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Bem-vindos! Começa aqui mais um episódio de "Do Compromisso à Ação". Este podcast é uma parceria entre o Observador e a PwC. Falamos aqui sobre o padrão ESG, as regras ambientais, sociais e de governança que conduzem cada vez mais a vida das empresas. Hoje vamos falar de empreendedorismo e de inovação sustentável. Vamos fazê-lo com Gil Azevedo, é diretor executivo da Unicorn Factory Lisboa, que se junta ao Paulo Ribeiro, é sócio da PwC, responsável pela ligação ao ecossistema de inovação de startups e de scaleups. Eu sou o Paulo Ferreira, dou antes de mais as boas-vindas a ambos. É um gosto recebê-los aqui. Gil Azevedo, começando por si. Por que hoje nenhuma startup pode ignorar o ESG, que nós atribuímos, por regra, a organizações maiores?

Antes de mais, olá e obrigado pelo convite para estar presente. De facto, o ESG é essencial para as empresas, é essencial ou por obrigação ou por parte do modelo de negócio. E portanto, as startups, logo de início, têm toda a vantagem em começar desde logo a pensar como é que podem ser mais compliant ou a favorecerem políticas de ESG, porque desta forma terão mais facilidade a ter acesso a pilotos, terão mais acesso a ter empresas, a clientes, empresas grandes e portanto, quanto mais conseguirem abraçar o ESG dentro do seu modelo de negócio, mais fácil é também depois toda a parte de desenvolvimento de novas parcerias, novos pilotos, dentro daquilo que é o seu modelo de atuação.

Claro, não precisam depois de fazer essa adaptação. Paulo Ribeiro, esta questão do impacto ambiental e social deve então fazer parte mesmo do modelo de negócio, desde o início.

Sim, antes de mais também, obrigado pelo convite e por estar aqui. Eu concordo inteiramente, porque de facto, uma startup é como outra organização qualquer, como é óbvio, é uma empresa também. Tem responsabilidade e estamos a falar tipicamente de founders que têm muita preocupação com o impacto, com aquilo que deixam como legado e com o impacto de toda a sua atividade no mercado e na sociedade como um todo. Portanto, desde o início, e nós vemos isso em muitas das startups que estão na Unicorn Factory ou com as quais nós temos contacto em Portugal, isso é uma preocupação muito presente. E isso tem que fazer parte do modelo de negócio por várias razões. Primeiro, eu acho que é muito mais do que fazer a coisa certa. É um imperativo, porque é um tema reputacional, o mercado exige-o. Portanto, hoje em dia, para ter acesso ao mercado, e a informação hoje flui muito facilmente, é uma preocupação muito grande para as organizações, os temas reputacionais. E isso, de facto, é algo que é uma preocupação e que continua a ser, e eu acho que continuará a ser no futuro, porque as startups mais bem-sucedidas são aquelas que pensam em ESG desde o início, até por uma questão de acesso ao mercado, investimento, financiamento.

Pois, já lá vamos ver também o que é que-

Isso, de facto, é muito relevante para uma startup que quer crescer, evoluir, expandir-se e escalar.

Certo.

Eu até dou o exemplo de setores em concreto em que as próprias empresas vêm ter conosco a pedir soluções que sejam de ESG. Por exemplo, o setor da construção, em que existe uma pressão muito grande para se tornar mais sustentável. O setor da saúde, em que a pegada de carbono é ainda muito significativa e, portanto, isto, de facto, não só abre oportunidades, como há este lado também de legado que o Paulo referiu e também de obrigação regulatória que existe.

Claro. Quando o Gil diz: "Empresas vêm ter conosco", empresas maiores que vão ter convosco, Unicorn Factory, à procura de soluções que estejam a ser escaladas ou a nascer aí.

Exatamente. Portanto, aproveitar aquilo que é a inovação que está a ser feita neste mundo das startups e procurarem soluções que eles possam ajudar a caminharem para os objetivos que têm de ESG.

O que me leva então a perguntar qual é o papel concreto que estruturas como a Unicorn Factory Lisboa têm ou podem ter, no fundo, se quiser, em toda a sustentabilidade, mas olhando para o papel concreto com startups.

Nós, no caso da Unicorn Factory Lisboa, temos aquilo que são os nossos programas principais de apoio a startups, o programa de incubação para startups numa fase mais inicial e o programa de scaling up para aquelas startups que já estão numa fase de expansão internacional. E portanto, aqui damos acesso a um conjunto de mentores e de especialistas que ajudam as startups a prepararem-se a desenvolverem os seus produtos e as suas soluções para que possam de facto capturar também este lado ESG. Adicionalmente, temos o nosso Green Up, que é um hub para startups na área da sustentabilidade, em que o objetivo é juntar toda a comunidade, não só das startups, mas também de empresas, universidades, talento e investidores que queiram investir em todo este tema e nos temas relacionados com ESG.

Portanto, juntam aí todo-

Exato. E daí temos tantas empresas que acabam por vir ter conosco a pedir contactos e acessos.

As tais soluções, sim, Paulo.

Ô Paulo, já agora, se me permite também, na ótica PwC, uma das coisas que nós temos feito nos últimos anos, e daí a nossa presença regular no ecossistema, é identificar também Estas startups com elevado potencial também na área de ESG, que nos permitem depois complementar a nossa oferta e resolver problemas específicos dos nossos clientes. Também fazemos esse scouting, porque muitas vezes temos desafios concretos de clientes.

E têm que ir à procura das soluções que existem.

Pela estrutura que têm, é muito mais difícil, pelo legado que têm, a questão dos sistemas e tudo mais. E este ecossistema de inovação muitas vezes tem a solução certa e que permite resolver um problema concreto na área de ESG destas grandes empresas.

E quando se olha para as startups, empresas mais pequenas, Paulo Ribeiro, o que os investidores e os parceiros de grandes empresas, aqui já percebemos que há uma parte, de facto, de procura de soluções. Mas depois há os investidores também que investem nas startups. O que eles perguntam a startups que tendam a ver, obviamente, com este nosso tema?

Há aqui dois ângulos. O primeiro ângulo é que os próprios investidores, seja VCs, seja Business Angels, aquilo que seja, também eles próprios têm métricas de ESG. Portanto, quando eles fazem o investimento, já estão à procura, na sua carteira, de ter uma carteira que cumpra com determinados requisitos e determinadas métricas. Na ótica do investimento, mais uma vez, é importantíssimo a startup pensar também, por defeito, nos temas de ESG, porque isso vai facilitar o acesso ao mercado de financiamento e de investimento. E isso, de facto, é algo que nós temos visto e é muito relevante também. Qual era a outra questão, Paulo?

Era isto, basicamente. Que perguntas é que fazem? Querem métrica, certamente.

Da parte do investimento, é isso. Da parte das grandes empresas, as startups querem ter acesso às grandes empresas também, querem ter acesso ao mercado. E aquilo que nós também observamos é que, mais uma vez, as grandes empresas têm métricas ESG a cumprir, têm requisitos que devem ser cumpridos e as startups têm que cumprir com esses requisitos. É uma questão de acesso ao mercado e é fundamental. Temas muito simples como resiliência operacional e negócio. Uma grande empresa tem os seus processos de continuidade de negócio. Se a startup quer ter acesso a essa empresa, também ela própria tem que ter isso em consideração. Caso contrário, pode perder o acesso ao mercado, pode perder o acesso a essa organização. E ainda mais, exemplo, um tema tão simples como a contabilidade de carbono. A grande empresa, para fazer a sua contabilidade carbônica, tem que perceber quais são as emissões da sua cadeia de valor. Se a startup quer estar na cadeia de valor, ela, de facto, também tem que responder a esses requisitos.

Portanto, pedem esses dados todos. Gil Azevedo, podemos dar exemplos, tem exemplos de startups que já nasceram sustentáveis por desenho mesmo, desde o início?

Eu até vou mais longe. Não só nasceram sustentáveis, como têm o propósito da sustentabilidade como um modelo de negócio. E alguns exemplos. De facto, temos vindo cada vez mais a ver mais startups com esta vertente, mas algumas que o modelo de negócio é, de facto, a sustentabilidade. Temos, por exemplo, a Bandora. A Bandora é uma startup que acaba por ter soluções que melhoram a eficiência energética dos edifícios e que já em Portugal tem uma série de clientes, já começaram a ter clientes nos Estados Unidos, já começaram a ter clientes no Médio Oriente e que de repente já começam a ter aqui uma escala bastante interessante e que fazem parte do nosso programa de scaling up, como eu falaria, de apoio à internacionalização. Outro exemplo também do nosso programa de scaling up, temos sempre a Symore, que é uma startup que tem vindo a fazer todo o apoio aos requisitos de ESG das empresas a nível de relatórios, a nível de informação necessária e que tem vindo também a ganhar um peso significativo em Portugal e que agora estão também a olhar para a internacionalização. Temos a Bling Energy, que olha para a energia solar e como é que pode se ter benefícios através. Portanto, de facto, temos muitas startups que veem exatamente esta oportunidade de ESG a nível das empresas e criam soluções que vêm dar resposta aos desafios que as empresas têm.

Claro. Aliás, este tema da sustentabilidade, no fundo, estamos muito a falar disso, sustentabilidade, o impacto social e a governança inspiram cada vez mais projetos, sem dúvida?

Sem dúvida. E eu vou dar um exemplo, até que liga bem com a pergunta anterior em relação aos investidores. Eu estive no South Summit em Madrid o ano passado e num evento onde estavam investidores internacionais, um dos investidores veio ter comigo e veio dizer: "Olha, eu ouvi falar do vosso trabalho na Unicorn Factory e gostava de conhecer startups exatamente que tenham soluções na área da sustentabilidade, na área de ESG, mas que já tenham escala para que possam expandir internacionalmente". Portanto, os próprios investidores também, tal como as empresas, quando a tese tem temas relacionados com ESG, vêm ter conosco pedir-nos soluções nestas áreas.

E portanto, digamos que esse networking funciona e as grandes empresas vão mesmo à procura. Paulo Ribeiro, no caso de empresas de serviços corporativos, como é o vosso caso, a PwC, já há pouco disse isso, que vão à procura muitas vezes de soluções que acham que são adequadas para clientes vossos. De que forma é que ajudam também ou que intervêm, que outra forma é que ajudam ou intervêm aqui? Nós temos muito a ideia que empresas como a PwC prestam serviços a grandes empresas e a grandes grupos e não mais microempresas, se quisermos, e nascentes como as startups. Se calhar é uma ideia errada também.

No nosso caso, eu acho que é verdade, sim, que é uma ideia errada. Por quê? Porque nós há mais de 10 anos estamos muito presentes no ecossistema e acompanhamos e somos parceiros, não só da Unicorn Factory, como de outras incubadoras em Portugal. O nosso papel aqui é duplo. Temos uma dupla vertente que eu acho que é muito relevante. Primeiro, obviamente, apoiar todos estes programas e apoiar os founders na jornada deles. Com mentoria, com aquilo que nós chamamos office hours, não são mais do que estarmos disponíveis e dar acesso à nossa rede de sócios para prestar esclarecimentos nas mais variadas áreas, onde tipicamente os founders não são especialistas. Muitos deles vêm da área tecnológica, são ótimos em tudo que é desenvolvimento de produto, mas depois temas como compliance regulatório, como compliance fiscal, passa-lhes um pouco ao lado e nós desde o início que estamos lá presentes para os ajudar. Um, obviamente, que é uma vertente Altruísta, de apoio ao ecossistema e give back. Devolver à sociedade e aos founders, porque estas vão ser as grandes empresas do futuro. Portanto, se nós estivermos com eles quando eles são pequenos, um dia quando eles tiverem capacidade de pagar, obviamente, os honorários de uma empresa como a nossa, nós estaremos lá. E felizmente isto tem tido muito sucesso porque nós temos muitos bons projetos, scaleups nacionais que trabalham com a PwC, provavelmente porque nós estivemos lá desde o início e ajudamos quando era necessário. Portanto, esta é uma vertente de apoiá-los nas mais variadas áreas que são nossa especialidade e libertá-los de algum peso deste tipo de processos que para eles são, de facto, complicados, que eles estão é focados no desenvolvimento do produto e de ir para o mercado e testar e tudo mais. Mas nós estamos lá a alertar desde o início, muito ligado a estes temas de ESG, cuidado, governance muito clara e estruturada desde o início. Temas de KPIs que devem de ser controlados e divulgados desde o início, não só para os seus investidores, como para o resto da sua organização e o mercado. Portanto, isso é uma vertente que nós temos acompanhado o ecossistema e continuamos a fazê-lo com muito gosto. E há o outro, que curiosamente, eu acho que tem tido um impacto muito significativo nalgumas startups importantes do nosso ecossistema. Nós também somos consumidores. Nós integramos algumas soluções de startups dentro do nosso modelo de negócios.

Claro, perceberam que era adequado, que precisavam daquilo.

Para processos internos, coisas perfeitamente normais e fomos, em alguns casos, o primeiro grande cliente de algumas das startups que hoje já são scaleups e estão a crescer a nível nacional. E eu acho que isso foi muito bom para eles, porque esta nossa visão ajudou-os imenso a preparar-se para dar os próximos passos para entrar em grandes organizações. Coisas básicas como: onde é que estão os dados? Backups existem? Nós conseguimos identificar e ajudá-los a elevar o jogo, porque nós, obviamente, como organização que somos internacional, com N requisitos do ponto de vista de frameworks que devem ser cumpridos pelos nossos prestadores de serviços, obrigamo-os a elevar o nível e com isso estar mais preparados para: um, ir a outras grandes organizações, dois, escalar internacionalmente. E esta componente de ESG está lá desde o início, a explicabilidade da AI quando ela é usada, a localização dos dados, tudo isso, nós ajudamos, como consumidores dos serviços, também a escalar estas organizações, também com este ângulo ESG.

Queria agora realçar este papel que a PwC tem dentro deste mundo da inovação e das startups. Primeiro agradecer que esteve desde o primeiro momento que acreditou no projeto da Fábrica de Unicórnios, quando ainda não era uma realidade e desde então esta proximidade, e nós temos visto muito isto junto das nossas scaleups, olham para a PwC como o parceiro de inovação. E este posicionamento é um investimento que tem sido feito há muitos anos, mas que tem ajudado muito a ter este posicionamento e hoje em dia as startups e scaleups olham para a PwC como uma porta de crescimento também.

E não é favor nenhum, são boas soluções. Do ponto de vista de mercado, eram as melhores que nós tínhamos ali disponíveis. Obviamente, tem sempre uma dose de risco adicional, porque são projetos novos e que estão agora a crescer e nós apostamos quando assim faz sentido e até agora tem corrido bem.

Tem corrido bem. Muito bem, quase a chegar ao fim deste nosso episódio. Ia pedir-vos a ambos uma mensagem, ou dois conselhos a quem quer empreender com impacto, mas também com sustentabilidade, se quisermos, e dentro das regras ESG. Gil Azevedo, quer?

Sim. Eu acho que vivemos num contexto mundial em que a sustentabilidade perdeu um bocadinho o papel crítico que tinha.

E mais central.

Mais central. E isso pode, de certa forma, desanimar alguma inovação nesta área e a minha mensagem é exatamente no sentido oposto. Para a Europa continua a ser crítico a sustentabilidade e não podemos mudar aquilo que é um dos pilares da estratégia europeia a caminho da sustentabilidade e isso reflete-se nos problemas e nos desafios que as empresas têm. Portanto, a minha sugestão é que a sustentabilidade continue a ter o papel que tem tido de importância, porque existe muitas oportunidades de negócio dentro da sustentabilidade, dentro do ESG, e se alguma coisa, a Europa não vai abrandar. Vai continuar a ser uma bandeira europeia e há aqui um espaço muito grande para inovar e que vamos continuar aqui a apoiar através do nosso Greenup, através dos nossos programas, porque é uma área essencial.

Os projetos e a inovação que apareça. Paulo Ribeiro.

Se eu tiver que dar aqui uma dica, que não é mais do que isso, é talvez para os founders das startups. Os founders são absolutamente fundamentais naquilo que é a cultura da organização e acho que aqui a liderança pelo exemplo é decisiva, porque são organizações muito ágeis, muito pequenas. Portanto, se o founder estiver, por defeito, com preocupações na área de ESG, eu acho que o resto da organização vai seguir, vai respeitar. É também um tema de retenção de talento. Hoje, as pessoas que trabalham para uma organização estão muito preocupadas com estas matérias e se virem que não está a ser bem tratado, pode ser um fator decisivo para uma eventual saída. E a liderança pelo exemplo começa com pequenas coisas. Não basta ter uma política de deslocações, por exemplo, que seja verde, mas depois a deslocação é feita num carro a gasolina de alta cilindrada. Portanto, há pequenas coisas que os founders têm que se lembrar que se eu quero ser ESG por design e por defeito, eu tenho que liderar pelo exemplo que o resto da organização irá seguir e a startup no final do dia vai ter mais valor numa ótica de acesso ao mercado, investidores e afins.

Muito bem, Paulo Ribeiro, Gil Azevedo, obrigado a ambos pela presença neste episódio de "Do Compromisso à Ação". Estivemos aqui a olhar para a inovação sustentável e o empreendedorismo. Este episódio fica por aqui. Este podcast é uma parceria entre o Observador e a PwC. Voltaremos proximamente com um novo tema e novos convidados. Até lá.

Obrigado.

Obrigado