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O objetivo da Aliança Democrática era vencer, mas a noite eleitoral, apesar de ter começado com um empate técnico com o Partido Socialista, mostrou que o vencedor foi o PS, que conseguiu mais um ponto percentual, mais votos e mais um mandato. O cabeça de lista, Sebastião Bugalho, falou de uma vitória por poucochinho, mas Luís Montenegro assumiu que foi uma derrota. Com 31,2% dos votos e sete mandatos, menos um do que o PS, o líder do PSD, e também primeiro-ministro, recusou fazer leituras nacionais das eleições europeias. Temos conosco, da Aliança Democrática, para falar das consequências deste resultado eleitoral, Paulo Cunha, número três da lista, agora é o terceiro eurodeputado da delegação da AD no Parlamento Europeu. Paulo Cunha, bem-vindo, obrigada por se juntar a nós. Além de ter sido eleito eurodeputado, é também vice-presidente do PSD. Por isso, pergunto lhe, o resultado de ontem à noite tem ou não uma leitura nacional?
Boa tarde, Ana Dias. Obrigado pelo convite. O resultado, como disse o presidente do PSD, líder da AD, Luís Montenegro, primeiro-ministro de Portugal, não tem obviamente leitura nacional. A nossa percepção é que os portugueses quando ontem foram votar, e saúdo o facto de o terem feito em maior quantidade do que vinham fazendo em outras eleições europeias, nomeadamente na última, é um cenário que é diferente de uma eleição legislativa. Seria impensável que cerca de três meses depois de uma eleição legislativa, onde a AD venceu essa mesma eleição, depois da forma como está a governar o país, que os portugueses quisessem que houvesse qualquer tipo de leitura nacional. Estou seguro de que essa leitura não existe. Aliás, não faria sentido, repito, porque não há nenhum sinal social que sinalize qualquer tipo de contestação às ações do governo. Pelo contrário, aliás, têm sido publicadas sondagens e estudos de opinião acerca da imagem que o primeiro-ministro e que o governo tem no país, e a nossa percepção é que o governo está primeiro a cumprir as propostas que assumiu com os portugueses na eleição de 10 de março. Saúda-se a bem-sucedido na execução dessas mesmas propostas.
Certo é que o governo tem minoria no Parlamento Nacional e tem estado numa situação difícil, pelo que revelam episódios como aqueles a que assistimos de alianças entre PS e Chega. Este resultado pode vir a agudizar essa ideia de o governo estar numa situação periclitante? Pode dar azo a que o PS se sinta mais autorizado a votar contra o orçamento do Estado para o próximo ano?
Cada força política tem responsabilidade pelas suas ações e pelas suas inações ou omissões, se quiser. A Aliança Democrática, e particularmente o Partido Social-Democrata, está bem consciente do mandato que tem e que recebeu dos portugueses. Não ignoramos que ganhámos eleições em 10 de março, que tínhamos um programa e que estamos a cumprir esse programa. E repito, para bem dos portugueses, é preciso que se criem condições políticas em contexto parlamentar para que essas medidas possam passar no crivo parlamentar. É óbvio, e Luís Montenegro ontem teve a ocasião de o renovar, que temos consciência que não temos maioria absoluta e, portanto, que precisamos de fazer acordos de base parlamentar. E aí, também já dissemos em muitas circunstâncias, sabemos primeiro que existe um partido que é o principal partido da oposição, que é a líder da oposição, que é o Partido Socialista, que é um partido privilegiado nas soluções em contexto parlamentar. Mas, como é óbvio, o Partido Socialista também tem que ter consciência da sua responsabilidade. E, portanto, eu não antevejo nenhum agravamento da situação e do contexto parlamentar que vivíamos após 10 de março com o resultado da eleição para o Parlamento Europeu que ontem ocorreu.
É a primeira vez que Luís Montenegro é derrotado desde que é líder do PSD. Se pensarmos nas eleições regionais e nas legislativas, os últimos dois meses no governo tiveram ou não impacto nestes resultados?
Eu estou seguro que não. Aliás, se olharmos para as próprias sondagens ao longo do percurso, a AD de uma forma mais ou menos segura, foi subindo nas intenções de voto. Essas eleições são eleições especiais, sempre foram. É bom termos memória de muitos outros momentos em que tivemos eleições europeias em diversos contextos parlamentares, com diferentes governos, com diferentes arranjos parlamentares, maiorias, minorias, governos há mais tempo em funções, há menos tempo em funções, mais contestados, menos contestados, sempre foram eleições diferentes das outras eleições. Nós temos que interpretar essas da mesma forma. Portanto, eu não vejo, sinceramente, qualquer tipo de leitura, de censura dos portugueses à ação do governo. Repito, pelo contrário, eu acho que hoje é um dia completamente diferente de ontem e os portugueses estão concentrados nos seus afazeres, nas suas atividades, e à espera, isso sim, que o governo continue as ações que vem implementando para bom governo do país.
Só nas últimas semanas, o Executivo fechou um acordo com algumas estruturas sindicais de professores, resolveu as reivindicações dos oficiais de justiça, entregou a proposta de redução do IRS, anunciou o novo aeroporto, apresentou o programa de emergência para o Serviço Nacional de Saúde. Estas medidas devem ser encaradas como o governo a fazer o trabalho que prometeu ou houve uma preocupação no timing da apresentação destas medidas? Pode haver pelo menos essa interpretação.
Eu diria que algumas delas, vou citar uma, que é o caso das medidas para a saúde, foram anunciadas em campanha eleitoral para o dia 10 de março, e o governo comprometeu-se nos primeiros 60 dias a apresentar esse mesmo projeto. Portanto, o governo está a honrar os compromissos que foram sufragados na eleição legislativa de 10 de março, até do ponto de vista do timing desses mesmos compromissos, alguns, como é o caso Do conjunto de medianeiros da saúde, que foi calendarizado antes de 10 de março e, portanto, não tem rigorosamente nada a ver com esta agenda para o Parlamento Europeu. As mais diversas medidas, e ontem o Luís Montenegro dizia que nas primeiras semanas o governo era acusado de inação, era acusado de não estar a governar. O governo não começou a governar, dizia o líder da oposição. É curioso que alguns dias depois, o mesmo líder da mesma oposição, que é o Partido Socialista, acusava o governo de excesso de medidas. O governo está a governar, está a fazer o que o país precisa nas mais diversas áreas, procurando acorrer a muitas solicitações. Devo dizer que falou dos acordos com os professores, nos funcionários judiciais. São duas áreas, entre várias, onde nós vivíamos até o passado dia 10 de março, num contexto de agitação social. Era preciso devolver a paz à escola pública e o nosso governo, o governo liderado por Luís Montenegro, devolveu a paz à escola pública. Era preciso que os tribunais retomassem a regularidade do seu funcionamento e foi o Luís Montenegro que o conseguiu. Estamos agora com uma frente na área das forças de segurança. É preciso atender essas solicitações. Ou seja, este governo está a resolver problemas que herdou e não pode ser acusado de eleitoralismo por estar a resolver problemas que herdou de nove anos de desgoverno do Partido Socialista.
O resultado da Iniciativa Liberal e de João Cotrim Figueiredo prejudicou a Aliança Democrática? E deixe-me acrescentar que durante a campanha parece ter havido um pacto de não agressão entre a AD e a IL. Pergunto-lhe se isso pode ter prejudicado a Aliança Democrática.
Os resultados dos outros partidos nunca prejudicam a Aliança Democrática. O nosso resultado é consequência da nossa campanha, da nossa capacidade ou falta dela, de chegarmos aos portugueses, das nossas ideias terem o seu conhecimento. É essa a leitura que eu faço, não há outra. Mas agora aproveito para dizer o seguinte: quando fazem comparações com o resultado que a AD teve, por exemplo, há cinco anos, é bom não ignorar que há cinco anos o PSD teve cerca de 21%, agora está coligado com outras duas forças políticas, mas na altura, forças políticas como a IL e como o Chega não elegeram deputados ao Parlamento Europeu. Portanto, o contexto mudou muito. O que diz da IL, podia dizer do Chega, são novas forças políticas que estão a ocupar o seu espaço. E a Aliança Democrática, e particularmente o Partido Social-Democrata, tem consciência que o seu caminho é um caminho que deve ser feito de forma autónoma. Nós somos aquilo que chamamos a direita moderada, um partido que procura corresponder aos anseios das populações e que faça o caminho procurando convergências quando elas são necessárias. E nunca escondemos que, por exemplo, com a IL, entendemos que há um conjunto de temas ou um conjunto de áreas onde será perfeitamente possível, no futuro, criar plataformas de entendimento.
Paulo Cunha, muito obrigada por ter vindo ao "Direto ao Assunto". Agradecemos-lhe esta entrevista. Número dois da AD nestas eleições europeias. Parabéns pela eleição e boa viagem rumo ao Parlamento Europeu.
Obrigado por se apoiar. Bom dia para si.