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"Fora do Baralho", o nosso episódio dominical dedicado às perguntas dos ouvintes. É muito fácil enviar perguntas ou comentários para que um dos membros do nosso painel responda ou comente. Basta enviar um e-mail para foradobaralho@observador.pt. E hoje cabe ao Jorge Fernandes responder. Olá, Jorge, bem-vindo.

Olá, Ricardo.

E hoje vamos responder aqui a duas perguntas, uma da Marinalva Souza e outra do Renato Azevedo. Vamos começar pela pergunta do Renato Azevedo e eu vou ler o texto que nos enviou. Pergunta ele: "Consegue nomear um ou dois ministros dos últimos 15 anos que considera ter feito um bom trabalho com a pasta que lhe foi dada para governar?" Acrescenta o Renato: "Confesso que a maior parte das notícias que vejo retrata sempre maus ministros, ficando-se sem saber se realmente existiu algum ministro que durante este período tenha tido um bom mandato." Encontras aqui um ou dois ministros nos últimos 15 anos, Jorge, que foram bons ministros?

Antes de mais, agradecer ao nosso ouvinte, o Renato, por ouvir o nosso programa e por enviar-nos as perguntas. Certamente que se encontra vários, não só um ou dois, encontramos vários ministros que foram bons. Eu não vou cometer a deselegância de dizer nomes de pessoas boas ou más. Eu acho que pra percebermos muitas vezes aquilo que acontece relativamente às pastas ministeriais, temos que perceber duas coisas no fundamental. Em primeiro lugar, é que muitas vezes é a própria pasta ministerial que faz a pessoa. Isto é, há pastas que por definição são aquelas pastas onde as pessoas têm mais exposição pública, onde aquilo que o ministério trata, no fundo, tem um impacto mais direto na vida dos cidadãos. Posso dar um exemplo clássico. Por exemplo, a pasta dos Negócios Estrangeiros é uma pasta que tipicamente o cidadão médio, todos nós em Portugal, temos muito pouco contato com essa pasta e aquilo que o ministro ou a ministra dessa pasta faz, tipicamente passa muito ao lado da vida do dia a dia das pessoas e é geralmente mais seguido ou por elites ou então só quando acontece alguma crise diplomática. Por outro lado, ministros que têm pastas como a Saúde, a Educação, que controlam bens públicos, que são coisas com as quais as pessoas contactam diariamente. No fundo, o contato da maioria das pessoas com o Estado é precisamente com a escola dos filhos, com os hospitais, com os centros de saúde, eventualmente com a justiça. Portanto, este tipo de pastas, independentemente da qualidade da matéria-prima do ministro ou da ministra, tendem a ser pastas altamente complexas e onde as queixas são muito maiores. Portanto, aquilo que o ouvinte está a dizer é uma impressão correta. O que acontece muitas vezes é que existe aqui um enviesamento para as notícias, que não é um enviesamento incorreto, necessariamente, mas é um enviesamento que faz com que as notícias coloquem mais foco em matérias que são mais do dia a dia. Por outro lado, às vezes, podemos pensar ainda numa terceira categoria de ministérios, que são aqueles ministérios que não têm o enfoque do dia a dia das pessoas.

Relevância noticiosa.

Não têm relevância noticiosa, mas cuja ação muitas vezes tem consequências a longo prazo. Eu vou dar aqui um exemplo. Hoje em dia, todos nós estamos a falar de habitação, mas, por exemplo, há 10 ou 15 anos atrás, a habitação poderia estar escondida numa secretaria de Estado ou num ministério qualquer, nem imagino muito bem. E a habitação nessa altura poderia não parecer relevante, mas foram precisamente as políticas ou a ausência de políticas naquele momento, no ministério, que os cidadãos não tinham contato direto no dia a dia, que nos trouxeram até aqui. Portanto, muitas vezes, mais do que a qualidade do ministro, e há pessoas notoriamente fracas, mas também há pessoas notoriamente competentes. Eu vou dar aqui um exemplo, uma pessoa que eu gosto e já falei dela muitas vezes, por exemplo, Fernando Alexandre é uma pessoa notoriamente competente, a quem foi entregue uma pasta, não vou dizer impossível, mas uma pasta muito difícil e que tipicamente corrói a credibilidade política e midiática das pessoas que a ocupam. E portanto, muitas vezes, pessoas até com grandes capacidades técnicas, com qualidades humanas, que se dedicam à coisa pública, veem a sua credibilidade, de alguma maneira, e a sua reputação posta em causa, porque muitas vezes ocupam ministérios que são muito difíceis de gerir e muitas vezes é pelo seu próprio tamanho, inerentemente.

Educação, saúde, administração interna, são sempre pastas complicadas.

As exigências dos cidadãos são também elevadíssimas e com razão, e portanto, tipicamente as pessoas também tendem, no fundo, a penalizar mais estes ministérios com os quais todos nós temos mais contato no dia a dia.

E Renato Azevedo, deixe-me aqui também acrescentar algo que é o que é. Good news, no news. As boas notícias geralmente não são notícia, e isso vê-se até e mede-se pelo interesse do público, dos leitores, dos ouvintes, dos telespectadores. Têm sempre mais interesse naquilo que corre mal do que no que corre bem. Vamos, Jorge, à outra pergunta, neste caso da Marinalva Souza. Fez várias perguntas, eu selecionei esta porque acho que tu vais gostar de responder a esta pergunta: "A onda woke que varreu as universidades no Ocidente está a perder força?"

Esta é uma pergunta altamente complexa. Antes de mais, agradeço à nossa ouvinte a atenção. É uma pergunta altamente complexa, primeiro porque eu acho que não podemos meter o Ocidente todo no mesmo saco. Qualquer pessoa que tenha tido contacto com as universidades europeias e americanas sabe que, à luz daquilo que é a experiência americana, na Europa não houve wokeismo no sentido em que nós o entendemos. Isto é, as coisas nos Estados Unidos foram levadas a um ponto tal que na Europa nem verdadeiramente chegamos a ter qualquer tipo de wokeismo, num país como Portugal muito menos. Dito isto, eu acho claramente que está a haver uma reversão. O que acontece tipicamente em tudo o que é movimento social, tudo o que são tendências sociais, existem coisas que acontecem, muitas vezes como reação ao status quo, e depois existe uma palavra, que por acaso não me lembro agora em português, que é um backlash. Existe alguma reação àquilo que aconteceu. E foi exatamente isso que aconteceu. O wokeismo surgiu, em primeiro lugar, no momento de uma enorme ressaca intelectual da esquerda, quando depois do fim do comunismo e do materialismo histórico, a esquerda se virou para causas pós-materialistas, que estão desligadas da vida das pessoas comuns, e pensou que defender muitas vezes elementos simbólicos de grupos minoritários na sociedade era aquilo que teria sentido naquele momento, muitas vezes em sociedades, de resto, extremamente afluentes, onde as questões materiais estavam já resolvidas. No entanto, aquilo que aconteceu foi que isto foi levado a um ponto de exagero total. E isto não sou eu que estou a dizer. Por exemplo, uma pessoa que é reconhecidamente alguém que é um símbolo até do wokeismo, a Alexandria Ocasio-Cortez, que é uma congressista americana, ela própria, em declarações não muito recentes ao New York Times, já veio dizer que o que ela chamou o woke 1.0, a primeira onda do wokeismo, se calhar tinha sido um enormíssimo exagero e se calhar foi louco demais. Foi essa, de resto, a expressão que ela utilizou. Aquilo que vemos muitas vezes hoje em dia, por exemplo, nos Estados Unidos, para pensarmos no Donald Trump ou em certo tipo de políticas de direita que foram adotadas, é uma reação precisamente a este exagero. E agora o que estamos a ver é a reação à reação. Tipicamente, os fenómenos sociais funcionam nestes balanços e nestes equilíbrios. Agora, o que está acontecendo à esquerda em muitos países europeus e até nos Estados Unidos, vimos, por exemplo, isto nestas eleições intercalares que ocorreram há muito pouco tempo. Se percebermos aquilo que os candidatos vencedores enfatizaram, vemos que a maioria dessas pessoas falou do quê? Do custo de vida, do custo dos alimentos, das dificuldades que as pessoas têm, por exemplo, em aceder a serviços públicos. No fundo, estão a voltar a um conjunto de temas materialistas, estão a voltar a um conjunto de temas clássicos da esquerda tradicional, do materialismo histórico. E abandonaram completamente, ou em grande medida, os temas que poderíamos chamar woke. Se há quatro ou cinco anos atrás ouvíamos nos Estados Unidos os candidatos a fazerem discursos públicos, a falarem de forma praticamente dominante, muitas vezes sobre a necessidade, por exemplo, de coisas que depois foram caricaturadas, mas as minorias, os indígenas, etc. Hoje em dia já vemos muitas vezes até evitarem precisamente esses temas, porque perceberam que foram penalizados. Quanto às universidades, especificamente, as universidades são sítios muito especiais, onde eu acho que têm um poder simbólico muito importante nas sociedades ocidentais, mas cuja influência sob este ponto de vista, muitas vezes é exagerada. O que eu quero dizer com isto? A universidade tem que ser um espaço de liberdade total, onde tudo é possível ser pensado no contexto da universidade. E não podemos ser coarctados na universidade por causa de questões políticas, modas dominantes. É importante que dentro da universidade haja liberdade absoluta, e o ouvinte tem razão, que houve muitos momentos em que, por exemplo, posições mais conservadoras dentro das universidades eram olhadas com bastante desconfiança e muitas vezes sofriam represálias sociais sob esse ponto de vista. Mas as universidades têm mecanismos precisamente para lidar com isto. Por exemplo, o mecanismo do tenure, das posições definitivas para a vida, é precisamente o mecanismo que é utilizado para defender as pessoas que são membros da comunidade acadêmica para poderem dizer aquilo que lhes apetecer, porque o risco de sofrerem alguma consequência, por exemplo, sendo despedidas, é nulo praticamente. Sob esse ponto de vista, muitas vezes as universidades e aquilo que lá se passa é instrumentalizado por atores políticos que querem atacar politicamente coisas como o wokeismo e fazem da universidade e daquilo que se passa lá dentro algo muito maior do que aquilo que na prática aquilo representa na vida do dia a dia dos cidadãos.

Eu sabia que tu ias gostar de responder a esta pergunta que a Marinalva nos enviou. Obrigado, Jorge. E é muito fácil fazer perguntas ou comentários aos membros do painel do "Fora do Baralho". Basta escrever um e-mail para foradobaralho@observador.pt. Foi o que fizeram a Marinalva Souza e o Renato Azevedo. As respostas são dadas aos domingos de manhã na rádio e ficam, claro, disponíveis em podcast. Bom fim de semana. Um abraço, Jorge.

Obrigado, Ricardo.