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Ilvens Dourén na Rádio Observador e também em vídeo no YouTube e nas redes sociais do Observador. Hoje com a Judite França, Anselmo Crespo e o Nuno Gonçalo Poças. Ainda vamos à reação de André Ventura às críticas de Pedro Passos Coelho, ao pedido de demissão da Ministra da Saúde feito pelo PS. Também vamos olhar para a mais recente medida de pagar melhor as horas extra aos médicos e antes de terminarmos ainda vamos ter uma nota sobre o antivírus que anda por aí a levantar muitas perguntas. Mas começamos pela concertação social e o fim da longa fase de negociação. Muito drama que terminou, Judite França.

É verdade.

Acabou?

Não acabou. Agora vamos partir para o Parlamento e vamos continuar neste dramalhão. Não tinha pensado falar sobre isto, mas há pouco, depois de termos ouvido a CIP falar dos cinco pontos que apresentou e da UGT dizer que não foi apresentada nenhuma proposta e da ministra dizer o mesmo, que não foi apresentada nenhuma proposta de ambas as partes, a pessoa fica um bocadinho na dúvida sobre pra que serviu aquela traça de uma preta feita ontem pela CIP. Se não servia pra nada, ou seja, se era como se não tivesse existido chegar à concertação social e como se o dia de ontem não tivesse existido, não se percebe muito bem o que aconteceu. A CIP chegou e disse: "Olha, aqueles cinco pontos que a gente apresentou ontem na televisão, os senhores concordam ou não?" "Não." Pronto. Então tá bem, então chumba. E é assim, não há uma proposta formulada no papel pra passar pro outro lado da mesa, pelo menos. Não é preciso enviar por carta registada, pode-se passar pro outro lado da mesa um conjunto de propostas e dizer: "Eu tenho que levar ao Secretariado Nacional." Pronto, leva ao Secretariado Nacional. Como ficou, parece que ao fim de nove meses e de dezenas e dezenas de reuniões, acaba assim de uma forma estranha, quando a CIP faz cedências em toda a linha. Tenho muita dificuldade em perceber esse tipo de negociações. Acho que são muito pouco úteis, como se vê. Comem muito tempo e depois não têm efeito prático nenhum. Já percebemos pelas declarações do Partido Socialista que o PS vai chumbar no Parlamento, seja aquilo que for que o governo leve, que não se sabe sequer o que é, mas já está chumbado à partida, que também é sempre uma boa perspectiva. E o Chega quer uma coisa em troca que não é fazível. Isto está morto à nascença e o Presidente da República agradece não ter que lidar com este problema, porque assim não vai ter que promulgar ou chumbar.

Nuno, seguiste com atentamente esta negociação?

Nem dormia.

Eu não sei se já aqui partilhei convosco o quão farto estou disto.

Sim. Mas eu quero te dar a oportunidade para voltares a partilhar.

Pois, eu e imagino que praticamente toda a gente. Houve uma altura que vi uns vídeos em que seis tipos que iam com um caixão e havia uma música muito animada e eles iam assim. Eu acho que estas reuniões, se calhar foi esta última reunião de concertação social, foi mais ou menos isso. Ou seja, eles estão lá todos, sindicatos, patrões e o governo, e vão todos com o caixão fazer a sua cantiga.

Pra quem nos está a ver em vídeo, o Nuno Gonçalo Poças está a ensaiar uns movimentos de ombros.

Sim, não me lembro é bem da música.

Ainda bem.

Era uma coisa pastelhada.

É uma coisa horrível.

É mais ou menos isso. Isto já devia estar no Parlamento há muito tempo, já devia ter eventualmente até sido votado e provavelmente chumbado no Parlamento. E o assunto estava mais ou menos acabado e já perdemos demasiado tempo com isto. Parece aquele álbum dos Morrer Mortos: "há muito tempo que nesta latrina o ar se tornou irrespirável."

Grande poema.

É um bocadinho isso. Agora, se finalmente vamos pro Parlamento, veremos. O Chega talvez seja ele próprio a concertação social, pode fazer de CGTP do governo e de patrões ao mesmo tempo.

Anselmo. Todos os vossos comentários começam com um suspiro, o que não deixa de ser simpático. Suspiro de enfado.

O meu suspiro é solidário aqui com o Nuno, porque eu também já não aguento este tema. O meu primeiro comentário é: qual é a surpresa com o que aconteceu hoje? Nenhuma.

Eu tenho uma, mas já partilhei contigo.

Tens uma surpresa pra nós?

Sim, ainda tenho uma coisa que me surpreendeu.

Pegando no que a Judite disse, eu acho que o nosso problema é que nós vamos de drama em drama até o drama final. E o grande drama final, eu acho que é esta incapacidade do país, das instituições, das organizações, se entenderem sobre o básico, que não é de estarem de acordo sobre tudo, não é de terem que pensar todas da mesma maneira, mas é de encontrar uma plataforma de entendimento que nos possa, já não digo levar a dar um passo em frente, meio passo, só um meio passo pra frente. Uma pessoa olha pra isto, eu volto a dizer, nós debatemos mais a forma do que a substância. Ainda hoje as declarações à saída eram sobre forma. Deu papel, não deu papel, depois apareceu o papel, depois não veio o papel, e depois não sei o que do papel, e o papel pra frente, e cinco propostas, e 22 propostas. Eu estava no carro a ouvir isto, estava a me pôr nos sapatos dos ouvintes. Mas estão a falar de quê? Quem é que sabe do que estes senhores estão a falar? Ninguém. A sério que não é possível chegar a um acordo? A UGT não consegue encontrar uma plataforma de entendimento sobre o banco de horas, que é uma coisa óbvia pra toda a gente, aqui e no resto do mundo. E a UGT não consegue apresentar uma contraproposta, negociar, fazer valer os direitos dos trabalhadores. Não é possível chegar a acordo sobre o despedimento ilícito. De todo. Se os patrões disserem: "Nós damos 1 milhão de euros a quem em tribunal ficar provado." A UGT diz: "Não, não queremos, tem que ser reintegrado."

"Mas é 1 milhão de euros, tem que ser reintegrado." "Mas o trabalhador não quer ser reintegrado." "Tem que ser reintegrado." Foi isto que aconteceu, no essencial, caricaturado, naturalmente. Neste tema, e vamos continuar nos próximos meses, porque o processo no Parlamento não vai ser melhor. Aliás, já temos aqui uma espécie de trailer: baixe-se a idade da reforma, senão não assinamos. Está feito. É só esperar pela estreia da segunda temporada deste pacote laboral. O que vai continuar a acontecer é que vamos perder mais tempo a debater isto, vamos ser condenados a discutir isto mais seis meses, pelo menos. Eu já prefiro que isto não vá para Belém, porque se for para Belém, depois ainda são mais dois meses até o Presidente da República decidir.

Eu fiquei surpreendido com isso mesmo que acabaste de escrever. Eu, se calhar, sou naïf, mas já aqui ando há uns anos, já vi muitas coisas, mas o grau de-

Displicência?

Sim, talvez de amadorismo com que estes responsáveis de confederações patronais sindicais falam sobre a vida comum, que é a nossa, que é a vida de quem trabalha, com essa coisa do: "Eu não trouxe papel. No papel não vinha escrito, se não vem escrito, não aceito." E o outro diz: "Não é preciso vir escrito, toda a gente sabe."

"Mas se quiser papel, eu vou ali e já lho dou."

"Arranje um papel." Tudo isto deixa-me, confesso, um pouco chocado. Porque acho que isto é desconsiderar as pessoas.

A minha explicação é que já ninguém estava a levar isto a sério há muito tempo. Nós já debatemos isto tantas vezes aqui que eu acho que até já disse isto várias vezes. Desde a greve geral que estava na cara que a UGT não queria assinar nenhum acordo e portanto podiam lhe oferecer o que quisessem que a UGT não ia assinar nada.

E a única forma de descartar as cedências de ontem da CIP foi dizer isto: perguntaram as cinco cedências. "Não, não está escrito." Pronto. Foi uma forma de descartar aquilo que era evidente, porque a CIP cedeu em toda a linha. Aliás, aquilo já não é reforma nenhuma.

Eu também acho que o que a CIP fez ontem foi tentar chamar o bluff da UGT, basicamente. Aquilo foi: "Então agora vamos lá ver. É esse o problema, são cinco, nós cedemos nas cinco." E a UGT basicamente disse: "Afinal não são cinco, são 22." Pronto. E se cedessem nas 22, a UGT dizia: "São 200, esquecemos."

Querem deixar alguma nota?

Para isto vou dar um zero. Acho que todo este processo é péssimo.

Vou dar um sete, só para ficar assim o número mais bonito.

007. Genial. Soubera que eu percebi.

Da música para o cinema.

Isto é um grande show. Nuno, tu ainda não tiveste a oportunidade de te pronunciar sobre André Ventura e as críticas de Pedro Passos Coelho, ao que considera ser o populismo do Chega.

Sim.

Podes aproveitar este momento?

Posso.

Sabes que não pode haver silêncios em rádio.

Eu sei.

As pessoas assustam-se.

Mas podem-me ouvir arfar e perceber mais ou menos aquilo que me está a ocorrer. O André Ventura chegou mais ou menos àquele ponto da maturidade ou quase uma espécie de necessidade de definição, que de alguma maneira vai acabar por ter que tomar.

Emancipação do pai.

É mais ou menos isso. Isto é mais ou menos o que acontece. Quando eu estava a vir para cá e estava a me lembrar disso, que o senhor de Villefort, que foi o delegado do procurador-régio que mandou prender o Edmond Dantes, futuro Conde Monte Cristo, no Château d'If, dizia a determinada altura que para falar de imperialistas ou bonapartistas e realistas, são duas grandes diferenças, que é aqueles que querem levar o rei à guilhotina e o povo ao trono. E portanto, toda a gente que, de certa maneira, opta por uma dessas duas versões, a determinada altura aquilo vai acabar por lhes correr mal. E eu acho que o André Ventura, ainda por cima, optou pelas duas, ou seja, vendeu a ideia de que queria levar o povo ao trono e ao mesmo tempo mostrar ao povo que podia levar o rei à guilhotina. E neste momento acabou por escorregar numa casca de banana que lhe foi autoimposta, ainda por cima, que foi esta questão da baixa da idade da reforma. Nisso eu acho que Pedro Passos Coelho tem razão, que ao contrário até do que algumas pessoas já vieram dizer, que o Chega está a ser socialista, etc. Não, Passos Coelho tem razão. Nem os socialistas se arriscam a avançar com uma proposta dessas.

A última grande reforma foi feita precisamente pelos socialistas.

Exatamente. O último aumento da idade da reforma.

O fator de sustentabilidade é uma criação, e bem, já agora, de Vieira da Silva. Que salvou a Segurança Social pela segunda vez.

E portanto eu estou muito curioso para perceber de que forma é que aquele milhão e tal de eleitores, como é que o grande público, como é que o eleitorado tradicional do centro-direita, que pode estar mais ou menos descontente com a AD, mas que estava ali com um pé dentro, um pé fora e não sabe muito bem, se isto de fato pode marcar aqui um ponto de inflexão ou não. A partir de agora, ele vai ser obrigado a escolher. Que era uma coisa que eu acho que o governo, pelo menos essa é a minha interpretação, Pedro Passos Coelho tambémTentou explicar, talvez não da forma mais hábil. No fundo, obrigar André Ventura a escolher o que ele quer fazer. Quer ser a CGTP, os patrões e o governo ao mesmo tempo? Quer ser só a CGTP? Quer ser só os patrões?

O que a experiência nos mostra é que ele pode ser o que quiser.

Mas isso tem um limite.

Aparentemente, nada o afeta.

Mas isso tem um limite, e eu acho que este pode ser um ponto importante.

Tem?

Sim.

Tem um limite?

Sim. Toda gente tem um limite.

Por acaso não concordo muito com o Nuno.

Não sei. Eu acho que tem um limite e acho que foi um bom tiro no pé que deu com isso.

Já se andou a falar nesse limite, repetidamente, e quando chega ao limite, cresce.

Os resultados das últimas presidenciais já são, de certa maneira, uma manifestação de um limite.

Anselmo?

O único ponto em que eu não concordo ou tenho uma leitura diferente é, para já, não acho que seja nada o limite. E segundo, eu acho que André Ventura usa sempre a mesma estratégia. Em 2024, André Ventura disse: "Só aprovo o orçamento de Estado se fizerem um referendo à imigração". Como é evidente, ele sabia que não ia haver nenhum referendo à imigração, mas também sabia que não ia aprovar o orçamento de Estado. Portanto, ele basicamente inventou um facto político para justificar um chumbo e, sobretudo, para ter uma narrativa que pudesse explicar ao país porque não ia aprovar o orçamento de Estado. E agora, com a reforma laboral, parece-me que ele está a fazer exatamente a mesma coisa.

Mas o tema que ele põe em cima da mesa, desta vez diz mais a muito do seu próprio eleitorado.

Desta vez, ele inventou este facto político. Ele pensou: "O que eu vou dizer? Só aprovo a reforma laboral se encontrarem petróleo? Não, isso não vai dar. Vou dizer baixar a idade da reforma." E eu acho que isso tem um objetivo eleitoral, ou seja, eu acho que ele está a pescar o olho a uma parte do eleitorado. E é aí que eu divirjo um bocadinho de ti. Nomeadamente, uma parte do eleitorado que defende, ou alguns setores que defendem que, pela profissão que têm, devem ter uma idade de reforma mais antecipada. Polícias, bombeiros, professores. E eu não sei se isto não vai acabar aí, porque André Ventura já fez duas inflexões nesta proposta, nesta ideia. A primeira era baixar a idade da reforma do curso, depois já era o fator de sustentabilidade, afinal era tirar o fator de sustentabilidade. Afinal, a idade da reforma não é uma condição pra ele aprovar o pacote laboral. E, portanto, vamos ver como é que termina estas evoluções de André Ventura.

Mas eu acho que essas evoluções-

E se isto não é um pescado de olho a uma parte do eleitorado.

Ele obrigou-se a fazer isso precisamente por isso, porque percebeu que pra aquele segmento eleitorado que ele ainda não tem, que é o que neste momento está no espaço à D ou nos indecisos, mais ou menos aquela área, não olharam pra isto de boas olhos.

Queres deixar uma nota?

Vou deixar um oito ao André Ventura, uma negativa alta, porque dou-te barato sempre que pode acontecer qualquer coisa muito positiva.

E já voltamos para a segunda parte de "E o Vencedor É". Ainda vamos falar sobre o Antavírus. "E o Vencedor É", segunda parte. Oi, diabo. Agora estava me a ouvir aqui em loop.

Em eco.

Sim, era o meu computador que estava ligado. Peço desculpa. Agora sim, estão reunidas as condições para prosseguir com a segunda parte de "E o Vencedor É", na rádio e em vídeo, com a Judite França, o Anselmo Crespo e o Nuno Gonçalo Poças. Anselmo, queres ir a um pedido de demissão avançado pelo PS? O PS quer a demissão da ministra da Saúde.

E de forma muito indignada. Eu primeiro queria só dizer que eu próprio fico muito indignado quando ouço Mariana Vieira da Silva, o PS em geral, mas no caso de Mariana Vieira da Silva, fico ainda mais indignado, porque ela foi a número dois de um governo liderado por António Costa durante oito anos. Oito anos, não foram oito meses. E agora vem com a maior lata, pra não chamar outra coisa, pedir a demissão da ministra da Saúde. E atenção, eu acho que não faltam motivos para criticar a ministra da Saúde. Agora, acho que também é preciso algum decoro quando se está na política e sobretudo quando se pertence a um partido como o Partido Socialista. Eu sei que há aqui uma espécie de tradição entre o PS e o PSD, como vão alternando no poder. O PSD quando está na oposição pede a demissão de toda a gente. E o PS quando está na oposição também pede a demissão de toda a gente. Eu sei que deve estar lá na lista de tarefas deles de, na oposição, pedir a demissão da ministra da Saúde, ministra da Administração Interna, é tudo igual. O PSD fez exatamente a mesma coisa durante os oito anos do governo de António Costa. A crise do INEM, já houve N situações na saúde que são da responsabilidade direta da gestão deste ministério. Agora, os números que saíram e o motivo pelo qual o PS vem agora pedir a demissão da ministra da Saúde, podemos estar ali a analisar se as listas de espera subiram mais 10 ou 20 por causa da inação deste ministro ou não. Mas há uma questão que eu acho que não é discutível, que é: nós chegamos até aqui pelas políticas erradas que foram praticadas neste governo, nos governos todos anteriores e se quisermos ainda vamos aos do PSD anteriores e aos do PS anteriores. Portanto, se calhar, parávamos com esta forma de fazer política que já ninguém consegue levar a sério. Sinceramente, não dá pra levar a sério, a não ser que tenha um cartão partidário e que seja muito ativista do seu próprio partidoE começamos a fazer política apresentando propostas, colocando sugestões em cima da mesa, formas de resolver os problemas em cima da mesa, questionando o governo, naturalmente, escrutinando o governo, mas sem andar a marcar declarações completamente patéticas a meio da tarde, às quais o país não ligou nenhuma, felizmente. Ligou tão pouco que depois o próprio secretário-geral teve que vir reforçar o que a Mariana Vieira da Silva tinha vindo dizer, porque eu acho que isto não nos leva a lado nenhum. E não faltam, e essa era a segunda parte do meu tema. E não faltam motivos pra nós escrutinarmos o que está a ser feito. Eu já elogiei aqui duas medidas que este governo tomou e que, já agora, um governo do Partido Socialista também tentou tomar no passado, e não foi bem-sucedido, que é a centralização das urgências. Porque é basicamente constatar o óbvio, que é se não há profissionais de saúde pra termos todos uma urgência à porta de casa, nós vamos ter que encontrar uma solução qualquer. Não é a ideal. Não é, mas é melhor do que aquela que tínhamos antes. E a questão dos tarefeiros, ou tentar regular minimamente a questão dos tarefeiros. Mas hoje o governo tomou uma decisão que me parece completamente errada. O governo decidiu aumentar hoje as horas extraordinárias para os médicos que fazem urgências e aumentou-os entre 40 a 80%.

O que é o corte de horas?

O que o governo está a fazer com isto? Está a resolver um problema? Não. O governo está a estruturalmente repensar a forma como o Ministério da Saúde está organizado e os hospitais estão organizados? Não. O governo está a atirar dinheiro pra um buraco sem fundo, que tipicamente são estes os erros mais comuns na saúde nos últimos anos. Por isso é que já vamos com orçamento de 18 mil milhões de euros na saúde e depois olhamos pros resultados que isto entrega e é o que nós sabemos. E o que o governo está a fazer é tentar apagar um grande incêndio com um balde d'água. É basicamente isto que o governo está a fazer.

Mas ao mesmo tempo, o governo tem que lidar com o problema dos médicos tarefeiros, não é?

E bem. E esse processo.

E esse problema é um problema muito difícil de lidar, porque prometem greve e se entrarem em greve, paralisam todas as urgências. Isso que não haja a mínima dúvida. E, portanto, aqui é uma forma de tentar fazer com que os médicos não saiam do sistema, pagando melhor as horas extraordinárias. Não faço ideia se é uma boa medida, se não é.

Eu percebo, mas repara. Imagina que em vez de estarmos a despejar dinheiro para tentar evitar a saída dos médicos, imagina que o governo começava a pensar: e se, é só uma ideia, e se os médicos conseguirem ser mais eficazes nos tratamentos, demorar menos tempo, por exemplo? E se os médicos conseguirem acompanhar melhor os doentes que têm doenças mais prolongadas ou mais crônicas e com isso evitar menos idas às urgências? Ou seja, o meu ponto é: as políticas públicas pra saúde tipicamente são vamos atirar dinheiro pra cima do problema, nunca são vamos tentar evitar porque que há tanta gente a recorrer às urgências. Porque não há respostas nos cuidados de saúde primários. Não existe outro tipo de respostas. E, portanto, isto chama-se pensar a saúde com alguma eficiência. Claro, tu vais sempre precisar de urgências e vais sempre precisar de médicos nas urgências. E o que tu estás a dizer sobre os tarefeiros é rigorosamente verdade, pois aí tem que haver capacidade política pra negociar, tem que haver muito jogo de cintura para conseguir fazer um equilíbrio entre aquilo que tem que ser feito. Porque basicamente os médicos tarefeiros tornaram-se uma vaca leiteira bastante apetitosa pra muita gente, pra muitas empresas.

Estamos a falar de milhões de euros.

Pronto. E, portanto, eu percebo, quando se vai mexer no dinheiro de alguém, esse alguém vai reagir, como é evidente. Agora, se explicarmos bem isto ao país, se fizermos isto com cabeça e se tentarmos negociar as coisas bem negociadas, isso também se faz. Seja como for, eu acho que o governo está aí na direção certa no caso dos tarefeiros. Agora, a medida de hoje, ainda por cima, a seguir vem a Ordem dos Médicos a dizer: "Nem sequer fomos ouvidos, isto não vai resolver nada e os médicos não querem saber disto pra nada."

Nuno, tu estás com o PCP mais do que não importa...

Como assim?

Porque o PCP nunca pede a demissão de ministros, o que quer é mudança de política.

Pois é, bom, Ricardo. É verdade. Não, outra vez, estou com o PPC.

PPC?

Sim, que é esta malta que anda praí na política. Eles, na verdade, não querem mudar grande coisa. Eu conheço-os a todos.

Estás a falar de Pedro Passos Coelho.

Depois não queres ser chamado de passista.

É uma chatice, o homem cada vez que vem dizer qualquer coisa, eu concordo com ele, também não é fácil. Se ele falasse todos os dias, se calhar era mais fácil discordar.

Mas passista é tua tia, não sei o quê.

Exato. O Pedro Passos Coelho é possista, vocês é que não sabem. Mas eu queria fazer uma nota só sobre a questão inicial do Anselmo, ainda pegando talvez no tema anterior. É que de fato, o PS e o PSD habituaram-se a viver nesta ideia de que são eternamente substitutos um do outro. E de fato, se as coisas continuarem assim, como se sentisse que as pessoas não reagem a estas coisas com algum enfase, com alguma ideia de "lá estão eles outra vez e depois vira o disco e toca o mesmo." Então aí, se calhar, eu estou convosco e o André Ventura pode dizer aquilo que lhe apetecer, e que vai sempre ganhar alguma coisa com isto. Portanto, se ao fim deste tempo todo ainda não perceberam que não dá pra continuar a fazer política como se fez nos últimos 30, 40 anos. Acho que não chega tanto, mas desde o cavaquismo pra cá, enfim, quando se estabilizou a ideia de fato que os dois partidos eram a alternância ou não alternativa, dependendo das alturas.

De facto, o caso não está muito bem parado, mas parece que foi tudo criado nesta escola e como se essa realidade fosse imutável. E a realidade está a bater-lhes à porta e a mostrar que, de facto, pode mudar.

Anselmo, queres dar a tua nota?

Eu podia dar só ao PS e a Mariana Vieira da Silva, mas acho que não seria justo, até tendo em conta aquilo que eu disse. Eu acho que isto não é um exclusivo do Partido Socialista. Eu dou um sete a esta maneira de fazer política, que claramente está a ser desacreditada pelo próprio eleitorado. Basta começar a olhar para os resultados eleitorais e mesmo quem ganha tem dificuldade em ganhar com maioria. Portanto, eu acho que estes dois partidos ou percebem que têm, como dizia o Nuno, virar a página, ou então isto vai acabar muito mal.

Judite, e a menina quer classificar?

Eu quero dar uma nota a esta proposta da ministra da Saúde. Concordando com o Anselmo, acho que é preciso fazer alguma coisa para lidar com a questão dos médicos tarefeiros, que eu acho que é o grande elefante com que a ministra tem que tratar e a melhor maneira de comer um elefante é cortá-lo às postas, como se sabe. E, portanto, vamos ver no que esta questão das horas extra vai resultar.

Amanhã a Judite explica como é que se põe um elefante no frigorífico.

A metáfora é que é preciso decompor o problema. Era uma metáfora.

Sabes como é que se põe um elefante no frigorífico?

Abre-se a porta, põe-se o elefante lá dentro e fecha-se a porta.

Não. Tiras a girafa e pões o elefante. Não é assim tão fácil. Nuno, por que estás farto do Anta vírus?

Não, eu não estou farto do Anta vírus, eu estou a adorar o Anta vírus, que nos está a pôr todos em polvorosa. Eu tenho acompanhado a coisa, como acho que toda a gente tem visto, e hoje houve uma médica epidemiologista da OMS que veio explicar que nós estamos a falar de uma coisa transmissível, como a Covid-19, que é uma coisa muito específica e está confinada a um navio, e ainda por cima é um navio que está cheio de gente, estão lá cinco pessoas. Mais do que uma nota, eu queria deixar aqui um apelo, porque nós temos vivido nessa base ou com essa perspetiva em relação a quase tudo aquilo que nos vai acontecendo coletivamente nos últimos anos, talvez na última década, ou mais, que é à cata de um apocalipse a cada virar de esquina. E eu tenho visto muita gente, nomeadamente pivôs de televisão, que estão excitadíssimos com a possibilidade de-- faz-me lembrar 2020, uma altura em fevereiro, princípio de março, quando parecia que já havia alguma desilusão por não termos ainda Covid em Portugal. Ainda não tinha chegado. "Que chatice, mas chega ou não chega?" E levavam-se carradas de médicos, infeciologistas, virologistas, epidemiologistas e tudo o que mais havia. E eu desta vez gostava que não se fizesse exatamente a mesma coisa. Parafraseando Rodrigues de Carvalho: "Tenham noção."

E queres dar alguma nota?

Não, ao vírus, 20, porque é capaz de pôr toda a gente excitada, uma espécie de pau de cabinda televisivo.

Isto está muito forte.

Vamos ser cancelados.

Olha que há crianças no carro. E agora estão a perguntar para que isso serve.

Agora vou ter que explicar. Aliás, talvez eu próprio quando chegar a casa tenha que explicar, agora que estou a pensar nisso. Mas não é garantido.

E com o elefante no frigorífico ainda anda para guardar.

As minhas filhas não veem programas para maiores de 18.

Fazes como a Ventura: "Olha ali uma girafa no frigorífico." E amanhã há mais "E o Vencedor É?", nas manhãs 360. Junta-se ao José Manuel Fernandes e ao Paulo Ferreira, a Ana Salés e a Sara Antunes de Oliveira.