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E o resto é história.
É a terra a fumar!
Do incêndio em Poá, ainda na zona do Chiado.
Quer transformar este país numa ditadura. Entende? Entende?
Com João Miguel Tavares e Rui Ramos.
Olá, seja bem-vindo a este episódio 314 de "E o Resto é História", com Rui Ramos e João Miguel Tavares. O programa de hoje funciona só por si, mas funciona ainda melhor se já tiver ouvido o episódio da semana passada dedicado à Pérsia, o grande império que antecedeu a formação do Irão moderno, mas como ficamos a aprender, sempre se chamou Irão. Nós é que lhes chamávamos Pérsia, porque eles sempre se chamaram assim, iranianos. Nós na altura ficamos à beira do Irão moderno, tocamos nele e hoje prometemos chegar até ao Xá e à revolução islâmica. Essa revolução que em boa medida dura até hoje. Tínhamos prometido no último episódio responder às perguntas do ouvinte Pedro Pereira Ribeiro e nós somos homens para cumprir e as perguntas aqui estão: "A monarquia do Xá era realmente uma marionete dos Estados Unidos e de Israel? A mudança social que favoreceu Ayatollah Khomeini baseou-se num primeiro momento na associação e no namoro pouco duradouro entre os estudantes marxistas e os fundamentalistas islâmicos?", pergunta o Pedro. E eu acrescento uma pergunta de teor mais geral, Rui: como é que a extraordinária cultura da Pérsia, da qual falámos no programa anterior, de repente se transforma numa das mais duras teocracias do planeta? Como é que o Irão dos anos 1960, 1970, o Irão em que havia minissaia, como é que de repente se salta da minissaia pro xador, aquelas vestes negras que hoje cobrem as mulheres da cabeça aos pés?
É uma evolução rápida. Vamos começar pelo princípio. No princípio do século XX, o Irão ou a Pérsia, como os europeus ainda lhe chamavam então, está na situação dos impérios não europeus que sem terem sido conquistados, parecem estar maduros para cair, como é o caso do Império Otomano ou do Império Chinês no princípio do século XX. E o único impedimento para estes impérios serem partilhados por potências europeias, é o fato das potências europeias não se entenderem entre si sobre como os dividir. O Irão está entalado entre a Rússia e a Grã-Bretanha, que são, aliás, os seus grandes credores, isto é, quer os russos, quer os ingleses andam a emprestar dinheiro ao Irão e o Irão está endividado aos dois. É assim que começa, na maior parte dos casos, a penetração ocidental no século XIX. Isto é, os governos ocidentais começam a emprestar dinheiro a um país, esse país fica endividado e a partir desse momento fica sob tutela do país credor. É, por exemplo, o que acontece com o Egito no século XIX.
Sendo ao mesmo tempo que a revolução tecnológica afasta brutalmente a Europa.
Estas potências europeias não têm, neste momento, equivalente. No século XVI, os impérios da Pólvora podiam enfrentar qualquer potência europeia, quer o Império Otomano, quer mesmo o Império Safavida, de igual para igual. No século XIX está completamente fora de questão. O avanço tecnológico, a riqueza ocidental, o desnível é tão grande que não há dúvidas acerca do resultado de um enfrentamento com uma potência ocidental.
Nem com o petróleo, diria eu.
Nesta altura, no princípio ainda não há o petróleo. O Irão está entalado entre a Rússia e a Grã-Bretanha. E em 1907, russos e ingleses, preocupados com a influência que no Império Otomano está a ter a Alemanha, entendem-se para dividir o Irão. Há um tratado público entre a Rússia e a Inglaterra, ou Grã-Bretanha, que divide o Irão em duas zonas de influência. O norte do Irão é uma zona de influência russa, o sul é uma zona de influência inglesa.
O que é que influência aí quer dizer?
Quer dizer que naquela zona de influência inglesa, só os ingleses é que podem fazer investimentos, só os ingleses é que podem ter empresas, e os russos não podem ter investimentos aí. Isto é interessante.
E controlavam as próprias autoridades locais?
Sim, também, às vezes as alfândegas, e sobretudo nesta altura, 1907, já há a descoberta das jazidas de petróleo no sul e os ingleses estão a reservar essas jazidas de petróleo para companhias inglesas que estão a começar essa exploração. Estávamos a falar do desnível tecnológico, mas não é só a única coisa que torna o Irão tão manejável pelas potências europeias. O Irão em 1900 ainda não passou pelo grande aumento da população que ia passar no século XX. O Irão em 1900, princípio do século XX, tem apenas 10 milhões de habitantes. Isso é quase 10 vezes menos do que tem hoje. A população não cresce muito durante o século XIX porque está sujeita a fomes regulares, a grandes fomes que matam milhões de pessoas no Irão regularmente. A população não cresce. É a típica situação da Europa também antes do século XVIII, XIX. As populações nunca crescem, porque quando crescem muito, há fomes, há epidemias e a população diminui. O Irão está nessa ideia. O Irão tem 10 milhões de habitantes e a Grã-Bretanha, em 1900, tem 41 milhões de habitantes, tem quatro vezes a população do Irão. Portanto, o Irão perante a Grã-Bretanha em 1900 é um pequeno país em termos de população. Enquanto hoje tem quase duas vezes a população da Grã-Bretanha. Há cento e tal anos, em 1900, o Irão é um pequeno país, tem quatro vezes menos população do que a Grã-Bretanha. A Grã-Bretanha não tem só a vantagem tecnológica, tem também uma vantagem demográfica que os países ocidentais mantêm em relação às suas colônias e às suas zonas de expansão até meados do século XX. A Itália em relação à Líbia, a França em relação à Argélia. Quer a Itália, quer a França, quer a Inglaterra são muito mais povoadas, têm muito mais população do que têm estes territórios para onde se estão a expandir no século XIX. O Irão, de facto, nesta altura não é uma grande potência, não apenas por causa do atraso tecnológico, vamos chamar assim, mas também por causa da sua população. Como nos outros impérios, o Irão, quer na China ou no Império Otomano, o Irão é uma espécie de sociedade dualista. Por um lado, há um imenso mundo rural, muito tradicional, dominado pelo clero xiita. Muito ligado às velhas tradições religiosas e outras. E depois, há um outro mundo nas cidades, composto pelos funcionários do Estado, pelos militares, pelos estudantes das escolas que vão surgindo, pelos comerciantes, que está em contacto com o Ocidente e está fascinado com o Ocidente. Isto é, com a Inglaterra, com a França, com a Alemanha. Eles começam a ter uma imprensa, começam a ter jornais também, começam a adquirir hábitos ocidentais, por exemplo, o hábito dos clubes ingleses, que também há na Pérsia por causa da proximidade dos ingleses na Índia. Ora, para algumas destas elites destes impérios, quer do Império Otomano, quer do Império Iraniano, quer do Império Chinês, eles sentem-se decadentes, indefesos perante os poderes ocidentais e pensam que a melhor maneira de compensar essa fraqueza é adotar os hábitos, as instituições que parecem explicar a grande vantagem ocidental. E para isso, no fim do século XIX, princípio do século XX, eles têm um modelo, que é o modelo do Japão. O Japão, a partir da década de 1860, adquire bruscamente as técnicas, o ensino e até a forma política de organização dos europeus, incluindo o governo representativo, com Parlamento, com vários partidos. E isso permite um desenvolvimento brutal, ou parece ter permitido um desenvolvimento brutal do Japão, de tal maneira que em 1904, o Japão é capaz de derrotar numa guerra naval, as guerras mais sofisticadas que se pode imaginar, uma potência ocidental como a Rússia. Portanto, o Japão parece ser o modelo daquilo que se deve fazer se não se quer acabar como uma colônia dos europeus.
Mas no Japão também houve um enorme choque cultural. Ele também se deu no Irão?
Dá-se no Irão. Primeiro, nunca há a adoção deste programa de modernização tão violenta como acontece no Japão. Quer no Império Otomano, quer no Império Iraniano, quer também no Império Chinês, aquilo que faz é os governantes, a corte imperial começa a promover aquilo que se pode chamar uma modernização, a construção de infraestruturas modernas, caminhos de ferro, etc. A enviar estudantes para estudarem na Europa, que em princípio irão ser funcionários.
E as próprias elites educadas, como ainda hoje em dia, muitas vezes fora do país, Inglaterra.
Inglaterra, Alemanha, na França. O próprio xá, em meados do século XIX, é um xá daquela dinastia turca que tomou o poder no século XVIII, é o xá Nasser Aldin. Ele é um dos primeiros ocidentalizados, ele é um grande apaixonado por fotografia. Dedica-se à fotografia, é o grande interesse dele. Visita a Europa em 1873. Aprende francês, aprende inglês, lê em francês, lê em inglês, torna-se um dos grandes ocidentalizados. Agora, claro, esta tentativa de ocidentalização, de modernização num país que ainda não tem os rendimentos do petróleo no fim do século XIX, princípio do século XX, é que há um desequilíbrio financeiro tremendo, que é compensado por empréstimos ocidentais, e esses empréstimos ocidentais trazem uma tutela ocidental. Isto é, a partir de determinado momento, os ocidentais, os credores dizem: "Vamos começar a controlar as fontes de rendimento do Estado para nos cobrarmos a nós próprios, porque isto é demasiada corrupção aqui e o dinheiro desaparece, o dinheiro dos impostos desaparece, nós vamos controlar, vamos nós próprios cobrar os impostos". De repente aparecem europeus à frente das alfândegas iranianas controlar, fazerem as contas, para precisamente garantir os empréstimos Que os europeus lhes fizeram. O que acontece no Irão entre o fim do século 19 e o princípio do século 20? Há, por um lado, uma grande impaciência com o ritmo da modernização. A modernização nunca parece vir, porque o xá também não quer perder o controle. E há, por outro lado, uma revolta com esta interferência das potências ocidentais. A ideia aqui é esta: a melhor maneira de impedir a interferência das potências ocidentais é ocidentalizar o país, como fez o Japão, que foi a melhor maneira do Japão se tornar completamente independente das potências ocidentais. Aquilo que vamos ter entre 1905 e 1911 no Irão é aquilo que vai na mesma altura, na mesma época, que está a acontecer no Império Otomano e está a acontecer na China. Isto é uma revolução contra o governo absoluto do imperador, que começa com um protesto contra o controle europeu das alfândegas, que depois se torna um protesto contra a corrupção e ineficiência do velho Estado. Há manifestações, há boicotes. Nessa altura, inicialmente, os ingleses protegem um pouco estes manifestantes. Por exemplo, acolhem os manifestantes na embaixada em Teerão, que se torna uma espécie de local de refúgio para os opositores políticos ao regime do xá. E em 1906, o xá do Irão cede aos protestos, admite a eleição de um parlamento, que se torna uma assembleia constituinte eleita por sufrágio universal masculino, mas só de homens que fossem iranianos. Isto é importante. Aquilo que está a passar no Irão é uma espécie de democratização. Isto é a democratização do Irão entre 1905 e 1911. Está-se a estabelecer um regime democrático, mas que encontra logo uma primeira dificuldade nesta ideia de quem são os cidadãos do Irão. Os cidadãos do Irão são os iranianos.
Havia muita gente no Irão que não era iraniana.
Há muita gente que não é iraniana, exatamente. O Irão é o resultado de um império e o resultado dos impérios são geralmente estados multinacionais. Em 1900, os iranianos são apenas 40% da população do Irão. Os turcos são 20%. Os turcos não são exatamente os turcos do Império Otomano, são outras tribos e populações turcas, são 20%. Os curdos são 10%, os árabes são 2%. As diferenças não são apenas linguísticas, são também religiosas. Por exemplo, as populações turcas são geralmente sunitas, os curdos também em grande medida são sunitas, também há uma parte xiita.
E não é fácil para toda a gente conviver numa democracia.
Não, e sobretudo uma democracia que se quer pensar como um Estado-nação. A nação é a nação iraniana. Ora, muitos não são iranianos, muitos destes que vivem dentro deste Estado iraniano não são iranianos. Esse é um problema. O segundo problema é o poder religioso. Há este clero enorme, este clero xiita. A corrente xiita do Islã dá uma grande importância a este clero, é quase o equivalente do catolicismo entre os cristãos, a importância do clero. E os próprios constitucionalistas, isto é, aqueles que querem impor um governo representativo no Irão, eles próprios percebem que têm de envolver de alguma maneira, têm de pôr a participar este clero xiita. E em 1900, o Irão passa a ser uma monarquia constitucional, com uma constituição copiada da constituição da Bélgica, passa a ter a mesma constituição da Bélgica, mas vai tentar combinar este modelo europeu belga, monarquia constitucional com parlamento, com partidos, etc, com a tradição xiita. E o que é que faz? Há o parlamento bicameral, mas depois há uma comissão de cinco clérigos que fica encarregada de avaliar a conformidade das leis do parlamento com o Islão.
Essa separação entre Estado e Igreja nunca chegou ao Irão.
Esta comissão de clérigos é uma espécie de tribunal constitucional, na prática. Só que a verdadeira constituição aqui acaba por ser o Corão e a tradição islâmica. O que acontece é que o parlamento vota uma lei e depois tem que ficar à espera que os clérigos digam se sim, está conforme com o Irão.
Mas houve democracia?
Mas há democracia, e agora estou aqui a referir a religião, e a religião não é totalmente um obstáculo à democracia. Por quê? Porque o Islão xiita tem também várias correntes, há várias correntes de eruditos, de clérigos dentro do Irão e, por volta de 1900, a corrente que predomina dentro do clero é uma corrente até favorável à democracia. Isso tem a ver com a conceção do Islão em vigor que predomina no Irão, mas se calhar vamos falar disso depois do intervalo, não é?
Sim, é melhor. Nós chegamos ao final então desta primeira parte e voltamos já a seguir. Aproximemo-nos da revolução islâmica. Até já. Olá, seja bem-vindo. Estamos de volta a este "Resto é História", em que estamos a falar do Irão no século XX e a aproximar-nos daquilo que é a revolução islâmica como hoje ainda a conhecemos no Irão. Rui.
Estamos a falar em 1906, estamos a falar de um Irão democrático e estamos a falar do que alguns dos principais elementos do clero xiita em 1906 pensaram desta democracia. E não pensaram mal, nem todos pensaram mal. E por quê? Porque o islão xiita assenta na ideia de que o poder compete aos imãs da família do profeta. O primeiro é o primo e genro do profeta, Ali. Aliás, o islão xiita vem daí, Shia Ali é o partido de Ali, portanto, eles são os partidários de Ali. Há 12 imãs que eles reconhecem como verdadeiros herdeiros do profeta. E no ano 864 da era cristã, o 12º imã entrou naquilo que se chama ocultação, isto é, deixou de haver contato com o imã. O imã ocultou-se. Na tradição xiita, no Irão, este imã ainda está vivo hoje. Ele ainda existe, ainda está entre nós, porque Deus não pode deixar o mundo sem um imã. Ele ainda está, mas está ocultado, está em ocultação. Isso quer dizer que fica aberto espaço para várias soluções políticas quando o imã não está presente, o imã ocultou-se. Como é que os crentes se devem governar? E aquilo que o grande aiatolá em 1906, que era o Aiatolá Hakimi Khurasani, que vivia em Najaf, no Iraque otomano. Aquilo que esse aiatolá, que é consultado sobre como é que deve ser, ele diz que a democracia pode ser considerada um mal menor. Isto é, o único regime verdadeiramente legítimo é o do poder deste imã. O imã está oculto, não há possibilidade de o contactar, nem de lhe perguntar nada, nem de fazer nada. Até o imã se revelar outra vez, o Irão pode ser uma democracia, com parlamento, com partidos. Ele até diz: "É melhor até uma democracia, porque uma democracia permite que os governantes possam ser removidos do poder, ao contrário de uma monarquia absoluta e de uma tirania". Este Aiatolá Khurasani diz: " Sim, senhora, pode ser uma democracia", e os constitucionalistas passam a depender deste parecer do Aiatolá Khurasani para legitimar. A verdade é que o islão xiita no princípio do século XX não é necessariamente o poder do clero, não é necessariamente um impedimento a esta evolução do Irão para um sistema representativo e até para uma democracia. Agora, isto nada corre bem. Os constitucionalistas dividem-se, os religiosos também se dividem, porque obviamente há outros religiosos que têm outras ideias e que acham que uma democracia tipo ocidental é uma violação dos princípios do islão e da Sharia. Mas o mais decisivo é que em 1911, quer os russos, quer os ingleses resolvem apoiar o Xá na sua tentativa de restabelecer o poder absoluto, isto é, uma monarquia absoluta.
Foi uma espécie de democracia durante apenas cinco anos?
Sim, 1906, 1911, exato. Vêm 12 mil soldados russos apoiar o Xá para restabelecer a monarquia absoluta. O que é que vem mudar outra vez as coisas? A Primeira Guerra Mundial. A Primeira Guerra Mundial retira, por causa da derrota da Rússia em 1917, tira ao Xá a proteção da Rússia e a proteção militar da Rússia. A Rússia soviética, a Rússia bolchevista, vai promover depois até revoltas bolchevistas no Irão. Há uma República Socialista do Irão no norte em 1920, e cerca de 1920 o Irão parece estar no estado em que está a China e também um pouco o resto do Império Otomano. Está dividido por senhores da guerra, chefes militares locais que dominam. E é nessa altura que os ingleses apoiam um golpe de Estado de uma guarda pretoriana que existe na corte em Teerão, que é a Brigada Cossaca. E essa guarda pretoriana dá um golpe de Estado, toma o poder. E por que de repente os ingleses se tornaram tão empenhados em restabelecer esta influência no Irão? Bem, é que-
Ó petróleo, imagino.
Há o petróleo. Desde 1901 que os ingleses fazem prospecções de petróleo no Irão. Em 1908 descobrem enormes jazidas perto do Golfo Pérsico. Em 1909 é fundada a Anglo-Persian Oil Company, que de fato é uma companhia petrolífera britânica, aliás, propriedade do governo britânico. Por quê? Porque a Marinha Britânica tinha passado o carvão para os derivados do petróleo como combustível e antes da descoberta e exploração das jazidas de petróleo no Iraque e na Arábia Saudita, estas jazidas de petróleo do Irão são as maiores a que os ingleses têm acesso. Aliás, a refinaria De Abadan no Irão, que entra em funcionamento em 1913, é a maior refinaria de petróleo no mundo até os anos 60. Portanto, isto dá a importância do petróleo iraniano. Os ingleses querem garantir que há alguma ordem no Irão.
Então para todos os efeitos, transforma-se numa ditadura o Irão, é isso?
É uma ditadura militar, basicamente, em que o líder desta brigada Cossack assume o poder. O líder desta brigada Cossack é Reza Khan. É um militar, um general de 47 anos, e o modelo dele é um bocadinho de Atatürk, do general Atatürk na Turquia. Assume também o poder e quer modernizar à força o Irão.
Mas o Atatürk não queria nada com a religião.
E o Reza Khan também não. Mas o Reza Khan é menos radical, de um certo ponto de vista, do que o Atatürk. Atatürk estabelece naquilo que é o resto do Império Otomano, que vai tornar-se a Turquia, uma república laicista. Ele vê o Islão como obstáculo e tenta tirá-lo da vida pública, um pouco à imagem da França republicana e laicista, que é o modelo nitidamente dele. No Irão, Reza Khan também entra em choque com o clero xiita, também tenta afastar o Islão xiita da vida pública no sentido da sua presença através das vestes das mulheres, etc. As mulheres são proibidas de usar a roupa tradicional, os burqas e os chadors. Mas Reza Khan não é um republicano. E ao contrário de Atatürk, que se torna presidente de uma república, Reza Khan prefere continuar a tradição monárquica do Irão. O Irão tinha sido sempre uma monarquia e ele torna-se um xá de uma nova dinastia. Ele depõe o xá anterior da dinastia Qajar, a tal dinastia turca, e é aclamado xá, primeiro rei de uma nova dinastia dos Pahlavi.
E é ele que vai modernizar o Irão conforme nós o conhecíamos do pré-revolução islâmica.
Ele vai fazer tudo aquilo que também Atatürk está a fazer na Turquia. Escolas, caminhos de ferro, tentar criar uma identidade iraniana independente da identidade islâmica. Vai recuperar os antigos impérios pré-islâmicos dos Sassânidas, dos Aquemênidas, como referência histórica para o Irão, não ser só o Islão, mas ser os antigos impérios e invocar Ciro o Grande e os grandes imperadores da antiguidade.
Imagina que quisesse fazer isso com o dinheiro do petróleo, mas tu ao mesmo tempo explicaste que parte do petróleo estava em mãos estrangeiras.
Estava em mãos estrangeiras. Ele quer ao mesmo tempo tornar-se independente dos ingleses, embora os ingleses o tivessem ajudado a chegar ao poder.
Precisava do seu investimento também.
Sim, e é aí que o Reza Khan faz uma aposta errada nos anos 30, o primeiro xá Pahlavi. Ele vai aproximar-se da Alemanha como uma alternativa à Inglaterra. Começa a aproximar-se muito da Alemanha nazi, estamos a falar da Alemanha nazi. Nos anos 30, estamos a falar da Alemanha nazi. E é isso que o compromete em 1941. Em 1941, a Inglaterra e a Rússia Soviética, a Rússia Soviética entretanto já invadida pela Alemanha nazi, decidem que não podem correr o risco do Irão cair sob a influência da Alemanha. E em 1941, quer a Inglaterra, quer a Rússia invadem o Irão. Eles derrotam o exército iraniano em cinco dias, o exército iraniano não é capaz de enfrentar nem o exército soviético, nem o exército britânico vindo da Índia. E o xá é forçado a abdicar. Reza Khan abdica em 1941, vai para o exílio, vai morrer depois na África do Sul em 1946, e a Inglaterra e a Rússia, em 1941, anunciam que vão ocupar o Irão até seis meses depois do fim da guerra. Em 1941, eles não sabem, vai acabar por acontecer. Eles dizem em 1941: "Vamos manter uma ocupação até seis meses depois do fim da guerra".
Mas cumpriram, acabou em 46.
Os ingleses cumpriram, os russos demoraram um pouquinho mais tempo a cumprir, mas depois também cumpriram. Isso por quê? Porque o Irão é uma fonte importante de petróleo e também serve de corredor para os aliados ajudarem a União Soviética. Durante cinco anos, o Irão está ocupado pelos russos e pelos ingleses, e isso para os nacionalistas é de fato uma ofensa gigante. O Reza Khan, o xá deposto, é substituído pelo seu filho, que é Mohammad Reza Pahlavi, que tem apenas 22 anos e que se torna o xá do Irão em 1941, mas com muito menos poderes que o pai. Em 1941, o Irão torna-se uma monarquia constitucional, como tinha sido entre 1906 e 1911, aliás, com a mesma Constituição, outra vez a tal Constituição belga.
De inspiração belga.
O xá é o chefe do Estado, mas tem o primeiro-ministro, corresponde perante o Parlamento, e esse é o ambiente que se vive depois da retirada dos ingleses e dos russos, entre 1946 e meados dos anos 50. O Irão é esta democracia pluripartidária, um pouco como outros estados do Médio Oriente, a Síria, que aqui falámos, também passam todos por uma primeira fase democrática logo a seguir à descolonização. Agora, claro, o ambiente da descolonização com a retirada ocidental, os ingleses saem da Índia em 1947, da Palestina em 1948 E 48, tudo isto entusiasma os nacionalistas no Irão. Eles querem muito mais do que apenas uma espécie de independência formal, querem tornar-se completamente autônomos do Ocidente. E é isso que vai fazer um primeiro-ministro do Xá, Mossadegh, em 1951, ele torna-se primeiro-ministro e vai levar a cabo esse projeto de uma total independência do Irão em relação à influência ocidental. E isso, claro, passa pelo petróleo e a nacionalização da companhia petrolífera inglesa.
Portanto, foi Nasser quem inspirou, estou a ver. Nasser do Egito.
Mossadegh é interessante, porque Mossadegh é filho de um ministro das finanças do Xá do século 19 e de uma princesa Qajar, portanto ele é da antiga família real. Tinha estudado em França e na Suíça em 1909, portanto é totalmente ocidental, é a grande elite, totalmente ocidentalizado e ao mesmo tempo é um demagogo nacionalista. Portanto, é tipicamente estas elites destes impérios que estão a tentar fazer uma transição da sua antiga ascendência ligada à hierarquia monárquica para uma ascendência democrática ligada à sua capacidade enquanto demagogos para levantarem multidões nacionalistas contra os estrangeiros. E é isso que Mossadegh faz. Ele não é um homem do povo, é um homem da elite, da grande elite, um aristocrata da família real, mas que aparece como este campeão do "vamos expulsar os estrangeiros, vamos restaurar a independência do Irão", e levanta manifestantes e põe as pessoas na rua, todos a lutar.
E a Grã-Bretanha o que fez?
A Grã-Bretanha o que faz com a nacionalização é pôr processos contra o Irão em todos os tribunais possíveis e imaginários e impede o Irão de vender petróleo. Portanto, ninguém pode comprar petróleo ao Irão, porque senão fica sujeito a um processo num tribunal. O Irão deixa de vender petróleo em 1951, 52, 53. Aquilo que Mossadegh faz perante isto é convocar eleições, mas depois quando percebe que vai perder as eleições, para a contagem dos votos, porque entretanto já tinha eleito o número de deputados suficiente pra ter maioria, portanto, não deixa eleger o resto do Parlamento e pede depois ao Parlamento um mandato para uma espécie de ditadura de emergência. Isto é, começa ele próprio a tornar-se um ditador e isso facilita imenso a conspiração contra Mossadegh, que vai ser ajudada pelas potências ocidentais, pela Grã-Bretanha e pelos Estados Unidos.
Mas enquanto isso, Reza Pahlevi apenas assistia?
Reza Pahlevi, em determinado momento, está no exílio, porque ele pensa que Mossadegh o vai derrubar e, portanto, foge também para o exílio. Nestes anos 50, as potências ocidentais, os Estados Unidos e a Grã-Bretanha olham para estes países e para estes líderes que estão a emergir nestes países de dois pontos de vista. Um ponto de vista é o ponto de vista da Guerra Fria. Isto é, a ideia de que os comunistas estão a infiltrar estes países pra tomarem o poder ao serviço da União Soviética. E aquilo que eles veem é que Mossadegh está a ser apoiado pelo Partido Comunista do Irão. O Partido Comunista do Irão é uma organização criada pela União Soviética enquanto esteve a ocupar o Irão. É o partido Tudeh, que se chama assim, é o partido das massas do Irão, é assim que o partido se chama, mas é um partido comunista pró-soviético e que apoia Mossadegh, que está totalmente a apoiar Mossadegh e que tem, nesta altura, uma grande influência nos meios intelectuais de Teerão. Isso, obviamente, levanta luzinhas vermelhas para os Estados Unidos e para a Grã-Bretanha. Por outro lado, os Estados Unidos e a Grã-Bretanha olham também para estes líderes do ponto de vista daquilo que tinha acontecido na Europa e sobretudo na Alemanha nos anos 30. Isto é, Mossadegh no Irão, mas também Nasser no Egito, que vai também nacionalizar o canal do Suez e iniciar também uma campanha contra os ocidentais, são vistos como uma espécie de Hitlers em potência. Isto é, estão a tentar criar aqui forças contra os ocidentais e portanto é preciso derrubá-los antes de eles-
E o que é que acontece a Mossadegh?
Mossadegh é derrubado por um golpe de Estado, repito, muito apoiado pelos Estados Unidos e pela Grã-Bretanha. O Xá Reza Pahlevi volta.
Mas o Mossadegh foge?
Não, ele é preso. Fica preso e fica preso até aos anos 60, até morrer. Fica preso em casa. Em casa, porque é um grande senhor e da família real, e portanto é tratado como tal. Mas torna-se depois uma figura do nacionalismo iraniano como uma espécie de grande homem do povo, que tivesse tentado libertar o Irão. Aliás, basta ver as fotografias dele. Tem um aspecto de um grande senhor persa, nitidamente daquilo que nós imaginamos aqueles persas dos Safávidas, daqueles grandes senhores. Isso é o aspecto que ele tem. Mas o Xá Reza Pahlevi volta, e ele volta não apenas já como chefe de Estado, mas agora como ditador do Irão. Ele tinha sido um chefe de Estado constitucional até 1953, mas agora ele vai Vai tornar-se este ditador do Irão. Ele ao princípio vai estabelecer uma espécie de regime de dois partidos, um partido que apoia o governo e um partido da oposição, um pouco como o regime de partidos da ditadura militar no Brasil nos anos 60, e depois mais tarde, em 1975, vai unir tudo num partido só. Só há um partido. É a típica evolução destes estados depois da descolonização, isto é, regimes de partido único. Em nome do quê? Em nome da modernização. É isso que o Xá quer representar. Em 1963, ele lança aquilo que ele chama a Revolução Branca, que é modernizar totalmente a sociedade iraniana. Ele promove uma reforma agrária com expropriação de uma grande parte da classe de grandes proprietários e com entrega de terra aos seus rendeiros. Cerca de 90% dos rendeiros iranianos tornam-se proprietários nos anos 60. É uma enorme transferência de propriedade. A igualdade das mulheres, que é uma das grandes bandeiras do Xá, o direito do voto das mulheres, o fim do hidjab, elas outra vez deixam de ser obrigadas a usar vestes islâmicas. E daí temos o Irão das fotografias das raparigas de minissaia dos anos 60. É esse Irão que o Xá quer mostrar ao mundo. O Xá que se torna também uma figura do "jet set" internacional com a sua mulher. Ele aparece em todas as revistas da moda, basicamente é um milionário com grande estilo de vida dos milionários. Tem também grandes aspirações em relação à influência do Irão na região. Ele quer que o Irão seja uma grande potência regional, investe imenso também no exército e estabelece uma relação de aliança com os Estados Unidos, isto é, torna-se o grande aliado dos Estados Unidos na região.
E em parte com Israel.
Sim, e uma grande tolerância com Israel, ao contrário daquilo que era costume então.
Olha, Rui, nós chegamos ao final do nosso tempo para quem nos está a ouvir em direto. Nós temos ainda mais alguma coisa para dizer sobre este tema e sobre a revolução islâmica, mas terá que ficar para podcast. Para quem nos está a ouvir em direto, eu despeço-me até para a semana. Até lá. Muito bem, então Rui, tu estavas a dizer, o Xá era uma figura do "jet set" e ao mesmo tempo com o dinheiro do petróleo, também havia uma disponibilidade financeira maior do que naquela altura.
Sim, há enormes investimentos. Se se queria uma fábrica siderúrgica, montava-se uma fábrica siderúrgica. O PIB do Irão cresce a uma taxa anual de 9% na década de 60. Há grandes investimentos também nas escolas. A taxa de alfabetização dos adultos passa de 26% para 42%. De um quarto quase até metade da população é alfabetizada.
Mas isso parecem excelentes notícias. Como é que vamos cair numa revolução islâmica?
Primeiro, porque o regime do Xá é uma ditadura com polícia política, com tortura nas prisões, perseguição da oposição. E depois esta própria transformação do Irão que o Xá está a promover, está a criar novos problemas. Primeiro, há um problema estrutural que é um enorme crescimento da população como em todo o terceiro mundo. Eu estou sempre a chamar a atenção para isso quando estamos a falar da Síria, do Egito, da África. Porque nós não temos noção disso no Ocidente. Nós no Ocidente chegamos ao fim do século XX com populações que são um pouco maiores do que as do princípio do século XX. Neste resto do mundo não é isso que acontece. Eles chegam ao fim do século XX com populações que são quatro, cinco vezes aquelas que tinham ao princípio. O Irão, por exemplo, passa de 10 milhões de habitantes em 1900 para 12 milhões em 1940. Em 1940 ainda só tem 12 milhões, tem um pouco mais. Mas a partir de 1940, isto entra num crescimento demográfico espantoso. Em 1960, tem 21 milhões de habitantes. Em 1980, tem 40 milhões. Está a duplicar a cada 20 anos. E a população não está só a duplicar, não está só a crescer, está a deslocar-se, está a migrar para as cidades. Em 1950, a taxa de urbanização no Irão é de cerca de 30%. Entre um terço e um quarto da população vive em cidades. Em 30 anos chega a três quartos. A maior parte da população vem dos campos para as cidades, onde obviamente vai ter grandes dificuldades em encontrar emprego e encontrar habitação. O que isto quer dizer? Quer dizer que por maior que fosse o crescimento econômico nos anos 60 e 70, propiciado pelos investimentos que permitiam, enfim, permitidos pelo petróleo e pela exploração do petróleo, é sempre possível para alguém dizer: "Vejam esta pobreza toda, vejam estes pobres todos, vejam esta gente que não tem casas em condições, vejam esta gente que não tem emprego". É o resultado do crescimento populacional. Eles não estão a criar riqueza como uma população estável, estão a criar riqueza como uma população que está muito à frente da riqueza que está a ser criada.
E como sugeria o nosso ouvinte também, se dá uma radicalização da juventude, nomeadamente da juventude universitária.
Dá, exatamente, isso é importante. Há uma explosão também da população universitária, como aliás no resto do mundo, o número de estudantes universitários passa de 24 mil para 200 mil, quer dizer, 10 vezes, é uma coisa tremenda. Isto é interessante, eles têm 200 mil a estudar nas universidades do Irão e depois mais dezenas de milhares a estudar no estrangeiro, em universidades estrangeiras com bolsas do governo do Irão, porque há uma política de mandar estudantes para o estrangeiro. O que é que acontece com esta gente toda, com estas centenas de milhares de estudantes? Imitam os seus colegas no resto do mundo ocidental, na Europa e nos Estados Unidos. Tornam-se todos esquerdistas, todos marxistas-leninistas, todos radicais e quando as manifestações não chegam, passam para a luta armada, para o terrorismo No princípio da década de 70, isto é como na Europa, as Brigadas Vermelhas na Itália, o grupo Baader-Meinhof na Alemanha, a Ação Direta em França e depois aqueles grupos de guerrilha urbana da América Latina. O que se passa no Irão é exatamente a mesma coisa. Estes estudantes vão todos apoiar grupos de guerrilha urbana. Isso, obviamente, aumenta a repressão do regime, aumenta os mortos, a prática da tortura e cria aquele ambiente em que a violação dos direitos humanos se torna um grande tema quando se fala do Irão do Xá.
E onde é que estava o clero no meio disso tudo? Porque ao clero não lhe aconteceu a secularização que aconteceu no Ocidente àquele que era o mundo católico e cristão.
O clero xiita nesta altura torna-se cada vez mais hostil ao regime do Xá. Vê o Xá como a figura de um herege.
De um maníaco, quase.
É também afetado pelas reformas do Xá. Uma grande parte do clero xiita vem das famílias de grandes proprietários expropriadas pelo Xá. Eles têm um duplo ressentimento contra o Xá. Por um lado, o Xá está a dar igualdade às mulheres. O Xá está também a promover a igualdade com as minorias curdas e turcas, que é uma coisa que ofende imenso este clero xiita. E por outro lado, não está a respeitar, ou está a respeitar muito pouco, até no seu estilo de vida, a tradição islâmica e está constantemente a citar os antigos imperadores pré-muçulmanos do Irão. O Ciro Grande, há até umas cerimónias enormes em que o Xá invoca Ciro: "Estamos aqui, o teu povo está aqui". Isto é uma ofensa enorme para o clero xiita, porque o clero xiita não vê o Irão xiita como descendente do antigo Irão. É um Irão muçulmano que não tem nada a ver com o antigo Irão.
E onde é que entra aqui o Aiatolá Khomeini?
O Aiatolá Khomeini é um clérigo que é dos primeiros a manifestar-se contra a chamada Revolução Branca do Xá em 1963, a criticar a igualdade das mulheres, a criticar a igualdade das minorias, critica isso tudo. As críticas chegam a um ponto em que ele acaba por ser preso e depois ir para o exílio, primeiro para o Iraque e depois para a França. É curiosamente em França que Khomeini começa a desenvolver um novo futuro, um novo projeto político para o Irão, que é derrubar a monarquia e instaurar uma república gerida por especialistas na lei islâmica. É uma visão completamente diferente do clero que tinha apoiado a democratização do Irão no princípio do século XX. Khomeini tem uma ideia completamente diferente. Para Khomeini, o clero deve assumir um papel político neste quadro de uma república que é gerida por especialistas da lei islâmica como ele. Ele é um especialista da lei islâmica. Nem todos os xiitas, nem todo o clero segue esta ideia. Por exemplo, ainda hoje, o grande Aiatolá Ali al-Sistani, que está em Najaf, no Iraque, mas é um iraniano e é um dos grandes Aiatolás, uma espécie de rival do Khomeini. Ele prefere a democracia, por exemplo. O Aiatolá Ali al-Sistani tem a mesma opinião dos clérigos que favoreceram a democracia no princípio do século XX.
Nós aqui estamos nos anos 70. O que acontece nos anos 70? Existem também as crises petrolíferas.
A crise petrolífera, ao princípio, em 1973, é vantajosa, é um aumento imenso dos preços do petróleo, mas depois os preços do petróleo vêm abaixo e há uma recessão em 1977, 78, com a inflação. Repare, isto é o pior que pode acontecer num país que está a crescer muito e que tem grandes expectativas, é uma interrupção dessas expectativas, desse crescimento. E é isso que acontece nos anos 70. O Xá, de repente, vê-se num ambiente que não é o ambiente de prosperidade dos anos 60 e do princípio da década de 70. E depois tem um problema com o seu grande aliado americano. O governo americano do presidente Jimmy Carter, eleito em 1976, começa em 1977. Carter é um presidente que quer mudar completamente a imagem dos Estados Unidos no mundo e o papel dos Estados Unidos no mundo. Os Estados Unidos, durante a Guerra Fria, tinham apoiado ditaduras, tinham feito intervenções militares contra regimes que os Estados Unidos achavam próximos da União Soviética. E Carter quer afastar os Estados Unidos de tudo isso e quer uma política de respeito pelos direitos humanos, não apenas exigindo respeito pelos direitos humanos à União Soviética, mas impondo aos seus próprios aliados respeito pelos direitos humanos e afasta-se completamente do Xá. E isso cria o ambiente para, a partir de 1977, 78, haver grandes manifestações no Irão de contestação Ao Xá. A origem dessas manifestações é complexa, há o clero xiita que está contra o Xá, mas também há uma burguesia urbana, liberal, que quer o regresso a um regime constitucional, quer o regresso a uma democracia. E depois, claro, há os estudantes esquerdistas que querem fazer uma revolução maoísta ou trotskista.
Mas é verdade que, como diz o nosso ouvinte, que esses estudantes marxistas acabam por ser aliados, ainda que informais, do clero?
Sim, são todos aliados, tal como a burguesia liberal também é aliada do clero. Isto é uma coisa curiosa: a burguesia liberal julga que será fácil afastar o clero xiita, precisamente porque há tradições também do clero se afastar da política e que podem contar com o apoio que estão a ter para as suas manifestações, mas que depois será fácil afastá-los. Eles estão mais preocupados é com os estudantes esquerdistas do que propriamente com o clero xiita. O que acontece em 19 de janeiro de 1979, o Xá acaba por perceber que não tem o apoio do exército, o exército não o vai apoiar para reprimir as manifestações, vai partir para o exílio. Ele já está doente, vai morrer pouco depois. E em 1 de fevereiro de 1979, poucos dias depois do Xá partir, Khomeini regressa de França para o Irão. E quando Khomeini regressa, as manifestações à volta de Khomeini, percebe-se que não vai ser nada fácil afastar o clero xiita do poder. E é isso que não se vai fazer, porque o clero xiita, em 1979, perante a burguesia liberal e perante os estudantes esquerdistas, vai representar para o Irão uma espécie de terceira via. Os estudantes esquerdistas querem fazer uma revolução como na União Soviética ou na China comunista. A burguesia liberal quer, na prática, continuar a sua aliança com os Estados Unidos. E aquilo que o clero xiita representa é, como eles dizem, nem Oeste, nem Leste, nem os Estados Unidos, nem a União Soviética. O Irão vai ser uma coisa completamente diferente. Isso tem um apoio, porque é uma mensagem com origem religiosa, mas que tem uma dimensão nacionalista muito forte. É isso que vai acontecer a partir de 1979, o clero xiita vai conseguir afastar e esmagar quer os estudantes esquerdistas, quer esta burguesia liberal. O Xá tinha criado uma espécie de nova classe média secular e muito educada nos anos 60, no princípio dos anos 70, e aquilo que vai acontecer a partir de 1979 é que essa classe média educada vai emigrar em massa para o estrangeiro. Hoje em dia há cerca de 4 milhões de iranianos que vivem no estrangeiro e que basicamente são, em grande medida, descendentes dessas classes médias que saem do Irão à medida que o clero xiita impõe o seu regime. O regime que o clero xiita vai impor sob a direção de Khomeini tem um caráter duplo, é um regime estranho, às vezes não é fácil defini-lo. Por um lado, parece uma democracia eleitoral. Tem eleições com vários candidatos a competirem entre si, quer para a presidência da República, quer para o Parlamento. Não há bem partidos, mas há associações políticas que funcionam, fações que funcionam como partidos. Há uns mais conservadores, há outros mais reformistas. Os reformistas dominam o governo entre 1997 e 2005. Isto é o que parece, por um lado, mas por outro lado, o que nós temos é uma autocracia clerical. Isto é o domínio do clero xiita. O clero está no Conselho dos Guardiães, que aprova os candidatos às eleições e que escolhe o supremo líder. O supremo líder tem que ser um aiatolá, uma grande autoridade, tem que ser um dos chamados maraji, que são dos grandes especialistas das leis islâmicas. Neste momento, só há cerca de 50 maraji vivos, tem que ser um deles, uma grande autoridade, porque são aqueles que falam sobre a lei islâmica como autoridade própria. São aqueles especialistas quando discordam entre si, acabam por perguntar-lhes. Este supremo líder foi o Aiatolá Khomeini, entre 1979 e 1989. O que acontece é que o clero, na prática, limita quem pode ser candidato às eleições e depois o supremo líder tem de aprovar todas as grandes decisões de governo. Na prática, aquilo é uma autocracia. Há de fato eleições, disputa-se a presidência da República, disputam-se os lugares no Parlamento, mas depois todas as decisões têm que ser aprovadas pelo supremo líder. E depois ainda há as milícias religiosas que reprimem qualquer desvio político ou moral. Andam na rua a impor o hijab às mulheres, etc. E há outra dimensão disso, que é importante também, que são as fundações religiosas que dominam mais ou menos 20% da economia do Irão, que estão em grandes fundações religiosas. Uma espécie de misericórdias que dominam e também é dominado pelo clero xiita. E depois, claro, há uma última consideração: é que o Irão está completamente à espera do imã. No momento em que o imã se revelar, o imã assume o poder absoluto e o Irão torna-se uma monarquia absoluta sobre o imã. Isto é um regime provisório, o regime que existe no Irão é um regime provisório à espera desse imã que está oculto, que existe, está vivo, está oculto e que está à espera. Uma última coisa que este clero xiita à volta de Khomeini estabelece é querer uma nova relevância no exterior para o Irão. Propõe-se não apenas fazer uma revolução islâmica no Irão, mas fazer uma revolução islâmica em todo o mundo islâmico, embora eles sejam xiitas. Assume uma causa como, por exemplo, a causa da destruição de Israel À medida que os outros Estados árabes estão a entrar em acordos com Israel ou reconhecer Israel. O Irão, que tinha sido um dos poucos Estados não hostis a Israel nesta região do mundo, torna-se o grande inimigo como uma forma de representar a verdade da oposição a Israel perante a traição dos outros Estados.
E com muitos proxies à sua volta. Apoiando muita gente.
E claro, eles têm as vantagens do rendimento do petróleo, têm uma população muito grande, mas têm as desvantagens do facto de ser, primeiro, xiitas, que é uma corrente minoritária no Islão do Médio Oriente. São persas, não são árabes, o que também cria uma certa desconfiança no resto do Médio Oriente árabe. Logo em 1980 entraram numa guerra com o Iraque, que vai durar oito anos e que vai enfraquecer imenso a República Islâmica do Irão. E depois estão completamente dependentes do petróleo, sobretudo agora de exportação para a China e sujeito a boicotes. Há uma limitação daquilo que o Irão pode fazer no mundo, embora tenha estas grandes aspirações a ser não apenas uma revolução no Irão, mas uma revolução mundial. É assim que este novo poder estabelecido no Irão desde 1979 se entende.
Muito bem. E assim termina esta edição de "E o Resto é História". Nós voltamos para a semana. Até lá.
E o resto é história. É apenas fumaça do incêndio que lavra ainda na zona de Chiados. Aqui, posto de comando do Corpo de Bombeiros de Lisboa. Quer transformar este país numa ditadura.
Não, não.
Com João Miguel Tavares e Rui Ramos.