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Baixar o IRS na segunda metade do ano ajuda o Governo a controlar as contas públicas. E os contribuintes, ganham?

Últimos cortes no IRS foram aprovados na segunda metade do ano, dando origem a devoluções de imposto que inflacionam salários. Ajuda a controlar as contas públicas, mas o que ganham os contribuintes?

Passou a ser o novo normal. Em vez do IRS descer no início do ano, e ser um tema central na discussão dos partidos sobre o Orçamento do Estado, passou a baixar na segunda metade do ano, por iniciativa do Governo que escolhe, assim, o timing mais oportuno para aplicar a redução das taxas.

Este timing dá origem a um bónus nos salários quando é feita a devolução retroativa dos impostos pagos em excesso face às novas tabelas de retenção. Mas é sobretudo vantajoso quando a prioridade é o controlo orçamental. A decisão de baixar as taxas e em quanto só avança quando o Governo já tem uma boa visibilidade sobre qual será a margem orçamental que tem disponível, limitando o risco de derrapagem nas contas.

As reduções do IRS “passaram a ser decididas já depois do meio do ano e em função da execução orçamental quando já se consegue ter uma ideia melhor da fatia de impostos da qual é possível abdicar sem comprometer o objetivo global duplo de redução do défice e da dívida”, diz o fiscalista Luís Leon.

O consultor da Ilya lembra que foi António Costa a introduzir este modelo com o suplemento extraordinário das pensões anunciado no verão. Luís Montenegro aplica a mesma lógica com o IRS e com impacto no final do ano. “A novidade é que há um desconto significativo na retenção de imposto concentrado em novembro que, na prática, é um reembolso antecipado.”

Reconhecendo que receber 20 euros todos os meses é uma coisa e receber 200 euros num só mês é outra, o fiscalista acredita que o principal objetivo não é dar um bónus no rendimento. “Não creio que o objetivo político seja as pessoas sentirem mais dinheiro nos bolsos em novembro, é uma questão de contabilidade pública. É caixa. Se devolvesse em 2027 sairia da caixa em 2027.”

O Governo prefere abdicar da receita do imposto em 2026, devolvendo a baixa do IRS com retroativos a janeiro, o que faz com que a despesa fique em 2026, ano em que sabe ter margem orçamental. Se esperar pelo momento da liquidação do imposto em 2027, está a atirar despesa para um ano em que ainda não sabe como vai correr a execução orçamental, explica Luís Leon.

Esta quinta-feira foram conhecidos mais s detalhes sobre esta redução de impostos que terá um impacto de 400 milhões de euros. A descida começa com 0,3% da taxa no primeiro escalão, acelerando para 0,5% entre o segundo e quinto escalões. No sexto o corte volta a ser de 0,3%.

Solteiro com salário médio de 1.500 euros brutos ‘poupa’ 65 euros no conjunto do ano. Veja as simulações

Uma redução das taxas de IRS “é sempre uma boa notícia”, sublinha Paula Franco, mas para ter eficácia antecipada é preciso mexer nas tabelas para travar o adiantamento ao Estado, refere a bastonária da Ordem dos Contabilistas Certificados.

“O mais correto é os contribuintes terem o dinheiro do seu lado em vez de esperarem pelos reembolsos do dinheiro que ficou do lado do Estado durante meses”.

No mesmo tom, o fiscalista Luís Leon defende: “É importante os contribuintes perceberem que receberem reembolsos não é bom. Não é dinheiro que nasceu nas árvores e que lhes caiu na conta. É dinheiro dos próprios que não devia ter sido retirado“.

Se o ajustamento retroativo feito pelas novas taxas de retenção for feito de forma a refletir o rendimento libertado pelas novas taxas, é positivo. Mas a bastonária reconhece que nos últimos dois anos, a mexida nas tabelas foi mais acentuada do que seria normal. Daí os alertas feitos aos contribuintes.

"É importante os contribuintes perceberem que receberem reembolsos não é bom. Não é dinheiro que nasceu nas árvores e que lhes caiu na conta. É dinheiro dos próprios que não devia ter sido retirado".
Luís Leon, consultora fiscal Ilya

Se receberem antecipadamente, o acerto final da liquidação de IRS no ano seguinte pode trazer surpresas, como receber menos ou até pagar. “Mas, no final, os contribuintes pagam sempre menos impostos”. E depois dos últimos anos em que foi seguida esta prática, já não haverá a mesma reação. Paula Franco diz que há contribuintes que já perguntam pelo alívio extraordinário do IRS, em vez de se focarem no reembolso.

A Deco Proteste lembrou que alterações nas retenções ocorridas nos últimos dois anos já levaram muitos contribuintes a receber reembolsos inferiores aos habituais ou, em alguns casos, a passar de uma situação de reembolso de IRS para pagamento. Por isso, recomendou que, sempre que o orçamento familiar permita, os contribuintes reservem parte do dinheiro adicional resultante da redução das retenções, criando uma folga para um eventual acerto fiscal em 2027. Mas há outra alternativa.

Trabalhadores e pensionistas podem pedir taxas de retenção mais altas para o mês do acerto

Em vez de aplicar as tabelas de retenção extraordinárias ao salário de novembro e ao subsídio de Natal, de forma a reaver a totalidade do imposto cobrado em excesso desde janeiro face às novas taxas, o contribuinte pode pedir à empresa para aplicar taxas mais altas. Mantendo as taxas que estão atualmente em vigor, pode evitar uma surpresa desagradável quando for liquidar o imposto deste ano.

“A lei permite aos trabalhadores por conta de outrem pedirem à entidade patronal para aplicar uma taxa de retenção mais alta”, diz Luís Leon, mas refere que poucos sabem dessa possibilidade que não é usada em larga escala. Por outro lado, acrescenta, “se eu pedir à minha empresa para me tirar mais dinheiro do que é suposto é porque confio mais no Ministério das Finanças do que em mim próprio” para gerir as poupanças.

A possibilidade de optar por taxas mais altas também existe para os pensionistas — terá de ser solicitada à Segurança Social ou Caixa Geral de Aposentações — e haverá casos em que a iniciativa pode fazer sentido. Paula Franco diz que há casos de pessoas que recebem duas pensões — a sua e a pensão de sobrevivência de um cônjuge que faleceu — que podem sair prejudicadas com as tabelas extraordinárias para cada pensão. Na hora do acerto final, o imposto é calculado para os dois rendimentos.

"O mais correto é os contribuintes terem o dinheiro do seu lado em vez de esperaram pelos reembolsos do dinheiro que ficou do lado do Estado durante meses".
Paula Franco, bastonária da Ordem dos Contabilistas Certificados

Os dois especialistas ouvidos pelo Observador recordam também que uma maior aproximação entre o valor retido mensalmente pelas tabelas e o imposto final liquidado foi introduzida em 2023. A medida resultou num rendimento mensal líquido mais elevado, por contrapartida de um reembolso mais baixo.

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Desde que chegou ao poder em 2024, esta é a terceira vez que o Governo de Luís Montenegro baixa o IRS a meio do ano. No primeiro ano, a decisão pode ser atribuída ao facto de a AD ter ganho as eleições legislativas em março, com um programa que previa um corte das taxas adicional ao que já tinha sido aprovado pelo Governo socialista e estava em vigor.

A descida no valor de 500 milhões de euros foi aprovada no verão e deu origem a uma revisão extraordinária das tabelas em setembro para devolver o imposto cobrado a mais desde janeiro. A devolução foi feita em dois meses — setembro e outubro — originando um acréscimo do rendimento bruto por força da redução — e em alguns casos eliminação — da retenção na fonte. Foi nesta altura que surgiram os primeiros avisos sobre os efeitos da devolução em excesso.

Em 2025 também houve eleições, mas manteve-se o mesmo Governo, que reeditou a política de baixar o imposto a partir da segunda metade do ano. Aprovado em julho, o alívio das taxas com impacto de 500 milhões de euros começou a chegar aos rendimentos em agosto, com a devolução do imposto cobrado em excesso a inflacionar os salários líquidos desse mês e de setembro.

A coligação que está no Governo estabeleceu como meta para a legislatura a redução de dois mil milhões em IRS até 2029, mas este ano o discurso sobre a baixa do imposto foi mais cauteloso, até porque o Orçamento em vigor introduziu uma atualização de escalões que já tinha feito cair o IRS em 300 milhões de euros.

Mas em 2026 o anúncio foi feito mais tarde e surpreendeu, porque o ministro das Finanças passou o ano a baixar as expetativas quanto às medidas extra-orçamento de subida de rendimento, como o bónus das pensões e o IRS. Miranda Sarmento argumentava que o ano ia ser mais difícil para as contas públicas devido à pressão orçamental das tempestades do inverno e à necessidade de concluir as obras do PRR. A equação complicou-se mais com a escalada do preço dos combustíveis e, ainda em agosto, o ministério de Miranda Sarmento afastava um corte adicional do IRS numa resposta ao Chega.

Poucas semanas depois, e em pleno debate da moção de censura do Chega contra o Governo por causa do ministro da Administração Interna, o primeiro-ministro tira da cartola o IRS e o suplemento das pensões. Horas depois, Miranda Sarmento foi à televisão justificar as duas medidas com a situação das contas públicas até agosto (só são conhecidos os dados de julho).

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