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DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

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Nos bastidores da rodagem d'"O Homem Que Mordeu o Cão", com Nuno Markl: "É obscenamente tudo aquilo com que sonhava"

Estreia-se na realização menos de um ano depois de dois AVCs e as histórias absurdas, mas reais, que conta na rádio chegam ao cinema. Fomos saber como tudo isto ganha corpo de longa-metragem.

É preciso parar antes de atravessar os carris. Não porque se aproxima um comboio, mas porque se decide se o mais fácil é atravessar sentado na cadeira de rodas ou de pé. Nuno Markl levanta-se e, seguido de perto por um assistente e por uma cuidadora, passa as linhas apoiando-se num guarda-chuva que lhe serve de bengala. Na perna esquerda tem uma tala por cima das calças, um adereço que atualmente tem de combinar com qualquer peça de roupa que escolha. As filmagens d’O Homem Que Mordeu o Cão podem não estar a corresponder minimamente ao que o argumentista, realizador e também protagonista idealizou inicialmente, mas também desafiam as probabilidades. Foi há menos de um ano [em novembro de 2025] que sofreu um acidente vascular cerebral (AVC), seguido de um segundo quando estava internado.

Transpostos os carris, Nuno Markl regressa à cadeira de rodas para fazer o resto do percurso até às carruagens de um comboio da CP que servem de cenário para o dia. No acesso a uma das portas está montada uma estrutura com alguns degraus que colmata a distância que separa a composição do chão — facilita-lhe a vida a ele, mas também a qualquer pessoa com menos de 1,65m, que teria inevitavelmente de se içar ou saltar para entrar e sair da carruagem.

Apesar das limitações físicas que o obrigam a encontrar alternativas, é um homem feliz — e isso vê-se no sorriso que lhe ocupa a cara e que nunca esmorece, nem quando se repete a mesma cena há várias horas — e, mais do que isso, perfeitamente consciente de que está a viver esse momento feliz. “Não é tão duro quanto possa parecer. Grande parte do tempo estou sentado a rir-me. Não é dos piores trabalhos, acartar sacas de cimento ou construir prédios é mais difícil”, desvaloriza Nuno Markl ao Observador.

No Instagram, Nuno Markl perguntou aos seguidores que histórias deveriam fazer parte de um hipotético filme. “Começaram a chover comentários e eu fui encontrando padrões do que ficava na cabeça das pessoas. Depois pensei naquelas que seriam mais cinematográficas e chegámos a este resultado.”

Piadas à parte, obriga-se constantemente a deixar o corpo, e não a cabeça, comandar. “Às tantas sinto mesmo que tenho que descansar e não me forço a continuar, acho que está toda a gente muito consciente disso.”

O Homem Que Mordeu o Cão: o Filme recupera alguns dos episódios mais icónicos da rubrica homónima que Markl tem na rádio há 29 anos e que pode ser ouvida diariamente na Rádio Comercial. As histórias que a alimentam são sempre de pessoas comuns a quem acontecem coisas inusitadas — tão inusitadas que parecem mentira. Uma delas, intitulada na rádio como “Vai uma velha fora do comboio”, relata o episódio de uma senhora que, para não perder o comboio, se agarra a uma das portas e assim segue durante muito tempo. É entretanto vista e resgatada por um jovem que está numa das carruagens com um grupo de amigos. É verídica, aconteceu em Portugal e é transposta para cinema nestes últimos dias da rodagem.

Com mais de duas décadas de material, não foi assim tão fácil escolher os episódios que mereciam estar no argumento. No Instagram, perguntou aos seguidores que histórias deveriam fazer parte de um hipotético filme. “Começaram a chover comentários e eu fui encontrando padrões do que ficava na cabeça das pessoas. Depois pensei naquelas que seriam mais cinematográficas e chegámos a este resultado.”

Há três anos que os diálogos, os cenários e as personagens lhe ocupam a cabeça, sendo todas as narrativas pequenos thrillers com a mesma fórmula: “Estava tudo bem, até que…”

Houve personagens escritas já com alguém em mente, como o papel de Bruno Nogueira ou de José Mata, e a verdade é que Nuno Markl é um agregador de pessoas, toda a gente gosta de trabalhar com ele, ninguém quer dizer-lhe “não”. “Milagrosamente, uma grandíssima porcentagem das pessoas que me tinham dito que sim há três anos, estão aqui. Não foi por pena, porque aceitaram antes dos AVCs. Estava toda a gente muito feliz com isto logo no início e eu estava cheio de medo. Por isso, uma das condições que impus a mim mesmo foi escolher atores que já conhecia ou com quem já tinha trabalhado para estar mais à vontade e mais confiante com eles.”

A velha que fica pendurada do lado de fora de um comboio

Juntaram-se Victoria Guerra, Afonso Pimentel, Isabel Abreu, Gabriela Barros, Inês Aires Pereira, Gonçalo Waddington, Salvador Martinha, Daniela Melchior, Anabela Moreira, Ricardo Pereira e até Ricardo Araújo Pereira e Ana Bacalhau, entre outros. Além disso, surgiram nomes que acabaram por ser uma espécie de cereja no topo do bolo. Um deles é Ana Bustorff.

Passam alguns minutos das 15h quando a atriz atravessa os carris, em direção à zona do catering — por hoje, o trabalho está feito. Com uma blusa creme, uma saia direita preta e umas meias pretas até ao joelho, parece uma autêntica velha. E não, não é insulto, é exatamente essa a personagem dela: a velha que fica pendurada do lado de fora de um comboio.

O nome da atriz foi sugerido por Carolina Amaral e Teresa Taraves, que também fazem parte do elenco, e Nuno Markl avançou com um tímido convite. “Considero-a um grande ícone e uma super atriz e mandei-lhe uma mensagem muito respeitosa a convidá-la para isto. Qual foi o meu espanto quando ela disse logo que sim. Ficou comovida, disse que só a convidam para novelas.”

Ana Bustorff ficou tão entusiasmada que estava disposta a ir agarrada a um comboio em movimento. “Tive de lhe dizer que seria num comboio parado, não podia ficar com o peso de ser responsável pela morte de uma das melhores atrizes portuguesas. Ela é incrível, tem uma alma de 15 anos.”

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Na sala de maquilhagem e guarda-roupa, que ocupa um dos espaços da Escola Profissional Nicolau Breyner (do outro lado da estrada), está na hora de Bustorff se despir (e despedir) da velha, enquanto na cadeira de maquilhagem Mariana Pacheco está quase transformada em Laura. “Estás tão gira, Mariana”, atira-lhe a colega do canto da sala ao mesmo tempo que, já em modo civil, arruma o resto dos objetos pessoais num saco.

Mariana Pacheco tem uma maquilhagem cheia de brilhantes, dois coques na cabeça, uma T-shirt com um nó na barriga, calções pretos curtos e umas botas Dr. Martens nos pés. Nuno Markl descreve a participação da atriz nas gravações “como se fosse alguém a chegar à Disneyland”. “É o tipo de fã que guarda tudo na memória. Além de ser ótima atriz, tinha de ser recompensada pela dedicação.”

Mariana confirma a felicidade de fazer parte do projeto e mostra que não é uma fã qualquer. Conhece o histórico da rubrica e é capaz de dar detalhes sobre várias histórias insólitas contadas na rádio. “Quando o Nuno começou a falar [no Instagram] das primeiras ideias para o filme, eu comentei ‘pago para entrar’ na brincadeira. Ou mais ou menos na brincadeira”, confessa ao Observador. “Por coincidência, este é um dos meus episódios preferidos.”

No pátio, mesmo à saída da sala, organiza-se a figuração. “Esta é a mala que vai levar. Está com calor? Se calhar vai ter, é melhor tirar o casaco”, indica uma das responsáveis do guarda-roupa a uma mulher com cerca de 55 anos que será uma das passageiras do comboio. Um homem já tem um chapéu de palha na cabeça, outro recebe uma mochila. Enquanto parte da equipa acaba de almoçar, a figuração começa a ser encaminhada para o local das filmagens.

“Silêncio, meus queridos. Preparamos para filmar”

São 15h26 e tudo parece estar dentro dos timings previstos. Lá dentro, alguém procura uns brincos nas caixas transparentes repletas de compartimentos e de bijuteria. O ferro de engomar continua de pé, em cima de uma tábua, pronto para cumprir as suas funções, enquanto nos cabides as roupas estão organizadas por personagens. Nas mesas de maquilhagem há bases, sombras e dezenas de pincéis. No chão estão caixas transparentes com toalhitas, discos desmaquilhantes e cremes e, na zona dos cabelos, há vestígios no chão de um corte de cabelo recente. É aí que Rui Melo ocupa o seu lugar para um brushing supersónico. Apanhamo-lo a correr porque a função dele nesta cena do comboio é ser pica e já se sabe que um pica nunca se atrasa.

É igualmente psicoterapeuta na história e, mais do que tudo, diretor de atores. “O Nuno falou-me disto quando ainda estávamos a fazer o Taskmaster [programa da RTP1], disse-lhe logo que sim porque gosto muito deste contacto como diretor de atores.”

O elenco é grande e muito diversificado, mas isso não apresentou qualquer dificuldade para Melo, um experiente encenador e ator. O mês que passou em filmagens — que começaram a 12 de setembro — foi, garante, uma experiência puramente feliz. “Sinto, desde o primeiro dia de rodagem, uma energia coletiva muito positiva à volta do Nuno, porque ele é o catalisador deste filme. A felicidade dele é contagiante e há da parte da equipa uma enorme vontade de ajudar o Nuno a realizar este sonho. Se me é permitida a opinião, acho que o filme deu um enorme salto nesta segunda versão do guião. Vai ficar muito giro.”

“A equipa tem cuidado bastante de mim, lembrando-me, por exemplo da hora dos comprimidos. Tenho uma daquelas caixinhas com [compartimentos] com horas. Lembro-me de o Vasco Palmeirim me dizer: ‘Tens noção que ninguém, menos de um ano depois de ter dois AVCs, está a realizar um filme em nenhuma parte do mundo’?”

O secador já se desligou, as calças impecavelmente vincadas estão vestidas, a mala de couro está ao ombro, os minutos estão contados e aí vai ele num passo ritmado. Preparem os bilhetes, o pica está a caminho.

No Cais Pedra, não muito longe de Santa Apolónia, em Lisboa, a quantidade de cabos que se estendem pela plataforma, além de caixas enormes com rodas, projetores e ecrãs denunciam que algo se passa nestas carruagens aparentemente desativadas. Entramos na segunda classe de um Intercidades e a zona que tem quatro lugares de cada lado, virados uns para os outros, já está ocupada por Mafalda Creative, Vicente Wallentein e Pedro Ferreira (do lado par) e Mariana Pacheco, Gilmário Vemba e Miguel Queirós (do lado oposto). São eles que dão vida a um grupo de jovens que segue para um festival e que, a dada altura, é confrontado com a visão de uma senhora pendurada do lado de fora.

São 16h27 e Gilmário Vemba ensaia uns acordes de A Paixão, de Rui Veloso, na guitarra. “Toca uma coisa livre de direitos”, alerta Rui Melo, enquanto vai acompanhando o pingue-pongue de diálogos com a ajuda de um tablet que segura nas mãos.

“Aqui diz ‘branco’ logo por cima dele, para se sentir o constrangimento geral”, indica mais à frente. Nuno Markl aproxima-se, vindo do fundo da carruagem. Usa as costas das cadeiras como pontos de apoio enquanto vai avançando. Senta-se numa das filas atrás dos atores e assiste como se estivesse maravilhado perante algo épico e irrepetível. Ri-se, dá sugestões e regressa ao seu posto de comando, na carruagem seguinte, plenamente satisfeito com a condução de Rui Melo.

Os figurantes já estão nos respetivos lugares, nos compartimentos de bagagem há malas e mais malas e até um garrafão. Por cima dos assentos estão mochilas, sacos e sacos-cama. Só metade da carruagem é usada como cenário; na restante está a equipa técnica, que faz um tetris complexo para conseguir trabalhar num espaço tão apertado. Lá fora há comboios a passar e a apitar, cá dentro o ar condicionado liga-se e desliga-se, traduzindo-se numa dor de cabeça para os técnicos de som. A câmara está num estabilizador, a filmagem será feita em movimento. São 17h26, tudo pronto.

“Silêncio, meus queridos. Preparamos para filmar”, grita António Pinhão Botelho, primeiro assistente de realização.

Dez minutos e dois takes depois, Nuno Markl grita do lugar onde está sentado, com um ecrã à frente e auscultadores nos ouvidos: “Está muito bom”. “Pelo Nuno está aprovado, passamos para o geral”, transmite António Pinhão Botelho.

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É nele que recai a gestão das cenas. No auricular tem sempre alguém a pedir alguma coisa, a questionar, a alertar ou a dar recados. Senta-se, levanta-se, verifica ecrãs e planos dezenas de vezes. Juntamente com Janeko Lança (ou João Lança Morais), diretor de fotografia, ele faz parte do núcleo duro que Nuno Markl quis assegurar desde o início do projeto. “Já tinha trabalhado com ele no Canal Q e somos ambos nerds de filmes. Muitas vezes somos insuportáveis porque as pessoas à nossa volta não conseguem entrar no nível de nerdice que nós temos a conversar. Sabia que se lhe dissesse: ‘Isto podia ser como aquela cena naquele filme’, ele entenderia logo. Além disso, comunica muito bem com as pessoas todas, acho que não há ninguém que não goste dele.”

Talvez ajude o facto de Pinhão Botelho se dirigir a toda a gente com “meus amores” ou “meus queridos” sempre que dá indicações ou de distribuir piadas e agradecer aos figurantes por terem vindo. Para ele, garante, não parar um segundo é também o que garante a adrenalina. “O meu stress termina quando a rodagem termina. O realizador é que leva todas as incertezas e inseguranças para casa”, diz ao Observador.

“Por onde o Nuno passa, vai arrastando as pessoas”

Os dias finais estão a ser, confessa, os mais complexos. “Estamos num comboio, é claustrofóbico, há muita gente, e ainda temos de simular que estamos em andamento. Há inúmeras questões técnicas.”

No entanto, há o reverso da medalha. “Dizem-me que eu chego a casa bem-disposto e sei que isso é reflexo da energia que se vive aqui e que naturalmente o Nuno passa para as pessoas”, explica enquanto coloca novamente o auricular para, segundos depois, gritar: “Meus babies, este plano ficou feito, vamos para geral.”

As repetições da cena sucedem-se, com planos fechados numa personagem e depois na outra. Gilmário Vemba continua a dedilhar a guitarra, sabendo sempre que tem de parar em “mesmo sa…”, não podendo dizer nem mais uma sílaba do tema de Rui Veloso para não colocar a produção em apuros (e despesas extra).

Conheceu pessoalmente Nuno Markl nas gravações de Taskmaster e, à semelhança de quase todos os que se cruzam com ele, ficou enfeitiçado. “Por onde o Nuno passa, vai arrastando as pessoas. Nós ficamos porque queremos sempre absorver um bocadinho do que ele é, a maneira como encara a vida.”

“Depois de escrever o argumento e de me por a trabalhar com o Janeko e o António, perguntava: Será que se pode fazer isto, será que se pode fazer aquilo? E se isto fosse como aquele plano do 'After Hours'? Então se isto fosse como aquele plano do 'Jurassic Park’? Portanto, andamos nisto e eles fazem-me as vontades.”

Aceitou interpretar Tozé, um festivaleiro despreocupado, mas garante que teria vindo fazer qualquer outra coisa só pelo prazer de participar n’O Homem Que Mordeu o Cão: o Filme. “As pessoas não estão aqui pelo que aconteceu ao Nuno Markl, estão aqui pelo que o Nuno Markl é. Acho que ele é o exemplo do que seria um ser humano perfeito.”

Numa das filas atrás dele está sentado José Raposo. Não abre a boca — nem precisa. “Diz ao Raposo que estou a adorar os trejeitos dele”, grita Nuno Markl. António Pinhão Botelho transmite.

Um assistente que está sempre por perto entrega a Nuno Markl um pacote de bolachas mesmo sem ele pedir e pouco depois chega um chá. “A equipa tem cuidado bastante de mim, lembrando-me, por exemplo da hora dos comprimidos. Tenho uma daquelas caixinhas com [compartimentos] com horas. Lembro-me de o Vasco Palmeirim me dizer: ‘Tens noção que ninguém, menos de um ano depois de ter dois AVCs, está a realizar um filme em nenhuma parte do mundo’?”

Se é cedo para trabalhar numa epopeia destas? Talvez. Se é inusitado? De certeza. Mas, “era agora ou nunca”, justifica. Soube das datas para filmar numa fase de recuperação muito mais precoce, mas nunca lhe passou pela cabeça desistir do filme que marca a sua estreia como realizador de uma longa metragem. “Quando recebi a notícia [das datas], o meu corpo ainda estava sem funcionar, mas não queria que se perdesse a oportunidade.”

Chegou a ponderar entregar a realização a outra pessoa e falou disso a Sérgio Graciano, realizador e um dos produtores do projeto, assinado pela Caos Calmo Filmes. “Ele disse-me: ‘Não, isto tens de ser tu a fazer. A gente espera’.”

Adiaram a primeira data, mas o facto de ter algo tão importante no horizonte acabou por ser uma motivação extra para a recuperação de Markl. O argumento foi reescrito e passou a incluir a experiência do próprio, algo que lhe pareceu óbvio a dada altura. “O que me aconteceu foi de facto a coisa que ligou tudo. Acho que foi numa conversa com o Filipe Melo [músico, argumentista e amigo] que surgiu esta ideia [a de incluir os AVCs na narrativa] e, de repente, foi milagrosamente fácil. Há muitas coisas que aconteceram na vida do hospital que se ligam tematicamente a estas histórias d’O Homem que Mordeu o Cão.”

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Se Nuno Markl temia que o argumento inicial parecesse só uma sucessão de curtas metragens, isso desapareceu na nova versão. “Dentro das histórias há momentos da minha vida no hospital que contaminam a história que está a ser contada. E, portanto, percebe-se que está tudo a acontecer muito na minha imaginação e na minha cabeça e tem muito a ver com a minha vontade de voltar à rádio para contar estas histórias.”

O que está aqui a ser cozinhado é uma homenagem à rádio e aos ouvintes, mas também aos profissionais de saúde que cuidaram dele nos últimos meses. “Se eu não tiver a oportunidade de fazer mais nenhum filme, acho que está aqui tudo, despejei aqui a minha alma.”

Na outra metade da carruagem distribuem-se águas, retoca-se a maquilhagem e faz-se refill das latas de cerveja — com água, obviamente, por todos os motivos e mais alguns.

“Preciso do Janeko cá dentro. Cinco, seis, todo aberto”, diz António Pinhão Botelho numa linguagem codificada para os leigos (mea culpa) que assistem. Nuno Markl explica que é por isto que confia tanto nestes dois nomes importantes da equipa. “Depois de escrever o argumento e de me por a trabalhar com o Janeko e o António, perguntava: ‘Será que se pode fazer isto, será que se pode fazer aquilo? E se isto fosse como aquele plano do After Hours? Então se isto fosse como aquele plano do Jurassic Park’? Portanto, andamos nisto e eles fazem-me as vontades.”

“Bom dia, sejam felizes”

Nuno Markl que está realmente a aproveitar tudo o que está a acontecer. “A não ser quando as filmagens dão para muito tarde, aí o meu cérebro começa a desligar-se aos poucos.”

Uma das cenas, que incluiu um número musical, foi filmada à noite e aí, teve de optar. “Tive de dizer na rádio: se calhar tenho de ficar a dormir.” Algo que, sendo mestre em acumular projetos, não sabia fazer até recentemente.

A poucas horas do final das filmagens, admite: “Ficava mais um mês aqui, estou a adorar. Mas, lá está, com dois AVCs no bucho, se calhar é boa ideia isto acabar agora.”

Nas próximas semanas segue-se uma pequena pausa para descanso e o passo seguinte é fechar-se numa sala de edição para a enlouquecedora tarefa do corta e cola.

Na hora do balanço, não há nada que Nuno Markl quisesse mudar. “Fizemos tudo o que queríamos, não derrapámos no orçamento. Acho eu, pelo menos não me disseram nada, se calhar para não me chocar ou para eu não ter outro AVC.”

Do lado de fora da carruagem já anoiteceu, mas em cima de uma mesa ainda há caixas de cartão preparadas pelo catering. Todas acumulam mensagens carinhosas escritas à mão, acompanhadas por corações e estrelas. “Bom dia, sejam felizes” e “para adoçar o coração” pode ler-se em duas delas.

Lá dentro, o absurdo e realidade continuam a arrancar gargalhadas por mais que a cena seja a mesma há horas. A imprevisibilidade da vida, da qual controlamos muito pouco, ditou que Nuno Markl tenha de passar mais tempo sentado do que em pé, em vez de fazer piscinas de um lado para o outro; que tenha uma mão preguiçosa a quem chamou Cassandra que não o deixa gesticular indicações; e que nem sempre se sinta capaz de aguentar o ritmo. Porém, afirma, a estreia na realização “é obscenamente tudo aquilo com que sonhava”.

Durante um mês inteiro de filmagens em diversas localizações, houve uma fluidez que Markl nunca tinha sentido. “Todos os dias eu venho para aqui a pensar: ‘É hoje? É hoje que vai dar merda?’ Não, ainda não foi hoje.”

As filmagens d’O Homem Que Mordeu o Cão chegam ao fim envoltas numa felicidade que se sente um pouco por todo o lado, sobretudo no sentimento unânime partilhado pela equipa e nas palavras “felicidade” e “feliz” que se repetem constantemente.

“Estamos todos a trabalhar e queremos que o resultado seja bom, mas acima de tudo sinto que estamos todos absolutamente felizes por ver o Markl feliz. É quase como se estivéssemos a retribuir-lhe um pouco da felicidade que ele dá às pessoas com esta rubrica”, diz Mariana Pacheco. “O Nuno está a ter o momento da vida dele, está super feliz e isso passa para a equipa. Estou muito contente por poder ajudá-lo a concretizar este projeto, ele merece tudo de bom na vida. Se concorresse a presidente [da República], acho que ganhava. Ele tem esta coisa muito única, queremos todos ir atrás dele”, concorda António Pinhão Botelho.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Na hora do balanço, não há nada que Nuno Markl quisesse mudar. “Fizemos tudo o que queríamos, não derrapámos no orçamento. Acho eu, pelo menos não me disseram nada, se calhar para não me chocar ou para eu não ter outro AVC.”

As sequelas dos dois acidentes vasculares cerebrais são visíveis, mas não são um tabu. Pelo contrário, as piadas sobre o tema chovem em catadupa, quase como se fossem uma pequena vingança que lhe retira peso. Nas redes sociais, Markl tem partilhado muitos momentos dos bastidores com os seguidores, cuja ansiedade faz disparar as perguntas sobre a data de estreia e sobre as histórias que vão chegar ao cinema. Com centenas de episódios épicos, ficou tanta coisa de fora que há material para uma ou mais sequelas.

Longe das precipitações, neste comboio da CP são 19h25 e ainda há questões que precisam de ser resolvidas. “Ó Nuno, nenhum de nós imagina o que provoca a travagem brusca de um comboio. Talvez uma queda, uma lata derrubada?”, sugere Rui Melo. A resposta fica guardada para a estreia, lá para o verão de 2027.

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