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E o resto é história. É apenas pomba. Começando e palavra ainda na zona dos Chiados. Quer transformar este país numa ditadura. Entende? Com João Miguel Tavares e Rui Ramos.
Olá, sejam bem-vindos a este episódio número 158 de "E o Resto é História", com os mestres de cerimônia Rui Ramos e João Miguel Tavares. Nós hoje vamos falar da aliança anglo-portuguesa. É mito? É realidade? Ou tem um pouco das duas coisas? Todos nós já ouvimos dizer que a aliança entre Portugal e Inglaterra é a mais antiga do mundo, e há uma data para justificar essa afirmação. A 10 de julho de 1372, ou seja, há uns impressionantes 650 anos, ter-se-á estabelecido a aliança anglo-portuguesa, alegadamente a mais antiga aliança ainda em vigor no planeta Terra e possivelmente em toda a Via Láctea, iniciada pelo Tratado de Tagilde. Tagilde é uma freguesia do Conselho de Vizela, no distrito de Braga, no tal dia 10 de julho de 1372, seguido um ano mais tarde de um tratado de perpétua amizade, assinado em Londres por Eduardo III de Inglaterra e depois por Dom Fernando e Dona Leonor de Portugal, e finalmente ratificado pelo Tratado de Windsor de 1386. Agora, Rui, diz-nos lá, isso da aliança anglo-portuguesa ser a mais velha do mundo é uma daquelas coisas muito bonitas de serem ditas em visitas à Rainha Isabel II, ou existe mesmo um fundamento histórico que justifique estes 650 anos de aliança e a tal perpétua amizade?
É muito provável que saindo da Europa, alguém descubra algures uma aliança mais antiga entre dois Estados e dois povos que nós não temos em conta na nossa visão bastante centrada na Europa do mundo. Esta aliança anglo-portuguesa, como tudo, tem uma dimensão de mito e tem uma dimensão de verdade. A verdade está naquilo que tu disseste, o tratado de 1373 entre o rei de Portugal, Dom Fernando, e o rei da Inglaterra, Eduardo III, e aqui estamos a falar de Inglaterra porque é só Inglaterra, ainda não é a Grã-Bretanha, nem o Reino Unido, isso só vem no século XVIII. Que seria depois reforçada na década seguinte por uma aliança em 1386 entre o novo rei de Portugal, o Dom João I e o rei Ricardo II da Inglaterra, e depois pelo casamento, em 1387, entre o rei de Portugal, Dom João I, e a filha do Duque de Lancaster, John of Gaunt.
E casamentos em geral até valeram mais do que tratados, às vezes.
Mais ou menos. Que é a Dona Filipa de Lencastre, depois mãe dos filhos legítimos do rei Dom João I de Portugal. Isto é, o Infante Dom Henrique, o Dom Pedro, Dom Duarte.
A ínclita geração.
A ínclita geração. Esta aliança tem duas coordenadas. A primeira coordenada é uma coordenada geográfica e econômica, que é a formação, a partir do século XIII, nos séculos XIII e XIV, de um espaço europeu, um espaço marítimo europeu no Atlântico, ligando a Flandres ao norte, portanto, à atual Bélgica, Holanda, mais ou menos, ao norte de Itália. Portanto, é uma ligação marítima que cria este espaço no Atlântico. Repare que o mundo até então, o mundo conhecido pelos europeus, tinha sido um mundo dentro do continente e centrado no Mediterrâneo. E aparece agora este espaço Atlântico, um espaço de circulação ligando o Mediterrâneo ao Atlântico, e Portugal está aí e começa a viver um bocadinho disso também, desse comércio, dessas relações comerciais, e a Inglaterra também. E, portanto, há uma aproximação entre estes dois protagonistas deste novo mar europeu, este mar Atlântico. Obviamente, este mar Atlântico já tinha sido circulado.
Inglaterra e Portugal, nesse caso, só têm Atlântico.
Sim, este Atlântico, obviamente, já tinha sido circulado ou tinha sido navegado desde a antiguidade, mas agora ganha uma consistência nova nestes séculos XIII e XIV. Para Portugal é importante, para a Inglaterra também. E depois há uma outra coordenada, esta coordenada política, que é a chamada Guerra dos 100 Anos. Guerra dos 100 Anos, que de fato até foi mais do que 100 anos e não foi só uma guerra, foram várias guerras, mas está centrada na disputa do trono de França entre duas dinastias, a dinastia dos Plantagenet em Inglaterra e a dinastia dos Valois em França, disputam o trono de França. Os reis da Inglaterra também acham que têm direito a ser reis de França, o Eduardo III achava que tem direito. E é no contexto, aliás, desta luta entre estas duas potências, que aparece também este tratado entre Portugal e Inglaterra. O rei da Inglaterra está à procura de aliados. Castela está próxima de França e, portanto, ele aproxima-se de Portugal, embora Portugal tenha aqui, nesta altura, uma atitude ambígua, porque, por outro lado, também não quer entrar imediatamente em guerra com Castela, portanto, o rei Dom Fernando faz aqui um jogo, mas cria-se um padrão, que é um padrão que vai ser recorrente nos séculos seguintes, que é um Portugal alinhado com a Inglaterra E sobretudo à medida que a Inglaterra for emergindo como uma grande potência marítima, isso obviamente já só a partir do século XVII, mas a aproximação entre Portugal e Inglaterra mais faz sentido para os governos portugueses. E esta relação entre Portugal e Inglaterra é, de facto, e quase desde o princípio, uma relação a quatro, porque há a relação entre Portugal e Inglaterra, mas depois há a relação entre Castela e França. Portanto, para Portugal, quase que é uma espécie de uma aliança marítima com a Inglaterra para contrabalançar esta aliança continental entre Castela, e mais tarde Espanha, e França. Olhando para isto retrospectivamente, parece que faz sentido desta maneira. Mas de facto, como eu já disse, é mais complicado no sentido em que as alianças são mais fluídas e mais incertas durante bastante tempo, isto é, não é claro de que lado é que está cada uma das potências. São quatro e toda a gente tenta jogar com todos os parceiros.
Estás a dizer que há 650 anos houve realmente o início de um casamento, mas que houve muitas facadas no matrimónio pelo meio?
Sim, era um casamento muito aberto, era uma relação muito aberta. Estas alianças medievais têm continuidade, mas têm interrupções, têm reviravoltas e Portugal e Inglaterra não foram sempre parceiros fiéis.
Não foram sempre felizes.
Não foram sempre fiéis. Nos séculos XIV e XV, de facto, Portugal e Inglaterra convergem contra Castela e atrás de Castela contra França. Aliás, o John of Gaunt, que vai ser o sogro do rei de Portugal, Dom João I, ele interminavelmente aspira também a ser rei de Castela porque tinha casado com a infanta Dona Constança, que era filha do rei Dom Pedro, o Cruel de Castela, e tornou-se um aliado natural do Dom João I naquela crise de 1383, 85. O Dom João I está a tentar se separar de Castela, cujo rei quer ser rei de Portugal e alia-se a alguém que quer ser rei de Castela. Portanto, leva a guerra para o lado daquele que lhe quer fazer guerra a ele. A situação muda muito rapidamente. Por exemplo, John of Gaunt está aliado ao rei de Portugal e de repente, em 1388, faz um acordo com o rei de Castela. As coisas mudam rapidamente, todos os parceiros traem ou abandonam o parceiro mal percebem que há a oportunidade de estabelecer uma outra relação. No século XVI, agora se saltarmos do século XV para o século XVI, o panorama é diferente. Portugal está muito na órbita castelhana, tenta não ser comprometido pelos conflitos em que o rei de Espanha, aqui já podemos falar de Espanha, está envolvido na Europa, isto é, tenta não fazer dessas guerras, guerras suas, mas está muito próximo da órbita castelhana. A família real de Portugal casa-se sistematicamente com a família real de Castela. Aliás, eles partilham o mundo fora da Europa. Aí está a base dessa aproximação. O Tratado de Tordesilhas e toda a relação que fora da Europa Portugal e Castela têm e que reflete-se na Europa numa aproximação de Portugal a Castela, mas sempre com o cuidado de não fazer suas as guerras de Espanha. Mas de qualquer maneira, estes casamentos sistemáticos levam em 1580, como sabemos, ao rei Filipe II de Espanha ter-se tornado rei de Portugal. E isso acontece no momento também em que a Inglaterra se separa da Europa do Sul, tornando-se protestante. Nós estamos a falar de Portugal e de Espanha como monarquias católicas, com Henrique VIII, o reino da Inglaterra torna-se um reino protestante. Depois com a filha do Henrique VIII volta a ser católico e depois volta a ser protestante, também há ali umas complicações.
E existe a participação de Portugal na Grande Armada, não é certo?
Exatamente. E em 1588, os navios portugueses participam, obviamente, atrás do seu rei, Filipe II, participam na Grande Armada. Aliás, salvo erro, as maiores embarcações de guerra que estão na Grande Armada são portuguesas. A Grande Armada com que Filipe II espera conquistar a Inglaterra não corre bem, mas também não corre bem depois a grande armada que Isabel I de Inglaterra envia contra Portugal e Castela em 1589, isto é, no ano seguinte à retaliação inglesa. O Francis Drake ataca Lisboa, o famoso pirata e marinheiro inglês ataca Lisboa, prepara também a conquista dos Açores Portanto, em guerra com Portugal. É verdade que aqui é uma coisa ambígua, porque Isabel I está aliada ao Dom António Prior do Crato, que reivindicava também o trono português. Aliás, a ideia do Francis Drake quando ataca Lisboa é provocar uma revolta dos portugueses contra Filipe II, que não acontece. Portugal mantém-se fiel a Filipe II. Aqui é ambíguo. Até se podia dizer que a Inglaterra estaria, neste caso, a ajudar a independência portuguesa em relação à Espanha. Até certo ponto. A verdade é que é uma situação de guerra que dura até 1604, quando há a paz entre Inglaterra e Espanha, isto é, o rei Filipe II. Acaba essa situação de conflito entre os mais velhos aliados do mundo. Digamos assim. Vou saltando de épocas em épocas. A aliança vai reviver depois da restauração da independência portuguesa com Dom João IV em 1640. O Portugal restaurado de 1640 confia inicialmente no apoio da França, porque neste momento a Espanha e a França estão em guerra. É uma situação peculiar nestes jogos europeus, e Portugal conta inicialmente com o apoio da França. Bem, a verdade é que a França acaba por abandonar Portugal, faz uma paz com Espanha ignorando Portugal, e Portugal volta-se outra vez para Inglaterra. Reparem, é um reino católico que se volta para uma potência protestante, Inglaterra. E é com a Inglaterra que Portugal faz uma aliança, primeiro através de um casamento, o casamento da infanta Dona Catarina, filha de Dom João IV, com o rei Carlos II de Inglaterra, 1662. Já falámos aqui disso a propósito de Dona Luísa de Gusmão, que é uma das organizadoras, é a mãe da Dona Catarina, mas é uma das madrinhas desta-
E uma católica casa com um protestante
...e uma católica casa com um protestante. Ela mantém-se católica, não só casa com um protestante, mas mantém-se católica, tem a possibilidade de levar padres com ela, de ter a sua capela. Aliás, o Carlos II também é suspeito de ser católico, portanto a situação também é extraordinariamente complicada em Inglaterra. A Inglaterra é dos poucos países na Europa que mantém quase sempre uma situação de mais ou menos pluralidade religiosa. Porque há várias seitas protestantes, há a igreja anglicana, mas que não é a única igreja existente e, portanto, é uma situação que permite este gênero. De qualquer maneira, a rainha Dona Catarina de Bragança é frequentemente suspeita de ser uma conspiradora católica em Inglaterra. O Parlamento volta-se várias vezes contra ela e exige a expulsão, mas o Carlos II, apesar de a trair imenso, protege-a sempre até ao fim, isto é, protege-a bastante. Ela não tem a vida fácil, mas o marido que não é a própria-
É acusada de conspirar contra a morte do rei
O rei nunca acredita nisso, obviamente, acha que sempre são acusações contra a Dona Catarina. Mas a Dona Catarina, rainha de Inglaterra, sendo mulher de Carlos II. E depois ainda fica em Inglaterra mesmo depois de Carlos II morrer e depois volta finalmente a Portugal, onde morre em Portugal. É a partir daí que Portugal e a Inglaterra aparecem mais sistematicamente ligados. Há depois o famoso tratado Methuen de 1703, no contexto da Guerra de Sucessão de Espanha, que também já aqui falámos há uns anos atrás. O tratado garante a entrada de vinhos do Douro, que nós chamamos vinho do Porto, no mercado inglês, em troca da entrada de têxteis britânicos em Portugal e forma-se uma das mais famosas parcerias econômicas da história, que depois até vai ser examinada em tratados de economia do David Ricardo, etc. Este gênero de especialização entre dois países que se ligam economicamente. Em Portugal, isso leva a imensas críticas. A Inglaterra também leva a imensas críticas, porque dá vantagens aos vinhos portugueses, por exemplo, contra os vinhos franceses. Por que havia de ser isso? No caso português, dá vantagens aos têxteis britânicos em relação a outras importações. Por que também haveria de haver isso? Mas a verdade é que isso vai se manter durante imenso tempo. A partir do século XVIII e princípio do século XIX, Portugal está na órbita inglesa. Isso deve-se cada vez mais ao poder naval britânico, cada vez maior, que torna a Inglaterra um aliado preferencial de Portugal. Para Portugal, esta monarquia intercontinental, que uma das dimensões mais importantes é o Brasil, é fundamental ter boas relações com a potência europeia que mais facilmente podia impedir Portugal de manter relações com o Brasil através do Atlântico. Este alinhamento com a maior potência marítima, confirmado depois nas guerras napoleônicas, quando os ingleses destroem a armada francesa em Trafalgar. É o aliado óbvio a Inglaterra, mas também tem desvantagens, obviamente. É uma aliança que também tem desvantagens. Por quê? Deixa Portugal ser constantemente apanhado nas rivalidades com a Inglaterra e com outras potências, sobretudo com a França. E o caso limite é 1807, as invasões francesas, que são em grande medida provocadas pela aliança de Portugal com a Inglaterra e pela grande relutância que Portugal tem em romper realmente com a Inglaterra. 1807 não era o único caso, já tinha acontecido antes, 1762, também já falamos aqui dessa guerra. E por causa disso, esse risco e pelas limitações que a Inglaterra tem em defender por terra Portugal, no mar sim, em terra até certo ponto, faz com que na corte portuguesa haja sempre um partido francês. Isto é, um partido que acha que valia a pena haver uma aproximação à França para diminuir esses riscos. Em 1807, a ida da família real para o Brasil é mesmo uma opção pela aliança inglesa, isto é, colocarem-se sob a proteção inglesa. A França de Napoleão tenta, até através de propaganda, virar a opinião portuguesa contra a Inglaterra, dizendo que a Inglaterra domina Portugal, etc. Enfim, não funciona muito. De facto, a Inglaterra depois envia o exército em 1808 para libertar Portugal e defende o país nos anos seguintes contra Napoleão. Portanto, o que temos aqui aos olhos da Europa a partir do princípio do século XIX, isso é muito claro, Portugal é uma espécie de protetorado britânico, um país protegido pela Inglaterra. Isso em Portugal cria, por vezes, um certo ressentimento contra essa relação com a Inglaterra. Portanto, sim, há uma aliança. Essa aliança nem sempre foi feliz. Também nem sempre teve os mesmos sentidos, por vezes teve alcances diferentes dentro do quadro das relações de força entre as potências europeias, mas foi ressentida nos dois países. Isto é, no lado de Portugal, sentiu que a Inglaterra tinha muita influência em Portugal, por outras vezes, sentiu que a Inglaterra não dava o suficiente apoio ou era muito desinteressada em relação a Portugal. E em Inglaterra também teve sempre essa sensação, isto é, por que havia de estar a proteger Portugal? Havia sempre lá também no Parlamento, um grupo que achava que se estava a prever demasiado tempo com Portugal, que Portugal esperava demasiado, que estava constantemente a confiar que a Inglaterra viria salvar se continha problemas. Portanto, enfim, um casamento normal.
Exato. No dia 8 de julho de 1832, há precisamente 190 anos, ocorreu numa simpática praia de Vila do Conde, aquilo que ficou conhecido na história de Portugal como o desembarque do Mindelo. Um momento absolutamente fundamental das guerras liberais, que permitiu às tropas de Dom Pedro IV tomarem a cidade do Porto logo no dia seguinte, para grande surpresa do exército miguelista. Esses cerca de 7500 liberais, mais tarde apelidados de os bravos do Mindelo, tinham a curiosidade de ser, na sua esmagadora maioria, estrangeiros. Nas fontes que eu consultei, chega-se a falar em mais de 80% de estrangeiros desse setor.
Espero que sejam menos.
É capaz de ser um pouco exagerado, logo tu dirás, Rui. Bom, mas entre esses cerca de mil portugueses, havia gente que se tornaria muito famosa, como Almeida Garrett ou Alexandre Herculano, que integrava o Batalhão dos Acadêmicos. Eram outros tempos, Rui, em que os intelectuais iam pra guerra.
Iam pra guerra e tinham batalhões.
E tinham batalhões. Tu pra guerra, que eu saiba, nunca foste.
Não.
Mas és muito bom a explicar.
Estas guerras, não. Guerras de tiros, não. Outras guerras, sim.
Outras guerras. Mas tens fama de ser ótimo a explicar essas guerras, por isso explica-nos lá que desembarque foi este, por que é que ocorreu naquela altura e como se justifica que as tropas miguelistas tivessem sido apanhadas de surpresa e qual foi, enfim, essa real importância do desembarque do Mindelo pra história de Portugal.
A importância é muito grande, é o começo de uma campanha militar que os liberais vão ganhar dois anos depois, em 1834, e que mudou Portugal para sempre. Já falámos aqui do que significou a revolução liberal para Portugal, na história portuguesa.
E que foi toda inventada no século XIX, como todos sabemos. É um dos mantras deste programa.
Aqui foi mesmo uma construção do século XIX. É o fim do Portugal velho, como dizia o Almeida Garrett, um dos desembarcados de 1832. Mas temos, isto também é típico da história, voltar atrás pra perceber o que aconteceu em 1832. Temos de voltar atrás uns 12 anos, princípio da década de 1820, a elite portuguesa, e estou a falar da elite portuguesa, porque não sabemos até como é que isto mobilizava o resto da população, mas a elite percebemos que estava dividida. Uns querem um regime que na altura se chamava um regime representativo, à imagem da Inglaterra ou da França, uma monarquia ainda com o rei, mas em que o governo do rei estivesse limitado por um parlamento eleito pelos cidadãos. E estes, basicamente, eram os chamados liberais.
Ninguém queria acabar com a monarquia, não é? É bom esclarecer isso, na altura, ainda não.
Na década de 20, 30, praticamente não.
Ainda não. Queriam era um tipo de monarquia diferente.
Era a monarquia representativa, a monarquia constitucional.
Exato.
Obviamente, isto também estava associado a uma nova Constituição, como aquela que Portugal tinha adquirido em 1822 e depois em 1826. Portanto, estes são os liberais. Outros querem manter o regime tradicional Em que o rei governa independentemente de outros órgãos do Estado, a chamada monarquia absoluta. Chamamos de os absolutistas, mas absoluto aqui não quer dizer que o rei pudesse fazer o que queria, mas apenas que era independente. Podiam existir assembleias representativas neste regime absoluto, só que essas assembleias representativas eram, sobretudo, consultivas, tinham uma dimensão de aconselhar o rei mais do que limitar o governo do rei. Não eram assembleias soberanas, o soberano era só o rei.
E nas contas da Europa, como é que estavam absolutistas versus liberais nas monarquias mais próximas de nós?
Por volta de 1830, nós podemos dizer que a Europa era essencialmente absolutista, era tradicionalista. As monarquias representativas mais conhecidas eram as de França e a de Inglaterra, neste caso, já o Reino Unido. Depois também havia uma recente na Bélgica. Enfim, havia mais uns pequenos estados alemães que também tinham constituições, mas, por exemplo, a Espanha ainda estava no regime de absolutismo. A Prússia, a Rússia, a Áustria, eram potências basicamente absolutistas, isto é, em que o soberano governava sem dar contas a nenhuma assembleia representativa. Reparem, isto não era despotismo nem era tirania. Os monarcas não faziam o que queriam, mas não tinham um outro órgão do Estado a limitá-los. Mas depois tinham de respeitar leis, tinham de respeitar tribunais, estavam limitados dessa maneira, mas não por um outro órgão do Estado que partilhasse com eles a soberania, como acontecia, por exemplo, em Portugal em 1822, em que há uma soberania das cortes, as cortes são soberanas, o Parlamento é soberano também. Essa situação era uma situação rara na Europa.
Estávamos a ser modernachos. Ok.
Estes dois tipos de monarquia não correspondiam apenas a duas soluções para relações entre órgãos do Estado, mas correspondiam também a duas ideias diferentes da sociedade e do Estado, porque, por exemplo, os liberais também queriam fazer muitas reformas. Desde 1820 que havia essa ideia das grandes reformas liberais, abolir os morgadios, isto é, a possibilidade de, sobretudo, as famílias nobres reservarem as heranças para um dos filhos, extinguir as ordens religiosas, separar a justiça e a administração no Estado. Isto era tudo coisas que os liberais queriam fazer e obviamente iam criar um tipo de Estado diferente. Não estava só em causa a relação entre o rei e outros órgãos de soberania. Havia aqui mais em causa. Havia uma coisa que até 1826, apesar de tudo, era importante. Os liberais e os absolutistas queriam tipos diferentes de monarquia, tipos diferentes de sociedade, mas ainda sob o mesmo rei. Esse rei era Dom João VI. Tanto absolutistas como liberais aceitavam que o rei de Portugal era Dom João VI, não era outro. Em 1826, Dom João VI morre. E quando ele morre, os liberais e os absolutistas passam a dividir-se de uma outra maneira, já não apenas por causa do tipo de monarquia, mas por causa de quem devia ser o rei. Os liberais preferem o filho mais velho de Dom João VI, o príncipe real, Dom Pedro. Em princípio, isto não devia ser um problema, obviamente, o príncipe real era o legítimo sucessor de Dom João VI. Acontece que este príncipe real era também o imperador do Brasil desde 1822, tinha se revoltado contra o pai, era imperador do Brasil e havia quem achasse que ele tinha renunciado aos direitos ao trono de Portugal quando se tinha tornado imperador do Brasil, aliás, tendo se tornado até estrangeiro, tendo se tornado brasileiro, não deveria poder herdar o trono português.
E ele era liberal no Brasil?
Ele no Brasil era visto como absolutista, curiosamente, em Portugal como liberal. As coisas são sempre complicadas na história. Nunca peçam a um historiador para simplificar as coisas. Sim, ele no Brasil também tinha as mesmas ideias liberais, só que para a grande opinião liberal brasileira, o imperador era um absolutista. Aliás, até um tirano, tinha dissolvido as cortes constituintes no Brasil, tinha feito uma série de tropelias que levam à abdicação dele em 1831, precisamente porque os liberais brasileiros não têm uma boa opinião dele.
Falaremos disso em setembro, fica prometido.
Mas em 1826, ele é aclamado rei de Portugal como Dom Pedro IV. Depois vai abdicar na filha, Dona Maria, que fica a ser Dona Maria II, e dá ao país uma constituição, a Carta Constitucional, isto é, faz da monarquia portuguesa uma monarquia representativa. E também por isso, mas não só por isso, há quem, por uma questão também de legitimidade, ache que Dom Miguel é que devia ser o rei de Portugal. Estes absolutistas, a partir de 1826, tornam-se miguelistas, isto é, acham que Dom Miguel deve ser o rei de Portugal. Estávamos a falar de 1826, saltamos para 1828, e em 1828 Dom Miguel regressa, não vou agora estar a falar exatamente das condições em que ele regressa para não demorar muito tempo. Ele é aclamado rei de Portugal como Dom Miguel I. Os oficiais do exército, que são liberais, revoltam-se em 1828, aliás, revoltam-se até na cidade do Porto contra Dom Miguel, mas são derrotados Parte para o exílio, cerca de 3 mil a 5 mil exilados vão pra Inglaterra, pra França. O único ponto do território português em que os liberais se conseguem segurar contra Dom Miguel como rei é a Ilha Terceira nos Açores. Portanto, a partir de 1828, Dom Miguel é rei de Portugal e os liberais ou estão em França, em Inglaterra, ou na Ilha Terceira, que conseguem defender contra uma esquadra enviada de Lisboa por Dom Miguel. Nem os liberais, nem os miguelistas estão muito à vontade. Os liberais, claro, estão reduzidos em Portugal à Ilha dos Açores, Ilha Terceira, têm o apoio do governo brasileiro, isto é, Dom Pedro no Brasil, mas até certo ponto, porque Dom Pedro não quer ficar conotado com os assuntos portugueses, porque precisamente ele é acusado no Brasil de ser um imperador português e de só estar a pensar em Portugal, e portanto ele tem que ter ali cuidado no apoio que dá aos liberais portugueses. Os absolutistas dominam Portugal continental, dominam a Madeira, as restantes ilhas dos Açores, exceto a Terceira, mas a resistência liberal na Terceira e as dúvidas acerca da legitimidade de Dom Miguel, isto é, porque os absolutistas da Europa têm uma simpatia por Dom Miguel por ele ser absolutista, mas, por outro lado, têm dúvidas se ele é ou não o legítimo rei de Portugal e faz com que as potências europeias não reconheçam Dom Miguel, exceto a Espanha, em 1829, não vão reconhecer Dom Miguel. Nem a Rússia, nem a Áustria, nem a Prússia, mesmo as potências mais reacionárias não reconhecem Dom Miguel, porque têm dúvidas sobre a legitimidade dele no trono. Porque acham que, apesar de tudo, Dom Pedro é que era o legítimo sucessor de Dom João VI e, portanto, entre os dois irmãos, há uma simpatia ideológica para com Dom Miguel por parte destas potências, mas uma dúvida acerca da sua legitimidade. Portanto, os liberais estão no exílio, estão na Ilha Terceira também, e a convicção que eles têm é que Portugal está cheio de liberais. Eles acham que Dom Miguel tomou o poder e está a reprimir os portugueses, mas os portugueses são todos liberais e que, portanto, bastaria aos liberais desembarcarem em Portugal para imediatamente o país se revoltar e juntar-se todos aos liberais. Entre 1830 e 1831, nas vésperas da ida liberal ao Porto, as coisas parecem que coordenasse para facilitar a vida aos liberais. Em primeiro lugar, caem em Inglaterra e em França governos conservadores que simpatizavam de alguma maneira com Dom Miguel. França e Inglaterra passam a ter governos liberais, isto é, com simpatias pelo partido liberal. E em segundo lugar, como já aqui referimos, o Dom Pedro abdica em 1831 da coroa do Brasil, regressa à Europa, França, Inglaterra, onde se dispõe a chefiar o movimento para repor a filha Dona Maria II no trono de Portugal. E obviamente, isto é um grande trunfo para os liberais, que de repente têm uma figura real como Dom Pedro a dirigi-los. E têm também a simpatia dos governos liberais de Inglaterra e de França e portanto podem fazer empréstimos, por exemplo, contraem empréstimos na praça de Londres para comprar navios, armas, recrutar mercenários. A Europa nesta época está cheia de soldados em disponibilidade. Acabaram as guerras napoleônicas em 1815. Portanto, a Europa está cheia de ex-soldados, ex-marinheiros desempregados e estão disponíveis para se alistar numa causa militar qualquer. E é assim que os liberais conseguem recrutar imensa gente em Inglaterra, por exemplo, a esquadra liberal é toda inglesa, é praticamente uma esquadra inglesa, os marinheiros são quase todos ingleses. Muito provavelmente, o número de mercenários no exército, na infantaria, não é tão grande como isso, mas entre um quarto a metade eram estrangeiros, franceses, britânicos, polacos, os mais variados.
E já são com eles que conquistam as ilhas dos Açores?
As ilhas dos Açores ainda é um projeto lá nos Açores da guarnição da Ilha Terceira, mas é com eles que vêm para Portugal, pro Porto. Portanto, em 1831, 1832, planeja-se esta aventura, esta expedição a Portugal, que parte em junho dos Açores. São talvez cerca de 8 mil, falava-se dos 7500, mas são mais 8 mil e qualquer coisa, cerca de 30 e tal embarcações, 8 mil, além das equipagens dos navios. Os miguelistas estão à espera deles. Estas coisas são todas conhecidas em toda a Europa. Os jornais noticiam isto, os barcos estão prontos, os barcos vão sair, toda mundo sabe o que é que se está a passar.
Então como se justifica a surpresa? Porque até já tudo foi uma surpresa, até o local do desembarque.
Eles não são surpreendidos pela expedição, estão à espera da expedição. Agora, é preciso é perceber o que os liberais e os miguelistas estão à espera que acontecesse pra perceber então a dimensão de surpresa. Os liberais, como disse, estão à espera que o país se revolte todo contra Dom Miguel logo que eles desembarcassem. Até porque são chefiados pelo antigo rei de Portugal, Dom Pedro, e, portanto, eles imaginam que-- aliás, o próprio Dom Pedro, na sua proclamação, dá a entender isso: "Aqui estou eu, o vosso antigo rei." Portanto, à espera que a população manifeste imediatamente a sua estima e fidelidade pelo antigo rei de Portugal. Essa é a expectativa dos liberais. Os miguelistas estão à espera de duas coisas. Estão à espera, primeiro, que os liberais tentem desembarcar em Lisboa Ou perto de Lisboa. Isto é, atacar imediatamente a capital, onde de fato os liberais parecem ter mais apoiantes em Lisboa, onde havia a possibilidade de uma revolta. Aliás, tinha havido várias revoltas em 1829, 1831, em Lisboa, e portanto julgava-se que eles iam desembarcar perto de Lisboa e avançar imediatamente para a capital, esperando que haja uma revolta na capital a favor deles. E portanto, por isso eles concentram a maior parte do exército de operações, que é diferente do exército de guarnição, em Lisboa, e depois dispersam o resto ao longo da costa. Para quê? Eles têm ao longo da costa para prevenir desembarques, mas também para acorrer a quaisquer revoltas a favor dos liberais que possam ocorrer no resto do território. Portanto, um exército concentrado em defesa de Lisboa e depois o resto disperso ao longo da costa, isto é, em pequenas brigadas e unidades, todas muito dispersas. Além disso, eles estão todos à espera, liberais e absolutistas, que as coisas sejam rápidas, isto é, os liberais desembarcam, o país revolta-se e os liberais ganham.
E está feito.
E está feito. E os miguelistas estão à espera, os liberais desembarcam, o país não se revolta ou eles conseguem esmagar as revoltas e conseguem expulsar os liberais do território, mas também tudo uma coisa rápida e que decida de uma vez por todas a questão. Ora, nada se passa como liberais ou miguelistas estavam à espera. Os liberais não tentam desembarcar em Lisboa. Diz-se que há dúvidas na frota, até quase ao último minuto, sobre onde desembarcar. Portanto, teria havido umas grandes hesitações. Talvez não, talvez eles tivessem sempre a ideia que fosse mais seguro, até porque deviam saber também como é que estava disposto o exército miguelista e, portanto, evitaram imediatamente um confronto com a maior parte das forças. Portanto, vão para o norte, preferem o Porto a Lisboa. No Porto, os liberais apanham as forças miguelistas muito dispersas e portanto incapazes de impedir o desembarque. É um desembarque feito sob a proteção da artilharia dos navios. Isto é uma das características da época, não há equivalente em terra da artilharia dos navios. Qualquer navio tem uma quantidade enorme de artilharia em relação a forças terrestres, por causa de questões de transporte. Num navio é possível ter 50, 60, 70 canhões. Em terra é mais difícil transportar forças. Uma força de infantaria terá uma, duas peças de artilharia, mas é difícil transportá-las e transportar as munições. Os navios permitem isso e, portanto, a frota liberal próximo da costa protege o desembarque contra qualquer iniciativa que pudessem ter os miguelistas. Mas repito, as forças miguelistas no norte estão demasiado dispersas para se concentrarem para impedir o desembarque. Portanto, os liberais conseguem ocupar o Porto, porque os miguelistas também retiram do Porto. Não são recebidos com entusiasmo no Porto. Ao contrário do que os liberais esperam, não há revoltas, ninguém se mexe. Portanto, os liberais ficam no Porto um pouquinho sozinhos. Quando tentam sair do Porto para norte, encontram forças miguelistas e também, ao contrário do que estavam à espera, os soldados miguelistas não desertam, combatem e o mesmo acontece quando os liberais tentam avançar para sul, o que quer dizer que os liberais, em agosto de 1832, estão encerrados na cidade do Porto. Os miguelistas então julgam que vai ser fácil, com os liberais confinados ao Porto, atacá-los e expulsá-los. Julgaram que iam poder resolver toda a campanha num golpe sobre o Porto. Juntam tropas, deslocam tropas para a volta do Porto e em setembro de 1832 atacam o Porto em força e os liberais resistem ao ataque. Os miguelistas têm de recuar e portanto a situação torna-se mesmo uma situação de cerco do Porto. A partir de setembro de 1832, a guerra que existe em Portugal é uma guerra de cerco com os liberais dentro do Porto e os miguelistas lá fora. Às vezes isto parece impossível, porque estamos a falar de números como 8 mil liberais contra 80 mil miguelistas, que é o número que se diz de homens no exército de Dom Miguel. Mas atenção, em primeiro lugar, os 8 mil liberais já não eram 8 mil em setembro, porque eles entretanto vão fazendo recrutamentos na cidade do Porto, uma cidade de 60 mil habitantes, uma cidade relativamente grande, e portanto já são mais de 15 mil no outono de 1832. Já tinham quase duplicado o exército. Por outro lado, os miguelistas não são 80 mil, como é óbvio. Eles são talvez para aí 30 mil no exército de operações, porque o resto está nas guarnições do país e, além disso, nem todos são soldados de primeira linha, muitos deles são voluntários ou milícias, já falamos aqui também da diferença.
Então havia um equilíbrio de forças.
Portanto, as forças estão relativamente equilibradas e os liberais, claro, têm a vantagem de estar à defesa, de estarem entrincheirados. Sempre que os miguelistas se concentram para atacar um ponto, os liberais concentram-se para o defender e na frente de combate, que é onde interessa a relação de forças, o desequilíbrio nunca foi muito grande e, portanto, o que temos a partir daí são mais dois anos de guerra civil e vamos provavelmente voltar ao tema nos próximos tempos.
Oportunidade para voltar a falar nisso. Para já, acabou este nosso "E o Resto é História", mas nós cá estaremos de novo para a semana. Até lá.