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Maria, ainda não sei se prefiro dizer fitness wear ou active wear.

Eu percebo-te, Margarida. É porque chamar isto apenas de roupa de treino já peca muito por escasso.

Tu não me digas nada. É que depois da febre dos biquínis, agora estamos a ter uma febre das leggings, ao que parece.

"Do Avesso", um podcast sobre moda com Margarida Brito Pais e Maria Ramos Silva. É assim, a roupa que nós usamos no ginásio tornou-se uma parte importantíssima do próprio treino. Não só porque deve ser adequada a cada processo, mas porque a oferta neste segmento também está muito musculada. Além de que conta muito no fator motivação, tu não achas?

Sim, mesmo que não sejamos fãs de tirar selfies em frente ao espelho, a verdade é que ter a roupa certa sempre nos ajuda a encarar o esforço com outra cara. Até porque a roupa de treino adequada, ou seja, aqui estamos a falar da compressão nos sítios certos e daquelas costuras que criam uma certa ilusão de ótica, faz mesmo milagres pela nossa imagem corporal.

Pois é. O treino, e o pré-treino e o pós-treino, já agora, se costumam andar na rua ou fazer exercício na rua, é natural que o tal active wear ganhe outro peso e se confunda com o próprio guarda-roupa, pelo menos a certa altura da semana. E claro que faz toda a diferença pensar na era das redes sociais, porque se é pra partilhar o outfit do ginásio, a pessoa vai querer estar bem.

Completamente. E até existe quem nem sequer vá ao ginásio, mas que gosta deste tipo de roupa, pela estética, pela forma como falámos, pode transformar o corpo e também pelo conforto. A verdade é que tu quando vais vendo as redes sociais, tens muitas partilhas com este tipo de vestuário.

Influencers.

Sim, em situações completamente corriqueiras, como beber um café ou ir buscar pão, passear o cão, fazendo desta uma opção pro dia a dia ou pelo menos pra aqueles dias em que não há planos que peçam uma roupa um bocadinho mais formal.

A parte boa é que o mercado explodiu um pouco por todo lado, saindo do nicho estrito do desporto e entrando mais na categoria lifestyle. Isto tornou mais democrático também a tecnologia que este tipo de peças têm, já falámos um pouco.

Tem um grande investimento.

Totalmente. E nas grandes cadeias há muito mais opções do que havia. A própria Oysho, lembro-me agora, foi crescendo muito ao longo dos últimos anos em termos de oferta e diferentes segmentos desportivos. E depois temos inúmeras marcas independentes, incluindo portuguesas, que têm apostado em força nesta área.

Sim, a verdade é que este segmento surgiu aqui um bocadinho como uma extensão natural para as marcas de biquínis.

Os tais biquínis.

Exatamente, que eram marcas que têm o produto sazonal, mas que já tinham no seu ADN esta ligação ao corpo e que portanto, aqui a ginástica aparece como opção natural. Olha, a Latitudo, a Canté, a Concha, são casos de sucesso aqui em território nacional que mostram esta ligação do universo entre o beach wear e o active wear. Mas depois também tens marcas portuguesas que também já nascem vocacionadas diretamente pro desporto, como a Dupla, a Spry, a Rich is a Bod. E tens, claro, não podemos deixar de falar da gigante Prozis, que há muita gente que não sabe, mas que na verdade também é uma plataforma portuguesa.

Sim. Margarida, além de que surgem novas marcas até mais orientadas para modalidades específicas. Como o golfe, o ténis, o pádel e outras disciplinas que vão cruzando desporto, mas também com lazer e lifestyle.

O que não deixa de ser um regresso ao passado.

Sim, mas com algumas diferenças. Desde logo, a diferença essencial que eu lembro é que os cavalheiros hoje já não jogam partidas de ténis de calças como antigamente.

Infelizmente, porque eram uns looks muito interessantes.

Eram incríveis, sim. Mas bom, também tinham raquetes pesadíssimas, que hoje a tecnologia permite ter aqui outro desempenho, o que é favorável. Penso também nos All Stars, os ténis que se usavam no basquetebol originalmente e que saltaram sobretudo hoje para o street style, já não estão propriamente nos campos, mas nas ruas. Muita coisa mudou, de fato. Talvez as pessoas não se lembrem, mas as próprias leggings nem sempre foram território feminino. Margarida, eu encontro imagens ótimas do pugilista Jack Dempsey a treinar com algo que parece uma skolling estilo leggings. Portanto, só pra teres uma noção.

Mas em cores mais sóbrias, imagino.

Sim. Eu creio que eram pretas.

Mas sabes que nos anos 50 do século 20 também fizeram sucesso estas roupas mais confortáveis. Os favoritos eram os polos.

É verdade.

E também os calções num tecido um bocadinho mais elásticos pra facilitarem aqui a atividade física também nessa década.

Isso muito em contraste com o new look das saias rodadas do Christian Dior.

Olha, talvez exatamente por isso. Porque esse estilo da dona de casa perfeita dos anos 50 era tão pouco prático, que de fato a roupa confortável acabou aqui por ganhar muitas adeptas, mesmo pras tarefas do dia a dia, porque aquelas saias rodadas, convenhamos. Só dá gente pra tirar a fotografia, pôr o prato dentro do forno. Pra limpar a casa não deve dar muito jeito.

Pra tudo o resto é um pouco mais complicado, sim.

Este estilo, que acabava aqui por misturar este look um bocadinho mais confortável, com peças um bocadinho mais arranjadas, acabou por dar origem à estética do preppy americano.

É o nosso betinho.

Exatamente. Que inspira as marcas como Ralph Lauren, Tommy Hilfiger, Fred Perry, e que na verdade está muito ligado à estética que associamos à moda americana, com extensão até pras peças de merchandising das universidades.

Pois é.

Que acabaram também elas por se tornar um ícone da roupa desportiva e da roupa comum.

Mesmo que a pessoa não ande naquela universidade.

Exatamente. Sobretudo quando falas aqui desta tendência old money que está a invadir as redes sociais, vejo muito as sweatshirts das faculdades americanas.

Olha, se havia alguém que conseguia navegar por todos esses estilos e momentos era Diana, a Princesa de Gales, incluindo na sua roupa de fitness. Ela desfilava como ninguém nas ruas, a fugir dos paparazzi muitas vezes, coitada. Aliás, aqueles calções de lycra e aquelas sweatshirts vintages largas eram ideais pra fintar o assédio. Mas, Margarida, atenção, aqui convém não esquecer um acessório que rematava ali a imagem na perfeição, que eram sempre aquelas carteiras incríveis, a rematar o look.

E as meias também eram sempre incríveis.

Sim, ela tinha sempre ali o seu toque. Sempre muito elegante, até nesse contexto. Aliás, os anos 90 foram marcantes nesta viragem em que a roupa casual se tornou uma tendência pop também. E claro As t-shirts XL foram o pináculo deste guarda-roupa.

Esses looks todos da Princesa Diana off duty, de tentar passar despercebida, são ainda uma grande referência pra maior parte dos millennials. Bem como, um pouco em contraste, o próprio hip-hop, que também popularizou a roupa desportiva mais meiga, os fatos de treino, os tênis, essas coisas. Isto vai muito em contraste com os anos seguintes, em que surge uma estética mais justa, mais reveladora do corpo, que também surge graças à evolução que já falamos, à evolução tecnológica dos materiais e construção, que ajudou a colocar tudo no sítio.

E as pessoas sentem-se tentadas.

E também acho que aqui conta muito, não sei se te recordas, Cândida, a evolução da medicina estética, que tem cada vez mais tratamentos não invasivos que ajudam também a modelar o corpo e, portanto, quando mostras o corpo é porque queres mostrar que estás bem ou porque te sentes extremamente confortável com isso. E nesta geração mais nova, vemos muitas adeptas deste tipo de tratamentos não invasivos.

É interessante, porque de fato são duas tendências que se cruzam muito hoje em dia. É muito comum ver estas leggings moduladoras, como tu falavas, combinadas com peças mais largas, mais old school. Mas ao mesmo tempo, não deixo de pensar na eterna pressão pra estar bem. Sinto que é o outro lado desse super investimento na roupa para o ginásio. Temos sempre esse cara e coroa neste contexto, sempre um pouco dúbio.

É sempre um pouco dúbio e difícil de perceber quais são as verdadeiras motivações.

Se estão a favor dos utilizadores e das utilizadoras do ginásio ou não.

Portanto, não vamos julgar, vamos só avaliar a tendência que de fato existe. E também surge outra coisa interessante, que é surgem cada vez mais calças direitas ou à boca de sino, mas que têm a tal tecnologia das leggings incorporadas, o que responde super bem às demandas do dia a dia, que não são propriamente do esporte, mas exigem conforto. Eu, por exemplo, sou super adepta deste tipo de peças pra viajar. Porque é super confortável pra viajar.

Olha, podem escutar. Que o diga Nicolás Maduro e o seu fato de treino cinzento Nike. Não deve ter sido uma escolha do presidente da Venezuela, ou ex-presidente, até porque a viagem foi forçada, mas há umas semanas, se bem te recordas, fez a marca de esporte ter um boom de vendas inesperado.

É verdade. Os fatos de treino pareciam um pouco esquecidos e tornaram-se virais graças a este acontecimento que não esperaríamos que estivesse ligado à moda e afinal estava. Mas convenhamos que a roupa confortável mais interessante. A própria Coco Chanel, que não tendo propriamente criado roupa desportiva, ao tornar as calças que ela própria usava super populares e as camisolas assim tipo túnicas, muito inspiradas nas camisolas dos marinheiros com as riscas, e usar também a linha de jersey, que era um tecido mais barato, que no fundo é uma malha, acabou por popularizar este estilo de roupa mais confortável, acabando por se tornar numa das maiores inspirações para o que viria mais tarde a ser o athleisure.

O athleisure, exatamente. Aí está um termo que entrou no nosso léxico há poucos anos e que de alguma forma é uma fusão de athletic e leisure, ou uma combinação do desporto puro e duro e o contexto de lazer, que se aplica no final dos anos 70, sobretudo ao calçado.

É sério?

Sim, não fazia ideia, mas surge pela primeira vez, supostamente, num artigo da revista Women's Wear Daily, que à época descreve essas peças como uns sapatos de camurça, mas que não eram originalmente concebidos pra fazer exercício, mas eram inspirados no gênero e apontava ali um pouco essa fusão. Atualmente, o conceito é um pouco diferente. Nós quando falamos do athleisure, falamos de peças que tanto servem pra ser usadas no ginásio como para incorporar no guarda-roupa casual do dia a dia.

A verdade é que hoje em dia, ao contrário do que acontecia há uns anos, esta ideia de roupa de esporte não está propriamente ligada apenas ao esporte.

Sim, eu acho que esse é um ponto essencial.

Mas ao bem-estar em geral, ao wellbeing, à longevidade, que são neste momento um dos mercados mais fortes dentro do setor do luxo e da moda. E isto inclui também estética, que já falamos, a saúde mental, que é um braço super importante também do wellbeing, e a nutrição.

É verdade. Bem diferente daquelas imagens clássicas dos anos 80, desde logo com aquela cultura da aeróbica, aquela onda muito Jane Fonda, com roupa justa, colorida, o cabelo impecável. As imagens continuam a ser altamente sedutoras em termos iconográficos.

Sim, mas muito diferentes daquilo que nós temos hoje por wellbeing. No caso dos homens, também nessa altura, todos aqueles filmes de ação e músculos dos anos 80 e 90 que inspiram os treinos sem t-shirt, não parece que hoje em dia fossem permitidos em alguns ginásios apresentaste assim ao estilo Van Damme, só em calções. Acho que não é bem-visto.

Mas de fato fez escola, ainda hoje nós nos recordamos dessas imagens. É engraçado, porque também no começo dos anos 2000, há um fenômeno interessante, neste caso um fenômeno televisivo, que é o "The Biggest Loser", que de alguma forma pôs a tônica no exercício e na roupa também associada de uma forma totalmente diferente. Ou seja, hoje o mercado do bem-estar é de fato galáctico, não apenas um acessório na vida dos consumidores, mas muitas vezes estruturante. Desde logo para as sociedades orientais, que abraçam isto em pleno, e depois as tais gerações Z e millennial, que têm liderado esta mudança de perspectiva e que consideram que o bem-estar não é simplesmente perder peso. Também não é um mero hobby, mas uma parte relevante da sua identidade.

Perfeitamente. E esta ideia também de viver bem e melhor Que substituiu um bocado a ideia só do emagrecimento ou da imagem. Ter saúde até mais tarde implica, de facto, um estilo de vida saudável em todas as vertentes e é isso que esta nova geração abraça e esta tendência abraça. Aliás, cerca de 60% dos consumidores diz que nas suas prioridades está envelhecer bem. E isto implica, claro, coisas como o sono, por exemplo.

Fundamental.

Exatamente. E aqui também entrando um bocadinho na moda, tens a categoria de tudo o que é produtos, pijamas, as rendas, os próprios lençóis.

Está outro programa, Margarida. Sim, é verdade.

O mercado do bem-estar está, de facto, a crescer desde 2019, 6%, e é previsível que este crescimento se mantenha desta forma até 2028.

Sim, afeta todas as categorias. Com roupa vem a alimentação adequada, o autocuidado, dormir bem, como tu dizias, o evitar o álcool, até as questões de beleza. Não é por acaso que em cada novo centro de bem-estar, a começar pelo popular pilates, tu encontras quase tudo isto integrado. Muitas vezes as massagens, os tratamentos corporais, faciais, etc.

Sim, tu tens várias marcas que já se estendem para além da roupa em espaços de spa e tratamento. E tens até marcas que não tendo produtos dentro deste setor, de roupa mais desportiva ou confortável, se aliam a eventos de bem-estar para se colarem a este estilo de vida.

Sim, completamente. Aliás, as grandes casas da moda apostam no estilo de vida em toda a linha. Basta pensar, por exemplo, em agosto de 2025, a Dior abriu a sua mega flagship em Nova Iorque, em Madison Avenue, num projeto desenhado pelo Peter Marino, e no quarto andar, o que é que está lá? Um Dior Spa, claro. Em Paris também tem o spa a funcionar no Cheval Blanc e também podem sempre passar por Portofino. Mas há mais marcas a fazerem coisas do gênero. A Armani, que tem o seu spa nos Emirados, ou a Bulgari, que tem o seu spa em Milão. Portanto, de facto, este cruzamento entre as grandes casas de moda e o espaço do bem-estar é infindável.

E é uma realidade que se passa nos espaços físicos, mas também online.

Em ligação. Sempre com esse mundo digital.

E grande exemplo disso é a Alo. Para quem não está a ver qual é a marca, é a marca queridinha da Georgina Rodríguez. As fotografias dela no seu jato privado ou com os looks mais de athleisure normalmente são desta marca. Esta marca tem uma plataforma digital com base em assinaturas. No fundo, é imaginar um clube privado online, onde tens acesso a várias aulas e várias coisas. Tudo gira à volta do bem-estar e tu tens que ser subscritor para entrar. Recentemente, passaram aqui do digital para o espaço físico com um retiro de três dias num resort de luxo no México, em que ofereceram uma experiência imersiva aos seus clientes, com instrutores de renome e toda uma experiência única.

Olha, Margarida, adorava. Mas se nós começamos a correr listas de influenciadores especializados em activewear e retiros, nós não saímos daqui.

E temos que sair, porque temos um ginásio à espera.

É verdade. Até para a semana.

Até para a semana.