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Pior resultado sempre em eleições europeias. Pela primeira vez, só com um deputado a garantir assento no Parlamento em Estrasburgo. Dos partidos que conseguiram eleger, a CDU foi quem teve menos votos, perto de 163 mil votos. O cabeça de lista João Oliveira ruma a Bruxelas e Estrasburgo, mas antes disso é entrevistado aqui na Tarde Política da Rádio Observador. João Oliveira, bem-vindo e obrigado por ter aceitado o nosso convite.
Muito obrigado.
Foi uma noite longa, de susto e depois de alívio pela eleição. Foi, de resto, o senhor que revelou a notícia da sua eleição ainda antes dos resultados oficiais. Chegou a temer o pior? Foi por isso que fez duas declarações com intervalo de quase duas horas?
Não era preciso temer o pior. Essa questão foi-nos colocada frequentemente, recorrentemente, sobretudo para marcar uma determinada perspectiva das pessoas em relação à campanha da CDU de que podíamos estar em risco de não eleger. E, portanto, eu diria que toda a mensagem mediática que foi construída em torno da CDU desde o início da campanha, colocava essa questão e, de facto, os resultados vieram a confirmar exatamente o sentido contrário, ao contrário daquilo que muitos desejariam, a CDU não desaparece do Parlamento Europeu, continuará a dar voz ao povo e ao país no Parlamento Europeu com a representação que conseguiu alcançar ontem. E a eleição do deputado da CDU é a expressão de uma grande coragem de mais de 160 mil eleitores que venceram o medo e todo o tipo de obscurantismo que foi lançado contra a candidatura da CDU e conseguiram, digamos assim, de uma forma corajosa, assumir esse sentido de voto, muitos deles pela primeira vez.
O medo, João Oliveira? O medo? Medo de quê?
Sim, o medo que foi lançado relativamente à candidatura da CDU, com as mais diversas deturpações e falsificações que foram feitas sobre a nossa mensagem e os nossos posicionamentos. Aliás, basta lembrar aquela operação lançada na véspera do fim da campanha, a propósito das votações no Parlamento Europeu, para se perceber verdadeiramente o grau de empenhamento que houve.
Está a referir-se, João Oliveira, só para os nossos ouvintes perceberem, a um artigo do jornal Político que inclui os até aqui eurodeputados comunistas Sandra Pereira e João Pimenta Lopes na lista de melhores amigos de Vladimir Putin no Parlamento Europeu. Ainda ontem também falou sobre isso, João Oliveira, e também usou outro tipo de expressões para atribuir responsabilidades a quem quis pregar rasteiras à CDU durante a campanha. Usou expressões como cortinas de fumo, mentiras, manobras abjetas e agora está aqui também a falar sobre isso. É só um artigo o responsável por este resultado da CDU? Não há responsabilidades a sacar à própria coligação?
Eu não sei quem é que disse que o resultado da CDU resultava só de um artigo.
Eu estou a apoiar-me naquilo que disse ontem e naquilo que está a dizer hoje. Os argumentos que invocou começaram logo por aí.
Se encontrar alguém que diga que o resultado da CDU é responsabilidade de um artigo, diga-me, que é para eu poder convencer a pessoa que isso é um erro de análise grande. Vamos ver uma coisa. Há um cerco ao PCP e à CDU, particularmente nos últimos dois anos, em função da nossa posição de defesa intransigente da paz, quando toda a gente está a ser empurrada para a defesa da guerra. E portanto, nos últimos dois anos, teve de facto uma tentativa de cerco e de desaparecimento forçado do PCP e da CDU, em função dessa posição. Quando há um empenhamento enormíssimo, não apenas no plano nacional, mas no plano internacional, de empurrar os povos para a guerra, quando a propaganda da guerra atinge a dimensão que tem atingido, quem fala da paz tem que ser silenciado, tem que ser apagado, tem que fazer desaparecer do mapa político e institucional. E, digamos assim, esse cerco teve tentado presente ao longo destes últimos dois anos com uma grande intensidade. E nesta campanha eleitoral teve essa revelação, eu diria, mais evidente, a propósito desse artigo que foi produzido na véspera da campanha eleitoral acabar, mas que de uma forma geral esteve presente em praticamente todas as circunstâncias ao longo da campanha eleitoral, com o tipo de deturpações, de falsificações que foram sendo feitas, manipulação das posições do PCP sobre os mais diversos temas, não apenas da paz, mas de outros, a propósito do euro e da saída da União Europeia, com invenções que foram alimentadas durante muito tempo a propósito das posições do PCP e da CDU, eu diria, sobretudo visando dois objetivos. Por um lado, criar essa perspectiva sobre o PCP e a CDU e, por outro lado, silenciar aquilo que de mais relevante nós tínhamos a dizer e que tínhamos para dizer e que fomos dizendo ao longo da campanha, fazendo dessas questões as questões centrais da nossa mensagem, quando verdadeiramente nós não fazíamos delas as questões centrais. Particularmente em relação às questões do euro, elas não tinham centralidade, que lhes foi dada do ponto de vista da abordagem mediática. Agora, isso não desfavorece nada aquela apreciação que acabei de fazer, porque ao longo da campanha, nós fomos encontrando muita gente que, mesmo nesse quadro de deturpação das nossas posições e de falsificação, em alguns casos até das nossas posições, houve muita gente que foi encontrando, de facto, na nossa mensagem, uma mensagem de esperança em relação a preocupações grandes que têm, incluindo, nomeadamente, em relação à guerra. Aliás, não deixa de ser curioso que praticamente todas as forças políticas, a partir de uma determinada altura, passaram a falar de paz, quando até aí não faziam uma referência sequer à própria palavra, quanto mais ao sentido político de intervir no sentido da paz. Até uma determinada altura, nós só fazíamos ouvir falar era de defesa, defesa e segurança. Os falsos pretextos para invocar a guerra a que os povos já vão todos habituados ao longo da história. E portanto, até uma determinada altura, defesa e segurança eram os únicos termos que eram utilizados nas campanhas de outras forças políticas e a partir de uma determinada altura, passaram também a referir-se à paz, porque a nossa intervenção e a nossa ação, determinada na exigência da paz e da afirmação de um caminho político para a paz, não apenas na Ucrânia, mas na Palestina, em todos os outros pontos do mundo onde há guerra e é preciso alguém que intervenha em defesa da paz, verdadeiramente a nossa intervenção forçou um outro posicionamento das restantes forças políticas relativamente a essa questão. E eu diria que mesmo que o resultado eleitoral não tivesse permitido a eleição do deputado da CDU, que acabou por ser eleito Só isso já teria sido uma grande conquista, porque abrir consciências na sociedade portuguesa para a importância da luta pela paz, ao ponto de as outras forças políticas se verem obrigadas a tratar disso quando não o faziam antes, eu julgo que já teria sido, só por si, um grande resultado positivo da nossa intervenção no plano da campanha eleitoral. O facto de termos representação no Parlamento Europeu e podermos dar uma voz diretamente a esse sentido da busca pela paz, eu julgo que é um resultado de duplo valor.
Apesar da questão relacionada com a guerra na Ucrânia, a verdade é que o PCP tem vindo a perder eleitorado desde os tempos da geringonça. Não vê aí uma tendência?
Entre 2005 e 2019 tivemos a tendência inversa.
Não, pós-geringonça, não é?
Repare, até 2002 tivemos uma tendência decrescente. De 2002 para frente, tivemos uma tendência crescente até 2019. Nos últimos anos, a tendência eleitoral, de facto, não tem sido essa. Mas nós não olhamos para estas coisas com impaciência, nem com ímpetos em função dos resultados eleitorais. Nós percebemos que o contexto de cada resultado eleitoral é diferente de eleição para eleição, que as próprias eleições, além da diferença que têm entre si, são disputadas em contextos diferentes e, portanto, há elementos que pesam mais numas circunstâncias do que noutras. E tal como no passado já tivemos ciclos ascendentes e ciclos descendentes do ponto de vista eleitoral, nesta circunstância estamos a debater-nos com estas dificuldades, mas para a frente o rumo há de ser diferente, de certeza absoluta. Vamos conseguir encontrar o caminho para inverter essa tendência.
Não teme que o Partido Comunista em Portugal siga a tendência e o caminho trilhado por outros partidos comunistas noutros pontos da Europa?
Nós nunca tivemos, até mesmo no movimento comunista internacional, sempre nos destacamos por nunca decalcarmos os exemplos dos outros, nem decalcarmos a experiência dos outros como modelos para nós próprios. E portanto, não fizemos isso no passado, nem fazemos isso hoje em dia. Olhamos para a realidade de cada um e as características próprias que tem a realidade em que cada um intervém, inclusive dos partidos com quem temos relações mais próximas, e procurando compreender as opções que faz cada um dos partidos nessas realidades, nós não deixamos de fazer as nossas opções em função da realidade que temos em Portugal. E julgo que a realidade que temos em Portugal e sobretudo a história que temos de mais de 100 anos de ligação direta aos trabalhadores e ao povo, com enraizamento dos trabalhadores e no povo a justificar verdadeiramente a nossa capacidade para superarmos até as circunstâncias mais difíceis, bem mais difíceis do que aquelas que temos hoje. Se nós pusermos em comparação a realidade em que hoje estamos a intervir com aquela em que interviamos antes do 25 de abril, as diferenças são enormíssimas e são claras. E se mesmo nessas circunstâncias mais difíceis, nós conseguimos encontrar as soluções para ultrapassar esses obstáculos, não há de ser hoje que deixaremos de o fazer. Portanto, continuaremos empenhados nesse caminho, sobretudo procurando que a nossa força continue a resultar desse enraizamento nos trabalhadores e no povo, nas suas lutas, nas suas dificuldades, na resposta às suas necessidades, com condições diferentes de eleição para eleição, com condições diferentes de circunstância para circunstância, em função da situação económica e social do país, mas com a mesma determinação.
E falava há pouco do eleitorado que o PCP, apesar de tudo, conseguiu manter ao seu lado e nessa defesa pela paz, estava a dar esse exemplo da Ucrânia. Mas há a preocupação de auscultar efetivamente o eleitorado preferencial da CDU sobre o porquê de se estar a afastar das causas comunistas ou a reflexão fica-se só pelo comitê central? E pergunto-lhe isto tendo em conta os resultados, porque o que é facto é que a CDU está a perder votos, apesar de ter conseguido eleger João Oliveira.
Eu diria assim, até partindo dessas próprias eleições, se nós não tivéssemos essa preocupação do contacto direto e não só de auscultação daquilo que as pessoas nos têm a dizer, mas de integração dessas opiniões na nossa própria ação e na nossa própria intervenção, muito provavelmente não tínhamos conseguido dar a volta ao destino que nos tinham traçado. Eu não sei se se recordam, aliás, até numa entrevista ao Observador, ainda nessa campanha eleitoral e em várias entrevistas que fui dando a vários órgãos de comunicação social ao longo dos últimos meses, o ponto de partida era sempre o mesmo. As sondagens no plano europeu dão o desaparecimento de forças como o PCP e a CDU, e portanto, como é que lidam com esse desaparecimento, com a possibilidade desse desaparecimento? Essa marca que desde o início procurou ser criada em relação à CDU, em sentido completamente antagónico àquilo que foi sendo dispensado a outras forças políticas, era de facto o ponto de partida que nós tínhamos. O destino que nos tinham traçado era nós desaparecermos da representação do Parlamento Europeu e havia muita gente a preparar-se para fazer uma grande festa com o desaparecimento da CDU no Parlamento Europeu. Foi precisamente nesse contacto direto, ouvindo as pessoas, procurando responder às suas preocupações, procurando integrar as opiniões que nos faziam chegar e dando tradução na nossa própria ação, que nós conseguimos evitar de facto isso. Foi uma grande campanha eleitoral que nós precisávamos de fazer, com muitos milhares de ativistas da CDU, de norte a sul do país, a intervir diariamente nesse esclarecimento que era preciso fazer e na mobilização para voto na CDU. Aliás, eu fui testemunha durante a campanha eleitoral, nas inúmeras iniciativas de campanha em que participei, de norte a sul do país. Fui testemunha direta desse envolvimento que se foi fazendo de muita gente a quem não chegou nenhuma outra mensagem de nenhuma outra candidatura que não a da CDU. Em muitas zonas do país, nós andámos a fazer campanha eleitoral sozinhos, a falar com as pessoas, a ouvir as pessoas, a dar às pessoas uma perspectiva de esperança e de confiança numa alternativa que é possível construir no nosso país. E eu diria que se não fosse esse trabalho que foi feito de norte a sul do país, sobretudo ouvindo as pessoas e levando-lhes essa mensagem que íamos levar, muito dificilmente teríamos dado a volta a esse destino que nos traçaram de desaparecimento do Parlamento Europeu. E portanto, eu julgo que é de valorizar não apenas o resultado, mas sobretudo esse trabalho. Eu diria que independentemente do resultado, mesmo que nós não tivéssemos conseguido eleger nenhum deputado ao Parlamento Europeu, não estaríamos hoje nas condições em que estamos. Um passo mais à frente do que estávamos antes da campanha eleitoral para todas essas lutas que ficam por travar na resposta aos problemas que o povo vai enfrentando.
E o João Oliveira vai ter assento no Parlamento Europeu. Parabéns pela eleição e obrigada por esta entrevista.
Muito obrigado eu. Bom trabalho. Muito obrigado.