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Ilvo Henriques na Rádio Observador e também em vídeo no YouTube e nas redes sociais do Observador, hoje com a Judite França, Helena Garrido e o Nuno Gonçalo Poças. E na próxima hora vamos discorrer sobre assuntos tão variados como José Luís Zapatero, investigado por branqueamento de capitais, as expectativas criadas pelos beneficiários dos vistos gold, também a alfinetada da Ministra do Trabalho ao Presidente da República. É claro, também aproveitamos, por que não, para falar um pouco sobre a lei laboral. Mas começamos, Judite, pela moção de recandidatura de Luís Montenegro, moção que a Judite França leu e digeriu.

Veio acompanhada-

De batata e arroz

Eu fiz uma pausa exatamente para tu dizeres um disparate, mas veio acompanhada de mais de 3 mil assinaturas.

Estás em alta consideração, sempre.

Ficas a saber que é o dobro do mínimo exigido para subscrever a candidatura a direitas.

Não esperava outra coisa.

Exatamente. E a moção chama-se Trabalhar, Fazer Portugal Maior. Estabelece, num cenário sem eleições à vista, claro, o slogan do deixem o Luís trabalhar com o Portugal Maior de Cavaco Silva, faz aqui um mix. E a moção deixa clara a recusa de qualquer acordo de governação com o Chega ou com o PS. Diz que o PSD será fiel ao seu compromisso de não ter uma solução de governo nem com o Chega nem com o PS, mas depois deixa uma nuance importante, que é não estabelecer um acordo de governação não pode nem deve significar a rejeição de diálogo e negociação política. E ainda acrescenta que considera absurdo falar de cercas sanitárias no Parlamento. Também pudera, porque de outra forma não era possível sequer prosseguir a governação se não fosse desta forma. O horizonte político desta moção é de maio, junho de 2028. Vale o que vale, tendo em conta o cenário em que estamos. Se o calendário não sofrer interrupções, só haverá eleições regionais nos Açores no outono de 2028. E depois, então, 2029 é aquele ano que tem europeias, legislativas, autárquicas e regionais. Como o governo pode não durar, Montenegro mostra-se preparado, mas há uma coisa que mostra nesta moção, é que há algum cansaço. Não há propriamente nada de muito entusiasmante nos temas programáticos que apresenta. Por exemplo, defende investimentos urgentes na ferrovia, mas enfim, não tem nada de muito extraordinário em relação àquilo que nós conhecemos, e não tem nenhuma reforma na manga. Portanto, se a reforma laboral não funcionar, não me parece que venha nada por aí nos próximos tempos.

Helena, sentiste-te galvanizada com este suspiro?

Muito. É um documento de sonhos, não é? De sonhos, objetivos, muitos objetivos para depois... Mas eu confesso que aquilo que me está a chamar mais a atenção, e admito que se calhar abusivamente, vou fazer uma interpretação que admito que possa ser abusiva.

São as melhores, Helena. São as melhores.

São as melhores, exatamente. Admito que Luís Montenegro está a seguir conselhos de Pedro Passos Coelho. Ou seja, quando ele diz, não na moção, mas ontem, segunda-feira foi ontem: "Vamos forçar a decisão, os partidos e os políticos vão ter de se revelar no momento de votar as transformações." Isto faz um pouco lembrar aquilo que Passos Coelho ainda em fevereiro recomendou, nomeadamente quando um governo não tem maioria e precisa de apoio para as reformas, só pode confrontar o eleitorado. E nesse contexto, o que Passos Coelho nessa altura recomenda é que se isso lhe for negado pelo Parlamento, tem de apresentar as propostas. Lembram-se desta tese de Pedro Passos Coelho? Se não andar com elas pra frente, não é possível dizer: "Não me deixam fazer o que eu quero." E Luís Montenegro tem mostrado ultimamente, quer na legislação laboral, quer agora com a proposta do Tribunal de Contas, que está disposto a ir pra frente e, como ele diz, os partidos da oposição que se revelem. Isto parece-me ser, além das cercas sanitárias, que parece que acabou, não é não, e o fim das linhas vermelhas, parece-me existir aqui alguma convergência, diria eu, em relação àquilo que Pedro Passos Coelho pensa.

Nuno.

Falta-lhe um Danoninho.

Falta qualquer coisa.

Pois, é o Danoninho. Ontem saiu a revista do Observador.

É verdade.

A revista de aniversário, e tem aquela pergunta na capa que é: onde está o líder da direita? E depois eu vi as notícias da moção à noite.

À qual tu respondes, não é? Num ensaio.

Não, eu não respondo a nada.

Num ensaio.

Num ensaio? É um ensaio.

Sim, mas daí a ser uma resposta.

Se calhar os ouvintes vão comprar a revista.

Vão querer ver, mas isto é suspense.

Qual é a resposta?

Isto é suspense. E depois vi as notícias à noite da apresentação do Luís Montenegro, da moção e não sei o quê, e disse: "Ah, queres ver que é ele?" Não, não é. Porque continua a faltar esse pedacinhoQue é...

Alma.

Não sei se é só alma, parece tudo sempre bastante plastificado. Tu estavas a dizer que recupera aquele slogan do Portugal Maior, das presidenciais de 2006. Mesmo a ideia do "deixe o Luís trabalhar" também remete para o cavaquismo.

Sim, claro.

O "deixe-me trabalhar". Portanto, tudo aquilo remete para imaginários que não são dele. E a pior coisa que pode acontecer a um líder político é não ser original. Que é um bocado aquela coisa que se dizia nas faculdades antigamente, que as suas ideias ou são originais ou são boas, e as que são originais não são boas, e as que são boas não são originais. E o Luís Montenegro padece um bocadinho disso. Portanto, fica-lhe sempre a faltar qualquer coisa. Eu percebo, de facto, aquilo que a Helena estava a dizer, que nos últimos tempos tem sido ensaiada um bocadinho essa estratégia. "Agora, nós temos mesmo vontade de fazer coisas e temos aqui isto, isto e isto, e agora vamos pôr os outros todos à prova." E, na verdade, é a isso tudo que isto soa. A questão é que aquilo que me parece que passa para o público, pelo menos para mim, é que tudo isso parte de um princípio de tática político-partidária para preservação do poder e não propriamente uma vontade factual de fazer essas reformas. E, portanto, as reformas são utilizadas não como um fim em si mesmo, mas como um modo de, no fundo, encostar os outros à parede para levar o país a eleições. E, de facto, aquilo que se concluiu ontem não é que Luís Montenegro seja o líder disto ou daquilo ou do outro, é o primeiro-ministro em funções e está mortinho para que haja eleições outra vez, que é, na verdade, aquilo em que nós andamos há dois anos, que é agora aquela tese do 85, 87. Temos uma maioria relativa, depois vamos despir um bocadinho até termos finalmente a maioria absoluta. A pergunta que fica sempre no final é: para quê? Ainda ninguém percebeu.

Mas esta moção dá latitude, dá margem suficiente para ir adaptando a governação. Portanto, também não se compromete, não coloca balizas.

Lá está. Porque o objetivo que está por trás daquilo é manter o PSD no governo. Não é outra coisa. E pra mim é um bocado indiferente se o PSD está no governo, se é o PS, se é o Chega, se é o Bloco, se é não sei o quê. Em função dos programas que cada partido tenha, é importante é que façam ou pelo menos que sejam objetivos naquilo e claros quando transmitem uma mensagem às pessoas daquilo que de facto querem fazer, depois nós escolhemos. A dificuldade maior, que eu acho que hoje em dia muita gente tem, é de facto nós olharmos e, tirando o Bloco e o PCP, por razões óbvias, e se calhar por isso é que também são tão amplamente rejeitados, mas depois olhamos para os outros, para aqueles três primeiros que estão ali mais ou menos empatados, e toda a gente fica sem perceber muito bem o que eles querem, a não ser chegar lá.

Então, Helena, como é que se compreende que a falta de um sonho, vou chamar assim, a falta de um sonho para o país ou a orientação para um sonho, seja premiada nas urnas?

Não está assim muito premiada. Eles estão ali, e este pode ser também algum desespero em termos gerais, porque as sondagens revelam, apesar de todos os esforços, que o PSD não descola. Andamos aqui nos empates, um acima, o outro abaixo, e nos empates com o PS. Não consegue descolar, não conseguiu descolar. É que Montenegro parece mesmo ter o sonho de Cavaco. O sonho de repetir Cavaco.

Mas eu quando era miúdo sonhava ser o Maradona. E não dá.

Mas parece que não desistiu.

Fica gordo e cabeludo, mas foi o que se arranjou.

Ainda bem que não foste ao resto.

O resto não conseguiste.

Ainda vai para ele.

Por quê? Ai, não sei.

Não teve uma boa vida.

Não teve um bom fim.

O Diego Armando.

Exatamente.

Era melhor outra coisa. Querias ser o Cristiano Ronaldo, não é?

Não, porque o Ronaldo é da minha idade. Não tive.

Mas para dizer o seguinte: de facto, desde a primeira hora que parece que Montenegro quer muito repetir a façanha de Cavaco Silva.

Mas Cavaco tinha um sonho para o país.

Tinha. Pelo menos demonstrou que tinha não só um sonho, como capacidade de execução. Depois, uma segunda questão, independentemente de nós podermos considerar que este governo está mais preocupado em manter-se no poder do que propriamente em fazer reformas, e pode ser, como dizem os economistas, a sua função objetiva pode ser manter-se no poder e não fazer reformas. Independentemente disso, eles parecem não ter capacidade de execução. E essa, pra mim, é a maior das perplexidades, porque se há coisas que dependem da oposição, há coisas que não podem depender da oposição, não dependem da oposição. Aliás, vocês lembram-se quando o governo entrou em funções e não tinha maioria, fizeram-se muitos exercícios sobre como é que um governo consegue governar sem precisar da oposição. E há muita coisa que se pode fazer. Há muita simplificação de procedimentos que eu estou em crer que não é preciso ir à oposição. Vão se abrindo frentes de batalha, agora com o Tribunal de Contas, agora com a legislação laboral, e não se consegue ver absolutamente nada e os problemas parecem que se mantêm. Estamos sempre a falar da mesma coisa. Agora é o aeroporto. Estamos sempre a falar do aeroporto, há não sei quanto tempo, das filas do aeroporto e das filas na saúde. Só há um aspecto que parece ter melhorado, que é a educação, mas de resto, os temas são recorrentes. Parece que estamos sempre a falar da mesma coisa.Eu não sei se é, se calhar são as duas coisas, a vontade de se manter no poder e lamentavelmente isto pode significar mais um tempo perdido para nós.

Judite.

É essa necessidade ou vontade de se manter no poder, mas também uma fraca performance nessa questão reformista do país que diz ter. Eu percebo, não podemos elidir o fato de não ter maioria absoluta e, portanto, estar constantemente a ser travado no Parlamento. Isso temos que admitir que é uma dificuldade muito grande. Mas como tu dizes, há matérias que não precisam de ir ao Parlamento, portanto, há matérias que podem ser da responsabilidade do governo, ponto um. E ponto dois, tem que haver uma capacidade, se não há maioria, tem que haver capacidade de negociar. E também não há capacidade de negociar.

Ou de propor, porque também não propõe.

Tem proposto a legislação laboral, o Tribunal de Contas, as alterações do Tribunal de Contas. Depois há promessas em relação à simplificação dos licenciamentos, que é um estrangulamento fundamental, mas leva tudo muito tempo. É isso que é um bocadinho incompreensível.

Basta pensar na história do IVA da construção.

Exatamente. Do IVA da construção, que parou a construção.

Exato. E que teve meses, meses e meses.

Claro, aquilo é como a desvalorização de uma moeda, não se anuncia e faz. Agora, o contra-argumento de quem defende o governo é: não havia outra hipótese, alterações em matéria fiscal têm de ir ao Parlamento. Mas se calhar podia-se ter feito mais depressa. Aparentemente anda tudo muito devagarinho.

Fica a sensação que têm muito medo de perder ou não? De ir a jogo e perder.

Têm, porque eu acho que esta geração de políticos que está no poder neste momento foi criada politicamente ou partidariamente a ganhar eleições para a concelhia e a ser eleitos vereadores e a ganhar distritais e a coordenar sacos de votos e coisas do gênero. Portanto, na verdade, é o que eles sabem fazer. Depois há uma série de membros do governo com melhores intenções, mais capacidades, etc. Há sempre algumas exceções que confirmam esta regra, mas como os ministros, eu insisto sempre neste ponto, os ministros não têm política própria. O governo tem política e quem coordena tudo isto é o primeiro-ministro. Nós temos um regime que funciona como uma espécie de chancelaria do primeiro-ministro. E, portanto, é dele que se espera tudo isso. Desde António Costa, eu acho que essa é talvez a maior frustração de todas, que é o primeiro-ministro António Costa chegou a um estado de saturação, deixou-nos a todos num estado de saturação coletiva e precisamente com essa percepção de que isto era só uma espécie de administração do quotidiano e do controle de narrativas para inventar coisas que afinal não existiam. E a frustração maior é perceber que o governo mudou há dois anos, mudou para um partido diametralmente oposto e as coisas não mudaram quase nada, com uma agravante, e nós andamos nisto há muitos anos, que é uma deterioração permanente das instituições, da confiança das instituições, da credibilidade. E de facto não é muito simpático.

Vamos a notas?

Para o Luís Montenegro?

Para a emoção.

Para a emoção.

Para a vida, para o que tu quiseres.

Não, para a vida não, não vamos pôr tudo no mesmo saco. Um sete. É assim, nem tira, tira, nem mete, mete.

E Helena?

Eu um nove para ir à oral.

Judite.

Eu vou dar um 10 a esta emoção.

Vamos agora falar sobre José Luis Zapatero, que está a ser investigado por branqueamento de capitais e se diz inocente. Vamos também às expectativas criadas pelos beneficiários do visto gold, mas Helena, começamos pela alfinetada da ministra do Trabalho ao presidente da República, que no fundo a ministra veio dizer que António José Seguro durante a campanha deu a mão à UGT para a UGT-

Não era o que ele queria.

Fazer o que fez.

Exatamente, mas dizendo que não era exatamente o que o presidente queria, ou o candidato a presidente, não responsabiliza, não era exatamente isso que queria, mas acabou por empoderar a UGT. Eu penso que à ministra isto estava a lhe a correr tão bem, ou pelo menos melhor do que correu o lançamento da reforma laboral antes do verão do ano passado, que a ministra acabou por se envolver aqui em mais uma polêmica, e abrir aqui mais uma frente, agora de batalha com o presidente da República. Por que ela não deixa essas análises aos comentadores e analistas, como toda a gente diz, que há muitos hoje, e que podem perfeitamente fazer esse tipo de análises? Por que caiu na tentação de analisar o efeito da declaração do candidato?

De dar uma alfinetada, no fundo.

Exatamente. Por que caiu nessa tentação?

Porque emendaram. Porque nenhum ministro faz uma declaração contra o presidente da República sem o beneplácito do seu primeiro-ministro. Digo eu.

Achas?

Acho.

Olha, aquilo que não sei, eu não tenho assim tanta certeza que existe essa coordenação.

Achas que não pode ser isso?

Acho que isto não saiu, acho que isto estava preparado. Empoderar a UGT, acho que toda a declaração em si estava preparada. A ministra queria dizer aquilo, e para dizer aquilo, eu acho que o disse com o incentivo do primeiro-ministro.

Eu diria que então é ainda mais grave. Mas qual é a utilidade de se abrir uma frente de combate com o presidente da República e não tentar desvalorizar? O acordo não se fez, isso é passado. A partir de agora, entrou-se num novo patamar, como ela tem dito nas entrevistas, entrou-se numa nova fase. Ela tem dito isso nas entrevistas, por que estar a dissecar o que se passou? Qual é o interesse do ponto de vista de quem é ministro e de quem é político? Não há interesse nenhum. Para nós há, para nós que andamos a analisar e a comentar, há sempre interesse nisso, a dissecar o passado. Mas para ela, e se tem o beneplácito do primeiro-ministro, eu não consigo perceber a utilidade.

É que tem o beneplácito, não me passa pela cabeça de outra forma.

Eu acho que tu estás a sobrevalorizar capacidades.

Lamentavelmente, sou da tua opinião.

Não, acho que estás a sobrevalorizar capacidades. Mas percebo o argumento e, portanto, dita uma coisa destas, de duas, uma: ou o primeiro-ministro se cala e corrobora, ou então vem dizer: "Não era bem isso, o importante daquilo era que o presidente não queria, de facto, trazer aquilo, foi um desabafo." Uma coisa qualquer desse género. Sobre essas declarações da ministra, estava-me a lembrar uma entrevista aí dos anos 80, alguns no início dos anos 80, final dos anos 70, em que o Francisco Lucas Pires à Maria João Vilas diz que já naquela altura havia demasiados políticos que gostavam de ser jornalistas e demasiados jornalistas que gostavam de ser políticos. E nós continuamos mais ou menos na mesma, agora já não é bem jornalistas, é comentadores ou qualquer coisa assim do gênero. E, portanto, há sempre esta necessidade de marcar a agenda, dizer qualquer coisa, fazer uma interpretação, fazer não sei o quê. Nós mercantilizámos imenso o país.

E esse é bem o caso dela.

Acho que sim. Tive aqui uma opinião. A minha opinião é esta: o presidente não teve má intenção e, portanto, eu acho que a ideia não teve má intenção. É deixar-me lá pôr aqui para uns quentes, que é para não gerar aqui um sururu, mas ele de facto veio aqui chatear isso e não sei o quê, deu aqui respaldo à UGT e tal. Não me interessa nada.

Eu acho que isto tem o incentivo do primeiro-ministro e, portanto, tenho uma leitura ligeiramente diferente. Ou seja, eu acho que o primeiro-ministro quis mostrar ao presidente da República que está um bocadinho aborrecido.

E queres deixar alguma nota?

Vou deixar ao primeiro-ministro aqui um nove, porque acho que de facto é uma frente que ele não devia abrir, pelo menos para já.

Helena?

Eu deixo à ministra um nove.

Pois é dia de noves.

Eu acompanho, sim, a ministra.

Acompanha o nove.

Helena também quer falar sobre as expectativas criadas pelos beneficiários dos vistos gold?

Sim, embora isto não há muito a fazer. Mas o governo vem ou está a desresponsabilizar-se daquilo que se está a passar com os vistos gold, nomeadamente com os investidores que estão enquadrados pelos mais recentes vistos gold e que fizeram aplicações, nomeadamente em fundos de investimento que têm um determinado prazo de maturidade. E o governo, o que vem dizer é que não tem responsabilidades em relação às expectativas comerciais que foram criadas, ou seja, atira as responsabilidades para quem criou essas expectativas, eventualmente aos investidores, afirmando que os vistos gold nunca tiveram como objetivo a atribuição da nacionalidade, mas sim a autorização de residência para investimento. Primeiro, os vistos gold tiveram o objetivo de nos tirar a corda da garganta quando, na troica, em 2011, começamos a ter dificuldades de acesso ao financiamento. Tinha um racional, tinha uma lógica enquanto política pública, já devia ter acabado há muito tempo, nunca acabou, nunca tivemos coragem de pôr fim, fomos só fazendo umas alterações. Mas a partir do momento que eles existem, e está aqui o Nuno, que é jurista, eu não sou jurista, mas há uma coisa que todos nós aprendemos, que é o princípio da não retroatividade da lei. O que está aqui em causa é que se alteraram as regras com efeitos retroativos e isso tem impacto na imagem do país, tem impacto na confiança que o país pode ou não transmitir aos investidores internacionais.

Mas o governo não tem razão aí a dizer que ninguém prometeu a nacionalidade em troca do prémio?

O que se sabia era que, com o visto gold, o governo vem dizer: "Não, o que nós dissemos, isto é autorização de residência se investirem X." Mas passado cinco anos, todos sabiam que podiam ter acesso à nacionalidade. Passado cinco para 10, não. Para os processos que estão a decorrer, eu não estou a dizer que o governo não tem toda a legitimidade de alterar daqui pra frente. O problema não é ter alterado, o problema é ter alterado com efeitos retroativos.

Porque se aplica aos novos pedidos de nacionalidade.

Àqueles que começaram há cinco anos, ou há quatro, ou há três, ou há dois.

Não conta essa contagem, aquele que está cá há quatro anos.

Tudo aquilo em que o governo tem mexido ultimamente, ou em muitas coisas, nomeadamente em matéria fiscal

Com algumas decisões, inclusive do Tribunal Constitucional, a vir embaralhar muitas contabilidades, nomeadamente com a questão dos residentes não habituais que vimos há uns dias.

Ainda na outra dia falamos disso.

E relativamente à questão da lei da nacionalidade e estas coisas todas das leis migratórias, a sensação que existe neste momento na comunidade jurídica, se posso partilhar convosco, é de um ponto de interrogação muito grande e de muita dificuldade em explicar às pessoas com o que é que podem contar.

Exatamente.

Ou seja, há um grau de imprevisibilidade e de insegurança jurídica que não é suposto existir. É suposto que as coisas sejam claras e que os clientes quando nos perguntam qual é que é o plano, que ele seja previsível e duradouro. E portanto, por isso é que há um princípio de não retroatividade, esse tipo de coisas. Isto é um bocado sonso, porque é claro que o governo não tem de superar-

Para juntar lá escrito

...claro, as pessoas dizem: "são expectativas comerciais das pessoas." Não são expectativas comerciais, os vistos gold eram autorizações de residência para casos de investimento e não era só no caso imobiliário, porque muitos deles ainda se mantêm, de investimento em arte, por exemplo.

Em cultura, uma série de fundações que foram criadas.

Uma série de fundações, de organizações que estão a sobreviver e a aumentar capital, até humano, relativamente a isso, para criação de postos de emprego, etc. Mas não há uma expectativa comercial, há uma expectativa que era legítima e que tinha fundamento na lei, que é aquela autorização para residência ao fim de X tempo, concede o direito a pedir.

Se a pessoa quiser.

Exatamente, se quiser. E portanto, parece um bocado sonso e face a tantas dúvidas que têm existido neste momento relativamente aos requerentes de visto gold antigos, aquilo que o governo devia vir dizer era clarificar, ou seja, era tirar todas as dúvidas, para que isto não fique mais uma vez entregue à procrastinação e à lentidão dos tribunais.

Vai aumentar a litigância no meio disto, porque são pessoas com poder de compra.

Já há uma ação coletiva.

Exatamente.

Sim.

Então queres deixar uma nota, Helena?

Eu, em relação a esta matéria, tenho de deixar um seis, porque o governo devia ter resolvido isso na altura. Admitiu-se que podia ter sido um erro na formulação da legislação. Isso não foi corrigido e não se consegue perceber o que é que se ganha com isto.

E o Nuno, enquadrando, ainda quer falar sobre José Luis Zapatero.

Quero. E sobre Espanha em geral.

Queres enquadrar?

Quero. Primeiro dar aqui o enquadramento, que não é a área da minha especialidade, se é que eu tenho alguma. Mas é um tema que eu acompanho com alguma regularidade. Tenho dois amigos que costumam vir cá, o Hugo Salcevá e o Diogo Noivo, que se dedicam muito aos temas aqui do país vizinho e eu aprendo bastante com eles e conversamos bastante sobre isso. E de fato, Espanha está numa espécie de pântano institucional, até da própria soberania e da integridade do Estado, que começa a ter uns contornos muito complicados. O José Luis Zapatero, que foi primeiro-ministro, foi presidente

Do governo espanhol, sim.

Foi presidente do governo espanhol há uns anos. Foi agora constituído arguido num processo da companhia aérea que se chamava Plus Ultra. Foi uma companhia que foi resgatada pelo Estado, pelo governo de Pedro Sánchez, durante a pandemia, um negócio de salvo erro de 53 milhões, que foi resgatada com recursos públicos e, portanto, a justiça espanhola, segundo eu percebi, porque durante a tarde têm surgido muitas informações e muitas declarações sobre isto, mas parece que a denúncia vem da Fiscalía General e suspeita que o tal resgate à companhia aérea tenha servido para branquear capitais e portanto, o ex-primeiro-ministro, que é para Espanha, nós somos sempre nestas coisas um bocadinho mais inovadores. José Luis Zapatero é, salvo erro, o primeiro primeiro-ministro espanhol que está indiciado por suspeitas de branqueamento, tráfico de influências, organização criminosa e branqueamento de capitais. E eu não diria que seja uma coisa propriamente surpreendente. Este PSOE, e quem tem ouvido ou lido Felipe González, também primeiro-ministro histórico, uma grande figura da transição democrática espanhola, e a sua posição face a este PSOE, percebe claramente que isto é toda uma outra coisa. Enfim, todos os casos de corrupção que envolvem, direta ou indiretamente, o primeiro-ministro, os seus número dois, três, quatro, cinco, seis, a mulher, a família, o sogro, o irmão.

Esta companhia aérea também aparece nesses processos.

Sim, exatamente.

Que envolvem o número um, número dois.

Sim, são muitas coisas de uso indevido de recursos públicos, é quase o "bafon" espanhol, que inclui até prostitutas nomeadas para cargos, etc. Enfim, é uma coisa horrível que está a acontecer aqui ao lado e eu acho que nós continuamos a não lhe dar a atenção necessária. Eu tinha pensado dar uma nota negativa a tudo isto, mas eu acho que é tão assustadoramente perigoso para todos nós que acho que me vou escusar a dar uma nota.

Terminas sem nota?

Sim.

Está bem.

Porque acho preocupante.

Fica a nota da tua preocupação.

Obrigado.

Com Espanha. E amanhã há mais.

Até amanhã.

E o Vence Doré nas manhãs 360, depois das 08h30. Amanhã com o Paulo Ferreira, o José Manuel Fernandes, o Bruno Vieira Amaral e o Miguel Santos Carrapatoso.