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E assinala-se hoje o Dia Mundial da Epilepsia. Em Portugal, calcula-se que 50 a 60 mil pessoas sofram desta doença e que pode manifestar-se mais nas crianças. É nossa convidada, Mónica Vasconcelos, presidente da Sociedade Portuguesa de Neuropediatria. Doutora, muito boa tarde.

Boa tarde.

Obrigado por ter aceitado o nosso convite. Começava precisamente por aqui: por que a epilepsia se manifesta mais nas crianças?

Boa tarde, é com muito gosto que estou hoje aqui para falar sobre esta doença crónica que atinge, de facto, mais frequentemente as crianças. É uma das principais causas de doença crónica e idade pediátrica. Ela atinge essencialmente os extremos, as crianças e os idosos, mas de facto é muito mais frequente na criança e na adolescência. Isto porque o cérebro da criança é um cérebro mais sensível. Muitas vezes as crises iniciam-se logo após o nascimento, no primeiro mês de vida. E depois porque existem várias causas de epilepsia e algumas epilepsias são o que nós chamamos de dependentes da idade, são próprias de determinadas faixas etárias, são próprias da criança e da adolescência, e depois até resolvem com a idade.

Essas primeiras crises epilépticas nas crianças são fáceis de detectar? É fácil perceber logo que estamos perante uma criança que tem epilepsia?

Pois, as manifestações clínicas da epilepsia são muito variadas e nem sempre é fácil nós fazermos o diagnóstico, nomeadamente nas crianças mais pequeninas, nos bebés. Nos recém-nascidos, muitas vezes as crises são muito subtis. Depois, nos mais velhos, nós temos manifestações muito diferentes. A clínica pode ser muito variada, porque as crises podem ocorrer com ou sem perda de consciência, com movimentos involuntários de vários tipos, às vezes só com sintomas cognitivos, emocionais, sensoriais. Portanto, as crises podem ser muito breves e só com alterações breves de estado de consciência, ou depois podem ser aquelas que nós estamos mais habituados a associar à epilepsia, que são aquelas crises convulsivas com uma atividade motora excessiva. E essas, sim, as pessoas sabem reconhecer. Mas às vezes há crises que nos passam despercebidas, mesmo em crianças em idade escolar e nos adolescentes, porque são crises muito breves, sempre só com alterações muito breves de estado de consciência e que nos podem passar despercebidas. E às vezes, depois, nesses casos, o diagnóstico é tardio.

Nesse caso, é necessário ter professores e educadores de infância preparados, com preparação para identificar crianças, uma vez que é com elas que passam a maioria do tempo, não é?

Exatamente. E para isso também existem estes dias de sensibilização e de consciencialização. É muito importante que também os professores, os educadores, estejam de facto alertas para o que é que são crises epilépticas, o que é a epilepsia, como se podem manifestar.

E estão?

Eu acho que cada vez mais estão. Tenta-se fazer a nível nacional ações de sensibilização sobre estes temas e mesmo a nível de escola, e os professores mostram-se interessados. E também acho que parte de nós, médicos e da restante comunidade, às vezes quando há uma criança com epilepsia numa turma, também tentar informar os professores de como é que devem atuar, o que devem estar mais sensibilizados.

E os alunos, não? Os colegas, não é importante?

E os colegas também, claro. E os colegas é fundamental, porque muitas vezes, infelizmente, estes meninos ainda se sentem discriminados na escola, ou às vezes até porque não os deixam fazer determinadas atividades ou porque têm medo que aconteça alguma crise. Portanto, os colegas devem também estar preparados para coisas que possam acontecer, mas desmistificar a epilepsia. E os professores também saberem lidar com esta doença crónica e saberem reconhecer. E é engraçado que eles também cada vez mais reconhecem que às vezes são os professores que chamam a atenção dos pais, que a criança, por exemplo, não está bem ou que parece que pode eventualmente ter crises, que é melhor consultarem o médico. Portanto, eu acho que os professores estão cada vez mais sensibilizados para este tipo de doença.

Doutora, como é que se identifica uma crise epiléptica? Há um padrão nas crianças, sobretudo?

Pois, como eu estava a dizer, as crises são muito diferentes. Por exemplo, temos aquelas crises mais fáceis de identificar, que toda a gente reconhece, que é, em termos correntes, o estrebuchar.

Os tremores.

Os tremores generalizados, com perda de consciência ou revirar os olhos, espumar pela boca. Portanto, são aquelas crises que são assustadoras, mas que nem sempre quer dizer que tenham pior prognóstico, mas são facilmente reconhecíveis.

Um desfecho trágico. Mas como é que se deve atuar perante um episódio desses?

Primeiro que tudo, ter calma, tentarmos transmitir calma.

Como em tudo na vida.

Que é difícil. Mas para quem já viu e mesmo para os pais que já estão habituados, depois sabem lidar com estas crises. A primeira vez, claro que é assustador para toda a gente, mas transmitir é ter calma, tentar virar a criança, isto com a criança e com o adulto, com o indivíduo de lado, porque às vezes há o perigo de salivar ou de vomitar e depois poder aspirar o vômito. Portanto, pôr sempre a criança em posição de segurança, de lado. Não colocar nada na boca, que é um erro grande que as pessoas têm, de tentar colocar os dedos na boca, alguma coisa na boca. Não há perigo de asfixia com a língua, isso é um mito que não acontece. Portanto, não se coloca nada na boca.

Mas está bem vivo esse mito.

É. E às vezes as crianças com convulsões têm aquela fase em que ficam muito rígidas, com o tônus muito aumentado. E se nós metermos lá o dedo na boca, ficamos lá com o dedo na boca, porque ela prende mesmo, cerra os dentes. A criança e o adulto cerra os dentes com força. Portanto, colocar de lado. Atentamente quando são aquelas tais crises mais violentas, colocar alguma coisa debaixo da cabeça, uma camisola, um casaco para a criança ou o indivíduo não se magoar. Arranjar forma de que a criança, durante a crise, não se possa magoar. Não dar nada para beber, também é importante. Não se deve dar água, porque há o risco de engasgamento. E quase sempre as crises são muito breves e passam espontaneamente.

E depois? Deve ligar-se para o 112 e chamar por ajuda médica ou não?

Numa primeira crise, sim. Numa primeira crise deve-se chamar sempre ajuda, porque nós não sabemos o que está por detrás da primeira crise, o que aconteceu para a criança ter uma primeira crise epilética. Portanto, aí, sim, deve-se chamar sempre ajuda médica, o 112, e pedir ajuda. Se for uma epilepsia já conhecida, que os professores sabem que essa criança tem, que os pais sabem, e se for uma crise breve, não é preciso chamar. A não ser que a crise seja demasiado prolongada ou que a criança após a crise não recupere e fique muito prostrada. Embora numa crise, normalmente, existe sempre um período de sonolência posterior que é normal. Mas se após esse tempo, a criança continua muito prostrada, a gemer, ou se foi uma crise demasiado prolongada ou que se repete, aí sim, devemos sempre pedir ajuda.

Muito bem.

Porque se a crise não é resolvida, depois é mais difícil também de reverter.

Claro. Falou há pouco dos mitos. Um dos mitos era de que luzes e imagens muito rápidas desencadeavam crises epiléticas. Isto é um mito, certo?

É um mito em certa parte, porque a maioria das epilepsias não tem problema nenhum, não há restrição nenhuma com luzes, com jogos, nada. No entanto, e por isso é que se deve saber sempre que tipo de epilepsia é que nós temos e fazer exames também para perceber o tipo de epilepsia. Existe uma pequena percentagem, mas é uma pequena percentagem, inferior a 5%, que as pessoas têm uma epilepsia fotossensível. Ou seja, as crises podem ser desencadeadas por luzes a piscar ou por observar determinados padrões em movimento, mas isso é pouco frequente.

Mas na esmagadora maioria dos doentes, não.

Mais de 95% não têm crises desencadeadas por luzes. Portanto, na maior parte dos casos, não há nenhuma restrição com ver televisão, jogos de computador, cinema, nada disso. O EEG, o exame que se faz para ajudar no diagnóstico, o eletroencefalograma, também ajuda a perceber, porque faz-se essa prova com as luzes para ver se é uma epilepsia fotossensível.

É possível identificar se a exposição de uma determinada pessoa a imagens muito repetitivas e luzes muito fortes pode desencadear uma crise epilética.

Exatamente.

Doutora, os epiléticos podem ter uma vida normal?

Os epiléticos podem ter uma vida normal, devem ter uma vida normal. É isso que nós queremos, é que tenham uma vida normal. Sem problemas, e são pessoas normais. O que acontece é que existe uma menor percentagem de epilepsias que não são de tão bom prognóstico, não são tão facilmente controladas com medicação anti-epilética, que têm crises difícil de controle, refratárias ao tratamento. E esses, sim, são aqueles indivíduos e aquelas crianças que vão ter mais dificuldades no dia a dia e para os quais vamos ter que adaptar as estratégias em termos sociais, em termos de escola. Agora, na sua grande maioria, e o que nós pretendemos é que a criança e o adulto tenham uma vida perfeitamente normal, integrada na escola e na sociedade.

Portanto, todas as crianças epiléticas, em primeira instância, podem praticar esportes, jogar videojogos, ver televisão, enfim, serem crianças normais, não é?

Exatamente. A prática de esporte não aumenta o risco de ter crises epiléticas. Aliás, há muitos benefícios, como se sabe, para tudo no que toca à saúde global, da prática de exercício físico. E devemos mesmo fazer esporte, as crianças devem fazer esporte. Pequenos traumatismos não aumentam o risco de ter epilepsia. Claro que há esportes mais seguros que outros e há uns que nós não aconselhamos pelo alto risco que pode ocorrer para a própria pessoa, para terceiros. Escaladas, mergulho de profundidade, paraquedismo. Alguns tipos de esporte são de risco, mas na sua grande maioria, o atletismo, desportos em equipe, o futebol, o basquete, o vôlei, o rugby, desportos de raquete, desportos de contato, o judo, são tudo desportos que devem ser incentivados e que são desportos seguros.

Muito bem. Doutora Mónica Vasconcelos, na qualidade de presidente da Sociedade Portuguesa de Neuropediatria, temos aqui mais 30 segundos. Há alguma mensagem que queira transmitir aos pais que nos ouvem nesta altura?

Sim, o que falamos até agora. Podemos ter uma vida normal com epilepsia, queremos ter uma vida normal com epilepsia. Claro que a epilepsia não são só crises, como nós vimos, e portanto, temos que dedicar atenção a todas as comorbilidades que podem acompanhar a epilepsia. E penso passar essa mensagem positiva que em muitos casos a epilepsia é bem controlada e os doentes com epilepsia podem e devem ter uma vida o mais normal possível, beneficiando todas as oportunidades que todas as crianças da sua idade têm.

Muito bem, doutora Mónica Vasconcelos, presidente da Sociedade Portuguesa de Neuropediatria. Agradeço lhe ter estado em direto aqui na Rádio Observador.

Foi um gosto.

Muito obrigado.

Muito obrigada.