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Este é um podcast da Rádio Observador que pode ser ouvido em 98.7 FM em Lisboa e 98.4 FM no Porto.
E o resto é história.
É a terra a fumar!
Do Enceno e Poiava, ainda na zona dos Chiados. Quer transformar este país numa ditadura. Não, não. Com João Miguel Tavares e Rui Ramos.
Olá, sejam bem-vindos ao episódio 24 de "E o Resto é História". Este programa está a ser transmitido pela primeira vez em pleno dia 25 de dezembro e nós aqui no "E o Resto é História" não tínhamos alternativa, impunha-se um programa especial de Natal, que é um velho sonho, ter programas especiais de Natal. À nossa volta, aqui no estúdio, temos duendes, renas, azevinho, piúgas penduradas e claro, como de costume, João Miguel Tavares, jornalista, Rui Ramos, historiador, e quatro perguntas espetaculares. E a primeira é esta, e é uma dúvida que me assalta desde que sou pequenino, Rui, finalmente vais poder responder a ela. E já agora, um feliz Natal para ti.
Um feliz Natal também para ti.
Espero que tenhas recebido muitas prendas e enchido a barriga de peru e outras coisas. E a pergunta é esta, é esta a minha dúvida: D. Afonso Henriques comeu ou não comeu peru com batatas no primeiro Natal como rei de Portugal?
Nós temos muitas dúvidas em relação a D. Afonso Henriques, mas essa não temos. Não comeu e também não deve ter feito árvore de Natal e por três razões: porque não havia batatas, não havia peru e porque a nossa festa de Natal, tal como hoje a temos, é mais recente do que se imagina. E não havia batatas e não havia peru porque são produtos que vêm da América, no século XVI, com a descoberta da América, quer o peru, quer as batatas vêm daí.
Não nos conseguimos imaginar sem batatas, mas na verdade elas começaram a ser cultivadas nos Andes. Acho que é os incas. Os incas eram bons a isso.
Só depois é que foram adotadas e é a partir do século XVI, não é no século XVI. É a partir do século XVI, como no caso do peru, que começa a ser divulgado na Europa. E o D. Afonso Henriques também não deve ter comido bacalhau na véspera, na consoada.
Nem bacalhau.
Nem bacalhau, porque o costume também provavelmente deve ter começado depois do século XV, XVI. Embora o comer peixe na véspera de Natal remeta para umas restrições alimentares que tradicionalmente os cristãos tinham em relação à carne nos dias anteriores ao Natal.
E a árvore de Natal no Castelo de Guimarães.
E a árvore de Natal no Castelo de Guimarães também não deve ter existido. Isso é uma coisa do século XIX, deve ter havido enfeites.
Coitado, então foi um Natal triste para D. Afonso Henriques.
Nós temos uma pequenina ideia do que poderia ter sido o Natal antes do peru, das batatas e das árvores de Natal. E há uma passagem de uma peça do poeta António Ribeiro Chiado, do século XVI, chama-se "A Prática dos Compadres", o Chiado é o do Largo do Chiado em Lisboa, que descreve a consoada com decorações, ele fala de candeias, de verdes, deve ser portanto ramos de arbustos que estão verdes, sidra, não vinho, mas sidra, figos, pinhões, e depois diz que vai à Missa do Galo e depois da Missa do Galo vão almoçar. Isto é à noite. E comem linguiça.
Olha que bem, parece-me bem. Eu introduzia a linguiça.
Provavelmente o porco é morto em novembro, portanto devia ser sobretudo este género de carnes que estavam disponíveis no Natal. E depois fala de visitas entre casas, de jogos e também de magustos, de castanhas. Também comiam castanhas. Não há perus nem árvore de Natal aqui. Há duas coisas historicamente interessantes em relação ao Natal. Uma é quão tarde terá entrado no calendário das festas cristãs. Não terá sido uma das primeiras festas cristãs. Nós só temos indícios da celebração do nascimento de Cristo a partir do século IV, isto é, 300 anos depois de ter acontecido. É então que a Igreja fixa a data, 25 de dezembro, coincido com o solstício de inverno.
Já era uma festa pagã muito antiga, não é?
Embora depois haja autores cristãos que dizem que não, que não foi nada a festa pagã, que é um cálculo a partir da anunciação em março, 25 de março, portanto nove meses, Cristo teria nascido a 25 de dezembro. Há quem diga que não, há quem diga que foi uma festa pagã. Aliás, até a celebração dos nascimentos e alguns autores cristãos é atribuída a um costume pagão, isto é, celebrar o nascimento. É muito curioso, mesmo em relação à poesia portuguesa mais antiga, o Vasco Graça Moura, que em 2005 fez uma antologia de poemas portugueses sobre o Natal, notou que inicialmente interessava mais aos poetas a mãe de Cristo, isto é, Nossa Senhora, em relação ao Natal, do que propriamente o menino Jesus. E o menino Jesus, a criança, portanto, Cristo bebê, ter-se-á tornado central, sobretudo a partir do século XVI, na poesia. Como se sabe, só para dar um outro exemplo, nos Evangelhos não é dito em que dia é que Cristo nasceu.
Sim, não há nenhuma indicação sobre isso.
É curioso também referir que há comunidades cristãs hoje em dia que não celebram, em relação ao nosso calendário, no dia 25 De dezembro, celebra no nosso correspondente dia 7 de janeiro, porque usam um calendário diferente, usam o calendário juliano. Nós usamos um calendário gregoriano que inclui o dia 25 de dezembro é o-
É o dia do nascimento, mas para eles é em janeiro
É, para eles é em janeiro.
E não estamos a falar da tradição espanhola da galopada do dia 30. É outra coisa.
Porque é um calendário diferente.
É um calendário diferente, onde o nascimento é mesmo importante.
É um calendário diferente. E foi sempre muito claro, mesmo para os autores cristãos, que o Natal incorporava muitos costumes pré-cristãos, hábitos pré-cristãos. Isto é, quer o do solstício de inverno, quer o da troca de presentes, o das festas, todas essas coisas. E por isso nem todos os cristãos sempre aceitaram a ideia do Natal. É interessante, por exemplo, na Inglaterra, no tempo dos puritanos, sob a ditadura de Cromwell, em meados do século XVII, o Natal chegou a ser proibido. Isto é, a celebração do Natal chegou a ser proibida entre 1647 e 1660. Pode parecer estranho um país cristão proibir a celebração do Natal, mas estes puritanos queriam ser cristãos como os primeiros cristãos e portanto perceberam que os primeiros cristãos não celebravam o Natal, eles também não queriam celebrar o Natal, que ainda por cima estava associado, na Idade Média, a estes excessos de festa, de beber, etc. E um puritano, precisamente, até como o nome indica. E isso nos países onde o puritanismo teve impacto, quer na Inglaterra, por exemplo, na Escócia, no Reino Unido, quer nos próprios Estados Unidos, em determinadas regiões dos Estados Unidos, a celebração do Natal é uma coisa muito tardia. Por exemplo, na Escócia, só em 1958 é que o Natal volta a ser feriado, é uma região com uma forte influência puritana, e mesmo nos Estados Unidos, só no século XIX é que também volta a ser feriado, porque há uma grande resistência à celebração do Natal. Isto para não referir, obviamente, aqueles países onde, por outras razões, já não pelo cristianismo, mas por ideologias ateias.
Como a União Soviética.
Como a União Soviética, o Natal foi proibido. Mas é curioso, ainda temos um poema que é incluído pelo Vasco Graça Moura nessa antologia do Natal, chama-se "Natais", foi publicado em 2005. Temos um poema do Almeida Garrett, de 1823, que se chama "Um Natal Inglês", que é precisamente a contrastar a alegria com que, em Portugal, ele estava exilado na Inglaterra na altura. Com que em Portugal era celebrado o Natal com a tristeza, a reserva com que era celebrado em Inglaterra. Isto tem interesse pelo seguinte: é que sendo os ingleses, por causa da influência puritana, tão resistentes ao Natal, são depois eles dos principais autores do Natal tal como nós o concebemos hoje. São eles que depois, no século XIX, desenvolvem os costumes, o chamado Natal de convenção, para usar uma expressão de um poema do Fernando Pessoa, que se chama assim "Natal de Convenção", que é aquele que refere o poema: "Chove, é dia de Natal, lá pro norte é melhor, há a neve que faz mal e o frio que ainda é pior." Isto é, no norte é que se celebra o Natal. De repente, o Natal começa a ser associado ao norte. Isso é muito interessante, porque é na Inglaterra, no século XIX. E é bom lembrar porque é que é na Inglaterra, a Inglaterra era a maior potência industrial do mundo no século XIX, com algumas reservas, mas vou dizer, é um pouco como os Estados Unidos hoje em dia, era a fonte das modas, das convenções, as classes médias inglesas eram o modelo da maneira de vestir, do tipo de viver. Isso tudo vinha da Inglaterra, precisamente pela importância que a Inglaterra tinha. E é na Inglaterra que se cria este gênero de Natal. Em primeiro lugar, pelo papel da família real. A família real inglesa é uma família originária da Alemanha e que com o marido da rainha Vitória, que é o príncipe Alberto, em meados do século XIX, ainda tem uma nova fonte de costumes alemães. E entre esses costumes alemães vem, por exemplo, a árvore de Natal, que era uma coisa alemã do século XVI, que vem pra Inglaterra, o príncipe Alberto começa a celebrar, neste caso com a rainha Vitória, começa a celebrar Natais à alemã.
E como o reinado foi longo, deu pra se impor à vontade.
E mais, porque como há uma imprensa, passa a haver uma imprensa ilustrada, primeiro gravuras, mais tarde com fotografias. Essa imprensa ilustrada a partir dos anos 1840, 1850 começa a mostrar a família real à volta da árvore de Natal com presentes debaixo da árvore de Natal e as classes médias começam a imitar a família real. Curiosamente, em Portugal acontece a mesma coisa com um primo do príncipe Alberto, o Dom Fernando II, o rei Dom Fernando II, que é casado com Dona Maria II, em meados do século XIX, e é ele também que traz o costume da árvore de Natal e essas coisas. E sabemos isso pelas memórias, por exemplo, do Conde de Mafra, que diz que é ali que vê na corte No Palácio Real que vê a árvore de Natal, que é um costume alemão.
Nós já falámos nisso.
Exatamente, D. Fernando de Saxe-Coburgo-Gota, como o príncipe Alberto também de Saxe-Coburgo-Gota. E depois, ainda na Inglaterra, há uma outra figura que tem um impacto grande na ideia que nós hoje temos de Natal, que é o Charles Dickens, com o famoso "Conto de Natal" de 1843, que instala esta ideia desta festa de Natal como um momento de interrupção do quotidiano, daquilo que as pessoas fazem. É um momento de balanço de vida, de redenção, de reconciliação, de compaixão pelos pobres, mas de reconciliação também, apontando um pouco para uma espécie de redenção, que é isso que acontece precisamente no conto de Natal. É também da Inglaterra que vêm os postais de Natal, a coisa de oferecer postais de Natal, etc.
Mas aí o comércio teve uma força gigantesca também na imposição.
O comércio tem uma força enorme. Primeiro, obviamente, são as elites das classes médias que adotam estes costumes, esta celebração de Natal, o peru, que também se divulga, sobretudo a partir do século XIX, embora já haja referências mesmo em Portugal ao peru no século XVII. Mas é aí que se começa a ficar mais associado ao Natal por influência americana e inglesa. E depois é a partir de meados do século XX, é isso que acontece também na própria Inglaterra, que esses costumes se começam a divulgar mais. Obviamente, o comércio percebe imediatamente o potencial da troca de presentes e do consumo. O Pai Natal, que é uma invenção mais ou menos americana, com o aspecto que tem hoje, uma invenção americana também do século XIX.
Supostamente muito impulsionada pela própria Coca-Cola.
Também. E é assim que o Natal aparece com esta força emocional enorme para além da religião. Começa quase a destacar-se da religião, já não é uma questão de fé, de ir à missa, mas é a família, as crianças, a boa vontade, seculariza-se. E temos este paradoxo hoje, que em sociedades cada vez mais seculares, nunca se celebrou tanto o Natal e nunca o Natal teve tanta importância como hoje, incluindo em sociedades que não são cristãs. Porque isto depois, sobretudo até do comércio e da imitação e do impacto, obviamente, que a Inglaterra e os Estados Unidos têm na cultura mundial, isto passa para outras sociedades. Por exemplo, temos o Japão, que não é uma sociedade cristã, em que os cristãos são uma minoria, e que o Natal é extremamente importante. Li e dá a ideia que é uma espécie de uma imitação de um outro Dia de São Valentim, para os namorados e os casais darem presentes uns aos outros, mas há decorações também. As escolas fecham. Num país que não é obviamente cristão, mas onde há Natal. O Natal começou-se a tornar uma grande festa do ano e isso deve-se, de facto, um pouco à-
E à força da globalização.
À força da globalização.
Como o Halloween, por exemplo, em Portugal, hoje em dia, eu vejo com os meus filhos, começa a ser celebrado de uma maneira-
O Dia de São Valentim, estamos a falar do Dia de São Valentim.
Vai-se impondo. Passamos a ter uma espécie de festas planetárias. Tu falaste na secularização, e bem, e todos os dados apontam para uma acelerada secularização da sociedade portuguesa. Há cada vez menos pessoas a declararem-se católicas, os portugueses que hoje vão à missa são uma pequena minoria e existe uma óbvia regressão quanto àquilo a que podemos chamar uma educação cristã. E a minha pergunta não é sobre fé, mas é sobre história.
Sim.
Uma pessoa completamente alheia a esta tradição cristã tem os conhecimentos necessários para compreender a história de Portugal?
Não. A resposta é não, nitidamente não. Lembro aqui uma frase curiosa, uma boutade, se quiserem, do Jorge Sena. Ele dizia que não era cristão, mas era católico. E o que ele queria dizer era que o catolicismo em Portugal já não era só uma religião, uma questão de fé, mas era uma cultura, uma questão de formação, do facto de termos nascido e crescido num país que foi católico durante séculos. Foi cristão e católico durante séculos. E é, portanto, o contexto em que aconteceu a maior parte da história de Portugal. É o que explica muitos atos políticos, é o que explica muitas obras literárias, muitas obras musicais, muitas obras de arte, uma grande parte da nossa arquitetura, mas explica também outras coisas. Explica a organização do nosso dia, porque é que chamamos aos dias segunda-feira, terça-feira, quarta-feira. É um dos poucos países, aliás, do Ocidente, onde se utiliza esta denominação fundamentalmente cristã, onde foram apagadas completamente as referências à maneira de se referir aos dias tradicional, antiga, em que se ligava a deuses. Como ainda acontece no caso dos meses. Portanto, em Portugal, os dias da semana foram cristianizados. Isto dá uma ideia do impacto da cultura cristã, que depois nós, a partir do século XVI, começamos a chamar catolicismo para distinguir do protestantismo. Mas isto dá uma ideia desse impacto. E claro, é muito difícil para alguém, independentemente da sua fé, não é uma questão de fé, que não tenha uma iniciação na cultura cristã, isto é, na cultura bíblica, mas também uma iniciação nas tradições cristãs, até populares. É muito difícil para essa pessoa, se vive em Portugal, perceber este país. Isto é, como eu disse, perceber a paisagem, perceber a arquitetura, perceber os nomes das ruas, perceber os costumes, as festas, os feriados. Por mais esforços que tenham sido feitos para secularizar aquilo que nós temos hoje, mesmo quando já não é uma sociedade cristã, é um cristianismo secularizado, porque aquilo que chamamos às vezes de humanismo Isto é um humanismo secular. É grande devedor dos princípios cristãos. Quer dizer, mesmo a ideia, por exemplo, de igualdade, da dignidade intrínseca de todas as pessoas humanas, independentemente do seu lugar na hierarquia social, do seu estatuto. Isto é uma ideia profundamente cristã.
Diriam que isso vem da Revolução Francesa.
Não, é uma ideia profundamente cristã. Quer dizer, independentemente da dimensão política, digamos assim, ter sido acentuada pela Revolução Francesa, esta ideia intrínseca, que nós hoje diríamos filosófica, é uma ideia cristã, porque na antiguidade não há esta noção. Há escravos, para começar, e há mesmo aquela ideia que Platão e Aristóteles desenvolvem que há determinado tipo de seres humanos que estão vocacionados para ser escravos, que têm almas de escravos. Isso é algo que os cristãos recusavam. Como diz São Paulo: não há homem, nem mulher, nem nada, são todos seres criados à imagem de Deus. Portanto, mesmo a esse nível, digamos que temos uma civilização muito ancorada no cristianismo e convém-nos talvez perceber isso, sobretudo à medida que nos vamos afastando da prática da religião tal como era praticada no passado, isto é, uma religião coletiva, a nossa comunidade como uma comunidade cristã. Hoje somos uma comunidade nacional ou cívica, e é bom lembrar essas raízes, esse ancorador. Porque muitas das coisas que nós damos por adquirido vieram do cristianismo. Se cortamos qualquer amarre, isto é, se nos esquecemos completamente do cristianismo, é provável que muita coisa deixe de começar a fazer sentido. E pode não ser uma aquisição civilizacional se nos esquecemos da razão de ser, isto é, da razão forte, por exemplo, da igualdade entre os seres humanos, da dignidade dos seres humanos.
Muito bem. E é assim que terminamos esta primeira parte do especial Natal e o Resto é História. Voltamos já a seguir. Olá, sejam bem-vindos então a esta segunda parte do especial Natal e o Resto é História, cuja primeira emissão foi pro ar no dia 25 de dezembro e, portanto, não podíamos perder esta oportunidade de contar aqui algumas histórias de Natal. E uma delas, bastante conhecida, que já deu origem a filmes e tudo, é a famosa trégua de Natal de 1914, em que as tropas nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial pousaram as armas por uma noite e alemães e soldados britânicos se entregaram a um pacífico convívio. Esta iniciativa de parar as hostilidades entre tropas beligerantes no dia de Natal é alguma tradição da quadra ou foi simplesmente um epifenómeno que aconteceu a 25 de dezembro de 1914, Rui?
Aconteceu, mas pode não ter tido nem a dimensão, nem o significado que alguns lhe atribuíram depois.
Lá vêm os historiadores tragar bonitas histórias de Natal.
É verdade, este é um dos trabalhos dos historiadores. Deve ter acontecido em locais muito delimitados e num determinado momento da guerra. E esse momento da guerra é falhada a ofensiva alemã com que a guerra começou, portanto, no verão, outono de 1914, a Alemanha ataca a França, pensa derrotar a França em poucos meses, não consegue. E depois os franceses e os britânicos, que entretanto tinham enviado um corpo expedicionário pra França, contra-atacam e também esperam ganhar a guerra em poucos meses e também não conseguem. E esta é uma guerra ainda de movimento, isto é, de ofensivas, de deslocação de tropas. E o que está a acontecer nas semanas anteriores, portanto, ao fim do ano, ao Natal de 1914, é que começaram a cavar as trincheiras. E é nessa guerra que parou e onde os generais, os comandantes, ainda não sabem bem o que é que vão fazer a seguir.
Porque é uma guerra totalmente nova, não é?
Sim, ninguém estava à espera disso. Isto é na frente ocidental, na frente oriental, entre a Rússia e a Alemanha, há movimento, mas na frente ocidental para. Isto é, no norte de França, basicamente, e na Bélgica, para. E é nesse momento em que as coisas não é claro o que é que vai acontecer, que as tropas, também paradas em frente umas das outras, neste dia de Natal terão começado a cantar de uma trincheira pra outra, isto é, cantar canções de Natal, a dizer feliz Natal, e terá acontecido nalguns casos, mas poucos, que se aventuraram na chamada terra de ninguém, isto é, na terra que ficava entre as duas trincheiras, e terão trocado presentes ou saudações. Diz-se que teriam jogado à bola nalguns casos, quer dizer, que os ingleses teriam começado desafios de futebol. Há testemunhos disso. Isto é, em cartas de soldados, em memórias, mas por vezes não é claro, repito, não é clara a dimensão. Agora, é claro que os oficiais, isto é, a hierarquia, não gostou nada disto. Não gostou nada desta confraternização entre as tropas, podia afetar o moral e a capacidade de combate das tropas. E, portanto, por exemplo, em 1915, no ano seguinte e nos outros anos, eles fizeram já nalguns setores da frente, fizeram questão de haver barragens de artilharia no dia 25 pra impedir qualquer contacto. Também é curioso notar que quer a imprensa francesa, quer a imprensa alemã, em 1914, inicialmente não mencionaram isto. É a imprensa americana, portanto, um país neutral ainda em 1914, que começa a falar dessa confraternização. E depois a imprensa inglesa pega na imprensa americana e também fala, mas a imprensa francesa, que estava sujeita à censura, menos. Aliás, a confraternização parece ter acontecido mais entre alemães e britânicos do que entre alemães e franceses. Obviamente, os franceses tinham menos razões pra ser simpáticos pros alemães.
Estavam mais envolvidos.
E os alemães estavam em França, a guerra estava a passar-se em França.
E é o espírito de fair play britânico.
O espírito de fair play britânico, deixar que, afinal, não havia rancor.
Como se fosse um jogo de bola.
Exatamente. Esta história é depois usada posteriormente para dizer que, ao fim e ao cabo, os soldados não tinham nada uns contra os outros e eram os comandantes é que estavam a fazer a guerra. Portanto, os soldados quando se desse uma oportunidade, imediatamente se entenderiam. E portanto, o espírito Natal, um espírito pacifista, um espírito de reconciliação.
Também não foi assim?
É verdade que os soldados tinham uma cultura comum, que era o cristianismo, eram cristãos.
Mas isso nunca impediu massacres.
Ora bem, dois ou três séculos antes estes soldados tinham se massacrado uns aos outros, precisamente por serem cristãos, mas terem ideias diferentes do cristianismo, isto é, católicos, protestantes ou mesmo entre os protestantes, adeptos de correntes diferentes. E aquilo que nós temos é que no princípio do século XX, embora o cristianismo já não os divide como os dividia no século XVI ou XVII, durante as guerras da religião, mas as culturas nacionais, isto é, alemães, a identidade alemã, a identidade francesa e a identidade britânica está a criar mentalidades que levam a uma desconfiança em relação àqueles que não são parte da comunidade nacional. Isso é obviamente acentuado durante a guerra, até pela propaganda dos vários Estados beligerantes, acentuam essa identidade, essa cultura como algo distintivo e que é, por vezes, definido para tornar aquela população consciente das diferenças em relação a outras populações europeias e para animar o esforço de guerra. E nota-se, têm notado os historiadores, por exemplo, na frente ocidental, durante a Primeira Guerra Mundial, as dificuldades de um soldado se render. Isto é, não era fácil um soldado render-se porque não tinha confiança no adversário, não sabia se oferecendo-se como prisioneiro, se ia ser respeitado como prisioneiro ou ia ser simplesmente abatido, mesmo depois de já se ter rendido. Até 1918, por exemplo, já depois do verão de 1918, quando a última ofensiva alemã falha, é que se começa a notar a rendição em grande escala de soldados alemães. Até então, não tinha acontecido, mesmo quando as coisas corriam mal, porque havia essas suspeitas, isto é, ninguém sabia o que é que significava pôr-se à mercê do inimigo. Portanto, isto dá-nos uma ideia dos limites deste espírito natalício. A desconfiança era muito grande. É óbvio que havia, por exemplo, na frente oriental, isto é, na guerra entre a Áustria, a Rússia e a Alemanha, era diferente, porque por vezes acontecia que, como estes eram impérios multinacionais que dividiam algumas nacionalidades, isto é, havia polacos na Alemanha e havia polacos na Rússia, uma vez que não existia Polónia e estava dividida entre a Rússia e a Alemanha, quer dizer que nos dois exércitos, um contra o outro, podia haver oficiais polacos, oficiais ucranianos, etc. E provavelmente haveria uma tendência para um maior contacto entre pessoas que estavam a combater-se, eram de países diferentes, mas da mesma nacionalidade. Mas não, os europeus durante a Primeira Guerra Mundial não estavam muito destinados a entender-se amavelmente e, portanto, a comemoração, estas tréguas de Natal foram mesmo episódios simpáticos, mas episódios muito delimitados na guerra. Aliás, há um testemunho de um soldado inglês que também é curioso. Os alemães no setor onde ele estava, os alemães teriam vindo confraternizar com eles, eles ficaram ali, mas depois os alemães não foram pra trincheira, ficaram cá fora. E eles, os soldados ingleses, gritavam pra eles para eles irem pra trincheira para eles poderem começar a disparar outra vez, porque não os queriam atingir. Eles dizem: "Não podemos matá-los a sangue frio quando eles estão cá fora." Mas eles insistiam em andar ali nos parapeitos, ainda sem descer à trincheira. Mas eles queriam disparar.
Exato. Bom, enfim, esta primeira parte foi mais natalícia, agora esta segunda parte está mais beligerante e violenta, que isto não é pra ser apenas um programa de licor doce. E então, dentro desse espírito, eu propunha que concluíssemos esta emissão especial com uma história de Natal que, de facto, temos de admitir que não é especialmente bonita. Há precisamente 30 anos, faz agora 30 anos, dia 25 de dezembro de 1989, o ditador romeno Nicolae Ceaușescu e a sua mulher Helena foram sumariamente julgados e executados por um tribunal militar na Roménia. Consegues contar-nos essa história, Rui? Quem era este casal Ceaușescu e por que que morreram daquela maneira em pleno dia de Natal, faz agora 30 anos.
É, foi a imagem do Natal de 1989, o ano da queda do Muro de Berlim, em novembro. Na televisão, isto é um registo histórico. Houve quem imaginasse se tivesse sido possível na Revolução Francesa ver o Robespierre durante o Termidor a ser julgado e depois executado. Ter imagens disso. Aqui tínhamos do ditador comunista Nicolae Ceaușescu e da sua mulher. Bem, a Roménia era um dos países do chamado Bloco de Leste, portanto, uma ditadura comunista. O Nicolae Ceaușescu estava no poder desde 1965 e tinha algumas características especiais que explicam também esta história, porque é que acabou assim. Embora estivesse incluído no Bloco de Leste, a Roménia fazia parte do Pacto de Varsóvia, portanto era um aliado da União Soviética, ele tinha alguns pruridos de independência em relação à União Soviética, ao contrário de outros Estados comunistas cuja submissão a Moscovo era muito mais evidente. A Hungria, a Checoslováquia, a própria Polónia, eram Estados muito mais submetidos, seguidores em relação a Moscovo. O Ceaușescu era um comunista que nos anos 30 e 40 não se tinha exilado na União Soviética, como tinha acontecido a muitos líderes comunistas da Europa de Leste. Portanto, tinha ficado sempre no país e isso pode explicar, em parte, este sentido de independência. E também por causa da ideia que ele desenvolve de comunismo a partir do fim dos anos 60, depois de visitar, aliás, a Coreia do Norte e a China maoísta.
Duas belas fontes de inspiração.
Exatamente, que é uma ideia de comunismo, primeiro, como uma espécie de revolução permanente, isto é, uma tentativa de transformação brutal da sociedade, mas também uma mistura entre comunismo e nacionalismo. Isto é, tentar identificar o comunismo com o nacionalismo. Reparem que nos outros países de Leste, o comunismo era nitidamente internacionalista. Aliás, tinha sido quase imposto pela ocupação soviética. A ocupação soviética também tinha acontecido na Roménia, mas Ceaușescu tenta estabelecer esta diferença. E além disso, a Roménia é um país produtor de petróleo, o Ceaușescu convence-se que pode fazer da Roménia uma grande potência. É um ditador comunista com aquelas aspirações faraónicas do ditador da Coreia do Norte, o Kim Il-sung, e de Mao Tsé-Tung. Quer transformar a sociedade e quer fazer da Roménia, que tem 25 milhões de habitantes nos anos 80, quer fazer esta grande potência. Quer aumentar a população, por exemplo, proíbe o aborto, proíbe os anticoncepcionais, torna mais difícil o divórcio, para fazer aumentar a população.
Deve ter corrido bem, não é?
Correu incrivelmente. Faz outras coisas que é: a partir do petróleo, tenta estabelecer relações comerciais com o Ocidente para tornar a Roménia mais próspera, isto é, para tentar obter créditos ocidentais, capitais ocidentais. E como tem esta diferença em relação a Moscovo, por exemplo, em 1968 condenou a invasão da Checoslováquia pela União Soviética, por tropas do Pacto de Varsóvia.
Tinha mais cumplicidades no mundo ocidental.
E o mundo ocidental começa também a acarinhá-los, embora seja o ditador comunista mais brutal da Europa de Leste, começa a ser acarinhado pelo mundo ocidental. E ele usa esta relação com o Ocidente, tem um acordo comercial com a Comunidade Económica Europeia, etc., para se endividar ao Ocidente. E depois, nos anos 80, quando os preços do petróleo caem, porque ele beneficia obviamente a alta dos preços do petróleo nos anos 70, sobretudo depois da Guerra de Outubro, no Médio Oriente, em 1973.
Foi na altura que construiu o seu belíssimo palácio, não é?
Exatamente. Ele faz aquela coisa incrível que é arrasar um quinto de Bucareste para construir a Casa do Povo, que é um palácio, uma coisa faraónica, uma coisa de Antigo Egito, uma coisa gigantesca. Este comunismo megalómano, típico da Coreia do Norte com os seus mísseis nucleares, ele ainda não tinha isso, mas mais tarde provavelmente teria sido uma das coisas. Mas quando os preços do petróleo caem nos anos 80, ele sujeita depois a Roménia a uma austeridade absolutamente brutal para pagar todas as dívidas. E em dezembro de 1989, ele tinha acabado de pagar toda a dívida externa da Roménia, a dívida externa ao Ocidente. Quem quiser ter uma ideia do que era viver na Roménia sob o Ceaușescu, tem os livros da Herta Müller, que foi Prémio Nobel de Literatura em 2009.
Certo. Escreve em alemão.
Uma escritora romena, mas de língua alemã, porque é alemã, da minoria alemã na Roménia. E há um livro extraordinariamente sugestivo que é a "Terra das Ameixas Verdes", que foi traduzido e publicado em português em 2009, e dá a ideia do que era o comunismo e este comunismo romeno. Ora bem, o que é que acontece em 1989 e sobretudo no outono de 1989? Quando os outros Estados comunistas começam a ruir, com a queda do Muro de Berlim em novembro, mas também com a aceitação na Polónia de que a oposição, o Solidariedade Pode governar. A mesma coisa começa a acontecer na Hungria, aquilo começa a descer com a Eslováquia e com a chamada Revolução do Veludo. Geralmente são transições pacíficas. Há grandes manifestações. Aliás, isso acontece no caso da queda do Muro de Berlim em 9 de novembro de 1989, falamos disso o mês passado. Há uma grande relutância das novas autoridades, até por causa da política reformista que Mikhail Gorbatchev tem na União Soviética, uma grande relutância das autoridades comunistas nestes países de reprimir estas manifestações. Eles ficam mais ou menos paralisados e acabam por evitar.
O regime desaba naturalmente, mas sem grande violência.
Ora bem.
E sem sangue. Coisa que não acontece na Roménia.
Isso não é o que acontece na Roménia. Aliás, também não tinha acontecido na China. Na China também tinha começado a haver manifestações, por exemplo, na Praça Tiananmen, na primavera de 1989, e tinha acabado com aquele massacre cujas proporções ainda não sabemos bem, em junho de 1989. Ora bem, de certa maneira, a Roménia parece, no princípio de dezembro de 1989, seguir o caminho chinês. Há também manifestações, aliás, manifestações de protesto contra o governo Ceausescu, que começam precisamente nas zonas onde há minorias nacionais, por exemplo, húngaros na Roménia. A Roménia é um país multinacional também, tem romenos, mas também tem alemães e também tem populações húngaras na Roménia. E os Ceausescu, quando começam esta contestação, que primeiro começa com estes húngaros, depois os estudantes e uma grande parte da população adere a estas manifestações. O Ceausescu, no princípio de dezembro de 1989, dá ordens para uma repressão tremenda. E em Timișoara, que era onde começaram estas manifestações, já haverá havido cerca de uma centena de mortes ou mais, não se sabe exatamente, feitos pela polícia, pela famosa Securitate, e pelo exército. Mas o Ceausescu convence também que ele pode ainda mobilizar a população contra a possibilidade de uma mudança, isto é, do fim do comunismo. A história televisiva do fim dos Ceausescu começa logo em 21, 22 de dezembro, quando ele tenta falar num comício gigante em Bucareste e começa a ser vaiado pela multidão. Isto é uma das grandes imagens também de 1989, que é o ar perplexo dele. Ele está completamente espantado, não percebe o que está a acontecer, como é que é possível. Ele, que é o Conducător, o líder, uma espécie de título à Führer, à Duce. O Conducător, o líder da Roménia, líder absoluto, presidente de tudo e mais alguma coisa. A mulher também é presidente de tudo e mais alguma coisa, e é também uma grande cientista, é considerada uma grande cientista. Não é nada, mas inventada pelo regime. É um regime de faz de conta, de delírio. Ele fica completamente espantado por esta reação, refugia-se lá no seu palácio gigantesco, de onde acaba por ter de fugir de helicóptero, porque a multidão já invade o palácio e tenta agarrá-lo, ele foge. E o que acontece então é que há uma parte da própria elite comunista e militar também, que decide que era tempo de acabar com aquilo. Aliás, provavelmente sob inspiração soviética. Gorbatchev nunca tinha gostado de Ceausescu, aliás, eles nunca tinham gostado muito de Ceausescu na União Soviética e nitidamente inspiram ou incentivam a própria elite comunista a livrar-se de Ceausescu. E é isso que acontece, ele é capturado. E é no dia 25 de dezembro, dia de Natal, que é rapidamente julgado. Quando digo rapidamente, é mesmo rapidamente, existe a gravação disso, e é fuzilado tão à pressa que há uma equipa de televisão romena que está lá para filmar o fuzilamento e que já não chega a tempo. No filme há os disparos, mas eles já só filmam os cadáveres. E essa é uma das imagens do Natal de 1989, é precisamente os Ceausescus, os dois, o Nicolae Ceausescu e a Elena Ceausescu, contra a parede. A Roménia deu a ideia também de que as transições para fora do comunismo não iam ser sempre pacíficas. E depois, na Jugoslávia, a partir de 1991, o que temos é uma série de guerras civis que deixaram, calcula-se, uns 130 mil mortos, vão durar quase 10 anos, aquela separação de nacionalidades.
Enfim, não se pode dizer que tenha sido a mais bonita história de Natal.
Não é a mais bonita história de Natal, mas libertou os romenos de uma ditadura de pesadelo, isto é, o comunismo. O comunismo em todos os países onde foi experimentado resultou sempre em ditaduras e teve muita treita a produzir estes faraós loucos, como na Coreia do Norte, na China com o Mao, em Cuba com o Fidel, gente que julga que tem o mundo na palma da mão e que pode fazer tudo e mais alguma coisa.
Muito bem. E assim termina este 24º episódio de "E o Resto é História". Já sabe.
E feliz Natal a todos.
Feliz Natal para toda a gente. E aproveite para comer o peru e as batatas que Dom Afonso Henriques não teve oportunidade.
Exatamente.
Até para a semana.