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Este é um podcast da Rádio Observador. Pode ouvir a rádio também em 98.7, na Grande Lisboa, e 98.4, no Grande Porto.
Como de costume, por esta hora, na tarde em direto, falamos de ciência e hoje vamos olhar um estudo da Academia Chinesa de Ciências, que mostra que os oceanos atingiram, nos últimos cinco anos, as temperaturas mais elevadas desde os anos 50. Não há registo na história humana das águas alguma vez terem estado tão quentes como no ano passado. E há um outro dado importante: o aumento da temperatura, que está também a acelerar.
E para falar sobre isso mesmo, temos conosco ao telefone Pedro Soares, é físico da atmosfera e é também investigador na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e no Instituto Dom Luís. Tem-se dedicado principalmente à investigação das alterações climáticas e é este um tema premente. Boa tarde, Pedro Soares. Obrigado por se juntar a nós aqui na Rádio Observador. Pedro, para alguém que não seja especialista neste tema, o que é que significa termos oceanos mais quentes?
Boa tarde. O oceano é um dos grandes mediadores do sistema climático, é uma das suas componentes fundamentais e o fato de estarmos a bater, ano após ano, recordes de temperatura do oceano, quer dizer que temos um sistema climático com muito mais energia. E essa energia, infelizmente, tem como consequências se propagar à atmosfera e ter uma consequência de maior ocorrência de extremos, como tempestades, tempestades tropicais, ondas de calor marítimas e uma panóplia de consequências muito preocupantes. Eu devo fazer aqui um pequeno esclarecimento. Estes recordes são de temperatura, mas são também de calor, de energia armazenada no oceano.
E isso faz com que os números sejam mais ou menos preocupantes, ou não podemos fazer esta questão assim?
Faz com que seja mais preocupante, porque não estamos a falar simplesmente de uma temperatura à superfície do oceano, que num ano se regista como mais elevada do que no ano anterior, mas estamos a falar de, nos últimos anos, estarmos a armazenar cada vez mais energia nos oceanos e essa energia com um certo atraso, por causa da inércia dos oceanos, vai ter consequências no sistema climático.
E falando dessas consequências, Pedro, em termos práticos, em relação ao dia a dia, ao cotidiano das pessoas, como é que se reflete esse aumento de temperatura e essas consequências?
Esse aquecimento e essa energia em excesso no oceano têm se registrado mais no Atlântico e no sul do oceano, no hemisfério sul, nos oceanos austrais, e aí também se regista um aumento das ondas de calor bastante pronunciado. Se nós temos um aumento da temperatura, nós também temos menos oxigênio dissolvido, quer dizer que isso tem um impacto nos ecossistemas marinhos muito importantes. Por outro lado, se temos também um aumento de temperatura, temos um aumento de evaporação e por isso temos mais fenômenos extremos, temos precipitação mais intensa e temos outras zonas em que temos mais secas. E também existem estudos que apontam, por exemplo, no caso da Austrália, que estas anomalias de temperatura no Índico estarem a montante destes incêndios gigantes que estamos a viver na Austrália. Quer dizer que as consequências são, de facto, muito grandes e como último fator, e talvez ainda o mais relevante no contexto português, pra além da seca e dos incêndios, é a subida do nível médio do mar. Se nós temos temperaturas mais elevadas, temos uma subida do nível médio do mar, quer dizer que temos uma expansão térmica dos oceanos e também temos a massa de gelo nas zonas terrestres cobertas de glaciares e de gelos. Isso faz com que se acelere o processo de subida do nível médio do mar, com consequências diretas nas zonas costeiras, do ponto de vista da erosão e do ponto de vista também da ocorrência dessas mesmas tempestades.
Pedro, e temos já também relatos de vários cientistas que já foram avisando que mesmo que haja agora uma redução dos gases com efeito de estufa, a temperatura da água vai continuar a aumentar. O Pedro diz também que o próprio nível da água vai continuar a aumentar. Portanto, tudo isto é preocupante. O que é que se pode fazer desde já, senão reduzirmos drasticamente os gases com efeito estufa?
Deixe-me só dizer, é que o oceano tem tempos de resposta muito mais lentos do que a atmosfera e por isso a permanência desse aumento de temperatura e também desse aquecimento que depois pode provocar os tais fenômenos extremos de que eu falava. O que nós precisamos é da ação política urgente. Nós precisamos verdadeiramente reduzir os gases de estufa, as emissões de gases de estufa, para que possamos mitigar o aumento da temperatura do oceano e no seu conjunto do sistema climático. Porque quanto mais protelarmos essa ação política e também societal, piores serão as consequências. E como o oceano tem uma resposta lenta, quer dizer que nós podemos ter uma resposta retardada desses mesmos efeitos que, infelizmente, muitas vezes têm retroações positivas e que são, de facto, muito preocupantes.
Pedro, só mesmo para terminar. A temperatura da água vai continuar a aumentar, o nível da água prevê-se que também continue a subir. Quando o Pedro diz que há este efeito de resposta que não é imediata, podemos estar aqui a falar de décadas em que a temperatura da água vai continuar a aumentar?
Nós podemos estar a falar seguramente de muitos anos e de algumas décadas de um armazenamento extra de energia no oceano. Isto é muito relevante porque se nós continuarmos a ter este desequilíbrio de energia no sistema climático, as consequências vão ser, de facto, muito nefastas pra sociedade.
Obrigado, Pedro Soares, é físico da atmosfera e investigador na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e também no Instituto Dom Luís. Ajudou-nos aqui na Rádio Observador a analisar este estudo da Academia Chinesa de Ciências, que mostra que os oceanos atingiram nos últimos cinco anos temperaturas mais elevadas desde os anos 50. São números preocupantes.
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