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E o resto é história. É a pedra escombrada. Do incênte e plavra ainda na zona dos teatros. Quer transformar este país numa ditadura. Atende, atende! Com João Miguel Tavares e Rui Ramos.

Olá, seja bem-vindo a mais um episódio de E o Resto é História com Rui Ramos e João Miguel Tavares. Nos últimos tempos muito se tem falado da Venezuela, sobretudo desde que Donald Trump mandou uma força especial do exército americano ir buscar Nicolás Maduro e a sua mulher à fortaleza onde dormiam em Caracas. E os nossos caros ouvintes, como por exemplo, o Nuno Silva, começaram a enviar perguntas sobre o tema, mas eles e todos já conhecem a regra de ouro deste programa. Nós não fazemos comentário à atualidade política, mas podemos e devemos ajudar a compreender essa atualidade política através da história, em boa parte, porque é mesmo para isso que ela serve. Rui, a Venezuela é um país independente desde o início do século XIX, mas tem muita história antes disso e também tem muita história depois disso. Já foi um dos países mais prósperos da América Latina. Nos últimos anos transformou-se num dos mais pobres. Eu pedia que nos ajudasses a compreender esta história de altos e baixos, tão atribulada, e aquilo que se está a passar no país. E já agora, ajuda-nos também a perceber porque é que os países da América Central e da América do Sul, que se separaram do Império Espanhol, parecem ter tanta dificuldade em ser politicamente estáveis. Por onde é que achas que vale a pena começar?

Bem, por essa referência a um país de altos e baixos, porque é um país de altos e baixos na geografia, tem altas montanhas e tem planícies e uma zona costeira tropical, e é um país de altos e baixos na economia. Isto é, tão depressa é o mais rico como é o mais pobre, o que é uma coisa estranha.

Mas não é só de agora, já vem de há mais tempo. Ok.

Enfim, nos últimos tempos tornou-se mais notório, mas é uma tendência que existe ali desde há mais tempo do que a atualidade. Mas vamos situar-nos. A Venezuela fica no norte da América do Sul e tem 912 mil km² com 28 milhões de habitantes. Portanto, é um território que tem 10 vezes o tamanho de Portugal.

Muito grande.

Mas com uma população que é só cerca de três vezes a população portuguesa. Portanto, uma densidade muito mais baixa de população do que Portugal. De onde é que vem o nome? Há várias histórias sobre isso. A mais engraçada é aquela que diz que foram navegadores italianos, em concreto Amerigo Vespucci, que no fim do século XV terão andado lá na costa. A ideia dos conquistadores espanhóis quando chegaram às Américas era procurar ouro, também procuraram ali, naquela altura sem grande sucesso, mas este Amerigo Vespucci terá visto na costa casas de índios em estacas entre canais e isso lembrou de Veneza e chamou aquilo Pequena Veneza, Venezuela. Portanto, esta é uma das histórias sobre a origem do nome de Venezuela. Os europeus começaram a estabelecer-se na Venezuela no princípio do século XVI, por volta de 1522, portanto cerca de 24 anos depois da primeira visita de Cristóvão Colombo à costa daquilo que é hoje a Venezuela. Inicialmente estão apenas na costa e nas ilhas costeiras. A Venezuela fica no mar das Caraíbas, tem muitas ilhas, também tem muitas ilhas perto da costa. Em 1567 já tinham estabelecido a povoação de Caracas. Para o interior não tinham ido muito. Tinha havido algumas expedições à procura de ouro, mas sem grande sucesso.

Missionários também, não é?

E eram sobretudo missionários que tinham ido tentando converter as tribos de nativos, mas isso acontece muito mais tardiamente, século XVII, XVIII, do que propriamente no século XVI. Os nativos aparentemente terão sido muitos quando os europeus chegaram, talvez um milhão. Enfim, estimativas são discutíveis. O que acontece é que no fim do século XVI, por volta de 1580, eles são vítimas de que são vítimas a maior parte da população nativa das Américas, que é o contacto com as doenças trazidas pelos europeus. E há uma epidemia de varíola que mata uma grande parte da população nativa da Venezuela no fim do século XVI. Portanto, nós sabemos que em 1800, o território da Venezuela só tem 600 mil habitantes.

Em 1800, não em 1519.

Sim, e cerca de 50% são índios, ou aquilo que os europeus chamam índios, são nativos. Portanto, isto quer dizer que essa população, se é verdade que foi de um milhão de habitantes no século XVI, teria sido reduzida a um terço.

E os outros 50% já eram...

Os outros 50%, cerca de 300 mil, são europeus ou descendentes de europeus ou de escravos africanos, também trazidos ali para aquela zona. Há uma grande importação de escravos africanos para toda aquela zona das Caraíbas, que é uma zona de produção de açúcar, portanto também alguns vêm para a Venezuela, mas não em grandes quantidades. Isto é, não é uma grande quantidade, não é uma zona de escravidão africana. E hoje em dia, por exemplo, perguntados sobre as suas características étnicas, a maior parte dos venezuelanos dizem que são morenos, isto é, mestiços de índios e de brancos. Cerca de 40% dizem que são brancos, europeus, e só 3% é que dizem que são negros, isto é, descendentes de africanos. Portanto, isto dá uma ideia. É uma composição bastante diferente, por exemplo, da que vamos encontrar no Brasil ou, claro, da que vamos encontrar em muitas das ilhas das Caraíbas, onde há um grande predomínio de população africana, isto é, descendentes de antigos escravos. Quando é que a Venezuela adquiriu uma identidade política e passou a ser vista como uma unidade política Com algum sentido político separado do resto da América Espanhola.

Embora ainda não com as fronteiras atuais.

Nós sabemos que em 1717 o que é hoje a Venezuela fazia parte do vice-reinado de Nova Granada. A América Espanhola está dividida em vice-reinados e em capitanias gerais. E portanto, inicialmente a Venezuela faz parte de um vice-reinado, que é o vice-reinado de Nova Granada, que tem a capital em Bogotá. Bogotá é hoje a capital da República da Colômbia. Na altura era a capital deste vice-reinado da Nova Granada e a Venezuela fazia parte dessa unidade. Mas no fim do século XVIII, o território é separado de Nova Granada e torna-se uma capitania geral com capital em Caracas. É a capitania geral de Caracas. Com uma configuração territorial que faz lembrar um bocadinho a da Venezuela atual. Digamos que é no fim do século XVIII se começa a distinguir a Venezuela como uma unidade política separada, ainda dentro da América Espanhola. Agora, como é que chega à independência? Isso é uma história que acontece no princípio do século XIX. Há umas tentativas independentistas logo no princípio do século XIX, por volta de 1805, 1806, inspiradas obviamente pelos Estados Unidos, pela independência dos Estados Unidos e portanto há alguns crioulos, que são europeus nascidos na América, não são mestiços, são europeus nascidos na América, são chamados crioulos na América Espanhola, são os colonos. Alguns deles que estão entusiasmados pelo modelo dos Estados Unidos e que tentam ali também algumas revoltas para se separarem de Espanha e isso não tem grande sucesso. E aquilo que lhes cria verdadeiramente uma oportunidade é a invasão francesa da península Ibérica em 1807, 1808. As invasões francesas, que é a invasão francesas de Portugal, mas também de Espanha. Espanha em 1808 também é ocupada por os exércitos franceses. A família real espanhola é capturada, é levada para a França, Napoleão dá um novo rei à Espanha, o seu irmão José, que não é reconhecido pelos espanhóis. Há uma revolta em Espanha contra a ocupação francesa, formam-se juntas de governo nas cidades espanholas da península Ibérica. E o mesmo acontece nas Américas espanholas, isto é, a ausência do rei, de repente não há rei. Há juntas de governo na península Ibérica e nas Américas espanholas os crioulos, isto é, os colonos descendentes de europeus, tomam a mesma iniciativa e dizem: "Bem, também vamos formar juntas de governo como na península Ibérica". E portanto, nestas principais cidades da América Espanhola, que são capitais de vice-reinados ou de capitanias gerais, aparecem juntas de governo. Que são juntas de governo que ainda reconhecem o rei de Espanha, ainda dizem o rei de Espanha, mas recusam a submeter-se às juntas de governo que existem na península Ibérica.

Juntas de governo espanholas já independentes de Napoleão.

Na península Ibérica. Estão na península Ibérica e portanto eles recusam submeter-se, dizem: "Bem, nós temos tanta legitimidade para governar estes territórios como eles têm para governar a Espanha". Bem, e esse processo dá depois, aparecem os independentistas e aproveitam esta separação que já existe em termos de juntas de governo para avançarem para a independência. A Grã-Bretanha apoia os independentistas porque a Grã-Bretanha receia que a continuação da soberania espanhola seja uma via para a influência francesa nas Américas, se a França se conseguir, digamos, ou se o rei francês se conseguir instalar em Espanha e a América Espanhola continuar submetida à Espanha, à península Ibérica, provavelmente seria uma forma de a França passar também a ter influência na América Espanhola.

Mas explique aí só uma coisa.

A Grã-Bretanha não está interessada nisso.

Durante o reinado napoleônico, nunca houve forças francesas capazes de invadir nada na América.

Nada. A Marinha Britânica em Trafalgar, em 1804 tinha destruído a esquadra francesa, os franceses não têm esquadra, nem sequer se conseguem apoiar as próprias colônias francesas nas Caraíbas estão sujeitas à conquista e à influência britânica. Muito menos as colônias espanholas. Na capitania geral da Venezuela é um general crioulo, Francisco Miranda, que destitui o capitão-geral em 1810 e com outro general, aliás, são generais nascidos em Caracas, tanto Francisco Miranda como Simón Bolívar, é aqui que aparece, promovem a declaração da independência da Venezuela em 1811. Ou antes, promovem uma declaração de independência em 1811, para ser mais exato, porque verdadeiramente o objetivo deles não era uma Venezuela independente, era os Estados Unidos da América do Sul. Eles queriam fazer uma república com toda a América Espanhola, convertê-la nos Estados Unidos, tal como os Estados Unidos feitos a partir das colônias britânicas da América do Norte. Esse é o grande objetivo deles. Eles têm grandes dificuldades em afirmar-se. A Venezuela é uma base de fidelidade à Espanha. Uma grande parte da população mantém-se fiel à Espanha. Os chamados realistas, aqueles que estão com os espanhóis, uma vez que os independentistas são republicanos, e portanto, há uma divisão entre republicanos e realistas, isto é, independentistas e aqueles que são fiéis à Espanha, eles têm uma grande dificuldade em fixar-se ali. Só em 1819 é que fundam, conseguem adquirir uma base com a chamada República da Colômbia A que os historiadores chamam a Grande Colômbia para a distinguir da Colômbia atual. Por quê? Porque esta república da Colômbia juntava o que é hoje a Colômbia, o que é hoje o Equador, o que é hoje o Panamá e o que é hoje a Venezuela. Por isso é que se chama Grande Colômbia para a distinguir da Colômbia atual. Mas repito, a Venezuela ficou sob o controle espanhol durante bastante tempo, em grande medida porque há uma população de vaqueiros, isto é, de cowboys, no centro da Venezuela, e esses são fiéis à Espanha, alinham com a Espanha constantemente e derrotam em batalhas sucessivas os independentistas e mantêm o controle, enfim, uma suposta ligação à Espanha, porque uma vez que a Espanha também já não controla aquilo, mas eles continuam a declarar-se fiéis à Espanha. Portanto, só em 1821 é que há uma batalha em que verdadeiramente os exércitos realistas, isto é, fiéis à Espanha, são derrotados e a República da Grande Colômbia afirma-se. Em 1822 é reconhecida pelos Estados Unidos como uma república independente, mas a guerra da independência norte da América do Sul só termina em 1823. Portanto, é muito demorada. Estamos a falar de 13, 14 anos de guerras.

E com tropas espanholas também a combater?

Há tropas espanholas, sim, mas a maior parte já são tropas locais que se mantêm fiéis à Espanha. A partir de 1814, 1815, aparecem tropas espanholas, porque acabaram as guerras francesas na península ibérica, portanto, há expedições espanholas para as Américas. Enfim, podemos falar disso até talvez num outro programa. Os espanhóis têm uma grande dificuldade em controlar todos os focos de rebelião que existe nas Américas, desde o Chile até ao México. É uma quantidade enorme de revoltas, eles têm uma grande dificuldade em conseguir controlar, mas ainda dão muita luta. A Venezuela faz parte inicialmente desta Grande Colômbia e separa-se da Grande Colômbia como uma república independente em 1830. A Venezuela é de fato um Estado independente desde 1830.

Muito bem, nós interrompemos aqui para um breve intervalo, voltamos já. Olá, seja bem-vindo de volta a esta segunda parte de "O Resto é História" em que nós estamos a falar da Venezuela. Estávamos ali em 1830 quando a Venezuela se pode dizer que se tornou realmente independente, a Venezuela parecida com aquela que nós conhecemos hoje em dia.

Sim, com a Venezuela que conhecemos hoje.

Atual. Portanto, 1830 tem menos de 100 anos.

É.

Menos de 100 anos, não, desculpa, menos de 200 anos, vixe.

Exato.

Esta minha matemática.

E começa logo com uma história muito agitada. Nos primeiros 100 anos de independência, isto é também um cálculo que pode ser discutido, mas é um cálculo que existe, a Venezuela terá passado por 50 revoluções.

50 revoluções?

Uma média de uma a cada dois anos. E 18 ditadores. Teve 18 ditadores.

Entre 1830 e 1931. Ok.

De fato, a Venezuela só é uma democracia verdadeiramente, isto é, eleições livres, um governo eleito e um respeito pelos resultados entre 1958 e 1998. Portanto, é na segunda metade do século XX, durante cerca de 40 anos, que é verdadeiramente uma democracia. No resto do tempo é entre revoluções e ditaduras. Isto não é um caso único na antiga América Espanhola, e as causas da instabilidade da Venezuela também não são únicas. E portanto, aquilo que eu vou fazer aqui é apontar algumas dessas principais causas. E de fato, ao falar da Venezuela, estamos a falar de quase todos os outros países da antiga América Espanhola. Eu diria que há quatro causas principais daquilo que nós chamaríamos instabilidade, destas revoluções contínuas, ditaduras, guerras civis e por aí fora. Um é a origem militar das independências. Estes Estados tornaram-se independentes depois de longas guerras entre os independentistas e exércitos leais à Espanha. Por exemplo, no caso da Venezuela, entre 1810 e 1823, 13 anos de guerras com exércitos leais à Espanha. Depois seguidas de longas guerras entre os novos Estados independentes para definir fronteiras. As fronteiras não são claras. Às vezes parece que estes independentistas tentam aceitar as fronteiras das antigas unidades jurisdicionais espanholas, isto é, os vice-reinados e as capitanias gerais, mas há sempre projetos de pan-americanismo, isto é, de grandes Estados, e também não é claro onde é que eram as fronteiras entre estas unidades jurisdicionais. Porque como antigamente estavam dentro da América Espanhola, não era assim tão relevante como isso a fronteira, e portanto era móvel. Umas vezes havia territórios que estavam de um lado, depois estavam do outro, conforme divisões, decisões administrativas, mas agora quando se torna uma questão de soberania, de Estados soberanos, é mais complicado. E a Venezuela ainda tem um conflito territorial de que aqui falámos com a Guiana, a propósito do território desse coíbo, precisamente numa fronteira que não estava nunca clara. Há depois também guerras dentro dos próprios Estados independentes, por causa de separatismos, isto é, regiões que se querem separar e tornar-se Estados independentes, e por causa de divisões acerca da natureza do Estado Deve ser um Estado centralizado ou deve ser um Estado federal como os Estados Unidos, isto é, formado por Estados com uma grande autonomia?

Mas quando falas em confronto, estás a falar mesmo em guerras civis?

Estou a falar de guerras, não estou a falar de discussões, de editoriais acesos. Estou a falar de guerras com milhares de mortos. Ora bem, o que é que fazem estas guerras? Faz com que o poder político, quer na Venezuela, quer noutros países independentes, tenda a assentar em forças militares e os comandantes das forças militares tendem a tornar-se as principais figuras políticas nestes territórios. São os chamados caudilhos. Isto é, generais que depois se tornam presidentes destas repúblicas. Ora bem, o que acontece é que como há mais do que um general, há sempre mais do que um candidato à presidência e há constantemente lutas entre estes generais para saber quem é que é o caudilho, quem é que é o presidente. Todos eles, no princípio do século 19, Simon Bolívar e os outros, se identificam um bocado com a figura de Napoleão, isto é, o general político. Portanto, todos eles imaginam que são Napoleões, que são grandes comandantes militares destinados a construir grandes impérios nas Américas. E claro, há um vizinho ao lado que também se acha um grande comandante militar destinado a construir um grande império e, portanto, os choques são extremamente frequentes. A rivalidade e a luta entre estes chefes militares, entre estes caudilhos, é uma das principais causas de instabilidade no século 19. Isto é uma sucessão de ditaduras militares, de golpes de Estado militares que a maior parte destes países conhece. Tirando o Brasil. E o que é que o Brasil tem de diferente destes países todos? Tem que o seu chefe de Estado é um chefe de Estado dinástico, é um imperador da dinastia de Bragança com uma legitimidade dinástica e, portanto, não há esta turbulência de chefes militares que todos eles acham que deviam ser presidentes da República. Aliás, quando o Brasil se torna uma república em 1889, passa imediatamente a ter também uma sucessão de golpes militares, guerras civis e de caudilhos também e dos seus caudilhos. Torna-se imediatamente um país um bocadinho mais parecido com o resto da América espanhola. Portanto, a origem militar das independências é uma das causas da instabilidade. A segunda causa tem a ver com a falta de unidade e de consistência desses novos Estados. Já fiz aqui referência a isto. Esta antiga América espanhola passa o século 19 sem fronteiras estáveis, isto é, com muitas guerras entre estes Estados para saber onde é que passam as fronteiras entre eles. Nós estamos a falar de Estados com territórios muito vastos e muito diferenciados, como é o caso da Venezuela. Quer dizer, a Venezuela tem uma costa no norte, que é mais ou menos tropical, uma costa baixa tropical, mas essa costa logo a seguir tem uma cordilheira de montanhas que vem dos Andes. São montanhas muito altas ao longo da costa, com picos de 5 mil metros de altitude, quer dizer, mais de duas vezes a Serra da Estrela. Temos uma zona tropical e depois, de repente, temos uma zona de neves permanentes, quase alpina, portanto, uma zona como se estivesse nos Alpes. A seguir a essas montanhas vêm planaltos no centro e no sudoeste, onde havia aquela criação de gado, e depois montanhas outra vez no sudeste, na bacia do Amazonas, com floresta tropical. Portanto, temos zonas muito diferentes, com climas muito diferentes e com modos de vida, a população que está nestes territórios tem modos de vida extremamente diferentes uns dos outros. Inicialmente, não há uma grande identidade comum. Quer dizer, eles são todos súbditos do rei de Espanha nas Américas, venezuelanos, o que isso queria dizer? Estão na capitania geral da Venezuela, não é uma nação propriamente dita. Além de que o território nem sequer é uniformemente povoado. A população é pequena, em 1800 temos 600 mil habitantes para esses 900 mil km². Os núcleos de povoamento são muito afastados entre si, o que dá precisamente origem a uma mentalidade de autonomia e de separatismo muito grande, isso é igual por toda a América espanhola. A ligação dos habitantes é sobretudo às regiões onde eles são naturais, onde estão estabelecidos e que têm como referência as principais cidades que lá existem, que é onde estão as autoridades, onde está o comércio, onde vive também a maior parte da população, aliás, é nestas cidades. Esta é a razão pela qual a Grande Colômbia se desfaz. E desfaz-se como? Desfaz ao longo das grandes cidades, que são Caracas, Bogotá e Quito, que são hoje as capitais dos Estados independentes, e que têm este efeito de nenhuma delas se quer submeter à outra. Quer dizer, quando em Caracas e Quito sabem que a capital da Grande Colômbia é Bogotá, para eles acabou-se a Grande Colômbia. Quer dizer, não estão dispostos a estar sujeitos a uma capital que fica a distâncias enormes, com o qual não têm nada a ver. E repito, depois mesmo de definidas as fronteiras da Venezuela, mais ou menos, ainda continua a haver oposição sobre a natureza do Estado, por exemplo, entre federalistas e centralistas, aqueles que querem um Estado centralizado e aqueles que querem uma federação de Estados. Isso dá origem, entre 1859 e 1863, à chamada guerra federal, uma guerra entre federalistas e centralistas, na qual morrem 100 mil pessoas numa população de 1,2 milhões de habitantes. Portanto, 10% da população morreu nesta guerra na Venezuela. Hoje a Venezuela depois tornou-se um estado federal com 23 estados, um deles é a Portuguesa, chama-se Portuguesa.

Há um estado na Venezuela chamado Portuguesa.

Chama Portuguesa. Estas diferenças, esta separação, estas tendências separatistas, estas discussões acerca da natureza do Estado, é também uma das causas de instabilidade nestes estados da antiga América Espanhola e também na Venezuela. O terceiro fator de instabilidade tem a ver com a economia e com as expectativas e as deslocações de população que a economia vai gerando ao longo do século 19 e sobretudo no caso da Venezuela no século 20. Falando da América Espanhola toda, a economia desses países nos séculos 19 e 20, depois da independência, cresceu quando encontrou investidores e mercados ou nos Estados Unidos da América ou na Europa para alguns dos seus recursos naturais ou das suas produções agrícolas, geralmente produções agrícolas tropicais a que estes países se podiam dedicar com muito vantagem, como é o caso do café na Venezuela. É uma grande produtora de café.

Isso ainda no século 19.

No século 19 há o grande boom do café no século 19.

Até que depois no século 20 há o grande boom do petróleo.

Do petróleo no século 20. O petróleo no século 20 vem a significar quase 90% das exportações da Venezuela. Um terço do PIB está associado à indústria petrolífera e 50% das receitas do Estado. Portanto, é basicamente um petroestado, quer dizer, um Estado do petróleo, que existe na América do Sul.

Até porque não falta.

A Venezuela tem as maiores reservas de petróleo do mundo, embora a sua produção hoje em dia seja bastante pequena. Qual é o efeito deste tipo de economia? O efeito deste tipo de economia é que cria esta evolução em dois estádios ou em dois momentos. Num primeiro momento, descobre-se o recurso natural ou desenvolve-se a produção de um produto que tem grande procura na América do Norte ou na Europa. E nesse momento há investimento estrangeiro, isto é, vem muito capital dos Estados Unidos ou da Europa para estabelecer as empresas que vão explorar esses recursos ou para a produção.

Para construir a infraestrutura.

Construir a infraestruturas, os portos, os caminhos de ferro, estradas, armazéns, para precisamente deslocar esse produto e depois fazer o escoar. E há também grandes movimentos de população. Há grandes movimentos de população dentro de cada país, porque a população de umas regiões desloca-se para as regiões onde há este recurso natural, onde estão a ser construídas estas infraestruturas, onde há esta prosperidade. E há também deslocação de população do exterior para estes países neste momento. Vem gente sobretudo ou da Europa e sobretudo da Europa do Sul, da Espanha, da Itália, também de Portugal, que tem ligações à América Espanhola. E vem também muita gente dos outros países vizinhos, que por vezes não estão nesta fase de prosperidade e portanto começam a emigrar para um país que está nesta fase de prosperidade, onde ainda por cima fala a mesma língua, etc. Portanto, é fácil a população passar para lá. Nesta altura, a população cresce, há grande prosperidade, as autoridades fazem grandes despesas ou em infraestruturas ou em obras de aparato, grandes palácios, grandes óperas, grandes avenidas, quando há dinheiro, gasta-se o dinheiro. Ou como no século 20, expandem o setor público, oferecem benefícios à população, subsídios disso e daquilo. Há dinheiro e portanto gasta-se. E como esperam que a prosperidade continue, a ideia quando neste momento de prosperidade nunca ninguém vê o fim à prosperidade, contraem-se grandes dívidas externas à conta da riqueza que virá no futuro. Porque é que havemos de estar à espera das receitas do petróleo, que não dão para tudo, mas vamos começar já a gastar as receitas do petróleo de daqui a 10 anos ou de daqui a 20 anos. É uma tentação muito grande. Este é o primeiro momento, é o momento da prosperidade. E depois há um segundo momento, que é o momento das vacas magras. Isto vem na Bíblia, já vinha na Bíblia as vacas gordas e as vacas magras. E neste segundo momento, o que é que acontece? Os preços internacionais dos produtos que estes países produzem ou dos seus recursos naturais caem, quer por falta de procura, de repente há uma falta de procura, por exemplo, há uma crise nos Estados Unidos ou na Europa, compra-se menos café, ou menos açúcar, ou menos cacau.

Ou menos petróleo.

Ou menos petróleo. Ou aparecem outros países a concorrer com o mesmo produto e de repente os preços do café caem porque há um outro país ao lado a produzir café, às vezes até a melhores preços, entra o outro país também na produção. E o que é que acontece a partir daí? A partir daí, o Estado que estava endividado e que contava pagar as suas dívidas com as receitas, por exemplo, do petróleo, de repente não tem essas receitas, entra em bancarrota, não consegue pagar as dívidas internacional, fica privado do acesso ao crédito internacional que até aí tinha sido importante para manter os serviços e os subsídios dados à população. Passa a haver falta de bens Por quê? Porque uma parte do consumo depende da importação de bens. É muito mais barato nestes países com estes recursos importar os bens do que produzi-los. Todo tipo de produtos, produtos de consumo corriqueiro, que são importados. E de repente não há. Um país que era extraordinariamente rico num momento, no momento seguinte não há leite, não há coisas básicas que as pessoas estavam habituadas a comprar e que eram importadas do estrangeiro. Há inflação.

Dá-se o disparo da inflação, que é um velho problema.

Por quê? Os governos abusam sempre do dinheiro quando lhes falta receitas, começam a imprimir notas e há inflação a níveis tremendos. Temos a paisagem destes países nestes momentos de crise, estes contrastes enormes entre, por vezes, as obras luxuosas do passado, por exemplo, o Metrô de Caracas é uma das coisas apresentadas geralmente como exemplo destes casos, e depois a miséria do presente, mas com estas obras faraônicas, essas obras luxuosas do passado. E estes dois momentos, o momento de prosperidade e o momento de crise, é tornado pior pelos políticos, e sobretudo por políticos populistas. Há dois tipos de políticos populistas. Nós já falamos dos caudilhos militares, agora vamos falar de outro tipo de praga política destes países, que são estes demagogos. E eles aparecem sob duas formas. Na época de prosperidade, são políticos que disputam o poder prometendo tudo às populações. Dizem: "Se votarem em mim, eu ainda vos dou mais, aumento ainda mais os subsídios, etc." Nos momentos de crise, aparecem um outro tipo de populistas, ou às vezes o mesmo já reconvertido, a acusar as antigas elites da crise, a dizer: "As antigas elites políticas são as responsáveis pela crise, por causa da corrupção, por causa de estarem conluiadas com interesses estrangeiros, e se me elegerem a mim, eu faço voltar imediatamente a riqueza, porque acabo com eles e tornamo-nos outra vez muito ricos, porque vou expropriar os ricos e vou expropriar os estrangeiros, e com essa riqueza toda nós voltamos a ser prósperos." Estes dois tipos de políticos aparecem em ciclos nestes países com bastante êxito, e um êxito que tem também explicação no tipo de sociedades que entretanto se desenvolveram nestes países.

Sim.

Por que estes demagogos têm grande sucesso, quer nos momentos de prosperidade, quer nos momentos de crise? Estas são sociedades de grandes desigualdades. Por quê? Porque a riqueza está muito associada aos recursos e à posse dos recursos e ao poder do Estado. E quem tem propriedade destes recursos ou quem está associado ao poder torna-se muito mais rico que o resto da população. E como a principal fonte de riqueza são estes recursos, obviamente, formam sociedades a um grau de grande contraste entre uma pequena elite política proprietária de recursos, muito rica, e depois o grande resto da população menos próspera ou mais vulnerável a mudanças de conjuntura. E é fácil para um demagogo dizer que a prosperidade acabou porque os ricos ou os estrangeiros ficaram com a riqueza toda. É muito fácil dizer isso, ou dizer: "Estamos prósperos, mas se votarem em mim, eu vou expropriar os ricos e os estrangeiros e ainda vos dar mais riqueza." É fácil numa sociedade de grande desigualdade, um demagogo apelar aos pobres, uma sociedade de grande desigualdade e ao mesmo tempo com sistema político democrático, onde os pobres votam, apelar aos pobres para votarem em mim para eu vos dar riqueza, para vos sustentar. E depois também é fácil culpar os estrangeiros. Por quê? Porque esta é uma economia que depende de investidores e de mercados externos. Quando as coisas não correm bem, é extraordinariamente fácil dizer que a culpa é dos Estados Unidos ou dos europeus. É a coisa mais fácil do mundo dizer: "São os americanos que estão a ficar com os nossos recursos todos, vamos tirar-lhes os recursos, voltamos a ser ricos." E depois também porque uma grande parte desta população é extraordinariamente vulnerável. Muitos deles são habitantes recentes dos sítios onde estão, quer vindos de outras áreas do país, quer vindos do estrangeiro. Por vezes não encontram habitação condigna e desenvolvem favelas. Caracas, a partir dos anos 50, 60, com o boom do petróleo, começa a desenvolver favelas, porque é o resultado de uma grande parte da população da Venezuela a emigrar para a capital e também outra gente a vir de outros países da antiga América Espanhola, também chegarem e instalarem-se. Condições muito frágeis de habitação, grandes problemas de segurança, são zonas de grande violência. As estatísticas da Venezuela na década de 90 era terrível, havia uma pessoa assassinada a cada 21 minutos. Não era preciso guerra para haver níveis de homicídios tremendos. É uma população que perante as viragens da conjuntura, pode de repente ver-se desempregada, ver-se sem bens nenhuns, sem conforto e muito vulnerável à demagogia. Se aparece um demagogo a dizer: "Eu vou vos salvar", a população vai atrás. É compreensível. Esta é a história da Venezuela, esta é a história de muitos outros países da antiga América Espanhola, aquilo que nós chamamos América Latina, mas é também a história da Venezuela. Só para nos concentrar nos últimos 50 anos e fazer uma espécie de recapitulação daquilo que estivemos a dizer até agora. Portanto, desde meados da década de 70, o que nós temos? Temos uma época de grande prosperidade com a alta dos preços do petróleo nos anos 70. O PIB subiu 40% em poucos anos. De repente aquilo tornou-se um dos países mais ricos do mundo, o que atraiu imensos imigrantes.

Do mundo?

Sim, do mundo. Não é só da América, do mundo. É um dos países mais ricos do mundo, com esta riqueza petrolífera. Atrai imensos imigrantes.

Portuguueses, não é?

Entre os quais portugueses, muitos deles, aliás, retornados da África, mas também italianos, espanhóis e de outros países da América do Sul. A população explodiu. Em 1970, a Venezuela tem 10 milhões de habitantes. 20 anos depois, em 1990, tem 20 milhões. Duplicou em 20 anos a população da Venezuela, com uma grande concentração nas cidades do norte. 93% da população da Venezuela vive nas cidades do norte da Venezuela, que são as cidades próximas da indústria petrolífera e do poder político, é aí que está a maior parte da população. Portanto, esta é a Venezuela dos anos 70 e também uma parte dos anos 80. O que é que acontece a partir de meados da década de 80? Há a queda dos preços do petróleo, que vão atingir especialmente a Venezuela, uma vez que o petróleo venezuelano é relativamente caro a extrair, é um petróleo que exige grandes investimentos para ser extraído, e portanto precisa que os preços do barril do petróleo estejam bastante altos pra ser competitivo em relação à produção de outros países. Com a crise da indústria petrolífera, o que acontece é que o PIB per capita da Venezuela cai em 25% em poucos anos. Um país que tinha se tornado muito rico, torna-se relativamente pobre. A Venezuela depois vai passar, sobretudo a década de 90, o fim da década de 80 e a década de 90, com demagogos a tentar acertar contas com os políticos do passado, a quem acusam de corrupção e culpam pela situação atual. É muito difícil governar nesta altura, porque é preciso cortar despesas. O Fundo Monetário Internacional, para financiar a Venezuela, exige reformas. As reformas são, obviamente, controversas. É muito fácil levantar movimentos de protesto contra essas reformas. E em 1992 aparece, não aparece pela primeira vez, mas aparece com maior destaque, um coronel, o coronel Hugo Chávez, que tem ligações à ditadura comunista em Cuba e que tenta um golpe de Estado precisamente contra a elite corrupta que governa a Venezuela. Esse golpe de Estado ainda falha em 1992, mas depois a Venezuela continua a desconjuntar-se politicamente e Hugo Chávez acaba por ser eleito presidente em 1998, seis anos depois do golpe, como precisamente o salvador. Ele identifica-se com Simón Bolívar, é o novo Bolívar, o que vem salvar a Venezuela. E logo que se torna presidente, começa a mudar a Constituição e a construir um regime autoritário, basicamente, que não vai depois prever eleições ou quando perde eleições, ignora os resultados das eleições. Portanto, Chávez é ditador entre 1998 e 2013, quando morre. É substituído por Nicolás Maduro e faz o que fizeram os demagogos típicos, estes demagogos populistas. A exploração do petróleo tinha sido nacionalizada em 1976, portanto, é a companhia estatal que gere a extração e a comercialização do petróleo. Usa a exploração do petróleo quando os preços voltam a ser altos no princípio do século XXI, para manter uma grande massa de dependentes. Uma grande parte da população passa a ser dependente do Estado, subsídios, etc. Nas cidades, são amigos do presidente. Estão constituídos em milícias que o presidente usa pra fazer pressão sobre a oposição, pra perseguir os seus adversários e os seus críticos. Muito do dinheiro da exploração do petróleo desaparece. Há um cálculo que diz que entre 2004 e 2014 desapareceram 300 mil milhões de dólares.

Em corrupção.

Em tudo.

Sabe-se.

Em tudo. E claro, tudo isto é impactado numa campanha nacionalista contra os Estados Unidos, colocados como o inimigo da prosperidade e da independência da Venezuela, e Hugo Chávez como o grande defensor da independência contra os Estados Unidos. Mas claro, Chávez ainda tem esta fase em que tem dinheiro, e depois dá uma fase em que deixa de ter dinheiro. Por várias razões. Em primeiro lugar, porque o dinheiro da extração do petróleo desaparece. Não há investimento na infraestrutura. E aquilo que acontece é que a exploração do petróleo vai diminuindo de ano pra ano. Por exemplo, entre 1990 e 2020, a produção de barris de petróleo por dia na Venezuela diminuiu para 1/4. Isto é 1/4, quer dizer, de 3,5 milhões de barris por dia para 800 mil. Eles têm, de fato, as maiores reservas de petróleo do mundo, mas não têm meios pra explorar porque não investem na infraestrutura necessária para a extração do petróleo. E depois, além da produção de petróleo diminuir, diminui também Diminuem também os preços do petróleo. Isso acontece a partir de 2008 a 2014, com a crise financeira internacional, o preço do petróleo cai de $100 por barril para $40 por barril. Eu não estou em erro, mas penso que na Venezuela eles precisam de cerca de $80 por barril para terem verdadeiramente resultados.

Para ser rentável a exploração.

E já está abaixo daquilo que é rentável, portanto é a ruína total. Há uma queda do PIB espantosa entre 2014 e 2024, o PIB cai 80%.

80%

Um país que de repente se torna um país miserável. Há hiperinflação, uma inflação tipo Alemanha nos anos 20 do século XX, em que o dinheiro praticamente deixa de ter valor. Há miséria, 82% da população vive agora abaixo do nível da pobreza. E há uma fuga, a população começa a sair da Venezuela, 20% da população sai da Venezuela, oito milhões de pessoas saem da Venezuela. É uma sociedade a desfazer-se completamente. E o regime mantém-se, a ditadura mantém-se. A ditadura mantém-se através de fraude eleitoral, mudanças de Constituição, quando se vê ameaçada mudam a Constituição, e repressão. Milhares de mortes pelas milícias e pela repressão policial, mas sempre tudo legitimado pelo antiamericanismo. Estamos aqui para resistir aos Estados Unidos, portanto é uma alegria ser pobre, miserável e reprimido, porque somos livres perante os americanos. Esse é o tipo de regime que existiu na Venezuela e existe ainda na Venezuela.

E continua a existir até à altura em que estamos a gravar. Muito bem, e é assim que nós acabamos o "O Resto é História" desta semana. Nós voltamos para a semana. Até lá.

E o resto é história. É apenas pomba arte. Do Vicente e Platra ainda na zona do Chiado. Aqui posto de comando da Polícia Militar das forças armadas. Quer transformar este país numa ditadura. Atenção! Com João Miguel Tavares e Rui Ramos.