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E o vencedor é Na Tarde Política hoje, à Judite França juntam-se a Helena Garrido e o Alexandre Borges. Bem-vindos a este vencedor, Alexandre e Helena. Hoje com notas para duas audições parlamentares, uma à Ministra da Saúde, outra ao Governador do Banco de Portugal indignitado, Álvaro Santos Pereira, mas primeiro, Miguel, importa olhar também para aquilo que aconteceu esta tarde às portas do Parlamento.
André Ventura decidiu passar junto à escadaria do Parlamento numa altura em que decorria uma manifestação de imigrantes, geraram-se momentos de alguma tensão. Alexandre, boa tarde, bem-vindo. Como é que interpretas esta atitude de André Ventura?
Olá, boa tarde. Sinceramente, acho que é o número do dia de André Ventura. É preciso alguma paciência, de facto, para lidar com a tentativa de estar continuamente a tentar incendiar os debates, a política nacional, a estabilidade que se pede, que se exige para resolver o que quer que seja. E no caso deste tema em particular, há uns que se tornam mais cômicos. No caso deste tema em particular, eu pessoalmente tenho pouca tolerância em geral, porque acho que é um oportunismo fácil diante de um assunto delicado e que não se devia oferecer este tipo de coisa. Pode-se dançar o que se quiser à volta deste assunto. Portugal, neste momento, se ficasse, por absurdo, sem imigrantes, ou mesmo só sem os imigrantes do Hindustão, que aparentemente são o alvo de André Ventura, ficaria numa situação terrível. Já nem vamos falar de direitos humanos, nem do cumprimento da legalidade, nem do mínimo de empatia. Ficaria numa situação terrível, ficaria numa situação em que num país que está praticamente em pleno emprego, ficaria sem ninguém pra trabalhar na restauração, no setor do turismo, nas obras, nas pescas, na agricultura, ficaria com um déficit terrível na Segurança Social. Nada em Portugal aponta para um problema real com a imigração, ao contrário de problemas na legalização dos imigrantes, especificamente, que se sabe que existiam, estão mais do que assumidos por toda a gente, pelas autoridades, pelo governo, até pela oposição, que em devido tempo fez o seu, não vou dizer mea-culpa, mas recuou, pelo menos, no discurso que tinha antes sobre este assunto. Tentar usar isso, esse discurso importado, importadíssimo dos Estados Unidos e de Inglaterra, como ainda vemos agora mesmo a acontecer há dias, para incendiar os ânimos aqui e misturar deliberadamente tudo, é difícil de classificar como outra coisa que não seja hipócrita ou meramente oportunista. Mas há um lado interessante em André Ventura, ou curioso na forma como ele faz isto. É que normalmente a família política em que André Ventura se vincula e o Chega, é uma família política que se caracteriza mais pelos bullies. Fazem-se em peitaça e ameaçam toda a gente à volta. André Ventura é um tipo especial de bully, é o bully que se faz de vítima. Ele consegue, de algum modo, carregar os dois papéis, porque normalmente o que ele faz é dizer: "Estão a querer calar-nos, a mim ninguém me cala, a mim é que não deixam falar, isto é que é um atentado à democracia", como se não acontecesse outra coisa todos os dias, todo o dia, que não estarmos a ouvir André Ventura falar sobre qualquer assunto e sobre qualquer problema que tenha. Houve até aquele episódio engraçado nas legislativas de 2024, quando ele achou que a comitiva do Chega estava a ser recebida aos tiros quando chegou a uma determinada localidade e afinal eram os rateiros, pra usar essa palavra bonita, das motos dos seus próprios apoiantes que estavam na comitiva. Aqui ele disse hoje, e com isto me calo, ao passar em frente a esta manifestação destas dezenas de imigrantes que estavam ali com certeza de forma ameaçadora, dezenas de pessoas, imagine-se, que o chamaram de racista, ele disse: "Não me deixam falar. Isto é o que fazem nos países deles, silenciar os políticos. Não nos aceitaram nos silenciar." E eu pensei: "Mas do que ele está a falar?" É que normalmente estas pessoas vêm de sítios que têm regimes políticos até, pra usar um eufemismo, musculados. Onde é que silenciam o político? Será que ele está a falar do Gandhi? Se ele está a falar do Gandhi, se ele se sente no lugar do Gandhi, vamos dizer, não foi uma coisa que tenha acontecido na última meia dúzia de anos, mas até vale a pena lembrar que o Gandhi foi assassinado por ser acusado de ter sido demasiado tolerante com os muçulmanos. Portanto, talvez seja preciso rever aqui a história ou as personagens, os papéis em que André Ventura se quer colocar a desempenhar.
Helena, foi o número do dia de André Ventura?
Sim, eu diria que foi o seu primeiro ato de campanha eleitoral. Ele anunciou ontem a sua candidatura às presidenciais, e eu concordando com a irritação do Alexandre em relação àquilo, eu olhava perplexa pra aquelas imagens. Tudo isto tem uma racionalidade, porque André Ventura, primeiro, sabia perfeitamente que naquelas condições ninguém consegue falar. Como é óbvio, ninguém vai se pôr à frente de uma manifestação pra falar para os manifestantes, obviamente. Muito menos André Ventura, que não é especialmente amado por aqueles manifestantes. Portanto, ele tinha uma antevisão daquilo que ia acontecer. Ele fez aquilo que estava à espera ou que ele queria que acontecesse. Com uma série de seguranças à volta e depois teve a sorte ter havido uma pessoa, eu não sei se era jornalista, parecia um repórter fotográfico com sotaque brasileiro, que resolveu entrar em diálogo com ele, porque cada um que entrasse em diálogo com ele era uma sorte Eu achei aquelas imagens fortíssimas. Se eu me colocar no lugar de pessoas que vivem em comunidades que têm este receio de imigrantes que são culturalmente diferentes de nós. Eu, há algum tempo, chamava a atenção, desculpem falar de mim própria, para o problema que se estava a avolumar no país de imigrantes com características culturais muito diferentes de nós e que geram medo, porque as pessoas têm medo do desconhecido.
Do que é diferente.
E aquelas imagens com André Ventura de um lado, "nós somos os portugueses e defender os portugueses e nós temos que defender os portugueses", e do outro lado, as imagens daqueles manifestantes, a esmagadora maioria deles homens, boa parte homens e com características de hindostânicos, é uma imagem que a nós choca-nos por causa do urbanos, intelectuais, se quiseres, e que percebemos as necessidades do país, os direitos humanos, o direito que as pessoas têm de procurar uma melhor vida, que a esmagadora maioria daquelas pessoas são pacíficas. Sabemos isso tudo, mas ele é especialista em explorar o que de pior tem o ser humano, que é o medo e o medo da diferença. E foi isso que ele fez ali, de forma muito racional, eu diria, com uma racionalidade que não nos agrada, obviamente, mas que infelizmente ele também não tem ninguém para lhe fazer frente. Poderia ter noutros tempos o Bloco de Esquerda, mas o Bloco de Esquerda está perdido no Mediterrâneo e não tem ninguém para lhe fazer o outro lado desta história e tentar transmitir às pessoas outro tipo de imagens. Eu confesso que achei aquelas imagens muito fortes e muito a falar para aquelas comunidades que têm medo de imigrantes que não conhecem bem e que nós também não estamos a fazer os possíveis para que elas os conheçam bem. As autarquias deviam fazer uma maior integração cultural, trocar experiências para que as pessoas não tenham medo dessas pessoas. Enquanto não se fizer isso, quem ganha é André Ventura.
E a Helena, Judite, falava no primeiro ato de campanha para as presidenciais de André Ventura, colhe votos estas imagens fortíssimas que a Helena fazia referência?
Eu acho que colhe votos e vai ao encontro àquilo que André Ventura ontem deixou claro que é a sua primeira prioridade, salvo o pleonasmo, que é exatamente a imigração. E portanto, eu acho que Ventura foi ali desafiar, provocar, quando ainda por cima decorria um debate tão importante dentro do Hemiciclo, que era o debate sobre os incêndios. E André Ventura preferiu sair do debate para ir provocar imigrantes. Eu acho que é absolutamente inadmissível, mas concordo, acho que colhe votos junto dessa comunidade que tem receio e acho que essa é a lógica. Essa foi a lógica, foi criar aquelas imagens, foi fazer aquelas imagens, as imagens da vítima perante uma turba de manifestantes. E infelizmente, eu acho que é isso que colhe junto de muitos dos votantes do Chega.
Querem dar notas neste tema, Judite?
Eu dou um zero a André Ventura por esta atitude.
Helena?
Eu não posso dar um zero, porque acho que ele está a ser racional. Eu dou-lhe um 12.
Alexandre?
É engraçado, eu percebendo
Dou um seis.
Eu tinha pensado dar um cinco. Eu dou um cinco só porque percebo que aquilo é politicamente... Quer dizer, percebemos o que ele está a fazer. Mas tem que ser desmontado. E acho que tem que ser desmontado pelo lado racional e não emocional, porque de facto aquele é um discurso que puxa o lado emocional e de facto é preciso atender ao lado.
É o que nós estamos a fazer.
É isso. Exato. Mas não consigo premiar alguém que está a fazer uma política que é não só em termos de direitos humanos errada, como até economicamente prejudicial ao país.
Ficam então estas notas para o tema da presença de André Ventura nesta manifestação. Vamos agora à audição parlamentar de Álvaro Santos Pereira, indigitado governador do Banco de Portugal. É uma audição obrigatória neste processo de nomeação. Helena, Álvaro Santos Pereira tentou aqui marcar diferenças para Mário Centeno?
Ui, que diferenças! E sobretudo, deixou recados. E recados muito a Álvaro Santos Pereira, que é muito sem punhos de renda, por dizer assim. Eu diria que ele pode até ter ido longe demais nalguns recados. Ele vai liderar uma instituição com 1600 pessoas, que é uma corte, tem uma lógica de corte, em que há grupos, e há o grupo do Centeno também, e ele pode ter ido um bocadinho longe demais. Onde é que eu digo que pode ter ido? Um dos recados mais violentos que ele deixou foi no fim da audição, quando ele disse que nunca ficaria nos quadros do Banco de Portugal depois de ser governador.
É um condicionamento para Mário Centeno.
Exatamente. Eu estou a tentar ainda confirmar, mas dá-me a ideia que não houve, de facto, nenhum ex-governador. O único que poderia ter acontecido foi Vítor Constâncio.
Vítor Constâncio, sim.
Mas ele reformou-se e saiu imediatamente.
E vai para o BC?
E a seguir foi para o BC, exatamente. Miguel Beleza não era quadro do Banco de Portugal e mesmo Silva-
Carlos Costa
...Carlos Costa reformou-se, saiu. Silva Lopes também saiu Mário Centeno é capaz de ser o único ex-governador que fica. E é preciso perceber o que ele vai fazer.
Mas é certo que Mário Centeno vai ficar nos quadros do Banco de Portugal?
Eu indico que sim. Ele é quadro do Banco Portugal, se quiser, fica. Se quiser, pode ficar.
E o cargo frequentemente dado a ex-administradores é o cargo de consultor da administração, que tem um belíssimo salário, que é o mesmo salário do governador.
Exato. Ele praticamente vai ganhar o mesmo. Vai para um daqueles gabinetes. Agora já não é no mesmo sítio, mas havia aqueles gabinetes ótimos ali na Feira Moniz, todos forrados de madeira, com acesso a muitos papers de todo o mundo e muitas bases de dados, que também era o meu sonho, bases de dados e papers. Sim, vai pra aí. Eu diria que uma outra alerta, uma outra frase, digamos assim, relativamente agressiva de Álvaro Santos Pereira, foi quando ele disse que quem quisesse exercer atividade partidária deveria pensar um bocadinho, porque podia pôr em causa a independência do Banco de Portugal, e ainda em relação à sede, e essa é direta a Mário Centeno, são duas diretas, que no lugar dele não teria tomado uma decisão em fim de mandato. Portanto, isto promete. Não sei se Álvaro Santos Pereira optou pela melhor estratégia, que é entrar já num confronto direto com Mário Centeno.
Visando que objetivos, Helena?
Ele sabe que Mário Centeno pode criar problemas. Mário Centeno é uma voz muito forte, é muito popular. Não sei se ainda é, mas mesmo como ministro das Finanças, ele foi sempre um ministro das Finanças popular. Como governador do Banco de Portugal, ele andou pelo país todo, especialmente numa altura em que se especulava que ele queria ser candidato a presidente da República. Mário Centeno tem ambições políticas, não sei se as vai conseguir concretizar, mas tem. Nós vimos várias vezes. Eu acho que ele esteve tentado a candidatar-se a presidente, mas não era exatamente o que ele gostava. O que ele teria gostado era ser primeiro-ministro, como nós também nos lembramos desse caso. E Mário Centeno dificilmente fica calado e tem uma outra característica que foi revelada nesta sua carreira: é vingativo. E isso mostrou com Carlos Costa, especialmente com Carlos Costa, e muito relacionado com o famoso concurso que um dia a história ainda vai contá-lo em condições. Eu diria que Álvaro Santos Pereira deveria ter sido um bocadinho mais prudente. Mas de qualquer forma, em termos globais, a sua audição, ele vestiu já o papel de banqueiro central. A Judite também queria falar.
A Judite vai falar disso, mas estávamos a falar da audição de Álvaro Santos Pereira no Parlamento. Judite, vamos ter um governador do Banco de Portugal muito diferente de Mário Centeno?
Eu acho que vamos ter um governador do Banco de Portugal que não enverga bem a capa do governador do Banco de Portugal. É um governador do Banco de Portugal um pouco diferente, um pouco mais frontal do que é habitual para um governador que costuma ter um bocadinho mais de cerimônia nas coisas que diz. E acho que Álvaro Santos Pereira, que se diz sempre muito frontal e muito transparente, quer ser de outra forma. E acho que foi muito claro na forma como criticou Mário Centeno, foi muito crítico de Mário Centeno. A Helena já elencou esses momentos. Acrescento-lhe só a questão das nomeações e aproveitou para dizer que aquele que foi nomeado na reta final como chefe de gabinete de Mário Centeno não vai ficar, e explicou que o lugar de chefe de gabinete é um lugar de nomeação de alguém que tem que ser da máxima confiança e, portanto, que não fazia sentido de outra forma. E aliás, vai buscar para sua chefe de gabinete aquela que esteve no Ministério da Economia quando foi ministro da Economia. Mas depois tivemos os recados sobre as decisões estruturais que não devem ser tomadas no final do mandato. E aí falou precisamente da questão da sede. E eu acho que isso ainda vai ser um dossiê que nos vai deixar presos à cadeira.
Vamos ter que falar disso muitas vezes.
Muitas vezes, sim, no dossiê da nova sede. E acho sinceramente que aquilo que disse foi: "Eu não decidiria sobre a construção de uma nova sede quando estou mesmo de saída". Depois também ficou claro que não vê como uma ameaça à independência a auditoria da Inspeção Geral de Finanças, e ainda bem, mas deixou claro uma coisa: não há auditorias realizadas por instituições sujeitas a controle político, portanto, se for preciso uma auditoria, quem vai fazer é o Tribunal de Contas, e que não haja dúvidas sobre isso. Portanto, também deixou o recado ao Ministério das Finanças.
Esteu o fato já há muito tempo.
Esteu o fato e disse logo tudo que tinha a dizer. E eu acho que tirando aqueles momentos de sarcasmo com alguma graça, como por exemplo, responder a Mendonça Mendes que não era a sétima escolha, mas a 40ª ou a 50ª escolha, mostrando que não está minimamente afetado pelo fato de não estar na pool que se falava desde o início. E vê-se que não está afetado por isso, quer dizer, que lhe é completamente indiferente, que aceitou o cargo e, portanto, que o vai levar daqui pra frente como se tivesse sido a primeira escolha. E eu acho que ponto isto é um bom arranque para um governador indigitado.
Queres dar já a tua nota, Judite?
Eu vou dar um 14 a Álvaro Santos Pereira. Eu acho esta frontalidade bastante refrescante.
Helena?
Concordo inteiramente, um 14. Quer porque Nós podemos dizer que há um problema, esta frontalidade cria problemas, mas também é uma manifestação de coragem e é mostrar que não tem medo. Ele sabe exatamente os riscos que corre. E depois também porque respondeu bem aos desafios que tem pela frente: independência, mas a manter relações cordiais com o governo, seja que governo for.
Seja ele qual for.
Analisamos aqui a audição do novo governador do Banco de Portugal, Álvaro Santos Pereira. Outra audição esta manhã foi da ministra da Saúde, Ana Paula Martins. Alexandre, conseguiu a ministra dar explicações para os problemas que têm afetado o setor?
Mais ou menos. Andei à procura de uma lista das piores profissões do mundo. Não encontrei nenhum órgão de referência que tivesse feito uma. Perguntando ao Gemini, a IA da Google, deu uma resposta surpreendente. Elencou repórter, não estava à espera disso.
É perigoso.
Em certos sítios. Linhador, bombeiro e DJ. DJ foi verdadeiramente a surpresa nesta lista. Aparentemente, tem a ver com a solidão da profissão e os maus horários de trabalho. Depois, soltos, coisas como ser mascote, aquelas pessoas que têm que vestir fatos de coisas, de ursos quando está imenso calor. Eu acho que logo a seguir a isto deve ir ministro da saúde ou o primeiro-ministro de França.
Na Europa.
São dois lugares que eu não invejo de todos. Quando se pede continuamente a cabeça dos ministros da Saúde, eu acho que isso dificilmente resolve alguma coisa verdadeiramente. E hoje mais uma vez foi dia disso, constantemente a cada falha ou número, aparentemente objetivo não alcançado por Ana Paula Martins, lhe perguntam se acha que tem condições para se manter no cargo. Ela acabou, vale a pena saltar para aí já, a citar Mário Soares com aquela frase que se arrisca a ficar mais batida que a frase do Pimenta Machado no futebol, que era: "O que hoje é verdade, amanhã é mentira". Este tipo de frase que depois perde todo o valor de tanto ser repetida. É a do Mário Soares, que é: "Só é vencido quem desiste de lutar", foi o que a ministra disse hoje e vamos continuar, esquerda e direita, a usar esta frase até ao fim, até que ela de fato não tenha nenhum impacto. Agora, dito isso, sendo um lugar de enorme sacrifício e de enorme dificuldade, há um problema que vai se tornando reincidente com a ministra Ana Paula Martins, que é: ela tende a fazer promessas, a tirar números e lançar prazos para o ar que depois não consegue cumprir. E se todos nós podemos ser razoavelmente compreensivos com a ideia de que não é fácil cumprir e que são problemas muito delicados, já é mais difícil ser compreensivo com o porquê da senhora ministra continuar a insistir em definir estes prazos. Hoje ficamos a saber que nasceram já este ano 50 crianças em ambulâncias ou na via pública, até o fim de dezembro, mais do que em todo o ano passado, que tinham sido, creio que 45. Em todo o ano passado, ainda falta um quarto do ano. Em 2023 tinham sido 33, em 2022 tinham sido 43, mas claramente temos aqui um problema. No dia em que ficamos a saber que em vez de termos quatro helicópteros ao serviço do INEM disponíveis 24 horas por dia, só tivemos três 12 horas por dia. Não é uma diferença escassa. Parece que é uma diferença de um helicóptero. Não, nós não tivemos sequer metade dos meios que estavam prometidos, no fundo, em termos de disponibilidade total. E isto depois de termos tido o fim de semana que também tinha falhado mais uma promessa, de que nunca mais ia ficar o Hospital Distrital de Setúbal sem urgências de obstetrícia e ginecologia durante um fim de semana, e afinal ficou. E por que ficou? Porque diz a ministra que tínhamos aqui sete médicos novos que vinham do privado para aqui e afinal não havia sete médicos nenhuns, havia dois, como ela própria reconheceu hoje. E que há dois que ainda estão a pensar e que há três que responderam à melhor proposta. Hoje, novamente, se comprometeu com mais algumas ideias, como costuma fazer de cada vez que vai responder aos deputados ou que dá uma entrevista, e às vezes é ela que propõe. Ainda recentemente tinha dado uma à SIC, que aparentemente terá sido a própria que se deu a querer dá-la, e que se compromete com ideias. Qual é o problema disso no fim do dia? É que vai haver o momento em que nós não sabemos se podemos acreditar nas promessas que a senhora ministra faz. E aí já vamos ter realmente um problema político sério para resolver. Compreendo a dificuldade do lugar, mas nós temos que poder, nós, povo, nós, população, mas particularmente os atores do setor, poder confiar no que a tutela diz que vai fazer.
Teve uma expectativa criada em torno da capacidade deste novo governo de resolver os problemas por contraposição àquilo que foi a governação do Partido Socialista. Helena, indo ao encontro daquilo que dizia o Alexandre, estes anúncios da Ana Paula Martins são suficientes para dar resposta aos problemas ou são anúncios que depois acabam por cair no vazio?
Eu concordo inteiramente com aquilo que o Alexandre acabou de dizer. O problema da ministra é que vai fazendo sucessivas promessas ou assumindo sucessivos compromissos, que depois não os cumpre, dando ideia que não controla a gestão e que parece sempre surpreendida com as coisas que acontecem. A ministra já lá está há mais de um ano. Já é difícil nós continuarmos a tentar compreender, independentemente das dificuldades, que são muitas, compreender o que se está a passar, porque desta vez a ministra assumiu um novo compromisso, que é concentrar as urgências no Garcia de Orta. Mas este compromisso não vai depender dela. Ela tem que falar com os sindicatos Com a Ordem e o risco deste compromisso também não ser cumprido é enorme. E com mais dinheiro, porque vai pagar suplementos, porque para convencer os sindicatos e a Ordem, provavelmente é com dinheiro que vai conseguir convencê-los para a mobilidade dos médicos e enfermeiros, para manter a urgência fechada. Há aqui um problema com as urgências. Há excesso de urgências, todos os especialistas dizem isso, não há coragem para as encerrar. É preciso lembrar que desde o tempo de Correia de Campos que se está a tentar encerrar a Maternidade Alfredo da Costa e não se consegue.
E estamos em ano de autárquicas também.
Agora com as autárquicas, aqui foi um bocadinho surpreendente ela ter revelado isto, porque deixou Setúbal apenas com o apoio ao INEM.
Deviam ser encaminhados para o Call to.
Exatamente, o apoio também aos telefonemas para o SNS, para a linha SNS 24. Eu diria que vai ter de se dar aqui um salto. A ministra, neste momento, eu percebo o primeiro-ministro, porque na prática a mensagem que ele nos está a dar é: "Eu não vou conseguir encontrar mais ninguém mais competente para fazer isto." Na prática, outra pessoa que vier faz a mesma coisa, mas é preciso, de facto, abordar aqui este problema, porque o Serviço Nacional de Saúde tem muitos outros problemas que precisa de resolver. Neste momento, o Serviço Nacional de Saúde, ainda ontem me chamava a atenção para isso, e corresponde à realidade, está a gastar o equivalente àquilo que nós vamos pagar de IRS este ano. Toda a receita de IRS vai para o Serviço Nacional de Saúde. E portanto, não é com mais dinheiro que se vai resolver este problema das urgências e da falta de médicos. Eu penso que a ministra tem de dar aqui um salto qualitativo, tem de fazer aqui qualquer coisa, eu diria que passa por encerrar urgências, é preciso encerrar urgências, por negociar com a Ordem a possibilidade de ter o número mínimo de médicos não ser tão elevado e por criar os centros de saúde que possam satisfazer alguns dos problemas menos urgentes das pessoas e também dos problemas dos idosos. Há aqui muitas frentes para aliviar os hospitais. Agora, eu penso que a ministra começa a entrar numa fase de maus lençóis.
Helena, deixa-me perguntar-te uma coisa: os sindicatos e a Ordem são parte da solução para este problema?
Eu diria que não, infelizmente, porque também não são parte da solução os partidos, e nós hoje na audição percebemos isso. Lamentavelmente, eu considero que a Ordem dos Médicos, como provavelmente a Ordem dos Advogados, continua com muito poder. Isto é uma herança do Estado Novo, das corporações. Na troika não conseguimos fazer aquela reforma de reduzir o poder das ordens, que estava no programa de ajustamento. Essa condição voltou a aparecer no plano de recuperação e resiliência. O anterior governo de António Costa fez essa revisão, mas a Ordem continua com um poder muito significativo e eu diria que para o número mínimo de profissionais de saúde para uma urgência abrir, eu olhava para o benchmark internacional e para a Organização Mundial de Saúde. Imagino que tenha, não sei se tem, se calhar estou a dizer um disparate, mas haverá benchmarks internacionais, haverá referências internacionais que se possam usar sem que seja uma ameaça, porque hoje também tem-se outra mobilidade e consegue-se chegar aos sítios mais rapidamente e há outros meios. Agora, infelizmente, é um problema muito grave que devia haver cooperação, mas não estou a ver cooperação nem dos partidos, nem dos sindicatos, nem da Ordem.
E nesse sentido queres dar nota a quem? À ministra?
Eu dou à ministra um nove. Espero que ela melhore a nota. E dou a todas estas entidades que não cooperam para resolver um problema que os portugueses sentem como muito grave, um quatro.
Alexandre?
Concordo totalmente com a Helena, daria o nove. Só ia dar um sete às outras entidades, mas acho que sim, por que não? Por que não um quatro? Porque é verdade, e com certeza teremos ocasião de falar disto outras vezes, infelizmente, mas de facto é responsabilidade de cada uma destas entidades neste papel, porque algumas delas ficam sentadas à espera que o governo resolva todos os problemas.
Alexandre, em dois, três minutos, fica um tema pendente do nosso vencedor de ontem. Rui Tavares que ainda acredita que alguém da esquerda poderá unir a esquerda nas presidenciais. Em dois, três minutos consegues emitir a tua opinião sobre este tema?
Posso tentar. Faz sentido depois do que soubemos ontem da candidatura de André Ventura. No fim de semana passado houve o 16º Congresso do Livro, o que em si mesmo é uma coisa extraordinária. O Livro tem 10, 11 anos, 16 congressos, vai bater largamente o PSD neste ritmo. E numa entrevista, de resto, ao Observador, Rui Tavares disse algumas coisas que me pareceram um bocadinho fora da proporção e que sendo uma figura interessante intelectualmente, em termos humanos, eu tenho o maior respeito por ele, desempenha um lugar e representa um partido que eu acho que pode ser muito importante à democracia portuguesa, tal como a IL do outro lado, porque são, dito assim de uma forma muito simples, aqueles partidos com quem se pode conversar, com que cada um dos lados diz que com aquelas pessoas se consegue conversar, que não marcam logo uma trincheira e normalmente se oferecem um bocadinho ao diálogo. No entanto, Rui Tavares às vezes tem uns momentos, já não é a primeira vez que isto acontece, sobretudo, por exemplo, em debates e coisas assim, em que se torna em que muda de personagem e se torna o mais agressivo dos porta-estandartes da sua barricada política, neste caso da esquerda. Ele disse que já nem queria chegar ao PSD e ao IL, queria era vê-los pelo retrovisor e morder as canelas ao Chega, e que não percebia porque é que a comunicação social não falava do outro partido que andava a crescer, só falava do Chega. Ele estava mais ou menos a pôr em comparação os seis deputados do LIVRE com os 60 do Chega. E estava também muito entusiasmado, pois percebia por uma única só sondagem, a mesma que coloca o Chega à frente das intenções de voto e que tem vários problemas, como já sabemos, uma amostra muito pequena, mas também entusiasmado porque é a primeira que coloca o LIVRE à frente da IL. Três casas decimais numa sondagem que tem uma margem de erro de 4,1. Isto não é muito sério. Não é muito sério ficar entusiasmado com isto, nem fazer este tipo de declaração. Isto vai depois bater ao ponto que o Luís perguntava, que é: eu acho que às vezes há um certo desfasamento da realidade, talvez aqui na noção do Rui Tavares destas coisas. Ele está praticamente a oferecer-se durante esta entrevista, e penso no congresso, como uma possibilidade de líder da esquerda. Aliás, mais do que líder da esquerda, ele oferece para liderar os 74%. A sondagem dá 26% de intenções de voto ao Chega. Ele oferece para liderar, que o LIVRE pode liderar os 74% que não querem André Ventura lá. E nisto diz também que acha que ainda vai a tempo a esquerda de encontrar um candidato que una os vários partidos de esquerda para as presidenciais. Isto a três meses do ato, depois de todas as tentativas goradas com Sampaio da Nova, António Vitorino, etc. Eu não sei se o próprio Rui Tavares não se está a oferecer ao lugar.
Ele não descartou essa possibilidade.
Ele não descartou, exatamente. É isso, ele disse: "Não vou dizer que excluo, porque senão vocês vão escrever isso". Então decida-se lá. E é engraçado, porque às vezes nós dizemos, todos os dias e com razão, que o Chega é um partido de um homem só, mas o LIVRE não é diferente. É Rui Tavares. E se calhar a esquerda está órfã dessa figura que possa aparecer, eu não sei se é ele.
Então queres dar nota a Rui Tavares?
Sim, dou um nove também a Rui Tavares, porque acho que já teve dias mais felizes.
Estás pouco generoso.
Luís, quando chamaste outra vez o Alexandre Borges à conversa, eu pensei que me fosses devolver a pergunta feita há pouco por José Mourinho: "Quem é o treinador que diz não ao Benfica?" Não foi o caso.
Não foi o caso, mas vamos falar disso nas notícias às 19h. Helena, Alexandre, obrigado por terem vindo a este "Vivência Histórica", que contou também com a Geed França, como é habitual, e está de regresso amanhã, nas "Manhãs 360".