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Foi por pouco, mas não chegou. Francisco Paupério, o cabeça de lista do LIVRE, não conseguiu ser eleito para o Parlamento Europeu, embora mais do que tenha duplicado a votação do partido face às eleições europeias de 2019. Bem-vindo à antena do Observador, Francisco Paupério.
Muito obrigado pelo convite.
Ainda tomado pela desilusão de não ter sido eleito?
Sim, apesar das circunstâncias e vermos o crescimento do LIVRE, conseguimos duplicar e ter o melhor resultado de sempre em termos percentuais, acabamos por ficar à porta e claro que tornou a noite um pouco mais amarga do que nós esperaríamos e até do que foi o nosso objetivo inicial.
E que razões encontra, quando faz essa reflexão para esta não eleição, sendo que há muitos analistas que consideram que a falta de apoio do líder do partido, Rui Tavares, foi o que mais pesou, a falta de presença durante a campanha.
Essa análise vamos ter que fazer enquanto partido e perceber realmente o que falhou, o que podemos fazer um bocadinho mais para conseguir a eleição. Eu penso que nem tudo foi negativo. Mais uma vez, tivemos o melhor resultado de sempre em termos percentuais. Mais uma vez, passados dois meses apenas das eleições legislativas, conseguimos crescer, algo que à esquerda foi difícil acontecer. E portanto, temos que analisar o que nos faltou fazer, o que podemos ter planeado melhor, o que podemos ter feito melhor enquanto partido para conseguir chegar a mais pessoas, tanto na mensagem como na forma como conduzimos a mensagem. Na verdade, neste momento ainda não fizemos essa análise, mas certamente nos próximos dias iremos fazer.
Mas acabou por se sentir desamparado?
Não, de todo. Nós tivemos muito acompanhamento durante toda a campanha, tanto da direção como de todos os membros e apoiantes, como até dos próprios núcleos territoriais. E foi uma campanha feita como costumamos fazer no partido LIVRE, com todos e em conjunto. A verdade é essa. Nós trabalhamos muito em conjunto, não só na elaboração do programa, mas também na construção desta campanha. E eu não me senti desamparado, nem perto disso.
Ontem dizia que se não foi desta, vai ser de certeza na próxima que o LIVRE conseguirá eleger um deputado europeu. Gostava de voltar a ser candidato?
É uma opção que eu não excluo. Eu tinha esta vontade e até achava que tínhamos esta oportunidade neste momento e daí também assumirmos esse objetivo de eleger já neste mandato. Mas com o crescimento do LIVRE, penso que é inevitável que daqui a cinco anos estejamos a festejar esta representação, comigo ou sem eu estar, pelo menos como candidato. Continuarei no LIVRE, certamente, e a apoiar todas as candidaturas. Mas durante estes cinco anos vamos ver como evolui o partido e vamos ver se não surgem ainda novas caras com mais qualidade e, portanto, é prematuro estar já a fazer essa expectativa para daqui a cinco anos.
E para o futuro mais próximo, qual é o seu futuro imediato no LIVRE? Tem ambições dentro do partido?
Não, o futuro imediato é continuar o meu trabalho. Sou membro da assembleia, que é o órgão máximo entre congressos, e continuarei a fazer o meu trabalho enquanto militante, enquanto pessoa que acredita muito no projeto do LIVRE, e a continuar a apoiar todas as candidaturas a todas as eleições e a espalhar a mensagem e as nossas propostas do LIVRE. E claro, sempre que for requisitado para ajudar também no grupo parlamentar com propostas, a ajudar também na parte de comunicação, estarei sempre disponível.
Ainda há estrada para andar. Ainda sobre os resultados das europeias, o grupo dos Verdes no Parlamento Europeu perdeu 19 deputados. Foi, a par dos Liberais, o grupo que mais perdeu, a contrastar com a subida dos partidos da direita e, em particular, dos partidos mais à direita da direita. Que justificações é que encontra para este desfecho, Francisco Paupério?
Sim, nós tivemos boas notícias e más notícias para os Verdes. Tivemos uma boa notícia, que foi conseguirmos diversificar o número de países que os Verdes têm eleitos, nomeadamente a leste, conseguimos eleger pela primeira vez na Letónia, na Lituânia, conseguimos também eleger na Croácia e portanto diversificamos também aquilo que era uma diversidade que era reduzida até dentro dos grupos europeus, em que estávamos muito dependentes dos alemães e dos franceses, em termos de número. Na verdade, esta redução que acontece é sobretudo na Alemanha e na França, precisamente, em que na Alemanha, por estar em governo e por ter ainda um efeito como nestas eleições, acabamos por ficar em Portugal com alguma mobilização contra o governo, acabamos por perder alguns deputados e na França, por uma situação caricata, até diria, no início da campanha, que manchou a campanha dos Verdes e que levou a este resultado mais baixo. A verdade é que nem tudo é mau, precisamente porque conseguimos esta diversificação, que acho que vai contribuir também para um grupo dos Verdes mais robusto e que daqui a cinco anos recuperemos também na Alemanha e na França estes deputados que perdemos hoje e aí sim tornarmos um grande grupo político europeu.
Sebastião Bugalho expressou o desejo que o Francisco pudesse ser eleito para que juntos pudessem inscrever o direito à habitação na Carta Europeia dos Direitos Fundamentais. Desejo que, de resto, lhe mereceu a ele, Sebastião Bugalho, algumas críticas. Falou com o cabeça de lista da AD depois de conhecidos os resultados?
Ainda não falei com nenhum, sou sincero que estou a tentar obter os seus números para mandar uma mensagem e felicitar todos os eleitos, mas ainda não falei.
Tanto o Francisco Paupério como o Sebastião Bugalho têm menos de 30 anos. Acha que a idade pesou de alguma forma?
De todo, porque fomos tecnicamente os dois partidos que até cresceram em relação às legislativas, portanto, acho que não houve esse efeito negativo. No máximo, poderia haver até um efeito positivo de haver novas pessoas, pelo menos no meu caso, novos rostos na política e que poderá também ter levado a uma maior mobilização De pessoas. Portanto, não vi como algo negativo e olhando até para os outros candidatos e cabeças de lista com muita experiência na política, em que alguns até não tiveram resultados satisfatórios. Vejo que a idade não pesou, assim como a experiência, também não pesou.
Há pouco falava do resultado ser eventualmente algum castigo ao governo, à coligação que está neste momento em funções. Acha que houve um fator de compensação ao Partido Socialista e daí ter havido alguns eleitores do LIVRE, que votaram nas legislativas e que terão decidido votar no Partido Socialista?
Sim, acredito que houve uma mobilização como se fosse uma segunda ronda das legislativas. Curiosamente, sobretudo levada até pela comunicação social, porque nós vimos entre candidatos que tentamos fugir aos temas nacionais, tentamos focar nas políticas europeias, mas tenho a certeza até pelos resultados que houve essa intenção dos eleitores de tentar criar estas eleições europeias como a segunda volta das eleições legislativas. Infelizmente para o LIVRE levou possivelmente à sua não eleição, não representação no Parlamento Europeu. Cá estaremos daqui a cinco anos para provar mais uma vez que as nossas propostas fazem falta e dar uma força também a todo este mandato que vai ser de cinco anos, que não é um mandato fácil com a constituição do Parlamento Europeu, até com os possíveis governos que se podem formar na França, Itália e portanto vai ser preciso um Parlamento Europeu muito forte na defesa da democracia e das políticas ambientais e continuaremos a apoiar no plano local e nacional, sempre com olho em vista na União Europeia.
E tem enfatizado esse trabalho que ainda é preciso fazer e apesar de o LIVRE não ter assento no Parlamento Europeu, gostava, porventura, Francisco Paupério, de um dia vir a estar também no Parlamento Nacional ou ter um papel de maior relevo dentro do LIVRE, num próximo congresso?
Neste momento, essa posição não se coloca. Estou muito bem onde estou. Neste momento, tenho um doutoramento para acabar, tenho poucos meses para acabar, portanto vou me focar apenas no doutoramento.
É um enorme trabalho.
Exatamente. Portanto, os meus planos próximos são acabar o doutoramento e continuar o meu trabalho como membro da Assembleia do LIVRE e apoiando sempre o LIVRE no que for preciso.
Francisco Paupério, para terminar, há pouco fazíamos referência à idade. O Francisco tem 29 anos. Tendo em conta também esse fato, foi difícil esta experiência e esta corrida eleitoral por que passou?
No meu caso, foi uma experiência que levo pra vida, foi muito diferente daquilo que era o meu dia a dia. Acho que cumpri com tudo aquilo que me foi pedido, até se calhar de forma surpreendente pra muita gente e, portanto, levo com muito orgulho estas semanas e também orgulho de representar aquilo que são as ideias do LIVRE. Acho que mostrei também que a idade não é um fator decisivo, porque conseguimos ter jovens a cumprirem de forma correta e de forma até, às vezes, positiva ou muito positiva neste tipo de posições. Portanto, o que eu peço é que haja mais jovens a serem inspirados por estas atividades e a se juntarem à política, a se juntarem aos partidos e a acreditar que é possível mudar também a forma de se fazer política.
Fica essa mensagem no fecho desta entrevista, no rescaldo das eleições europeias. Francisco Paupério, obrigado pela sua disponibilidade, por ter estado na antena do Observador e boa sorte com o doutoramento.
Muito obrigado pelo convite.