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Este é um podcast da Rádio Observador que pode ser ouvido em 98.7 FM em Lisboa e 98.4 FM no Porto. E o resto é história.
É apenas fumaça do incêndio de Pedra, ainda na zona dos Chiados.
Quer transformar este país numa ditadura.
Não, não.
Com João Miguel Tavares e Rui Ramos. Olá, sejam bem-vindos ao 12º episódio de "O Resto é História". O meu nome é João Miguel Tavares, sou jornalista e, como habitualmente, tenho à minha frente o historiador Rui Ramos. Rui, esta semana todos nós acompanhámos com grande entusiasmo a chegada de barco de Greta Thunberg a Lisboa, com muita gente no cais a celebrar e barquinhos a acompanhar o seu barquinho em direto para as televisões e para os sites. E isso fez-me lembrar outros tempos e outras chegadas festivas a Lisboa, nomeadamente uma das mais grandiosas: a chegada do rei Dom João VI, vindo do Rio de Janeiro a 4 de julho de 1821, após 13 anos no Brasil, para onde ele tinha fugido em 1807 devido às invasões francesas. Citando o Diário da Regência dessa altura, que diz assim: "Repetidas salvas das fortalezas do castelo e embarcações de guerra anunciaram aos heróicos habitantes desta capital a feliz chegada do nosso rei constitucional. Sua Majestade entrou neste porto a bordo da nau Dom João VI, seguida de outras embarcações de guerra e mercantes, tendo todos fundeado defronte da Cordoaria. Transportou-se imediatamente a bordo a Deputação da Regência do Reino." Diz-me, Rui, achas que a chegada do rei Dom João VI bateu a chegada de Greta Thunberg ou não foi isso?
Talvez tenha batido pelos pormenores curiosos.
Mas com menos televisões.
Com menos televisões. Porque a primeira coisa que a Regência do Reino, que já foi aqui referida, fez foi proibir o rei de desembarcar, curiosamente.
O rei constitucional também não estava por acaso.
O rei que eles imediatamente fizeram questão no diário de designar. O Diário da Regência era uma espécie da RTP da altura, só para situar. Imediatamente fizeram questão de classificar como rei constitucional. O regresso do rei tinha sido uma das exigências, uma das causas da Revolução Constitucional de agosto de 1820, do ano anterior. Tinha havido uma revolução em Portugal e uma das exigências tinha sido o regresso do rei do Rio de Janeiro a Lisboa. O rei tinha ido em 1807 pro Rio de Janeiro e não tinha voltado. Apesar do Napoleão e das guerras na Europa já terem acabado em 1815, o rei continuava no Rio de Janeiro. Havia razões para isso. Uma das razões era porque o rei e o governo à volta do rei estavam preocupados que se em saírem do Rio de Janeiro pudessem deixar o Brasil entregue ao mesmo movimento de agitação que já existia na América Espanhola e que levou às independências dos países daquilo que nós hoje chamamos a América Latina. E portanto, o rei e o governo da monarquia portuguesa terem continuado no Rio de Janeiro era uma maneira de garantir que não iria chefes militares ou outros aventureiros.
Não era só porque gostavam mais das praias.
Não era só por causa disso, era por isso. E a partir da revolução em Portugal, também havia uma outra razão suplementar para o rei não estar muito entusiasmado em regressar, que era: ele imaginava que ao regressar a Portugal pudesse ficar sob controle ou sob a influência da Regência das Cortes, isto é, do novo poder constitucional em Portugal.
De certa maneira, sai um rei absolutista e regressa um rei constitucionalista.
Isto é, um rei absoluto, digamos assim, um rei que não tinha o seu poder limitado por outros órgãos do Estado e agora teria, isto é, agora já seria um rei de acordo com a nova Constituição do Reino, cujas bases entretanto já tinham sido discutidas e votadas mesmo sem o rei estar em Portugal.
E aplicavam-se também no Brasil?
E aplicavam-se também no Brasil, uma vez que no Brasil também tinha acontecido no princípio. Isso era outra razão porque o rei veio e depois acabou por vir, é que as tropas portuguesas no Brasil também se revoltaram, secundando o movimento constitucional em Portugal. E, portanto, o rei ali ficou sem apoio no Brasil. As Cortes queriam o rei em Portugal, mas ao mesmo tempo temiam o rei em Portugal, porque não sabiam como é que o país ia reagir ao regresso do rei. Podia dar-se o caso de a população, a nobreza ou mesmo uma parte do exército, tendo o rei presente aderirem a uma causa real contra as Cortes. Portanto, queriam garantir que o rei vinha, mas que ficaria sob o poder delas. E toda a encenação do desembarque teve a ver com isso. Quando estou a falar da Corte, são os deputados que faziam parte da assembleia, que nós hoje diríamos assembleia constituinte, que estava no Palácio das Necessidades e que estava ligada a uma regência, portanto, a um governo provisório, para usar também uma linguagem mais do século XX. O grande objetivo deles foi impedir o contacto entre o rei e a aristocracia, até a população. Isto é, impedir que o rei pudesse contactar com aqueles que poderiam vir a ser os seus apoiantes. Portanto, quando chegou, o rei foi proibido de desembarcar, eles mandaram uma série de escaleres, barcos.
Mas quando diz proibido, é mesmo proibido?
Sim. A ideia era quando o rei chegou, desembarcava. Disseram: "Não, desembarca só no dia seguinte", portanto, no dia 4, aí é que desembarca. Depois o rei queria desembarcar à tarde e eles obrigaram-no a desembarcar de manhã. A ideia era: o rei iria a uma missa de ação de graças pela viagem ter corrido bem, portanto, um té deo na Sé. Eles queriam ainda ter tempo, por isso é que teria de desembarcar de manhã, quer dizer, ao meio-dia. Ainda queriam ter tempo de levá-lo imediatamente ao Palácio das Necessidades, onde ele iria jurar outra vez a Constituição. Portanto, queriam fazer isso. Exatamente. Queriam fazê-lo comungar na missa civil. E, portanto, a ideia foi impedi-lo de contactar. Rodearam de barcos, não deixaram. A única personalidade em Lisboa que eles aceitavam que pudesse falar com o rei era o embaixador ou o representante da Inglaterra. Mas curiosamente foi um outro diplomata que sabendo, tendo ouvido isto, vestiu-se de vermelho, que era uma roupa típica dos militares e representantes ingleses, e posto no barco, foi até ao bloqueio, à muralha de escaleres, de barcos, que estava a rodear a Nau Real, e fazendo de conta que não falava português, que não percebia o português, avançou. Eles julgaram que era o inglês, deixaram-no subir e ele foi falar com o rei e ter-lhe, acho, explicado umas coisas. O desembarque era minuciosamente escrito nuns documentos que tinham sido decididos pelas Cortes nos dias anteriores, e a ideia era sempre ter o rei, a partir do momento em que desembarcasse, sempre rodeado de deputados e membros da Regência. Isto é, que estivesse sob escolta. Portanto, o rei depois é levado ao Palácio das Necessidades, jura o que tem a jurar. O Berquiste Fronteira, que na altura era ainda bastante novo, mas que nas suas memórias conta vividamente estes acontecimentos, depois dá um lado de farsa a tudo isto. Porque aparentemente os representantes das Cortes e da Regência, muito decididos a mostrar que eles é que mandavam, mas quando estão perante o rei ficam muito atrapalhados. E enquanto o costume era saudar o rei colocando um joelho no chão, eles ajoelharam-se todos, enfim, um pouco embaraçados, e deram aquele lado ridículo de uma aparente submissão maior do que aquela que era costume fazer, embora, claro, fossem eles a mandar.
E o D. João VI foi um homem bem comportado, não é?
Sim, o D. João VI conformou-se com isso. Não foi o rei nunca que levantou problemas, foi sobretudo a família real, quer a família que veio com ele para Portugal, a rainha D. Carlota Joaquina e o infante D. Miguel e as próprias infantas, que eram todas muito contra a situação que tinha sido criada ao rei, quer depois mesmo no próprio Brasil, o príncipe real D. Pedro, que lá ficou e que em 1822 acabou por se pôr à frente do movimento da independência. Curiosamente, uma das propostas que tinha sido feita antes do rei regressar era para que o rei ficasse no Brasil e o príncipe real viesse para Portugal. Não se quis fazer isso e o príncipe real ficou no Brasil e acabou por se tornar o imperador D. Pedro I do Brasil. Mas este foi um desembarque, portanto, muito mais agitado e consequente do que o da nossa famosa menina.
Muito bem. Olha, nos últimos tempos também voltámos a ouvir falar muito da maçonaria, à boleia das eleições no PSD e dos debates televisivos e das acusações do Rui Rio sobre os seus adversários, que aliás, um deles admitiu ter pertencido, mas já não pertence, e o outro admitiu ter jantado, mas já não janta. Agora, toda a gente fala do tema e neste programa também já nos referimos a ele aqui e ali, mas até pelo secretismo que rodeia a própria maçonaria, poucos sabem realmente do que é que se está a falar, a não ser que façam parte da congregação. E de forma muito simples, Rui, o que é a maçonaria? Quando e porque nasceu e que influência tem tido ela na política portuguesa ao longo da história? E isto tudo em dois minutos.
Há duas maneiras de responder. Uma é a própria Tradição maçónica que enraíza a maçonaria em tradições de iniciação e de ritual muito antigas, e obviamente essa antiguidade depende um pouco da imaginação de cada um. E outra é uma perceção histórica, independentemente das suas origens mais remotas, de quando é que se começou a tornar historicamente ou socialmente significativa. E isso é na segunda metade do século XVIII, e a começar, sobretudo, pela Inglaterra e pela Escócia. E não é por acaso que se chama também maçonaria escocesa ou ritos escoceses, há esta associação à Escócia e à Inglaterra e às suas grandes lojas do século XVIII.
Significa que também há uma correspondência com o próprio Iluminismo?
Sim, muito. A maçonaria tem a dimensão dupla do Iluminismo. Por um lado, esta ideia de melhorar a relação entre as pessoas, criar esta fraternidade, porque aquilo é uma iniciação, uma fraternidade. E, por outro lado, aquela dimensão hermética, esotérica, misteriosa, secreta. A combinação entre as duas coisas que pode parecer estranha. Portanto, luzes e sombras, isto é, Iluminismo, é as luzes, mas depois o lado secreto, o lado hermético, é a sombra. E geralmente começa, em muitos países, por influência inglesa e depois francesa, quando se expande também em França, e é uma espécie de uma moda, que se traduz, sobretudo, em jantares. Há uns jantares e nas elites.
Exato, uma moda para pessoas finas.
Para pessoas, sim, até para a aristocracia e para a alta magistratura, militares também, muitos militares. Aliás, é por via militar que se começa a introduzir em Portugal, militares ingleses que fazem isto. Agora, o que acontece é que as monarquias do século XVIII olham um bocadinho para estas atividades, sobretudo no continente europeu, com um bocadinho de desconfiança. Depois a Igreja Católica aumenta essa desconfiança: "Mas por que eles estão a reunir-se em segredo, se não estão a fazer nada de mal? Por que têm aqueles sinais para se reconhecer uns aos outros?" Essa suspeita que se levanta, mas é, sobretudo, a partir da Revolução Francesa de 1789, que a maçonaria ganha uma fama mais controversa, porque alguns dos contrarrevolucionários, isto é, daqueles que estavam contra a revolução, vão associar a revolução a uma conspiração com origens maçónicas, isto é, que teriam sido os maçons que se teriam organizado para derrubar o rei de França, o Luís XVI, e derrubar a monarquia. E a partir daí, há, de facto, uma associação entre revolução e maçonaria na Europa.
Tu também tens essa associação na própria Revolução Americana, não é?
Sim, alguns dos valores que são associados à maçonaria são aqueles valores que em público também são assumidos pelos revolucionários: liberdade, igualdade, fraternidade. E a própria organização maçónica no século XIX, aquilo é uma espécie de um sistema constitucional secreto, com eleições, com órgãos representativos. Portanto, há uma ligação entre a tradição maçónica e a tradição do constitucionalismo moderno, um mimetismo de valores. E depois, sim, é verdade, uma parte dos liberais portugueses, aqueles que fazem a Revolução de 1820 e que depois vencem a guerra civil em 1834, uma parte deles são maçons, a começar pelo rei Dom Pedro IV, o imperador do Brasil, muitas das figuras importantes do Partido Liberal são maçons. E essa ligação entre revolução e maçonaria vai consolidar-se, por exemplo, na República, a revolução republicana do princípio do século XX, em 1910, onde também quase todos os líderes republicanos são maçons, e o Partido Republicano está muito ligado ao Grande Oriente Lusitano, que era a principal federação maçónica portuguesa no princípio do século XX.
Mas isso por quê? Porque o secretismo também era útil para organizar as revoluções?
Para organizar revoluções e para organizar solidariedades, para criar um sentimento de pertença, de comunhão entre as pessoas. Não é por acaso que os partidos liberais, em meados do século XIX em Portugal, são quase todos assentes em lojas maçónicas e os próprios líderes, os principais líderes partidários, mais do que líderes de partidos, que, aliás, não existiam, como falamos aqui na semana passada, não existiam nas formas como nós as conhecemos hoje, com o tipo de organização, eram chefes de federações maçónicas, isto é, de federações de lojas. Era um bocadinho diferente daquilo que era a tradição maçónica britânica ou anglo-saxónica americana e inglesa, que era uma maçonaria mais mística, até religiosa. Era compatível a pessoa ser membro de uma igreja e ser maçom, naquilo que era a maçonaria que depois se iria designar por maçonaria regular, que era a maçonaria mais próxima da tradição escocesa, da tradição que em princípio seria a original e que reconhecia Deus, e portanto não era incompatível com as religiões reveladas, a religião cristã tradicional na Europa. Enquanto um outro tipo de maçonaria que se desenvolve, sobretudo a partir de França e da Revolução Francesa, que é aquela que está associada aos chamados Grandes Orientes, porque era esse o nome que as federações maçónicas de tipo francesa adotavam. As outras, as inglesas, eram Grandes Lojas. Havia Grandes Lojas, que era da maçonaria regular, e depois havia Grandes Orientes, que era da chamada maçonaria irregular, quando se olhava do ponto de vista da maçonaria anglo-saxónica. E esta maçonaria francesa é uma maçonaria muito ligada, de facto, à revolução, ao republicanismo, à tradição da Revolução Francesa e depois ao republicanismo em França. E era o que acontecia também em Portugal. Uma grande parte dos maçons portugueses estão associados a estes Grandes Orientes. Agora, o risco que aqui pode correr-se é de imaginar que estes maçons, entre eles, formavam uma família feliz ou uma conspiração muito bem organizada. Não, eles estavam divididos em lojas, estavam divididos em diferentes federações maçónicas e todos eles estavam em guerra uns com os outros. E portanto, a maçonaria, por assim dizer, nunca foi uma entidade única, foi um conjunto de atividades, um conjunto de personalidades, umas vezes mais numerosas, outras vezes menos. Isso às vezes dependia de modas, não apenas de repressão, por assim dizer, dependia um bocadinho de modas. Umas vezes estava mais na moda, outras vezes estava menos. Uma vez havia mais gente na maçonaria, outras vezes havia menos. E mesmo a intensidade com que estes iniciados eram maçons também pode ser posta em dúvida. Uma grande parte deles nunca passava do primeiro grau, era também daqueles que tinham estado e depois tinham saído ou tinham ido jantar e depois nunca mais tinham ido jantar. Era muito mais frequente a maçonaria consistir em pessoas que entravam e saíam.
Não tinham um envolvimento profundo.
Sim, que não levavam aquilo excessivamente a sério e que podiam ter sido levados ou por curiosidade, ou por fascínio, ou por interesse também, de fazer parte de uma rede de influência, porque era assim também que funcionava, por exemplo, durante a República. A questão é esta: é muito fácil exagerar a influência organizacional da maçonaria enquanto um corpo dirigente de acontecimentos. Faz mais sentido admitir que a cultura maçónica, por assim dizer, as tradições maçónicas, têm uma grande influência, por exemplo, na elite política portuguesa do século XIX e princípio do século XX. Porque tem, porque uma grande parte daquelas figuras principais pertenciam à maçonaria e isso obviamente tinha alguma consequência.
Mas aparentemente chegou até os dias de hoje, não é?
Sim, durante o Estado Novo, há uma lei que, salvo erro em 1936, proíbe as sociedades secretas, nunca designa a maçonaria em si. O Estado Novo não faz campanhas antimaçónicas, como fez o regime de Vichy em França, como fez o regime franquista em Espanha. Ninguém é preso por ser maçom. Mas há uma abolição, uma proibição das sociedades secretas, o que é estranho, porque as sociedades secretas obviamente não eram legais e portanto não podiam ser proibidas. Mas sobretudo há aquela obrigação dos funcionários públicos jurarem que não faziam parte de sociedades secretas, etc. Obviamente, continuaram a fazer e houve sempre uma presença mais ou menos maçónica. Aliás, o presidente da República, o general Carmona, durante uma grande parte do Estado Novo, sabia-se que tinha sido maçom, que tinha sido iniciado na maçonaria, como muitos militares durante a Primeira República. Tinha um significado cultural, não era necessário que tivesse um significado político. Independentemente disso, o poder talvez lhe dá uma disponibilidade pra ser mais simpático ou compreensivo pra quem continuasse a seguir esses rituais. Mas era uma minoria. Quando chega a 74 não tem um grande significado, embora o primeiro primeiro-ministro, o primeiro chefe do governo provisório, depois do 25 de abril de 1974, o professor Adelino da Palma Carlos, também fosse maçom, até importante.
E a própria Maria Soares e a família Soares supostamente sempre esteve ligada, com maior ou menor proximidade.
Há uma dimensão. Para o Partido Socialista, a novidade nos últimos anos penso que terá sido a reintrodução da maçonaria regular, que deu à direita, pelo menos no PSD, sobretudo, a possibilidade de se tornarem também maçons.
Muito bem. Olha, e assim termina esta primeira parte de "E o Resto é História". Voltamos já a seguir. Olá, sejam bem-vindos a esta segunda parte do 22º episódio de "O Resto é História". Entre as muitas perguntas que os nossos ouvintes nos têm enviado para historia@observador.pt, fica também desde já convidado a enviar a sua, o Manuel Gomes Mota recupera um dos acontecimentos mais badalados e mais bárbaros da história de Portugal: o processo dos Távoras. Do qual nós também já tocamos de raspão numa emissão anterior. O Manuel diz que gostaria de ouvir algo mais acerca da influência dos Távoras em Portugal, antes e depois da perseguição do Marquês de Pombal e pergunta: será que desapareceram mesmo ou mantiveram uma influência importante no norte de Portugal? E para justificar esta sua pergunta, o nosso ouvinte recorda uma história envolvendo o Barão de Forrester, que quando andava pelo Douro a fazer o levantamento das quintas vinhateiras, isto teria de ser já em meados do século XIX, portanto quase 100 anos após a execução dos Távoras, ao chegar ao Pinhão, ter-lhes-á pedido salvo-conduto pelo barqueiro. E o barão, cuja história merece um desenvolvimento à parte e fica a escoar a pena perguntá-lo já para a semana, mostrou-lhe o salvo-conduto passado por el-rei, ao que o barqueiro respondeu que aquilo ali de nada valia e que precisaria da autorização do Marquês Távora, senhor daquelas terras. Eu diria que isto tem tudo para ser um mito, porque após a execução dos Távoras, todos os seus bens foram incorporados na Coroa. Mas tu sabes mais disto do que eu, Rui. Se calhar é melhor começar pelo princípio antes de irmos especificamente a este mito do barqueiro. Quem eram os Távoras e por que caíram em desgraça na corte portuguesa?
Os Távoras ficaram na história como as grandes vítimas do processo que se seguiu ao atentado contra o Rei Dom José, na noite de 3 de setembro de 1758. Isto quer dizer que cerca de três anos depois do terremoto que destruiu Lisboa. Nunca se sabe bem, até hoje ainda se discute o que aconteceu exatamente nessa noite de 3 de setembro. Não se soube logo quando aconteceu.
Vinha num coche, supostamente.
Sim, não se soube logo quando aconteceu. Conhece-se a correspondência da rainha, da mulher do Dom José, para a mãe, em Espanha, em que ela diz durante todo o mês de setembro, outubro e novembro, diz que o rei caiu e que magoou um braço. E depois, de repente, só vai ver o rei em dezembro, escreve à mãe a dizer: "Afinal parece que foi um atentado que ninguém tinha dito. Eu não sabia, parece que o rei foi atingido." Porque é só em dezembro, isto é, quase três meses depois, que se começam a fazer prisões. E as prisões incidem sobretudo sobre esta família dos Távoras, uma vez que é preso também o Duque de Aveiro, mas o Duque de Aveiro também estava ligado por parentescos, isto é, por casamento e por filiação também nestes Távoras. E é conhecida, a família foi quase toda presa, a Marquesa de Távora foi executada, o marido, os filhos.
Não deixe por conhecido. Há conhecido de algumas pessoas, mas certamente que alguns ouvintes mais jovens se calhar não ouviram falar.
O azar dos Távoras, talvez não tenham ouvido o azar dos Távoras. E o azar dos Távoras foi de facto tremendo, porque eles no dia 13 de janeiro de 1759, depois de um processo muito breve, as principais figuras masculinas e a Marquesa de Távora foram executados em Belém, basicamente mortos à pancada, com uma massa de ferro. Despartiram os braços, depois o peito e até a cara, uma coisa terrível.
Uns queimados, outros estrangulados, outros pulados.
Os criados foram queimados e enforcados, eles foram massacrados desta maneira. E as mulheres e as crianças da família... E a Marquesa foi decapitada. Isto foi uma execução absolutamente estranha neste sentido. Não era costume, por exemplo, executar mulheres como a Marquesa de Távora. Mais normalmente teria sido encerrada num convento, presa. Não, foi decapitada. E depois, a maneira mais corrente de executar aristocratas, como era o caso dos Távoras, acusados de traição, seria serem decapitados. Eles aqui não, foram torturados, basicamente, e morreram supliciados, mais do que propriamente apenas executados.
Supostamente alguns confessaram o crime, não é?
Só um, só o Duque de Aveiro. Os outros, os Távoras, recusaram sempre ter qualquer coisa a ver com qualquer atentado. Isso não lhes valeu. E nem valeu às mulheres e às crianças da família, que também foram todas presas e encerradas em conventos.
Penso que até chegaram a ser sentenciadas à morte. Simpaticamente, decidiram não assassinar as crianças.
A pergunta era: o que tinham os Távoras em especial para acabar desta maneira? Esta é a questão que se coloca depois e que se colocou aos historiadores. Quem estudou a nobreza, e eu lembro um colega meu, Nuno Gonçalo Monteiro, que tem estudado quer o reinado Dom José, quer, sobretudo, a aristocracia portuguesa, ele notou várias coisas específicas desta família, da família de Távora, que era uma família de aristocracia conhecida desde Pelo menos o século XIV ou XV, que havia Távoras e que foram ascendendo até se tornarem, de facto, uma das famílias principais do reino, portanto nos séculos XV, XVI, XVII, XVIII, foram sempre a subir.
E depois o nome coincidia com o título, não é? Porque é uma raridade.
Isso era uma raridade. Em vez de ser uma localidade, era o próprio apelido da família. Enfim, o apelido da família também já era retirado, aparentemente, de um rio. Mas era um apelido, era um dos amostres da família. Ora bem, o que eles tinham de especial? Tinham, em primeiro lugar, e isso tem a ver com a tal lenda contada pelo barão de Forrester, tinham uma base regional muito importante em Trás-os-Montes. E isto era diferente das outras famílias da nobreza, que estavam em Lisboa e não tinham estas ligações regionais tão fortes. Eles tinham ali uma base regional importante, onde voltavam, onde estavam presentes.
Onde o saldo do produto dos Távoras valia mais do que o el-rei. Ou pelo menos, a mitologia em si também é significativa.
Nessa altura em que o Forrester andava lá, não, porque não havia nem sequer Marquês de Távora e já não havia Marquês de Távora há muitas décadas.
Mas o mito é significativo.
Mas o mito é significativo da importância dos Távoras. Era também uma família que mantinha uma espécie de uma tradição guerreira, militar, isto é, havia o espírito dos Távoras, de combatentes. O marquês que foi executado tinha sido vice-rei da Índia, etc. Tinham aquela dimensão de soldados, de bravos e de corajosos. E depois também tinham, sobretudo a marquesa, neste caso mais especificamente a marquesa de Távora, uma relação especial com os jesuítas, e especialmente com um padre jesuíta, o padre Gabriel Malagrida, que foi o último executado da Inquisição e que também foi preso nesta ocasião pelo Marquês de Pombal. E repare-se que os jesuítas tinham sido expulsos do Paço um ano antes do atentado. E portanto, os Távoras e a marquesa, sobretudo, continuavam muito associados aos jesuítas, sabendo que eles já não estavam em boa reputação na corte. E depois havia também um outro pormenor que era o próprio rei tinha uma relação bizarra também com os Távoras, uma vez que constava que o rei poderia ter uma relação sentimental com a nora do Marquês de Távora, a dona Teresa Leonor, mulher de um dos executados em 1759. A dona Teresa, a suposta amante do rei, acabou no convento. Isso também poderia ter criado ali uma relação qualquer. Bem, por que isso poderia ajudar a explicar a perseguição aos Távoras? Em grande medida porque era claro que uma das opções do Sebastião José de Carvalho e Melo, o futuro Marquês de Pombal, e que era ministro do rei Dom José desde 1650 e se tinha tornado também extraordinariamente importante desde o terremoto, desde 1755. Um dos seus objetivos era precisamente limitar os poderes que tinham limitado o poder do rei antes do reinado de Dom José.
Portanto, era um inimigo da aristocracia, por assim dizer.
Desta aristocracia, como a dos Távoras, que ocupava grandes cargos, estava relacionada com os outros aristocratas.
Tinha uma certa independência dos Braganças.
E tinham uma certa pretensão de influência e que correspondia à situação que tinha sido criada em 1640 com a restauração, isto é, o Duque de Bragança tinha se tornado rei de Portugal, mas muito dependente daquelas famílias aristocráticas militares que depois o tinham secundado, o tinham acompanhado e tinham feito a guerra da restauração. De tal maneira que para muitos observadores estrangeiros, a monarquia portuguesa correspondia quase a uma espécie de uma república de Veneza, uma república aristocrática, em que o rei é um primus inter pares, isto é, o rei é apenas mais um dos nobres. E eles não se esqueciam que o rei, independentemente de ser descendente dos antigos reis de Portugal, isto é, os Braganças, tinham sido nobres como eles. Eram descendentes dos reis, mas eles também eram capazes de dizer que também eram descendentes de reis e que depois tinham se tornado reis de Portugal um pouco também por eles. Eles próprios os tinham feito, estes aristocratas, os chefes militares os tinham feito ao rei.
Parece que havia quase uma pretensão ao trono? Isso, não.
Não, da parte deles, não. Da parte do Duque de Aveiro, talvez houvesse alguma pretensão maior, vamos falar dele a seguir, podia enraizar-se num rei de Portugal, era descendente de Dom João II. Neles não, mas havia uma pretensão de influenciar o governo. O governo era feito até ao tempo do Marquês de Pombal, o governo processava-se sobretudo através de conselhos. Conselho de Estado, Conselho Ultramarino, Conselho da Guerra, era sistema de conselhos em que o rei estava presente e estavam os outros aristocratas todos. Era uma república aristocrática. Estou a chamar já Marquês de Pombal, ele só vem ser Marquês de Pombal mais tarde. O que o Marquês de Pombal vem fazer é concentrar o poder nos ministros, e sobretudo nele, num dos ministros, que se torna o principal agente do governo em Portugal. Em vez de ser estes conselhos.
Nesse sentido, os Távoras estavam no caminho do Marquês de Pombal e pode-se ter juntado a fome à vontade de comer.
Razões. Isto é, o conflito com a Companhia de Jesus, com todos os organismos, entidades e classes que tinham sido influentes no tempo de Dom João V, isto é, do pai de Dom José, e nos reinados anteriores. Os reis tinham estado diluídos no meio desta aristocracia, destas ordens religiosas, etc. O Marquês de Pombal está a tentar tornar o rei poderoso. Agora, a violência de que o Marquês de Pombal é capaz contra os Távoras é uma violência que caracteriza todo o seu governo contra todos os grupos. Não era só a aristocracia, não era só ordens religiosas como a Companhia de Jesus que punham em causa o rei. Era também uma população que, por exemplo, estava habituada a amotinar-se e a exigir coisas. E aquilo que tinha acontecido, por exemplo, no Porto em 1758, que é o famoso motim contra mais uma decisão do marquês de dar o monopólio da venda do vinho a uma companhia que ele tinha fundado, a Companhia dos Vinhos do Douro. A repressão desse motim também é de uma violência extraordinária comparado com motins anteriores. Isto é, a população tinha o hábito de se revoltar quando não queria pagar impostos ou quando qualquer coisa, até em nome do rei, apelando ao rei, etc. Foi o que os habitantes do Porto fizeram quando viram limitadas as suas atividades no setor vinícola. E a resposta foi tremenda, com dezenas de execuções, condenações à morte. E há estudos que apontam para isso. O governo do Marquês de Pombal coincide com a época em que mais gente foi condenada à morte e mais gente foi executada em Portugal. Isto é, era um país onde não havia uma tradição. Curiosamente, também no caso do Porto, entre os 26 condenados à morte no motim do Porto, fevereiro de 1757, estão também cinco mulheres, que geralmente eram poupadas. E aqui também foram mulheres do povo que foram executadas.
Portanto, o Marquês já tratava as mulheres de forma desigual.
Exatamente. É um dos governos mais sanguinários. E isto deixou ressentimentos grandes. Por exemplo, alguns dos familiares destes aristocratas que foram presos durante o governo do Marquês de Pombal nunca mais se esqueceram. A rainha Dona Maria I, depois em 1777, veio até a inocentá-los, reabriu o processo dos Távoras, eles foram declarados inocentes e, portanto, reabilitados, os sobreviventes. Mas eles nunca se esqueceram disso. E, por exemplo, em 1808, uma das razões que era dita para o Marquês d'Alorna, por exemplo, ter tomado o partido dos franceses contra o rei de Portugal, foi precisamente não se ter esquecido da repressão que tinha caído sobre os Alornas no tempo do Marquês.
Muito bem. Já agora, Ruia, tu já referiste isto, no meio deste terrível processo, houve uma outra vítima, José de Mascarenhas, Duque de Aveiro, que alegadamente, como tu referiste, ambicionava ficar com o trono de Dom José. E após a sua execução, o palácio do Duque de Aveiro, em Lisboa, foi demolido e o terreno foi simbolicamente salgado para que nunca mais nada ali crescesse, no local que é hoje precisamente conhecido como o Beco do Chão Salgado. Penso que até lá existe uma placa alusiva.
É um monumento, há mesmo um monumento. Um monumento foi colocado na altura.
Existe a placa, não é?
Entretanto, a Câmara Municipal é que foi cedendo para construção os terrenos todos que deviam ter ficado vazios até hoje.
E, portanto, a Câmara de Lisboa não patrocinou ali o salgado do chão e deixou que outras coisas lá crescessem. Mas segundo sei, um dos raros vestígios físicos da existência dos Duques de Aveiro é um palácio, hoje em dia mais ou menos devoluto, em Azeméis. Onde ainda se encontra o seu brasão, mas todo picado. Que era também um hábito que existia na altura, quando uma família caía em desgraça. Se eu estou errado, já me corrijas.
Não, sim.
Por que Dom José de Mascarenhas da Silva e Lencastre, o oitavo Duque de Aveiro, caiu então em desgraça?
Este oitavo Duque de Aveiro foi o único que em dezembro de 1758 confessou o atentado contra Dom José. Talvez sob tortura, mas confessou. Ele primeiro culpou só ele próprio, disse que tinha sido ele, e depois culpou os outros todos, a começar pelos Távoras, porque ele próprio era um Távora pela mãe e estava casado com uma senhora de Távora. O que é curioso aqui é que os outros, aqueles que ficaram presos, eles próprios estavam convencidos que o Duque de Aveiro era o culpado do atentado ao rei. Na correspondência entre eles, que é conhecida, eles dizem: "Bem, ele fez isto, ele fez aquilo." E por quê? Em grande medida também porque o Duque de Aveiro, para começar, era alguém que tinha tido uma vida muito protegida no reinado anterior de Dom João V, porque ele era sobrinho daquele que era o equivalente do Marquês de Pombal em influência no tempo de Dom João V, que era um frate franciscano, o frei Gaspar da Encarnação, que era irmão do pai do Duque de Aveiro, portanto era tio do Duque de Aveiro, e uma espécie de primeiro-ministro de Dom João V, e que aliás o ajudou a tornar-se Duque de Aveiro, uma vez que ele era Marquês de Gouveia e foi através de um processo que conseguiu chegar a suceder a um primo afastado, que era Duque de Aveiro e que morreu sem descendência, e ele candidatou-se ao lugar e conseguiu tornar-se Duque de Aveiro, por via também da proteção que tinha na corte. Ora bem, esta proteção acaba quando morre Dom João V, vem Dom José, Dom José traz O futuro Marquês de Pombal, o frei Gaspar da Encarnação passa à história, desaparece de cena e o Duque de Aveiro desde então começa a sentir-se muito marginalizado, perseguido. Ele tem um plano que era tentar casar o filho com uma filha dos duques de Cadaval. Isto era uma coisa interessante, porque o Duque de Aveiro, enquanto Duque de Aveiro, enquanto Lencastre, descendente de D. João II. Portanto, os duques de Aveiro eram bastardos do rei D. João II, tal como os duques de Bragança também eram bastardos do rei D. João I. Portanto, eram bastardias. E ele estava a tentar juntar-se a um Cadaval, que também era Bragança, portanto, tornar alguém um futuro Duque de Aveiro, chefe quer dos Cadavais, quer dos Aveiros, portanto, uma casa gigante em Portugal. Os Aveiros também tinham sido protegidos durante o tempo dos reis que nós chamamos reis espanhóis, quer dizer, os Habsburgos, que também tinham protegido os duques de Aveiro, talvez até para equilibrar com os duques de Bragança, porque para usar os termos franceses, eram príncipes de sangue, isto é, descendentes da família real em Portugal. Portanto, provavelmente tinha algumas pretensões e sobretudo tinha algum despeito. E claro, ele poderia olhar que em 1640 os duques de Bragança tornaram-se reis de Portugal, podia ter sido os duques de Aveiro, podia ter sido um dos deles. A verdade é que com isto levou uma punição tremenda. Ele é condenado à morte, é privado de nacionalidade também, é desnacionalizado. O ducado é extinto, os palácios são arrasados, o de Azeitão, o chão salgado, as armas picadas, e o filho é preso e proibido de se casar para garantir que não há. E até, curiosamente, a atual cidade de Aveiro, foi-lhe mudado o nome para Nova Bragança, e depois voltou outra vez a ser Aveiro. Portanto, era uma tentativa de apagar completamente o nome do mapa. Isto pode parecer um pormenor curioso da história, mas não. Por exemplo, nós pensarmos na Revolução Francesa de 1789, a importância que teve as intrigas e o ressentimento do Duque de Orleans contra o Rei Luís XVI, e o Duque de Orleans era primo do Luís XVI, era também um Bourbon, era da família Bourbon, e era um ramo de Bourbon que tinha menor, quer dizer, um pouco os Aveiros para os Braganças. A importância que teve esse choque entre os Bourbons e os Orleans, que aliás ainda vai repetir-se na revolução de 1830 em França, quando finalmente os Orleans substituem os Bourbons como reis de França, como reis dos franceses, aliás. Tinha uma alguma dimensão política, e é curioso, por exemplo, mesmo no princípio do século XIX, de vez em quando há rumores sobre a possibilidade do Marquês de Cadaval, por exemplo, substituir os Braganças no trono. Portanto, não era impunemente que havia-
Estás a transformar a história da Europa numa grande intriga familiar.
Não é uma intriga familiar. A política dinástica era mesmo uma dimensão fundamental da política, porque estava associada à legitimidade. Isto é, o poder não estava ligado à vontade popular, digamos assim, isto é, não era o resultado de eleições, era o resultado da possibilidade de uma família reclamá-lo de acordo com as leis de sucessão e de filiação daqueles que eram os fundadores do reino. E a verdade é que os Aveiros ou os Cadavais também podiam fazer isso, tal como os Braganças. Portanto, não era impunemente que se era Duque de Aveiro no século XVIII em Portugal, e ele provavelmente pagou um preço, independentemente dos atos que cometeu no atentado, que hoje ainda se discute, era contra o rei ou então era contra alguém com quem o Duque de Aveiro tinha um desaguisado e pensou que estava a atingir esse alguém e afinal atingiu o rei. Não se sabe bem a história. Agora, que é claro que o Duque de Aveiro não estava feliz nem contente e que o Sebastião José de Carvalho e Melo, futuro Marquês de Pombal, também não com ele, isso parece que era óbvio.
Muito bem, e assim termina com esta história de sangue e alguidar este episódio de "O Resto é História". Voltamos já para a semana.