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Sejam bem-vindos. Começa aqui "Do Compromisso à Ação". Ao longo de oito episódios, vamos falar sobre ESG, as regras ambientais, sociais e de governança que conduzem cada vez mais a vida das empresas. Este podcast é uma parceria entre o Observador e a PwC, e o pontapé de saída vai ser dado por Cláudia Coelho, é partner da PwC precisamente para as áreas de sustentabilidade e alterações climáticas. Eu sou o Paulo Ferreira. Bem-vinda, Cláudia Coelho, é um gosto recebê-la aqui. Vamos então, neste pontapé de saída, perceber um pouco o que está em causa. No contexto atual, o ESG evoluiu basicamente de uma obrigação legal regulatória, para um verdadeiro requisito de mercado, isto é, independentemente das leis, as empresas têm mesmo que ter.

Sim, essa mudança, de fato, nota-se claramente nas empresas. Portanto, depois de uma fase dominada por nova legislação nas áreas do reporting de sustentabilidade, de responsabilidade pela cadeia de valor, torna-se agora evidente que independentemente da existência ou não de requisitos legais, é um requisito de mercado. E, portanto, dependendo dos negócios e dos setores, há uma evidente consciência por parte das empresas de que para estarem em determinados mercados, para serem fornecedores de determinado cliente.

Claro, para venderem.

Exato. No fundo, para venderem, têm que cumprir com requisitos, e esses requisitos são cada vez mais concretos e obrigatórios. Portanto, a flexibilidade aqui é muito menor.

Tem ideia, nomeadamente através de dados da PwC, qual é o peso atual do ESG na decisão dos clientes? Quando estamos a falar do chamado B2B, isto é, negócios entre empresas, empresas a vender a empresas, ou então dados também sobre os consumidores finais em Portugal.

Relativamente a estas abordagens, no fundo, o B2B é onde se sente, de fato, uma maior pressão por parte dos clientes.

Que as empresas verificam mais a cadeia de fornecimento, é isso?

Por isso, e porque essas grandes empresas, no fundo, elas próprias têm compromissos assumidos. E esses compromissos são compromissos como, por exemplo, redução da pegada de carbono, etc, que são conceitos que implicam, obrigatoriamente, trabalhar as cadeias de valor. E portanto, isto é muito evidente quando verificamos que já há mais de 10 mil empresas com compromissos baseados na ciência validados por uma entidade externa, que é a Science Based Targets Initiative, o que significa que estas empresas têm compromissos ambiciosos e de acordo com o Acordo de Paris. Portanto, acabam por depois ter que refletir isso na cadeia de valor. Como é que o fazem? O que nós sentimos é que há por parte das grandes empresas também uma compreensão de que as pequenas empresas não têm preparação, não têm conhecimento suficiente para fazer o cálculo.

Na estrutura.

Exato. Para fazer o cálculo de uma pegada de carbono, por exemplo. E portanto, o que temos vindo a assistir é o desenvolvimento de abordagens muito colaborativas, onde o próprio cliente ou fornece ferramentas e fecharis para o cálculo da pegada de carbono, fornece formação e capacitação, e em alguns casos até acabam por fornecer apoio financeiro para a implementação de determinadas medidas. Por exemplo, o IKEA tem desde 2021 um programa que permite aos fornecedores ou acederem à eletricidade verde, através de PPAs, ou o financiamento, por exemplo, da instalação de painéis fotovoltaicos por parte de um sistema já acordado com o IKEA. Portanto, tudo isto com o grande objetivo de garantir que estão a melhorar a cadeia de valor e com isso a contribuir para aquilo que são os objetivos destas empresas.

Claro. No fundo, acabam por cumprir também os seus próprios objetivos a que se propuseram.

Claro, sim.

Nesse caso. Não sei se há exemplos concretos ou casos que mostrem que empresas que tenham bom desempenho nestas matérias de ESG, que ganham de cota de mercado, ou pelo contrário, as que não compram ou que estão um pouco arrastadas disto, ficam para trás e perdem negócios.

O que se torna cada vez mais evidente é que o consumidor em geral tem uma capacidade muito grande de penalizar, não tanto de pagar um extra, porque quando chega o momento de pagar-

Certo, quer seguir o mais barato ou a melhor relação que houver.

Mas claramente nota-se que do ponto de vista da penalização, existe esse fator e, portanto, hoje em dia uma empresa tem imenso cuidado com tudo o que tem a ver com reputação. Portanto, qualquer questão relacionada com aspetos ambientais ou sociais, e aqui mais uma vez o tal papel da cadeia de valor, pode manchar a empresa.

Todos vamos ouvindo de vez em quando as notícias, empresas de muitos setores que têm fornecedores no leste asiático, por exemplo, e que aí não são cumpridas as mesmas regras. Isso é penalizado.

É penalizado e, portanto, as empresas cada vez mais têm muito cuidado com aquilo que comunicam. E ao mesmo tempo, também têm muito cuidado com quem trabalham e, portanto, têm cada vez mais rigor e critérios de seleção dos fornecedores e dos parceiros com quem trabalham.

Portanto, isso é uma exigência que grandes empresas, se quisermos, ou grupos maiores, os tais tão preparados para ter estas regras mais acompanhadas dentro da empresa, estão a exigir aos seus fornecedores também em Portugal, por exemplo.

Estão, nota-se claramente, e irão cada vez mais fazê-lo também porque sobre estas grandes empresas nós teremos legislação que tem a ver com o due diligence na cadeia de valor. E portanto, seja por via de requisitos de divulgação de informação, seja por via Esta diretiva de due diligence vai reforçar a necessidade de ter relações com os fornecedores e de ter informação de confiança por parte dos fornecedores.

Isso aparece cada vez mais também, imagino, em cláusulas contratuais de um fornecimento.

Aparece. Do ponto de vista da relação, o que nós temos? Temos códigos de conduta para fornecedores e, portanto, o fornecedor para colaborar com determinadas empresas, tem que subscrever os princípios de atuação da empresa, responsabilizando-se, no fundo, pela ausência de questões, toda a salvaguarda de aspectos relacionados com direitos humanos, trabalho infantil, etc. E também os aspectos sociais. Portanto, por um lado, temos essa base. Depois, a lógica é que, consoante o tipo de fornecedor e consoante os impactos desse fornecedor, pode ter depois requisitos mais específicos e vai até a existência de auditorias para confirmar a implementação das práticas.

Já estão mais ou menos estabilizadas as métricas desta área. Imagino que algumas não serão fáceis de encontrar, de definir, de medir até. Mas há uma estabilização a esse nível?

Há uma estabilização por via da legislação. A Europa desenvolveu um referencial europeu para relato de sustentabilidade, que acabou por ser revisto em termos de âmbito de aplicação, sendo atualmente aplicável apenas a empresas de estrutura proporcional a este referencial e, portanto, as empresas com mais de mil colaboradores e 450 milhões de euros de volume de negócios, têm um referencial para cumprir. Esse referencial é muito exigente e não é adequado para todas as empresas. Mas em simultâneo, a Europa deu indicação de que as empresas que estão na cadeia de valor têm um referencial voluntário muito mais simples, com cerca de 20 métricas que estão bem definidas e que abrangem todas estas áreas ambientais, sociais e de governance.

Em relação à pressão regulatória que existe, obviamente, são leis e regras para cumprir, mas o que acha que motiva mais os clientes quando fazem a escolha dos seus parceiros nesta matéria? É a reputação, é o risco de greenwashing, preferência do consumidor final ou antes a pressão regulatória? O que ainda pesa mais nas decisões das empresas?

Não é a pressão regulatória.

Já passamos essa fase.

Já passamos essa fase e porque, na verdade, mesmo antes de nós termos legislação, as grandes empresas já tinham esta preocupação. Eu diria que os dois fatores principais são a questão da reputação e, portanto, uma empresa hoje em dia é responsável não só por aquilo que são as atividades diretas, mas também por tudo aquilo que está à volta, pela cadeia de valor. E portanto, desde cedo, que todas aquelas questões que nós ouvimos falar, como já deu alguns exemplos de produção na Ásia, etc, que pode ter riscos distintos de uma produção na Europa, tudo isso já são preocupações das empresas que não querem correr o risco de ter uma notícia relativa a qualquer denúncia, qualquer situação de incumprimento. E, por outro lado, há também este fator que eu dizia de as empresas terem que melhorar em determinadas áreas em que precisam da cadeia de valor, como é o exemplo da pegada de carbono. Portanto, há essa vontade também de, sabendo que grande parte da redução que podem alcançar está na cadeia de valor, então colaborar com a cadeia de valor nesse sentido. E depois também a própria questão da eficiência e do custo. Significa que quando um cliente trabalha com fornecedores críticos, não é com todos, logicamente, para acordar métricas e melhorias, essas melhorias tipicamente vão melhorar também aquilo que é o custo. Estamos a falar de eficiências energéticas, eficiências no uso de recursos, etc. Tudo isso acaba por estimular aqui um modelo todo ele mais eficiente.

Claro. Outra vantagem, neste caso financeira, é a existência já de produtos financiamente ligados à sustentabilidade, às métricas de sustentabilidade das empresas. Isso já é prática também em Portugal, isto é, uma empresa com cumprimento muito bom de critérios ESG pode conseguir, em igualdade de circunstâncias, como é evidente, o melhor financiamento junto de um banco ou no mercado, através de um empréstimo obrigacionista, do que outra semelhante, mas que não está tão atenta a isso.

Pode. O financiamento sustentável tem vindo a aumentar, muito porque os bancos têm métricas que têm que reportar sobre em que medida é que têm contribuído para esta transição ao nível do financiamento. E também porque são acompanhadas de perto pelo BCE. O próprio setor financeiro tem metas para o financiamento à transição. E os principais instrumentos, essencialmente, são dois: uns são os empréstimos obrigacionistas ou a emissão de obrigações, que têm uma característica que é serem destinados a financiar determinado projeto e esse tem que ser um projeto com características ambientais ou sociais. E nessas condições, de facto, uma empresa se tem esse tipo de projeto, pode apresentá-lo e, na generalidade, a banca portuguesa vai oferecer a possibilidade de enquadrar como um financiamento verde. E depois há um outro instrumento que se tem generalizado bastante, que é o empréstimo indexado à sustentabilidade, onde estamos a falar de um empréstimo geral para fins gerais, portanto, não é para um projeto em concreto.

Um projeto concreto nessa área, claro.

E neste caso, onde é que está a vertente verde? É que a condição de financiamento, a taxa de juro, não é fixa, depende da empresa alcançar ou não determinadas metas ambientais e sociais. O desafio aqui, eu diria, está na ambição destas metas. Isto só resulta e só se pode efetivamente chamar de um incentivo-

Se forem exigentes.

Se forem exigentes.

Mas alguém que sabe isso também, claro.

Alcançáveis, exigentes e concretas. E esse é um outro ponto que faz sentido referir, é que as empresas não podem apenas assumir metas, têm que ter planos robustos sobre como é que as vão alcançar.

Claro, senão não vai funcionar.

Não vai funcionar e até nos leva a questões mais relacionadas com greenwashing. Temos até um exemplo da Adidas.

Que é fazer-se passar por, de alguma maneira.

É, o greenwashing.

Claro.

Temos até o exemplo da Adidas, que no caso da Alemanha, foi mesmo a tribunal e foi decidido que não podia usar uma expressão que era: que ia ser neutra em carbono em 2050. Por quê? Porque a Adidas não conseguiu demonstrar que tinha planos concretos-

Um plano para isso

...sobre como é que o ia fazer. E, portanto, isto também é greenwashing, não é?

Claro, no fundo, anunciar intenções que são muito longínquas. Cláudia Coelho, já há pouco disse que as PME, de facto, estão mais afastadas disso, não têm estrutura para responder como as maiores empresas. Isto não pode ser uma barreira para elas, obviamente, nomeadamente na questão de financiamento, do acesso a financiamento, como acabamos de falar.

De facto, o que nós estamos a sentir é que as PMEs estão já a ser alvo de vários pedidos por parte quer dos clientes, como já falámos, quer do setor financeiro. E acabam por sentir necessidade de já ter um conjunto de informação de ESG, porque é normal hoje em dia um banco ou pedir um relatório de sustentabilidade, ou pedir um conjunto de métricas. Naturalmente que isto tudo tem que ser adaptado, e eu acho que o grande desafio é esse, tem que ser adaptado à dimensão das PMEs e há todo um trabalho aqui também de capacitação, quer do setor financeiro, quer do setor não financeiro, para simplificar. Às vezes, a falta de conhecimento acaba por tornar as coisas mais complexas. E portanto, no caso das PMEs, há que simplificar, há que perceber, na prática, o que é que são os temas-chave que a empresa tem que trabalhar, criar métricas, colocar as empresas a medir e, sobretudo, ter um foco em ação e em melhoria. Não é medir por medir, é medir para depois poder mostrar melhoria e ter um plano de ação associado. E as PMEs, para acederem financiamento, seja através do setor bancário, seja mesmo através de incentivos ou outros programas de apoio, já têm que mostrar que têm a área de ESG desenvolvida, já têm que conseguir responder um conjunto de questões.

Cláudia Coelho, quase que chegamos aqui ao fim do nosso tempo. Para fechar, que conselho prático é que daria a uma empresa média portuguesa, uma empresa que não tem capacidade para ter um departamento dedicado a isto, se quiser, ou pessoas dedicadas a isto, e essa empresa quer passar, de facto, daquilo que é uma imposição regulatória, se quiser, do custo do compliance, para uma valorização no mercado, um driver de valor no mercado?

Eu acho que o principal conselho é foco. Quando nós estamos a falar de ESG, temos uma diversidade enorme de temas e independentemente da empresa, o que tem que perceber é: face ao meu setor e face à minha atividade, o que é que são os temas-chave? Se é o consumo de energia, se é o consumo de água, se é uma questão de economia circular, se é uma questão de saúde e segurança no trabalho. Enfim, perceber o que são os temas-chave, e focar a sua atuação nesses temas. E portanto, definir políticas, definir métricas, definir planos de ação, mas tudo numa lógica muito simples. Ou seja, é ambição transformada em roteiro, transformada em ação, mas sem ter a ambição de chegar a um nível de reporte como têm as grandes empresas. Tem que ser muito adaptado. E portanto, aqui a mensagem principal é que mais vale fazer pouco, mas fazer bem, do que tentar fazer tudo e ficarem perdidos pelo caminho.

Sim. E acrescentar?

E acrescentar, sim, que para PMEs é particularmente importante a norma europeia que existe para reporte voluntário por parte das PMEs, que é designada de VSME, que de facto são as tais 20 métricas simples, acessíveis, com guias sobre como apurar essas métricas e que podem constituir um pack de informação para disponibilizar a fornecedores, disponibilizar a clientes, disponibilizar aos financiadores.

Muito bem. Cláudia Coelho é partner da PwC para sustentabilidade e alterações climáticas. Obrigado pela presença e a disponibilidade neste primeiro episódio, o pontapé de arranque do compromisso à ação. Ao longo de oito episódios vamos falar sobre ESG e vamos fazê-lo com vários convidados. Este podcast é uma parceria entre o Observador e precisamente a PwC. Então até ao próximo episódio, com um novo tema e novos convidados. Até lá.