2020, quando de forma pouco ética, o mandato foi capturado por alguém que deixando de pertencer ao PAN, manteve esse mandato. Mas estaremos cá, convidados para continuar a trabalhar, porque como já tenho dito, enquanto continuarmos a ter um milhão de animais abandonados em Portugal, enquanto continuarmos com uma crise climática e a termos ecocídios como o aeroporto de Alcochete, que vai destruir nossa maior reserva de água doce do país, num país que tem falta d'água, o PAN estará sempre cá pronto para trabalhar e para defender estas causas.

Já teve a oportunidade de analisar o que é que correu mal durante a campanha ou o que é que poderia ter sido melhor, tendo em conta o resultado?

Se me permitem aqui agir o after match, estamos no dia a seguir. Estamos em fase, como é óbvio, sempre também de reflexão interna, em que iremos analisar a campanha, iremos analisar vários fatores, sabendo que inclusive o contexto político que estamos a atravessar também é diferente do contexto de 2019, existindo uma grande polarização entre o PS e a AD, em que, por exemplo, em 2019, se deu espaço para os cientistas climáticos e para os cientistas mostrarem e demonstrarem qual era a importância da crise climática, sendo esse até um dos focos da campanha, sendo que nesta campanha, infelizmente, isso não aconteceu. Mas estamos neste momento, serenamente, a analisar os resultados e a continuar nesta defesa das causas que o PAN sempre tem estado disponível.

E há leituras nacionais a extrair deste desfecho das eleições europeias, Pedro Fidalgo Marques?

Eu acho que o que temos que perceber, e se dermos essa leitura, é que, por exemplo, é preocupante, e como referido até na introdução, que um partido que nega as alterações climáticas, que nega a ciência, que até tem alguns dos seus elementos que acreditam que a Terra é plana, tenha realmente tido o número de votos que teve. Mas, por outro lado, houve aqui até um decrescimento de partidos como o CHEGA, de extrema-direita. Por isso, acho que temos sempre que olhar com cautela para estas eleições europeias, que são um panorama diferente, relativamente às legislativas. Por exemplo, nos círculos onde o PAN poderia eleger numas legislativas como Lisboa, Porto e Setúbal, ficou à frente do ADN e teve resultados que poderiam permitir essa reeleição, se fossemos agora falar das legislativas. Por isso acho que as comparações devem ser feitas sempre com cautela.

O facto de o PAN ter ficado atrás do ADN torna mais pesada ainda esta derrota?

Não, de todo. Se calar, o que nós temos que perceber, e ontem foi feito esse alerta, é que nem todos os partidos partem do mesmo ponto de partida. E apesar até do ADN não ter representação parlamentar, a verdade é que teve uma cabeça de lista que tinha uma exposição mediática e espaço de comentário que o PAN nunca teve e que até agora nunca lhes foi dada essa oportunidade. Todos os partidos, mesmo até esse sem a representação parlamentar, têm espaço no comentário regularmente e isso depois faz diferença quando estamos num ponto de partida que não é igual, porque estamos a trabalhar para uma notoriedade que não é a mesma dos outros partidos, ou que a nossa mensagem, temos que trabalhar o triplo para fazer passar a nossa mensagem, enquanto outros partidos têm essa porta totalmente aberta. Percebemos que alguns temas do PAN, quando falamos de causa animal, mesmo da causa ambiental, vão contra muitos dos interesses instalados e que são temas incômodos, mas estaremos cá para continuar a lutar por eles.

Ora, precisamente sobre isso. Hoje li uma análise que sublinhava o fato da agenda do PAN, e em particular a causa ambiental, estar diluída nos programas de outros partidos que são o exemplo, o LIVRE e o Bloco de Esquerda. É um problema para o PAN?

Acho que o que temos que olhar é: não é suficiente ter esses temas apenas nos programas eleitorais, usá-los como bandeiras em campanha, mas depois, durante o dia a dia e quando estamos na real defesa deles, na apresentação de propostas, quando na rua estamos a defendê-los, quando estamos a votar até algumas das medidas ambientais, depois isso não se traduzir em nada concreto. Ou seja, o que se tem que perceber é que muitos destes partidos agitam as bandeiras na altura da campanha, mas depois não acompanham e não apoiam essas medidas. Na parte animal, não há nenhum partido que o faça, apenas põem umas linhas no programa, mas depois quando é a real altura de votar, dizem que a causa animal é uma causa fétiche e que deverá ficar para segundo plano. Assim temos visto e assim o têm feito. E mesmo na causa ambiental, vamos ver. O único partido que claramente acusou, com as letras todas, o atual aeroporto de Alcochete de ecocídio, até mesmo de encontro ao que são as definições dadas pela União Europeia, foi o PAN. Por isso, mais nenhum partido é verdadeiramente ambientalista. Se calar, é isso que agora temos que trabalhar para passar esta mensagem e mostrar às pessoas Que só há um partido que defende a causa animal, um partido que é verdadeiramente ambientalista e que o faz no dia a dia, nas propostas que fazemos. Isso é feito, seja na Assembleia da República com a nossa deputada Inês de Sousa Real, seja nas assembleias legislativas regionais, onde temos que notar que nós reelegemos por duas vezes, passado seis meses e num contexto também muito difícil, na Madeira. Nos Açores também reelegemos. Temos um conjunto de autarcas locais que trabalham diariamente em prol das causas que o PAN defende. E é isso o trabalho que temos que estar focados e no dia a dia apenas o PAN o faz.

Mas este resultado pode conduzir a uma mudança de estratégia do partido, mesmo se estamos a falar do ponto de vista nacional, ou é apenas um percalço e, portanto, não deve ter uma dose de preocupação que passe pela estratégia que é do partido no Parlamento?

O trabalho tem sido feito no Parlamento Nacional, nos parlamentos regionais. Tem sido um trabalho consistente, em que o partido tem feito esta consolidação. É este o caminho que temos seguido na defesa das causas. Também não me compete a mim fazer o tipo de análises que competem aos órgãos próprios, e a Comissão Política Nacional irá reunir para analisar estratégias. Mas se me permitem este comentário meu, até mais pessoal, eu acredito que o PAN tem feito um trabalho consolidado, um trabalho em prol das causas da defesa animal. Quando falamos, por exemplo, do programa que apresentamos já das matilhas para a questão do controle das matilhas de cães que necessitam ser esterilizadas, que é a semelhança que acontece nos gados com o programa Séte, que é os programas de esterilização. Quando falamos, por exemplo, de terminar com os fundos públicos para as touradas, mesmo quando falamos, inclusive, e foi aprovado na sexta-feira passada, os gabinetes de apoio à vítima de violência doméstica em todos os CIAP pelo país. Isso foi uma medida do PAN. Por isso, o PAN tem tido trabalho real no terreno. Os nossos deputados, seja a nível nacional, regional, mesmo local, têm feito este efeito PAN, que tem feito a mudança, e esse é o caminho que temos que trabalhar. Sendo, como é óbvio, qualquer partido, qualquer força, tem que ir fazendo alguns ajustes de comunicação e é isso que nos órgãos próprios depois será analisado.

Pedro Fidalgo Marques, depois do empenho que colocou nesta campanha, do ponto de vista pessoal, o que é que fica desta experiência?

Para mim foi uma experiência extremamente enriquecedora. Como eu disse várias vezes, eu sou ativista desde sempre, continuo a ser ativista, continuei a ser ativista nestes três pilares: dos animais, da natureza e do social. Aprendi imenso no contacto com as pessoas, de conhecer o país, conhecer a realidade de várias associações e irei levar isso para a minha vida profissional e pessoal. Irei agora também voltar a dedicar-me ao meu doutoramento, à minha parte profissional e às vezes as pessoas, já agora até um comentário à parte, que nós às vezes sofremos muitos comentários maldosos nas campanhas e a dizer que só queremos viver disto. A verdade é que eu nunca vivi da política. Eu estou cá porque eu acredito, eu tenho o meu próprio trabalho, que eu faço com muito orgulho e tudo o que dou à política é sempre com este voluntariado de entrega às causas, que é o que eu continue a fazer, porque irei estar sempre 100% dedicado às causas e ao PAN, porque eu acho que só assim conseguiremos realmente fazer a diferença.

Obrigada, Pedro Fidalgo Marques, por ter vindo a direto ao assunto. Obrigada. O cabeça de lista do PAN, que acabou por não conseguir ser eleito nestas europeias.