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E o Campeão é edição especial até às 18h para a final da Taça de Portugal entre Sporting e Torreense, que deu a vitória à equipa de Torres Vedras. Eu sou a Maria João Simões, comigo e com o Bruno Viara Amaral estão Gabriel Alves, o Pedro Henriques e o sportinguista e também deputado do PSD, Cristóvão Norte. Bom dia aos três, bem-vindos.

Bom dia.

Bom dia. Cristóvão Norte, começo por si. O Sporting parecia ter salvado a época ao agarrar o segundo lugar da liga na semana passada. Ninguém esperava que perdesse esta taça para o Torreense. Rui Borges ainda tem crédito para continuar à frente da equipa graças à garantia do acesso à Champions?

Eu julgo que o capitão do Sporting ontem definiu de forma mortal o jogo. A frase de Ullman foi: "O Torreense quis mais." E dizer isto numa final de Taça de Portugal, quando a época do Sporting tinha ficado aquém no campeonato, porque o objetivo era ser tricampeão, tinha perdido a Supertaça, tinha perdido a Taça da Liga, fez uma extraordinária Champions, de facto, mas uma equipa que se propõe, depois de ser bicampeã, abrir uma era de domínio no futebol português, com as dificuldades que o Porto tem enfrentado ao longo dos últimos anos e com a turbulência que o Benfica não consegue disfarçar, é uma época que, ao contrário do que Rui Borges diz, que não é totalmente positiva, eu diria o contrário. Eu acho que, no campo geral, a época não é totalmente negativa. E, portanto, tenho muitas dúvidas que haja condições para que o treinador continue. Eu recordo-me, aliás, e provavelmente muitos se recordarão da debacle de José Peseiro em 2005. José Peseiro estava na luta pelo campeonato e estava na final da Taça UEFA. Nessa altura, o Sporting jogou em casa a final da Taça UEFA e em quatro dias perdeu tudo. Eu acho que o problema não é o Sporting ter perdido esta final, o problema é como a abordou e um conjunto de falhanços que se vieram acumular durante a época. Gestão do plantel, contratações falhadas, um discurso muitas vezes errático e nos momentos decisivos, a equipa não esteve à altura. E, portanto, obviamente, no futebol, como em tudo na vida, há responsáveis e podendo não ser o único responsável, obviamente o Rui Borges parece que não tem as condições para fazer do Sporting uma equipa dominadora no panorama do futebol português.

Já vamos falar mais sobre o futuro do Sporting, mas olhando para o mérito do Torreense, Gabriel, em 86 edições, nunca uma equipa do segundo escalão tinha levantado a Taça de Portugal. Tu que já acompanhaste tantas tardes míticas no Jamor, como é que explicas esta vitória do Torreense? É o triunfo do coração e da organização sobre um Sporting que parecia já ter a cabeça noutro lado?

Olha, as finais são para ganhar, bom dia.

Bom dia.

Foi lindo, parabéns para o Torreense. Fez a chamada festa da taça, foi arrebatador nesse sentido. Mostrou quão é real a utopia do futebol, acreditou. E o Torreense, de facto, entrou no jogo para ganhar a final da taça. A sua atitude foi expressa nesse sentido ao pontapé de saída e nas bolas paradas tirou o seu primeiro trunfo. Cedo marcou, depois soube estar, gerir, defender os seus interesses com um bom bloco, soube defender com inteligência e cabeça fria. Vontade, determinação, pundonor, pode-se dizer daqueles seus futebolistas, e até aquela capacidade de sacrifício que é preciso em alta competição, em tudo, desde futebol, basquete, ténis. Aliou também um índice de física de 120 minutos de jogo notável, que é preciso dizer aqui. Estou de acordo com o senhor sportinguista que está connosco, que é adepto do Sporting.

Cristóvão Norte.

Cristóvão Norte. Que é capitão do Sporting Clube de Portugal, o Dina Marques tem razão quando disse: "Eles quiseram mais." É verdade. Atenção que o Sporting tem muitos prolongamentos nesta edição da taça. Adiante, foram de facto os jogadores do Torreense mais capazes e daquilo que o Sporting mostrou, salvou-se o Cafetero. O Cafetero, que está a subir de forma, e eu deixo aqui um parêntesis, olha o mundial, olha o Portugal, olha a Colômbia, um golaço do Cafetero. Foi aquilo que salvou da equipa leonina. Foi o que de verde, digamos, saltou mais no Jamor, onde a indefinição da equipa e a pompa do grande não trouxeram maiorias.

Pedro, o Sporting até pareceu desmoronar no prolongamento, com a expulsão do Mati Elias no lance do penalty decisivo. O Sporting descontrolou-se ou não soube aproveitar os lances decisivos da partida?

Bom dia. É um bocadinho de tudo aquilo que já foi aqui dito. Eu acho que o Sporting acaba por também fazer cair aquilo que foi uma justificação que o Sporting acabou por dar muitas vezes, que era sobrecarga, jogos muito importantes, com três e quatro dias de diferença. E depois vem uma equipa de Liga 2, que não sabe o que é isso, vai encaixar três jogos seguidos, vem de um jogo duro, difícil, contra o Casa Pia, muito físico, e depois, quatro dias depois, chega ao Jamor e faz aquilo que se calhar pouca gente estava à espera de fazer. E portanto, cada vez mais, o que vem provar é uma teoria de que a atitude, a postura, o comportamento, a vontade, a parte mental do processo, quer do treino, quer do jogo, é cada vez mais relevante e importante. E isso ontem ficou. Ouvi comentadores, pessoas com muita experiência a falar que a maneira como o Sporting entra no jogo, na segunda parte, quando estava a subir as escadarias, parecia que faltava aquilo que nós costumamos ver, que é aquele olhar mais profundo do jogador que quer ganhar o jogo. E depois, claro, tem que haver sempre responsabilidades e responsáveis. É sempre fácil fazer o Totoloto ou o Totobola à segunda-feira, mas uma vez mais, é um Sporting que, no meu ponto de vista, peca em termos de liderança no que respeita ao seu treinador. E este treinador, Rui Borges, é o mesmo que em 18 pontos contra os seus rivais, apenas conquistou quatroÉ o mesmo que em jogos decisivos e finais, como é o caso da Supertaça, não ganha. Na meia final com o Guimarães, o Vitória Sport Clube consegue perder. É o mesmo que ontem, num jogo perfeitamente decisivo e que o Sporting tinha mais que a obrigação de ganhar, independentemente do mérito adversário, não só não ganha no jogo jogado, como não ganha na atitude, na postura e no comportamento. É lógico que a renovação foi feita, mais um erro de casting. É lógico que o Faé não sai do banco, o Luis Guilherme quando sai não resolve, mais um erro de casting naquilo que foi a grande calada para o Porto, o mau mercado de inverno do Sporting e portanto são demasiados erros naquilo que é o futebol. Claro que acima do Rui Borges está o Varandas, o presidente do Sporting, que porventura vai manter o seu treinador, obviamente, até porque fez uma renovação recente, mas presumo que é manter este tipo de atitude, este tipo de postura e esta mensagem que não passa entre o Rui Borges e os jogadores. O Sporting não vai ter uma época assim de novo fácil e os adeptos do Sporting, como qualquer clube grande, querem títulos, não querem chegar às finais, nem estar nas finais, que é o outro erro de casting quando se diz: "O importante é o Sporting estar nestes momentos decisivos." Não, isso é para o Torreense e para os outros clubes, para o Braga e para o Vitória Sport Clube. Para o Sporting e para o Benfica não é estar, é vencer. São coisas totalmente diferentes. Isso é mais um erro de casting nos discursos.

Bruno, aguentar o Sporting no prolongamento e ter a frieza de marcar aquele penalty aos 103 minutos é fruto de um plantel com uma experiência camuflada ou o Sporting facilitou tanto que tornou o Torreense maior, gigante?

É um pouco das duas coisas. O Stopira, que marcou o gol, tem 38 anos, é um central, foi convocado pela seleção de Cabo Verde pro Mundial, portanto, é uma época grande para este jogador, mas é um momento de grande pressão. Ele já tinha marcado um penalty nas meias finais contra o Fafe, também nos últimos minutos. Na altura, o Torreense já estava em vantagem, mas poderia confirmar. Eu acho que até o penalty de ontem foi mais bem marcado do que esse penalty contra o Fafe, mas a pressão do penalty de ontem era totalmente diferente, porque praticamente decidia o jogo. Primeira vez que o Torreense conquista este troféu, primeira vez que uma equipa da segunda liga conquista a Taça de Portugal, portanto, a pressão era enorme. Isso demonstra, de facto, que há muita experiência e o Torreense, por aquilo que fez durante esta época da segunda liga, mostrou que podia estar perfeitamente na primeira liga. Não é uma equipa inferior a algumas que estão ou que jogaram este ano na primeira liga. Dito isto, é importante também dizer que o Torreense ontem joga o prolongamento, como o Pedro Henrique já tinha dito, depois de um jogo ao meio de um playoff de acesso à primeira liga. Há aqui um problema de calendário que pôs também uma pressão acrescida sobre o Torreense, para mais tendo o jogo de ontem, a final, ido a prolongamento. E vamos ver como é que as coisas agora correm ao Torreense neste playoff, porque, claro, agora há um extravasar de emoções. Eu acredito que hoje ainda estarão a festejar. O treinador do Torreense disse que já ia preparar o jogo da próxima quinta-feira contra a Casa Pia, mas há aqui, é claro, uma certa descompressão, que eu acho que foi o que aconteceu ao Sporting. E aí a responsabilidade não é só do Rui Borges. Esta semana, depois do final do campeonato e com o segundo lugar garantido, falou-se muito das contratações, anunciou-se a contratação de Rodrigo Salazar. Outras contratações não foram confirmadas, mas estão praticamente certas e parece que houve, até da parte da direção, que nos outros anos tem feito isto como deve ser, ou seja, atempadamente, preparar a época seguinte com tempo. Agora parece que se apressou, porque esqueceu que havia um jogo ainda a disputar. Portanto, a responsabilidade é em primeiro lugar-

Não é exclusiva.

É sempre do treinador, porque o Sporting tinha a obrigação de ganhar o jogo contra uma equipa da segunda liga na final da Taça de Portugal, mas houve uma série de circunstâncias que são da responsabilidade também da direção, que ajudaram a criar um ambiente em que o Sporting entrou praticamente com a certeza de que o jogo estava ganho. E não estava, como aliás viu.

Cristóvão Norte, a vitória do Torreense, como temos estado a falar, baralhou as contas europeias. Eles vão direto à Liga Europa e atiram o Benfica para as pré-eliminatórias e o Braga para a Liga Conferência. Mas quem é que sai mais fragilizado deste fim de semana? Rui Borges, em Alvalade, ou Rui Costa, na Luz, que agora tem a vida ainda mais complicada?

Eu não quero ser sibilino nas críticas ao Benfica, porque o episódio entre Rui Costa e José Mourinho é uma coisa absolutamente constrangedora. O Benfica é uma grandíssima instituição e assistir a este impasse com o Real Madrid como pano de fundo é uma coisa que obviamente enfraquece a liderança do Rui Costa e é desprestigiante para o Benfica. Agora eu acho que o Braga passou a ser um dos favoritos a ganhar a Conferência League, coisa que na Europa League, porventura, não seria. E, portanto, abre caminho, financeiramente é pior, mas ainda assim a possibilidade de poder ganhar uma competição europeia tem um valor inestimável. O Benfica tem que começar mais cedo, mas em regra, vai ter que fazer uma coisa talvez semelhante entre a pré-época e vai ter que mesclar com jogos da fase de acesso. E aí, porventura, a maioria das equipas que estão nessas primeiras pré-eliminatórias são equipas muitíssimo acessíveis para o Benfica

Creio que, salvo melhor circunstância, o Benfica conseguirá fazer essa gestão. Obviamente, essa fatura pode-se pagar, se a época começar mais cedo, passar a ser mais longa, mais carregada no calendário e, porventura, isso terá um preço. Agora, quem ficou realmente a perder foi o Famalicão, que fez uma época extraordinária. Ficou em quinto lugar e perdeu o acesso às competições europeias. Isto também não é a melhor coisa para Portugal, por uma razão muito simples: depois colocam-se aqui questões dos coeficientes e do acesso de três equipas à Liga dos Campeões, que é fundamental para a subsistência do futebol português e para a sua relevância do ponto de vista desportivo, financeiro e por aí fora. Que é equipas que depois vão ter muita dificuldade. Não é crivelo. Ontem também não era, mas não é fácil que o Torreense faça uma grande campanha nas competições europeias, como é evidente.

Vamos para a prazer. Vamos então às notas. Quem é o vosso campeão da final da Taça de Portugal, Gabriel Alves?

Campeão da final da Taça de Portugal, o Torreense conquistou contra tudo e contra todos. A utopia do futebol que eu falo tanto e fez por isso. Entrou para ganhar, ganhou. Portanto, é sim para o Torreense, mas eu não quero deixar de dar aqui um vento a outra situação, porque foi de facto emblemática ao nível planetário. E aquilo que é ao nível planetário e fala português, é importante para todos nós. É a despedida do Bernardo Silva ontem no Etihad Stadium. Foi fantástico, fabuloso, muito bom, porque foram os ingleses da Premier League a condecorar. É isto. Um futebolista que esteve nove anos ao serviço do City, daquela forma, num abraço completo, numa cidade que de facto mostrou a Bernardo Silva quão ele foi importante para aquele grande clube e para um treinador chamado Pep Guardiola, cujas lágrimas caíram pela rosto abaixo. Vito para os dois e para, naturalmente, a cidade de Manchester, em Inglaterra.

Pedro Henriques, e o teu campeão?

Para além do 20 para o Torreense pelo mérito, zero naturalmente para o Sporting pelo demérito e depois para o dress code.

Para o dress code?

Sim, para a parte de fashion. O árbitro vestiu uma camisola retro horrível, feia, que me lembra os piores tempos de arbitragem e que eu infelizmente também tive que passar por lá. Além disso, televisivamente confundia-se claramente com o branco da camisola verde do Sporting. Eu nunca sabia onde é que estava o árbitro, televisivamente. Sei que no estádio não havia esse erro. E depois para o dress code do Rui Borges, que não sei se aquilo era castanho, se era graná. Se era graná, foi mau gosto, porque graná é a equipa adversária. Se era castanho, também não fica muito bem. Um treinador também tem que ter essa preocupação na maneira como veste, como todas as outras pessoas, como se apresenta. E portanto, se o Sporting é verde, o treinador tinha que ir em final de Taça ou muito bem vestido com a roupa oficial ou então de preto. Não, como é óbvio. Até nesse aspeto há tanta coisa a mudar. A imagem hoje é extremamente importante para todos, sobretudo para quem é figura pública. E ontem não correu bem. Não é, Rui Borges?

Quanto é que dás ao dress code?

Não sei. Olha cinco, porque realmente muito maus todos.

O Pedro Henriques estava na expectativa de haver um dress code que imite o que nos anos 80 foi o párca nauta.

Isso é que era, com lacinho e tudo. Eu estive lá nesse jogo em Pinhalnovinho, onde o Braga ganhou 4x0. Estive lá a assistir.

Bruno Gueira Amaral.

A minha nota vai para o Torreense, mas queria particularizar, quer no treinador, Luís Tralhão, que também é um dos obreiros, dos principais responsáveis por esta vitória, mas no Stopira, que ontem marcou o golo decisivo. Eu gosto destas histórias dos jogadores que passam uma carreira inteira fora dos grandes palcos, mas que insistem, continuam lá e depois são recompensados quase no final. Lembra-me um pouco a história, que é diferente, porque foi um jogador que jogou a um outro nível, do José Fonte na seleção portuguesa, que acabou por ser campeã europeia, depois de uma carreira que não chegou tão longe quanto se poderia esperar, mas teve essa recompensa no final e para Stopira foi sem dúvida ontem o ponto alto da carreira, marcando o golo decisivo. E agora também com esta expectativa do que poderá fazer a seleção de Cabo Verde no final. Dou um 20.

20. Cristóvão Norte, só falta a sua nota. Para quem vai?

Eu dou 20 para o Torreense, a nota para o Sporting acho que já foi dada. Mas já que o Gabriel Alves estava a falar de fenómenos à escala planetária, eu permito-me recordar aqui outro, que é o Afonso Selalho, no ciclismo, que foi nove dias líder da Volta a Itália e tem um bocadinho aquilo que nós ontem testemunhámos do Jambor. É o testemunho, é a fortaleza física, é a fibra, é a vontade de lutar, é a ambição. E foi isso que o fez estar nove dias e foi isso que fez o Torreense vencer a partida, que acreditou, lutou, organizou-se, foi uma equipa disciplinada, foi uma equipa que acreditou sempre. E isso conta. E ontem perdeu o jogo, mas fez toda a diferença com a sua atitude, com a entrega, com a determinação que teve. E portanto, fica uma história fascinante para o Torreense, para o Afonso Selalho e para todos aqueles que testemunharam que daqui a muitos anos, mesmo aqueles como eu, que queríamos que o Sporting ganhasse, daqui a muitos anos recordam que o Torreense ganhou uma Taça de Portugal. Isso valoriza o património histórico e as ideias da Taça de Portugal. Eu também já tinha estado lá noutra ocasião com o Ference, que esteve a um palmo, com uma grande defesa do Melo em 1990, de ganhar a Taça de Portugal na segunda divisão. E lembro-me bem o que foi aquela romaria e portanto compreendo bem o significado que isto tem para a história do Torreense.

Cristóvão Norte, Gabriel Alves, Pedro Henriques, muito obrigada aos três por este "E o Campeão É". Um bom dia e boa semana.

Bom dia.

E o Campeão É regressa depois do Jornal da Uma.