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E o resto é história.
É a terra a fumar.
Do incêndio e palavra ainda na zona dos Chiados. Falo por gosto, é que arde em mim de vermelho, trovo do corpo, fogo do amor.
Quer transformar este país numa ditadura. Entende?
Com João Miguel Tavares e Rui Ramos.
Olá, seja bem-vindo a mais um episódio de "E o Resto é História", com Rui Ramos e João Miguel Tavares. No dia 9 de março de 1916, faz agora 110 anos, em plena Primeira Guerra Mundial, a Alemanha decidiu oficialmente declarar guerra a Portugal. Eu digo oficialmente porque os dois países já tinham entrado em confronto em África em 1914, tanto no sul de Angola como no norte de Moçambique. E quando no final de fevereiro de 1916 o governo português decidiu apreender os navios alemães que estavam ancorados em portos nacionais, o confronto, que era oficioso, tornou-se oficial. E a 9 de março, o embaixador alemão em Portugal apresentou uma declaração de guerra contra o nosso país. E na sequência dessa declaração, o governo português decidiu enviar tropas para o palco de guerra europeu, onde, como todos sabemos, correu tudo muitíssimo mal. Foram mobilizados muitos homens, várias dezenas de milhares de homens do Corpo Expedicionário Português, e isto já na parte final da guerra, mas que ainda sofreram 7 a 8 mil mortos, estima-se algumas dezenas de milhares de feridos e desaparecidos. Os números nunca batem muito certo. Mas todos sabemos, sobretudo na trágica Batalha de La Lys, nós arranjamos um ou dois heróis pra não ficarmos muito mal vistos e aprendemos os nomes deles na escola, mas na verdade foi mesmo uma tragédia e correu tudo pessimamente. Além dos feridos e dos desaparecidos-
Falaremos dessa batalha quando talvez-
Pois é, nunca falamos de La Lys, fica prometido. Mas além dos mortos e dos feridos, o que é que restou? Restou desânimo, desordem e deserções. E Rui, o envolvimento de Portugal na Primeira Guerra Mundial foi, na tua opinião, um erro? Foi uma inevitabilidade ou foi as duas coisas em simultâneo, uma inevitabilidade que se transformou num enorme erro? E já agora, que consequências teve o envolvimento no conflito para a recém-formada República Portuguesa? Convém lembrar aqui que realmente a República era muito recente.
Sim, 1910. Tinha seis anos. A entrada na guerra foi uma opção política, porque foi provocada, isto é, embora a guerra tivesse sido declarada pela Alemanha, foi provocada pelas autoridades portuguesas, e foi uma opção política muito discutida, que dividiu o país, dividiu os próprios republicanos e afetou a Primeira República de uma maneira que a Primeira República nunca mais recuperou desta intervenção.
Essa tua resposta também é muito política, porque tu não estás a dizer se foi um erro ou uma inevitabilidade. Vais lascar?
Já vou lascar.
Parece um político, Rui.
Não, acho que foi inevitável em termos de uma lógica política.
Sim.
E foi um erro também.
Muito bem. As duas opções.
Vamos ver. Eu diria que em 1916 esta entrada na guerra foi o equivalente à adesão à Comunidade Económica Europeia em 1986.
70 anos depois.
Se queres uma interpretação provocadora.
Sim, de facto, acho que até tu chegares, acho que nunca ninguém tinha lembrado.
Só que foi uma opção menos consensual e com muito piores resultados. Mas pra perceber isto, pra perceber a entrada na guerra, acho que temos de perceber o que foi a Primeira República Portuguesa proclamada em 1910. A Primeira República foi substancialmente o domínio do país pelo Partido Republicano Português de Afonso Costa, um partido que impediu sempre os outros partidos de alternarem consigo no poder, usando a violência, como em maio de 1915. Um partido que retirou o direito de voto à maioria da população em 1913, excluindo os homens analfabetos do direito de votar. As mulheres já tinham sido excluídas também pelos republicanos. E um partido que iniciou uma guerra cultural contra a Igreja Católica, contra o catolicismo em 1911, quando o catolicismo era praticado pela quase totalidade da população em Portugal.
Muitas guerras antes da guerra para poder entrar.
Este projeto de um regime de partido único, não democrático e em guerra cultural com o país, dividiu profundamente a sociedade portuguesa e dividiu também os próprios republicanos. Houve líderes republicanos como António José de Almeida ou Manuel Brito Camacho, que contestaram esta orientação de Afonso Costa, o que se traduziu em grandes debates parlamentares, grandes polêmicas jornalísticas e também em grandes pancadarias nas ruas de Lisboa. Isto é, foi uma época de política violenta-
Com mortes.
Na rua, com mortes, com feridos, e constantemente. Quer dizer, não acontecia só de vez em quando. Os custos do domínio do país pelo Partido Republicano Português de Afonso Costa foram enormes. Por exemplo, em número de presos políticos, havia milhares de presos políticos. Falta de liberdade. E tudo isso escandalizou a Europa em 1911, 1912, 1913, nomeadamente a Inglaterra. Há campanhas em Inglaterra pra libertação dos presos políticos em Portugal. Distanciamento e até hostilidade da Inglaterra em relação a esta república quase violenta. Aliás, a França republicana também se manteve distante desta república, também disse que não tinha nada a ver com isto que estava a passar aqui em Portugal, embora Portugal fosse uma república. Isso fez com que corressem muitos rumores em Portugal sobre a ideia de que a Inglaterra iria deixar a Espanha, que era uma monarquia, invadir Portugal, ou de que a Inglaterra ia repartir as colónias portuguesas com a Alemanha. Constantemente corriam esses rumores. A República Portuguesa é tão mal vista, é um regime tão abjeto em termos europeus, tão pouco civilizado, tão violento, que um dia destes há uma intervenção, um dia destes eles decidem: "Este país não merece ter colónias, vamos dividi-las entre nós." E tudo isto, obviamente, que era muito espalhado, sobretudo pelos inimigos do Afonso Costa e do Partido Republicano, ia abalando a confiança no regime e na duração do regime e obviamente era uma coisa que perturbava bastante Afonso Costa e os republicanos. E por isso, quando em 1914, no verão de 1914, começa a guerra entre a Alemanha e a Áustria de um lado e a Inglaterra e a França do outro, isto pareceu uma grande oportunidade para Afonso Costa e para os líderes do Partido Republicano. Se conseguissem entrar na guerra ao lado dos aliados, da França e da Inglaterra, podiam provar que tinham a amizade da Inglaterra, portanto não era verdade que a Inglaterra estivesse contra, aqui está, nós estamos a combater ao lado da Inglaterra, e seria a maneira de consolidar a República. Tornou-se imediatamente um projeto político entrar na guerra ao lado dos aliados para dar a entender cá dentro: "Não ouvir essas coisas que vocês andam aí a dizer não tem razão de ser nenhuma, nós somos aliados na frente de combate dos franceses e dos ingleses."
E isso foi assim até a entrada na guerra, ou seja, porque a guerra começa de uma determinada maneira em 1914 e depois evolui e percebes que é uma mortandade sem nome. Isso nunca chega a impressionar?
Não, em 1914 há até uma pressa do PRP de entrar na guerra, porque se julga que a guerra vai durar até ao Natal. Portanto, vai acabar. E em 1915 a mesma coisa. Em 1915 é o ano da grande ofensiva alemã sobre a França, que falhou, e 1915 é o ano das grandes ofensivas francesa e inglesa para derrotar a Alemanha. E também se julga que os alemães vão ser derrotados. Nós temos que entrar muito pressa, eles não têm a ideia da guerra como a guerra de trincheira estática, parada e num impasse. Ainda não têm em 1914, 1915, nem no princípio de 1916 também ainda não é claro. A ideia deles de guerra é: os alemães atacaram, falharam, agora vão ser contra-atacados, vão ser derrotados e nós queremos fazer parte desses vitoriosos. Havia essa razão de expediente político. Havia razões ideológicas também. Em França, a guerra é concebida como uma luta das democracias inglesa e francesa, das democracias progressivas, contra as autocracias reacionárias alemã e austríaca, portanto, um conflito entre a democracia e o autoritarismo. É assim que é concebida em França. Obviamente, os franceses não dizem que a França está aliada à Rússia dos czares, que é de facto o último regime verdadeiramente autoritário e reacionário na Europa, mas esquecem esse pequeno pormenor. Fazem esta luta entre as democracias e o autoritarismo, e os republicanos portugueses também achavam que eram uma democracia, embora tivessem tirado o direito de voto à maioria da população, e havia quem achasse que: "Não, nós como republicanos temos de participar nesta luta das democracias contra os regimes autoritários." E depois há também, em 1915 e sobretudo no princípio de 1916, uma razão financeira. A guerra vai dificultar o tráfico marítimo no Atlântico por causa da guerra submarina alemã. Isso faz aumentar o preço das importações portuguesas e também escassear essas importações. Portugal dependia muito das importações de trigo, metade do consumo de trigo em Portugal era garantido por importações, sobretudo da América. Dependia também adubos, que eram importantes para a agricultura, os adubos também eram importados, e de carvão mineral.
Tudo começou a escassear.
E tudo começou a faltar ou tornar-se muito caro. Ora bem, Portugal como país não beligerante, se Portugal estivesse na guerra, beneficiaria dos créditos abertos pela Inglaterra aos aliados. Portanto, essa foi de repente uma ideia: "Bem, nós temos de entrar também na guerra para arranjar o dinheiro, ficar com o dinheiro dos ingleses." Os fundos europeus, neste caso, eram os créditos ingleses.
Que eram grandes.
Eram enormes, quer dizer, eram créditos abertos aos países aliados para eles poderem fazer compras ou na Inglaterra ou com crédito inglês noutros países cobertos pela Inglaterra. Era uma forma de os ingleses ajudarem os seus aliados. A França estava a beneficiar um bocadinho e Portugal também queria beneficiar disso. Fundamentalmente, havia o expediente político. O que é que Afonso Costa e o PRP estavam a pensar? Eles estavam no poder em Portugal em 1914, 1915.
Contestados, nalguns casos.
Incrivelmente contestados. Mesmo muito contestados, com o país quase em guerra contra eles. E aquilo que eles julgaram era: se nós entrarmos em guerra, vamos dizer: agora temos uma guerra lá fora, temos de fazer uma unidade nacional, aquilo que em França se chamava a união sagrada, isto é, unir todos os partidos republicanos e até mesmo os monárquicos e os católicos. Toda a gente tem que se unir agora porque Portugal está em guerra.
Acabava a discussão política.
Não há cá luta política, vamos fazer um governo de unidade nacional e isso obviamente ajudaria o PRP, porque julgava e planeava nesse governo de unidade nacional predominar e assim ter aqueles que tinham sido até então os líderes da oposição e os seus críticos, de repente anexados ao governo e obrigados a apoiar um governo do PRP. Aliás, era até possível, nos cálculos do PRP, que eles até tivessem o apoio dos monárquicos, uma vez que o rei Dom Manuel II tinha ido viver para a Inglaterra em 1910, era parente da família real inglesa, portanto, iria também apoiar um regime em Portugal, que embora fosse um regime republicano, estava a lutar ao lado da Inglaterra. Portanto, por isso, em 1914, Afonso Costa diz que a entrada na guerra, e vou citá-lo: "É a base mais firme para o desenvolvimento rápido e progressivo do regime." É o grande truque, é a grande carta que ele tem na mão, é entrar na guerra para poder dominar mais completamente a política em Portugal. E o Partido Republicano, a partir desta altura, o Partido Republicano Português de Afonso Costa, também conhecido por Partido Democrático, torna-se o partido da guerra. É assim que é conhecido. É o partido da guerra. São os guerristas, fazem constantemente propaganda para entrar na guerra.
Mas foi uma guerra que demorou muito tempo a ser ganha, não é? Porque 14 a 16 ainda passou muito tempo.
É muito tempo e havia muito tempo, porque havia razões para isso. Nem todos os líderes republicanos embarcaram nesta ideia da guerra. O António José de Almeida acabou por ceder, mas o Manuel Brito Camacho, por exemplo, tornou-se imediatamente alguém cético acerca da entrada de Portugal na guerra. E arranjou alguns argumentos bons contra essa entrada. O primeiro era que Portugal, de facto, já estava na guerra. Portugal já estava na guerra em África, porque Angola e Moçambique faziam fronteira com as colônias alemãs, como tu disseste, e tropas alemãs tinham entrado em território português em África. E, portanto, dizia Manuel Brito Camacho: "Essa é a nossa guerra, é uma guerra em África, devemos ficar por aqui." E reparem, se vocês querem entrar na guerra, já estamos na guerra, estamos na guerra em África. Mas para o Afonso Costa e para o PRP, a guerra em África não servia para nada. O que eles queriam era entrar na guerra na Europa. Não se queriam concentrar em África. Queriam entrar na Europa porque aí é que estava o capital político, era poder mandar um corpo expedicionário para o norte da França para combater ao lado dos franceses e dos ingleses, para toda a gente ver que eles estavam aliados aos franceses e ingleses, e não uma guerra lá perdida em África.
Uma campanha mediática.
É, uma campanha mediática, uma grande campanha mediática. Aliás, coberta pela imprensa, etc. É isso que eles estão interessados. Portanto, o bom argumento de Manuel Brito e Camacho que era: se querem entrar na guerra, já estão na guerra, o Afonso Costa disse: "Não, nós queremos é entrar na guerra europeia, é nessa guerra que nós queremos participar."
Muito bem. Eu sei que há mais razões do Brito de Camacho de argumentos contra a guerra, mas as outras três terão que ficar para a segunda parte. Até já. Olá, seja bem-vindo de volta a esta segunda parte de "E o Resto é História." Nós estamos a falar dos 110 anos que passam desde que a Alemanha declarou guerra a Portugal durante a Primeira Guerra. O Rui estava a explicar que o Afonso Costa estava mesmo com muita vontade de entrar na guerra, mas que Brito Camacho resistia. Já apresentaste uma das razões. Tens mais, não é?
A outra razão tem a ver com o facto de a entrada na guerra ter demorado tanto tempo, entre 1914 e 1916. O Parlamento português mostrou logo a disponibilidade portuguesa para entrar na guerra em 1914.
Certo.
E nunca entrou. E não entrou por quê? Porque a Inglaterra não estava absolutamente nada interessada em ter Portugal na guerra. E não estava nada interessada porque achava o exército português mal treinado, mal organizado. Os relatórios britânicos dizem: "Isto não é um exército, é uma polícia interna. Isto não nos tem interesse militar, não nos ia ajudar em nada. Se nós trouxéssemos soldados portugueses para a frente ocidental, eles ainda eram capazes de trazer doenças que se espalhavam depois nos outros."
Isso é mesmo o Murphy.
Havia mesmo uma visão um bocado preconceituosa em relação a Portugal. E sobretudo achavam que Portugal se podia rapidamente tornar um peso na estratégia dos aliados, porque para os aliados, Portugal continental não tinha grande interesse, até mesmo para a Marinha Britânica, mas podia começar a ser atacado pela marinha e pelos submarinos alemães, o que obrigaria a Marinha Britânica a desviar recursos para defender Portugal. Isso é, de repente, Portugal podia se tornar um peso, enfim, em vez de vir ajudar, vir complicar ainda mais a vida dos aliados. Aliás, o relatório britânico do almirantado diz mesmo: "Portugal só tem interesse para os alemães, só os alemães é que deviam ter interesse em ter Portugal como aliado, porque aí, sim, faria uma base de submarinos no Tejo. Era ótimo como base de submarinos alemães no Tejo. Para nós não tem interesse absolutamente nenhum." E o que é que aconteceu? Aconteceu que o Manuel Brito Camacho tem informações por via diplomática de que esta é a posição da Inglaterra. E, portanto, ele começa a dar a entender também em público, a dizer Nós devemos seguir sobretudo a Inglaterra. Os ingleses não estão interessados em nós entrarmos na guerra, têm boas razões pra isso e nós devemos tender a essas razões, porque são também do nosso interesse. O Brita Camacho diz: "Sim, nós devemos fazer sacrifícios, mas os sacrifícios necessários, não sacrifícios inúteis." Ele acha que a entrada na guerra seria um sacrifício inútil deste ponto de vista. E claro, havia do outro lado aqueles que queriam entrar na guerra e que percebiam perfeitamente essa situação e que achavam que precisamente a Inglaterra era o grande obstáculo pra Portugal entrar na guerra. Um dos guerristas mais furiosos era o João Chagas, nessa altura embaixador português em Paris.
Eram vocês que se chamavam guerristas?
Guerristas, sim. O grande partidário da intervenção. E o João Chagas escreve mesmo no seu diário a dizer: "O único inimigo que Portugal tem nesta guerra é a Inglaterra." Quer dizer, nós queremos entrar na guerra ao lado da Inglaterra, porque a Inglaterra é o nosso grande inimigo, é o inimigo da República. Nós temos de entrar e impor à Inglaterra a nossa aliança. Temos de obrigar a Inglaterra a reconhecer a República Portuguesa e a dar-nos esse prestígio de aliados da Inglaterra, mas nós sabemos que não é a Alemanha, é a Inglaterra que é o nosso inimigo.
E o exército português queria ir pra lá?
O exército português era também outro dos argumentos que estava implícito na posição de Manuel Brita Camacho. Ele tinha contactos, ele era capitão, daqueles capitães teóricos, capitão médico, salvo erro, mas era oficial, tinha um posto nas Forças Armadas. Muitos dos oficiais do exército português também concordavam com a análise britânica. Aliás, a análise britânica tinha sido feita em contacto com os militares portugueses que lhes tinham dito: "Nós temos estes problemas, não fazemos isto, temos estas dificuldades." Havia muitos oficiais portugueses que tinham dúvidas sobre a capacidade das Forças Armadas portuguesas combaterem numa guerra altamente tecnológica como era a guerra na Europa, ao contrário da guerra em África, que era uma guerra um pouco mais de guerrilhas propriamente dita. Embora tivesse corrido pessimamente para o exército português, mas em princípio não devia ter corrido tão mal. O exército português teve o azar, sobretudo no norte de Moçambique, de enfrentar militares alemães que eram excepcionais, porque também humilharam as tropas inglesas. Militares alemães no norte de Moçambique estão cortados de contactos com a Europa, mas sozinhos, até 1918 aguentam, derrotam os ingleses, derrotam os portugueses, dominam aquela região, é um feito militar extraordinário, são grandes militares que lá estavam e nós não tínhamos militares a esse nível, mas em princípio tínhamos tropas preparadas pra esse tipo de guerra. Para a guerra tal como na Europa, uma guerra de artilharia, de combates de artilharia, extremamente mecanizada, com uma tecnologia avançada, muitos oficiais portugueses achavam que o exército português não estava preparado pra isso. E o Manuel Brita Camacho, aliás, iria aproveitar mais tarde o estado de espírito da tropa pra lançar uma conspiração militar, que acabou por derrubar Afonso Costa em dezembro de 1917. Os militares também não queriam. E aliás, o PRP de Afonso Costa a partir de determinada altura começa a mostrar que ao mesmo tempo que é o partido da guerra, é um partido contra os militares, sempre a atacar, a criticar os oficiais, a dizer que os oficiais são cobardes, não querem ir pra guerra, não querem combater, etc. O mal-estar entre o exército e o PRP começa-se a notar em 1915, em 1916. Além disso, havia um outro argumento para a manutenção de Portugal fora da guerra, que era o facto da Espanha estar fora da guerra também. A Espanha era neutral, Portugal não estava a ser obrigado a entrar na guerra. Podia-se ter optado na Primeira Guerra Mundial por uma via como a Segunda Guerra Mundial, de manter a Península Ibérica neutral. Mas não, em Portugal, o PRP, que está no governo com Afonso Costa, está desesperado pra entrar na guerra, aposta tudo para entrar na guerra e é mesmo a grande ideia política deles é entrar na guerra e sofrem muito com o adiamento da entrada na guerra. Isto em 1915, no princípio de 1916, isso começa a desacreditá-los. Toda gente começa a dizer: "Vocês querem entrar na guerra, por que não entram?" Não conseguem entrar. Por quê? Porque a Inglaterra não deixava e notava-se que o PRP não tinha capacidade de entrar.
Então qual é que foi a mudança para de repente entrar com tantas dificuldades e tantos bons argumentos pra estar aqui?
Porque as coisas mudaram na guerra europeia em 1916. Falamos aqui disso a propósito de Verdun. Em fevereiro, começa a grande Batalha de Verdun, que vai apertar a França, os alemães parece que estão a passar à ofensiva outra vez, já sabemos que o plano era diferente, mas parecia também. A Inglaterra também se começa a preparar pra uma grande ofensiva no Somme, para aliviar os franceses. E nesse momento, que volta a haver um alarme na frente ocidental, em 1916, a França e a Inglaterra começam a ficar preocupados com o que se vai passar. Nesse momento, tudo o que eles pudessem arranjar De armas e de homens era bom. E de repente são os franceses que dizem aos ingleses: "Vocês têm esses portugueses desesperados para entrar na guerra. Mesmo que eles mandem 50 mil homens, já era ótimo. Porque Portugal tinha adquirido artilharia recente, havia pouco tempo, artilharia moderna havia pouco tempo, que eles mandem a artilharia deles." Aliás, em determinada altura, quando Portugal entra na guerra, começa a mandar a artilharia e nunca mais manda os homens. Percebe-se que os ingleses querem os canhões, mas não querem os soldados portugueses. Depois há uma luta também para entrar os portugueses. A Inglaterra, sob pressão francesa, naquele quadro de 1916, acaba por aceitar a intervenção portuguesa. E a intervenção portuguesa, como é que se arranja então a entrada na guerra? A entrada na guerra arranja-se através de uma requisição, por parte da Inglaterra, dos navios alemães que estavam refugiados em Portugal, em portos portugueses, porque os portos portugueses eram neutrais e os navios alemães tinham se refugiado nestes portos. Eram cerca de 70 navios, era muito navio ainda. A Inglaterra faz essa requisição, Portugal começa a expropriar esses navios no fim de fevereiro para os entregar à Alemanha, e o governo alemão em Berlim decide então entrar em guerra, declarar guerra a Portugal. Isto contra a opinião do embaixador alemão em Lisboa, o Friedrich Rosen, que detestava a República, mas adorava os portugueses, estava muito satisfeito por estar cá, gostava muito de Lisboa, etc. E que achou que teria bastado interromper as relações diplomáticas, cortar as relações diplomáticas e não entrar em guerra. Ele nas suas memórias conta que o governo de Berlim não lhe pediu a opinião, porque julgou que ele também seria partidário de entrar em guerra. Só depois é que disseram: "Mas você era contra, mas por que não disse?" "Ninguém me pediu, ninguém me disse nada. Vocês declararam a guerra sem me dizer nada." Ele, coitado, compungido, é na tarde do dia 9 de março de 1916, que ele pede uma audiência ao ministro dos Negócios Estrangeiros, que é o Augusto Soares, para lhe entregar uma nota do governo alemão, um comunicado que tinha recebido do governo alemão. Eles o entregam em alemão e depois traduz oralmente em francês o que lá está. Começa a ler, a traduzir em francês, porque ele diz que o Augusto Soares não falava nem lia alemão, e ele está a traduzi-lo até chegar ao momento, isto já é contado da parte portuguesa, não é contado por ele, até chegar ao momento em que a nota do governo alemão diz que por isto e mais aquilo e mais aqueloutro, e por Portugal ser um vassalo da Inglaterra. Nesse momento, o Augusto Soares teria se levantado e dito: "Não leia mais. Acabou. Já chega. Não leia mais nada. Quando é que quero os passaportes para sair de Portugal?" Interrompeu ali, porque achou aquilo humilhante, os termos humilhantes. O Friedrich Rosen sai no dia 10 de março, no dia seguinte, sai de comboio para Espanha. Mas tem esta nota curiosa. O ministro dos Negócios Estrangeiros, com quem ele teve este conflito, mandou um ramo de flores à mulher do embaixador alemão.
Olha a elegância, é muito bonito.
Um grande ramo de flores, que foi entregue na estação à mulher. Ele diz: "Sim, senhor, um ato de cortesia."
Que elegância. Mas explica-me uma coisa, por que o Portugal esforçou-se para ser a Alemanha a declarar guerra e não Portugal a declarar diretamente guerra à Alemanha?
Sim, aí já tinha a ver com a necessidade do Afonso Costa de dizer: "Eles estão nos a declarar guerra, não estamos nós a declarar guerra." Dizer: "Estão a ver? Nós temos um conflito com a Alemanha e temos de entrar." Isto é tudo política e mesmo a Inglaterra convinha que fosse a Alemanha a declarar guerra para não parecer que tinha sido a Inglaterra a obrigar Portugal a entrar em guerra, como provavelmente a Alemanha teria dito se Portugal tivesse declarado guerra à Alemanha. Portugal tinha razões para declarar guerra à Alemanha, porque o que se estava a passar no norte de Moçambique e o que se tinha passado no sul de Angola em 1914, mas não tinha aproveitado isso, porque a Inglaterra não tinha deixado, nessa altura. O plano é enviar 50 mil homens para a frente ocidental. Eles começam a embarcar no princípio de 1917. Pensando que há 30 mil homens em África, quer dizer que há cerca de 80 mil portugueses a combater fora de Portugal. Na frente ocidental, estes 50 mil soldados serviam para guarnecer 16 km de frente. E Portugal ficou com um setor de frente, 16 km de frente. A experiência vai ser terrível, falaremos disso talvez num outro episódio, mas uma das coisas que os portugueses detestaram imediatamente foi a alimentação. A alimentação era fornecida pelos ingleses.
Sim, isso é desmoralizador.
Não havia pão, por exemplo, eles não forneciam pão. Eles tinham de andar depois em pequenos grupos a tentar comprar pão nas aldeias francesas, porque para os ingleses isso não era muito importante.
Não vem pão de França realmente.
Mas para os portugueses, não ter pão na alimentação. Não era baguete, porque era aquele pão rural, porque as baguetes provavelmente eles também não gostariam. Mas uma das coisas que eles detestavam eram as sobremesas, que era uma espécie de compote de laranja azeda, que eles diziam. Compota inglesa que eles achavam infernal, coitados. Enfim, não foi o pior. Isto não era o pior.
Acho que não foi o pior que lhes aconteceu, não.
Não foi o pior que lhes aconteceu. Portanto, o que é que foi a consequência para Portugal? É um esforço enorme, um esforço financeiro e um esforço militar enorme, que eu acho que em termos do século XX não foi bem avaliado ainda hoje. Ou antes, foi avaliado num estudo de 2020 do Ricardo Ferraz, no livro "Grande Guerra e Guerra Colonial: Custos para os Cofres Portugueses", em que ele compara a intervenção na Grande Guerra entre 1916 e 1918 e a chamada Guerra Colonial entre 1961 e 1974. Isto é pra comparar o esforço. E o esforço, de facto, da Grande Guerra é enorme, é maior do que o da guerra colonial. Os custos são muito maiores. A Grande Guerra custou ao Estado português entre 1916 e 1918, anualmente, cerca de 50% do orçamento foi gasto no esforço de guerra, o equivalente a, isto é estimativas, 8% do PIB. Quando a chamada guerra colonial, nos anos 60, custou o máximo de 22% do orçamento e cerca de 3% do PIB. Portanto, foi um esforço em termos financeiros, muito menor do que o da Primeira Guerra Mundial. A Primeira Guerra Mundial é, de facto, um esforço violentíssimo, é um esforço enorme. Quer dizer, por uma guerra que é uma guerra com uma dimensão, com uma violência extraordinária de uma guerra contra uma potência, uma grande potência europeia como é a Alemanha. E portanto, foi muito mais caro.
E também fez muitas baixas.
Em número de mortos, quando nós pensamos no tempo que durou dois anos na Europa, vamos supor mais dois anos, se entrarmos em linha de conta com aquilo que em África, sobretudo com Moçambique, temos num curto espaço de tempo, e as estimativas de mortos, como tu dizes, variam mas vamos supor a mais baixa, cerca de 4 mil. Temos 4 mil mortos em quatro anos, contra 8 mil em 13 anos. Também muito mais mortes por ano na Primeira Guerra Mundial do que na guerra colonial. Portanto, é um esforço muito grande. É talvez, comparativamente, o maior esforço militar do país no século XX, esta entrada na Primeira Guerra Mundial. E aliás, tem também uma dimensão colonial, porque é nestes anos da Primeira Guerra Mundial que acaba a ocupação militar de Angola e de Moçambique, porque há uma série de guerras coloniais em Angola e Moçambique, não associadas ao combate contra os alemães, mas já agora que os exércitos estão lá, submetem-se populações locais que estavam revoltosos.
E a questão dos submarinos, o medo dos submarinos alemães?
Concretizou-se, houve ataques de submarinos alemães a cidades portuguesas, ao Funchal, 3 de dezembro de 1900.
Mas houve vítimas?
Sim, com vítimas, bombardeamentos de submarinos alemães. Ponta Delgada, em 1917.
Funchal, Ponta Delgada.
São Vicente, Cabo Verde, em novembro de 1917.
Também é bombardeado.
É bombardeado e depois são barcos afundados, etc. E depois, além dos mortos, feridos, prisioneiros de guerra, resultado da intervenção, há outras dificuldades que são vividas no país com a crise de abastecimentos, sobretudo em 1917, 1918. Em 1917, a tonelagem desembarcada nos portos portugueses representou 20% de 1913, portanto uma queda de 80%.
E os portos tinham uma importância fundamental.
Enorme. O trigo, o carvão, os adubos, era por via marítima que chegavam. Tudo isto quer dizer que é 80% de quebra de todas essas importações. Eu diria que são os piores anos pra viver em Portugal no século XX. São estes anos 1917, 1918 e ainda 1919, por causa da epidemia de gripe.
Acho que tiveste a epidemia de gripe.
Depois de 1918, no fim de 1918, 1919, que mata mais gente do que a Primeira Guerra Mundial. Portanto, são mesmo os piores anos. Isto vê-se nas pirâmides demográficas portuguesas. São os anos em que nasce menos gente. 1917, 1918, 1919 são os anos em que a pirâmide encolhe. As pessoas não estavam a fazer os filhos que deviam nesta altura. Politicamente, as coisas também foram desastrosas. A crispação, não houve união sagrada coisíssima nenhuma, não houve nenhuma unidade nacional. A luta política tornou-se ainda pior, mais violenta. Com esta característica, o PRP, o Partido Republicano Português do Afonso Costa, até então tratava toda a gente que os criticava como monárquicos. Eram os fascistas da altura. Todos eram monárquicos. Qualquer pessoa, os sindicalistas, os anarquistas, era tudo monárquicos, era tudo acusado de ser monárquico. A partir de agora, com Portugal na guerra, passaram a ser não apenas monárquicos, mas germanófilos. Aliás, agentes da Alemanha. Toda a gente passou a ser agente da Alemanha. Todos aqueles que criticavam o PRP e Afonso Costa eram traidores à pátria, já não apenas traidores à República, mas traidores à pátria. E o PRP passou a tratar a oposição, manifestações de protesto com uma violência extraordinária. Em 19 de maio de 1917, há grandes protestos em Lisboa pela falta de abastecimentos, pela falta de pão, sobretudo. A população alarmada veio pra rua, fez muitas manifestações e foi reprimida com uma violência extraordinária pela Guarda Republicana. A Guarda Republicana nesse dia terá matado, é o que vem nos jornais, 38 pessoas na baixa de Lisboa. Isto é uma coisa absolutamente louca. Feriu mais 117 e fez 547 prisões. Como, aliás, até um jornalista partidário do PRP vem a reconhecer depois da queda de Afonso Costa em dezembro de 1917, ele diz mesmo: "Aquilo era um governo encharcado em sangue". Havia em Portugal um governo encharcado em sangue, que estava literalmente uma violência extraordinária. O Afonso Costa dizia: "Temos de manter-nos na guerra, temos de manter na guerra." E disse: "E se for preciso eu fechar-me dentro de um cofre para mantermos na guerra, fecho-me dentro de um cofre." Portanto, isto é a ideia de bunker. Isto é, era uma mentalidade de bunker que criou no poder e que explica também depois o derrube de Afonso Costa em dezembro de 1917.
De nada lhe serviu a presença de Portugal na guerra.
Não, pelo contrário. A guerra, aliás, teve outras duas consequências historicamente Graves. Primeiro, destruiu completamente os equilíbrios orçamentais que Afonso Costa tinha tentado manter em 1913, 1914. O déficit chegou a 8% do PIB, ou seja, déficits gigantescos. Causou inflação, há uma inflação enorme por excesso de emissão de notas para fazer pagamentos e por falta também de abastecimentos. Isso cria greves, protestos, descontentamento, muito descontentamento na classe média, entre os operários, mas também na classe média. Portanto, há um ambiente de conflito social que se cria com a guerra e depois no pós-guerra, nos anos de 1919, 1920, 1921. E depois uma outra coisa que a guerra faz, e que é fatal também para este domínio do Partido Republicano, é que transforma completamente o exército. Aquele exército que os ingleses não queriam ter na guerra em 1914, porque achavam que aquilo era mais ou menos uma polícia local, transforma-se completamente com a guerra, isto é, adquire armamento moderno. O número de oficiais no ativo duplicou, eram 2700 em 1910, passam a ser 5481 em 1920. Portanto, o corpo de oficiais, isto são os oficiais combatentes no ativo, se incluímos os não combatentes, em 1920 temos o dobro de oficiais que existia em 1910, são 10 mil em vez de cinco mil, quer dizer, é muita gente. São mais profissionais, muitos deles estiveram na guerra, combateram, mais novos porque houve um rejuvenescimento dos quadros. Os generais agora estão na casa dos 50 anos, enquanto anteriormente estava tudo na casa dos 60 e dos 70 anos. Portanto, agora são generais mais novos, com maior capacidade de intervenção. Há um novo culto à volta do exército, porque a participação na guerra, embora tivesse resultado em desastres militares, estes desastres militares foram vistos como a capacidade de sacrifício do exército português. Portanto, a Batalha de La Lys, 9 de abril de 1918, passou a ser comemorada em Portugal, apesar de ter sido aquele desastre, como a prova da capacidade dos soldados portugueses oferecerem-se a combate e sofrerem em combate. Portanto, o exército, de repente, há monumentos ao exército, os monumentos aos mortos da Grande Guerra, que há em quase todas as cidades portuguesas. Reparem que até então o grande foco das comemorações do exército era a Guerra Peninsular de 1808 a 1814. Portanto, de repente, há veteranos, há uma presença dessa gente que fez a guerra e que agora vai sentir, perante as lutas políticas na República e o ambiente de caos, a ideia de que o exército pode manter a ordem e pode constituir um regime. E é isso que vai acontecer em maio de 1926, quando muitos destes oficiais vão substituir aquilo que eles chamavam a ditadura do PRP, do partido de Afonso Costa, por uma ditadura militar. Portanto, até o 28 de maio de 1926, de alguma maneira, tem origem na Primeira Guerra Mundial e na intervenção portuguesa da Primeira Guerra Mundial. Não era esse o plano inicial de Afonso Costa, mas foi aquilo que acabou por resultar.
Muito bem. E assim termina, com estas fatalidades, o E o Resto é História desta semana. Voltamos, não demoramos muito. Até lá.
E o resto é história. É a terra a fumar! Do incêntrico Lavra, ainda na zona dos Chiados. Quer transformar este país numa ditadura.
Com João Miguel Tavares e Rui Ramos.