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Maria, estás preparada para estes 15 minutos de insuportável beleza?

Marguerida, parece que o Pedro Almodóvar reencarnou em ti.

Em mim não, mas olha que poderia reencarnar em muitos críticos de moda.

"Do Avesso: um podcast sobre moda", com Marguerida Brito Pais e Maria Ramos Silva. O que acontece quando o cineasta espanhol assiste ao desfile da Dior? Pode acabar a escrever uma crônica maravilhosa da sua experiência para a revista "Vogue".

Se querem um feedback genuíno, é contar com ele. Almodóvar não é um estreante, mas também não é nenhum expert e não estava à espera que em pleno inverno fizesse tanto calor em Paris, muito menos daquele efeito estufa durante o desfile. E claro, como um comum mortal, destilou.

Coitado. Ele chega mesmo a escrever outra frase ótima, diz o seguinte: "Foi uma tortura, eu não via a hora daquilo terminar, mas também admito que o desfile foi uma maravilha", até porque tinha ali muitas alusões aos foles andaluzes, não é?

Sim, completamente. Para mim, tanto o desfile como esta review inesperada foram dois dos melhores momentos da semana de moda.

Olha, de facto, o Jonathan Anderson foi o único ou dos poucos a lembrar-se que o tempo anda louco, que há invernos quentes e irregulares e, portanto, que introduzir a cor ou mesmo saias bem curtas pode fazer todo o sentido. Bom, por outro lado, também tivemos a Lacosta a preparar-nos para a chuva.

É verdade, mas a coleção da Dior trouxe aqui realmente muitos elementos de outras coleções, tanto nas silhuetas, até em técnicas que foram desenvolvidas antes e que continuaram aqui o seu caminho. Ora bem, esta foi a sua quinta coleção. Jonathan Anderson tinha dito que precisava de cinco coleções para estabelecer a sua visão e agora a visão é claríssima. Temos uma Dior muito feminina, cheia de detalhes, desde as ferragens dos acessórios aos tecidos, os pormenores de confecção. Nada é de elaboração básica, mas ao mesmo tempo tudo tem um ar super natural e despreocupado. E as peças estão, de facto, preparadas para serem usadas no dia a dia ou em ocasiões especiais. Tu tens ali desde jeans até uns vestidos de noite meio malucos. E claro, também não se esqueceu das carteiras, que são dos best-sellers da marca e que ele reinventa coleção após coleção. E os acessórios também cheios de detalhes únicos. Olha as sandálias nenúfar, aquilo parece ter sido criado para ser-

Até dá pena. Tipo, depois de pisar, parece que se vai desfazer.

É, mas é a mesma pensar nas redes, porque aquilo tu só tens numa moldura as sandálias e faz já uma figuraça. E depois, claro, tem sempre muita cor. Parece que é sempre primavera.

É sempre um jardim.

Exatamente, um jardim, porque as flores, de facto, fazem parte aqui do imaginário da Dior e o Jonathan Anderson resgatou esse imaginário.

Num claro contraste com nomes como Balmain, Saint Laurent, Lanvin, parece que rima tudo, mas é verdade. Rima também outra coisa. É impressão minha ou o preto dominou por completo estas coleções? Por acaso, é algo que me aborrece um bocado, sou sincera. Não é que aquilo não seja bom, é sempre bom, na maior parte dos casos, mas também acaba por ser um pouco mais do mesmo.

É aborrecido. E se é para falar de coisas aborrecidas ou irritações, para mim, em particular irritações, eu tenho uma que nesta semana de moda me anda a deixar louca, que é esta mania dos vídeos das influencers a vestirem-se a correr.

Na rua.

Na rua, a caminho dos desfiles ou com uma caneca de café na mão. Sério, tira-me do sério. É que além de ser uma coisa completamente descolada da realidade, porque ninguém se veste assim.

À partida, não.

Estão todas a fazer o mesmo. E neste tipo de vídeos, tu vês roupas que são feitas em materiais super delicados, que têm imensas horas de trabalho, a serem tratadas sem respeito nenhum pelo trabalho dos designers. Tu vês desde fechos forçados a peças na boca.

Não parece que corre muito bem na prática, de facto.

É verdade. Tu pensas que nas lojas muitas destas peças custam, se calhar, um ordenado mínimo português.

Ou muito mais do que isso. Já estamos a ser simpáticos.

Agradecia que parassem com estes vídeos.

Vistam-se em casa. Olha, Marguerida, isso de facto, para mim, está ao nível daquelas pessoas que se filmam no closet em lingerie enquanto se vestem. É outra praga. A fronteira da privacidade quebrou-se de tal forma que mesmo que nós não queiramos, o algoritmo traz até nós o mundo de cuecas, sutiãs, etc. Enfim, eu às vezes penso: "Precisávamos mesmo daquilo? Se calhar não".

Bem, não sei, mas olha que por falar em roupa interior, tivemos a Kate Moss.

Sim, isso é outro campeonato.

A Kate Moss fez a sua grande aparição no desfile da Gucci com um revelador fio-dental, que vai ali buscar aquela imagem muito do início dos anos 2000. Aliás, a tanga totalmente à mostra também esteve em altas no desfile da Vacca.

Esse desfile da Gucci foi dos que mais dividiu opiniões, também é um dos mais comentados O que tu achaste da estreia do Demna? Mais choque ou rock? Eu ia dizer chique, mas é outra palavra que também já não posso ouvir nas redes. Bem, essa e icônica. Agora tudo é icônico, até um copo d'água da torneira é icônico.

É verdade. Olha, é como tomar no pequeno-almoço uma bica e um pastel de nata. Com tanta pastelaria gourmet que anda aí, agora já achamos que isso é que é épico. De facto, as coisas mais mundanas são as que se tornam virais hoje em dia nas redes.

É engraçado. Isso acaba por triunfar.

Nesta semana de moda nós vimos isso muito. Tiveste a tal crônica do Pedro Almodóvar, que entre detalhes deliciosos, falava da conversa de circunstância que ele teve.

Eu que é surdo.

Ele disse que era surdo de um ouvido, devido ao sarampo que teve em miúdo, e mesmo assim escreveu isto na crônica, que de facto, todos nós, quando não sabemos o que havemos de dizer, às vezes temos assim umas conversas um bocado disparatadas. Depois tiveste o Paul McCartney babadíssimo a gravar.

A gravar o desfile da filha, a Stella McCartney.

A gravar o desfile da filha assim com os dois dedos a aumentar o telefone como um senhor de 80 anos.

Meio Beatle, mas no fundo um senhor de 80 anos. É isso.

Depois tiveste aquele momento amoroso da designer da Chloé a correr para abraçar os filhos no final do desfile. E estas coisas é que encheram as redes sociais.

Exatamente. Às vezes já nem sabemos bem o que aconteceu em termos de desfile, mas isto ficou. E não te esqueças do momento do Brian Boy a roubar o sapato que caiu na passarela da Dior, a pôr no pé qual Cinderela. E não é que aquilo lhe servia, que parecia a mesma coisa que o nada. De facto, nós estamos tão saturados da vida online que o que nos encanta é a vida mundana e por sua vez, é isso que vai parar online. Enfim, estão baralhados, mas é mesmo assim que as coisas têm estado a funcionar. E tu sabes onde é que o Jonathan Anderson foi fotografado um dia a seguir ao desfile?

Eu até tenho medo de perguntar.

Não, mas é tranquilo. Foi numa loja vintage. É engraçado porque eu estive no ateliê da BM há muito pouco tempo e ela também estava com um belo casaco bordado, que eu pensava que era dela, mas afinal era da vintage.

Olha, quem nunca, não é?

Não é?

Todos nós já fizemos os achados desses. Quanto à Gucci, voltando aqui às modas, confesso que ainda estou um bocadinho confusa. A coleção passada teve muito do Alessandro Michele. Esta teve muito de Tom Ford, aliás, as críticas falaram todas sobre isso, e não foi propriamente bem acolhida. Havia quem dizia que era uma versão barata de Tom Ford.

Aquilo é estranho, mas que se falou, falou. Também é importante.

E o Demna fala muito da Gucci como um pilar da cultura italiana, mas eu, sinceramente, ainda não vi esse lado. Acho que temos de esperar pela próxima coleção, a ver o que ele nos traz. Mas se queres mulheres fatais e viúvas sensuais, podes sempre contar com a Dolce Gabbana e com a Madonna maravilhosa.

Lá estava ela. Isso é muito interessante. Sabes que eu senti que as marcas voltam a confiar em rostos de há 20, 30 anos. Não sei se por indefinição, hesitação ou uma certa fadiga das jovens estrelas de hoje, pós-redes também, mas não descartam nomes, e ainda bem que não descartam nomes como a Kate Moss, como a Madonna. Apostam em novas campanhas com a Gisele Bündchen. E tu imagina que um dos melhores momentos em Milão à margem dos desfiles, pelo menos que me apareceu algo nas redes, foi a Paris Hilton a dar voltas.

A dar voltas à imagem do touro no chão, como os turistas fazem?

Não, nada disso. A dar voltas em cima de um trolley com rodinhas na loja da Gucci. Tu imagina, é um vídeo que vale muita a pena.

Só ela.

Exato. Depois, claro, ela pode fazer isto com graça. Há fotos da Paris Hilton a sair da loja carregadíssima de sacos de compras, que é aquele clichê que, de facto, já só funciona com uma personagem como ela, porque senão é só politicamente incorreto. De repente, estares ali, mais compras, e compras, e consumo.

Isso faz-me lembrar outra implicação que tenho.

Ai, meu Deus.

E eu acho que tu também deves ter.

Já sei o que aí vem.

A quantidade de roupa que é mostrada pelas influencers, sobretudo aqui nas semanas de moda, em que para cada desfile têm um look diferente. Eu acho que temos que esclarecer as pessoas. É que isso só acontece mesmo com as influencers. Os jornalistas, os editores de moda, os fotógrafos e mais uma série de gente que trabalha nestas semanas de moda.

Que estão mesmo para trabalhar.

Exatamente. Não é que elas não vão, é outro tipo de trabalho. Escolhem um look de manhã e aguentam-no estoicamente até ao final do dia.

Até porque não têm tempo normalmente para fazer muito mais.

É, isto é importante reforçar, porque realmente, num tempo em que se diz que consumir menos é superimportante, se olharmos só para as redes, parece que toda a gente que está envolvida no mundo da moda recebe caixas e caixas de roupa. Não é assim, caros ouvintes.

Sim, até porque tens muitos casos em que a maior parte das peças que compõem os unboxings intermináveis são fast fashion. Que toda a gente usa, certo, mas revela muito pouca curadoria, ou seja, nem sequer há esse detalhe. E depois também há outra prática que eu não entendo muito bem, sobretudo entre influencers com algum peso e que já têm compromisso, uma imagem a manter, que é promoverem a compra de coisas que são imitações descaradas de outras peças. Eu não entendo.

E aparecem cada vez mais vídeos virais com os duplos das casas de luxo. Isto é a glorificação completa das cópias.

Isto quando não são os próprios influencers a ter marcas que são elas próprias imitações de outras coisas, já é uma sorte imensa.

Sim, já é todo um outro tema.

Outro universo.

Mas a verdade é que ninguém quer arriscar muito na inovação nos dias de hoje, é o que é. Isso também se viu nas passarelas. Estamos numa época de revivalismos, desde as modelos, como falámos, até às próprias tendências e inspirações.

É um facto.

Parece que estamos a viver no passado versão 2.0, ou seja, com redes sociais.

Tivemos o minimalismo de Simone Belletti para a Jil Sander. Eu gostei bastante, apesar de não ser nada de novo. Lá está, parecia uma boa série de básicos para a Carolyn Bessette. Podia funcionar.

Esta loucura com os anos 90 é um fascínio.

É outra irritação.

Não é bem uma irritação.

Mas é surpreendente.

É um fascínio de quando estás a olhar para um acidente. No outro dia apareceu uma miúda nova que perguntava nas redes sociais: "Mas era mesmo verdade que toda a gente fumava nos anos 90?" Muito indignada. Isto é de loucos. Ver como é que uma geração que é obcecada pela saúde Longevidade, equilíbrio entre vida pessoal e vida pessoal, exercício físico. Está fascinada por uma década em que as pessoas trabalhavam até à noite, saíam à noite até de manhã.

Dormiam pouco ou não dormiam.

Bebiam álcool, fumavam muito.

Em todo lado.

Em todo lado. E estavam sempre de salto alto, que é uma coisa que faz muito mal às costas.

Sim, os tênis não eram tão popularidade.

Exatamente. Não há aulas de pilates que salvem a malte dos anos 20.

Andamos todos hoje no pilates à conta disso. É verdade. Critique-se mais ou menos, eu acho que sempre se pode contar com a Miuccia Prada para dar um toque de cor em tempos incertos. É sempre uma coisa que vale muito a pena. Eu gostei muito da Meryl Roggas estrear-se pela Armani, mas eu também sou suspeita, porque gosto muito dela.

É verdade, mas esteve bem. Também gostei.

A Prada gostei daquele exercício.

A Prada, sim.

Até porque foi diferente.

Teve 15 modelos, cada modelo apresentou quatro looks. A diferença é que cada look mantinha algumas peças do look anterior. Portanto, isto foi uma verdadeira homenagem ao styling e à arte de reinventar looks com poucas peças de roupa. Mas neste desfile, devo dizer que o grande alvoroço aconteceu na primeira fila com o Uzum Kanberg sentado ao lado do herdeiro da Prada, o Lorenzo Bertelli. Isto realmente é um exercício que temos que fazer. Parece que as semanas de moda continuam a ter um charme.

Sempre foram para os famosos.

Famosos e ricos, as pessoas mais ricas do mundo. Não precisam de estar ali sentados na primeira fila.

Mas gostam daquele selo de validação.

Validação. É um sentimento de pertença a uma elite, é um make juntando tantas pessoas diferentes.

Tens o dinheiro, tens o poder, mas depois também queres ter o estilo e o bom gosto, que na verdade é uma coisa que não se compra, mas ajuda a ter algum dinheiro, é verdade, e algum poder.

E lava um bocado a imagem pública também.

Também, exatamente. Na verdade, a grande dúvida que se mantém é se no fim de tudo isto teremos mulheres reais a gastar dinheiro real em moda.

E saber que mulheres.

Também.

Ainda há pouco tempo tiveste o apogeu da diversidade no tamanho do manequim e nesta estação só encontrámos modelos muito magras.

Estão muito magras, é verdade. E depois também tens castings maravilhosos como o da Tom Ford, que revela aqui outra barreira que começa a cair no luxo, que é o da idade. Tiveste ali imensas mulheres de uma faixa mais madura, extraordinárias, com imensa pinta e que na verdade, se calhar, são as pessoas que vão gastar dinheiro efetivamente naquelas peças.

Sim, isso é uma tendência, sem dúvida, dos castings. E Tom Ford foi maravilhoso. Eu vi outras duas tendências assim de caras, que são, na verdade, dois polos opostos. Por um lado, o regresso da vida noturna e cosmopolita ultrasexy, com muitos vestidos justos, cabedal, preto por todo lado.

O couro muito em casa.

Sim. Por outro lado, depois tiveste uns desfiles assim muito de homenagem à vida simples, nas montanhas ou no campo.

Mais bucólica.

Com roupa fluida, botas de cano alto que se viram imensas, com carneira por dentro, até, e muitas referências hípicas também. Portanto, parece que temos aqui assim quase duas mulheres inconciliáveis, mas que se calhar até podem ser a mesma.

Podem ser a mesma, exatamente. Tivemos também Chanel, que desceu ainda mais as bainhas, mas neste caso, não para deixar mais pele à mostra, antes para subir os níveis de elegância. É um descer ilusório. Há ali também um rompe leito pelo meio. O Mathieu Blazy deu-nos Cesária Évora na banda sonora, deu-nos saudade, uma palavra bem portuguesa, e silhuetas que vão buscar muito aquilo que se via há 100 anos no espírito da Coco Chanel, mas agora sob blazers oversized. Eu gostei muito daquilo. Aquilo é gigantesco, é uma coleção enorme.

Tem 78 looks.

Nunca mais acabava, mas é difícil dizer que ali há uma coisa que não seja boa. E também dá para todas as alturas do dia, desde o pequeno-almoço, com cigarros ou sem cigarros, até à noite com cigarros ou sem cigarros.

Para mim, os grandes destaques da coleção também foram para as peças de inspiração lingerie, que são maravilhosas, com muitas aplicações.

Aqui vale a pena ver o lingerie.

Com uma construção de tecidos muito interessante. E também para os materiais utilizados nesta reinvenção do tailleur Chanel. Tu tens desde lurex a brocados, a malhas abertas.

Muito brilho.

Isto vai muito além do tweed. Tens tweeds também trabalhados de forma diferente e tens estes outros materiais que são muito interessantes. E há que notar que o último look escolhido normalmente é o vestido de noiva, e desta vez foi um vestidinho preto.

Ora bem, um bom vestido preto, aí está uma boa opção, se tudo o resto falhar, para usarmos este fim de semana enquanto andamos na azáfama das modas portuguesas.

Isso é que é uma bela ideia, só tenho que encontrar um que me sirva na barriga.

Nesta altura é mais complicado, mas tu vais conseguir, portanto, vamos a isso. Até para a semana.

Até para a semana.