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Perto de um dos lugares que tinha em Bruxelas, mas garante a representatividade no Parlamento Europeu, o Bloco de Esquerda chegou a tremer durante a noite de ontem, mas conseguiu eleger a cabeça de lista Catarina Martins. É nosso convidado no Direto ao Assunto, José Manuel Pureza, que ocupava o último lugar na lista de candidatos nestas eleições europeias. José Manuel Pureza, boa tarde e bem-vindo à antena do Observador.
Olá, boa tarde.
Depois do conhecido dos resultados e das reações que se seguiram, sobressai uma ideia: o Bloco resiste, o Bloco sobrevive, mas a verdade é que alcança o pior resultado desde 1999. O que é que correu mal?
Seguramente não foi a falta de qualidade da cabeça de lista, da lista que ela compunha e do desempenho que Catarina Martins e o resto da lista, mas sobretudo Catarina Martins, teve ao longo da campanha eleitoral. Todos reconheceram a sua enorme solidez, a sua grande preparação, a sua clareza de propósitos em nome do Bloco de Esquerda durante os debates públicos que ocorreram. Portanto, não creio que nada disso tenha sido o fator de responsabilidade. A verdade é que olhamos à volta do nosso país e em todos os países à esquerda da social-democracia, tem uma dinâmica de retração mais acentuada nuns casos, menos acentuada noutros, mas é um fenómeno transversal à realidade europeia. Isso evidentemente que não é uma desculpa para o Bloco de Esquerda, mas é uma inclusão dos resultados específicos do Bloco, uma dinâmica europeia que se faz sentir em Portugal, quer à esquerda, quer à direita, e portanto creio que no essencial são movimentos, diria, tectônicos, são movimentos de grande dimensão que têm também o seu reflexo no nosso país.
Falava exatamente no crescimento dos partidos de direita e de direita radical e até da extrema-direita. É o voto do descontentamento, é isso que justifica esta preferência dos eleitores?
Sim, em grande medida isso é verdade. Ou seja, sabemos bem que a tática dos partidos da direita mais radical e da extrema-direita tem sido sempre a de jogar na zanga, na irritação, sem proposta muito concreta. E portanto, capitalizando o descontentamento, sem amarrar o eleitorado a uma proposta construtiva que sempre tem custos políticos, evidentemente. E portanto, isso tem sido realmente a tática da direita mais radicalizada, mais extremista, e portanto isso evidentemente que desloca uma parte do eleitorado para essa área política, evidentemente.
A questão das políticas migratórias terá algum impacto nesta viragem? Há uma maior identificação dos eleitores com as preocupações manifestadas por esses partidos?
As coisas são desencontradas, porque se olharmos ao caso português, se há nota desta eleição, é o desastre do resultado obtido pelo partido da extrema-direita que é o Chega. Tem cerca de metade dos resultados obtidos há poucos meses nas eleições legislativas. Ao mesmo tempo que a direita tradicional reunida na AD tem um resultado muito pouco satisfatório e que a direita, eu diria, o extremismo liberal, esse sim, tem um resultado animador. E portanto, quer dizer, há uma recomposição da direita que se está a afirmar ao longo do tempo, é um processo que está longe de ser concluído.
E apesar disso, por que o Bloco de Esquerda não conseguiu capitalizar votos? Foi mesmo a iniciativa liberal?
Eu creio que justamente o que há é, nesta fase, uma ofensiva muito grande, muito forte, da direita, quer da direita tradicional, quer de franjas radicalizadas à direita. E essa ofensiva está claramente a ter frutos à direita com uma esquerda que está neste momento colocada numa posição mais de resistência do que de capacidade de mobilização. Creio que é isso.
Há leituras nacionais a fazer dos resultados das europeias?
Se alguma leitura nacional há a fazer, eu acho que ela passa por dois aspetos. O primeiro, volto a dizer, é o resultado assinalavelmente negativo do Chega, que tem cerca de metade da votação que teve há poucos meses em legislativas. Isso tem tudo a ver, do meu ponto de vista, com a centralização absoluta desse partido na figura de André Ventura. Neste caso, apesar de André Ventura na reta final da campanha ter aparecido sempre e ter procurado esconder o seu cabeça de lista, isso não foi a tempo de resultar. E portanto, creio que o resultado do Chega se explica muito por isso. Ao mesmo tempo, creio que a segunda nota muito importante é a de que o partido, ou se quisermos, a coligação que hoje exerce o poder governamental em Portugal, perdeu as eleições. E portanto, isso não deixa, evidentemente, de ter alguma repercussão naquilo que venham a ser os próximos passos O governo de Luís Montenegro e o restante tecido político em Portugal.
Mas este resultado segue-se à não eleição dos deputados na Madeira e nos Açores. Apenas cinco assentos na Assembleia da República, comparado com aquilo que já foi o grupo parlamentar do Bloco de Esquerda. Há alguma disputa entre o Bloco de Esquerda e o Livre que tem sido desfavorável ao Bloco?
Eu não creio que haja qualquer tipo de disputa. Ou melhor, há disputa na exata medida. Todos os partidos que vão a eleições disputam naturalmente uns com os outros, como é óbvio.
Mas poderia haver aqui um eleitorado móvel entre os dois partidos.
É natural. São situações que representam sensibilidades diferentes à esquerda e, portanto, é natural que haja franjas sociais, segmentos sociais, que se vão revendo mais proximamente do Bloco, do Livre, do PCP, até do próprio Partido Socialista. Isso é perfeitamente normal. Não creio que haja nisso nenhuma novidade. Apesar de tudo, eu acho que nestas eleições a posição do Livre e a posição do Bloco tinham uma distinção clara. Isso tinha a ver, sobretudo, com o alinhamento que o Livre sempre afirmou, sem qualquer dúvida, o seu alinhamento com uma certa orientação oficial da União Europeia e o Bloco numa posição de muito maior contraste em relação a essa posição, a essa orientação, essa lógica de governação europeia. Enfim, o Livre não logrou os seus objetivos eleitorais. Não sei se isso quer dizer alguma coisa do ponto de vista do comportamento do eleitorado. Há sempre questões que têm a ver com rostos, com perfis. Tudo isso conta e, portanto, creio que não vale a pena estar a fazer uma explicação monocolor para essa situação.
José Manuel Pureza, se o Bloco de Esquerda for chamado a pronunciar se vai apoiar a candidatura de António Costa à presidência do Conselho Europeu.
Nós dissemos durante a campanha eleitoral duas coisas. A primeira é que neste cargo de presidente do Conselho Europeu, como noutros cargos de relevo nas organizações internacionais de que Portugal faz parte, a nacionalidade das pessoas que vão exercer cargos já se mostrou não ser um critério absolutamente decisivo. Há portugueses que têm desempenhado funções de grande importância e com cujo desempenho o Bloco de Esquerda tem estado mais próximo. Estou a pensar, por exemplo, no secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, em matéria de luta climática ou em matéria de defesa do povo da Palestina contra a agressão e o genocídio de que está a ser vítima. Mas também já tivemos cidadãos nacionais que tiveram grande relevo em organizações internacionais e que o curso de desempenho foi longe de ser próximo daquilo que o Bloco de Esquerda entende ser essencial. O caso Durão Barroso é evidentemente o caso mais destacado nos tempos mais recentes. A segunda coisa que dissemos é que António Costa não é Durão Barroso. António Costa tem um percurso, tem valores, tem um desempenho que o distingue de Durão Barroso. E, portanto, vamos deixar que haja uma estabilização da composição das várias famílias europeias e se António Costa se colocar na linha de partida para a presidência do Conselho Europeu, nessa altura será em função disso que o Bloco de Esquerda tomará posições. Tudo o que eu disser além disto será totalmente precipitado nesta altura.
Ainda é cedo para que o Bloco diga o que vai fazer nesse cenário hipotético de António Costa ser candidato à presidência do Conselho Europeu. José Manuel Pureza, agradeço a sua disponibilidade e a sua presença neste dia atirado no direto ao assunto da Rádio Observador.