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E o resto é história.
É a terra a fumar!
Do incêndio em Tualtra, ainda na zona de Chiados. Que faz um filho, fá-lo por gosto. É pino vermelho, trovo do colho, fogo do amor. Quer transformar este país numa ditadura. Entende? Entende? Com João Miguel Tavares e Rui Ramos.
Olá, seja bem-vindo a mais este episódio de "E o Resto é História" com Rui Ramos e João Miguel Tavares. Nos dois episódios recentes sobre a mobilidade dos portugueses, nós falámos das enormes dificuldades para circular nas estradas do antigamente, não só devido à sua débil construção, mas também porque havia zonas francamente perigosas, pejadas de salteadores. E foi nesse contexto que referimos os assassinos da Beira, assim de passagem, que é simultaneamente o título de um livro muito popular do final do século XIX, baseado em factos reais, da autoria de Joaquim Martins de Carvalho. E é também o retrato de um certo Portugal pós-guerras liberais, onde algumas zonas do país ficaram sob o domínio de quadrilhas muito violentas, como a do Remexido no Algarve ou a João Brandão na Beira. E esta ideia de que em tempos Portugal não era o país dos brandos costumes e estava mais próximo de um ambiente de faroeste, fez o seu caminho perante os nossos ouvintes que nos enviaram perguntas a pedir mais. Cito: "Fiquei curioso sobre este tema dos assassinos das Beiras", disse o João Ribeiro. "Fiquei supercuriosa sobre o tema dos assassinos da Beira", disse a Sandra Alcaide, que é magistrada no Ministério Público. E depois acrescentou: "Já tinha ouvido falar do João Brandão, mas só relativamente ao assassínio do padre José da Anunciação Portugal, pelo que gostaria imenso de saber mais sobre esses processos e esse gangue de que falaram." Rui, um pedido do Ministério Público é uma ordem. Portanto, quem foram estes assassinos da Beira? Como é que surgiram? Como é que acabaram? E diz-nos se nós também podíamos ter realizadores portugueses a fazer filmes sobre pistoleiros a cavalo em meados de 1800, aos estigos pelas encostas da Beira Alta.
Provavelmente não, porque em Portugal não havia tantos cavalos como no faroeste. Isso aliás é uma coisa que tanto franceses como ingleses descobriram durante a guerra entre 1807 e 1813, quando Portugal foi uma espécie de campo de batalha, e eles pensavam que podiam substituir cavalos em Portugal e havia muito pouco cavalo em Portugal. As montadas mais comuns em Portugal, aliás, como referimos nos episódios que fizemos sobre a mobilidade em Portugal, eram sobretudo burros, mulas e mesmo o gado de pastoreio nas Beiras era sobretudo gado miúdo, ovelhas, cabras, portanto, não havia vaqueiros como no oeste americano, mas havia bandidos, havia tiroteios e havia mortes.
Espera aí, deixa-me defender já agora a reputação do western, nomeadamente do western spaghetti, se tu bem te recordas, por exemplo, em filmes como "O Bom, o Mau e o Vilão", também um famoso podcast desta casa, o Clint Eastwood, o famoso homem sem nome, andava em cima de uma mula. Portanto, existe uma boa tradição de mulas no western. Podíamos ter um western, não digo spaghetti, mas um western cozido à portuguesa.
Mas aquelas perseguições são muito mais dramáticas a cavalo do que em burro.
Sim, a mula não dava.
Um burro... Era o mesmo. Bem, os assassinos da Beira. Assassinos da Beira é o título de um livro publicado pelo jornalista Joaquim Martins de Carvalho em 1890. São memórias, mas ao mesmo tempo reuniu artigos que tinha publicado em dois jornais de Coimbra, um chamado "O Observador".
O Observador já existia em 1890.
Já tinha existido antes, é um título recorrente na imprensa portuguesa.
Mas em 1890 ainda não era digital.
Ainda não era digital, nem em 1850 também não. Artigos para o Observador e para o Conimbricense. Aliás, são o mesmo jornal, mudou de título em determinada altura. Eram artigos que ele tinha publicado na década de 1850, portanto 40 anos antes. E esse livro, de facto, teve um grande sucesso pela matéria sensacional de que era composto. Qual era o tempo dos assassinos da Beira? O tempo dos assassinos da Beira é os meados do século XIX, as décadas de 1840, 1850, 1860. São sobretudo sobre essas décadas que escreve o Joaquim Martins de Carvalho. E o espaço é a antiga província da Beira, que é o centro de Portugal, basicamente, é uma região montanhosa, de serras e de vales, sobretudo naquilo que interessa aos assassinos da Beira. A história dos assassinos da Beira diz sobretudo respeito à vila e à freguesia de Midões, que fica no atual Conselho de Tábua, no distrito de Coimbra. Nos meados do século XIX até tinha sido também conselho. Hoje fica a cerca de uma hora de Coimbra, são 63 quilômetros. Nos meados do século XIX, esses 63 quilômetros deviam custar muito mais a percorrer. Em 1849, nós sabemos que a freguesia tinha 6 mil habitantes. Hoje, a freguesia é mais pequena e tem cerca de 1500, portanto muito menos. Havia muito mais gente na província, nestas serras e nestes vales, em meados do século XIX, do que há hoje. Havia muita gente lá.
A população que hoje até aumentou muito.
É, antes das migrações para as cidades e até para o estrangeiro. Midões era uma vila com alguma importância, era um município, era um conselho nessa altura, era uma cabeça de comarca, portanto, um tribunal. Tinha também uma guarnição militar. Havia lá cinco pelo menos cinco casas aristocráticas consulares. Uma delas era de um senhor chamado Roque Ribeiro da Branches Castelo Branco, que era o primeiro visconde de Midões e que era uma personagem importante. Tinha sido membro da junta de governo instalada no Porto em agosto de 1820, depois da primeira Revolução Liberal. Era uma figura importante. Aliás, há várias figuras importantes do liberalismo português que são desta zona. José da Silva Carvalho, Rodrigo da Fonseca Magalhães, são todos mais ou menos desta zona e é uma zona onde os liberais, durante as guerras civis, tinham uma força muito grande. Havia aqui famílias que estavam ligadas ao liberalismo. Mas na década de 1850 e 1860, o filho mais famoso da terra de Midões era o senhor chamado João Vítor de Silva Brandão, mais conhecido por João Brandão, nascido em 1825. Ele era parte de uma família muito numerosa, uma família que tinha sido fundada de acordo com as pesquisas que depois foram feitas.
Tornou-se uma personagem nacional.
A fama justificou que as pessoas se interessassem por ele, pela história dele e pela história da família dele. A família aparentemente terá sido fundada por um ferreiro, o José Brandão, que no fim do século XVIII veio de Pombeiro da Beira, que fica no concelho de Arganil, para Midões, para aquela zona. E depois teve muitos filhos e netos, sobretudo, que deram origem a dois ramos dos Brandões, que é os Brandões de Midões e os Brandões de Casal de Senhora, que é outra povoação. E estes Brandões nem sempre estiveram em sintonia. De vez em quando havia também lutas entre eles.
Como é próprio nas famílias.
Esta família dos Brandões instalada na freguesia de Midões, nos anos 1830, 1840 e 1850, depois da guerra civil entre os liberais e os migulistas, tornou-se relativamente famosa na região e depois a pouco e pouco até no país, porque forma uma espécie de gangue que fica famoso por lhe serem atribuídas dezenas de mortes, assassinatos. E o próprio João Brandão, por exemplo, em 1855, o Joaquim Martins de Carvalho, no seu jornal, acusa pelo menos o João Brandão de ter matado 15 pessoas.
Ok.
Pelo menos.
Portanto, ele já herdou de uma família violenta, não é? Porque se ele nasceu em 1825.
Sim, a família, o pai e os irmãos faziam parte de um gangue já desde os anos 30. O gangue não era composto só pelos Brandões, era composto por muita gente com alcunhas como o Anjinho, o Ventalarga. Eles estavam armados com aquilo que na altura se chama clavinas, isto é, carabinas, uma espécie de espingarda com o cano mais curto, mais fácil de manobrar do que uma espingarda que tem o alcance mais longo, mas que era mais complicada de transportar. Alguns deles têm uma reputação terrível. Por exemplo, o Roque, do bando dos Brandões, o chamado Roque da Helena, era famoso por dizer que o maior prazer da vida dele era fumar um cigarro sentado em cima do corpo do homem que acabara de matar.
Uma certa poesia.
Havia um gangue, não dos Brandões, mas havia um outro gangue que era chamado os Poetas, havia gangues para tudo. O que é que fazia o gangue nas Beiras, naquela zona de Midões, nesta época? Eles eram acusados, além dos assassinatos, de intimidar pessoas, de meter medo às pessoas, extorsão, as pessoas pagavam-lhes para não terem problemas, eles vinham pedir dinheiro e as pessoas davam-lhes só para não terem chatices com eles, impedir os tribunais de funcionar, havia um processo qualquer que estava a decorrer num tribunal, apareciam lá os Brandões e explicavam ao juiz que não tinha sentido absolutamente nenhum aquele processo e geralmente a magistratura tendia a reconhecer um grande valor jurídico nos argumentos desta gente com as carabinas e as facas.
Mas isso é crime organizado.
Isto era uma máfia, autenticamente. Eles influíam em uma quantidade enorme de decisões, heranças, metiam-se nas heranças e até casamentos, havia casamentos que os Brandões tinham que dar licença. Era uma máfia que está ali instalada, que morava da proteção. E naquela zona toda. Eles saíam dali. Eles não eram os únicos, atenção, tinham concorrência. Não estavam sozinhos no mercado. Havia muitos outros gangues na Beira. No lugar de Coito, que é perto de Midões, havia um gangue até com uma reputação ainda mais terrível, que era o gangue do Caca. O Caca era o alfaiate António da Costa Macário, conhecido pelo Caca. E a esse era atribuído atos absolutamente horríveis. Por exemplo, em fevereiro de 1841, eles matam uma pessoa e matam-na cortando a pessoa aos pedaços, cortando-lhe os dedos primeiro, cortando o nariz, cortando-lhe as orelhas, é assim que matam. Com atos de crueldade e no fim arrancam-lhe o coração à faca. Isto era para intimidar mesmo, criar ali um terror.
Isso é uma mitologia ou está realmente baseada em factos reais?
Havia pessoas que contavam isto.
Ou seja, isto é bem fundamentado?
Isso é uma outra história. Aquilo que nós sabemos é das pessoas que contavam, testemunhavam, que enviavam para os jornais, como "O Observador" e o "Conimbricense", relatos a dizer: "Eu vi isto, aconteceu isto ontem nesta freguesia, este fulano fez isto, fez aquilo, descobrimos os cadáveres", etc.
São relatos orais, não são baseados em processos policiais?
Não, são testemunhas. E depois há processos. Há processos que, por exemplo, contra o João Brandão, há vários processos. As Beiras não era só nesta zona, Midões fica no distrito de Coimbra, já muito acima, mas por exemplo, no distrito da Guarda há um bando de facínoras, como eles diziam, absolutamente feroz, que era em Vila Nova de Foz Côa, o bando dos Marsais, o António e Joaquim Marsal, os chamados Marsais de Foz Côa. E esses Marsais, só entre 1847 e 1849, são-lhe imputados 33 assassinatos. Fizeram cerca de 50 e tal espancamentos de pessoas e havia 90 e tal pessoas de Foz Côa que tinham fugido de Foz Côa com medo dos Marsais. Até no notário, as pessoas declararam que tinham fugido de lá com medo de serem sovados outra vez ou de serem assassinados pelos Marsais que mandavam lá. O João Brandão começou a ganhar fama muito novo, em agosto de 1842, quando foi morto o juiz de direito de Midões, foi assassinado o próprio juiz de direito, e os Brandões são suspeitos. E o João Brandão, que nessa altura tinha só 16 anos, foi preso e esteve dois anos preso em Viseu. Já ele fazia parte da quadrilha e é parte como membro da quadrilha. Em 1847, em Viseu, isto é, na própria Viseu, havia muitos testemunhas que o viram, isto conta o Joaquim Martins de Carvalho, de faca na mão, diante do edifício do Governo Civil, a preparar-se para sangrar um desgraçado que o bando dele tinha apanhado e tinha pendurado, e eles iam se propor sangrá-lo como se sangram os porcos, com o alguidar por baixo. E a história é até contada, o secretário-geral do Governo Civil, que está lá no edifício do Governo Civil, alguém lhe diz: "O senhor vai deixar que uma pessoa seja sangrada aqui em frente da praça, em pleno Viseu?" E ele diz: "O que eu hei de fazer? Isto são os Brandões, o que eu posso fazer?" Isto dá a ideia do peso dos Brandões.
E foi sangrado?
Aparentemente que não, porque alguém terá convencido o João Brandão que aquilo seria uma morte demasiado simpática para o indivíduo, e era melhor cortá-lo aos bocados, e isso era melhor no dia seguinte. Então ele deixou ir para a cadeia. Enfim, uma história intrincada. O maior escândalo, de qualquer maneira, relacionado com o João Brandão, acontece em 1853. Nessa altura, o que tinha acontecido em 1853? Havia um preso, que estava preso em Lisboa, que era da zona, e estava preso no Castelo de São Jorge, era um major, o Cristiano da Fonseca, era acusado de ter envenenado a família, etc.
Portanto, o Castelo de São Jorge era usado como prisão.
Em Lisboa, era usado como prisão. Aliás, por ser militar, estava preso no Castelo de São Jorge e fugiu para a Beira. E durante imenso tempo, as autoridades não lhe conseguem pôr a mão. Andam lá, enviam tropa, as autoridades administrativas são avisadas, ninguém consegue apanhar o Cristiano da Fonseca. Em Lisboa sabe-se isso, o governo começa a ficar malvisto, não consegue apanhar este assassino que fugiu para a Beira. E é então, a 9 de julho de 1853, que o Rodrigo da Fonseca Magalhães, que é ministro do Reino, é o ministro da Administração Interna, diríamos hoje, escreve uma carta particular a um amigo da Beira, a pedir a esse amigo que ele falasse com o João Brandão para ajudar a prender o tal major Cristiano. As autoridades não conseguiam prender, talvez o João Brandão o conseguisse prender. E o Brandão, contactado, diz: "Sim, senhor, eu sou capaz de fazer isso, mas para isso preciso da colaboração de todas as autoridades. Tem de me passar uma espécie de mandato a dar poder sobre todas as autoridades administrativas aqui desta região." Isto é, sobre os administradores do conselho, sobre todas as autoridades, os delegados do governo ficavam às ordens do João Brandão. Ele dizia as forças militares da zona, tudo.
A polícia.
E a 10 de setembro de 1853, o governo de Lisboa passa ao João Brandão uma certidão que põe às suas ordens todas as autoridades administrativas daquela região.
Durante três meses.
Durante três meses, renováveis depois, durante três meses. Isto o Joaquim Martins de Carvalho, que já é o jornalista em Coimbra que horroriza-se com isso e faz grande campanha contra os chamados assassinos da Beira, fica absolutamente em estado de choque. Ele diz: "Esta é a situação da Beira e a situação de Portugal. O governo entregou a autoridade na província da Beira ao chefe dos assassinos desta província." O chefe dos assassinos desta província, naquele momento, tinha toda a autoridade na Beira. Isto é o grande escândalo. Agora, pode-se perguntar: como é que isto era possível? O que se passava em Portugal? Repare, isto não é o faroeste, apesar de tudo neste sentido. O faroeste era uma zona que estava a ser ocupada por indivíduos Que estavam a chegar lá, o oeste americano, as autoridades ainda não estavam a chegar, não estavam a ser instaladas, é uma zona de fronteira chamada fronteira. Aqui nós estamos numa zona de fronteira. Há muito tempo que há um Estado em Portugal, que há autoridades, uma população antiga que lá vive, terá sido fronteira no século XI ou no século XII, quando era fronteira entre cristãos e muçulmanos, mas isso já tinha sido muitos séculos antes. O que se tinha passado em meados do século XIX para isto ser possível? O que se tinha passado é que o país estava virado do avesso nesta altura. Se nós pensarmos que entre 1820 e 1851, em 30 anos, e isto é uma contagem não muito aprofundada e apenas tocando os principais acontecimentos, mas Portugal passou por nove revoluções em 30 anos e seis guerras civis, com movimentos, tropas, combates. Nós temos uma ideia de como estas zonas tinham sido revolvidas pela passagem de exércitos, por combates, por divisão de partidos, estamos a falar de guerras civis, divisão de partidos. E estas revoluções e guerras civis armaram a sociedade, porque as revoluções são feitas e as guerras civis são combatidas por exércitos profissionais, mas esses exércitos profissionais são apoiados por bandos de voluntários armados, por guerrilhas que apoiam as atividades desses exércitos. Há muitos grupos armados à volta desses acontecimentos. E depois das guerras, geralmente essas guerrilhas e esses bandos armados não se desfaziam imediatamente, continuavam as atividades, como por exemplo, no Algarve, o chamado Remexido, José Joaquim de Sousa Reis. A guerra civil acabou em 1834 e durante mais quatro anos o Remexido, com cerca de 2000 guerrilheiros ocupou o Algarve, chegou quase a conquistar Faro, isto é, conquistar praticamente a província, até ser finalmente preso e fuzilado em 1838.
É mais um "O Resto é História".
Esta aqui é uma história mesmo tremenda, que é o Algarve praticamente entregue ao Remexido.
Eu ia te interromper. Fica a ideia para o Remexido para um próximo "O Resto é História", mas nós voltamos ainda com os assassinos da Beira, mas depois de um pequeno intervalo. Até já. Olá, seja bem-vindo de volta a esta segunda parte de "O Resto é História". Nós estamos a falar dos assassinos da Beira e tu estavas a explicar, Rui, que a maior parte, esmagadora parte, era uma consequência das guerras civis.
As guerras civis, que são combatidas pelos exércitos regulares, mas esses exércitos regulares tendem a ter apoios de voluntários e de guerrilhas também.
Tenho uma curiosidade: estas guerrilhas, à semelhança do que por exemplo, aconteceu nos Estados Unidos da América depois da guerra civil, eram de bandos de derrotados ou eram diferentes? Não havia uma diferença entre liberais, absolutistas, não?
Não, há guerrilhas miglistas e há guerrilhas liberais, mesmo durante a guerra civil. Basicamente, chama-se guerrilha a um corpo de homens armados que não está uniformizado e não faz parte nem do exército regular, nem dos grupos organizados para apoiar o exército regular, como batalhões de voluntários, que também tendem a ter uniforme. São guerrilhas, são civis que se organizam para combater por um partido.
Mas no caso do Remexido, pelo menos originalmente, era uma guerrilha, mas com alguma ideologia no sentido em que está-
Sim, a maior parte destas guerrilhas, isto é uma questão que vou falar à frente, mas aparecem para apoiar partidos, para apoiar os miglistas, para apoiar os liberais.
E apoiam o Brandão?
O João Brandão é um liberal. Midões, aliás, é uma espécie de ponto forte dos liberais nesta zona da Beira. Depois da guerra civil, mantêm-se organizados em bandos armados, mas além disso, o próprio regime leva muitos cidadãos a se manterem armados. Por exemplo, as constituições liberais preveem, a seguir a 1834, a formação de guardas nacionais. A guarda nacional é uma espécie de milícia de cidadãos armados para manter a ordem. O Estado não tem polícia nas províncias. A polícia é um encargo dos administradores de conselho que, quando precisam de homens armados, convocam os cidadãos para fazer esse trabalho como cabos, chama-se os cabos de polícia. Eles chegam a uma aldeia e dizem: "A partir de agora vais prestar a dar apoio como polícia, para polícia." Isto quer dizer que há uma população armada Que está habituada a fazer imensas tropelias, por exemplo, nas Beiras, uma das ocupações destas guerrilhas durante as guerras civis é atacarem as casas dos adversários e atacar os adversários. Isto é, ir a uma aldeia onde sabem que estão migulistas, queimar as casas dos migulistas, ou se é o contrário, se são migulistas, ir a uma aldeia onde há liberais, queimar as casas dos liberais, roubar as casas dos liberais, e se os apanharem lá, enforcá-los, fuzilá-los ou matá-los. Portanto, há aqui muita gente que está habituada a roubar, a assaltar, a matar o vizinho. E esta gente tem as armas com que se fez a guerrilha e começaram a habituar-se a aquilo.
Até porque os níveis de empregabilidade na altura não deviam ser grandes, a economia também não estava espetacular.
E é muito mais prático para alguns, mais aventurosos, viverem deste exercício da força, desta importância que têm, um grande grupo armado entrar numa vila, numa aldeia, obrigar as pessoas a prestar-lhes vassalagem. O João Brandão, o Cacá, os marçais vinham destas guerrilhas. São guerrilhas que durante as guerras civis são convertidas às vezes em batalhões de voluntários, como o Batalhão Nacional de Midões, de que o João Brandão é capitão durante a guerra civil da Patoleia, entre 1846 e 1847. Depois, quando as guerras civis acabam, eles mantêm-se como bandos armados. Já sem os uniformes, às vezes ainda com os uniformes, mantêm-se como bandos armados. E estes bandos são importantes, estes bandos armados acabam por ter uma importância política e social grande, porque nós estamos num país que também não está a ser apenas revolvido pelas guerras civis, pelas revoluções, mas também pelas propostas dos governos liberais, desde 1820 e sobretudo desde 1834, de mudar completamente as instituições do país. Os governos liberais mudam o sistema administrativo e o sistema judicial, extinguem câmaras municipais, são cerca de 800, de repente há só 300, em muitos lugares as câmaras municipais são extintas, extinguem conventos, que são instituições importantes na província e também nas cidades, extinguem os morgadios dos fidalgos, que davam importância aos fidalgos, entram em conflito com o clero entre 1833 e 1843, o governo liberal em Lisboa está de relações cortadas com o Vaticano, há muitos padres que estão em revolta contra a Igreja do Estado, porque a Igreja do Estado já não está em sintonia com o Vaticano. O que isso quer dizer? Quer dizer que os governos liberais estão a subverter as hierarquias sociais. Uma parte desta população não sabe quem manda. Quer dizer, de repente, quem mandava, isto é, aquele padre, aquele fidalgo, aquela câmara municipal, deixaram de mandar. Isto é, quem é que manda agora? Ao mesmo tempo, os governos estão a lançar, sobretudo na década de 40, novos impostos. Estão a tentar alterar os costumes da população. Por exemplo, o enterrar os mortos nas igrejas é proibido. Em 1843, 1844, passa a haver cemitérios, os mortos têm de ser enterrados nos cemitérios, as populações no norte, sobretudo, revoltam-se contra isso, querem manter os mortos junto dos vivos, quer dizer, a ideia de que uma comunidade é uma comunidade de mortos e de vivos, estão todos juntos, não querem deixar os mortos sozinhos, longe, até faz-lhes uma impressão enorme.
Nós já falámos aqui nisso, mas há muito tempo.
É uma coisa que lhes faz uma impressão enorme, deixar os mortos longe, não querem. E há revoltas, a revolta da Maria da Fonte, de 1846, que é a mais conhecida, é apenas o exemplo de muitas revoltas que são revoltas contra esta nova ordem das coisas, contra este novo tipo de Estado, contra estes novos impostos, contra estas novas leis e regulamentos. Nós estamos, ao mesmo tempo, num país onde a população anda revoltada com estas novas leis e com estas novas regras, e ao mesmo tempo foi aquelas figuras de autoridade a que estava habituada, os padres, os conventos, os fidalgos, etc, de repente foram subvertidas, já não parece que são eles que mandam. Há, em muitas partes do território, uma espécie de vazios que estes homens armados, estes grupos de homens armados começam a ocupar e de uma certa maneira a desempenhar o papel de autoridades. E é isso que explica, em certa medida, em 1853 o governo de Lisboa pedir ao João Brandão para tentar capturar um preso que tinha fugido de Lisboa e pede isso a alguém que era suspeito de ter cometido uma enorme quantidade de crimes. Além disso, desde 1834, os liberais estão a integrar a população nas suas lutas políticas através das eleições. É preciso eleger deputados, eleger também câmaras municipais, mas eleger deputados.
Os bandidos também iam a eleições.
Claro, para controlar determinadas zonas, os partidos políticos e os governos tendem a apoiar-se nos bandos armados. Os bandos armados são ótimos para levar as pessoas a votar. O João Brandão é uma das especialidades, agarrar uma aldeia toda e levá-la a votar. Ou se há uma aldeia em que eles sabem que há muita gente que vai votar no candidato contrário Aparecem lá e dizem: "Hoje se calhar é melhor não ir a votar. É melhor ficar toda a gente em casa hoje." "Mas há eleições." "Pois, mas é melhor ninguém sair daqui." Portanto, era uma boa maneira de arranjar muitos votos para o candidato favorecido pelos amigos do João Brandão e para tirar votos ao outro.
Até porque nessa altura o voto não era universal.
Não, não era preciso toda a gente, é um voto censitário, só vota quem paga uma determinada quantia em impostos e, portanto, era essas pessoas que se tratava de controlar. E daí a aparente, estranha e paradoxal respeitabilidade do João Brandão e do seu gang. Aliás, entre 1849 e 1854, ele foi vereador da Câmara Municipal de Midões.
Vereador durante o dia e assaltante à noite.
À noite. Mas há vários exemplos que o Joaquim Martins de Carvalho dá em janeiro de 1850, quando ele assassinou um indivíduo chamado Estanislau Xavier de Pina, que era de Várzea de Meruge. Ele assassinou e foi louvado por isso pelo governador civil de Coimbra e pelo comandante da Segunda Divisão Militar em Viseu, por constar que o Estanislau, que ele tinha matado, era chefe de uma guerrilha miguelista. E o João Brandão, que também escreveu umas memórias em 1870, diz que até tinha recebido ordens para prender o Estanislau, e tinha recebido ordens porque ele, João Brandão, era o capitão do Batalhão Nacional de São João de Areias, antes de Midões e depois era o São João de Areias, e que o Estanislau tinha morrido num tiroteio quando ele tinha tentado prendê-lo, porque o Estanislau era um chefe de uma guerrilha e ele tinha sido incumbido para o prender. O Joaquim Martins de Carvalho diz que isto é tudo uma absoluta mentira, nada disso era verdade. O Estanislau não tinha guerrilha nenhuma, era apenas um adversário pessoal do João Brandão, que o João Brandão quis matar e que depois de o ter matado por motivos pessoais, é que ele pediu às autoridades para lhe passarem ordens para prender o Estanislau, para ele poder dizer que tinha atacado o Estanislau com ordens das autoridades e essas ordens foram passadas a posteriori. Isto é, as autoridades já sabiam que o outro estava morto e entregaram-lhe as ordens para ele o prender.
Só desta tua descrição já vi pelo menos três filmes do tipo Hollywood. Acho que sim, ainda continua.
Mas repara, nós estamos a falar de uma zona muito sombria. O João Brandão diz que não, que tinha as ordens e que o outro era um chefe de guerrilha. E embora o Joaquim Martins de Carvalho em 1890 diga que isso é tudo mentira, ele era um quadrilheiro, não era nada um político, era um bandido, um assassino que dominava aquela região, intimidava as autoridades e depois, como ele diz, para vergonha de toda a gente, os partidos políticos, até os governos confiavam nele para fazer eleições e estavam feitos com ele e depois protegiam-nos. Mas em 1928 sai um outro livro, que é um livro de um senhor chamado Dias Ferrão, que até era de Direito, um jurista. O livro chama-se "João Brandão" e é um livro muito grande. E o que propõe o Dias Ferrão? Propõe-se desfazer as calúnias contra o João Brandão, esse homem tão injustiçado pela má fama que os seus adversários lhe criaram. O Dias Ferrão diz que aquilo que o Joaquim Martins de Carvalho diz não tinha base nenhuma. O João Brandão não é nada um assassino. O João Brandão, diz Dias Ferrão, é um político que viveu numa época, estou a citá-lo, "em que os derradeiros ecos da guerra civil ainda não se tinham extinguido." E diz que a imagem dele como um criminoso comum, como um bandoleiro, como um chefe de quadrilhas, era uma calúnia dos seus adversários políticos. Isto é, aquilo que o João Brandão fazia verdadeiramente era política, em eleições, fazia campanha eleitoral, portanto, trazia eleitores, talvez dissesse a disse outros do votar. Era de uma família, diz o Dias Ferrão, respeitável. Na família dos Brandões havia padres, havia notários, havia escrivães de direito, havia advogados, havia deputados. Estavam casados com fidalgos da região, portanto eram aceites como respeitáveis. É uma família de liberais que segue politicamente o Visconde de Midões, o tal senhor que tinha feito parte da Junta de Governo em 1820 no Porto. O João Brandão é afilhado do Visconde de Midões, é também parente, diz o Dias Ferrão, do Rodrigo da Fonseca Magalhães.
O tal que lhe colocou uma cunha.
Que era uma coisa que o Martins de Carvalho não diz, mas ele era aparentado com o Rodrigo da Fonseca Magalhães. Os Brandões tinham sido imensamente perseguidos pelos miguelistas por serem liberais, tinham estado na clandestinidade entre 1828 e 1834, a lutar pela causa liberal. O próprio João Brandão também diz isso em 1869 numa declaração que faz, ele diz: "Herdei do meu pai um espírito arrojado e um coração livre, portanto, foi sempre política. Aquilo que eu fiz foi sempre política." Portanto, sim, é verdade, organizaram guerrilhas, mas para combater as guerrilhas miguelistas durante a guerra civil de 1832, 34, e depois organizaram guerrilhas outra vez em 1846, 47, para defender o governo cartista ou cabralista contra os setembristas, porque eles eram cartistas, depois eram liberais cartistas. Portanto, ele estava na política, era um político e era acusado destas coisas horríveis por toda a gente. O João Brandão basicamente é como um político de hoje ser acusado de corrupção e ter dito: "Não, aquilo que eu estava a fazer era a propiciar negócios para o melhor do país." Portanto, aqui dizem Andou a matar gente, ele diz: "Se calhar matei algumas pessoas, mas eram bandidos que as autoridades perseguiam e eu colaborei com as autoridades."
Mas espera aí, tu acreditas mais na apologia de Dias Ferrão ou nos assassinos da Beira do Martins de Carvalho?
Eu acho que basicamente ambos estão a olhar para a mesma coisa de pontos de vista diferentes. Eles próprios reconhecem, tanto o Dias Ferrão como o Joaquim Martins de Carvalho, em determinada altura, que é muito difícil distinguir entre aquilo que era pessoal e aquilo que era político, entre aqueles que faziam parte destes bandos por convicções e aqueles que faziam parte destes bandos por modos de vida, por delinquência. É muito provável que alguém que, através da política, tenha entrado neste bando, se tenha depois habituado à delinquência e não queira outra vida, como também é muito provável que um delinquente se tenha juntado a este bando, que tem até um princípio político, mas se tenha juntado a ele para poder roubar, assaltar e fazer as tropelias para que as suas tendências o puxam. Portanto, quadrilhas de ladrões a coberto da política ou políticos que depois acabam por praticar excessos, provavelmente estamos a olhar para a mesma coisa da mesma maneira. Para estes fenômenos de banditismo, há uma tese clássica entre os historiadores, que é avançada pelo Eric Hobsbawm, um historiador britânico, em 1969, num livro sobre os bandidos, chama-se "Bandits", sobre bandidos.
Eu penso que ele foi lançado há muito pouco tempo, relançado em Portugal.
Provavelmente havia uma tradução portuguesa, portanto, o banditismo na Itália do Sul, o banditismo no México, no Nordeste brasileiro, no século XIX. E o Hobsbawm diz que estes bandidos eram geralmente, camponeses sem terras em sociedades agrárias e que acabavam por ser vistos pela população como uma espécie de justiceiros. Isto é, atacavam os ricos, etc. Portanto, representariam, diz Hobsbawm, que era um historiador marxista, uma espécie de uma versão primitiva da luta de classes. E é curioso em relação a isto, que o Dias Ferrão, no seu livro sobre o João Brandão, diz que havia cegos pelas feiras a cantarem quadras em louvor do João Brandão como alguém que roubava os ricos para dar aos pobres. Portanto, nas feiras da Beira havia cegos, em meados do século XIX, no fim do século XIX, a cantarem canções sobre o João Brandão, tal como sobre o José do Telhado, que esse é do Minho, também é um ladrão clássico. Mas diz Dias Ferreira que isso é tudo absolutamente uma lenda, quer dizer, ele não roubava os ricos para dar aos pobres, ele roubava os ricos para ficar com a fortuna deles, portanto isso não era verdade. E muito provavelmente este ponto de vista do Hobsbawm não se aplica absolutamente nada aqui a esta zona da Beira.
Deixa-me só acrescentar, desculpa, eu já confirmo. De facto, o livro saiu na Antigo o ano passado. É uma edição nova. É tão raro um livro que tu estás a citar estar disponível no mercado.
Está disponível.
Que aproveitem.
Essa perspectiva do Hobsbawm, podendo ser interessante para compreender o fenómeno do banditismo noutras paragens, não é nitidamente o melhor para compreender o banditismo nas Beiras, em Portugal, em meados do século XIX. Aquilo que temos aqui, parece-me, é sobretudo uma divisão política da elite local perante a fraqueza do Estado, que leva o Estado a apoiar-se nestes bandos armados para se afirmar.
E a ser complacente com eles.
Isto permitia a criminosos dedicarem-se à política, porque tinham cobertura política assim, e também permitia a muita outra gente dedicar-se a uma vida de agressões e extorsão e de comportarem-se como uma máfia a cobrar uma renda junto daquelas populações. Portanto, faziam parte mais de uma época de violência e de caos, coincidente com a época das guerras civis e que começa a acabar nas décadas de 1850 e de 1860, quando acabam essas guerras e revoluções. A última é de 1851, a revolução chamada da Regeneração, comandada por General Saldanha, e quando se inauguram os caminhos de ferro, as décadas de 50 e de 60 são as dos caminhos de ferro. E é assim, aliás, que o João Brandão vai cair.
Então, como é que o João Brandão caiu?
Bem, o João Brandão tem um primeiro problema sério, ele já tinha estado preso antes, mas é em 1860 que ele é preso por atos de crueldade cometidos na morte de um bandido que ele tinha prendido, ou tentado prender, mas na prática depois tinha o matado, em 1854, que era o Ferreiro. Mais uma vez, a história contada por João Brandão é que o Ferreiro resistiu à prisão, foi morto. A história contada por uma outra quantidade de pessoas era que não, que o coitado do Ferreiro, já depois de ser ferido, tinha se entregue como prisioneiro e o João Brandão tinha lhe dado um tiro no ouvido e depois tinham-no trespassado tiros para fingir que tinha sido um tiroteio e tinham-no matado num sítio, mas como naquele sítio as autoridades, o juiz não era muito favorável a eles, tinham levado o cadáver para outra região onde as autoridades eram mais simpáticas para dizer que o tinham matado ali. A polêmica com o Joaquim Martins de Carvalho, muito envolvido nesta história desde 1854. Em 1860, ele próprio se entrega e é nessa altura que ele divulga Cartas das autoridades a dar poderes para fazer aquilo que ele fez. Aquilo torna-se público, causa bastante escândalo. Ele vai a julgamento a 18 de abril de 1861, na comarca de Arganil, e é absolvido, como toda a gente estava à espera. Quando sai do tribunal está uma festa enorme na praça com foguetes, bandas de música. É levado depois em triunfo para Midões, onde há um jantar enorme com toda a gente da região que vem celebrar a libertação do João Brandão. O jornalista Joaquim Martins de Carvalho, que é o inimigo principal do João Brandão em Coimbra, ele está em Coimbra, aliás, estar em Coimbra é fundamental, há um correspondente que envia uma carta ao Joaquim Martins de Carvalho a dizer: "Bem, o senhor pode fazer frente ao João Brandão porque está em Coimbra, se estivesse aqui, estava calado como nós estamos todos aqui calados." Mas enfim, está em Coimbra. Mas o Joaquim Martins de Carvalho faz um escarcéu enorme quanto à proteção oficial aos assassinos da Beira, é assim que ele se refere sempre a eles, e ficou a frase comum dizer os assassinos da Beira, porque é uma vergonha, os governos que usam-nos como agentes eleitorais, com essas proteções políticas eles fazem o que querem, etc. Mas o João Brandão está livre, acaba por casar em 1863, ele ainda era solteiro até esta época, casa com uma senhora rica, ainda fica mais bem provido. Até 1866. Em março de 1866 é assassinado um padre, o padre José da Anunciação Portugal, que a nossa ouvinte citou. O padre José da Anunciação Portugal era procurador naquela zona de um indivíduo bastante rico, que era o Visconde de Almeidinha, que naquela altura estava a vender propriedades ali e tinha o padre, que era uma espécie de procurador, que estava a vender as propriedades e estava a receber o dinheiro das propriedades, estava a ficar com o dinheiro das propriedades. Um dos compradores de propriedades tinha sido o João Brandão, que sabia que o padre tinha aquele dinheiro todo que estava a receber das propriedades que estava a vender em Várzea de Candosa, no Conselho de Tábua. E o padre, em março, é assassinado em casa por três bandidos que entram mascarados para o roubarem. Roubam, matam-no e começa a correr imediatamente que tinha sido o João Brandão. Isto aconteceu em março. Em maio, dois meses depois, o João Brandão é preso. É preso por causa destas denúncias anônimas e deste rumor de que tinha sido ele. Depois há o julgamento e ele é condenado no julgamento e o Dias Ferrão transcreve os interrogatórios das testemunhas, praticamente o processo do tribunal. E de facto, a impressão que se tem, e aí o Dias Ferrão terá alguma razão, é que o João Brandão é condenado, não porque haja provas de que aquele crime, de que o assassinato do padre José da Anunciação Portugal tivesse sido cometido por ele, mas sim pelo fato de lhe serem atribuídos muitos outros crimes, outros assassinatos, e se dizer que ele tinha cometido aquele crime também. Isto é por ouvir dizer.
Portanto pode não ter cometido este crime, mas estava a pagar pelos crimes que cometeu e não pagou.
Uma parte das testemunhas diz: "Eu ouvi dizer que tinha sido o João Brandão que tinha matado." Isto não é exatamente um julgamento com as bases de provas judiciais que nós hoje estaríamos à espera para uma condenação, que é uma condenação à morte. Atenção, que é uma condenação à morte, que depois, como a pena de morte tinha sido abolida, é trocada por uma pena de degredo para África. É a pena máxima que o João Brandão tem, porque se ouviu dizer que ele tinha cometido estes crimes e que tinha cometido também os outros, embora ele nunca tivesse sido condenado. Isto é uma pena. É porque alguém disse que ele cometeu.
Mas também já é um reflexo de uma perda de poder, ou não?
Esse é que é o ponto: o tempo do João Brandão tinha terminado. É o momento em que os políticos em Lisboa, na província, começam a trocar para controlarem uma região, estes bandos armados pelas autoridades administrativas. Isto é, as autoridades administrativas começam a controlar a região, já não precisam destes bandos armados para fazer isso. E curiosamente, o Dias Ferrão conta uma história muito curiosa no seu livro, que é uma discussão em 1865. Provavelmente, o Dias Ferrão terá ouvido, alguém lhe contou esta conversa em que o João Brandão teria estado com um candidato a deputado na região, que é um candidato a deputado apoiado pelo governo. E esse candidato a deputado teria contactado as pessoas com influência na região para a sua eleição. E ele trava-se com uma discussão desagradável, em que se zangam com o João Brandão, porque o deputado diz que verdadeiramente basta-lhe a influência das autoridades administrativas para ganhar a eleição, não precisa de mais outros apoios. E o João Brandão diz: "Não, o senhor precisa dos nossos apoios. Sem o nosso apoio, o senhor não ganha eleições aqui." E o outro diz: "Não, eu ganho as eleições sem precisar do seu apoio, não preciso do seu apoio para nada." E isto é interessante, isto é em 1865, em meados da década de 60. Este candidato tem um ponto de vista que não teria tido nos anos 40 ou mesmo no princípio dos anos 50, onde saberia que muito provavelmente precisava dos Brandões para ganhar umas eleições. Mas agora acha que já não precisa dos Brandões para ganhar umas eleições. Aliás, o advogado de defesa do João Brandão no julgamento, em 1866, que é o Custódio José Vieira, que é um advogado e um homem de letras do Porto, bastante conhecido, diz que aquilo que está a acontecer é que o déspota moderno é a autoridade administrativa. A autoridade administrativa estava no lugar do bando armado agora. Eles é que põem e dispõem na região. O Estado centralizado estava-se a instalar, a nova ordem liberal está a ser aceite, entretanto, os novos costumes, as novas leis, a perceber-se quem manda, as populações estão a relacionar-se com as novas autoridades, a reconhecê-las, a aceitá-las e a habituar-se. Portanto, estes poderes informais, que em determinado momento, no imediato a seguir às guerras civis, tinham sido a base de apoio da política, estão a tornar-se incômodos. Começam a representar uma memória de ilegalidade, de brutalidade, de abuso de poder, que é preciso afastar. E, de certa maneira, o João Brandão, não sabemos se ele cometeu ou não o crime de 1866. Era homem para isso, isso é verdade. Não sabemos, mas a verdade é que é o momento em que as autoridades, e até aquela sociedade, percebe que é o momento de o afastar. Este tipo já não faz parte disto.
E ele vai mesmo para África?
Ele vai mesmo para África, vai para Angola, instala-se no Sambes, na zona de Sambes, Benguela, desenvolve um grande negócio de cana de açúcar, com fábricas, etc. Torna-se um homem muito rico em Angola. Vai morrer em 1880, 10 anos depois, sempre a tentar fazer lobby para voltar para Portugal, mas nunca consegue.
Mas o negócio em Angola foi legítimo, não tinha um bando lá.
Ele não era nitidamente um bandido qualquer. Aliás, o Dias Ferrão diz: "Este homem não era um bandido qualquer, era um homem educado, letrado, era um cavalheiro, tinha boas maneiras". É provável que isso tudo pudesse ser verdade, e pudesse ser verdade também aquilo que o Joaquim Martins de Carvalho conta da faca e de sangrar como um porco os seus adversários. Homens muito educados também são capazes de atos de barbaridade, não é a escola que os tira. Mas nitidamente não era um homem qualquer. E fazia parte desta família influente, com muitos parentescos, de apoios, com recursos que lhe permitiram também em Angola se destacar. E era nitidamente alguém com espírito de iniciativa, isso ele tinha, de aventura.
E foi isso que explica a sua longevidade, não é?
Enfim, a morte dele em Angola também me parece não ser clara.
A sua longevidade como bandido.
Como bandido.
Como assassino da beira.
Como um dos assassinos da beira.
Sim, se ele morreu em 1870, morreu com 55 anos.
É uma época da história de Portugal e daquela região em que, como se dizia na altura, vigorava a lei do punhal. Em determinados momentos terá sido essa a única lei que houve, a lei da carabina e a lei do punhal era a única lei que havia, e o João Brandão, na década de 60 representava isso, mas isso já tinha acabado. Para voltar aos filmes do Far West, já seria aquele filme final-
O western crepuscular.
O western em que o último pistoleiro, mas que já sabe que o seu tempo acabou, a lei, a cidade que tinha começado com meia dúzia de criadores de gado, agora mesmo já é uma cidade importante e ele já é o representante de um mundo desaparecido e o filme acaba com ele no cavalo em direção ao pôr do sol e vem o "The End". E o João Brandão, nesse caso, foi para África tratar da cana de açúcar.
Certo, se caso pelo menos tinha lá mais cavalos e menos mulas, quem sabe. E assim termina esta edição de "E o Resto é História". Nós voltamos para a semana. Até lá.
Com João Miguel Tavares e Rui Ramos.