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E o resto é história.
É a terra das pombas.
Do incêndio e plavra ainda na zona dos Chiados. Que faz um filho falo por gosto. É que é pai, vinho vermelho, troco do conto, pouco de amor. Quer transformar este país numa ditadura. Entende? Entende? Com João Miguel Tavares e Rui Ramos.
Olá, seja bem-vindo ao episódio 313 de "E o Resto é História", com os dois que já conhece, Rui Ramos e João Miguel Tavares. O Irão tem estado no centro da atualidade noticiosa e o ouvinte Pedro Pereira Ribeiro enviou-nos um e-mail muito honesto, admitindo que já perdeu a conta a todos os programas do "E o Resto é História" que ouviu e não está muito certo se já ouve algum sobre o Irão. Pedro, nós compreendemos muito bem o sentimento, porque ao fim de 313 programas, se as contas não nos falham, nós próprios já temos dúvidas do que entretanto falámos aqui ou não. Mas extraordinariamente, e dada a importância do que está em causa, eu fui pesquisar e a resposta à pergunta do Pedro é não. Nós nunca falámos do Irão no "E o Resto é História". E a falha é tão grande e a história também é tão longa, que vamos ter que dividir este tema em dois. Portanto, eu peço ao Pedro Pereira Ribeiro para ter um pouco mais de paciência, aguentar mais uma semana, já que as suas perguntas específicas sobre o chá e sobre o Aiatolá Khomeini, que têm a ver mais com este Irão da atualidade, vão ficar para a próxima semana. E para fazermos as coisas bem feitas, não podemos começar pelo telhado. E a verdade é que antes do Irão houve a Pérsia, e a Pérsia é tão extraordinariamente rica e foi uma tão extraordinária influência no mundo ocidental, que é por aqui que acho que temos mesmo de começar. Rui, achas que podemos dizer que a Pérsia foi durante muitos séculos, para nós ocidentais, claro, a imagem de um Oriente idealizado, ou seja, não tanto um lugar ameaçador ou uma cultura a combater, como acontece de certa maneira e aconteceu com o mundo árabe, mas um símbolo de exotismo, de riqueza, de sofisticação, onde os sonhos ocidentais se iam alimentar à maneira das famosas "Mil e Uma Noites". E ao mesmo tempo, se a Pérsia foi isso, a minha pergunta é dupla: quando é que começou a ter esta importância neste nosso imaginário e quando é que deixou de ser? Conta-nos a história desta extraordinária Pérsia.
Temos que começar pelo nome Pérsia. Pérsia nunca foi o nome que os iranianos deram à sua terra. Esse nome foi sempre Irão, que quer dizer terra dos arianos. Arianos é um nome que pode gerar confusões.
Exato, os arianos no Irão.
A propósito do Concílio de Niceia, do ano 325, falei aqui de arianos, mas os arianos nesse contexto referiam-se aos cristãos que seguiam o bispo Ários, da cidade de Alexandria, no Egito, e que tinham uma ideia limitada da divindade de Cristo. Para eles, Cristo não era bem Deus, era criado por Deus. Portanto, isso eram os arianos e o arianismo num contexto do cristianismo do Mediterrâneo.
Mas depois também há o arianismo no contexto salmão, mais famoso.
Que é com o que está relacionado o Irão.
Ah, sim? Então.
Porque a expressão arianos pode ser usada para referir uma coisa completamente diferente e sem qualquer relação com a doutrina cristã, que é um povo que na antiguidade habitava as terras do que é hoje o Irão e o Afeganistão.
Portanto, era a terra dos arianos.
A terra dos arianos. Esse povo falava uma língua aparentada com as línguas originárias, as línguas que vêm a derivar do sânscrito na Índia e com as línguas europeias como o grego e o latim. Portanto, o latim, o grego, as línguas germânicas e as línguas eslavas na Europa, tal como as línguas do norte da Índia, do Paquistão, do Bangladesh, são aparentadas com aquilo que nós chamamos persa, isto é, com a língua falada no Irão. São línguas que parecem ter tido uma origem comum, isto é, derivarem de uma língua anterior muito mais antiga.
Sim, aquela que se chama o indo-europeu. Que é uma coisa meio estranha para nós. Nós não percebemos bem como é que a nossa língua pode ter a ver com a língua índia, por exemplo.
Os eruditos europeus no século XIX deram esse nome de indo-europeu para designar a expansão geográfica que terá tido essa língua antiga, isto é, desde a Índia até à Europa. Terá sido uma língua talvez falada entre o ano 3000 antes de Cristo e o ano 1000 antes de Cristo, de que não há documentos escritos pura e simplesmente. No Médio Oriente, o persa, enquanto língua indo-europeia, distingue-se das línguas semitas, como o árabe ou como o hebreu. Repito, não há documentos escritos dessa língua indo-europeia. Ela é deduzida a partir das línguas que dela terão derivado e que têm palavras e estruturas gramaticais comuns que podem ser atribuídas a essa origem comum.
Isso significa o quê? Que alguém chegou à Índia e de repente disse: "Há aqui umas coisas parecidas com a nossa língua." Como assim?
Foi no século XVI que um missionário jesuíta em Goa começou a reparar na semelhança entre palavras latinas ou italianas e as línguas locais. Por exemplo, Deva, Deus, Serpa Serpente, "serp" ou serpente para cobra, ou os números: "sapta", sete, "asta", oito, "nava", nove. E começou a dizer bem.
Isto é demasiada coincidência.
Exatamente. Isto não pode ser uma mera coincidência. E depois a conjugação dos verbos, começou a recuperar a estrutura gramatical que tem. Isso começa a tornar-se um objeto de reflexão entre os estudiosos, os eruditos europeus. E é no fim do século 18, em 1786, que um erudito inglês, o William Jones, é o primeiro a propor a teoria de que as línguas do norte da Índia, do Irão e da Europa descendem de uma língua comum. E essa língua é aquilo que depois um outro erudito britânico, em 1813, vai chamar de indoeuropeu, para designar precisamente a geografia dessa língua. Ora bem, aquilo que se percebe depois, estudando as línguas do norte da Índia, sobretudo o sânscrito, é que os falantes desse antigo indoeuropeu na Índia se chamavam a si próprios "arya", "aryas". Isto de acordo com o consenso dos eruditos.
Não tem nada a ver com obra?
Não. Tem a ver com nobre, com nobreza.
Vai-se a ver ainda tem a ver com obra e a gente não sabe.
E em sânscrito, por exemplo, a terra de onde eles vinham era conhecida como "Aryavarta", a terra dos nobres. É isso precisamente que o Irão quer dizer. Isto é, uma terra de nobres, é essa terra dos arianos. E a expressão está atestada já em inscrições do século VI a.C. e depois no século III a.C., inscrições na pedra do imperador Shapur, em que se diz mesmo que se chama àquele reino deste imperador Eranszar, que quer dizer o reino dos arianos. O reino dos arianos, o Irão. Só pra perceber depois quando é que vamos ter a Hitler e os arianos de Hitler. No século XIX, os estudiosos europeus ficaram fascinados por isto, obviamente. Continuaram a estudar, a tentar descobrir o que seria esta civilização indoeuropeia. Repito, não há documentos escritos, portanto eles estudam a partir da língua, a partir de alguma arqueologia e chegam a várias conclusões. A partir do estudo da língua, percebem que haveria uma espécie de ideologia indoeuropeia, que remete para uma divisão da sociedade segundo três funções: guerreiros, sacerdotes e trabalhadores manuais. O sistema de castas indiano hoje reflete, de alguma maneira, esta divisão tripartida dos indoeuropeus, que se percebe na língua. Percebe-se também no panteão de deuses romanos e gregos, esta divisão de funções: guerreiros, sacerdotes e trabalhadores.
Mas que seria também herdeira dessa cultura ariana?
Sim, o norte da Índia, a cultura sânscrita é herdeira desta suposta cultura indoeuropeia. A cultura indoeuropeia é uma construção dos eruditos, dos estudiosos, que a partir das línguas começam a tentar descobrir uma mentalidade. E alguns estudiosos avançaram a ideia de que a civilização e a língua indoeuropeia teriam sido levadas pra Europa, pra Índia, pro próprio Irão, a partir da Ásia Central, do atual território do sul da Rússia e do Cazaquistão, por volta do ano 2000 a.C., portanto há 4000 anos, por um povo de pastores seminômades, que usavam cavalos e carros puxados por cavalos pra combater e que teriam dominado os povos dessas regiões e imposto a sua língua, esta língua indoeuropeia. E é essa população de guerreiros que fascina círculos intelectuais na Alemanha no fim do século XIX. Que começam a imaginar que o mundo civilizado ocidental é construído por esta civilização de guerreiros, estes arianos, estes áryas, e os alemães seriam os descendentes na Europa destes arianos, os descendentes mais puros destes arianos. Esta é a visão racialista que se começa a desenvolver na Europa, sobretudo na Alemanha, no fim do século XIX e no princípio do século XX, e que leva à ideia de uma raça ariana, que não está obviamente confirmada por nenhuma documentação, nem pelos estudos linguísticos. Uma raça ariana, que seria uma raça superior e que existiria na Alemanha e que se trataria de sustentar o domínio do mundo por essa raça ariana. Seria esse o objetivo destas visões racialistas. Depois, nos anos 20 e nos anos 30, vem a adotar Hitler e os outros nazistas. E aí é que há uma conversa enorme de arianos, raça ariana, etc.
Mas aí também era um ariano que remetia para o Irão?
Para o Irão, exatamente, para os arianos.
Portanto, a raça ariana nazi não estava situada naquilo que era a sua zona de influência geográfica, vinha mesmo de uma terra distante.
Sim, os arianos seriam, de acordo com esta mitologia que se desenvolve no fim do século XIX, princípio do século XX, em círculos intelectuais alemães, seriam estes guerreiros que teriam vindo da Ásia Central, teriam conquistado a Índia, teriam conquistado o Irão e teriam conquistado a Europa. É essa raça que estes racistas, que depois vêm a inspirar os nazistas, querem representar. É a esses arianos também a que se refere o termo Irão. O Irão é a terra dos arianos. O planalto do Irão tem esta população que fala uma língua indo-europeia, que se identifica a si própria como árias, como arianos, e o seu país é o Irão. Agora podes perguntar: "Mas onde é que vem o nome da Pérsia? Porque é que se chama Pérsia?" O planalto do Irão é o centro de vários grandes impérios na antiguidade, e esses impérios são conhecidos pelos nomes das dinastias reais ou dos grupos culturais que os governam. Por exemplo, temos o Império Aquemênida, fundado por Ciro o Grande no século VI a.C., é um império iraniano, chama-se Aquemênida por causa da dinastia, que inclui terras do norte da Grécia até ao norte da Índia, inclui a atual Turquia, todo o Médio Oriente, o Egito, terá cerca de 5,5 milhões de quilômetros quadrados, é o maior império até essa época. É este império dos aquemênidas, este império iraniano dos aquemênidas. E é este Império Aquemênida que tenta submeter as cidades gregas de Atenas e de Esparta em 480 a.C., sob o comando do rei Xerxes, o rei dos reis, e não consegue. O império tem uma província mais ocidental que se chama Parsa ou Persis, que corresponde à atual província do Irão chamada Fars. Era também a província mais povoada, ainda hoje é a província mais povoada. Os gregos conhecem os iranianos por persas, por virem desta província. E são os gregos que chamam persas aos iranianos e chamam Pérsia ao Irão. E é assim que na Europa se torna costume chamar persas aos iranianos. A lógica é um pouco como a dos Países Baixos. Os Países Baixos têm uma província que é a Holanda, que é a maior, e chama-se toda a gente, durante anos chamou holandeses aos habitantes dos Países Baixos e a parte passa a designar o todo. E tal como hoje o governo dos Países Baixos pede a toda a gente para se chamar Países Baixos e não Holanda, o mesmo aconteceu em 1935, quando o governo da Pérsia, finalmente, numa reunião internacional, diz: "Já chega, não nos continue a chamar Pérsia, nós nunca nos chamámos Pérsia, nós chamamo-nos Irão e portanto peça a toda a gente para começarem a tratar-nos por Irão." Agora, claro, a Pérsia continuou, continuamos a falar em tapetes persas, em persa como a língua do Irão.
A literatura persa.
A literatura persa.
As histórias todas da Pérsia.
A Pérsia continuou, mas eles, coitados, é Irão que eles se chamam a eles próprios e desde sempre que se chamaram Irão a eles próprios, a terra dos arianos. Tal como na Índia, o que é que era este Irão antigo? Tal como na Índia, a antiga sociedade iraniana aparece dividida em castas: guerreiros, sacerdotes, trabalhadores. Os seus líderes intitulam-se rei dos reis e sucedem-se hereditariamente, pai para filho mais velho, e mantêm o culto do que pode ter sido inicialmente uma tradição religiosa como a dos Vedas na Índia, isto é, com uma classe sacerdotal a realizar rituais. Esta religião teria sido reformada por um profeta chamado Zaratustra ou mais conhecido depois também, porque é o nome que os gregos lhe dão, Zoroastro, não sabemos quando é que terá vivido verdadeiramente. Alguns dizem entre os séculos VI e V a.C., para outros é entre o século XI ou X ou IX, não se faz ideia. Vive há muito tempo e há outros que dizem que nunca viveu e que é uma figura mitológica.
Mas também foi para as mãos do Nietzsche.
Sim, ele usa depois Zaratustra.
Lá está. Os alemães estavam mesmo obcecados por aquilo que aí tinha.
Sim, porque aquilo tem um impacto enorme. A literatura persa e soprattutto esta antiga literatura da tradição zoroastriana torna-se muito popular na Alemanha no século XIX, tal como também a literatura do norte da Índia, em sânscrito, também se torna muito popular entre eruditos que julgam que através desta literatura estão a chegar às origens da humanidade. Aliás, é isso também que inspira o estudo do indo-europeu. Está-se a tentar chegar não só a uma das primeiras grandes línguas do mundo, mas a língua em que teriam sido concebidos os primeiros conceitos, a primeira maneira de pensar. Esta é a atração que os europeus, no século XIX, têm pela Índia, pela literatura em sânscrito, dos Vedas, ou por esta literatura persa iraniana, esta literatura do antigo Irão. Eles têm a ideia de que não só estão a chegar a culturas muito antigas, mas como estão a chegar às origens dos próprios europeus. Isto é, na Europa, isto foi-se perdido pela cristianização, pela modernização e aqui ainda estão os escritos originais daquilo que teriam sido uma cultura de que os europeus teriam feito parte inicialmente. Há um enorme fascínio por estes textos persas e sânscritos na Europa no século XIX. Estes eruditos europeus não estão apenas a pensar que ao estudarem o Irão, ao estudarem o norte da Índia, estão a estudar culturas exóticas, culturas orientais. Não, eles julgam que estão a estudar as origens da Europa, as origens do pensamento europeu, a maneira como os primeiros europeus pensavam e que teriam sido conservados nestas regiões do mundo.
E daí o nosso fascínio por isso. Entretanto, chegou ao final esta primeira parte do programa. Nós voltamos já a seguir com mais histórias da Pérsia, que afinal sempre se chamou Irão. Até já. Olá, seja bem-vindo de volta a este "O Resto é História", em que estamos a falar da Pérsia ou então do Irão, mais propriamente dito, aprendemos nós. Rui, estavas em Zaratustra.
Sim, estava a dizer que na prática o Irão, tal como o norte da Índia para os eruditos europeus do século XIX, é uma espécie de pré-história da Europa. Aquilo que eles estão a estudar ali é uma Europa pré-histórica, sobretudo a mentalidade. E por exemplo, eles interessam-se mesmo por Zoroastro ou Zaratustra. Zaratustra é como se diz em persa, Zoroastro é como diziam os gregos. E interessam-se pela religião reformada por este Zoroastro, porque parece uma religião muito original, há um deus criador, Ahura Mazda, mas depois há um dualismo entre o bem e o mal, entre o cosmos ordenado e o caos, entre a verdade e a mentira, há este dualismo. E o ponto interessante é que, nesta tradição religiosa, em vez de se imaginar a humanidade como submetida ao deus e aos caprichos do deus e de outros deuses que também faziam parte do panteão divino, Zoroastro ou Zaratustra enfatiza a ideia da liberdade do indivíduo para escolher entre o bem e o mal. E ao escolher o bem, através de boas ações, através de rituais, o indivíduo aumenta a ordem no mundo e torna-se uma espécie de colaborador de Deus, isto é, começa a aproximar-se de Deus ao praticar o bem, ao defender a verdade.
Isso tem ressonâncias no próprio cristianismo.
É. Aquilo que já acontecia na antiguidade romana e na antiguidade grega é que se achava que Zoroastro tinha tido uma grande influência entre os filósofos e os pensadores da Grécia Antiga. Havia já esta ideia. E depois, há a ideia no século XIX, na Europa, de que terá tido impacto também entre os judeus. Aliás, os judeus era uma das populações que em determinada altura esteve submetida ao Império Aquemênida, fez parte deste império iraniano, e provavelmente haveria elementos do judaísmo que poderiam ser partilhados com esta cultura ou ter origem nesta cultura de acordo com as interpretações, como por exemplo, a ideia do dilúvio, que também aparece na Suméria, mas também aparece nesta tradição iraniana, ou a ideia do Messias, de um criador. Esta cultura iraniana começa a ser estudada como uma cultura das origens da Europa, do pensamento europeu pré-cristão e depois também do pensamento cristão europeu e até do pensamento filosófico europeu, uma vez que se admite que poderia ter tido impacto também, por exemplo, em Platão, através de outros filósofos gregos.
No mundo ocidental, muitas vezes a narrativa que é contada é da expansão da imparável cultura ocidental, que vai por aí fora. E o que tu estás aqui a dizer, na verdade, é exatamente o contrário disso. É de uma profundíssima influência dessa cultura persa e iraniana sobre a Grécia Antiga, sobre Roma.
A Grécia Antiga, Roma, e depois o cristianismo.
E sobre a cultura judaico-cristã.
A ideia de influência é a maneira como no século XIX alguns concebem essa relação. Nós também podemos conceber esta relação de uma maneira diferente, que é não propriamente a de influência, mas das culturas do Mediterrâneo fazerem parte desta área cultural em que a cultura do Irão também faz parte, tal como as culturas semitas da Mesopotâmia e do restante Médio Oriente. De haver aqui uma área cultural onde há muitas influências.
Uma espécie de grande Mediterrâneo.
Sim, um grande caldeirão de culturas. As relações de causalidade, isto é, dizer "estes têm a ideia porque tiraram daqueles", provavelmente não é a maneira mais eficaz de perceber o que se estava aqui a passar. Até porque a relação entre o mundo grego do Mediterrâneo e o Irão é muito grande. Falei há pouco, os imperadores aquemênidas do Irão tentam conquistar a Grécia. O que acaba por acontecer é que o rei da Macedónia, Alexandre, um grego, acaba por conquistar o Império Aquemênida em 330 a.C. A partir daí, o império iraniano fica sujeito a dinastias de generais gregos, é helenizado, há um impacto grande da cultura grega no Irão, embora a dinastia grega mantenha mais ou menos a estrutura do império, a maneira como aquilo funcionava, através de delegados do rei dos reis nas várias regiões. A essa fase grega, por assim dizer, seguem-se outras fases em que novas dinastias nativas Dinastias que têm os nomes das regiões ou das famílias de onde vêm, se começam a afirmar a partir do século III a.C., isto é, volta a haver dinastias iranianas nativas à frente.
Os gregos são afastados.
Os gregos estão lá, fazem parte. Continua a haver um impacto da cultura grega, por exemplo, na estatuária e na arquitetura. Aliás, até o Afeganistão. Hoje já há vestígios dessa cultura grega porque fazia parte deste império iraniano regido pelos antigos generais e descendentes dos generais de Alexandre, o Grande. E aparece uma potência grande, um império grande, aliás, já no século III d.C., que é o dos Sassânidas. Sassânidas remete, mais uma vez, para uma dinastia que tem este nome e é uma dinastia iraniana. É um império muito rico. Eles beneficiam do fato de controlarem aquilo que nós hoje chamamos a Rota da Seda, isto é, os contactos entre o Mediterrâneo romano e a China. E daqui, aquilo que vai aparecer para o resto do mundo com os Sassânidas, mas depois com as outras dinastias e os outros impérios iranianos, um mundo de grande luxo e de sofisticação. Isto é, que impressiona o Mediterrâneo e impressiona toda a gente à volta.
Portanto, o nosso imaginário persa é o imaginário dos Sassânidas, é o que tu estás a dizer.
Começa a construir-se com isso, porque há um luxo enorme que depois vai sendo aperfeiçoado ao longo dos séculos, dos tapetes, da cerâmica, da poesia, das narrativas da corte, das histórias contadas na corte. Aquilo começa a construir um mundo que tem impacto à sua volta e que começa a ser imitado até pelos reis e poderes políticos à volta, que começam a imitar até a vida da corte persa. Uma vida extremamente sofisticada, muito refinada, com muito boas maneiras, de cortesia. Começam a ser imitados, um bocadinho como a vida da corte chinesa também é imitada no resto da Ásia. E ligado à ideia de um grande luxo, de uma grande riqueza, que tem a ver precisamente com a situação destes impérios iranianos entre as várias rotas, como cruzamento de várias rotas comerciais. Esses impérios iranianos, sobretudo os Sassânidas, reforçam esta identidade iraniana. O título que eles usam é o de Shah Irã, que é Rei do Irão, e designam o seu domínio como Eran Sar, o Reino do Irão. E entretanto, entram em conflito no Mediterrâneo com o Império Romano. Eles também são atraídos pelas riquezas do Mediterrâneo e acabam por entrar em conflito em guerras que nunca mais acabam, são guerras que duram séculos, entre o Império Romano e os Sassânidas. Aliás, já tinha acontecido com o império iraniano anterior ao dos Sassânidas. Estas guerras são fundamentais para perceber a história do Império Romano. Para os imperadores romanos, a grande inquietação que eles têm por volta do século III, IV d.C., não são as invasões bárbaras no Ocidente, são os Sassânidas, são os iranianos. É essa a grande ameaça. A maior parte das tropas romanas não estão na Alemanha para resistir aos godos e aos outros, estão no Médio Oriente para resistir aos iranianos, quer dizer, para resistir aos Sassânidas. E esta guerra que continua mesmo depois do fim do Império Romano do Ocidente, o Império Romano do Oriente, Bizâncio, depois Constantinopla, continua a guerra com os iranianos. É esta guerra entre estes dois impérios no Médio Oriente que explica, de alguma maneira, as conquistas do Médio Oriente pelos árabes seguidores do profeta Maomé. Porque estes impérios estão tão esgotados pela guerra entre os dois, que aparece um terceiro, uma terceira força destes seguidores de Maomé e que acabam por conquistar o Médio Oriente, levar à islamização do Médio Oriente. Eles vão mais tarde acabar por conquistar o Império Romano do Oriente, já no século XV, Constantinopla, mas antes disso acabam por conquistar o Irão mesmo. Isto é, conquistam todo o Irão, que é sujeito aos califas, primeiro aos califas Damasco e depois os califas de Bagdá até ao século X, embora aquilo tenha uma grande autonomia. E é assim que começamos a chegar à história do Irão moderno. Digamos, por três vias.
Estás a chamar o Irão moderno ao Irão islamizado?
Ao Irão que nós conhecemos hoje em dia. Primeiro, há uma contração daquilo que nós chamamos o Irão. A área política de domínio dos poderes iranianos vai encolhendo à medida que os árabes avançam e depois também do norte os eslavos, depois vindos do leste, turcos e mongóis. Isto vai reduzindo a população que fala persa àquilo que é hoje o Planalto do Irão. Vai o reduzindo aí. As populações iranianas ficam reduzidas a essa área, embora depois também haja algumas outras populações que falam línguas iranianas de fora. Mesmo assim, é um grande Estamos a falar mesmo reduzido a um grande império. O atual Irão tem 1,6 milhões de quilômetros quadrados, é três vezes a Península Ibérica. É muito grande, mas agora já está reduzido. Não é já aquele império enorme dos Aquemênidas que vinha desde o norte da Grécia até o norte da Índia. Portanto, essa é uma das vias, esta contração pra chegar ao Irão moderno. A segunda é: mesmo atendendo à islamização, o Irão continua a diferenciar-se do resto do mundo islâmico, e diferencia-se de várias maneiras. Os iranianos adotam o árabe como língua religiosa, porque é a língua do Corão, e adotam a escrita árabe para o persa, mas continuam a manter o persa como a língua falada nesta região que hoje é o Irão. E o persa continua a ser uma língua extremamente importante como língua de literatura e de grande cultura.
O que quer dizer que mantém a escrita árabe? Quer dizer o quê?
O persa é escrito em um alfabeto árabe.
Certo. Portanto, perdeu aquilo que era o alfabeto antigo.
Não era bem um alfabeto, era a escrita pahlavi, era uma outra coisa. Mas isso até ao século VII, e a partir do século XI isso começa a ser substituído pelo alfabeto árabe.
Mas para escrever é persa.
Quer dizer que é um alfabeto árabe com letras acrescidas para sons que o árabe não tem, mas que o persa tem.
E quando dizes que o árabe é como língua religiosa?
Isso tem a ver com o Corão. É a língua em que foi feita a revelação, é a língua da revelação.
Certo. Agora um bocadinho de teologia. Nós quando estamos no Irão e se quiséssemos ir às orações, as orações são em árabe.
Algumas. E o texto que é lido é árabe. É a língua de Deus. É um pouco como o latim. Não é bem o latim, porque a nossa língua deriva do latim e o persa não deriva do árabe, é uma língua fora daquela área cultural, mas é a língua em que a vontade de Deus está revelada para os muçulmanos. Está revelada ali. Portanto, o Irão continua a se distinguir por esta língua persa, embora escrita em alfabeto árabe. E depois distingue-se também porque os governantes do Irão, a partir do século XVI, uma outra dinastia, a dinastia Safávida, impõem o islão xiita no Irão. Todos os outros poderes islâmicos à volta, nesta altura, são sunitas, e o Irão torna-se o grande poder xiita, o único grande poder político xiita naquela região. Portanto, isso distingue o império iraniano dos safávidas dos outros poderes islâmicos que existem naquela região, que são sunitas, e este é xiita, é aquela corrente que tem como princípio de que a direção dos crentes deve ser confiada aos parentes do profeta. Já falamos aqui dessa distinção entre xiitas e sunitas. E é este império safávida que a partir do século XVI vai também resistir à expansão otomana. Os otomanos que são originalmente uma tribo turca, tomam conta do Médio Oriente, o Egito, o norte da África, uma grande parte da Europa e esbarram a leste nos iranianos, nos safávidas, que eles consideram um poder quase de hereges, porque são xiitas, enquanto os otomanos são sunitas. Mas esta resistência aos otomanos contribui também para a identidade iraniana, isto é, eles são distintos destes otomanos.
Resistiram também porque eram um dos impérios da pólvora.
É, é um dos chamados impérios da pólvora. O que é que chamamos de impérios da pólvora? São os impérios como o Império Otomano, o Império Safávida é uma das primeiras potências do mundo a adotar a artilharia como arma eficaz de guerra e portanto, são chamados os impérios da pólvora. Este Império Safávida dura até meados do século XVIII, quando surge uma outra dinastia, aliás, uma dinastia de origem turca, e dá origem a um outro império iraniano, mas com esta dinastia.
Uma história animada.
E depois o Império Safávida, precisamente pelo seu conflito com os otomanos, distingue-se também naquela região pelo seu alinhamento diplomático, isto é, porque ele tende a aliar-se com aqueles que poderiam ser inimigos do Império Otomano. E, por exemplo, os iranianos recebem bastante bem os portugueses quando chegam ao Índico no século XVI, estabelecem contactos porque são inimigos dos otomanos, e depois com os ingleses mais tarde, também estabelecem bons contactos. No século XVIII, o Irão tem conflitos não apenas com os otomanos, mas também com os russos, que estão a avançar na Ásia Central, e nessa altura o Irão é muito protegido pelos ingleses. Os ingleses veem o Irão como uma espécie de grande estado tampão pra impedir os russos de chegarem ao Índico e também pra impedir os otomanos. Nessa altura já não havia grande preocupação com os otomanos, mas os otomanos também de se continuarem a expandir. E portanto, o Irão é assim um dos poucos países daquela região que nunca foi governado nem pelos otomanos Nem pelos europeus. Ao contrário de todos os outros Estados do Médio Oriente, porque ou foram governados pelos otomanos ou foram governados pelos europeus.
Isto também dá uma singularidade muito alta.
É, isto contribui também a esta-
E aquele orgulho nacional.
Sim, a um sentimento de identidade, grandeza do Irão, de ter sido independente, sempre independente, ou quase sempre independente, com dinastias próprias.
Com muitas dinastias, mas sempre independente.
E resistindo ao resto do mundo e com uma cultura própria, sobretudo no século XVIII. No século XVIII a cultura europeia interessa-se muito pela perícia no trabalho artístico. E o Irão, a Pérsia, como os europeus então conheciam, é precisamente um grande modelo desta perícia no trabalho artístico, na cerâmica, no tapé, nos têxteis, em todo o tipo de trabalho. A Pérsia é um modelo em que os europeus se inspiram para criarem padrões extremamente elaborados e muito sofisticados. E depois também, claro, há um fascínio com a poesia persa, que também é muito importante no Médio Oriente e que também tem influência na literatura ocidental.
Muito bem. Assim termina esta edição de "E o Resto é História" dedicada à Pérsia. Nós para a semana avançaremos mais uns séculos e iremos falar do Irão moderno e da revolução islâmica. Até lá.
E o resto é história. É apenas pomba. Dominando e palavra ainda na zona dos Chiapas. Quer transformar este país numa ditadura.
Atento!
Com João Miguel Tavares e Rui Ramos.