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Bem-vindos de resto a mais um "E o Resto é Ciência". Eu estou aqui com Miguel Miranda. Miguel Miranda, geofísico, antigo presidente do IPMA, académico. Temos falado de muitos temas, eu sou o João Manuel Fernandes e hoje vamos falar de um tema que mistura fascínio com alguma inquietação. E estamos a falar de algo que aconteceu. O pretexto mais próximo é um acontecimento raro nos céus de Portugal, mas tivemos a oportunidade de ter um acontecimento desses já este ano, em janeiro, e que foi o aparecimento em algumas regiões de Trás-os-Montes, Vila Pouca de Aguiar, Bragança, Macedo de Cavaleiros, de auroras boreais. Aurora boreal é quando, de repente, à noite, o céu fica colorido. Várias cores que variam, já vamos falar um pouco porque várias cores, e é um fenómeno muito raro esta latitude. É um fenómeno que acontece habitualmente na Lapónia, no norte da Noruega, naturalmente na Groenlândia, e depois as auroras austrais também ocorrem no Pacífico Sul, nas zonas da Patagónia, Antártida, ilhas Falkland, são um sítio onde de vez em quando também se observam, assim como no sul da Austrália. O interessante aqui é que elas podem ocorrer com alguma regularidade. Nós tivemos esta em 2026, tínhamos tido um outro fenómeno com algum relevo e também nas mesmas regiões, talvez um pouco mais ao sul, mas também há notícia dele em Viseu, em Seia, em Sertã e Oliveira, que em 2024, portanto dois anos antes, faz agora dois anos, foi em maio de 2024. Miguel, este é um fenómeno que nós só percebemos realmente como é que se formava há pouco tempo. Apesar de haver quem tivesse tido umas explicações ainda no princípio do século passado, mas a explicação mais segura é da década de 60, tem poucos anos.

E de certa forma acompanha a aventura espacial. As auroras boreais são fenómenos geofísicos que são razoavelmente conhecidos. Se bem que a maioria das pessoas só viu na televisão.

Vive pouca gente na Lapónia.

Vive pouca gente na Lapónia e nós não temos uma grande tradição de turismo no norte da Europa, se bem que seja uma zona até muito bonita e que vale muito a pena visitar. E a existência de auroras boreais visíveis durante o século XX no continente português já aconteceu muitas vezes. Nós agora temos uma grande diferença, que é que temos smartphones, nós podemos fotografar.

Toda a gente tira fotografia.

Toda a gente tira fotografias e é interessante ver como é que numa noite escura, de repente, o céu se ilumina com cores que são o vermelho, o rosa, o verde, o violeta. Eu já estive na Lapónia, obviamente.

Esse obviamente é um bocadinho .

Eu sou supersticioso para estar nesses sítios. E na altura o que eu vi mais foi o verde e o violeta, era aquilo que era mais visível.

Já estive nas Açores, não na Lapónia, mas em Svalbard, mas não tive essa sorte.

Não tiveste essa sorte. Isto depende muito também da sorte, do dia em que se chega. Até porque a maioria de nós que lá anda trabalha na própria indústria do turismo. Portanto, temos pouco tempo para observar. Em Trás-os-Montes existe uma pessoa, o Márcio Santos, muito conhecido, que mantém um site na internet chamado "Meteo Trás-os-Montes", que dá informação sobre a meteorologia, também tem informação sobre fenómenos geofísicos.

E não é um daqueles sites que às vezes são um bocadinho manhosos.

Não, é um site que tem muita informação sobre a região de Trás-os-Montes, consegue obviamente na região ultrapassar todas as autoridades nacionais em termos da disponibilidade de informação e ele tem sido incansável na capacidade de recolher imagens destes acontecimentos, como também recolheu já agora dos fenómenos extremos mais recentes que afetaram muito o norte de Portugal.

Estavas a falar que tinha havido um fenómeno talvez com uma dimensão ainda maior. Aí é uma data curiosa.

Em 38.

1938.

Existe um acontecimento histórico que, na altura, teve um impacto enorme em Portugal continental e que foi o que ocorreu na noite de 25 pra 26 de janeiro de 1938, quando auroras boreais de grande expressão foram vistas em grande parte da Europa, em particular em Portugal, mas também em Espanha, Norte de África, até em zonas do Mediterrâneo, latitudes ainda mais a sul do que nós. O céu ficou iluminado com tons intensos de vermelho, laranja e rosa. Daqui a pouco podemos ver porque é que estas cores podem variar e foram visíveis a olho nu, e o facto de terem predominado as cores laranja e vermelho fez com que elas foram confundidas com um fogo, um grande incêndio que se visse no horizonte. E as corporações de bombeiros, inclusivamente, tocaram o alarme.

Tocaram o alarme para o carro de Oporto, não é para chupar a síntese.

Exatamente, para se ver a que distância que se imaginava que estava o incêndio. E expressa um bocadinho, de certa forma, aquele tsunami falso do Algarve, que foi visto à distância. Porque estas ilusões de ótica, quando são muito pervasivas, acabam por ter um impacto muito grande sobre as pessoas. E para se perceber que isto não é uma coisa contada apenas de memória mal mantida, eu até fui buscar a primeira página do Diário de Lisboa do dia 26, que tem o título seguinte, maravilhosoUma formosa aurora boreal criou ontem à noite no céu poente, colorido de vermelho folheado, com laivos de branco e verde incandescentes, um grandioso cenário dos que na imaginação do povo indicam o senhor do mundo por meio de um sinal apocalítico. E depois termina a dizer: "O caso considerado friamente não gera lívidos pavores, pois está dentro das maravilhas da natureza".

Escrevia-se com alguma retórica na imprensa da época, um deles muito em particular. Antes de irmos à data, porque cada data tem que se diga. Antes de irmos à data, por comparação com o que aconteceu este ano, são 88 anos que passaram entre um e outra, entre os dois eventos. Esta data tem alguma coisa de especial, não é? Vamos lá ver, não tem alguma coisa de especial, mas poderia ter.

Esta data é muito especial, e é muito especial porque este fenómeno foi associado quase que imediatamente às profecias de Fátima. Como tinha que ser, porque em 1917 a irmã Lúcia teria relatado que Nossa Senhora lhe teria dito que antes de uma Segunda Guerra Mundial seria vista uma noite iluminada.

É preciso recordar, 1917, a Primeira Guerra Mundial ainda não tinha acabado.

E portanto estava a falar de uma segunda.

Uma segunda, já.

E portanto, ao não ter acabado, ela dizia: "Será uma noite iluminada por uma luz desconhecida" e quando a aurora de 38 é vista pelo país inteiro, é interpretada até pela própria irmã Lúcia como sendo esse sinal e, portanto, como uma nova guerra estava a começar.

E começaria essencialmente um ano depois, em 1939, setembro de 39, quando a Alemanha invadiu a Polónia. Mas agora há uma coisa interessante que é 1938, 2026, 88 anos de distância. 88 é um múltiplo de 11. Por que eu estou a falar de ser um múltiplo de 11? Porque aparentemente há uma propensão de 11 em 11 anos para ter estes fenómenos, não é obrigatório.

Vamos lá ver. Há dois efeitos aqui que é preciso considerar e que são independentes. O primeiro efeito é o que a atividade solar, porque tudo isto tem a ver com o Sol. Todos estes fenómenos, auroras boreais, têm a ver com a interação entre o Sol e a Terra e portanto, o Sol é um astro que tem uma grande variabilidade. Essa variabilidade é conhecida há muito tempo e há muito tempo que se sabe que há um ciclo de 11 anos de aumento e diminuição dessa variabilidade.

Ou da atividade, mais propriamente.

Da atividade. E vou ser mais claro: quando se olha para o Sol com vidro opacificado, é possível verificar ao longo do ano que existe um conjunto de manchas negras. Manchas negras que podem ser contadas. Sabemos que quanto mais manchas o Sol tem na sua superfície, mais ativo está o seu campo magnético. E num ciclo de 11 anos, sobe e desce essa atividade, mas se nós olharmos não só para a atividade, mas também para a sua polaridade, o ciclo é de 22 anos, porque na verdade o Sol inverte a sua polaridade do campo magnético cada 11 anos.

Tu quando falas de atividade, não falas só da atividade do campo magnético, falas também das tempestades solares.

Porque as duas coisas estão ligadas. E as tempestades solares, o que elas são essencialmente, são fluxos grandes de partículas eletrificadas, elétricas, que são emitidas pelo Sol e que são encaminhadas para a Terra.

São partículas, o que chega à Terra vindo do Sol não é só a luz, a luz viaja a 300 mil quilómetros por segundo, são partículas ionizadas e que viajam também muito depressa, mas não tão depressa.

Não tão depressa. Mas há aqui uma coisa que às vezes não é bem compreendida. Nós vivemos na superfície deste planeta, mas temos várias proteções muito importantes. Nós temos a proteção da ionosfera, que nos protege da radiação ultravioleta. Se nós não tivéssemos a ionosfera, na verdade, a radiação ultravioleta tinha efeito dramático sobre a pele das pessoas.

Em parte sobre a pele, mas também seria uma radiação que era capaz de destruir a própria capacidade do DNA, das cópias a fazer naturalmente.

A estabilidade da nossa herança genética. Mas para além disso, também temos o tal vento solar, que é este fluxo enorme de partículas carregadas que não atinge toda a superfície da Terra porque o campo magnético da Terra as desvia, faz uma espécie de escudo magnético, que leva a que essas partículas são desviadas, colocando-se em dois grandes lobos, que são conhecidos pelo nome das cinturas de Van Allen, que aparecem muitas vezes nos filmes de ficção científica.

Por que aparecem nos filmes de ficção científica?

Porque elas interagem muito com as viagens espaciais. E é por isso que, como dizias ao princípio, foi o início da exploração espacial que levou à grande necessidade de se conhecer melhor aquilo que hoje em dia se chama o tempo espacial, the space weather, que é exatamente a geometria deste campo, que é alimentado pelo vento solar, mas que depois é condicionado pelo campo magnético da Terra. E o campo magnético da Terra deflete-se de tal forma que ele fica achatado na relação que há entre a Terra e o Sol e depois prolonga-se com uma grande cauda no sentido contrário.

Uma expressão que as pessoas podem perceber é que são uma espécie de donuts. Donuts são aqueles anéis com um buraco a meio.

Porque as cargas que não conseguem chegar à Terra, porque são desviadas pelo escudo, que vão depois formar um donut de partículas carregadas, que tem que ser atravessado por uma parte importante das viagens espaciais, não por todas. E esta questão da variação da atividade solarÉ uma questão que preocupou e interessou muito os astrónomos, mesmo numa altura em que não havia a mínima ideia porque é que o Sol tinha manchas ou deixava de ter manchas, mas que se contassem as manchas que havia no Sol, havia o tal ciclo de 11 anos e isso mostrava que havia uma subida e uma descida. E é interessante perceber-se que quando foi a primeira grande época de polémica sobre a mudança do clima, nos anos 80, ainda havia muita gente e grandes cientistas convencidos de que estávamos a observar apenas um ciclo de variação solar. Só que desde então até aqui já passaram vários ciclos.

Sim, esses ciclos que vão passando podem ter alguma influência. Não ser linear. Cada vez que há um ano em que de repente não aquece mais ou um ano em que de repente não aquece, não é a evolução linear das alterações. Todas as pessoas: "Afinal de contas estavam enganados." Mas não, os anos não são todos iguais. A nossa memória, já falámos disso aqui, é muito curta, mas nós temos naturalmente flutuações. Agora, o sentido é um, não é?

Claro, e sobrepõem-se todos estes sinais. É importante perceber-se que nós estamos a falar de um sistema que é mantido pelo campo magnético da Terra, que nós nem temos uma ideia. Temos modelos que são quase consensuais do que forma e como é que vai evoluir o campo magnético da Terra, mas não está escrito na pedra. Nós vivemos de muita modelação.

O campo magnético, havemos de falar melhor dele. Agora, este tema do vento solar e da dinamismo espacial solar, apesar de tudo, é conhecido há muito. É conhecido pelos chineses há mais de 1000 anos.

Sim. E portanto, o que é preciso perceber é que devido a esta forma como está, o campo magnético da Terra tem um polo norte e um polo sul. Daquilo que ainda falaremos sobre isso, o polo norte está mais ou menos perto do polo norte geográfico e o sul perto do polo sul geográfico, não é bem perto, mas nessa região. E nessa região uma parte do vento solar consegue penetrar na atmosfera. E ao penetrar na atmosfera, este vento solar vai interagir com os átomos dos gases que existem na atmosfera e é essa interação que dá origem às cores. Portanto, como se aprende na Física do ensino secundário, a radiação normal é muitas vezes realizada pelo facto de os eletrões dos diferentes gases transitarem entre vários níveis de energia. Quando recebem energia, sobem de nível de energia e quando descem de nível de energia, reemitem sob a forma de radiação. E aí surge a cor, porque é evidente que estes saltos de energia são quantificados, quer dizer que são sempre iguais, são sempre do mesmo nível de frequência. E agora, conforme nós temos o oxigénio que está a ser atingido, ou temos o azoto que está a ser atingido, ou os dois, e conforme a altura a que estão a ser atingidos, nós vamos ter as diferentes cores.

Porque isso passa-se em média, um bocadinho acima, um bocadinho abaixo de 100 quilómetros.

Exatamente. E assim essas transições vão-nos dar as diferentes cores e é por isso que nós podemos ter situações em que ele é mais verde, outras em que é mais vermelho, outras em que é mais roxo ou mais azul, mas sempre belíssimo e sempre iluminando o céu da noite.

E sempre variando um pouco. Mas continuando sobre isso, como é que se explica que fique tão azul?

E aí temos o problema do campo magnético da Terra que está a proteger, o tal polícia do vento solar, que tem variações também.

Portanto, temos a conjugação de períodos de maior atividade, portanto, maior intensidade do vento solar e períodos também de variação do campo magnético, que pode ser mais forte ou mais fraco.

É, mas para isso temos de começar atrás. Temos de chegar, voltar à dinastia Song.

Tu vais lá a dinastias. Isto é muito atrás.

Todas as civilizações tiveram períodos de ouro. Nós identificamos com o século de Péricles, quando estamos nos nossos momentos mais positivos ou com o Renascimento. Mas a China teve também uma dinastia que foi fundamental para a descoberta de muitas das coisas que mudaram a vida da Terra. E foi a dinastia Song, a tal dinastia que foi destruída pelo Kublai Khan.

A dinastia Song apanha viragem do milénio.

Exatamente.

Viragem do primeiro milénio, é isso que estamos a falar.

Viragem do primeiro milénio, certo. E para se perceber que foi nessa dinastia que foi descoberta a imprensa com caracteres móveis.

Aliás, é uma coisa, deixa-me fazer aqui um parêntesis, é um tema que me fascina imenso, como deves imaginar. E é muito curioso como é descoberta na China cerca de 500 anos antes do Galileu e não tem o efeito na China que o Galileu tem na Europa por causa do poder central, porque o poder central não permite que se vulgarize a imprensa como depois se vulgariza em Europa.

Também não permitiu que se vulgarizasse a pólvora, portanto, deixa que também descobriram, nem o papel moeda, nem a porcelana e descobriram a bússola. E a bússola foi das primeiras grandes descobertas que deu origem mais tarde à exploração da Terra.

Iremos a isso na segunda parte do "Eu Resto a Ciência". Agora fazemos um pequeno intervalo. Estamos de regresso dentro de alguns minutos. Miguel, ias começar a falar da bússola. A bússola não é a descoberta que existe magnetismo. Porque já se conhecia antes, mas há qualquer coisa a mais.

A bússola é o sinal de que quando se colocava em cima de um líquido, suportado ou não por um material que flutuasse facilmente, como a cortiça, não seria a cortiça deste iação, mas sim algo equivalente.

Um pedaço de madeira.

Um pedaço de madeira e que se colocasse em cima uma forma alongada, metálica magnetizada, que ela se orientava sempre da mesma maneira, indicando o norte.

O sul.

E o sul.

É o oposto do norte.

Mas a bússola que na altura foi descoberta, ou seja, o facto de que a agulha magnetizada podia ser usada para navegação, está descrito nos chineses em 1088, numa obra com título poético, como sempre, que são os "Ensaios sobre a Piscina dos Sonhos". Mas a bússola que nós conhecemos hoje em dia, que tem o quadrante, o norte, sul, este, oeste e desenhada dessa maneira, é uma obra ou dos portugueses ou dos italianos. Já tivemos aqui a oportunidade de chamar a atenção que naquele tempo os portugueses e italianos não estavam longe, estavam perto. Quem estava longe era os portugueses de Madrid, não era os portugueses de Génova.

A Rosa dos Ventos, há dúvida se foi um desenhador italiano ou um desenhador português.

E também não haverá grande diferença, porque visto do trono do Clube Leicão, devo-vos avisar que somos muito parecidos. As rotas do Ocidente trazem para a Europa esse conhecimento, é criada a tal Rosa dos Ventos que estivemos a falar e ela vai ser instalada essencialmente nos navios. É verdade que, como já havia navegação astronómica e portanto se sabia que o norte se podia definir muito razoavelmente pela posição da estrela polar, que se verifica uma diferença entre as duas direções. A direção do norte e a direção do norte magnético e do norte geográfico, e essa diferença chama-se declinação. E o primeiro tratado científico que é escrito sobre a declinação magnética é português, é do João de Lisboa, e é muito importante a sua utilização em toda a fase dos descobrimentos, porque nessa fase a maioria dos navios que saem de Lisboa são obrigados ou são influenciados para fazerem essas medições de forma regular e poderem haver o mapa da declinação do campo magnético. Por exemplo, aqui em Portugal não sei quanto é que é agora, mas andará pelos 180 graus, porque se pensou que ele poderia resolver o problema das longitudes.

Foi mais complicado resolver a longitude, mas esse é todo um outro tema. Seja lá como for, através do campo magnético, nós podemos também medir a latitude, de alguma forma. Porque há bússolas.

Verticais e horizontais. Isso é outra coisa que também é preciso perceber-se bem. Quando se começou a fazer uma bússola que não tinha líquido, na verdade, estava suspenso num pivô, verificou-se que havia duas formas de a colocar, que era de uma forma horizontal, que é o que toda a gente normalmente conhece, essas bússolas dos escuteiros, mas na verdade ela podia ser montada na vertical. E quando ela era montada na horizontal, mediamos a declinação, e quando era montada na vertical, mediamos a inclinação. E quando ela era usada para medir a inclinação, nós podemos usá-la para saber onde é que está o pólo norte magnético e o sul magnético, porque é aquela em que entrará o local em que a bússola de inclinação apontará para baixo.

Portanto, ao apontar para baixo, quer dizer que de alguma forma é vertical. Apontar para baixo se estiver totalmente vertical no pólo magnético. Se estiver fora disso, tem uma inclinação e essa inclinação pode-se deduzir dela a latitude.

Exatamente. E foi a partir daí, aliás, devo dizer que isso é que está na base do paleomagnetismo, nós nunca falámos aqui, mas poderíamos vir a falar, que existe uma relação direta das duas coisas, porque as rochas magnéticas, desculpa, porque as rochas ígneas, em particular por exemplo os basaltos.

Os basaltos. As rochas que arrefecem.

Arrefecem depressa. Porque arrefecem depressa, grava o campo magnético e grava a inclinação do campo magnético. E se nós soubermos essa inclinação, nós somos capazes de saber em que latitude é que elas foram criadas. Pronto, é esse o problema essencial.

Que não é um detalhe, porque se nós soubermos em que latitude foi formada uma rocha e se as rochas estiveram noutra latitude, é preciso perceber porque é que ela mudou de latitude. E isso ajudou a fazer a deriva dos continentes.

Tudo o que se sabe da deriva dos continentes.

Tudo o que se sabe da deriva dos continentes.

É importante também perceber-se uma coisa. Nós temos o nosso campo magnético alinhado com o eixo geográfico. Pois é que o norte magnético é perto do norte geográfico, mas isso não se verifica em todos os planetas. Tem que se perceber, por exemplo, que em Úrano nós temos um ângulo de cerca de 60 graus e em Neptuno 47. Portanto, esta questão de termos o campo alinhado é também um problema em si, porque é que o nosso campo está alinhado com o campo geográfico?

Primeiro que tudo, qual é a origem? O que é que gera o campo magnético?

Essa é uma discussão muito velha, porque nós só conhecemos duas formas de fazer magnetismo. Uma é tendo uma corrente elétricaA mover-se. Estamos a dizer que o campo pode, por exemplo, fazer uma espira, é o que se faz aquele sem um eletroímã. Quando se vê nos filmes em que estão a destruir aqueles carros e carrega o carro com o ímã, é um eletroímã, não é um íman natural, não é magnetite. Ou então temos a possibilidade de ter influência magnética, porque do ponto de vista cristalino, nós temos uma estrutura dos átomos de ferro que nos cria esse campo magnético. Isso tem a ver com o alinhamento dos spins, para quem já leu qualquer coisa de microfísica. A grande questão é assim, não sendo possível nós imaginarmos que estamos a falar de magnetização permanente, porque o centro da Terra está tão quente que não pode ter magnetização permanente. A magnetização permanente desaparece num valor que se chama a temperatura de Curie e estamos a falar de poucas centenas, 300 ou 400 graus, não é mais do que isto, e portanto o manto não pode ter magnetização permanente. Não tendo magnetização permanente, o problema é ter uma corrente elétrica a dar a volta.

E é essa corrente elétrica que de alguma forma-

Tem que criar isto.

Tem que criar isso.

O que é essa corrente elétrica? E aqui há uma situação detectivesca. Ia tentar lembrar-me do nome do mais conhecido detetive inglês.

Poirot? Não, Poirot não.

Não, Poirot é francês.

Sherlock Holmes.

Sherlock Holmes. É um problema de Sherlock Holmes. O que pode lá estar? E uma das questões, que já falámos aqui, tem a ver com o facto de ser hoje em dia razoavelmente possível saber a constituição química do Sol por espectroscopia, pelos espectros que são emitidos pelo Sol. E ao se comparar a composição química do Sol com a composição química da superfície terrestre, que é aquela a que nós temos mais acesso, e já agora, ao comparar também com a composição química de muitos dos meteoritos que caem na superfície, nós verificamos que na Terra nos falta uma coisa. E o que nos falta é o ferro. Nós não temos ferro, o ferro desapareceu, o ferro sumiu-se. E quando se junta-

Quer dizer, sumiu-se, não está na quantidade que se esperava.

Para algum sítio foi.

Não existe na quantidade que se esperava. Pelo menos à superfície.

E portanto, daí é que se deduziu que provavelmente estaria ferro num estado líquido perto do centro da Terra. E quando a sismologia percebe que há umas ondas sísmicas que atravessam os líquidos e outras que não atravessam os líquidos, chegou-se à conclusão que havia uma zona grande do núcleo da Terra que devia estar na origem do campo magnético da Terra. Agora, esse campo magnético da Terra, já vimos quando falámos do Sol, primeiro pode-se inverter, segundo, pode não estar alinhado com o eixo geográfico e portanto toda a questão que está aqui-

Essa parte de não estar alinhado, há uma coisa que nós também sabemos, é que o polo norte magnético mexe-se, não está sempre no mesmo sítio.

Pronto. E nós temos aqui duas coisas, que são duas descobertas do século XX. O campo magnético mexe-se, já era no século XX, mas as inversões é século XX. Portanto, vamos começar pelo primeiro. O campo mexe-se. Quando nós usamos a bússola na formação vertical, nós vamos à procura do polo magnético norte e nós verificamos, ao longo das décadas, que ele muda de sítio, que ele está a migrar.

Por exemplo, ele já esteve mais perto do Canadá, agora está mais perto da Sibéria.

É das poucas coisas que migra do Canadá para a Sibéria.

E eventualmente vai ser ao contrário.

Eventualmente vai ser ao contrário, mas o polo magnético tem migrado nesse sentido e tem migrado a uma velocidade significativa. E nós podemos fazer outra coisa. O Gauss, que é um dos melhores matemáticos e uma referência para os geofísicos do século XIX, percebeu que para compreender o campo magnético da Terra, tinha que o medir em todo o planeta e criou as primeiras redes de observatórios. Nós também tivemos um, Portugal também fez parte desse esforço. E usando esses observatórios, ele chegou à conclusão não só da forma dipolar do campo magnético, ou seja, tinha um polo norte e um polo sul, não era um quadrupolo, era um octópolo, era um dipolo, essencialmente, e qual era a sua intensidade, a sua magnitude de dipolo. E quando nós vemos ao longo do tempo a magnitude dos dipolos, e hoje em dia temos que o fazer porque os satélites dependem disso, os aviões dependem disso e muita coisa na Terra depende disso, nós verificamos que o campo também se está a enfraquecer.

Esse é um ponto muito interessante, porque o enfraquecimento não é instantâneo, mas é um sinal de uma coisa que tu já sugeriste aí, que é de um dia para o outro, como quem diz, mas de um dia para o outro isto pode mudar. De repente, o polo sul sendo polo norte, o polo norte, o polo sul.

E aí temos o Vane e Mathews. Vane e Mathews são dois geofísicos que começaram a fazer o primeiro grande levantamento de como é que era a magnetização das rochas perto das cristas médias, onde na altura já havia a ideia de que podia ser ali que se estava a formar a crosta terrestre.

Portanto, estamos a falar, no caso deles penso que foi no Pacífico, que eles fizeram estes estudos, mas também estamos a falar, por exemplo, da crista média do oceano, que fica nos Açores.

Exatamente, e a norte dos Açores também houve um trabalho entre os Açores e a Islândia. É preciso, nós temos sempre que bem puxar a brasa à nossa sardinha, repor a verdade histórica, que a magnetização das rochas foi pela primeira vez claramente observada e quantificada pelo João Castro, porque na Ásia encontrou formações que tinham tal quantidade de magnetite que a bússola se chegava.

Interferiam com a bússola.

E isto levou à primeira grande credibilização científica da magnetização das rochas. Mas havendo essa magnetização, foram inventados aparelhos capazes de a medir, os chamados magnetómetros, aliás, a primeira geração até pelo próprio Gauss, e ao fazer esses levantamentos do fundo do mar, ele concluiu que havia zonas com o campocom uma polaridade e zonas com polaridade contrária. Isso foi importante por duas coisas ao mesmo tempo: uma, pra perceber que era ali que a crosta se estava a formar e com que direção se estava a formar. Hoje em dia, toda mundo sabe isso, porque isso é ensinado nos livros de escola, mas permitiu também perceber que o campo magnético tinha que se inverter. Repara, isto é um pouco antes de se perceber que uma parte do mecanismo solar, que estávamos a falar há bocado, também tem a ver com a inversão do campo magnético do Sol. E, portanto, nós temos aqui uma coisa que é instável. Aquilo que nós pensávamos que era estável, que era seguro, que o campo que estava hoje era o campo que estaria amanhã e que a mesma bússola que se usava há 100 anos, se usava agora, apesar de saber que a polarização varia com o tempo e varia de forma significativa.

A forma de ler a bússola vai mudar.

A bússola vai ser diferente. Mas descobriu-se que, atenção, nós temos aqui um problema: o campo pode inverter-se. E é interessante também saber-se que a última inversão do campo magnético que está completamente reconhecida pela geologia é a inversão Brunhes-Matuyama, que passa a meio da Ilha do Faial. Portanto, a Ilha do Faial tem uma zona que é anterior a 700 mil anos e uma zona que é posterior a 700 mil anos.

Portanto, essa inversão deu-se há cerca de 780 mil anos.

É a última grande inversão.

A última grande inversão. Agora, esse estudo que tu citaste, refere que essas inversões poderão ocorrer cerca de quatro vezes em cada milhão de anos. Portanto, nós já estamos com 500 mil anos de atraso.

As nossas especialidades estão com atraso. O que nós temos é uma situação que temos um campo que está a ficar cada vez mais fraco, ele perdeu cerca de 10% desde o princípio do século XX. Temos um campo em que o pólo magnético norte está a migrar.

E ficar mais fraco, pode ser apenas uma flutuação ou pode ser um sinal de que estamos a caminho de uma inversão.

Exatamente.

Nós não medimos a inversão diretamente.

Exatamente. O tempo da inversão é um tema científico muito complexo. Já houve ideia que era mais rápido do que, por exemplo, hoje se está a concluir. Pode ser tanto um processo-

Pode levar o quê? 10 anos ou 5 mil anos?

É aí que está. Já agora, tenho que fazer aparecer aqui outra figura geofísica. Por vezes não há bem uma inversão, mas há uma quase inversão que volta pra trás. Há um passeio do campo magnético. Isso existe datado e bem conhecido de tempos pré-históricos. Essencialmente gravado em tesouros, que os arqueólogos são capazes de medir. E, portanto, o que nós temos a certeza é o seguinte: um destes passeios pode ser feito em dezenas de anos, centenas de anos. Uma inversão, pensa-se que são alguns milhares. Mas atenção, tudo isto é indireto, tudo isto são modelos, tudo isto são observações de coisas que já existiram.

Portanto nunca há registros científicos.

Não é possível.

Não é possível, porque precisamente a história registrada tem pouco mais de 4 mil anos, se formos até aos egípcios ou até às primeiras civilizações, ao Vale do Tigre, do Eufrates, do Indo, não chega pra conseguir registrar estas coisas. Portanto, nós podemos estar em parte nenhuma ou podemos estar a meio de uma inversão.

Uma coisa a gente sabe: é esta variação da posição da estrutura do dipolo magnético, que tem a ver com uma coisa que é anomalia do Atlântico Sul, que poderíamos falar noutra altura, que está neste momento a suavizar-se, que facilita a observação das auroras boreais mais a sul. E portanto, o fato de nós estarmos a observar em Trás-os-Montes, de forma razoavelmente significativa, este tipo de fenômenos, e já se começaram a observar, como disse há pouco, até a sul de Trás-os-Montes, é um efeito muito provável de que a estrutura e a geometria do campo magnético da Terra está a sofrer uma variação.

O que pode acontecer? Nós temos, como tu referiste há pouco, uma quantidade de aparelhos dependentes do campo magnético, mas temos muita biologia também dependente do campo magnético.

Muita! Tartarugas, baleias, abelhas.

Jogamos com pombos correios. Tudo isso orienta-se pelo campo magnético. Nós nem sabemos, às vezes, todo o mecanismo em detalhe, isto de repente se muda.

Existem estudos, aparentemente, algumas espécies conseguem adaptar-se com alguma rapidez e outras não. Sabemos que é um processo que é rápido na escala geológica, mas pode não ser rápido na escala humana.

Quando rápido na escala geológica, 5 mil anos é um instante. Na escala humana, 5 mil anos é a nossa vida e quase toda a Humanidade. A nossa vida, quer dizer, a vida da Humanidade conhecida.

Exatamente. Mas é preciso perceber-se que esta variação, em princípio, vai acontecer, que não é regular. As inversões do campo magnético são muito irregulares, ou seja, há períodos da história geológica em que a polaridade foi constante durante muito tempo e há períodos da história geológica em que houve grandes alterações e grandes inversões do polo.

Portanto, podia acontecer dentro de 200 anos.

Podia acontecer agora, podia não acontecer agora. Os períodos calmos do Cretácico são os mais conhecidos de todos e são conhecidos pelas piores razões, porque um geofísico profissional adora inversões, porque as inversões permitem datar. E quando não há inversões, é tudo mais complicado, tem que ser radiometria, tem que ser como falamos há bocado.

A medição da radiação.

A medição das grandes emissões emitidas. O decaimento radioactivo e os pares do decaimento radioactivo. Existem coisas tão estranhas como as grandes migrações, os salmões, as enguias. Todos eles utilizam, de certa forma, o campo magnético para voltar ao sítio onde nasceram. A hipótese de haver uma situação deste género vai sempre fazer surgir uma disrupção significativa no mundo natural. Talvez, de certa forma, estes acontecimentos de 24 e agora de 26 indiquem que nós estamos numa situação de mudança, que pode ser um passeio do campo magnético e voltar ao sítio onde estava associado, pode ser uma situação um pouco mais complicada. Voltando ao ano de 38, queremos que anunciem uma terceira guerra mundial, porque não estamos a precisar dela. Era bem melhor que elas anunciassem um milagre, porque desse certamente o que estamos a precisar.

Sim, mas voltando a esse tema e voltando ao princípio do nosso programa, podemos ter alguma expectativa? Não há forma de prever a possibilidade de voltar a ocorrer o que aconteceu em janeiro? Não se consegue fazer previsão, como se nós prevêssemos o tempo, que não temos que estar a fazer de dia para dia.

Vamos lá ver.

Porque isto é uma conjunção de dois factores. A conjunção da intensidade dos ventos solares.

Sim, mas isto é seguido em todo o mundo. Existem observatórios magnéticos, em Portugal existe um agora novo, muito activo, em São Teotónio.

No Alentejo.

No Alentejo. E já existia o anterior, que era o de Coimbra, que fez parte dos primeiros grandes observatórios magnéticos da Europa. E que fazem previsão do tempo espacial. Há previsão do tempo espacial, como há do tempo meteorológico. E o tempo espacial tem que ser previsto por causa dos lançamentos de foguetões, que às vezes são adiados e não são adiados, e algumas vezes têm a ver com problemas de tempo espacial. Não é só com problemas do sistema hidráulico do lançamento, como me parece que aconteceu anteontem. E essa previsão existe. Conhecemos quando é que são os períodos de maior actividade. Com uma pequena deslocação da posição do polo e com período de maior actividade, a probabilidade de ocorrerem auroras boreais num país com uma latitude como a de Portugal irá seguramente aumentar. O que eu posso dizer é que nesta quantidade não são para já prejudiciais, pelo menos não conheço.

Aliás, tu estás a dizer uma coisa que é assim, como estamos a passar por um momento de enfraquecimento.

Agora já estamos na fase do ciclo de enfraquecimento.

Enfraquecimento da actividade solar. Agora estamos na fase de enfraquecimento. Estou a falar do enfraquecimento do campo magnético. Com o campo magnético mais enfraquecido, podemos ver auroras boreais mais vezes.

Mais vezes. Normalmente, nos períodos de incremento da actividade solar.

Portanto, tem que haver coincidência.

E portanto, o que podemos fazer é ter uma atitude positiva.

Não podemos fazer aquilo que alguns de nós podemos tentar fazer este agosto, que é ver um eclipse. É visível um eclipse total, precisamente em Trás-os-Montes, mas dizer às pessoas para passarem férias em Trás-os-Montes, porque não têm em agosto auroras boreais, é mais difícil.

Há fantásticas razões para ir passar férias a Trás-os-Montes. Eu, que não sou um homem da praia, diria que há ótimas razões, umas geofísicas, outras agronómicas, outras alimentares.

Sim, começámos um dos últimos programas aqui a falar de Chaves e das termas de Chaves e das águas termais de Chaves. Também é uma boa ocasião. É uma das zonas termais mais ricas do país. É precisamente ali, entre Vidago, Pedras Salgadas, Chaves. Portanto, também é uma boa razão para ir para essa zona. Fica esta sugestão. Terminamos mais um e o resto é ciência. Encontramo-nos dentro de uma semana.