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Sejam bem-vindos. Este é o podcast "Do Compromisso à Ação", conversa sobre ESG, ambiente, sustentabilidade e governança. É uma parceria entre o Observador e a PwC. Hoje falamos do papel da tecnologia como acelerador da sustentabilidade e vamos dar uma atenção especial ao papel da inteligência artificial. E vamos fazê-lo com o nosso convidado Miguel de Castro Neto, é diretor da Nova IMS, que se junta à Gabriela Teixeira, é sócia responsável pela área de consulting em Portugal, Angola, Moçambique e Cabo Verde, obviamente da PwC. Eu sou o Paulo Ferreira e dou as boas-vindas a ambos. É um gosto tê-los aqui hoje. Miguel de Castro Neto, começando por si, qual é o papel principal que a tecnologia e, mais concretamente, a inteligência artificial, podem ter na transição energética e para uma economia mais sustentável?
Não há dúvida que hoje é provavelmente um campo de ação privilegiado para tudo o que tem a ver com a gestão de informação, ciência de dados e inteligência artificial. Nós, à data de hoje, muito mais do que à ambição, queremos que ela seja concretizada e isso passa por nós podermos, num primeiro momento, medir. E, portanto, obviamente, o que nós fazemos com as capacidades analíticas que temos hoje é vital para poder fazê-lo, para nós não apenas termos capacidade de estabelecermos metas, mas depois a seguir podermos medi-las e percebermos efetivamente se estamos a concretizar as ambições que estabelecemos. No entanto, a velocidade a que nós hoje vemos serem colocadas à nossa disposição capacidades analíticas absolutamente extraordinárias, muitas delas decorrentes da inteligência artificial, abre-nos oportunidades únicas para nós não apenas medirmos, mas para fazermos coisas completamente distintas e, portanto, planearmos para scenarizarmos, para idealizarmos cenários alternativos e conseguirmos efetivamente irmos muito mais longe. E há todo um campo de ação para a utilização da ciência dos dados e da inteligência artificial neste contexto, que é como se fosse um TGV, um trem-bala, que todos os dias acelera e todos os dias nos convoca para nós irmos mais longe e encontrarmos novas soluções que nos permitem, por um lado, fazer uma utilização muito mais eficiente de recursos, mas, por outro lado, de fato, gerar novos produtos e serviços tirando partido destas novas capacidades.
Gabriela Teixeira, e de que forma a inteligência artificial está, de fato, a revolucionar a indústria portuguesa nesta questão da automação, redução de emissões, por exemplo?
A tecnologia e a inteligência artificial estão a começar a dar os passos no tecido empresarial português. O que nós sentimos é que temos muitas empresas a querer saber o que é isto, a querer perceber que impacto é que isto tem no seu dia a dia e começam a fazer o seu percurso. Sentimos que também há uma grande evolução dos nossos empreendedores, em que começam a perceber que a tecnologia é só um meio para atingir o seu fim. E para conseguir atingir, de fato, todas as metas da sustentabilidade e todos os seus objetivos estratégicos, é necessário pensar o seu negócio, repensar os seus processos de forma a tornar-se mais eficientes. Também é muito importante olhar para a qualidade de dados da sua informação e depois, sim, escolher qual é a melhor tecnologia. E nisso nós notamos uma grande diferença dos nossos empreendedores e das indústrias. E as indústrias que estão a começar esse processo, de fato, de fazer algo estruturado, pensarem nos seus dados, usarem esta oportunidade para melhorarem os seus processos, para se tornarem mais eficientes e depois escolherem a melhor tecnologia, e aí sim, depois o AI, são as empresas que melhor se estão a preparar para responder a este mundo de grande incerteza, porque hoje as empresas estão a operar em um mundo de enorme incerteza, com grandes alterações na cadeia de abastecimento, nas exigências que os seus clientes, os seus fornecedores, os vários stakeholders têm. Notamos essa evolução no tecido empresarial, o que é bastante positivo e, de fato, isto vai ter uma revolução na forma como as empresas estão.
E vai acelerar, certamente.
Sim, exatamente.
O gráfico, se o fizéssemos, mostrava isso, certamente.
Claro que sim.
Claro. Miguel Castro Neto, a Gabriela falou, sobretudo, de empresas. É aí que está passando mais coisas ou se nós olharmos para o Estado central, para os municípios, para outro tipo de atores, também há muita mudança?
Eu diria que a Gabriela tocou aqui em um ponto crítico, digamos assim, mas que é transversal. Ou seja, a aceleração é real, mas este desafio é transversal, quer para as empresas, quer para a administração central e para as autarquias, para as cidades. Ou seja, este é um desafio que está em todas as organizações e estão todas a fazer o mesmo exercício, digamos assim.
O mesmo caminho.
O mesmo caminho, porque é incontornável o caminho e também é incontestável a realidade com que nós nos confrontamos. E este exercício de revisitar os processos, percebermos que a revolução tecnológica que vivemos exige esta necessidade de promovermos uma simplificação, e não uma mimetização, dos processos que temos atualmente quando passamos ao mundo digital. E tudo isto tem que ser informado com um exercício quase radical de transformação da forma como governamos os nossos dadosQue à data de hoje, são todos os recursos da organização. Que há uns anos atrás, quando pensávamos em governar os dados da organização, eram os sistemas de informação, eram as bases de dados. Hoje, quando nós falamos em governar os dados da organização, é tudo. São as bases de dados, são os documentos, são os e-mails, são os vídeos, é tudo. Todos os objetos da organização são os dados. E, portanto, isto é um desafio brutal.
Organizar, dar um sentido e tirar partido.
Tirar partido e fazê-lo formalmente, com todos os desafios que isto coloca, que não são apenas materiais, mas são também os éticos, os regulamentares, o de segurança. E, portanto, isto é, de facto, uma tarefa hércula e que, no contexto nacional, tem aqui uma dimensão extra, que é a nossa estrutura. Nós somos um país em que as pequenas, médias e microempresas têm um peso muito grande. E, portanto, o apoio externo, o apoio das empresas de consultoria, o apoio da própria administração e o apoio à administração, nomeadamente os municípios, porque face à sua elevadíssima heterogeneidade e também grande diversidade em termos de maturidade digital, nós necessitamos de encontrar soluções para que isto seja possível ser feito, porque vai ser impossível ser feito de forma individual. Portanto, tem que haver aqui um modelo colaborativo que permita vencer este desafio.
Sim, isso, Miguel, completamente de acordo com tudo que disse. Eu acrescentava uma dimensão, que é a dimensão humana, capital humano, também muito importante para o sucesso disso, que é o upskilling das nossas pessoas, a definição das competências que nós queremos ter nas organizações do futuro, e de que forma organizamos o que nós queremos para o futuro.
A questão, muitas vezes, dos empregos, dizemos: "A inteligência artificial vai cortar não sei quantos empregos". Vai é mudar as pessoas de funções, muitas vezes, não é?
A inteligência artificial não vai reduzir o número de pessoas empregadas. Vai alterar as competências do futuro e as pessoas vão ter que se adaptar a essas competências do futuro e vai libertar muitas pessoas para fazer trabalhos de valor acrescentado. Vai reduzir a parte de reduzir tarefas de reduzido valor, para as pessoas terem tempo para pensarem. Muitas vezes nós queixamos que não temos tempo para pensar, vai permitir isso. E também vão ser criadas competências e necessidades no futuro, porque toda esta revolução que estamos a assistir vai trazer novos empregos do futuro, novas necessidades do futuro, e isso é natural. A história assim nos demonstra isso.
Gabriela, ainda em termos tecnológicos, quais são as maiores barreiras tecnológicas e organizacionais que as empresas, por exemplo, e municípios podem enfrentar neste caminho?
Uma das grandes barreiras é as lideranças não perceberem que têm uma oportunidade de ouro de transformar os próprios processos e repensar. Isso exige ter recursos dirigidos para fazer este exercício. E por vezes, as empresas estão em reação constante e, portanto, não querem parar, quer meios financeiros, quer humanos, para fazer esse exercício e pensar para o futuro. E muitas vezes é isso que nós sentimos. Há essa barreira de as empresas ou organismos fazerem investimentos tecnológicos até elevados, mas não fazem as fundações antes, da parte de onde é que eu quero chegar, que eficiência é que eu quero ter no futuro, e depois, sim, escolher qual é a minha melhor tecnologia e de que forma é que eu ponho a tecnologia a meu serviço. E às vezes cometem o erro de escolher a tecnologia e depois eu implemento a tecnologia em cima do que eu já tenho. Isso não é aproveitar este momento que nós temos único, de estarmos noutro patamar, e Portugal tem a capacidade de poder ser diferenciador em alguns setores no futuro.
Miguel, a colaboração entre o setor da área acadêmica e científica, e se quisermos, as empresas ou o Estado, acontece muito nesta área?
Eu, enquanto diretor da Nova Information Management School, nós temos tido esse quase privilégio de ter participado em inúmeros projetos que juntam a academia com a indústria e a administraçãoE temos feito projetos que demonstram que isso é possível, até é mais do que possível, produz resultados bastante virtuosos. E até vou mais longe. Eu acho que nós temos em Portugal uma dimensão que pode, de facto, criar uma oportunidade para nós testarmos soluções que podem eventualmente até depois serem exportadas. E no caso das consultoras, que são consultoras que na realidade são internacionais, eu acho que nós podíamos tirar partido da nossa realidade e da nossa dimensão para fazermos isso mais vezes, para a partir de Portugal, nós sermos capazes de gerar inovação que depois poderia ser exportada. E à data de hoje, que nós verificamos que Portugal acaba por ter um certo élan, que está a atrair investimentos que até são estratégicos à escala global, em áreas dos data centers, das giga factories, da supercomputação. E, portanto, se nós alinharmos, também politicamente estas várias áreas e, ao mesmo tempo, não tivermos receio das parcerias público-privadas, de uma forma, como é que elas podem ser vistas virtuosamente, eu acho que há, de facto, um espaço de oportunidade única para isso ser utilizado a favor do desenvolvimento econômico do país numa área que tem tudo para dar certo. Porque nós temos casos absolutamente extraordinários em que Portugal conseguiu fazer isso. Agora era preciso passar da nossa tradicional capacidade para fazê-lo, pondo um exemplo aqui, outro exemplo ali, para fazer isto em escala e portanto, ter uma agenda em que a indústria, a academia e a administração alinhavam uma agenda em que conseguíamos fazer, de facto, daqui um laboratório vivo e tínhamos projetos estruturantes para alavancar esta área.
Desenvolver esta área. Gabriela Teixeira, no fundo a mesma questão, agora focada na PwC, como é que vocês estão a apoiar e a colaborar com empresas e entidades públicas, de facto, na integração tecnológica, agora focada aqui no ESG mesmo?
O ESG. O que é que nós temos vindo a trabalhar com algumas organizações e sentimos que nesta área estamos a trabalhar muito com grandes organizações, ainda quando nós falamos do mercado nacional, e empresas mais pequenas ainda estão muito focadas só na parte de compliance, ou seja, só cumprir com as exigências que têm regulamentares. Grandes organizações já têm sentido que, de facto, isto é uma oportunidade única de fazerem um projeto de transformação dentro das próprias organizações. E o que nós temos vindo a fazer, de facto, é fazer um mapeamento do as is, o que é que as empresas têm, e ajudá-las a identificar aqui o gap que elas têm para todas as exigências que têm. Exigências regulamentares, qual é a sua estratégia e onde é que querem chegar em termos de metas de ESG, como é que podem melhorar as suas cadeias de valor, a sua relação com os vários stakeholders, com financiadores e, de facto, onde é que aqui têm que melhorar, que meta é que têm que atingir, que tipo de informação é que têm que analisar. Isto é muito mais do que informação financeira, muito mais do que KPIs, e portanto, é preciso saber-se que informação é que nós queremos ter, que processo é que nós temos que mudar nas organizações para atingir esse objetivo.
Garantir a confiabilidade dos dados.
E depois, exatamente, a qualidade de dados, como há pouco estávamos a falar e o Miguel muito bem descreveu, que é vital, porque sem essa qualidade de dados, depois o output não vai ter a qualidade e os benefícios que as organizações querem ter. E portanto, estamos a ajudar nesse gap e depois, aí sim, numa fase seguinte, só depois de tudo isto estar definido, escolher qual é a melhor tecnologia para implementar e depois, de facto, ajudar na implementação e numa última fase muito importante da implementação, tem a ver com a gestão da mudança. É muito importante trabalhar com as pessoas, porque ao alterarmos processos, formas de pensar, muito além daqueles KPIs financeiros que nós tradicionalmente estamos habituados a pensar, de facto, há uma alteração comportamental e portanto, isto são projetos longos, difíceis, mas é uma oportunidade única para as organizações.
Muito bem.
Posso só acrescentar aqui uma nota que para mim é muito relevante, até porque pelo trabalho que nós temos vindo a desenvolver na área das cidades inteligentes e sustentáveis, tem muito a ver com esta questão dos ESG também, que é esta evolução para uma maior necessidade de nós fazermos este trabalho assente em evidências, em dados, vai nos permitir ter um benefício muito relevante, que é: passamos a poder reportar informação sobre o processo. E isto é muito transformador por causa da alteração dos comportamentos. Porque nós podemos passar a informar o agente da mudança, quem tem que alterar o comportamento, do que é que efetivamente está a acontecer em termos factuais. Porque muitas vezes nós não temos a capacidade de dizer ou de informar quem tem que mudar o comportamento, qual é o resultado da sua ação, em termos objetivos, em termos factuais. E portanto, muitas vezes, nós esperamos que as pessoas mudem os seus comportamentos só porque estamos a tentar convencê-los que é bom mudarem os comportamentos. E temos que ir mais além. Portanto, nós temos que lhes mostrar evidências de que a mudança do comportamento faz mexer o ponteiro. Há aqui um resultado palpável, factual, de que a mudança está a contribuir para um determinado resultado.
E aí há um alinhamento maior.
Exatamente.
Deixe-me só fechar aqui a nossa conversa que está a ser transmitida em FM, na Rádio Observador. Vamos continuá-la de alguma forma e fica disponível em podcast. Portanto, quem quiser ouvir depois o resto da conversa com a Gabriela Teixeira e o Miguel Castro Neto, pode procurar o podcast e lá estará todo o episódio. Muito bem, Gabriela Teixeira, Miguel Castro Neto, obrigado ambos pela presença neste "Do Compromisso à Ação". É um podcast, uma parceria entre o Observador e a PwC. Nós vamos voltar proximamente com outro tema, outros convidados. Até lá.
Muito obrigado.
Muito obrigada.