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Bem-vindos de regresso a mais um "E o Resto é Ciência". Eu sou o José Manuel Fernandes, comigo está Miguel Miranda, geofísico, e num tempo como hoje, um tempo em que estamos todos ainda muito surpreendidos ou alarmados com a dimensão do terramoto na Venezuela, vamos necessariamente falar um pouco do que se passou, até porque, como todos sabemos, nós vivemos numa zona que também é afetada por fenômenos sísmicos. Já falamos deles algumas vezes aqui, terramotos do passado na zona de Lisboa, já falamos deles neste programa, mas hoje é inevitável voltar a este assunto para tentar perceber como é que a Terra funciona e como é que, de alguma forma, os países estão ou não preparados para esse funcionamento, por vezes imprevisível, no sentido de saber o momento exato, não imprevisível, no sentido de saber que há zonas de risco e zonas de mais risco do que outras. Mas independentemente disso, nós vamos começar por falar da Venezuela, que é um país que tinha todas as condições para ser um país muito bem preparado para aquilo que lhe aconteceu, mas que não estava assim tão bem preparado como isso. Miguel, a Venezuela, por isso é um país rico, não é?
Sim, José Manuel. Como disseste ao princípio, eu sou geofísico e, portanto, os dois pontos extremos da Venezuela me tocam. Primeiro é os recursos em petróleo, hidrocarbonetos. A Venezuela tem, hoje em dia, cerca de 300 mil milhões de barris de reservas provadas de petróleo bruto, o que é quase 20% do total mundial, muito dele na região do Orinoco, que é ligeiramente a sul da zona que agora está continuamente nas notícias, e que é um vale que tem uma espessura sedimentar enorme, quilométrica, e que, à partida, deveria permitir que o país fosse um país rico.
Parece ser que trata-se de petróleo pesado, mais caro de extrair, mesmo assim, um petróleo que, do outro lado das Caraíbas, do outro lado do Golfo do México, há muitas refinarias preparadas para isso.
É isso. Como sabes, foi uma área em que trabalhou um grande dirigente desta área, português, que foi o Ferreira de Oliveira, que depois veio para a Galp, e no qual se discoveram exatamente formas expeditas de resolver o problema da grande viscosidade do óleo. Mas para terem uma ideia, hoje em dia, está estimado que o PIB per capita é da ordem dos 4 mil dólares por ano, o que é um valor muito baixo e que na última década dividiu por quatro.
Nós estamos a falar de um país, em Portugal, estaremos nuns 25 mil.
Exatamente.
Talvez um pouco mais, até.
Imaginem o que é viver com um sexto do que nós vivemos. É por isso que a Venezuela normalmente se dá como exemplo do caso da maldição dos recursos, um país que tem recursos para ser rico, mas que, na verdade, tem uma economia em colapso, tem hiperinflação histórica e agora teve um sismo dos mais devastadores do último século. Eu penso que mesmo aquilo que se conhece hoje em dia ainda não dá uma figura abrangente de todos os prejuízos, mas estamos a falar de uma zona que tem um historial de grandes terramotos, que têm conduzido sempre a grandes destruições, se bem que na zona que neste momento foi atingida, o histórico é essencialmente de sismos de magnitude 6, seis ponto qualquer coisa, e este sismo foi um pouco maior.
Mas há uma falha que atravessa aquela zona toda, portanto, quando falamos de uma falha, naquele caso concreto, é uma falha que fica praticamente em cima de onde duas placas estão a mexer-se em relação uma à outra.
É, porque as Caraíbas são uma placa muito peculiar no quadro da tectônica da Terra. É uma pequena placa, que está presa entre a América do Norte e a América do Sul, está como se fosse aprisionada, que mergulha sob a placa sul-americana, formando aquele rosário de ilhas que todos conhecem como ilhas paradisíacas, mas que tem uma tectônica muito ativa, porque a velocidade de deslocamento em relação à América do Sul é cerca de 2 cm por ano. Portanto, perto das ilhas, ela mergulha 2 cm para baixo e no norte da Venezuela, ela desliza 2 cm por ano.
Portanto, 2 cm por ano, para se dar uma ideia, em termos comparativos, o que é que nós temos de parecido em termos de outras placas? Para ter uma ideia.
Estamos a falar de uns valores que não devem estar muito longe do que acontece, por exemplo, em certas zonas da Turquia. São zonas ativas, muito ativas. Não é o máximo da velocidade de subducção que se conhece na Terra, isso é mais no Pacífico, mas é uma zona que tem essa capacidade de gerar sismos de magnitude elevada. Notem que a Placa das Caraíbas é uma placa espessa, tem cerca de 20 km de espessura, uma placa oceânica tipicamente tem oito. Peço desculpa.
Não, é bom ter ideia, porque as placas oceânicas têm características diferentes das outras.
Mas esta é uma placa espessa E esta placa espessa faz com que o sismo-
A rocha é mais dura nas placas oceânicas.
E esta sismicidade tem umas características tais que, por exemplo, uma das questões que mais tem sido falada é esta capacidade de fazer sismos duplos, quer dizer, falhas, ruturas que desencadeiam outras ruturas ao longo da mesma falha.
Elas fazem sempre isso, mas não com esta dimensão. Quer dizer, fazem sempre isso, mas são réplicas mais fracas.
Exatamente.
E aqui foi uma réplica mais forte.
Aqui foi uma réplica mais forte, mas isso apenas teve a ver com o facto de o mecanismo de desencadeamento ter dado origem a uma rutura numa zona que era em si geograficamente maior, de maior dimensão. O sismo em si correspondeu a um movimento cerca de dois metros. Se fizerem uma continha, foi a transformação acumulada durante um século. E apesar de os sismos não serem processos periódicos, reparem que o outro grande sismo que houve lá foi em 1900, nós estamos 120 anos depois e portanto, temos aqui um século de acumulação de tensão que se libertou.
E temos aqui uma coisa que é, nesta zona em concreto, a placa não está a mergulhar sobre outra placa, está a deslizar ao lado.
Ela mergulha nas Caraíbas.
Mergulha nas Caraíbas.
E desliza na Venezuela.
Desliza na Venezuela, portanto, está a mover-se uma relativamente à outra.
Com a mesma velocidade, nos dois sentidos. Agora, temos ainda uma situação geográfica muito peculiar, porque temos toda a zona urbana e construída como que esmagada entre uma cordilheira e o mar.
Sim, estamos a falar de uma cordilheira que naquela zona pode chegar aos 2700 metros de altitude, que é quase duas vezes e meia a nossa Serra da Estrela, tudo isto à vista do mar, portanto, com uma pequena plataforma litoral.
E é isso que se vê nas imagens que mostram muitas vezes na televisão, quando mostra imagens aéreas ou imagens de drones, em que vemos que é toda uma população, dezenas de milhões de pessoas que se encontram localizadas numa zona muito estreita entre a montanha e o mar.
Uma zona que, ainda por cima, há 27 anos, tinha conhecido um desastre natural também gigantesco, mas completamente diferente, que foi precisamente nessa zona de encosta. Tinha chovido torrencialmente e no estado de Vargas, a zona de Gaira chamava-se Vargas antes, veio por aí abaixo a montanha e foram 20 mil mortos.
Portanto, temos todas as condições pra ter muitos desastres naturais. Aliás, todas as Caraíbas são muito fustigadas por desastres naturais e por episódios extremos, tanto meteorológicos como geofísicos. Infelizmente, eles têm praticamente todos os tipos deles.
Terramotos, deslizamentos, vulcões, há um pouco de tudo.
Já agora, é bom que se diga que nós temos falado muito destes dois sismos, um sismo que desencadeia o outro, mas olhem que há várias interpretações ainda na comunidade científica. E, por exemplo, o Instituto Geofísico e Vulcanológico Italiano, que é um instituto muito qualificado, interpreta todo este acontecimento como um único sismo, com uma zona de rutura de 210 km.
Achas que é possível?
É, porque esta ideia de que quando há uma rutura, que é tudo manteiguinha, não é verdade. Na verdade, a Terra é heterogênea, tem uma geografia que tem as presas, como se diz em geofísica e em geologia, e isso faz com que considerar que é uma parte que rompe, depois rompe outra da mesma falha ou que são duas falhas diferentes, não é uma coisa muito significativa. O que é importante é que nós temos uma energia que, no global, corresponde a uma magnitude de 7.6, o que é uma magnitude muito elevada. A espessura que rompeu é 30 km, ou seja, rompeu toda a placa das Caraíbas. Se temos cerca de 20, 30, a rutura foi praticamente toda.
Estamos a falar em termos de espessura.
De altura.
De altura. Isso também ajuda a perceber por que foi tão superficial ou não.
Não há mais superfície ali.
Pois não.
Não há mais profundidade ali, aquilo não é uma crosta continental.
Sim, não só não é uma crosta continental, como não temos um mergulho.
Não temos uma subdução. Tudo rompeu. Segunda questão, e isto não é bem uma coincidência, mas é interessante perceber-se que o dia do sismo é o dia de uma comemoração do Feriado Nacional. Tal como nós aqui em novembro, tivemos um grande terremoto numa altura em que era-
Todos os Santos.
Se comemorava Todos os Santos, no caso da Venezuela, estavam a comemorar a Batalha de Carabobo, que é uma das batalhas decisivas pra independência.
É praticamente a batalha decisiva. Estamos a falar da Guerra da Independência, e ela tinha começado anos antes. Aliás, essa guerra tinha sido, por assim dizer, interrompida por um outro sismo, o sismo de 1812, que fez com que a Primeira República da Venezuela caísse, não sobrevivesse. E agora temos a segunda dessa batalha, que já é na fase final, praticamente depois desta batalha, só há uma outra, e os realistas, porque chamá-los espanhóis é talvez um pouquinho exagerado, porque eles eram basicamente realistas venezuelanos.
Ok, pronto. E o Simón Bolívar, portanto, dirigiu aqui uma das suas mais importantes batalhas, muito ajudado também por uma legião, dita Legião Britânica, que juntou europeus ao lado dos independentistas.
Revolucionários europeus.
Revolucionários europeus, exatamente. Quase ao mesmo tempo, anteontem ou ontem, aparece aqui um sismo de magnitude 4 no Algarve e, portanto, todas as pessoas ficam muito questionadas por esta questão: qual é a relação dessas coisas todas? Ainda por cima, dois dias antes tinha havido os sismos do outro lado.
No Japão.
Do Japão. E, portanto, a questão toda é assim: o que está aqui a acontecer? Para haver relação entre as coisas. Mas antes de se discutir como é que um sismo gera outro, já vimos que um sismo pode gerar outro se for perto. É o tal duplo, porque ele desliza, acumula tensão no seu tip, na sua zona mais à frente, e essa tensão acumulada faz desencadear um sismo mais à frente, que foi muito importante, por exemplo, para concentrar a energia sísmica sobre Caracas, porque tendo a falha 200 km e tendo a zona do epicentro mais ou menos a 180 km de Caracas, é evidente que isto concentrou a energia sobre Caracas, onde temos talvez uma parte da destruição mais importante de edifícios bem construídos, porque há destruição de edifícios mal construídos, que não precisa de tanta energia. Mas nós temos que ver isto no global, nós temos que ver isto de uma forma física, e de uma forma física o que está a acontecer é a Terra arrefecer. A Terra arrefece da mesma maneira como nós arrefecemos uma sopa quando agarramos numa colher e damos voltas à sopa para ela arrefecer. E a Terra para arrefecer, anda. Ou seja, o material mais quente de baixo vem acima nas dorsais oceânicas.
Movimentos de convecção.
Convecção, vem acima nas dorsais oceânicas e mergulha nas zonas de subducção. Portanto, seguramente que a Placa das Caraíbas deu mais um saltinho para dentro da Terra. E é até interessante pensarem ou saberem que o grande contributo para este mecanismo de arrefecimento é exatamente a placa que desce, porque ela é mais densa, é mais fria e ela é que puxa, no essencial, pelo material geológico que está atrás dela. Nós temos aqui uma situação que já sabíamos que tinha essa capacidade de fazer sismos, mas isto não quer dizer que seja o único mecanismo para fazer sismos. Nós temos que ter a atenção que nós podemos ter sismos de origem vulcânica, podemos ter sismos que têm a ver com o ressalto glaciar, quando os glaciares recuam e a Terra sobe. Podemos ter sismos que, por exemplo, têm a ver com os poluidores nucleares.
Deixa-me só ver um pouco atrás. No caso concreto da questão vulcânica, por regra, também está associada às zonas ou de subducção ou de criação de placas. No caso dos vulcões dos Açores e da Islândia, é a abertura de uma placa. No caso, por exemplo, dos vulcões dos Andes, tem a ver precisamente com subducção.
Mas há uma certa diferença entre eles. Quando eles estão associados à subducção, como a crosta e a litosfera levam atrás de si uma grande quantidade de sedimentos, isso põe muitos voláteis, esses vulcões são altamente perigosos e explosivos. Quando nós estamos a falar de uma zona de abertura e de ponto quente, os vulcões, em regra, são menos enérgicos.
Por isso que na Islândia, apesar de ser uma ilha pequena, as pessoas vivem lá tranquilas.
Porque aí têm, digamos, talvez o melhor dos dois mundos. É uma população de baixa densidade, uma construção de alta qualidade, ou pelo menos que é alta qualidade perante um sismo, por causa da madeira, e tem ainda por cima um nível de educação muito elevado e, portanto, tem capacidade de ser uma sociedade muito resiliente.
Entretanto, chegamos ao fim da primeira parte. Temos ainda muitos temas para falar, mas fica para a segunda parte. Reencontramo-nos dentro de alguns minutos. Estamos de regresso ao "O Resto é Ciência", segunda parte. Estamos a falar de terramotos por causa do que se passou na Venezuela. Miguel, há poucos falaste que esta história do duplo sísmico podia ter sido apenas um terramoto. Na verdade, o que habitualmente se passa quando há estas ruturas e por que é que habitualmente nós temos sismos mais frequentes, as réplicas, e desta vez pode ter sido diferente?
O que se sabe dos sismos mais vulgares, ou seja, que têm magnitudes fracas a moderadas, é que existe rutura numa região limitada da litosfera e esse deslizamento faz variar o campo de tensão localmente e, portanto, por vezes pode ter efeitos na zona vizinha. Mas esses efeitos são aquilo que nós chamaremos uma acomodação. Nós temos uma rutura e a seguir temos uma acomodação. Essa acomodação tem grande vantagem para os sismologistas, por quê? Porque ela vai acontecer à volta da zona que rompeu e são os próprios aftershocks que dão a fotografia da zona que rompeu.
E corresponde a uma espécie de acomodação, por assim dizer.
É uma acomodação de tensão. Outra situação um bocadinho diferente é quando nós temos toda uma frente, toda uma zona que pode gerar sismos, em que muitos dos seus segmentos estão quase a romper. E estando quase a romper, é mais fácil quando um rompe, que haja uma rutura logo a seguir. O tal sistema do dominó, uma peça de dominó cai e a peça de dominó seguinte cai também.
A distância entre estes dois sismos, quanto é que foi?
39 segundos.
39 segundos em tempo. E em distância?
100 km.
Não é exatamente ao lado.
Não é exatamente ao lado, mas eles também não são pontuais. Quer dizer, na verdade, pode haver até uma altura em que a gente diga que romper a seguinte ou ser um sismo grande, que teve uma asperidade no meio, não seja também tão essencialmente diferente. Claro que é diferente quando nós estamos a falar de estruturas geológicas diferentes. A questão toda para as pessoas é o tempo. O tempo de rutura deste sismo andou por volta dos 100 segundos, entre 90 e 120 segundos. É pouco. Mesmo nos países mais desenvolvidos, com os sistemas de alerta precoce mais poderosos, este período ainda é bastante reduzido para ser realmente útil para além dos sistemas automatizados. Nos sistemas que têm intervenção humana, 90 segundos é muito pouco tempo para sair de uma casa a correr ou para evitar um elevador ou para sair de um edifício.
Portanto, quando estás a falar disso, é a capacidade de prever que vai acontecer alguma coisa de grande dimensão.
Mas uma vez começando, nós temos capacidade de saber onde é que ele vai acabar. Pelo menos tem-se trabalhado muito nesse assunto, sobre os tempos de alerta precoce dos sismos.
Quando falas que é pouco, 90 segundos, 100 segundos, quanto é que nós podemos esperar como o mais normal?
Alguns minutos, e há sismos que geram alguns minutos, por exemplo, o sismo do Japão, Tóquio, o sismo de Lisboa ter tido mais que uma dezena de minutos. Se calhar também foram dois segmentos, se calhar também foi duplo.
Estás a falar do sismo de qual?
1755.
1755.
E repara bem como é que quando todos os estudos feitos à volta de 1755 foram feitos, mais exatamente aqui há cerca de 20 anos, muitas das conclusões foram consideradas fantasmagóricas. Tanto as pessoas que modelavam com duas áreas de rutura, uma a desencadear a outra, como, por exemplo, a ideia de que podíamos ter um comprimento de deslizamento superior àquilo que o intervalo entre dois sismos poderia dar. Na Turquia já tivemos superior, aqui temos vários sismos, e hoje em dia quando se reanalisam para trás os sismos de grande magnitude, a conclusão a que se chega é que 20% dos sismos muito grandes têm mais do que uma zona de rutura e provavelmente são também duplos. O duplo mais recente, mais famoso, é o da Turquia. Turquia e Síria, que foi o sismo exatamente que correu 300 km entre esses dois países e que gerou exatamente 60 mil vítimas. Notem que nós não devemos ser profetas da desgraça, porque isso também não resolve problema nenhum, mas também não o piora. Provavelmente, nós estamos aqui a falar de um acontecimento sísmico da mesma ordem de magnitude. É mais pequeno em termos da área de rutura, mas a densidade de ocupação é comparável.
É muito grande. Aliás, sobre isso, houve um tema que talvez valha a pena falar um pouco. Nós sabemos que quando se fala de sismos, há duas escalas. Há uma escala de intensidade do sismo, de energia libertada, no fundo, que é a escala de Richter, que é logarítmica, portanto, sete é 100 vezes maior que seis, não é?
30 vezes.
30 vezes maior que seis.
Em termos de energia.
Pronto, em termos de energia. Agora, temos também outra escala, que se fala menos, que é chamada a escala de Mercalli, que é uma escala de destruição. Nós sabemos que, por exemplo, se houvesse um sismo aqui em Lisboa, a forma como medires Mercalli em Monsanto, na Baixa, seria diferente, porque o solo é diferente. O que é que nós sabemos sobre o solo daquela região?
Não é claramente aconselhável para situações desse género.
Para construções aquelas.
Para a construção, porque, em particular, até na zona de Caracas, nós temos sedimentos que não são muito consolidados e temos, portanto, a amplificação da ação sísmica. Isso já aconteceu no passado.
As gilas, portanto, são sedimentos que vêm daquelas montanhas.
Isso já aconteceu no passado, no último duplo dos anos 60, em que realmente houve uma grande amplificação da ação sísmica na zona de Caracas, e não tendo a expressão da Cidade do México, que foi construída sobre uma espécie de um pântano que foi seco.
Pântano, aquela cidade conquistada pelo Cortés, onde está agora a Cidade do México, era um arquipélago de ilhas.
Exatamente. E hoje em dia, é claro que isso tem todas as condições para todos os fenómenos que os engenheiros sísmicos conhecem, desde a amplificação da vibração até à ressonância, tudo aquilo que é realmente altamente destrutivo.
Aquilo que nós também temos um bocadinho é a nossa Baixa pombalina, que também está construída em cima de estacas num terreno empapado.
Num terreno empapado. Aliás, nos sismos históricos de Lisboa, tipo o sismo de 1500, provavelmente esse facto de nós termos estado a conquistar terreno ao rio, foi um dos fatores importantes de destruição, e é por isso é que a destruição se concentrou toda ali assim, mesmo na zona da Baixa. Zona sísmica, porque há destruição pelo tsunami e pelos incêndios.
E por isso é que o rei a seguir fugiu para a Ajuda e não se foi embora. Porque na Ajuda não tinha havido o mesmo grau de destruição. Portanto, o palácio deixou de estar junto ao rio para ir estar na Ajuda. Enfim, nunca foi concluído, como sabemos.
A Venezuela, ainda por cima, é um país em que a regulamentação antissísmica é bastante exigente. Existe um código, que teve uma atualização significativa em 2001.
Mas já vinha depois de 67. 67 é o grande sismo.
É o grande sismo. Normalmente, infelizmente, as sociedades só olham para estes fenómenos depois de eles ocorrerem. Se virem a história portuguesa da monitorização sísmica, verificarão que os Açores tiveram um grande upgrade da sua monitorização depois do sismo de 80.
80 é o sismo da Angra do Heroísmo.
Exatamente. No continente, foi depois do sismo de 69. É sempre depois do mal é que se põem trancas à porta. E na Venezuela, obviamente, foi o mesmo. E apesar das normas de construtivas serem muito exigentes, é uma avaliação Que é feita muitas vezes, que não há fiscalização e não há capacidade de garantir que as normas são seguidas. E depois há uma coisa que nós temos que ser sensatos. É como a questão do ambiente. Só consegue proteger bem o ambiente um país rico. E só consegue ter uma ação antissísmica significativa um país rico, porque a segurança custa muito caro.
A diferença, apesar de tudo, na América Latina, é diferente a Venezuela do Chile, que é um país bastante mais rico e que teve sempre uma estabilidade política, apesar de tudo, bastante diferente. Ou, se passarmos para o outro lado do Pacífico, o Japão, que é sempre dado como exemplo do país onde grandes sismos não provocam o número de mortes que estes sismos provocam.
Sim, claro que um país rico pode ser desleixado e pode ser pouco vocacionado para a proteção do ambiente, mas pelo menos existem as capacidades de o fazer. Neste momento, se alguém tivesse de decidir, e muitos têm que decidir, onde é que devia pôr os recursos na Venezuela, tu nem saberias dizer rapidamente onde é que era. Como diria o Marquês de Pombal, se enterrar os mortos proteger os vivos. Vês pelas imagens que não há claramente recursos para o tipo de acontecimento que lá tens. O transporte de muitos desses recursos do exterior para o país é muito complexo.
Eu hoje vi uma informação de que só no que diz respeito à tua área, sismologia, dos 300 sismógrafos que havia na Venezuela, estarão quatro ou cinco a funcionar. Estavam antes, não foi agora que ficaram invariados, estavam antes a funcionar, que tinha havido uma liquefação das instituições.
Há uma degradação institucional evidente, e a pobreza traz consigo todo esse tipo de conhecimentos. E quando nós olhamos para aquilo que está a acontecer à nossa volta, neste que é o último dos nossos podcasts antes do verão.
Antes do verão, exatamente.
Começamos a pensar assim: qual é que é a relação de tudo isto? Nós estamos mesmo num mundo mais perigoso que antes? Os problemas estão a aumentar ou é a nossa perceção que estão a aumentar? Nós temos sismos a mais ou televisão a mais? Nós temos a capacidade de manter a qualidade de vida de toda a população do mundo ou não temos? Ou temos que nos preparar para que estes acontecimentos nas zonas de nível económico mais baixo sejam sempre altamente destrutivos. E devo dizer que esse problema tem interessado a comunidade científica, mas a última avaliação que existe do lado da sismologia, dos riscos ligados à Terra sólida, é de que não há evidências que haja nenhum tipo de aceleração. É verdade que em situações muito locais, como por exemplo, as zonas baixas perto do mar, que estão a ser afetadas ainda de uma forma incipiente, mas que vai aumentar da variação do nível do mar, é previsível que haja mais sismicidade.
O que nós temos é, por exemplo, a seguir ao fim da glaciação, o nível do mar subiu muito, subiu mais de 100 metros, e os calotes de gelo que estavam em cima dos continentes, designadamente, por exemplo, aqui no norte da Europa, no Reino Unido, no norte dos Estados Unidos, desapareceram. Portanto, um peso gigante que desapareceu de cima de pedaços de crosta. E houve seguramente ajustes.
Claro que há ajustes.
Ainda hoje a Terra se mexe. Nos glaciares da Noruega, os glaciares são cada vez mais fundos, digamos assim.
E a Terra está cada vez mais alta. Mas sabemos, por exemplo, porque falámos há pouco sobre o El Niño, que há uma relação entre as monções e a sismicidade na zona das monções. O que é normal, até há relação entre as marés e a sismicidade, a microsismicidade das zonas litorais. Mas, na verdade, não há evidência que o aquecimento excessivo da atmosfera esteja a gerar um aumento significativo dos fenómenos sísmicos.
Pelo menos dos fenómenos sísmicos grandes.
Dos fenómenos sísmicos grandes. Ou seja, apesar de tudo, ainda não se encontrou nenhum mecanismo com a capacidade energética de fazer o mesmo que o próprio processo de arrefecimento da Terra, que é aquele em que mais energia claramente é posta em jogo.
Arrefecimento interior da Terra. Não estamos a falar da atmosfera, que essa, infelizmente, não está a acontecer o mesmo.
É o que nós temos de distinguir. O que está a aquecer e o que está a arrefecer. E é importante perceber-se que nestas situações em que nós temos zonas que nós sabemos que são zonas de risco evidente, apesar de acreditarmos e escrevermos que o processo sísmico é um processo quase de Poisson, ou seja, cada acontecimento é independente de outro acontecimento, e que o fato de termos tido um sismo há 200 anos não quer dizer que não vamos ter um sismo novo agora. De perceber, como penso que as pessoas estão agora a ver de uma forma mais clara, quando temos uma fronteira de placa, nós podemos ter um segmento a romper ou outro. Portanto, só o mesmo segmento é que tem que ter a recorrência dos tais X mil anos que respondem ao acumular da deformação.
E que depende, por exemplo, tu ainda há pouco falaste em dois metros, que a Terra mexeu-se dois metros. Nós não temos uma medida para o nível de movimento que provoca um grande sismo. Porque assim temos que dizer com dois centímetros, a mexer-se em relação a uma outra, podemos dizer com dois metros, já de 100 em 100 anos. Mas não é bem assim.
Não é bem assim.
Mas é um indicador.
É assim, a média, nós acreditamos que ela é uma constante, porque é um processo Poisson. Agora, cada acontecimento em si é independentemente dos outros. Eu procurei até qual é que era o exemplo que podíamos dar mais simples do que é um processo de Poisson Não sei se o exemplo é interessante para as pessoas, mas o número de chamadas telefônicas que chega a uma central telefônica, excetuando a do INEM, claro, é um processo Poisson. Ou seja, temos picos de atividade e temos baixos de atividade, mas se considerarmos um tempo suficientemente grande, a média é essencialmente constante. Isso é importante porque é assim que, como sabes, contratas os call persons para responder às chamadas telefônicas. Elas têm que estar de acordo com a média. Quando tens um pico, elas respondem mais devagar e quando tens uma baixa, elas respondem mais depressa.
Voltando atrás, tu há pouco estavas a dizer uma coisa que era interessante, que era a influência de outros fatores que não exatamente apenas o interior da Terra. E há zonas onde já houve estudos, por exemplo, na Califórnia, que é um sítio onde dá muita atenção a este fenômeno, porque vai haver o Big One, está-se à espera dele. E não se sabe exatamente onde é que ele vai acontecer. Agora, há zonas onde a sismicidade pode variar de inverno para verão, é isso?
Pode variar do inverno para o verão.
Apenas porque temos mais neve ou menos neve acumulada, mais água ou menos água.
Aparentemente, na Califórnia até temos uma situação que está documentada de que pode haver uma variação que tem a ver com a variação do próprio padrão em que a deformação está a ser acomodada. Reparem que há dois Big Ones. Se não contar o de Lisboa, há o Big One de San Andreas, da Califórnia, e há o Big One de Istambul, são os dois que estão sempre na literatura.
Big One de Istambul.
Istambul, sim.
Mas Istambul-
Tem um segmento de falha à frente da cidade que ciclicamente é visitado ou é alvo de especulação sobre se ele pode ou não pode romper. E devo dizer que até é nestas duas áreas que muita da investigação se tem concentrado, exatamente para compreender os mecanismos de acumulação e desencadeamento da tensão. Tanto num caso como noutro, no caso da Califórnia, porque são sistemas em terra, no caso de Istambul, são sistemas no mar, mas é um mar pouco profundo.
Estamos a falar do Bósforo e do Mar Mármara.
Exatamente, um mar pouco profundo, em que, portanto, tem havido alguma acessibilidade do ponto de vista da informação, ainda por cima ao túnel, o grande túnel feito em Istambul, que deu origem a muitos trabalhos científicos, e é aí que se está a concentrar uma parte do conhecimento, procurando premonitoras, procurando o que é que pode acontecer que nos permita saber antes. Muitas tentativas houve no passado. A ideia de que quando a tensão se começa a acumular, há a libertação de radón. Foi durante muito tempo muito popular fazer medições de radón. Radón é um gás radioativo que é produzido pelo decaimento radioativo de muitas rochas e aparentemente está relacionado com o estado de tensão, mas também está relacionado com a circulação de água e, portanto, nunca se conseguiu encontrar uma relação que fosse realmente funcional.
Não tem nenhuma relação com aquilo que também se disse muito, que os animais podiam prever os sismos.
Claro que tem a ver com isso. Tem a ver com os animais, tem a ver com as variações na ionosfera.
Os animais são serpentes que de repente saem debaixo da terra, cães que começam a uivar.
Depois do sismo de Sumatra, foram verificadas, logo antes do sismo, variações na ionosfera terrestre. E tudo isto tem a ver, porque a Terra é uma e nós somos um único sistema, se bem que às vezes não percebemos bem como é que cada um dos elementos do nosso sistema está encrenculado, está entangled com outro elemento do sistema. Sabemos que as percepções que nós temos e que os animais têm não são exatamente as mesmas e que seguramente algo acontecerá antes de haver um grande sismo. Nunca se identificou qual era o proxy que podia ser usado com relativa segurança para se criar um sistema de alerta.
Tu falaste do sismo de Sumatra, que foi aquele que produziu o maremoto, o tsunami, no dia seguinte ao Natal. Mas este sismo, por exemplo, o sismo de Fukushima, ou melhor, o filme que nós assistimos ao desastre de Fukushima, esse aí não deu indicações nenhumas.
Mas aí o Japão teve a grande vantagem, se bem que localmente o desastre foi enorme, a alguma distância do epicentro, houve informação precoce. E há muitos filmes sobre isso. E há uma construção sólida, feita essencialmente em aço. E há a capacidade de ter os edifícios cuja resposta à vibração é mais performante. Porque notem que muitas vezes existe esta ideia, o que é bom são as casinhas baixas, mas isso não é verdade na engenharia sísmica. Isso depende da frequência da solicitação sísmica. E há muitas situações em que os edifícios baixos caem todos e os edifícios altos se mantêm de pé, claro, também porque a técnica construída não é exatamente a mesma. Como é que nós temos capacidade de aumentar a nossa resiliência e a nossa resistência a estes fenômenos? Essencialmente pela qualidade da construção. E já que estamos aqui na despedida destes podcasts.
Destes podcasts, desta série, porque havemos de retomar a seguir ao verão.
Depois do verão, se sobrevivermos ao verão. Sabem que eu não gosto muito do verão.
Não gostas muito do sol, não digo que não gostes do verão.
Mas é interessante pensar-se que muitas vezes, o maximalismo das exigências, quando nós dizemos que temos que ter tudo pelo melhor, não é o melhor caminho para aumentarmos a resistência. Muitos edifícios que se veem a colapsar poderiam estar protegidos por sistemas não muito caros, antissísmicos. E nós vamos ter que caminhar seguramente para uma situação, que já foi discutida muito, até na Academia da Ciência o ano passado, vendo a experiência italiana, em que nós vamos ter que ter uma classificação antissísmica dos edifícios. Vamos ter A, B, C, D, E, uma estrela, duas estrelas.
Como temos para a energia.
Como temos para muitas coisas. E desde que se suba de uma categoria mais baixa para uma categoria mais alta, isso deve ser visto como um progresso. Nós não podemos ter a ideia, nós podemos ter isolamento sísmico em todos os edifícios da cidade de Lisboa. Nunca vai acontecer.
Sim, mesmo. E, porventura, agora que nós temos uma discussão, mas que é outra discussão, sobre o novo hospital, porque a técnica construtiva está sempre a evoluir. O ótimo é inimigo do bom, nunca podemos chegar ao ótimo em todo lado.
E sempre que intervencionamos, temos que ganhar qualquer coisa. Temos que ser persistentes, temos que ir sempre na mesma direção. É verdade que tudo o que está a acontecer à nossa volta mostra bem a vitória da ciência. A ciência ganhou. Hoje em dia, são poucas as decisões sensatas que não são baseadas em ciência. Mas também é importante que se perceba que, por muito que nós aprendamos, por muitos temas que a gente seja capaz de montar, por muito que aumentemos a qualidade da nossa compreensão dos fenômenos naturais, a vida será sempre imprevisível.
Bem, terminamos agora este "E o Resto é Ciência", esta primeira série. Regressamos, não posso dizer para a semana, mas depois do verão.