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E o Vencedor É, na Rádio Observador e também em vídeo no YouTube e nas redes sociais do Observador, hoje com a Judite de França, o Anselmo Crespo e a Raquel Lacassis. Hoje vamos falar, claro, sobre a greve geral, a transparência salarial, o acordo entre PSD e Chega para a revisão constitucional. Mas Raquel Lacassis, ainda queres rematar o tema da demografia de que falámos aqui ontem no E o Vencedor É?

Quero, porque não é novidade, mas a classe política ouve-nos. E ontem, quando saí daqui, tinha uma mensagem do líder parlamentar do CDS, Paulo Núncio, que relembrava uma proposta que saiu do recente congresso do CDS a pedir a duplicação das deduções de IRS a partir do terceiro filho. E esta é uma medida que me parece que tem resultados e que tem alguma eficácia no estímulo a que as pessoas que queiram possam ter mais filhos. De resto, é uma medida que no famigerado governo da troika foi posta em prática e foi uma das primeiras reversões do governo de António Costa, com o argumento de que isto beneficiava as famílias ricas, fato que depois não se veio a constatar e percebeu-se que tinha havido, sobretudo, um benefício para as famílias da classe média. E sobretudo, é um incentivo para que, ao contrário do que é aquilo que comumente vamos ouvindo ao longo dos últimos anos, que é quem tem mais filhos é porque quer e, portanto, não tem que ter benefícios. Esse é o estímulo errado que devemos dar neste momento e, portanto, eu achei que fazia sentido trazer aqui esta proposta, que espero que o governo aceite, uma vez que o CDS faz parte da coligação que compõe o governo.

Fica feito esse remate ao tema do dia de ontem. Um dos temas do dia de hoje, Anselmo, é o artigo da opinião de Cavaco Silva, hoje publicado aqui no Observador, em que Cavaco Silva sai em defesa do seu delfim?

Ou dos seus delfins. Nestas guerras dele, que nem a Majorona, cada um tem o seu próprio pequeno exército. E não vamos ser ingénuos e achar que Cavaco Silva escreveu este artigo nesta altura, não que ele não costume escrever artigos com alguma frequência, mas não escreveu este artigo concretamente nesta altura, sem estar a pensar, obviamente, nas críticas que o governo tem sido alvo por parte de Pedro Passos Coelho nas últimas semanas. E excelentemente, nós dizemos que Passos Coelho tem direito a manifestar suas opiniões, Cavaco Silva também tem direito a manifestar a opinião dele. Eu, aliás, achei o artigo interessante porque parece que serve para dar um apoio ao ministro da Reforma do Estado, mas, na verdade, ele serve para manifestar total e incondicional apoio ao Luís Montenegro. Só que Cavaco disfarça aquilo como ministro da Reforma do Estado, porque, na verdade, era difícil disfarçar com outro ministro. Era difícil disfarçar com o ministro do Trabalho, era difícil disfarçar com a ministra da Saúde. Por acaso, eu até acho que ele podia ter disfarçado com o ministro da Educação. Mas ele optou pelo ministro da Reforma do Estado, também porque dava jeito, que assim lembrava os seus próprios méritos enquanto primeiro-ministro, e isso é uma oportunidade que uma pessoa não pode desperdiçar.

E pode sempre citar-se a si próprio.

E pode sempre citar-se a si próprio e lembrar quão incrível ele foi como primeiro-ministro e importante para o país. E eu estou a dizer isto em tom de brincadeira, mas eu acho mesmo que Cavaco Silva, obviamente, é uma figura importante para o país e que fica na história, seguramente, da democracia como, não sei se o melhor, mas como um dos melhores primeiros-ministros que o país teve. Agora, não deixo de notar que Luís Montenegro está a precisar, de facto, de alguma barreira de contenção a esta avalanche de críticas de Pedro Passos Coelho, que é só uma pessoa, e uma pessoa consegue fazer, neste momento, mais estragos no governo do que a oposição inteira junta e do que a própria contestação ou o próprio sentimento. Acho que a greve geral não fará tanta mossa como Pedro Passos Coelho está a fazer neste momento, pelo menos ao nível do desgaste que vai provocando dentro do governo. E eu acho que isso tem uma explicação, relativamente simples. Acho que Pedro Passos Coelho consegue, de facto, uma certa identificação no eleitorado de centro-direita, que vai desde o PSD até o Chega, e naturalmente tem algum crédito ou tem um passado que justifica em grande medida que quando fala, mesmo quando fala num tom com o qual eu não estou propriamente de acordo, ou mesmo quando exagera, como eu acho que ele já exagerou algumas vezes, consegue abanar ali um bocadinho Luís Montenegro. Isso já se tinha percebido da primeira vez quando Montenegro decide antecipar as diretas e depois o congresso, numa jogada meramente tática, daquelas de politiquice que o Luís Montenegro adora. O Luís Montenegro e o Hugo Soares, parece que os estou a ver, os dois a dizer: "O que é que vamos fazer? Agora antecipamos e vamos dizer para ele vir." Aliás, há pouco estava a ouvir a presidente da comissão com o Miguel Vitor Dias.

Da primeira comissão.

Da primeira comissão. E é engraçado porque ela decorou muito bem o e-mail que o Hugo Soares mandou para os deputados todos, disse exatamente aquilo que o Hugo Soares pediu pra dizer, que é: "Não percebo porque é que Passos Coelho não vem às nossas comissões e às nossas reuniões internas." Portanto, a narrativa está toda construída, Cavaco Silva vai contribuir pra essa narrativaE ao mesmo tempo contribuir para se auto elogiar um bocadinho, acho que diz muito do impacto das palavras que Pedro Passos Coelho tem tido nos últimos tempos.

Judite.

Eu acho que Cavaco Silva faz aquele número de recordar que há 48 anos fez um artigo, depois de ter vindo de Hamburgo, fez um artigo com uma ideia, a de que os funcionários do Estado não são executores neutros da vontade dos políticos. E depois discorre sobre isso para dar palco à reforma do Estado e falar de Gonçalo Matias e falar desta guerra à burocracia, etc. Eu, por acaso, achei curioso a descrição do burocrata e da chefia intermédia, porque, de facto, o burocrata tem objetivos próprios, nomeadamente o do poder e da promoção, e portanto empola os serviços, aumenta os subordinados, isso faz sentido. E faz sentido que para ser monopolista da burocracia, reaja mal à inovação e não queira a mudança. Claro que o texto é todo ele, e Cavaco Silva faz isso bem, e eu também gostei do artigo, porque depois entra aqui numa coreografia, para citar um autor sobre os políticos que se querem manter no poder. E é a frase que qualquer leitor reconheceria como um aviso a Montenegro, mas não é, porque é precisamente por isso que Cavaco se apressa a dizer que não, que o que lhe veio à memória não foram os políticos, mas sim os tais burocratas.

Não fosse dar o caso de ser confundido ou de alguém achar que estava ao lado de Pedro Passos Coelho.

Exatamente, não, isso não, cruzo canhoto. E portanto, eu acho que depois há um protagonista que Cavaco Silva acha que não tem o direito de entrar nesta história, que é o Tribunal de Contas. E aí é muito crítico em relação à forma como o tribunal tem reagido às mudanças. E depois sai em defesa de Gonçalo Matias, que diz que já revelou possuir as ideias certas, mas depois, não sendo primeiro-ministro nomeado, fala dele como tendo inteligência, discernimento e visão de futuro para acompanhar o ministro. Portanto, eu acho que Cavaco Silva, já durante o tempo da Troika, insistiu em acompanhar reformas estruturais no mercado laboral, na saúde, na justiça, no setor empresarial do Estado. Portanto, se há coisa que não se pode acusar Cavaco Silva é de falta de coerência.

Raquel, também leste o artigo?

Também li o artigo e achei um artigo bem construído, independentemente das interpretações que já aqui ouvimos, com umas concordo, com outras. Já agora, para ir ao que o Anselmo estava a dizer, eu acho, por acaso, e há bocado estava a ouvir a mesma deputada, e antes de ela repetir a cartilha, ela deu a opinião pessoal dela. E eu acho que aquela opinião, enfim, o que nós vamos ouvindo vale o que vale. Mas eu acho que aquela opinião é muito a opinião dominante, a opinião de um certo estado de choque com o ponto a que Passos Coelho chegou no tom das críticas, reflete um bocadinho o estado de choque que eu vejo um pouco por todo o lado, até de alguns apoiantes de Passos Coelho, que agora tentam vir defendê-lo em todos os fóruns com interpretações possíveis que obviamente não têm nada a ver com o efeito que ele quis provocar. E de facto, quer dizer, se nós pensarmos, nem Sócrates, que estava zangado com António Costa e que foi maltratado por António Costa, alguma vez disse sobre o primeiro-ministro António Costa, o que Passos Coelho disse sobre um primeiro-ministro do seu partido, que aliás foi seu líder parlamentar. Portanto, quer dizer, eu acho que aquilo chocou, de facto, as pessoas e as pessoas à direita. E portanto, percebo esta iniciativa de Cavaco Silva, não sei se lhe foi pedida, se foi ele próprio, porque também recordemos que Passos Coelho e Cavaco Silva não se deram lindamente quando um era presidente da República e outro era primeiro-ministro. Quis ir longe demais nas reformas e foi Cavaco Silva que se lhe pôs ao caminho.

E já tinham tido problemas quando Passos Coelho era líder do JSD.

Certo. Mas apesar disso tudo, acho que Cavaco Silva resistiu à tentação de vir com uma resposta direta e faz um artigo bem construído, com bons argumentos, obviamente recordando a sua obra, o seu passado, até porque aquele artigo terá sido a razão pela qual Sá Carneiro o terá convidado para ministro das Finanças, imaginável. Ele não diz, mas nós supomos que tenha sido assim. Mas ele tem razão naquilo que ele diz, como tem razão em sublinhar que esta é uma reforma que está em cima da mesa, ao contrário do que se diz, que vai dar barulho, que vamos ver se vai ser aprovada. E portanto, ele achou que valia a pena, não só para defender o primeiro-ministro, mas eu acho que também para defender aquilo que ele defende que deve ser feito no país. Traz um artigo que nós podemos aqui falar sobre ele, mas que não pode ser usado manifestamente como arma de arremesso, nem sequer contra Passos Coelho. E eu acho que, enfim, apesar de tudo, mostra é um barão a sobrepor-se a outro.

Uma guerra de barões.

Outra tentativa de barão.

Que nota tens?

Eu dou um 16 a Cavaco Silva.

16. E tu, Anselmo?

Posso só dar aqui uma nota rápida? Uma coisa que a Raquel estava a dizer. Eu concordo contigo, eu acho que há muitos militantes do PSD que estão em choque com o Passos Coelho neste momento. O que eu estou a falar é do eleitorado, não é do militante laranjinha que vai aos congressos, não é esse tipo de público que eu estou a falar quando falo de Passos Coelho. Estou a falar do eleitorado que tipicamente vota centro-direita e que eu acho que se revê, não provavelmente nas expressões mais duras que ele usou, nem nessa guerrinha política entre ele e Luís Montenegro, mas revê-se sobretudo na ideia de que não está a acontecer nada.

Mas é nesse sentido que Cavaco Silva faz bem, porque vem mostrar que alguma coisa, apesar de tudo, está a acontecer.

E também por isso, não vou tão longe na nota a Cavaco Silva, mas eu dou-lhe um 13, porque eu acho que o artigo está bem escrito e, sobretudo, eu revejo-me totalmente na descrição do burocrata que ele faz.

Judite.

Exatamente por isso, o burocrata e a chefia intermédia que conseguem parar a engrenagem, dou um 15 a Cavaco Silva.

Ficam dadas as notas na primeira parte de Júvencio Soares. Amanhã é dia de greve geral, convocada pela CGTP, à qual a UGT não se junta e que poderá trazer grandes perturbações em setores como os transportes. Judite, qual é a tua expectativa para a greve geral?

A minha expectativa é de que as pessoas não consigam chegar ao trabalho. Quem quiser chegar ao trabalho não vai conseguir chegar, exatamente porque, sobretudo a área dos transportes, mas também a saúde e a educação, vão ser as áreas mais afetadas pela greve geral. Uma greve geral que cola com feriado e depois com uma ponte. E, portanto, eu acho que isso, na minha perspectiva, retira um bocadinho o âmbito. Como dizer...

A justiça da greve?

Sim, porque greves às sextas e às segundas ou coladas a feriados.

Feriados que dão ponte.

Que dão ponte. Não acho bem.

Não cai bem.

Não, não cai. Acho que caía melhor se fosse uma greve num dia a meio da semana, que não trouxesse nenhum benefício extra ao trabalhador que não fosse aquele de fazer a greve, que é o seu direito.

Anselmo.

Ora bem, eu acrescentava a este tema do timing da greve, um outro dado. É que eu hoje liguei a televisão e basicamente já vi várias pessoas em greve. Umas a manifestarem-se em frente à Câmara de Setúbal, um sindicato de todos os trabalhadores da educação, umas dezenas de pessoas aos gritos, aí em frente à Câmara de Setúbal, e pensei: "Olha, a greve se calhar é hoje, escapou-me." Não, a greve é só amanhã.

Qualquer coisa que esteve fechada ou parada por causa de uma reunião.

Sim, os transportes já percebi que tem a ver com as escalas. Mas tecnicamente os transportes entram em greve hoje, continuam amanhã e acabam quinta-feira a greve. Deve ter a ver com garantir que todos os trabalhadores, em algum momento, conseguem fazer greve.

Tem a ver com os turnos.

Tem a ver com os turnos. Mas pra mim, a maior surpresa foi ver um conjunto de trabalhadores da área da educação, presumo que não todos professores, em frente à Câmara de Setúbal. Pensei: estão a aquecer, é o aquecimento, é como um jogo de futebol, antes de entrar em campo, tem que se fazer o aquecimento.

É a primeira parte.

É a primeira parte. E portanto, a brincar, numa semana que já só tinha quatro dias úteis, esta semana pra muitos trabalhadores, na verdade, vai ter um dia útil, se teve, que foi segunda-feira, porque hoje já estavam em aquecimento, amanhã é dia de greve, quinta é feriado, sexta é ponte, sábado e domingo também não se trabalha, que são os dias do Senhor e, portanto, está feita a semana.

E pra semana mete-se o Santo António.

E pra semana mete-se o Santo António, depois vem o verão.

E 10 de junho.

E está resolvido. Concordando com aquilo que dizia a Judite, que o timing não ajuda a credibilizar isto, mas eu acho que há um dado que me faz ainda mais confusão. É que esta greve geral, e não é a única, não é exceção, é um bocadinho uma greve à la carte, que cada um pode escolher o motivo pelo qual faz greve. Em princípio, esta greve tem a ver com o código laboral e com as alterações que estão em cima da mesa, mas se vocês tentarem ouvir o discurso, não do líder da CGTP, porque esse tem muito enfoque no tema do código do trabalho, mas dos vários delegados sindicais nos vários setores, transportes, educação, saúde, que vão pululando nas televisões e nas rádios ao longo destes dias, os motivos pra esta greve são os mais variados. A determinada altura, podemos escolher fazer greve porque está muito vento e, portanto, achamos que está errado, ou podemos escolher fazer greve porque hoje este sindicato de todos os trabalhadores se chama Sindicato de Todos os Profissionais da Educação. Não sabia que existia um sindicato.

É o STOP, não era?

Exatamente, é o STOP, o famoso STOP. Os argumentos para levar a cabo esta greve tinham a ver com a indisciplina nas escolas. É um problema grave, e eu percebo, de fato, eu não estou a desvalorizar o problema. A indisciplina nas escolas, a falta de condições, infraestruturas das escolas pra dar aulas e pra trabalhar, a falta de pessoal também era um problema e por isso também justificava a greve e, portanto, a determinada altura, cada um pode escolher o seu motivo pra fazer greve e faça. No fim do dia, a conclusão é a mesma da última greve geral, que é: na verdade, nós estamos a ouvir nas televisões todos os dias, as pessoas que estão a fazer greve são sobretudo funcionários públicos, a quem dificilmente se aplicam a maior parte das alterações que estão em discussão neste código laboral. O banco de horas. Hoje ouvi a Joana Bordalo e Sá, sempre muito indignada.

A FNAM.

E vi-a pela primeira vez, acho que já há muito tempo, fora de uma videochamada. Esta semana era uma semana especial e, portanto, ela achou que fazia sentido aviar as televisões todas em frente a um hospital, a debater, a dizer que este código laboral era péssimo para os médicos por causa do banco de horas. E eu pensei: "Ela está a falar de quais médicos? Do banco de horas? Então, mas é para os tarefeiros que decidiram sair do Estado e ir faturar horas à conta do Estado? É para esses que ela está a falar? Ou está a falar daqueles que operam ao fim de semana, que é para poder ganhar em dobro e em triplicado? É para que médicos é que Joana Bordalo e Sá está a falar e a apelar para que façam greve contra o banco de horas, por causa de um banco de horas que prevê mais duas horas por semana?" Porque eu admito que haja setores, no público ou no privado, para quem isto possa ser sujeito a discussão. Mas para os médicos, a sério? Ela está preocupada com o banco de horas nos médicos? E, portanto, a credibilidade desta greve geral, para mim, é nenhuma, porque ela, na verdade, existe porque sim. O pretexto é o código laboral, mas para a CGTP isto foi só um pretexto para poder justificar mais uma greve geral. E se calhar ainda vamos ter muitas daqui para frente, que ainda vamos ter vários meses a debater o código laboral.

Eu gostava de saber, para não repetir aqui as várias coisas que foram ditas.

Várias coisas que foram brilhantemente ditas.

Brilhantemente ditas, mas particularmente a ocasião, a véspera do feriado, que acho, de facto, sempre uma coisa extraordinária, porque é que estas greves são sempre marcadas à sexta-feira ou à véspera de feriado. Mas para não repetir, eu vou dizer o que eu gostava de saber. Eu gostava de saber, amanhã, depois de amanhã, daqui a uma semana, quantas pessoas efetivamente fizeram greve. E isso nós nunca sabemos.

Nunca.

Eu gostava de não passar o dia de amanhã a ouvir o governo a dizer que o país está a bombar e nós andarmos na rua e não vermos ninguém na rua. É que é assim, para quem já é jornalista há 30 anos, nós já vimos este filme tantas vezes, esta conversa, e já sei o que é que vão ser os noticiários amanhã.

Qual greve? Amanhã, depois de amanhã.

Qual greve? Conferências de imprensa a dizer que foram 90% e outras a dizer que são 20%, e que afinal a greve está a ser uma desgraça e os outros que está a ser um sucesso. E eu gostava de ver, pela primeira vez, os números desta greve. Eu acho que nós nunca vemos. Isto é uma agitação durante dois dias e depois nós nunca sabemos. Porque é assim, as pessoas não vêm trabalhar porque não há transportes. Nos próprios transportes deve haver muita gente que não faz greve, mas simplesmente o senhor do metro não pode ir trabalhar porque o metro está fechado. E os comboios não podem funcionar porque se não há um funcionário, o pica-bilhete já não pode funcionar o comboio. E era importante mesmo, eu acho que para o país, deixarmos de conversas e de conferências de imprensa e de proclamações, e sabermos os números. E eu não percebo por que nós nunca sabemos os números da greve. E gostava, sobretudo, de deixar este apelo.

Não sei se alguma vez se saberá.

Não, mas é assim, as pessoas que fazem greve têm que pré-avisar que fazem greve.

Não.

Não têm?

Não. Têm depois o registo, até a falta justificada.

Não!

A pessoa não tem que avisar.

Supostamente, quem faz greve não ganha aquele dia de ordenado.

Tu só sabes depois da greve.

Porque a pessoa disse que fez greve.

Mas é depois, não avisa antes.

Porque faltou.

Não, mas tudo bem. Mas para a semana toda a gente já sabe quem é que faltou porque fez greve e quem é que não faltou. E isso era importante saber-se. E esse é o número que nós nunca sabemos.

Sendo a falta justificada. Imagina que tu não consegues ir trabalhar.

Não, mas a pessoa tem que dizer à posteriori se teve greve.

Ou se esteve doente.

Não recebe aquele dia de ordenado.

Não. A falta está justificada. Só. Então, somente. Isso é a aprovação da greve.

Não, isso é uma aprovação completa, porque então é impossível saber se a greve é um sucesso ou não.

Sim, é impossível. É como os ciclos das colheitas, ninguém sabe quem é que faz.

Mas um dia de greve é considerado falta justificada?

É, exato.

Olha, já aprendi uma coisa hoje.

Não remunerada.

Não remunerada.

Mas se a pessoa diz: "Não fui trabalhar porque não tinha condições."

Isso é outra coisa.

Isso é outra coisa.

Se calhar pode-se ir pelo contrário.

Agora é preciso fazer esse levantamento a nível nacional.

Esse levantamento, quem é que não ganha o ordenado naquele dia? Eu gostava de saber.

Pois sim, porque quem estiver doente está de baixa, não se aplica.

Eles se quiserem trabalhar e não deixarem.

A não ser que a inteligência artificial nos ajude, acho que nunca vais ter essa resposta.

Mas eu também não percebo porque é que o governo não tem instrumentos para conseguir saber isso.

Acho que em tempos houve uma tentativa de centralizar essa informação. Não sei se no governo do António Costa. Eu lembro desse debate e acho que nunca deu em nada, porque os números continuam a não bater certo.

Sim. Já sabes que para o universo sindical a adesão vai ser superior a 90%?

Isso já sei, a notícia amanhã, 90% de adesão.

Citando Raquel Vercissis: "Está tudo a bombar."

Está tudo a bombar.

Querem dar nota?

Não.

Não? Está bem.

Eu dou um seis a este saco mal-amanhado de justificações para uma greve que, na verdade, me parece que vai ser mais uma greve da administração pública do que propriamente uma greve geral. Mas acho que os sindicatos metem tudo para dentro de um saco, abanão bem, despejam cá para fora e depois aquilo é faço greve porque sim.

Eu passo.

Passas. Pronto. E se houver um especialista em direito do trabalho, faz favor de entrar em contacto aqui com o "E o Vencedor É?", para ver se dissemos tudo direitinho.

Talvez uma dessas faculdades de economia pudesse fazer essa contabilidade. Eu gostava muito de saber.

Esdrite, ainda queres falar da transparência salarial?

Quero, porque há um mito à volta desta diretiva da transparência salarial. Não sei por quê, mas espalhou-se esse mito de que os trabalhadores iam ter acesso ao salário dos colegas. Não vão, não é essa a ideia.

Ah, não?

Não.

Então qual é o interesse disso?

O interesse disso é outro e é um interesse interessante. Passo o pleonasmo. Interessante e importante.

E importante.

Se tiver resultados.

Que é saber a média do que ganham as pessoas que fazem o mesmo trabalho, separada, portanto, desagregada entre homens e mulheres. Ou seja, continuas sem saber quanto é que ganha o colega do lado, mas, em média, os homens ou as mulheres, vamos perceber quem é que ganha mais na mesma função. E enfim, a princípio, já sabemos, mas isso vai ficar claro, vai ficar transparente.

Não é como os números da greve.

Não é como os números da greve.

E passa a ser obrigatório as empresas terem que apresentar as suas...

Passará, porque ao contrário daquilo que era suposto, não vamos ter transposto a diretiva até dia sete, que era isso que era obrigatório. No setor privado, fica tudo na mesma até que a diretiva seja transposta. Curiosamente, por causa da transposição, só uma nota: nós somos o país que está no grupo dos que mais se atrasam a transpor diretivas europeias. Já foi aberto um processo.

Os espanhóis são piores ou não?

Nós já temos um processo por causa de outra diretiva laboral que foi esquecida. Mas isto para dizer que Portugal arrisca-se a pagar uma sanção por não ter aprovado a tempo a lei que serve precisamente para garantir que ninguém é pago a menos do que merece. Tem alguma graça.

Queres dar alguma nota?

À própria diretiva, quero dar um 15.

Ainda tens aqui três minutinhos, Raquel, para falar do acordo entre PSD e Chega para a revisão constitucional.

Começo já pela nota, quero dar um 18. Como se diz aqui num spot desta rádio, aos políticos que nos proporcionam isto tudo. Porque eu acho que este acordo, que foi hoje conhecido entre o Chega e o PSD no Parlamento, mostra a peça de teatro em vários atos em que nós estamos a viver e iremos viver nos próximos anos enquanto tivermos este sistema tripartido. E portanto, mostraram como é que Hugo Soares e André Ventura hoje decidiram dançar a valsa de uma forma quase perfeita, de tal forma que cada um saiu vencedor à sua maneira. André Ventura apresentou um projeto de revisão constitucional com imensa emergência, que tinha que ser já. Fez várias conferências de imprensa a dizer que tinha que ser já. O PSD foi dizendo, ao mesmo tempo que ele ia dizendo que tinha que ser já, ia dizendo: "Sim, sim, lá mais pra frente." E agora, quando tinha afinal que ser já, porque estava apresentado e há prazos para os restantes partidos apresentarem a sua proposta, o Hugo Soares chamou o André Ventura e explicou: "Repara, não vai ser agora, tem que ser depois." E o André Ventura disse: "Ah, está bem." E portanto, saíram cá para fora, cada um reclamando a sua vitória. O PSD vai juntar-se, não teria outro remédio com o processo de revisão constitucional aberto, todos os partidos têm que se juntar. E o PSD, por seu lado, conseguiu aquilo que queria, que é na segunda metade da legislatura e, portanto, acalma-te lá, André Ventura, que não vai ser já.

Tens uma nota para a peça?

Já dei, 18.

Ah, 18, sim, tu começaste pela nota, eu fiquei confuso. Obrigado, Esdrite França, Anselmo Crespo e Raquel Lucas. Amanhã há mais "E o Vencedor É?" nas manhãs 360. A Helena Matos junta-se ao Jamil Fernandes, ao Paulo Ferreira e ao Bruno Vieira Amaral.