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Falamos de ciência na tarde em direto. Foi encontrado na Ilha da Madeira o fóssil mais antigo de uma cenoura selvagem. Esta cenoura é considerada a mais antiga do mundo. Foi descoberta por cinco cientistas, quatro deles portugueses.
E conosco para falar sobre este assunto, temos em direto ao telefone Miguel Menezes de Sequeira, é professor na Universidade da Madeira e é também um dos cientistas que faz parte deste estudo. Boa tarde, Miguel. Obrigado por se juntar a nós aqui na Rádio Observador. Miguel, como é que é possível saber se se trata realmente de uma cenoura selvagem que, ao que tudo indica, tem milhões de anos? Que características é que distinguem esta cenoura das outras cenouras que já conhecemos?
Pois, esta cenoura que se encontrou no registo fóssil da Madeira, se encontrou um fruto e este fruto tem todas as características daquilo que nós conhecemos na Madeira como o malva-azulinha, ou o chamado aipo-do-gado, que é uma espécie de cenoura, mas que tem características muito especiais e portanto o fóssil foi fácil de identificar. A grande questão aqui foi, de facto, encontrá-lo. Foi um trabalho de muitos anos.
E que características especiais são essas?
A estrutura está perfeitamente mantida e portanto, evidente que aqui não temos imagem. Está perfeitamente mantido, o fruto está praticamente intacto, portanto tem a estrutura praticamente igual àquilo que hoje em dia conhecemos como uma planta endémica da Madeira, que hoje em dia está incluído dentro das cenouras. Portanto, aquilo que se encontrou é simultaneamente um fóssil muito antigo do grupo das cenouras, tal como anunciaram, mas ao mesmo tempo também um indício da endemicidade desta planta. Portanto, o que nós temos aqui é um registo muito antigo de uma planta endémica da Madeira, ao mesmo tempo uma cenoura.
Portanto, quando falamos num fóssil de uma planta com evolução para o gigantismo insular, é isso?
É isso mesmo. Exatamente, leu muito bem. E portanto, aqui o que acontece é que nós temos a prova de que a planta nesta altura, há um milhão e trezentos mil anos, já tinha as características que hoje em dia tem. Estas provas de evolução são muito difíceis de encontrar e sempre que se encontram, são importantes e permitem, por exemplo, regular relógios moleculares, permitem-nos perceber há quanto tempo é que os animalinhos existem. Tem uma série enorme de implicações até ecológicas.
E, portanto, é uma descoberta obviamente muito importante. Nós estamos aqui a falar de quantos milhões de anos, Miguel Menezes Sequeira?
Um milhão e trezentos mil. Aqui são duas coisas importantes que é preciso as pessoas perceberem. É muito raro encontrar fósseis em ilhas, por um lado. As ilhas são muito importantes do ponto de vista evolutivo, do estudo da evolução, porque são aquilo que se chamam laboratórios naturais e portanto, são locais onde nós sabemos há quanto tempo existem, têm um temporalmente uma história curta e portanto, é muito interessante encontrar aqui este fóssil. Este não é o primeiro. Este é um segundo estudo. Já encontrámos outras plantas, mas esta, de facto, é muito curiosa porque corresponde a uma planta que ainda hoje em dia existe e que se pode enquadrar dentro das cenouras. Tem um duplo efeito científico. Por um lado, é uma cenoura muito antiga e acabámos por confirmar que não existem fósseis de cenouras, são muito raros. E, em segundo lugar, prova-nos que a planta já está na Madeira há muito tempo e portanto, isto do ponto de vista científico, é muito interessante.
E como dizia, este já é o segundo fóssil que encontram. Portanto, a perspetiva é que existam outros.
Sim, o autor principal, que está a nível a desenvolver o trabalho mais importante, é a tese de doutoramento dele, está ligado à Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. O Carlos tem vindo a encontrar diversos fósseis. Este não é o primeiro fóssil que encontramos, nem que se publica, mas este de facto tem uma importância extraordinária, porque está dentro de um grupo de plantas que são plantas alimentares, obviamente a cenoura, que todos conhecemos, e corresponde, como eu dizia, a uma planta endémica, o que é simultaneamente muito interessante. E portanto, a revista obviamente publicou este artigo rapidamente.
Miguel Menezes Sequeira, agradeço-lhe ter estado connosco a explicar-nos mais sobre esta descoberta. É professor na Universidade da Madeira. É um dos cientistas que fez parte deste estudo, desta descoberta. Foi encontrado na Ilha da Madeira, o fóssil mais antigo de uma cenoura selvagem. Voltamos a falar de ciência na tarde em direto amanhã. Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto.