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Bem-vindos de regreso a mais um "E o Resto é Ciência". Eu sou o José Manuel Fernandes, comigo está, como sempre, o Miguel Miranda, geofísico, acadêmico. Hoje vamos aproveitar um evento recente. Há poucas semanas houve um pequeno sismo na Ilha de São Jorge, nos Açores, mesmo no coração dos Açores. Não foi nada de muito grave, houve apenas uma derrocada numa via de acesso a um daqueles locais chamada Fajã dos Cubros. As fajãs são as formações muito características de algumas ilhas açorianas, particularmente da Ilha de São Jorge. Caíram umas pedras, não houve feridos, não houve nada de especial, há sempre aqueles sustos. No entanto, este tema é particularmente interessante porque esta ilha, que já não tem grandes sismos há dois séculos e meio, portanto há 250 anos, é uma ilha onde há muito pouco tempo esteve quase a haver um vulcão. A lava estava a subir, não chegou cá acima. Sei que na altura o Miguel estava muito atento a essa subida da lava, que é uma coisa que nós hoje conseguimos detetar. Nós já falamos um pouco disso antes. Miguel, queres falar um pouco sobre por que aquela ilha se chama São Jorge?

Sim, São Jorge. Isso é interessante porque, como irão ver, tem uns aspetos que são históricos, outros que são geofísicos, que é o que é interessante, e geológicos. São Jorge é, hoje em dia, o santo padroeiro do exército português.

E continua a ser, que é uma coisa que, se formos ver as insígnias do exército português, continua a lá estar por São Jorge.

Portanto, quem era São Jorge? É a primeira questão. São Jorge era um soldado romano, era um tribuno, nascido provavelmente na Capadócia, ao pé da estremunha Estefada, que muitos já ouviram falar e outros já conseguiram visitar, que hoje em dia é na Turquia, e que recusou renegar a fé cristã por ordem do imperador Diocleciano e foi martirizado mais ou menos 300 anos depois de Cristo. Ele é representado sempre com uma espada, porque na hagiografia cristã a espada é simultaneamente o sinal de ele ser um militar, e o segundo era o facto de ele ter sido degolado no martírio, portanto ser também a forma como ele foi martirizado.

Estamos a falar de 303 depois de Cristo. Ele foi martirizado num sítio que também fica em Israel, Lida, mas na altura ainda o Império Romano não era cristão, não é?

Exatamente, mas quando o Reino de Portugal se começa a estabelecer, o nosso grito de guerra era: "Por Santiago".

Pois é, o que faz algum sentido, porque estamos na Península Ibérica, o nosso primeiro rei vinha da Galiza e Galiza é a terra de Santiago.

É a terra de Santiago. Mas Dom Afonso IV generalizou o uso do grito de batalha São Jorge para substituir o Santiago e em Aljubarrota há o confronto entre os portugueses e os espanhóis, nós por São Jorge e os espanhóis por Santiago, e a partir daí São Jorge passou a ser a nossa distinção.

O que nos aproxima um pouco dos ingleses, como sempre.

Já na altura.

Já na altura.

Porque aparece também o São Jorge, porque devido ao fato dos cruzados ingleses terem participado na conquista de Lisboa, em particular, e portanto temos de ficar atentos.

E temos novamente ingleses na Batalha de Aljubarrota.

Exatamente, e portanto tudo isso criou esta ligação a São Jorge.

Quem diz mal da velha Alba, esquece-se da mais antiga aliança do mundo.

E conturbada.

E conturbada.

E o que é interessante é que a Terceira é uma das ilhas dos Açores que foi inicialmente descoberta e é um dos capitães da Ilha Terceira que vislumbra, o que aliás não é muito difícil dizer-se a Terceira, a ilha, e que lhe dá o nome de São Jorge. Ainda hoje se disputa se ele lhe deu o nome de São Jorge, porque ele foi avistado ou desembarcou no dia de São Jorge, que é o dia 23 de abril. Eu também sou Jorge, portanto é um assunto que me é particularmente caro, ou se foi pela forma da ilha, porque a ilha de São Jorge, ao contrário de todas as outras ilhas dos Açores, é uma ilha alongada.

Quer dizer, é alongada, mas é uma alongada quase homogênea, porque fica ao lado da ilha do Pico, que também é alongada, mas assim um bocado mais alonga, e depois tem um cone muito elevado, que é o Pico exatamente.

Quase todas as ilhas vulcânicas normalmente são conhecidas por terem uma estrutura que pelo menos parcialmente é cónica. E é cónica porque ela corresponde essencialmente à imagem, à superfície do que é a câmara magmática em profundidade. Portanto, é o vulcão, o que eles chamam vulcão. São Jorge não é bem assim.

O mais evidente é o Pico. O do Faial também tem lá a sua caldeira em cima. Na Terceira há um, mas que está mais desfeito. Em São Miguel há vários, o mais conhecido é a Caldeira. Não, o Fogo, Sete Cidades e o Fogo.

E mais dois. O Pico é o mais conhecido apenas pelo fato de nunca lhe ter saltado a tampa. Portanto, é um vulcão que não formou uma caldeira.

Sim, e há o Pique e o Piquinho.

Exatamente, e não sabemos se no futuro isso irá acontecer, se bem que existe alguma probabilidade disso acontecer. Existe também uma grande diferença, é que quando nós olhamos para o mapa dos Açores, nós temos uma sequência de ilhas que está à volta daquilo que se chama em geologia o Rifte da Terceira, que é um conjunto de bacias que vão desde a bacia oesteDa Graciosa até à bacia da povoação que está a sudeste de São Miguel, isso é uma zona claramente em abertura, uma trincheira. Da mesma forma, Pico e Faial, se olharem bem para o mapa com cuidado, verão que também é uma pequena trincheira, não tão desenvolvida, porque o Pico está incólume, mas o Faial está todo partido em pequenas falhas, formando aquilo que se chama na geologia um graben, mostrando que ali também há uma zona de abertura. E São Jorge está ali no meio, olhando para o sul.

Está no meio entre as duas, não é?

Entre os dois eixos, olhando para o eixo sul, em que praticamente já estamos na Placa Africana, e olhando para o eixo norte, a norte do qual já estamos seguramente na Placa Euroasiática.

Porque no caso concreto dos Açores, nós temos duas ilhas que ficam na Placa Americana claramente, que é Flores e Corvo, e as outras ficam onde?

Umas mais perto da Placa Africana e outras mais perto da Placa Euroasiática.

Por que dizes mais perto, se não ficam em nenhuma delas precisamente?

Porque esta é uma zona que tem alguma deformação que está distribuída numa zona extensa geograficamente e, portanto, as placas não têm propriamente uma costura que tenha feito a tesoura. A principal costura é a bacia da Hirondelle, que é o nome histórico que tem a ver com o navio de investigação.

Essa bacia fica...?

Mas a outra costura também conta, a do Pico Faial. E, portanto, entre essas duas costuras que estão em abertura, temos uma gradação entre o que é Eurásia pura até o que é África pura.

Para termos uma noção, por exemplo, que haja ilhas que ficam mais distantes desta agitação, como por exemplo Santa Maria, que é uma ilha mais antiga.

Santa Maria foi feita no outro sistema, é mais antiga, tem outra história, e São Miguel tem uma situação ainda um bocadinho diferente, porque se olhar a espalha de São Miguel, ela está a estender-se, ela estende-se quase 2,5 mm por ano, em que o nordeste cada vez é mais euro-asiático e as Sete Cidades cada vez são mais África. Portanto, é a única ilha que é partida a meio pela separação entre as duas placas, e é por isso que é também a região que é mais seguida do ponto de vista da monitorização.

Estás a dizer que está a estender-se?

Está a estender-se.

Estender-se. Portanto, o nordeste, mais perto da placa.

O nordeste é euro-asiática.

Euro-asiática, sim.

E a Sete Cidades é africana.

Africana, não, americana.

Africana. A América está do outro lado.

Sete Cidades, por isso é que elas não ficam...

Fica acima, mas o que é a África? Agora deixa-me lá corrigir. Já falámos sobre esse assunto, é Núbia.

Núbia.

Núbia, porque a África já não existe como placa única, já há duas. E o que é interessante é que esta situação de São Miguel é realmente muito peculiar. Não é por acaso que a Universidade dos Açores, o IVARI, o CISIS, já têm uma grande pressão de monitorização sobre São Miguel, exatamente porque é uma ilha que está em extensão. Mas, na verdade, os grandes sismos têm ocorrido perto de São Jorge. O de 1980, o sismo que houve agora.

O de 1980 foi, sobretudo, esse sismo da Terceira, se tivesse apanhado muito São Jorge também.

Mas geofisicamente o mecanismo é o mesmo, é a zona de transferência entre os dois grandes eixos que estão em abertura. Aí é que há fraturas que libertam energia sísmica com uma maior magnitude, e não é por acaso que apesar deste sismo não ter tido uma magnitude muito elevada, mas foi razoavelmente elevada, e ter estado na ponta sudeste de São Jorge, que teve já efeitos significativos em termos de derrocadas para as Fajãs.

Mas diz-me lá uma coisa. As ilhas dos Açores, todas elas, tu disseste que São Miguel está a esticar-se, por assim dizer, mas elas também não estão a mexer em altura?

Elas estão a mexer em todo lado. As ilhas dos Açores são uma espécie de um compromisso entre as forças que as fazem levantar-se, que são as forças vulcânicas, a introdução magmática, que leva a que a ilha se vai soerguendo, reconstruindo-se com sucessivas erupções, e as forças que a levam a subsidir. De tal forma que já existe uma quase ilha, que é chamado o Banco de Princesa Alice, que está a sudoeste do Pico e Faial, onde já foram identificados calhaus rolados, o que quer dizer que já esteve à superfície.

Estive cá em cima e voltou a afundar.

Esteve cá em cima e voltou-se a afundar. E por que se afunda? Porque quando nós temos uma zona de abertura numa situação em que duas placas se separam, nós começamos por ter o soerguê da litosfera, mas depois ela ao arrefecer vai sempre afundar-se. E, portanto, nós temos a subsidência, desculpem-me a palavra, a descida, que tem a ver com o arrefecimento, essencialmente, e temos normalmente a subida, que tem a ver com a construção vulcânica. E é nesta contradição que as ilhas vão evoluindo. Se me perguntares o que vai acontecer daqui a umas largas dezenas de milhões de anos, provavelmente já estarão todas um bocadinho lá mais embaixo, porque elas vão se afastando das zonas de abertura e, portanto, vão subsidindo com a litosfera oceânica normal.

A não ser que tenhamos erupções.

A não ser que tenhamos erupções, mas, por exemplo, o João de Castro, que também é um monte que está entre São Miguel e a Terceira, também já esteve à superfície e neste momento não está, se bem que tem erupções com alguma frequência e tem sismos, ainda com muito mais frequência.

Mas nós temos algumas ilhas, por exemplo, pelo menos duas que eu conheço diretamente, que em São Miguel há locais em povoações onde nós vemos construções humanas submersas por lava, é o casoNorte de Ponta Delgada, onde há um lavadouro que parece que a água é lava, e também temos em São Jorge, em que temos uma torre de uma igreja que é o que sobra de uma erupção.

Uma grande erupção. Essa grande erupção foi dois anos depois do sismo de Lisboa, foi em 1757. O sismo que lhe deu origem teve uma magnitude estimada em 7,5, portanto, reparem, é inferior ao sismo de 1969, só que é na ilha. E ao ser na ilha, claro que dá um grande impacto. E aqui há quatro anos, em 2022, existiu mais uma vez a formação de um dique em profundidade. Deixa-me ir para trás.

Também, é meu senhor.

Quando as placas se afastam, criam espaço. Este espaço não tem que ser muito grande. Às vezes o espaço é apenas de dezenas de centímetros. Só que nesse espaço, que são dezenas de centímetros, pode aparecer material que chega à superfície a partir do manto superior. O manto superior nos Açores não está muito profundo, porque aquilo como é uma zona muito nova do ponto de vista geológico, a crosta ainda é razoavelmente fina. Vamos supor, oito quilômetros, para sermos simpáticos. A partir daí para baixo, já estamos a falar de uma zona que tem uma temperatura mais elevada.

Quando falas temperatura elevada, estamos a falar de quê? Porque nós falámos aqui há semana passada.

Não estamos a falar de 5 mil graus.

Não é 5 mil graus, sim, mas são temperaturas-

Centenas de graus.

Centenas de graus, portanto, não é apenas aquilo que os 30 ou 40 graus a mais que teríamos.

Não.

Só por entrar numa mina, por exemplo.

Ao haver este afastamento, a criação deste espaço, há libertação de voláteis e há também despressurização. Isso também pode levar ao aumento de temperatura muito pontuais, às tais difusões magmáticas, que depois se veem à superfície. E o que se passou em 2022 é que temos uma situação de uma crise sísmica longa. Nós tivemos cerca de 13 mil sismos durante uma semana, para se ter uma ideia.

Estás a falar de 13 mil sismos, as pessoas davam por quantos? Desses 13 mil.

Há muitos, muitos mesmo. Esta situação é difícil, para quem não estava lá, é difícil de se perceber. Nós temos uma situação em que a ilha está a tremer quase todos os dias. Todos os dias há um sismo sensível.

E várias horas por dia.

Várias horas. É um sismo sensível. E em que, do ponto de vista dos meios de observação, a ilha tinha três ou quatro sensores GPS e eu diria, num prazo curtíssimo, os vários grupos nacionais e não nacionais imediatamente encheram a ilha de registros e de formas de verificar. Os geoquímicos, em particular os nossos colegas da Universidade dos Açores, reforçaram os meios de observação de fluidos para tentar perceber a que profundidade é que estava a acontecer um movimento que dava origem aos sismos, se era vulcânico, se era tectônico, o que teria de se esperar. E temos outra grande vantagem, é que desde há muito tempo nós temos a capacidade, por satélite, de verificar a existência de movimentos do solo, em particular a inflação.

E aquilo engordou, não foi?

E aquilo engordou um bocadinho e na imagem de satélite que sucede a esta semana, de 19 a 26 de março, verifica-se que há um empolamento da ilha numa região, de tal forma que fazendo-se umas contas com os modelos matemáticos razoavelmente simples, se verifica que nós estávamos a ter ali um dique, que é como se chama este muro de lava que vem das profundezas e que estava a chegar a meio dos oito quilômetros de profundidade e que se estava a prolongar no sentido das velas. Para quem conhece a ilha, é muito simples. É, digamos, não é bem a ponta noroeste, mas é um bocadinho antes. Só que esta situação era uma situação de grande complexidade em termos da proteção civil, porque a ilha, para quem a conhece, é uma espécie de um grande muro.

Aquilo houve evacuação de pessoas, não é?

Teve que haver, porque se houvesse mesmo uma erupção de pequena importância, mas que fosse subaérea, nós estávamos a isolar uma parte da ilha, do aeroporto e do porto. E, portanto, iria ser muito difícil retirar de lá as pessoas. E a partir daí, a proteção civil regional, que seguiu isto, eu diria, ao minuto, e não estou a falar de cor, teve que tomar decisões mais complexas porque não podia deixar uma parte da ilha isolada com risco crescente.

Mas aqui houve claramente uma enorme colaboração entre-

Toda a gente.

Toda a gente.

É preciso dizer que havia investigadores desde a Inglaterra até às Canárias, até Portugal, até a França, todo mundo estava em cima deste acontecimento, porque hoje em dia nós quase conseguimos seguir isto em tempo real. E ao seguir em tempo real, ganhamos uma enorme responsabilidade. E depois havia a história de 1757.

Mas vamos a essa história daqui a bocadinho. Agora temos que fazer a nossa habitual interrupção e depois até temos que recordar exatamente a dimensão disto, porque tinha uma dimensão importante, eram uns quilômetros ainda. Regressamos dentro de alguns minutos. Estamos de regresso para a segunda parte do "E o Resto é Ciência". Estamos na Ilha de São Jorge. Estamos a recordar os acontecimentos deMarço de 2022, quando houve uma crise sísmica e o Miguel estava a explicar-nos que isto foi tudo acompanhado de muito perto e sabemos que houve ali um dique que estava a subir e que tinha uma dimensão ainda relativamente grande. Terá sido seis quilómetros de comprimento, uma largura de 70 cm.

Mas a profundidade ia até ao manto superior.

Está bem, mas quão perto esteve de chegar cá acima?

Muito perto, esteve a dois quilómetros.

Tu ainda há pouco disseste que a largura da crosta naquela zona será a oito quilómetros.

Exatamente.

Portanto, aquilo rompeu três quartos da crosta.

Exatamente. E a questão toda era: isto vai chegar à superfície ou não? Nessa altura, ainda há um novo reforço da observação com sismómetros submarinos, que são colocados também com o apoio da Marinha Portuguesa, do IPMA, das autoridades regionais, do civis, toda a gente colaborou para rapidamente ser possível de seguir isto praticamente ao dia, praticamente à hora. E veio a saber que esteve quase, mas não chegou a chegar à superfície. E a partir daí, há um segundo problema geofísico.

Que é o quê?

Que é: por que ele não chega à superfície? Porque nestas condições todas, reparem, nós estamos a falar de movimentos de centímetros à superfície, de ilhas que se afastam umas das outras. Estamos a falar de uma situação em que há grandes valores de energia envolvidos, mas, na verdade, por que a ilha de São Jorge parece uma espada? Esse é o primeiro problema. Por que parece uma espada? Por que não tem um aparelho vulcânico? Por que não tem um cone como as outras? Existem vários trabalhos científicos feitos sobre isso. O essencial é que é uma ilha que se envolve ao longo de uma zona fraturada. E ela, na verdade, é como se fosse uma injeção magmática ao longo de uma fratura.

Quer dizer, em vez de ser um tubo de lava, é um dique de lava.

É um dique desde a profundidade, que tem tido vários episódios.

Aliás, a própria configuração da ilha, que é bastante alta, mas depois tem as tais fajãs, que são umas ondas, dá uma forma de derrocadas, formam-se umas plataformas junto ao mar, às vezes com uns pequenos lagos, umas pequenas lagoas. É típico uma situação dessa. E vai continuar a haver derrocadas, porque estas zonas, não posso chamar de riba, mas é algo parecido com isso.

Pois, e mais uma vez, tal como o sismo evocava o sismo, a atividade vulcânica evocava a última erupção de 1808, que é a erupção da Urzelina, que dá a tal situação em que a igreja fica submersa por lava, dá um fenômeno vulcânico que não é bem vulgar, nem invulgar, mas que é altamente perigoso, que é a chamada nuvem ardente, em que o céu fica marcado por uma mistura de cinza, de material incandescente.

E muito rapidamente.

Muito rapidamente é capaz de incinerar qualquer coisa.

Há um outro exemplo histórico muito mais conhecido, nós já falámos dele, por acaso, aqui, a propósito de um assunto completamente diferente, que é o Monte Pelée, na Martinica. Lembras-te que falámos disso? Porque foi usada esta erupção, que foi em 1902, portanto quase 100 anos depois dessa da ilha de São Jorge. Foi aquela erupção que serviu de argumento no Congresso dos Estados Unidos para optar pelo Panamá e não pela Nicarágua para abrir o Canal do Panamá.

Só que, apesar de tudo, vamos lá ver. Em São Jorge, há umas dezenas de pessoas que são instantaneamente incineradas. Eu diria, do ponto de vista do efeito sobre as pessoas, talvez seja aquilo que mais se aproxime do que foi Pedrógão. Compreende-se?

Sim. Sempre temperaturas brutais. As pessoas às vezes ficavam rapidamente, instantaneamente. Ficavam no seu local, se estivessem sentadas, ficavam sentadas. Enfim, aqui são dezenas, no Monte Pelée foram 30 mil. Portanto, foi uma catástrofe.

Foram 30 mil mortos, é uma coisa terrível. Em São Jorge, isto foi exatamente há 217 anos, que São Jorge teve esta experiência e como se compreende, a emoção que está ligada aos acontecimentos de 22, aos de agora, é sempre muito grande.

Essa memória está, de facto, muito presente nas pessoas. Normalmente, estamos a falar com populações que estão habituadas a sentir a terra tremer, menos habituadas a vulcões. Porque tu disseste que aquilo não é a Islândia. Na Islândia há sempre um vulcão que está a deitar fumo. Ali é um pouquinho mais--

Mas há outros fenômenos de vulcanismo superficial, porque há fumarolas.

Sim, há as furnas.

Há as câmaras magmáticas que mergulham praticamente dentro da terra. E eu diria que os açorianos têm todos uma grande ligação a esta telúrica, a esta realidade. E da erupção da Urzelina, além da igreja que está ainda hoje subterrânea, existem auréolas, existem descrições pictóricas do que aconteceu. Não é uma coisa que seja apenas história sem documentação. E os Açores tiveram os Capelinhos, que foram em 1957.

1957, 58.

1958, foram uma experiência também muito importante para os Açores. Não só porque no Faial há a formação de uma pequena ilha que hoje em dia já praticamente desapareceu no mar.

Aliás, é muito interessante ver os desenhos que o Orlando Ribeiro fez na altura. Aquilo começa a se formar uma ilha, depois a ilha junta-se à terra. Hoje, quando se lá vai, isso é muito visível, porque nós temos um farol semi-soterrado que fica no meio da terra, não fica no cabo. Depois temos o cone vulcânico dos Capelinhos, que entretanto, já caiu metade, já se foi desfazendo.

Está lá, aliásExiste lá um centro interpretativo mesmo em frente aos Capelinhos, que vale a pena visitar e que tem hoje não sei bem que ligação, mas se não tem, irá ter uma ligação com o Ciência Viva. Mas existe já muito trabalho feito localmente e existem os únicos grupos de vulcanologia portugueses que têm significado científico, que são os dos Açores, como é evidente, porque são as pessoas que realmente conhecem bem os processos vulcânicos.

Eu devo dizer que uma pequenina em tempos, por causa de um outro projeto, fui mais uma vez lá, até por causa de um documentário, tentar perceber. Aquilo é uma zona que do ponto de vista, não agora da geologia, mas da biologia também é muito interessante. Estamos a falar de uma área que fica completamente estéril. Portanto, entre a matéria nova que vem à superfície, que não tem vida, e a vida que é morta pelas cinzas, pelos calores, pelos fumos, por tudo aquilo que é uma zona completamente estéril. E uma das coisas mais interessantes é perceber como é que esse mundo estéril é recolonizado, sobretudo numa ilha, onde não há à volta tanta coisa como no meio que não seja uma ilha. E portanto, temos uma situação onde ao longo de quase 70 anos, vai fazer para o ano 70 anos, aquilo que se verifica é que ainda não há nenhuma árvore, nenhum arbusto naquela zona. Ainda é tudo de vegetação muito térrea, muito baixa. E curiosamente, a maior parte delas, aquilo que nós chamamos espécies invasoras. Portanto, essas exóticas, não se sabe até que ponto é que elas abrirão espaço para outras. Há umas que segundamente será muito difícil, são canas, também é muito complicado cá, outros são chorões, por exemplo. É difícil, por exemplo, que entrem as urzes açorianas, mas seja lá como for, é muito interessante seguir todo este processo. E há uma dúvida: se alguma vez haverá ali arbustos antes daquilo se derruir tudo. Porque aquilo, como falaste há pouco, pode se afundar e além disso, há o mar que vai deitando aquilo abaixo.

Aqui tem muita erupção. Esta é a tal luta entre o processo construtivo e o processo destrutivo. O eixo que passa pelo Faial é um eixo em abertura, obviamente, mas também existe aqui alguma capacidade do sistema vulcânico tentar vencer esta guerra. E sabes que o sistema vulcânico tem às vezes uma grande vantagem, é que ele é mudo. Ou seja, uma das coisas interessantes de um artigo publicado agora recentemente na Nature, pelo Hicks e vários outros coautores, que tem a ver exatamente com estes dados que foram recolhidos, em particular durante a crise de São Jorge, é mostrar que uma boa parte da subida do dique sob São Jorge foi não sísmico. Portanto, não foi isso que gerou o sismo.

Então o que foi?

Os sismos são gerados depois no reajuste da litosfera, mas ele sobe traiçoeiramente na litosfera, o dique sobe silenciosamente. E o vulcão dos Capelinhos é situadamente diferente, há muitos sismos associados, há até uma grande subsidência da própria ilha. A ilha desce à medida que o material vulcânico se propaga para noroeste, formando depois os Capelinhos. E é interessante as pessoas lembrarem-se que naquela altura, estamos no fim da década de 50, o grande amigo dos açorianos, aquele que realmente se propôs recebê-los imediatamente, sem discussões, e dar a todos uma oportunidade de uma vida melhor, foi na altura um senador de Massachusetts, menos conhecido do que seria depois chamado John Kennedy.

John Kennedy, exatamente. E aliás, isso é também curioso, porque depois vai haver pessoas dessas idas para os Estados Unidos que vão ter influência noutros domínios. Agora, esta probabilidade de acontecerem mais acontecimentos destes, portanto, mais erupções, com grande é.

É significativa. É difícil num sistema deste género, como em qualquer sistema geológico, fazer uma previsão sobre regularidades. Existe um geólogo português, que é o José Madeira, que fez várias análises históricas sobre o aparecimento vulcânico dos Açores e em cuja prova pública que apresentou, penso que era o doutoramento, dava como um número mágico 70 anos. Certamente, como sabes, isso é o que nos separa do vulcão dos Capelinhos.

Portanto, podemos estar à espera. Quer dizer, podia ter sido esse.

Podia ter sido este, pode ser outro, mas que há a capacidade dos Açores de ter erupções vulcânicas significativas, há. Isso tem que ser compreendido.

Mas essas são mais prováveis em São Miguel, pelo que já percebi, porque é uma ilha que está em ascensão. E neste sistema Faial, Pico, São Jorge. Menos provável.

São Jorge nunca foi uma zona que se tivesse-- é apenas a questão dos sismos lá serem muito energéticos.

Sim, mas também tivemos a erupção de 1808. Portanto, elas podem acontecer.

Elas podem acontecer e, portanto, é interessante pensarmos que mesmo que os mecanismos de haver uma erupção não sejam exatamente iguais nas diferentes ilhas, nós temos ilhas que criaram caldeiras, temos ilhas que ainda não criaram caldeiras, como o Pico. Temos ilhas que nem sequer têm aparelhos vulcânicos arredondados e belos, como é o caso de São Jorge, mas todas elas têm capacidade de, à sua maneira, produzirem acontecimentos vulcânicosAltamente prejudiciais para as pessoas e altamente perigosos.

Mas há uma coisa que é fascinante naquilo tudo que tu contaste, que foi a capacidade de observar e de prever que pudesse haver um vulcão, coisa que nós não podemos fazer com os sismos. Portanto, quando é que pode haver um grande sismo. É a primeira vez que se consegue fazer isso nos Açores?

Não. Os Açores sempre têm tido muita atenção, têm grupos científicos de interesse sobre vulcanologia desde há muitas décadas. É perceber que desde o Machado, o Frederick Machado, até ao Vítor Hugo Forjaz, até agora o grupo que desculpem o nome de João Gaspar, mas não era só o professor João Gaspar, é todo o grupo que está à volta do IVAR, sempre tiveram uma grande capacidade de manutenção. O que não temos conseguido talvez fazer é uma integração tão boa como poderemos da informação dos vários tipos que existem, porque há GPS, já houve declinómetros, há sensores de gases, há muita tecnologia a trabalhar e há muitas disciplinas que trabalham em conjunto. Talvez fosse possível lhe dar mais um pequeno salto de integração. Mas hoje em dia, devido em particular ao Sentinel, as imagens SAR, as imagens que são utilizáveis para ver os movimentos de solo são gratuitas, estão disponíveis com uma periodicidade de meia a 12 dias e, portanto, permitem hoje em dia uma grande recorrência das medições. Há outros satélites que neste momento já estão no ar, tanto um indo-americano, que é mais recente, como outros satélites europeus que estão agora a ser lançados, que vão ainda aumentar mais a frequência. Quanto maior for a frequência, mais capacidade nós teremos de detetar estes movimentos de solo.

E onde é que houve esses movimentos mais recentemente? Eu julgo que em São Miguel, aqui há uns tempos, também houve uma coisa parecida, uma erupção magna que ia por acima e parou antes de chegar cá acima nas zonas das Furnas.

Houve uma situação de sismicidade em que os sismos eram cada vez mais superficiais, mas é preciso também pensar uma coisa que é o seguinte: estes temas de medição de variações da posição do solo precisam muito de refletores, de coisas que sejam identificáveis de uma imagem para outra. As ilhas têm muita vegetação, são um pouquinho mais difíceis.

Pois.

A construção também pode servir para alvo, mas é evidente que São Jorge até tem uma configuração muito boa para ser observado.

São Miguel é mais difícil, é mais coberto.

E o Pico tem outro problema, que tem uma grande diferença de altitudes e, portanto, tem muitos efeitos atmosféricos que têm que ser corrigidos. Tem-se progredido bastante, apesar de tudo, na capacidade de medir e integrar a informação, mas ainda não estamos na fase de ter um sistema de inteligência artificial que nos telefona a dizer o que é que vai acontecer.

Relativamente ainda ao que aconteceu na ilha São Jorge, tu na altura ainda perdeste uma coisa por acabar, que é porque é que não chegou cá acima. Portanto, o que é que pode eventualmente explicar isso?

Aparentemente, de acordo com o que está agora publicado e a análise que é feita, é que as próprias falhas que permitiram a subida foi também quem permitiu o escape dos gases que fez parar a subida.

Os gases escaparam-se para onde?

Os gases escaparam-se literalmente pro mar e pra atmosfera.

E conseguiu-se detetar?

Alguns deles foram detetados, seguramente, pelos sensores geoquímicos. Mas estamos a falar de uma coisa que correu, vamos lá ver, numa semana. Perceba-se que isto é tudo muito rápido. E apesar de tudo, se houve acontecimento que foi, eu diria, acompanhado, gerido e controlado de forma magistral, foi este. Sabes que a Proteção Civil tem sempre este drama. Quando as coisas correm bem, parece que não tiveram importância nenhuma. E quando as coisas correm mal é que têm grande importância, o que significa que o que é bom nunca é mesmo ilusionado.

Nunca é aplaudido.

E só o que é mau é que aparece nas notícias.

"Good news, no news", é o que nós dizemos às vezes, isto é, boas notícias não são notícias. Na nossa vida particular também é assim, se telefonarmos quando chegamos depois de uma viagem é porque as pessoas ficam aflitas, o que aconteceu para eu estar a telefonar.

Mas é interessante a gente perceber que, na sequência destes acontecimentos vulcânicos dos Açores, formou-se uma enorme comunidade açoriana nos Estados Unidos, que hoje em dia tem mais de um milhão e meio de descendentes, muitos políticos conhecidos em ambos os partidos do bipartidarismo americano.

Eles agora vêm cá de vez em quando trazidos pela FLAD.

Exatamente, vêm cá muitas vezes.

Vêm cá muitas vezes.

Vêm aos Açores ainda mais do que vêm a Lisboa, e um dos quais chegou a secretário de Estado de Energia, foi o Ernest Moniz, que eu tive até, aliás, o prazer de conhecer.

Ernest. Ernest ou Ernest?

Ernest Moniz, que foi professor no MIT e foi secretário de Energia da administração Obama, e uma pessoa muito ligada à transição energética. E outros que são menos conhecidos, mas são igualmente importantes, porque, como sabes, no fim dos fins, o que fica são os sabores. E a culinária açoriana, apesar de, como se costuma dizer, frugal, às vezes a culinária frugal é a mais apetecível, deixou nos Estados Unidos uma grande tradição, não só das sopas do Espírito Santo, como da massa sovada, que tem outro nome, como sabe, é muito parecido na Madeira. A sopa de couves açoriana. E tudo isto, em particular, está ligado às festas do Espírito Santo, que se continuam a manter na maioria das comunidades.

E que são festas particularmente ligadas a uma iconografia muito interessante em todas as ilhas e diferentes, as ilhas não são iguais. Nós temos uma festa do Senhor Santo Cristo, por exemplo, não exatamente do Espírito Santo, em São Miguel, em Ponta Delgada, em concreto, mas depois temos todos os mistérios na Ilha Terceira. E quando vamos para essas ilhas mais pequenas, temos tradições, por exemplo, a tradição das touradas à corda. Hoje em dia muitas pessoas não gostam, mas a tourada à corda é uma tourada em que o homem e o animal têm uma posição de igualdade.

Na verdade, mais uma vez retomamos sempre o velho problema. O que se mantém no tempo são essas coisas, é a cultura, são as tradições que acabam por transmitir aquilo que é a nossa história para outras latitudes.

Já percebi que tu, pelo menos, há um projeto de investigação chamado Cultura Portuguesa na Universidade de Massachusetts, numa das universidades de Massachusetts, não é assim? Onde há precisamente uma comunidade grande, onde era também o Kennedy e a família Kennedy. Não sei se alguma vez tiveste a oportunidade de lá estar e provar estas coisas. Eu só provei estas coisas nos Açores propriamente ditos.

Eu também. E lhes aconselho não só uma visita aos Açores, como percorrer o Vulcão dos Capelinhos, percorrer São Jorge, que é uma ilha magnífica, e pensar que às vezes a natureza pode surpreender-nos com situações que são incríveis.

Quem tiver mais coragem, subir ao pico.

E quem tiver mais coragem, subir ao pico.

Eu nunca fiz isso, é um dos planos da minha vida subir ao pico e poder ver o nascer do sol lá de cima, que acho que é o mais bonito.

E é bom que sejas rápido, porque algum dia aquilo pode desaparecer. Pode saltar a tampa do pico.

Sim, salta a tampa, mas enfim, digamos que o pico ainda continua a ser, neste momento, a montanha mais alta de Portugal. Houve uma altura que era em Timor, agora é o pico, mais alto que a Serra da Estrela. Mas nós por hoje ficamos por aqui, acabamos mais um "Eu Resto a Ciência", reencontramo-nos dentro de uma semana.