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E o resto é história.

É a terra a fumar.

Incêndio em Poiava, ainda na zona dos Chiados. Quer transformar este país numa ditadura.

Atento.

Com João Miguel Tavares e Rui Ramos.

Olá, seja bem-vindo ao episódio 320 de "E o Resto é História", com os dois que já conhece, Rui Ramos e João Miguel Tavares. Há umas semanas caiu na nossa caixa de correio um e-mail de um amigo comum, meu e do Rui, o senhor jurista e professor, doutor Pedro Lomba, com o seguinte conteúdo: "Há uns tempos o Rui", e este Rui és tu, Rui.

É verdade, sou eu.

"Deu uma aula num curso meu que me pareceu excelente e faço o desafio de ele agravá-la no 'E o Resto é História'. O mote foi este: historicamente, a maioria das pessoas nunca saía do mesmo sítio." Aqui o que ele está a dizer é que a esmagadora maioria das pessoas nascia, crescia e morria no mesmo lugar. E por isso, pergunta o Pedro Lomba, a partir de quando é que os portugueses se começaram efetivamente a movimentar em Portugal, para dentro e para fora? Como é que se deslocavam? Por que se deslocavam? Iam em busca do quê? No fundo, conclui ele, qual é a história da mobilidade das pessoas e dos bens em Portugal? Rui, é assim que a gente descobre.

Noto aí um tom de queixa, de ressentimento.

Portanto, tu andas a dar aulas clandestinas de "E o Resto é História", privando o público português desta toda a tua sapiência.

Não, foi apenas uma preparação.

Foi um aquecimento. Parece uma vergonha, mas tudo bem. Se foste falar de uma coisa tão interessante a uma aula do Pedro Lomba, não nos querias contar, mas agora justificaste, disseste que foi apenas o aquecimento para a exposição perfeita que vai acontecer ao longo não só deste programa, mas também provavelmente do próximo, porque a história é longa. E de facto, isto é um tema muito giro. Portanto, em boa hora foste denunciado. Obrigado, Pedro Lomba. Quando é que nós começámos, de facto, a sair em massa do local onde nascemos? Para muita gente, isto pode parecer uma pergunta parva, no sentido de: as pessoas não podiam sair à vontade do local onde nasciam?

É um grande tema e agradeço ao Pedro Lomba não apenas me ter levado a refletir sobre este tema para o curso dele sobre a mobilidade.

Tu nem sequer tinhas refletido antes disso. Fizeste de propósito. Foi mesmo um tratamento VIP.

Há aqui uma cena de ciúmes, mas espero que os ouvintes compreendam. E agradeço uma segunda vez ao Pedro Lomba por ter sugerido que podia servir para o resto da história. Mas pegando na tua pergunta...

Que é que as pessoas não podiam sair do mesmo local? Uma coisa que parece que é óbvia.

É interessante começar por essa questão de direito, do direito à mobilidade geográfica. Tiveram os portugueses ao longo da história sempre o direito de se deslocar, de viajar, de mudar de residência. E a pergunta faz sentido, por quê? Faz sentido porque em muitas sociedades europeias, até ao século XIX, grandes massas da população estavam privadas do direito à mobilidade geográfica. Era o caso, por exemplo, dos chamados servos na Rússia. Já falámos aqui deles. Os servos não eram escravos, os senhores das terras não podiam dispor dos servos como propriedade pessoal, mas os servos estavam vinculados ao local onde viviam e trabalhavam, não podiam sair dos locais onde viviam e trabalhavam. Não tinham direito à mobilidade geográfica, não se podiam deslocar daquela aldeia para outra aldeia, daquela região para outra região. Estavam presos ali.

Eles e a sua descendência.

Todos eles, toda a família eram servos, não era só um servo, eram todos servos. Ora, em Portugal, este tipo de servidão já desaparecera no fim da Idade Média. Esta servidão, que ainda existia em meados do século XIX na Rússia, já não existia em Portugal desde os séculos XIV ou XV.

Mas isso quer dizer que existia nos séculos XII e XIII.

Existia não muito generalizada já nessa altura. Havia alguns adscritos. Já tinha desaparecido uns séculos antes. A partir do século XIV e XV desaparece completamente. No século XII, XIII, aparecem documentos, um adscrito à terra, aquilo que nós chamamos um servo. A expressão não era usada essa, porque a expressão servo era usada para designar escravos, não era essa a expressão usada. Nós é que usamos essa expressão para designar aqueles que não eram escravos, mas estavam vinculados à terra. Havia nalguns mosteiros, percebemos que as pessoas tinham uma quantidade enorme de estatutos muito variados. Uns eram pessoas livres, outros eram escravos, outros eram pessoas que não eram escravos, mas estavam vinculados à terra. Enfim, a variedade era muito grande. E aquilo que se nota é que aquilo que nós hoje chamaríamos servos estavam a desaparecer completamente e no século XIV e XV deixa de haver. Na documentação já não tem essa gente.

Mas então como é que há programa, não um, mas dois? Porque a resposta podia ser: eles mexiam-se para onde queriam.

Aquilo que nós podemos concluir é que a população é livre E não está sujeita a restrições à sua mobilidade desde muito cedo. Aliás, eu estive a ver as ordenações do reino em vigor até ao século XIX e a restrição mais antiga que encontrei é uma restrição para viagens para as terras de mouros. Essas viagens estão proibidas. É preciso especial licença para um português que queira ir para terra de mouros, no século XV isso queria significar o sul da Espanha, o reino de Granada no sul de Espanha ou o norte de África. Quem queria ir para aí é que precisava ter uma licença do rei de Portugal. Mas aparentemente para ir para Castela, para França ou para Inglaterra, não seria necessária essa licença, não está lá que seja necessária essa licença. E para se deslocar dentro do reino também não parece, até porque as ordenações têm vários artigos, várias leis, vários estatutos sobre a possibilidade de alguém, não sendo natural, tornar-se vizinho de um conselho. Isto é, alguém que não é do conselho tornar-se vizinho desse conselho. É sinal que as pessoas se deslocavam entre conselhos e como é que eles se tornavam vizinhos nesse conselho, e vizinhos quer dizer alguém com direitos, por exemplo, a eleger vereações, como é que isso acontecia. Isso era sinal que as pessoas se moviam. E as pessoas também eram livres de circular entre os territórios submetidos ao rei de Portugal. Ir para a Índia, ir para o Brasil, ir para os Açores, ir para a Madeira.

Aliás, há muita emigração para o Brasil.

Aliás, é assim que no princípio do século XVIII, quando se descobrem as minas de ouro do Brasil, há milhares de portugueses que vão para o Brasil. A liberdade de circulação existe, nunca foi perdida, embora por vezes tivesse sido limitada através de um regime de licenças e de passaportes. Isso começa em 1645, durante a Guerra da Restauração, no caso de deslocações para o estrangeiro. De repente, a partir de 1645, há estatutos a dizer que portugueses que querem sair do reino precisam de licença para o fazer. Pedir uma licença para o poderem fazer, sob uma série de penalidades, se no caso o fizerem sem licença. Em 1709, durante a febre de ouro para o Brasil, a ida de tanta gente para o Brasil assustou as autoridades em Lisboa e em 1709 aplicou-se uma restrição à ida dos portugueses para o Brasil dizendo: "Se quer ir para o Brasil também precisa de um passaporte, de uma licença."

Ok.

Isto é porque era tanta gente a ir que houve medo de despovoamento do reino, de toda a gente ir de repente para o Brasil. E a partir de 1760, no tempo do Marquês de Pombal, que é um dos grandes tiranos da história de Portugal, mas incrivelmente celebrado em Lisboa. Eu imagino sempre alguém de meados do século XVIII chegar hoje a Lisboa e ver uma estátua ao Marquês de Pombal, as pessoas viam cair imediatamente. Como é que é possível? Mas é possível. Isto quer dizer que passados dois ou três séculos, os tiranos já se esqueceram. Aqueles que tiranizavam há muito tempo e tornam-se heróis da história. Mas o Marquês de Pombal, a partir de 1760, introduz também um sistema de restrição às deslocações internas, entre comarcas. É preciso um passaporte para as pessoas passarem entre comarcas. Isso também é em um contexto muito especial, que é um contexto de conflitos militares na Europa, também de grandes conflitos e tensões políticas dentro de Portugal e uma tentativa do governo pombalino de controlar as populações, de saber quem é que passou, quem é que saiu para ali, quem é que veio e introduz esse sistema de passaportes internos, que é um sistema de passaportes que depois fica, como acontece com as piores coisas da legislação portuguesa, tem uma tendência para ficar e vai ficar durante quase um século, até 1863, quando é finalmente abolido. E é mantido por quê? Porque se nós pensarmos, depois temos as invasões francesas, temos as guerras liberais e este controle da população interessava aos vários governos durante estes períodos de divisão e de conflito militar. Manteve-se este gênero. Não é proibição, é um sistema de licenças, até 1863, e em 1863 acabou definitivamente os passaportes internos.

Mas o que tu estás a dizer é que a mobilidade no século XVI era maior do que no final do século XVIII.

É, exatamente. A mobilidade em termos legais.

Legais, claro.

Legais, obviamente. Se as pessoas se mexiam mais ou menos é outra coisa, mas a facilidade de se deslocar, a necessidade.

Precisava de mais papéis.

Exatamente, ir buscar o seu papel selado, que aliás também já é desta época, pôr lá o selo e pagar e pedir uma licença. Aliás, as dificuldades são muitas. Por exemplo, quem é que quer ir para o Brasil, como é que era? A quem é que pedia? Em princípio devia ser só em Lisboa e depois toda a gente diz: "Bem, mas a maior parte das pessoas que vão para o Brasil é do norte de Portugal, não querem ir a Lisboa." Então admitiu-se que no norte de Portugal também houvesse autoridades habilitadas para dar essas licenças.

Lá vem a burocracia. Está uma burocratização do país.

A partir de 1863, os passaportes mantêm-se apenas para o estrangeiro e para o ultramar até 1907. Em 1907, há uma liberalização, até mesmo deixa de ser necessário passaporte para ir para o estrangeiro.

As pessoas podiam livremente ir para Moçambique e para Angola.

A partir de 1907. Há esse sistema de restrições que depois vêm outra vez os passaportes. Reparem que nós estamos a falar, é muito importante, nós estamos a falar de uma população Que não têm elementos de identificação, não têm bilhetes de identidade, nem cartões de cidadão.

Ainda não havia?

Não há, até o princípio do século XX. Esta população pode se deslocar e o passaporte, por vezes, é o único elemento de identificação que eles têm. Como em Inglaterra hoje em dia também, o passaporte ou a carta de condução são os elementos de identificação que as pessoas têm, e não são obrigados a ter passaporte nem cartão de cidadão, não têm nenhum. Agora reparem, mesmo assim, com estas restrições, temos de admitir que nós estamos num país onde o direito à mobilidade geográfica é bastante grande. Nós temos que pensar que no século XX, na Rússia comunista, desde 1917, as deslocações dentro do país eram restringidas por um sistema de passaportes internos até 1989, 1990. Não era só para ir pro estrangeiro, era para sair de um distrito para o outro ou de uma cidade para outra, era preciso um passaporte interno. Em Portugal, apesar das preocupações e das restrições, aqui no caso português, eram sempre preocupações com o excesso de imigração, etc. A verdade é que os portugueses puderam sempre sair do país legalmente e dentro do país, as restrições à circulação a partir de 1863, as restrições legais, aparentemente, deixam de existir. Aliás, a Carta Constitucional de 1826, no artigo 145, registra o direito à mobilidade geográfica dos cidadãos portugueses. E cito: "Qualquer cidadão pode conservar-se ou sair do reino como lhe convenha, levando consigo os seus bens." Isso era um direito que os cidadãos portugueses tinham de sair do reino. O passaporte não tirava esse direito, era apenas uma licença, mas a pessoa tinha o direito de sair, isto é, o governo não tinha o direito de recusar o passaporte a quem o pedia. Isso é muito importante. Era um documento que tornava a saída legal, mas as autoridades não tinham a possibilidade de negar a quem o pedisse. Isso ao contrário da Rússia comunista, em que eles negavam.

Que eu estava a dizer até o século XIX, depois há limitações no tempo do Estado Novo.

Não, não há.

Não há como. As pessoas eram obrigadas a sair a salto?

Não, porque não queriam ter ou não podiam ter as despesas de obter documentos legais. Mas os governos não tinham o direito de negar. Dificultou, mas não tinha o direito legal de negar. Ninguém podia dizer assim: "Eu quero sair do país", "Não pode." Na Rússia, uma pessoa em 1980 dizia: "Eu quero visitar a Alemanha." "Não pode visitar." Em Portugal, sempre a pessoa pode dizer: "Eu quero ir à Espanha." Precisa de um documento, o passaporte, mas o Estado não tem o direito.

A situação militar regularizada.

Sim, essas coisas. Era o mesmo que acontecia no século XIX, o sistema é o mesmo. Portanto, há o direito à mobilidade. É um direito dos cidadãos que se mantém através de todos os regimes políticos, limitado mais ou menos pela burocracia, mas não pode haver esta negação. Isso é um elemento importante para percebermos a possibilidade, que a mobilidade geográfica foi sempre algo que esteve aberto aos portugueses. Eles se não se deslocavam, não era por estarem proibidos de o fazer. Esse é que é o ponto. Podiam ter dificuldades. Por exemplo, uma das coisas que acontece no século XIX, em 1907, diz que as pessoas não precisam de passaporte para sair do reino, mas se forem imigrantes, precisam. A pessoa dizia: "Não, eu não vou imigrar." Havia depois uma lei que dizia: "Se for um indivíduo do sexo masculino, solteiro, etc, deve ser um imigrante. Atenção, cobrem-lhe a taxa para imigrar." Havia essa dificultação, mas não se negava o direito.

Percebo. Essas são as razões jurídicas, agora existem as razões que são sociológicas, por que as pessoas se deslocam.

Quais as razões que tinham os portugueses para se deslocar? E uma grande parte deles, obviamente, não tinha razões para se deslocar, estava lá no local, mas havia razões para se deslocar. Havia razões, primeiro, para deslocações de um alcance curto e médio.

Encontrar namorada, casar, ir aos bailes da aldeia do lado.

A maior parte da população vive nos campos até meados do século XX. E nos campos, ao contrário do que se pensa, a população deslocava-se muito, gerando uma espécie de trânsito regular, logo por uma razão: é que a maior parte dos casos a população vive em aglomerados de habitações longe dos campos de cultivo ou de pastoreio, têm que se deslocar para os seus Trabalhos. Quer no Alentejo, quer em Trás-os-Montes, no Minho, o povoamento é disperso, mas as propriedades, as unidades de produção também estão dispersas, também tem muitas pequenas unidades e, portanto, as pessoas são obrigadas a deslocarem-se entre essas unidades de trabalho. Há muitos trabalhadores rurais que trabalham sazonalmente noutras zonas do país. Por exemplo, muitos trabalhadores das Beiras que vêm trabalhar para o Alentejo na época das ceifas e fazem deslocações grandes. Há também transumância, isto é, levar gados para as zonas altas no verão, trazê-los para as zonas baixas quando se aproxima o inverno e também implica deslocações do gado, milhares de cabeças de gado que nessas deslocações e que são pastoreados, que têm de ser levados. E depois há outras razões, como aquelas que deste para a deslocação. Há prática religiosa, por vezes, a igreja fica afastada do sítio de residência, portanto, vai-se à igreja. Pode-se ir também a santuários, a festas religiosas, romarias, por exemplo, o Bom Jesus do Monte em Braga, no Minho, atrai peregrinos de todo o norte do país. Há feiras e há mercados, onde as pessoas vão também, há mercados semanais, há grandes feiras anuais, geralmente nos grandes centros de comércio e as pessoas tinham de lá ir. E há também quem tem como profissão, como modo de vida, a deslocação, o trânsito, mas já vamos falar disso.

Sim, nós chegamos ao final do tempo aqui na primeira parte e voltaremos já de seguida. Até já. Olá, seja bem-vindo a esta segunda parte e o resto da história em que nós estamos a falar da mobilidade dos portugueses ao longo da história, por que eles saíam do sítio onde viviam, se podiam sair, se não podiam. Já descobrimos que sim. Parece que nós, portugueses, podemos andar sempre mais ou menos livremente por aí. E agora tu, Rui, estavas a explicar as razões por que nós nos mexíamos por aí.

Nós mexíamos para aí até meados do século XX. Além desses bailes, desse lazer, há também essas razões de atividade. E havia quem se deslocasse por profissão. Por exemplo, os vendedores ambulantes, aqueles que se dedicavam a transportes, como os chamados almocrevos ou os carreteiros. Os carreteiros eram aqueles que se dedicavam a transporte em carros, obviamente, de tração animal. E em 1867, nós sabemos que na contribuição industrial há 5438 almocrevos registados no país. Então é bastante gente que se dedica a transportes de mercadorias entre várias localidades e regiões.

Os caminhões da altura, não é?

Sim, as mulas e outros. O Aquilino Ribeiro fez de um desses almocrevos o herói da novela O Malhadinhas, publicada em 1922. Mas nós percebemos, por exemplo, quando nós pensamos na suspeita que havia em relação aos nómadas, no caso, em Portugal, a população cigana, nós percebemos que estamos perante uma população fundamentalmente sedentária. E, portanto, o nomadismo é visto como algo suspeito ou como algo estranho. A situação normal de uma família ou do indivíduo é ter uma morada fixa. E de fato, a maior parte dos portugueses, até ao século XIX, passa a vida na localidade onde nasceu e onde os seus pais já nasceram. Isto eram, segundo os recenseamentos da população, por volta de 1890, quase 90% das pessoas viviam no sítio onde tinham nascido e onde provavelmente já tinham nascido os seus pais e os seus avós, e onde eles iam morrer. Quer dizer, era isso.

90%? Isso é muito pouca mobilidade.

É, portanto, uma população fundamentalmente sedentária. Isto é, nós estamos perante uma população fundamentalmente sedentária, onde a mobilidade geográfica, na maior parte dos casos, se limita a esta mobilidade de curto alcance que aqui descrevi. Isto é, ir para os campos, vir dos campos, ir para outras regiões próximas onde há atividades agrícolas, ir a feiras, ir mercados, ir a peregrinações. É isso o universo de deslocações que tem a maior parte das famílias e dos portugueses.

A não ser que houvesse uma guerra.

A não ser que houvesse uma guerra, e as guerras são coisas interessantes. A guerra envolve serviço militar, envolve mobilização, quer no exército de primeira linha, mas sobretudo no exército de segunda linha e nas milícias. E aquilo que sabemos das guerras, por exemplo, no século XIX, as guerras das invasões francesas de 1807 a 1814, ou as guerras civis dos anos de 1820, 1830, 1840, é que a parte dos corpos militares, que era composta de milícias, portanto, de soldados não profissionais Digamos que eram mobilizados para aquelas guerras, há uma enorme relutância nesses indivíduos para irem fazer serviço militar fora das regiões de onde eles eram originários. E isso traduz-se por níveis de deserção enormes. E os próprios chefes militares têm noção disso. Eles sabem: "Não, a maior parte das tropas que eu tenho são milícias desta zona, eu não vou levá-los para aí porque eles desertam todos se eu os levo para aí." Portanto, as pessoas não gostavam de sair da região onde estavam mesmo para cumprir.

Estão muito caseirinhos.

Portanto, gostavam de estar ali, a maior parte deles tinham as suas propriedades, tinham as suas famílias e não gostavam de as abandonar. Estavam disponíveis para fazer serviço militar ali naquela zona.

Mas não iam para longe.

Mas depois se os quisessem levar para baixo, claro, os soldados profissionais, isto é, aqueles que estavam há muito tempo, iam, mas os outros, os soldados do exército de segunda linha e das milícias, esses tinham enorme relutância.

Portanto, nem no teu amado século XIX, em que tu dizes que todas as coisas mudaram em Portugal, esta não mudou particularmente.

Há uma grande dificuldade em pôr as pessoas a fazer serviço militar fora das regiões. As pessoas ressentem isso. Isto já é o estudo, isto é os rapazes em idade de serviço militar. Mesmo a classe média, eu estou a falar da população em geral, vamos falar da classe média, das pessoas que não trabalham com as mãos, das pessoas que têm instrução letrada. Mesmo essas pessoas, as deslocações não são muito grandes. Pode haver deslocações, por exemplo, de rapazes para ir estudar para a Universidade de Coimbra, por exemplo. Era a universidade que existia no país, quem queria estudar Direito tinha de ir para Coimbra, portanto vem gente de várias áreas do país. Pode haver deslocações, mas é pouca gente, é muito pouca gente, estamos a falar de centenas de pessoas por ano. Ou para ir beneficiar de serviços nas grandes cidades, por exemplo, ir em médicos, consultar médicos ou advogados, as pessoas podem se deslocar a Lisboa, ao Porto, para consultar um grande médico ou um grande advogado. Também começa a haver uma tradição de mudar de residência de acordo com a estação do ano. Isto é, por exemplo, sair das cidades no período do verão, sair de Lisboa nos meses de julho, agosto e de setembro, quando Lisboa se tornava irrespirável pelo calor, pelos cheiros terríveis, por causa do sistema de esgotos, etc. E portanto, as pessoas começaram, aquelas que podiam, obviamente, a tentar sair para veraneio, fazer veraneio para as praias ou para os campos, aqueles que tinham propriedades. Há um bocadinho disso. O modelo disso é a família real, que é o exemplo disso, aliás, desde muito cedo. A família real está em Lisboa no inverno e na primavera e depois no verão vai para Sintra e para Cascais e depois no outono vai para Vila Viçosa e de alguma maneira-

E é alguma tradição, não é?

...as pessoas que podem, isto é, aqueles que nas classes médias, entre os ricos, que podem, tendem a seguir a família real, isto é, os costumes da família real, para se darem também um certo estatuto. E portanto começam a ir também para Cascais, começam a ir para Sintra também, acompanhar. As deslocações do rei, aliás, eram tradicionais desde a Idade Média. Isto é, as deslocações do rei faziam parte de, inicialmente, na Idade Média e na Idade Moderna, uma maneira de o poder real estar presente em todo o território, era a presença do rei física que levava as pessoas a ter uma noção do Estado. O Estado era aquela pessoa e o Estado vinha ter com eles e estava ali. Há uma tradição de itinerários reais, de deslocação, de entrada do rei em cidades e em povoações, onde a população vem prestar-lhe homenagem, o rei recebe essa homenagem, ouve a população, as queixas que a população tem. Os reis têm uma tradição de mobilidade geográfica muito antiga, desde a Idade Média, faz parte da tradição do poder real deslocar-se no país, visitar o país e no século XIX os reis tendem a manter isso. E não o fazem mais, até no século XIX, por questões financeiras, porque não há muito dinheiro.

Era caro levar aquela gente toda.

Era caro levar aquela gente e era caro para as localidades receberem o rei. Coitados, de vez em quando não tinham lugar nenhum. No fim do século XIX, uma coisa terrível, até visitarem Coimbra, e eles coitados lá em Coimbra, a Câmara Municipal não tem um palácio em condições. Andavam a fazer lá umas obras, a forrar o palácio, mas coitados, eles escrevem ao rei: "vossa majestade, aqui..."

Gostávamos muito de receber, mas por favor, não venham.

Ou então já sabe, coitadinho. Ou então aquela coisa até comovedora, que é já sabe que não vai encontrar aqui o luxo a que está habituado, porque nós já sabe que não temos aqui os mesmos recursos, etc. Havia essas dificuldades.

Mas apesar de tudo, Portugal tem dois arquipélagos, os Açores e a Madeira.

E não só tem dois arquipélagos nessa altura. No século XIX tem muito mais gente nos Açores e na Madeira que tem hoje. Hoje, cerca de 5% da população vive nos Açores e na Madeira. Em 1800, cerca de 10% da população vive nos Açores e na Madeira. É muito mais gente.

Em proporção, claro.

A proporção da população cai com a imigração, com uma grande imigração que há dos Açores e da Madeira. Há muita gente nessa altura. Isso também, obviamente, obrigava a deslocações. A maior parte da população não tem grandes razões para se deslocar. A grande razão para grandes deslocações é mesmo a mudança de vida

A emigração.

A emigração desde o século XVIII em grande escala para o Brasil, e essa é a grande emigração. Há muita gente que vai pra Índia no século XVI, mas são uns milhares de pessoas. Quando estamos a falar da emigração pro Brasil, são dezenas de milhares. Uma coisa muito grande.

Tu dirias que na história de Portugal, a primeira grande deslocação em massa de portugueses foi para o Brasil no século XVIII?

A população europeia do Brasil é com os portugueses. Repare, a população que o Brasil tem em 1822, quando se torna independente, é uma população cujas origens europeias são portuguesas. Vieram todos de Portugal. Ainda não há emigração italiana, nem espanhola, nem nada. É uma emigração portuguesa que está lá.

Mas essa emigração em massa é por causa do ouro?

Claro que é. É isso que de repente torna aquilo extraordinariamente interessante ir para lá. O açúcar já tinha, no século XVII, criado interesses suficientes para as pessoas irem para lá. Agora, a possibilidade de enriquecer, é isso que explica a Austrália, que explica o Oeste americano. As pessoas vão quando lhes dizem: "Vocês vão pra lá, vão garimpar, vão escavar e de repente podem encontrar umas pepitas e a vossa vida muda de um momento pro outro." É isso que atrai, é isso que leva a massa de gente para o Oeste americano em meados do século XIX, a corrida ao ouro. É isso que explica também a enorme população europeia da África do Sul, que aumenta também no século XIX com a descoberta das minas de ouro do Rand. E é isso que no fim do século XVII, princípio do século XVIII, explica esse movimento em massa para o Brasil. Porque repare, não é só a possibilidade de ir pro ouro, é que de repente há uma enorme população que está lá garimpar, mas que precisa de comer, precisa de se instalar e, portanto, há imensos negócios que podem fazer, há restaurantes, há coisas que se podem fazer, há uma enorme população que vai para lá.

E essa população vai de todo o território português ou algumas regiões?

Não, vem sobretudo do Minho, e no Minho de uma classe social muito precisa, que é a das famílias de pequenos lavradores. É daí depois que vem.

É preciso algum dinheiro pra ir?

Porque é preciso dinheiro pra ir, claro. É preciso financiar a deslocação, é preciso comprar passagens nos barcos. Há gente que depois no século XIX até compra as passagens dos brancos, quase até através de um sistema de escravidão.

Exatamente. Em troca de trabalho.

Em troca.

Se calhar não é muito diferente hoje em dia, não é? Não em Portugal, mas noutros países.

Sim, na prática, depois tem que pagar com trabalho a passagem e, portanto, durante dois, três, quatro, cinco, seis anos, fica praticamente escravo de quem lhe pagou a passagem. Aliás, a emigração portuguesa para o Brasil no século XIX é muito vista como um caso de escravatura branca por causa disso.

Aliás, essa expressão não a inventaste agora.

Não, é a mesma expressão que é usada, escravatura branca, porque muitos dos portugueses vão e ficam praticamente como escravos no Brasil. Ficam a trabalhar numa situação quase idêntica à de escravos, porque ficam vinculados aos senhores que lhes pagaram as passagens.

E a população no Brasil explode nessa altura.

Sim, e depois mantém-se uma longa tradição de emigração pro Brasil que passa a independência, aliás, aumenta nos anos 30, 40, 50 do século XIX. Há uma deslocação. Por quê? Porque há grandes comunidades portuguesas no Brasil que chamam gente. E isso explica, por exemplo, que o Rio de Janeiro, na segunda metade do século XIX, se torna a terceira cidade no mundo com mais portugueses. Isto é, Lisboa, Porto e Rio de Janeiro. Os portugueses dominam mais ou menos o comércio no Rio de Janeiro, é um comércio dominado por portugueses. E, portanto, há um influxo constante de portugueses pro Brasil e há também um retorno constante de portugueses do Brasil, os chamados brasileiros, que vêm pra cá. Agora, estamos a falar das razões pelas quais as pessoas se deslocam. Também temos que falar dos meios pelos quais eles se deslocam.

Tu fizeste um trabalho mesmo completo, Rui. Os meus ciúmes em relação a Pedro Lomas estão a aumentar consoante tu nos contas mais sobre isso.

Mas não, vamos tentar matar esse teu ciúme.

Então, meios de transporte.

A primeira coisa que temos a dizer é em relação a Portugal. A circulação em Portugal nunca foi fácil. Não é um país de circulação fácil, por causa do relevo. É um país em que quase sempre se avista serras, por todo lado. Isso é a experiência de andar em Portugal, vê-se sempre uma serra.

Até no Alentejo.

Sim, mesmo no Alentejo há grandes desníveis.

Não temos aqueles planícies gigantescos como na Europa.

Há grandes planícies e existem águas. Há cursos d'água que interrompem constantemente, que cortam, e havia uma tradicional falta de pontes, não havia pontes.

Havia queixas de falta de pontes nessa terra?

Sim, há muitas queixas até ao século XX. Depois o clima também não é favorável às deslocações. Nós temos umas chuvas muito concentradas em determinadas épocas do ano, que tornam difícil a deslocação, e depois temos altíssimas temperaturas que também tornam as deslocações muito pouco agradáveis. Nós sabemos como isso tem o impacto das deslocações através dos preços dos almocreves no século XIX. Os preços subiam 25% No inverno. O que dava ideia da dificuldade de locação no inverno.

Havia duas tabelas.

Havia duas tabelas.

Primavera/verão e outono/inverno.

Outono/inverno. Havia também razões de segurança até ao século 19, agravadas essas razões de segurança por períodos de caos, como na primeira metade do século 19. É uma época de invasões, de guerras civis. Há imensos bandos de criminosos organizados no território português, sobretudo nas Beiras, de assaltantes.

Os assassinos das Beiras.

Os famosos assaltos, bradões, etc.

Nós é que não temos cinema, porque aquilo não é muito diferente de faroeste, os filmes que nós vemos de caubói.

E os guiões desses eventuais filmes estão mais ou menos escritos nos processos e nas memórias dos assassinos da Beira, dos Marsal de Foz Côa, do João Brandão, grandes bandos de bandoleiros que controlavam as regiões.

Um dia temos que fazer um episódio sobre os assassinos da Beira.

Então fica para isso. Mas, por exemplo, essa era uma das razões pelas quais os almocreves tendiam a viajar em grupo, as chamadas recovas, tipo de caravanas, precisamente para se defenderem. O país está cheio de caminhos, mas esses caminhos eram caminhos rurais, caminhos de terra batida. A maior parte das pessoas quando se deslocam, deslocam-se a pé. É assim, aliás, que a infantaria, os exércitos ainda se vão deslocar no século 19. Não, não há. Aliás, o cavalo nem sequer é o animal principal de deslocação. Quando não vão a pé, eles deslocam-se em animais de montar ou em veículos de tração animal. E entre os animais que se podem montar, há os cavalos, mas há sobretudo as mulas e os burros, e são esses também os principais animais de tração, além dos bois. Em 1955, estamos a falar, portanto, meados do século 20, estão arrolados 232 mil burros em Portugal.

Sobresta aos de quatro patas.

Claro, que são os mais úteis, aliás. 126 mil muares, portanto, mulas, e 68 mil cavalos. Alguns destes animais eram animais de trabalho também, além de serem animais de transporte. E as regiões também são diferentes, o país não é nada uniforme. Por exemplo, no Sul predominam as mulas como animais de tração, no Norte, sobretudo no Minho, predominam os bois como animais de tração. E sabemos que os carros puxados por animais, devido à mediocridade das estradas, eram sobretudo usados para transportes locais.

Não davam para percorrer grandes distâncias.

Isto é, em longas distâncias, aliás, até os carros mais sofisticados, por causa do mau estado das estradas, tendiam a desconjuntar-se nas estradas. Mas em 1867, nós sabemos, através daquele recenseamento que referi, que há 9272 alugadores de carros puxados por animais. Em 1867. Em 1911 são 15 mil, quer dizer, há 15 mil pessoas em Portugal cuja profissão é alugar carros de bois, de mulas para transportes.

Isso é fascinante. Está mesmo uma viagem fascinante por Portugal. Infelizmente, para quem nos está a ouvir em FM, o tempo chegou ao fim. Nós vamos continuar a conversar mais um pouco sobre isto no podcast, mas sendo que este tema é tão fascinante que para a semana vamos continuar a falar dele. Até lá. Muito bem, então, parece que alugar carros é um grande negócio. E mais?

Mas as deslocações, como eu disse, não são nada fáceis. Por exemplo, uma viagem por terra de Lisboa ao Porto pode durar, até meados do século 19, cerca de sete dias.

Sete dias.

Uma semana.

Até à invenção do comboio. Não a invenção, até se instalar o comboio.

E ao sistema de estradas, já vamos falar disso. Isto quer dizer o quê? Quer dizer que até esta época, meados do século 19, só pessoas importantes é que usam carruagem para deslocações de longa distância e apenas em certas épocas do ano, nomeadamente o verão. A maior parte das estradas são de terra batida e o próprio trânsito tende a tornar essas estradas intransitáveis. Por exemplo, no Norte, o trânsito de carro de bois desfaz as estradas completamente, essas estradas de terra batida. De repente tornam-se estradas esburacadas, com sulcos enormes, etc. Carros de bois que são pesados em si, depois com as cargas. Estes carros pesados são carros muito primitivos, mas são os mais adaptados a estes caminhos, são melhores do que os carros ligeiros, os carros mais leves, que se danificam facilmente nestas deslocações. Para viajar, as pessoas importantes vão geralmente ou montadas ou na chamada liteira. A liteira que é um transporte carregado ou por pessoas ou por animais, onde a pessoa vai lá dentro, uma espécie de carrinho transportado, apoiado em mulas ou em pessoas que vão a pé carregando a liteira. E uma viagem de liteira, por exemplo, do Porto a Coimbra, sabemos que demorava cerca de três dias. Ainda três dias de liteira para chegar do Porto a Coimbra, a quem quisesse ir nesse género de veículo. Até ao fim do século 18, há muito poucas estradas de carruagem, é esta a expressão, estradas de carruagem em Portugal. Entre 1798 e 1804, funciona uma estrada de carruagem Que é a primeira a ligar Lisboa a Coimbra. Nessa estrada de carruagem, o que é que há? Há uma diligência mantida pelo Estado, é o Estado que mantém essa diligência, que é uma carruagem puxada por dois ou mais cavalos. Ao longo do caminho, há mudas pros cavalos, portanto os cavalos vão sendo relevados.

Isso a gente conhece dos filmes americanos.

Exatamente, mas em Portugal só existe entre Lisboa e Coimbra e só funcionou entre 1698 e 1804. Transportava cerca de quatro pessoas, era o que podia transportar. A viagem demorava dois dias e acabou por falta de clientela.

A sério?

Acabou por falta de clientela. Também transportava o correio, acabou por falta de clientela em 1804. Portanto, eles disseram: "Não há clientela."

Imagino que essa estrada fosse melhor mantida, não é?

Era mantida, esse era o problema. O problema dessas deslocações não era apenas o veículo, não era sequer o principal, era o suporte, a superfície, que era muito caro manter e precisava de um nível de clientela que nitidamente não havia em Portugal. Portanto, isto é importante. As deslocações a longas distâncias por terra não são nada fáceis, são muito caras. Nós sabemos, por exemplo, que em 1640, no século XVII, uma carta régia, isto é uma carta do rei, que é uma carta que tem prioridade sobre tudo mais, demora 13 dias de Lisboa a Bragança. Duas semanas. Uma carta ao serviço do rei que tivesse sido escrita em Lisboa e posta, é recebida em Bragança duas semanas depois. Nós sabemos também que, por exemplo, em meados do século XVIII, uma carta do negociante que fosse enviada de Lisboa para o Porto, o negociante de Lisboa que enviasse uma carta pro Porto tinha de esperar duas semanas pela resposta. Basicamente, a carta levava uma semana a ir pra lá, tinha a resposta e depois uma semana a vir pra cá. Ora, isto em meados do século XVIII era igual ao que tinha sido em meados do século XVI. Portanto, em 200 anos era mais ou menos a mesma coisa. O espaço continuava a ser um desafio tão grande pras pessoas em meados do século XVIII como tinha sido 200 anos antes.

Ninguém se lembrava, nessa altura, de dizer que Portugal era um país pequeno.

Não, era um país em que as pessoas realmente tinham distâncias muito grandes umas em relação às outras. Eu estou a falar por terra e as pessoas podem dizer: "Bem, mas havia os rios, havia a costa". E é verdade, os rios navegáveis e a costa atlântica permitiam vias alternativas, e mais rápidas, para estes contactos e para estas deslocações.

E pras grandes cargas.

E, sobretudo, pras grandes cargas. Por exemplo, o trigo alentejano é levado em carros até ao Sado e depois aí é embarcado pra Lisboa. Portanto, chega a Lisboa em barco. Nos rios, há muitos barqueiros, não apenas para funcionarem onde não há pontes para transportarem as pessoas de um lado para o outro, mas também para transportar cargas onde os rios permitem essa deslocação. Aliás, estes barqueiros, por vezes, é uma atividade mantida até pelas próprias autoridades locais que mantêm barqueiros. E por isso é que há povoações que remetem para essa função, como, por exemplo, Ponte da Barca, é um lugar de embarque. Em 1811, recenseados em Portugal, 4000 barqueiros. Havia 4000 barqueiros, portanto, era uma profissão com muitas empresas. Agora, como vias de comunicação, os rios tinham problemas, porque com exceção do Guadiana e do Sado, os grandes rios em Portugal, como o Douro, o Mondego e o Tejo, fluem no sentido leste-oeste, portanto não permitem deslocações de norte para sul ou de sul para norte.

Dava jeito pra fazer ligações à Espanha.

Sim, ou pro interior. São, por vezes, rios que são muito violentos no inverno e depois têm pouco fluxo no verão. São também rios em que naturalmente é mais fácil descer do que subir, e por isso eram sobretudo usados para escoar produtos do interior, como o vinho do Douro ou o trigo alentejano. Por exemplo, os produtos que vão do mar para o interior, como o bacalhau salgado e a sardinha, são sobretudo distribuídos por almocreves, não é pelos barqueiros. Os rios têm uma penetração limitada no interior. Mas é verdade, por exemplo, de Lisboa a Santarém, nas viagens na minha terra, em 1843, o Garrett explica que é de barco que se vai melhor de Lisboa para Santarém, ou mais comodamente. A navegação ao longo da costa, a navegação de cabotagem, isto é uma navegação que tem a costa como referência, é um meio muito prático pra ir do sul ao norte e do norte para o sul. Está aliás relacionada com várias atividades, como a atividade da pesca, com a extração do sal ou o comércio internacional, mas mais uma vez nós temos uma costa que não era muito favorável a essas deslocações, é uma costa quase retilínea, sem muitas reentrâncias e abrigos, a costa portuguesa. É baixa e arenosa, o que também dificulta o contato com terra. Geralmente os barcos maiores não podem aproximar-se muito de terra. Tem poucas ilhas, há poucas ilhas na costa portuguesa, por exemplo, na ria de Aveiro Os estuários do Tejo e do Sado permitem uma entrada maior, mas são os únicos. Só aí é que o litoral se abre a uma entrada. Era também uma costa muito deserta entre o Sado e o Algarve. Reparem, fazer este percurso de Lisboa para o Algarve passava-se numa costa que era a chamada Costa Negra. Não havia luzes, não havia população. Se acontecia qualquer coisa, não havia lá ninguém.

Ninguém estava a aproveitar as maravilhas da Comporta, do Porto Novo, nada.

Não havia nada disso, só os mosquitos estavam lá à vontade. Ou havia menos mosquitos, provavelmente, porque tinham menos pastagem humana do que tem atualmente. Era uma costa pouco segura no inverno. Os naufrágios eram um bocadinho como hoje os desastres aéreos. Não eram muito frequentes, mas quando acontecia, eram notícias de jornais tremendas, perdia-se imensa coisa e as pessoas ficavam todas apavoradas de navegar. O assoreamento também dificultava o acesso aos portos, quer marítimos, quer fluviais. Só para vos dar uma ideia, em 1821 há uma concessão para a navegação a vapor, já há barcos a vapor em 1821, entre Lisboa e o Porto. Mas a ondulação da costa portuguesa era tão forte que esse vapor, em vez de ir para o Porto, ficou a fazer serviço entre Lisboa e a outra banda. Ficou um castelheiro, mais ou menos. Ficou a fazer de castelheiro. Era uma coisa demasiado difícil. E mesmo a viagem marítima de Lisboa ao Porto, em barco a vapor, ainda demora 20 horas por volta de 1860. É um dia ainda.

Em 1860?

Em 1860.

Já bem a caminho do século XX.

Até meados do século XIX, antes dos caminhos de ferro, e mesmo ainda que já com os barcos a vapor, não era um país em que fosse fácil circular. Os meios de circulação existiam, mas não era fácil obter uma circulação cômoda, fácil, ao contrário de outros países da Europa.

Muito bem. Esta é mesmo uma história fascinante. Nós vamos continuar com ela no próximo programa, mas para já despeço-me de quem nos ouviu até aqui. Até lá.

E o resto é história. É apenas fumaça do incêndio em Luava, ainda na zona do Chiado. Aqui, as forças do Estado estão a fazer o isolamento das forças gerais. Quer transformar este país numa ditadura.

Com João Miguel Tavares e Rui Ramos.